A sede brasileira por sangue venezuelano.
por Felipe Melo
O governo venezuelano tem mostrado há semanas, de maneira claríssima e indisfarçável, o seu verdadeiro caráter. O regime comandado por Nicolás Maduro tem utilizado todo seu aparato oficial e extra-oficial de repressão sem nenhum pudor: a Guarda Nacional Bolivariana – que é uma filha diletíssima da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana – tem atuado de maneira sanguinolenta na contenção dos maciços protestos populares; grupos paramilitares – como os coletivos La Piedrita e Tupamaros –, treinados e armados pelo regime bolivariano, espalham o terror em ataques móveis, atirando a esmo contra os manifestantes e executando-os a sangue frio; esquadrões militares cubanos enviados pelos irmãos Castro agem no seqüestro de alvos importantes para o governo venezuelano, como foi o caso do General de Brigada Ángel Vivas – que resistiu bravamente, mesmo que isso lhe tivesse custado a própria vida. Se ainda havia alguma dúvida sobre o caráter totalitário do governo venezuelano, que desde Chávez mergulhou aquele país numa crise social e econômica sem precedentes na história da Venezuela, não resta mais dúvida alguma.
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| Coletivo La Piedrita e suas crianças milicianas devidamente armadas. |
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| General de Brigada Ángel Omar Vivas Perdomo resistindo às forças cubanas que,a mando de Maduro, tentavam prendê-lo. |
Ainda que a frágil máscara de democracia do regime venezuelano tenha sido totalmente obliterada pelos recentes acontecimentos naquele país, e apesar da profusão de fotografias e vídeos amadores que, graças à internet, tem rodado o mundo – afinal de contas, o governo bolivariano da Venezuela tem “democraticamente” cerceado o exercício da imprensa local e internacional –, um grupo de grandes organizações de “movimentos sociais” entregou à missão diplomática venezuelana no Brasil uma carta de apoio ao regime de Maduro. A carta foi publicada originalmente em espanhol no site da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil. Abaixo, segue a íntegra da tradução para o português (grifos meus):
Carta ao Presidente Nicolás Maduro e ao Povo Venezuelano
Nós, dirigente das organizações políticas, movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores que acompanhamos a campanha “Brasil está com Chávez”, vemos com muita preocupação os recentes acontecimentos na Venezuela e alertamos o povo brasileiro sobre mais uma nova tentativa antidemocrática para derrubar o Governo Bolivariano da Venezuela. Há vários meses acompanhamos a situação Venezuela e sabemos dos embates de setores da elite, com interesses econômicos contrários aos da maioria da população, que têm promovido uma “guerra econômica”, promovendo a especulação, o desabastecimento e a inflação excessiva de preços, prejudicando a grande parte da sociedade venezuelana. Esses grupos opositores tentam responsabilizar o Governo pela situação econômica, assim como por outros problemas no país e, sob essa alegação, em 12 de fevereiro passado, marcharam em protesto por várias cidades do país. A intenção dos líderes opositores, como o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López, era a de permanecer na rua até conseguir “a saída” do governo atual. A maioria dos participantes foi de estudantes e as manifestações, em sua maior parte, ocorreram de maneira pacífica até que grupos violentos provocaram ações como o confronto com as forças de segurança, ataques contra o Ministério Público, o assalto à residência do Governador do estado de Táchira, a depredação do Metrô de Caracas e do serviço de Metrobus com passageiros a bordo, entre outros. Como resultado, três pessoas foram mortas e mais de 60 ficaram feridas. Posteriormente, iniciou-se de imediato uma campanha nas redes sociais afirmando falsamente que na Venezuela havia uma repressão massiva contra os estudantes. Fomos testemunhas do uso de inúmeras imagens manipuladas para condicionar a opinião pública internacional contra o Governo venezuelano. Os Estados Unidos, de maneira pública e privada, também se manifestou contra o governo do presidente Nicolás Maduro, exigindo mudanças em suas políticas. A coincidência conjuntural de todos esses elementos lembra velhas fórmulas golpistas já vividas em nossa região e em outros lugares do mundo. Isso nos obriga a pensar que existe uma possibilidade real de que setores extremistas da oposição venezuelana e interesses estrangeiros estejam tentando forçar uma saída não-constitucional ao Governo Bolivariano. Por isso, consideramos importante fazer um chamado de alerta à população brasileira para que acompanhe de perto os acontecimentos e manifestamos nossa solidariedade ao povo venezuelano nesta hora difícil. Sabemos que todas as venezuelanas e venezuelanos têm o direito legítimo de protestar e que isso está garantido na Constituição de 1999, que, ademais, é uma das mais