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domingo, março 22, 2015

O círculo de ferro da corrupção



O círculo de ferro da corrupção.
por Percival Puggina (*)




Quem rouba, mente. Quem mente e rouba, quando surpreendido, acusa outros daquilo que fez. Pessoas com essas características se unem por afinidade. Nascem, assim, as quadrilhas. Quadrilhas precisam de proteção. No crime organizado, essa tarefa é atribuída a outros malfeitores, recrutados e remunerados pelos chefes.

Na política, a proteção às quadrilhas é disponibilizada por bases parlamentares compradas, mídia chapa-branca e massas de manobras, ou seja, milícias mobilizadas com recursos públicos, como são os exércitos de Stédile, postos em prontidão, a pedido de Lula, no evento da ABI em "defesa" da Petrobras. Pode-se incluir nesse círculo de ferro outras práticas comuns e conhecidas, como o sistemático assassinato de reputações. Nas quadrilhas do crime comum, o adversário vira "presunto" e é desovado numa valeta. Nas quadrilhas da política, com falsos dossiês e calúnias, mata-se a reputação do adversário, embora não faltem exemplos de eliminação total dos arquivos, como aconteceu no caso Celso Daniel.

Nos casos de corrupção sistêmica, como está acontecendo no Brasil, percebe-se que a inclinação ao mal se manifesta de inúmeras formas. Há uma imensa deformidade moral em pleno funcionamento. A apropriação de recursos públicos é apenas uma das formas de corrupção, e não sobrevive sem as demais. É isso que torna desprovida de sentido a tese oficial que pretende resolver a presente crise institucional com "uma boa lei anticorrupção e uma boa reforma política". Falem sério! Milhões de brasileiros foram às ruas no dia 15 de março, indignados com a completa perda de credibilidade do governo, aí incluída a presidente da República, sua equipe de trabalho, seu partido e demais apoiadores, e a própria mídia chapa-branca. Os brasileiros compreenderam a extensão do problema moral que afeta irremediavelmente o governo, sua respeitabilidade interna e externa, e a indispensável probidade dos atos de Estado. O governo brasileiro virou objeto de lágrimas aqui e de risos no exterior.

Por fim, entre as muitas formas de corrupção, inclui-se a do intelecto. Não me refiro a qualquer problema mental, neurológico. Não, a corrupção do intelecto, ou desonestidade intelectual, é uma forma de vilania. O indivíduo intelectualmente desonesto utiliza-se de dois meios para favorecer a causa que sustenta. Ou ele mente, a exemplo daqueles a quem concede ou vende seu apoio, ou, se mais capacitado, usa da erística, que é a "arte" de convencer por meios ilícitos, com saltos acrobáticos sobre a lógica, no deliberado e fraudulento intuito de iludir o interlocutor.

A corrupção também vive de tipos assim. Eles ajudam a sustentar seu círculo de ferro. A atualidade nacional permite reconhecê-los facilmente nas salas de aula, nos veículos onde atuam, a cada coluna que escrevem. Têm nomes conhecidos, claro, porque é indispensável, à eficiência da tarefa, que o operador do método, se atuando na grande mídia, conte com certo prestígio pessoal.

Fica demonstrado, assim, que a crise institucional brasileira não se resolve com leis, existentes ou futuras, mas com a ruptura, em conformidade com o Estado de Direito, desse círculo de ferro da corrupção. Ele é ainda mais sistêmico e devastador porque nosso modelo institucional centraliza Estado, governo e administração nas mãos de uma só pessoa, que nunca sabe coisa alguma do que acontece ao seu redor.



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(*) Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.

sábado, março 21, 2015

Quando o diabo é conselheiro







por Percival Puggina(*)





Pelo menos dois milhões e meio de pessoas saíram às ruas no dia 15 de março. Diziam, em essência, quatro coisas: Fora Dilma! Fora PT! Chega de corrupção! E a que estava escrita na camiseta que eu usava: Impeachment! A desaprovação da presidente, em março, segundo levantamento da Datafolha, chegou a 62%. Em fevereiro, o mesmo instituto dizia que para 52% dos brasileiros Dilma é falsa, para 47% é desonesta e para 46%, mentirosa. Nada surpreendente quando esses números se referem a quem disse que "a gente faz o diabo em época de eleição".

