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segunda-feira, maio 26, 2014

Hillel ouve professor árabe.














por Sergio Niskier

Em aplauso ao Hillel, que mantém a tradição de debate democrático, venho manifestar-me sobre a palestra proferida pelo Professor Mohamed Habib, intelectual árabe, Professor Graduado em Engenharia Agronômica, mestre em Controle Biológico pela Universidade de Alexandria (Egito) e doutor em Ciências Biológicas pela Unicamp e professor universitário em nosso País. .



Em 1971 e 1972, fui voluntário em kibutzim em Israel. Naquela época, um país ainda sem o desenvolvimento que hoje impressiona o mundo. E me recordo dos permanentes temores que se mostravam nos jornais e nas TVs. Recém saído da vitoriosa Guerra dos Seis Dias, ainda assim a incerteza permanecia em Israel. Eu assisti a TV israelense em muitas ocasiões, ninguém me contou, mostrando Anwar Sadat pregando a destruição de Israel, jurando empurrar os judeus ao mar, na mesma retórica violenta que fazia seu antecessor Gamal Abdel Nasser. Assim como Sadam Hussein ainda faria por muitos anos. Sadat naquela época, em nada diferia no discurso, do Mufti de Jerusalém durante o período do Holocausto, e de todos os líderes árabes durante a Guerra da Independência, além de todos os inimigos declarados do Estado Judeu durante aqueles conturbados períodos. E o que dizer de Hussein, rei da Jordânia, um duro inimigo de Israel em 1948, que também venceu militarmente na Guerra da Independencia, invadindo o que seria parte do Estado árabe definido na Partilha, tomando na força das armas Jerusalém que seria uma cidade internacional, e impedindo judeus de visitarem os lugares sagrados, e usando lápides de nossos cemitérios como material de pavimentação, e que não foi menos implacável em 1967. Lembro agora de Arafat, e de seu staff onde se incluía com grande importância, Mahmoud Abbas, que desenvolveu teses em meio acadêmico, de negação do Holocausto, de onde certamente Ahmadinejah encontrou inspiração. Não foi há tanto tempo atrás.

A história, no entanto, anda. Novos paradigmas se assentam. E a realidade impõe posicionamentos distintos. Aquele inimigo feroz que prometia o fim do Estado Judeu, e que infringiu uma enorme derrota à Israel na Guerra de 1973 na campanha do Sinai, que só não foi definitiva graças a coragem e ousadia do comando militar de Israel notadamente Sharon, sem o que hoje estaríamos falando diferente, mudou. Este mesmo egípcio, em uma corajosa decisão de visitar Jerusalém, se transforma em um herói para o povo israelense, e tendo encontrado um parceiro Beguin, encerra um ciclo de dor, com uma possibilidade real, perseguida há milênios por nosso povo. A Paz com o Egito é assinada e celebrada, e mesmo com os altos e baixos, se mantém acesa, e foi a porta para o mesmo acontecer um pouco depois com a Jordânia, com aquele mesmo Rei, cruel e sangui nário. E que seu filho sucessor mantém a Paz, e que eu muitos anos depois pude ver ao visitar meu filho, desta vez ele trabalhando em um kibutz na fronteira entre Israel e Jordânia, o cuidado em preservar a integridade da PAZ. Vi jipes jordanianos na linha divisória, cuidando mais ainda que os israelenses de não haver problemas fronteiriços. Por outro lado, Arafat e Rabin, inspirados por este amante da PAZ, Shimon Peres, começaram a construir um ambiente de confiança, que poderia ter sido diferente do que hoje existe, caso um radical israelense não tivesse encurtado a vida deste grande líder Itzhak Rabin.

Eu ainda poderia descrever muitas situações do inimigo implacável, da verborragia destrutiva. E também dos caminhos diferentes que ao longo do tempo vão aparecendo.

