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domingo, janeiro 18, 2015

Empregos sem empregadores.







por Jacinto Flecha





Meu vizinho no metrô fechou a revista, para descer na estação seguinte, mas consegui ler de relance o título de uma página: E agora, Francisco? Estávamos cinco estações antes do meu destino, e a revista desceu junto com o passageiro, impedindo-me de saber quem era esse Francisco, em que enrascada se meteu, como pretende sair dela, qual sugestão a revista lhe apresenta. Sem os dados objetivos do artigo, eu só podia dispor da imaginação, e recorri a ela criteriosamente para avaliar, pelo aspecto dos passageiros, se algo estranho estaria acontecendo com eles.

Se aquele passageiro que acaba de entrar é o tal Francisco, ele concluiu há pouco o curso superior, mas ainda não conseguiu um emprego. Foi bom aluno, tirou boas notas, mas é um tanto tímido para bater de porta em porta. Não tem conhecidos em boas firmas do ramo, e sabe que elas só contratam quem tem experiência prévia, dado negativo no seu caso. Para piorar, o mercado de trabalho encolheu, reduzindo também as suas esperanças. Imagino para ele caminhos como a recomendação de amigos, trabalho como estagiário, ajuda de algum professor. Por onde começar? A timidez não ajuda, e provavelmente levará tempo para encontrar trabalho.

Aquele outro, sentado lá no fundo, parece um Francisco que perdeu o emprego. Junto com ele foram também dispensados vários colegas. Tem experiência no serviço, o que melhora um pouco a perspectiva. Mas as demissões foram exigidas pela situação geral, outras firmas estão fazendo o mesmo, e há muitos concorrentes para as poucas vagas. A situação de desemprego está piorando, e ele não sabe qual será seu futuro.

Este sentado à minha esquerda é um Francisco noivo, com aliança no dedo e casamento já marcado. Confiava no pai da noiva para sustentar o casal no início, mas a empresa do futuro sogro sofreu as consequências da depressão do mercado. Reduzidas drasticamente as disponibilidades, o jeito é esperar situação mais favorável.

Francisco pode ser este que acabou de entrar. Tem cara de quem pretende montar uma empresa. Pediu dispensa do emprego para isso, e estava tudo acertado. Mas dependia de financiamento bancário, e os bancos fecharam as carteiras de empréstimo. Como sempre acontece, pois os bancos param de vender guarda-chuvas exatamente quando começa a chover. E agora ele está sem a cabra e sem a couve.

Aquela que saiu agora parece uma Francisca, empregada doméstica que também perdeu o emprego. Sem culpa própria nem má vontade do patrão, que também foi dispensado e precisou cortar despesas. Ele está procurando trabalho, e prometeu contratá-la novamente quando as coisas melhorarem. Já recorreu a parentes, mas a situação deles também está bastante difícil, e essa fonte secou.

Estávamos chegando à estação onde eu deveria descer, esgotando-se meu tempo livre para levantar mais hipóteses. Mas uma análise retrospectiva mostrou-me que todos os Franciscossubmetidos à minha avaliação estavam em dificuldade para encontrar emprego, devido à depressão do mercado de trabalho. Curioso isso, pois não me consta que esteja tão grande o desemprego, pelo menos não se queixam disso as estatísticas oficiais, sempre benignas consigo mesmas. Estaria próximo o estouro de alguma “bolha”? Os empresários resolveram cancelar os investimentos? Os geradores de empregos se cansaram de pagar impostos extorsivos? Ou estaria algum movimento de origem comunista preparando mais uma investida contra os proprietários?

Tudo isso me pareceu pouco provável, até o momento em que liguei os pontos e me lembrei do Encontro Mundial de Movimentos Populares, promovido no Vaticano por agitadores de formação marxista. A tônica do evento foi o anticapitalismo e a luta de classes. Um conhecido ativista, vermelhão de cara e de pensamento, apresentou como objetivos principais do encontro: “Combater o capital financeiro, os bancos, as multinacionais. Os inimigos do povo são esses. Lutaremos juntos para parar os bancos e as multinacionais”. O panorama era tão vermelho, que o anfitrião precisou justificar-se: “Se eu falo disso para alguns, significa que o Papa é comunista”.

Ora, um fato histórico amplamente comprovado é que a luta de classes marxista distribuiu pobreza e desastres onde se instalou. A esquerda dificulta a atividade dos ricos, mas os maiores prejudicados são sempre os pobres, que perdem empregos e outras fontes de renda. Ela age como se atividades lucrativas fossem crime, mas nenhuma lei racional chega ao disparate de criminalizar o lucro. Claríssima a favor do lucro é a doutrina social da Igreja, mencionada pelo anfitrião com outro propósito.

Eu sempre entendi que perseguir ou prejudicar os geradores de empregos é caminho infalível para reduzir ou eliminar os empregos, e a lógica não me permite pensar de outra forma. Perseguindo os geradores de empregos, o desemprego se torna inevitável. Quem cometerá a tolice de investir em novas empresas ou expandir as existentes, se tudo conspira para gerar prejuízo ao invés de lucro? Imagino que isso seja também evidente para o prezado leitor.