Num sistema de governo bem concebido, do tipo parlamentarista, tal situação levaria ao voto de desconfiança. O governo cairia. No presidencialismo, tem-se o que está aí: uma crise institucional. Então, era preciso contra-atacar. Qual o conselho do diabo numa hora dessas? "Diz que teus opositores não gostam de pobre!", recomendaria o Maligno. Foi o que fez Lula, num discurso à porta do hospital onde a Petrobras, por culpa dele e de seus companheiros, respira por meio de aparelhos.

Disse o ex-presidente: “O que estamos vendo é a criminalização da ascensão social de uma parte da sociedade brasileira. (...) A elite não se conforma com a ascensão social dos pobres que está acontecendo neste país”. Por toda parte, o realejo da mistificação, da enganação, da sordidez intelectual passou a ser acionado por gente que se faz de séria. Colunistas chapa-branca, artistas subsidiados pelo governo, intelectuais psicologicamente enfermos se alternam na manivela do realejo, a repetir essa tese.

O líder do MST, João Pedro (quebra-quebra) Stédile, falando ao lado de Dilma no RS, enquanto eu escrevia este artigo, rodou a manivela: "A classe média não aceita assinar a carteira da sua empregada doméstica. A classe média não aceita que o filho de um agricultor esteja na universidade. A classe média não aceita que os negros andem de avião. A classe média não aceita que o povo tenha um pouco mais de dinheiro”. Suponho que na opinião dele, os patrocinadores do MST são santos cujas meias deveriam ser guardadas para fazer relíquias, apesar de esfolarem a nação e encherem os próprios bolsos e os bolsos dos ricos. Quão tolo é preciso ser para se deixar convencer de que o povo sai às ruas porque pobres e pretos andam de avião e não por estar sob um governo que se dedicou a fazer o diabo? Como pode a mente humana entrar em convulsões e a alma afundar em indignidades de tais proporções?

Leonardo Boff, foi outro. Perdeu boa parte de sua fé católica, mas não a fé em Lula, a cujo alto clero não se constrange de pertencer. Dia 16, em Montevidéu, declarou: "No Brasil há uma raiva generalizada contra o PT, que é mais induzida pelos meios de comunicação, mas não é ódio contra o PT, é ódio contra os 40 milhões (de pobres) que foram incluídos e que ocupam os espaços que eram reservados às classes poderosas". É assim que o petismo age. Deve haver um lugar bem quente no inferno para quem se dedica a esse tipo de vigarice intelectual.

Vigarice, sim. E tripla vigarice. Primeiro, porque transmite a ideia equivocada de que o PT acabou com a pobreza, quando o partido está empobrecendo a todos, a cada dia que passa. Segundo, porque a nada o petismo serviu mais do que à prosperidade material de sua alta nomenklatura e a dos muitos novos bilionários que, há 12 anos, servem e se servem do petismo. Terceiro, porque só o PT se beneficia da pobreza dos pobres, aos quais submete por dependência.O desenvolvimento econômico e social harmônico é generoso. A ascensão dos pobres, quando ocorre de fato e não por doação ou endividamento, beneficia a todos. Isso até o diabo sabe.

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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

A Petrobras e a intelectualidade corrupta.









por José Carlos Sepúlveda da Fonseca




Um manifesto assinado por expoentes da assim chamada ”intelectualidade brasileira”, como Fábio Konder Comparato, Marilena Chauí, Cândido Mendes, Celso Amorim, João Pedro Stédile, Leonardo Boff e Maria da Conceição Tavares (e haja fôlego!), denuncia a Operação Lava Jato como tentativa de destruição da Petrobras, de seus fornecedores e de mudança do modelo que rege a exploração de petróleo no Brasil.

Vejam bem, segundo estes senhores, a destruição da Petrobras vem da apuração dos crimes feitos pela Justiça e pela Polícia Federal; não provém dos próprios crimes praticados pela máfia petista encastelada na máquina pública.
Conspiração

O texto do dito manifesto aponta ainda uma “conspiração” para desestabilizar o governo; as investigações, segundo esses “expoentes intelectuais”, atropelam o Estado de Direito.