Em uma de minhas ultimas visitas a Israel, em escala em Nova York, acidentalmente viajei ao lado de um palestino. Tivemos a oportunidade de conversar muito. E uma coisa que me incomodou bastante, foi quando ele disse que lia muito sobre as descobertas tecnológicas de Israel, e da cura de tantas doenças que orgulhosamente nós judeus mostramos ao mundo, junto com tantos Prêmios Nobel conseguidos, mas que ele e sua família, dos israelenses só conhecem a bota dos soldados pisando em seus rostos. Posteriormente em Israel, eu vi que muitos israelenses também não conhecem nada dos palestinos a não ser os terroristas suicidas. Impressionou-me muito um motorista de taxi de Jerusalém, não querer levar um passageiro que queria ir para a zona árabe, dizendo que ele não tem nada a fazer por lá. Por acaso eu peguei este taxi e vi a discussão, e pergunt ei se ele alguma vez já tinha conversado sem ser de forma guerreira com algum palestino. A resposta foi a mesma do palestino em Nova York. NUNCA VI O OUTRO EM CIRCUSTÂNCIAS DIFERENTES DA VIOLÊNCIA..

Estas são histórias comuns, do dia a dia de uma terra em guerra, em conflito que só causa dor e morte. E que amplifica o ódio, a intolerância e a insensatez.

Existem muitos caminhos para lidar com isto. Um deles é a destruição do outro. A guerra acabaria se não houvesse “o outro”. Alguns, em todos os lados, acham que isto é possível, ou desejável. E tentam. Alguns objetivamente, outros intelectualmente. Todos os dias nós vemos isto. Não apenas em Israel e seus vizinhos, mas em todo o Oriente Médio, em todos os cantos do mundo.

Mas existem outros caminhos. Daqueles que acreditam ser impossível destruir o outro. Sem a inocência de não se preparar para a defesa é obvio. Mas com a certeza de que não é possível destruir o outro. Estes sabem da importância do entendimento. Da necessidade de conhecer o outro além das botas dos soldados ou das bombas terroristas. De entender que não há vilania apenas de um lado, nem dor apenas de um lado. Que estas existem em todas as direções. E que precisam ser encerradas em todas as direções também. E que para isto, tolerância, respeito, confiança, ter disposição de abrir mão de muita coisa, devem ser desenvolvidos.

Um dos maiores legados de Itzhak Rabin, ao ser muito criticado por dar as mãos à Arafat, disse com muita propriedade, que a PAZ se faz com os inimigos.

Para acabar com o clima da tragédia, o primeiro passo é ouvir o outro, e ser ouvido. É buscar encontrar pontes de contato e não barreiras do desentendimento. Uma pequena ponte pode servir mais que muitas armas. A recusa em conversar ou ouvir só ajuda a aprofundar o fosso, e favorecer mais ainda a política de morte e destruição. Não é garantido que conversar, ouvir, buscar estes pontos de contato, vá trazer a PAZ. Mas é garantido que o ódio continua, se o silêncio entre as partes se mantiver, e é garantido que novas dores e mortes virão, cada vez com mais tecnologia e precisão.

Sempre que vejo textos que pregam o não contato, que pregam a rotulação permanentemente, me assusto. Não sei se ainda estamos no tempo de heróis e mártires. Mas julgo que hoje já é o tempo dos que tem medo. Não dos que tem medo de morrer. Pois já há ideologia demais no mundo para transformar todos nós em pessoas corajosas e fortes. Mas dos que tem medo de matar.

Por tudo isto, eu gostaria de parabenizar o Hillel por sua decisão de ouvir o outro. E tem sido ao longo de sua existência aqui no Rio de Janeiro, um permanente fórum de debates e de busca de conhecimento de si e do outro. Os vários debates realizados no Oi Casa Grande e em outros ambientes, mostram o cuidado de enriquecimento político aos jovens, futuros líderes. Devemos incentivar conhecer outros pontos de vista. Por mais difícil que isto possa ser. Por permitir que as gerações que nos sucedem tenham a oportunidade de conhecer outras dores, e possam igualmente expor aquelas que conhecemos, e que muitas vezes são também ignoradas pelo outro. Não há o que temer em ouvir o que não gostamos, quando temos a liberdade de expressão. Pois podemos combater e assim o fazemos aqui em nossa cidade, ao contrário do passado na Europa quando es te direito nos foi suprimido, todas as ideias destrutivas e preconceituosas. E ajudar a construir uma sociedade com liberdade, tolerância e cidadania. Ao contrário das críticas prévias feitas à esta palestra, o que ocorreu foi um momento de debates sobre as reais possibilidades de entendimento entre todos os envolvidos no conflito do Oriente Médio. Baseadas em princípios, que para quem de fato lê e acompanha toda a trajetória do conflito e suas tentativas de entendimento, já se encontravam durante o período do Acordo de Oslo, descritos em um fantástico livro escrito por SHIMON PERES, denominado O NOVO ORIENTE MÉDIO, que recomendo a leitura, publicado em português pela Editora Relume Dumará, em 1994, onde ele defendia o processo de Paz, baseado nos projetos conjuntos e utilização dos recursos naturais. O palestrante falou da mesma forma que Peres, sobre es tes pontos. Basta ver na imprensa judaica, o relato do evento. Que a água traga a PAZ. Que a dessalinização traga a PAZ. Que a cultura traga a PAZ. Muita coisa pode trazer a PAZ. Mas nunca a rotulação permanente, o ódio permanente, a recusa em avançar em direção ao entendimento, por mais duro e difícil que seja este caminho. Não sejamos nós os sócios da ignorância.