avançadas do mundo em termos de participação popular na política e na sociedade. Não obstante, o direito de manifestação não pode ser usado para justificar atos de violência, nem para promover uma saída golpista, não-constitucional e antidemocrática ao governo atual. Apoiamos o direito das venezuelanas e dos venezuelanos de decidir seu futuro político dentro do marco legal da Constituição e mediante os mecanismos eleitorais e participativos previstos, como o referendo revogatório. Repudiamos os atos de violência ocorridos nos últimos dias e manifestamos nossa completa solidariedade aos familiares das vítimas. Repudiamos também a campanha nas redes sociais e a cobertura parcial e tendenciosa dos meios de comunicação que distorcem a realidade venezuelana para satanizar o governo do Presidente Nicolás Maduro. Repudiamos qualquer forma de ingerência por parte do governo dos Estados Unidos ou de qualquer outro país nos assuntos internos da Venezuela. Clamamos o governo brasileiro a se solidarizar com o governo do Presidente Nicolás Maduro ante os recentes embates e ao povo brasileiro para que não se deixe manipular pela campanha midiática de difamação contra o Governo Bolivariano da Venezuela. Manifestamos novamente nossa total solidariedade ao Governo Bolivariano, que nos últimos 15 anos, e apesar de repetidas tentativas de desestabilização, alcançou sucessos substanciais em melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos, como a erradicação do analfabetismo, a ampliação do cuidado médico e de ingresso nas universidades, a diminuição da pobreza, a democratização das comunicações e, sobretudo, a ampliação dos direitos de participação política de todos os setores da população. Fazemos um chamado à oposição venezuelana que se mantenha no caminho constitucional e se afaste dos grupos violentos que põem em risco o futuro da democracia venezuelana para todos. Um golpe de Estado na Venezuela seria um retrocesso na consolidação democrática que viemos construindo em toda a região. Não ao golpismo! Viva o Povo Venezuelano! Brasília, 21 de fevereiro de 2014. Subscrevem:
- União Nacional dos Estudantes (UNE)
- Central Única dos Trabalhadores (CUT)
- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
- Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil (CTB)
- Consulta Popular Levante Popular da Juventude Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
- Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Campo (MTC)
- Via Campesina – Brasil
- Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Distrito Federal (Sindsep-DF)
- Juventude Revolução Núcleo de Estudos Cubanos da Universidade de Brasília (Nescuba)
- Juventude Libertária Anticapitalista Marcha Mundial das Mulheres – Distrito Federal
- Esquerda Popular Socialista do Partido dos Trabalhadores (EPS/PT)
- Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf)
- Associação dos Engenheiros Agrônomos do Distrito Federal
- Central de Movimentos Populares do Distrito Federal
- Associação Médica Nacional Dra. Maíra Fachioni
- Comitê de Defensa da Revolução Cubana Internacionalista
- Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS)
- Movimento Democracia Direta (MDD)
- Comitê Brasil está com Chávez
A UNE, que tem apoiado e participado efusivamente dos protestos promovidos no Brasil desde meados do ano passado – e que não raro respaldou a violência perpetrada por Black Blocs –, não hesitou em dar o seu apoio a um governo que vem, nas últimas semanas, sequestrando, torturando e assassinando estudantes que protestam de maneira pacífica. Um grupo de pesquisa oficial da Universidade de Brasília, o Núcleo de Estudos Cubanos (do qual já falamos aqui no blog há tempos), também não pensou duas vezes em garantir seu apoio a um governo que tem trucidado impiedosamente a população que deveria proteger. Até mesmo o Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Distrito Federal arrogou-se o direito de apoiar um governo que tem sistematicamente ameaçado com demissão e prisão seus servidores públicos que se negarem a participar de manifestações públicas a favor do governo, como aconteceu recentemente aos funcionários da PDVSA. A essas “organizações políticas, movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores” que tão diligentemente apoiam o regime criminoso de Nicolás Maduro, quero lembrar que o sangue de Jimmy Vargas, Génesis Carmona e Jhony Carvallo estão em suas mãos.\
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| Génesis Carmona, Miss Turismo Carabobo 2013, 22 anos, assassinada por milicianos tupamaros pró-Maduro. |
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| Jimmy Vargas, estudante assassinado pela Guarda Bolivariana Nacional, sendo velado por sua mãe, Cármen González. |
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| Jhony Carvallo, 41 anos, executado em Cagua, estado de Aragua, por forças leais a Nicolás Maduro.
Fonte: Midia Sem Máscara
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