Se os ventos levógiros do Vaticano soprarem para incentivar esses projetos igualitários, anticapitalistas, podemos preparar-nos para aplicar a milhões de outros aquela pergunta da revista:E agora, Francisco, João, Pedro, Leonardo…?

Fonte: IPCO

domingo, abril 20, 2014

Parece que é, mas não é













por Jacinto Flecha


Muitos que assistiram ao filme “Os Dez Mandamentos” devem ter-se perguntado como o diretor Cecil B. de Mille conseguiu mostrar a enorme fenda abrindo-se nas águas do Mar Vermelho, para os hebreus o atravessarem a pé enxuto. O truque foi uma grande gelatina, na qual a fenda foi aberta por um possante ventilador. Filmada esta cena, o deslocamento dos hebreus amedrontados foi depois acrescentado em estúdio, por superposição de imagens contidas em outro filme. Artifícios assim perderam espaço para a informática, com seus efeitos especiais estupendos.


Imagens forjadas podem ser inocentes, mas podem também camuflar intenções sem nenhuma inocência. Manipuladas pela propaganda, estas produzem no público impressões falsas. Ou seja, parece que é, mas não é; ou então é, mas parece que não é. Muito complicado isso? Não se preocupe, pois vamos passar aos exemplos.

Uma grande foto de primeira página na imprensa mostrou um auditório repleto de pessoas assistindo a uma conferência em Brasília. Quase todos usavam chapéu de palha com aba larga, de dar inveja a qualquer mexicano. A impressão era: um operoso grupo de trabalhadores rurais, acostumado à faina do campo, ouvindo atentamente as informações de entendidos, a fim de aprimorar seus conhecimentos agropecuários. Mas alguns detalhes dão o que pensar: Todos os chapéus eram iguais, e eram zero quilômetro; naquele recinto fechado, provavelmente com ar condicionado, não havia o menor risco de o sol aquecer cabeças que estivessem descobertas; e qualquer agricultor autêntico sabe que a boa educação manda não usar chapéu dentro de casa.

Tudo ali parece que é, mas não é – tão falso quanto remendo em roupa de festa junina. A foto mostrava os personagens por trás, não permitindo apreciar os rostos curtidos dos agricultores. E acaso o leitor acredita que ali houvesse algum agricultor de rosto curtido? Só se foi pelo sol da praia. Mas por que usaram aquela fantasia? Ora essa! É claro que alguns agitadores bem remunerados tinham de parecer agricultores diante do respeitável público – uma ilusão de ótica proposital e propagandística.

Vamos a outro caso. O Incra precisava mostrar serviço, e publicou um livreto ufanista intitulado Balanço da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar – O Futuro Nasce da Terra. A foto da capa mostra assentados usando enxadas, e ninguém faz objeção a isso. Mas quem tem alguma vivência de assuntos agrícolas vê logo que a metade dos “trabalhadores” empunha a enxada de modo errado, ou seja, não sabe usá-la. Parece que é, mas não é – outra ilusão de ótica encomendada. Para que serve essa pose fotográfica com maus atores? É que a distribuição de terras pelo Incra tem sido um total e rotundo fracasso, resultando nas favelas rurais. Daí os marqueteiros oficiais precisarem dar a impressão de que tudo corre às mil maravilhas.

Recursos como esse já são marca registrada. Uma cena exaustivamente repetida no noticiário mostra bandos do MST empunhando foices e enxadas em manifestações ou invasões. Foice e enxada são instrumentos muito primitivos, mas em pleno uso até hoje. E necessários, pois os pastos precisam ser roçados e o capim precisa ser capinado. Se o agricultor sabe mesmo usá-los, não lhe falta emprego.

Os bandos de sem-terra de passeata sempre exibem foices e enxadas, parecendo reivindicar com isso um lugarzinho para exercer suas aptidões. Acontece que a prática dos agricultores verdadeiros desenvolveu um modo muito cômodo de transportar a foice ou a enxada de casa para a roça e vice-versa: vai no ombro, em posição mais ou menos horizontal. Alguns até penduram no cabo uma sacola contendo gêneros diversos. Esse conjunto fica nas costas (na cacunda, como dizem), contrabalançado na frente pela mão que segura a outra ponta do cabo.



Como é que os sem-terra de passeata seguram foices e enxadas? Em pé, como se fossem lanças, alabardas ou porretes. Atitude claramente agressiva, de quem está pronto para atacar quem lhes atravesse o caminho. Poderiam ser instrumentos de trabalho, mas tornam-se armas ameaçadoras quando usadas por sem-terra de invasão. O respeitável público é induzido a crer na primeira hipótese, que de fato oculta a outra intenção; e esta os proprietários de terras invadidas conhecem bem.