Chamo de novo a atenção: não são os crimes cometidos pela máquina corrupta do Partido dos Trabalhadores para consumar seu projeto de poder anti-democrático – e reduzidos por estes luminares a simples “malfeitos” – os que abalam o Estado de Direito; o que abala o Estado de Direito é a ação da Polícia e da Justiça, transformada numa “conspiração para desestabilizar o governo”.

Para finalizar e acentuar a má-fé que perpassa o texto, o manifesto conclui por afirmar que “o Brasil viveu, em 1964, uma experiência da mesma natureza”, a qual nos custou “um longo período de trevas e de arbítrio”. Qual o fundamento para esta aproximação arbitrária e gratuita?
Subversão das ideias, distorção dos fatos

Consolida-se hoje, de Norte a Sul do Brasil, um sentimento de aversão e repulsa em face da imensa máquina de corrupção instalada pelo PT (e associados) na Petrobras, em diversas outras instâncias dos negócios do Estado e nas instituições, com a finalidade de consumar um projeto de poder totalitário. É bom e louvável que assim seja.

Mas é preciso atentar para um aspecto talvez mais perigoso do que a corrupção material! Uma corrupção intelectual na tentativa de inverter a realidade dos fatos, de destruir a objetividade das análises e de subverter a reta razão dos indivíduos. Não se esqueçam, é este tipo de “intelectualidade” e de “lógica” perversa que constitui o esteio de regimes tirânicos e genocidas, como o da Alemanha de Hitler, o da União Soviética de Lênin e Stalin, o da China de Mao, o do Camboja de Pol-Pot, entre tantos outros.
Manifesto que exala agonia

Convido os leitores a lerem trechos do artigo “Que agonia”, que Vinícius Mota publica na Folha de S. Paulo (23.fev.2015):

“Ao final da longa purgação que apenas se inicia, a Petrobras e todo o complexo político-empresarial ao seu redor terão sido desidratados. Do devaneio fáustico vivido nos últimos dez anos restará um vulto apequenado, para o bem da democracia brasileira.

“As viúvas do sonho grande estão por toda parte. Um punhado de militantes e intelectuais fanáticos por estatais monopolistas acaba de publicar um manifesto que exala agonia.

“O léxico já denota a filiação dos autores. A roubalheira na Petrobras são apenas “malfeitos”. O texto nem bem começa e alerta para a “soberania” ameaçada, mais à frente sabe-se que por “interesses geopolíticos dominantes”, mancomunados, claro, com “certa mídia”, em busca de seus objetivos “antinacionais”.

“Que agenda depuradora essa turma teria condição de implantar se controlasse a máquina repressiva do Estado. Conspiradores antipatrióticos poderiam ser encarcerados, seus veículos de comunicação, asfixiados, e suas empresas, estatizadas para abrigar a companheirada. (…)

“Quanto maior é o peso de empresas estatais na economia, mais amplos são os meios para o autoritarismo. Imagine se o governo ainda tivesse em mãos a Vale, a Embraer e as telefônicas para fazer política. Quais seriam os valores da corrupção, se é que sobrariam instituições independentes o bastante para apurá-los?”

Fonte: IPCO

domingo, janeiro 18, 2015

Empregos sem empregadores.







por Jacinto Flecha





Meu vizinho no metrô fechou a revista, para descer na estação seguinte, mas consegui ler de relance o título de uma página: E agora, Francisco? Estávamos cinco estações antes do meu destino, e a revista desceu junto com o passageiro, impedindo-me de saber quem era esse Francisco, em que enrascada se meteu, como pretende sair dela, qual sugestão a revista lhe apresenta. Sem os dados objetivos do artigo, eu só podia dispor da imaginação, e recorri a ela criteriosamente para avaliar, pelo aspecto dos passageiros, se algo estranho estaria acontecendo com eles.

Se aquele passageiro que acaba de entrar é o tal Francisco, ele concluiu há pouco o curso superior, mas ainda não conseguiu um emprego. Foi bom aluno, tirou boas notas, mas é um tanto tímido para bater de porta em porta. Não tem conhecidos em boas firmas do ramo, e sabe que elas só contratam quem tem experiência prévia, dado negativo no seu caso. Para piorar, o mercado de trabalho encolheu, reduzindo também as suas esperanças. Imagino para ele caminhos como a recomendação de amigos, trabalho como estagiário, ajuda de algum professor. Por onde começar? A timidez não ajuda, e provavelmente levará tempo para encontrar trabalho.