Nossa força, não está no radicalismo do isolamento. Mas ao contrário, na abertura que a democracia nos permite ter. Ao buscar conhecer o outro, estamos também nos convidando a ser conhecidos. Eu já tive a oportunidade de fazer isto dezenas de vezes. Algumas publicamente. Tenho hoje como parte das minhas relações, a oportunidade de conviver com muitos militantes da causa palestina, de quem discordo profundamente inclusive publicamente, na maior parte das vezes quando discutimos os processos que ocorrem no Oriente Médio, mas com quem me aproximo na certeza de que este é um conflito que precisa acabar, e que todas as partes terão que ceder, na necessidade de aceitar plenamente o convívio e a troca com o outro. Não há como ser diferente. E isto é altamente esclarecedor para quem não conhece o assunto. Que ouve todas as posiç&ot ilde;es. Ao nos fecharmos, só uma voz é ouvida. E isto é altamente perigoso e preconceituoso contra nós.

Que as novas gerações, a exemplo do que fez o Hillel, busquem com mais ênfase que nossa geração o fez, o encontro. A quebra dos preconceitos. A confiança no outro, e em um futuro de Paz. Não temam o controverso. Não temam quem pensa diferente, e que se dispõe a conversar. Não aceitem a própria intolerância como estrada. Prepararem-se para contrapor aqueles que gostam de preservar o ódio. E que não querem conversa. Estes devem mesmo ser temidos. E combatidos. E tenham a inteligência de buscar outros caminhos, diferentes do que foi tentado até agora, que buscam manter o que existe.

Parabéns Hillel por não ficar parado no tempo !!!



Sergio Niskier

Ex - Presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro

Presidente da Câmara Brasil Israel de Comércio e Indústria


Fonte: Rua Judaica

sábado, julho 28, 2012

Sessenta Anos de Miséria no Egito.

Rei Faruk (de 1936 a 1952)


Sessenta Anos de Miséria no Egito.


por Daniel Pipes
24 de Julho de 2012

Original em inglês: Egypt's Sixty Years of Misery
Tradução: Joseph Skilnik





Esta semana marca os 60 anos desde que os autoproclamados Oficiais Livres do Egito derrubaram a monarquia constitucional do Rei Faruk – e o primeiro aniversário que se imagina ser o fim do despotismo militar que por tanto tempo castigou o país. Lamentavelmente, o que provavelmente o substituirá, trará um governo ainda pior.


O período da monarquia foi repleto de falhas, de injustos níveis de renda a movimentos violentos (sendo o mais importante entre eles, a Irmandade Muçulmana) porém uma era de modernização, de crescimento da economia e aumento de influência no mundo. Foi o inicio da indústria, das mulheres que deixaram de cobrir a cabeça e o poder de influência do Egito teve um enorme impacto nos países de língua árabe. Tarek Osman lembra dessa época em seu excelente livro Egypt on the Brink: From Nasser to Mubarak (Yale) como um período "liberal, glamoroso e cosmopolita".