Bandos de sem-terra de barraca multiplicam-se Brasil afora. Mas o que de fato se multiplica são só as barracas pretas, quase sempre desabitadas, que congestionam as estradas e o noticiário. A impressão é de trabalhadores rurais à procura de trabalho, mas enquanto isso os proprietários rurais não conseguem contratar trabalhadores, e são obrigados a adquirir dispendiosas máquinas agrícolas para realizar o serviço. Uma antiga música carnavalesca não deixa por menos: “Enquanto isso, na minha casa, ninguém arranja uma empregada”.

Esses bandos comandados por agitadores fariam boa figura “assentados” em tratores ou colheitadeiras. Mas será que querem mesmo trabalhar? Mais uma vez: parece que é, mas não é

sexta-feira, março 21, 2014

Com, sem e apesar de.











Com, sem e apesar de.

por Jacinto Flecha



Nos tempos longínquos em que abrilhantei com minha presença a faculdade de medicina, um professor mencionou doenças que se resolvem com o médico, sem o médico e apesar do médico. Mostrou depois a utilidade de umas e outras. Não pretendo trair segredos profissionais, mas quem conhece piadas sobre médicos não ignora a importância dos honorários…

Saio correndo deste assunto, pois não me convém atingir interesses corporativistas, além disso minhas flechas estão hoje reservadas para o campo. Para qual campo? Ora, para o campo mesmo, o campo propriamente dito. Explico-me, antes que as flechas se voltem contra mim.

Todos conhecemos o êxito do agronegócio brasileiro, cuja colheita recorde de 185 milhões de toneladas engorda as raquíticas estatísticas do governo. A balança comercial (diferença entre exportação e importação) tem sido salva pela expansão da agropecuária, constante e persistente desde que se descartou a reforma agrária.

Que relação tem a atividade agropecuária com a distinção sibilina do meu professor? Aplique uma à outra, e veja o resultado: Nosso primitivismo agropecuário se resolveu com o governo, sem o governo e apesar do governo. Muito enigmático? Vamos esclarecer ponto por ponto.

Com o governo – Não é justo atribuir todo esse progresso ao empreendedor rural. Grande parte se deve ao profissionalismo e dedicação da Embrapa e de várias outras entidades, cujos técnicos competentes desenvolvem pesquisas de ponta para aumentar a produtividade e a qualidade dos produtos do campo. Sendo a Embrapa uma entidade do governo, ao governo cabe uma parte desse êxito, certo? Sim, desde que se entenda a qual governo isso se aplica. Muito importante esta distinção, pois o governo de dez anos atrás quis obrigar a Embrapa a sepultar pesquisas de ponta e desviar recursos para a antiquada agricultura de subsistência. Ainda bem que não o conseguiu…

Outra iniciativa elogiável são os empréstimos para custeio da produção. Para a atividade rural eles são vitais, mas para o governo são um negócio bancário cercado de todas as garantias, além de lucrativo em juros e impostos. Um favor útil, sem dúvida, mas muito interesseiro; e que precisa, aliás, ser melhorado e ampliado.

Sem o governo – Mesmo sendo o grande beneficiário do lucro que o agronegócio lhe dá de mão beijada, o governo deixa os empreendedores rurais à própria sorte: Malha rodoviária deteriorada; deficiência ou ausência de assistência médica; escolas rurais inexistentes ou em condições precárias; incentivo a invasores, com posterior leniência na reintegração de posse. Tudo isso desestimula empreendedores, gera prejuízos e encolhe o único benefício que o trabalhador rural honesto realmente procura: bom emprego.

Apesar do governo – A ação do governo no setor rural produtivo é uma sequência de tiros no pé, penalizando os empreendedores e premiando a quem não merece: Exigências ambientalistas draconianas; legislação trabalhista só aplicável a gabinetes luxuosos de burocratas brasilienses; indústria de multas arbitrárias e exorbitantes; confisco de propriedades para torná-las improdutivas nas mãos de índios urbanos indolentes e manobrados por ONGs; expropriação de produtores para entregar terra a aventureiros rotulados de quilombolas, mesmo contrariando a lei, que exige continuidade no uso da terra reivindicada. Após remoção injusta de proprietários legítimos, o governo deixa assentados nelas (ou confortavelmente deitados) os índios urbanos e falsos quilombolas.

Obstáculos ou doenças são equivalentes, na medicina e no campo, desde que se entenda metaforicamente alguns deles: Ervas daninhas, mau tempo, micróbios, predadores, vírus, profissionais desqualificados, criminosos. Nos dois casos, a solução é remover os obstáculos ou causadores de doenças. Nos dois casos, essa faxina traz lucro e progresso.

Por que será que o governo não consegue entender esta linguagem tão simples? Entenderia, se não estivesse encharcado de ideologia esquerdista, comprovadamente ineficiente e ultrapassada. Minha frágil esperança é que os responsáveis acordem para esta norma de vida, criada pela sabedoria popular e ancorada na experiência diária: Quem não atrapalha, já ajuda.