Aquele outro, sentado lá no fundo, parece um Francisco que perdeu o emprego. Junto com ele foram também dispensados vários colegas. Tem experiência no serviço, o que melhora um pouco a perspectiva. Mas as demissões foram exigidas pela situação geral, outras firmas estão fazendo o mesmo, e há muitos concorrentes para as poucas vagas. A situação de desemprego está piorando, e ele não sabe qual será seu futuro.

Este sentado à minha esquerda é um Francisco noivo, com aliança no dedo e casamento já marcado. Confiava no pai da noiva para sustentar o casal no início, mas a empresa do futuro sogro sofreu as consequências da depressão do mercado. Reduzidas drasticamente as disponibilidades, o jeito é esperar situação mais favorável.

Francisco pode ser este que acabou de entrar. Tem cara de quem pretende montar uma empresa. Pediu dispensa do emprego para isso, e estava tudo acertado. Mas dependia de financiamento bancário, e os bancos fecharam as carteiras de empréstimo. Como sempre acontece, pois os bancos param de vender guarda-chuvas exatamente quando começa a chover. E agora ele está sem a cabra e sem a couve.

Aquela que saiu agora parece uma Francisca, empregada doméstica que também perdeu o emprego. Sem culpa própria nem má vontade do patrão, que também foi dispensado e precisou cortar despesas. Ele está procurando trabalho, e prometeu contratá-la novamente quando as coisas melhorarem. Já recorreu a parentes, mas a situação deles também está bastante difícil, e essa fonte secou.

Estávamos chegando à estação onde eu deveria descer, esgotando-se meu tempo livre para levantar mais hipóteses. Mas uma análise retrospectiva mostrou-me que todos os Franciscossubmetidos à minha avaliação estavam em dificuldade para encontrar emprego, devido à depressão do mercado de trabalho. Curioso isso, pois não me consta que esteja tão grande o desemprego, pelo menos não se queixam disso as estatísticas oficiais, sempre benignas consigo mesmas. Estaria próximo o estouro de alguma “bolha”? Os empresários resolveram cancelar os investimentos? Os geradores de empregos se cansaram de pagar impostos extorsivos? Ou estaria algum movimento de origem comunista preparando mais uma investida contra os proprietários?

Tudo isso me pareceu pouco provável, até o momento em que liguei os pontos e me lembrei do Encontro Mundial de Movimentos Populares, promovido no Vaticano por agitadores de formação marxista. A tônica do evento foi o anticapitalismo e a luta de classes. Um conhecido ativista, vermelhão de cara e de pensamento, apresentou como objetivos principais do encontro: “Combater o capital financeiro, os bancos, as multinacionais. Os inimigos do povo são esses. Lutaremos juntos para parar os bancos e as multinacionais”. O panorama era tão vermelho, que o anfitrião precisou justificar-se: “Se eu falo disso para alguns, significa que o Papa é comunista”.

Ora, um fato histórico amplamente comprovado é que a luta de classes marxista distribuiu pobreza e desastres onde se instalou. A esquerda dificulta a atividade dos ricos, mas os maiores prejudicados são sempre os pobres, que perdem empregos e outras fontes de renda. Ela age como se atividades lucrativas fossem crime, mas nenhuma lei racional chega ao disparate de criminalizar o lucro. Claríssima a favor do lucro é a doutrina social da Igreja, mencionada pelo anfitrião com outro propósito.

Eu sempre entendi que perseguir ou prejudicar os geradores de empregos é caminho infalível para reduzir ou eliminar os empregos, e a lógica não me permite pensar de outra forma. Perseguindo os geradores de empregos, o desemprego se torna inevitável. Quem cometerá a tolice de investir em novas empresas ou expandir as existentes, se tudo conspira para gerar prejuízo ao invés de lucro? Imagino que isso seja também evidente para o prezado leitor.

Se os ventos levógiros do Vaticano soprarem para incentivar esses projetos igualitários, anticapitalistas, podemos preparar-nos para aplicar a milhões de outros aquela pergunta da revista:E agora, Francisco, João, Pedro, Leonardo…?

Fonte: IPCO