O sombrio domínio dos generais e coronéis começou em 23 de julho de 1952, liderado pelo ambicioso Gamal Abdel Nasser (de 1954 a 1970). O grandioso Anwar el-Sadat (de 1970 a 1981) o seguiu e finalmente o empolado Hosni Mubarak (de 1981 a 2011). Nasser, de longe o pior do trio, dançou a dança dos demônios do ressentimento anticapitalista e da frustração anti-imperialista, seu governo promoveu confiscos debilitantes de propriedades no setor privado e aventuras externas insensatas (com a Síria contra Israel, e no Iêmen), afundando em dívidas que o país ainda está pagando.

Presidente Mohamed Naguib (de 1953 a 1954).



O regime se especializou em fraudes. A junta se vestiu de mufti mesmo durante o avanço dos  
militares na economia, nos serviços de segurança, no legislativo e no judiciário. A união com a Síria mascarou uma amarga hostilidade. A ostentosa rivalidade contra os islamistas ocultava uma sórdida competição em torno dos despojos. A paz com Israel disfarçava a luta contínua através de outros meios.

Durante o longo, árduo e regressista reino das forças das botas, o Egito regrediu de acordo com qualquer índice que seja, do padrão de vida ao peso diplomático, ainda que a população tenha quadruplicado de 20 para 83 milhões e a ideologia islamista tenha florescido. Egito e Coréia do Sul, observa Osman, encontravam-se no mesmo patamar socioeconômico em 1952, agora o Egito está bem atrás. Ele explica como a "sociedade não progrediu" sob o regime militar e sim ao contrário, "em muitas áreas na realidade regrediu". Ele mostra que desde 1952 "há um predominante sentimento de fracasso, de derrota nacional". De partidas de futebol a poesia, há a sensação de derrotismo.





Presidente Gamal Abdel Nasser (de 1954 a 1970).




Com a aproximação do 30º ano no poder, o Faraó Mubarak decidiu, em um ataque de orgulho, colocar de lado seus colegas militares. Ele almejava roubar ainda mais dinheiro, mesmo que isso significasse negar aos oficiais a parte deles, e (sob pressão da sua esposa) empenhou-se em colocar, não outro oficial militar e sim seu filho, o banqueiro Gamal, para sucedê-lo como presidente.

Os ultrajados oficiais esperaram a hora certa. No início de 2011, quando jovens corajosos, seculares e modernos anunciaram sua impaciência com a tirania na Praça Tahrir, a junta valeu-se deles e pôs Mubarak para fora. Os liberais imaginaram que a vitória fosse deles, porém serviram meramente como ferramenta e pretexto para que os militares se livrassem do seu aversivo mestre. Tendo servido seu propósito, os liberais foram colocados de lado enquanto oficiais e islamistas disputavam o espólio.



Presidente Anwar el-Sadat (de 1970 a 1981).




O que nos trás ao presente: O Conselho Supremo das Forças Armadas ainda governa o país, a Irmandade Muçulmana quer colocá-lo de lado. Qual dessas forças autocráticas e infames irá vencer? O SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas) tem, no meu modo de ver, 80 por cento de probabilidade de se manter no poder, querendo dizer que os islamistas triunfarão somente se apresentarem muito talento. O SCAF inteligentemente excluiu o líder mais capaz e carismático da Irmandade Muçulmana, Khairat al-Shater baseando-se em razões técnicas duvidosas (seu encarceramento pelo regime de Mubarak). O que deixou o bem menos competente Mohamed Morsi como líder da irmandade e novo presidente do país. Suas primeiras semanas de governo mostraram-no como desajeitado e desengonçado, sem nenhuma aptidão de travar uma batalha política até mesmo contra o quadro da incompetente equipe do SCAF.

À medida que os egípcios vão suportando a passagem do 60º aniversário da tomada de poder pelos militares, é pouca a esperança quanto ao futuro. Se mais comemorações celebrando o 23 de julho estiverem a espera deles, pelo menos não estarão passando pelo sofrimento do primeiro aniversário de domínio islamista. Melhor estar sob o domínio de soldados gananciosos do que sob o domínio de ideólogos islamistas.

Mesmo assim, os egípcios e seus partidários no exterior podem ansiar por dias melhores. Os liberais que se reuniram na Praça Tahrir continuam sendo a única esperança do país e os únicos aliados do Ocidente, eles merecem apoio. Por mais afastados que estejam dos corredores do poder, seu levante proporciona de forma inigualável o antídoto contra os sessenta anos de tirania e declínio.