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domingo, agosto 16, 2015

Quem realmente ganha ao se sediar as Olimpíadas.






Quem realmente ganha ao sediar as Olimpíadas.

por Ryan McMaken


Sediar as Olimpíadas não é mais tão popular quanto costumava ser. No final de julho, a cidade de Boston desistiu de ser candidata à sede das Olimpíadas de 2024. A cidade foi obrigada a cancelar sua candidatura por causa da pressão da população, que se manifestou contra "o endividamento, as remoções e a militarização do espaço público" que os jogos olímpicos impõem a todas as cidades-sede.


Basicamente, os cidadãos e pagadores de impostos da cidade de Boston não estavam interessados em arcar com as contas de uma enorme farra que seria feita em prol dos mais ricos e mais poderosos grupos de interesse de Boston: as empreiteiras que fariam as obras (provavelmente com algum superfaturamento), os políticos que receberiam os "agrados" dessas empreiteiras, as redes de hotéis e a própria mídia.

Ao passo que, em outras épocas, os jogos olímpicos realmente representavam o esporte e a camaradagem internacional, eles rapidamente se transformaram em um bastião do corporativismo, também chamado de "capitalismo de compadrio". O colunista britânico Peter Hitchens afirma que essa transformação começou a ocorrer ainda quando Hitler e Goebbels transformaram os jogos olímpicos "em um espetáculo pomposo, com acerimônia da tocha e tudo mais". Desde então, o Comitê Olímpico Internacional vem se mostrando muito à vontade em manter esse ritual.

Hoje, as Olimpíadas se transformaram em uma maneira de obter favores diplomáticos e de exibir a riqueza e a influência dos governos nacionais. Com efeito, não é de se estranhar que as futuras cidades-sede das Olimpíadas exibam uma propensão ao autoritarismo, com a China e a Rússia competindo entre si para sediar futuros eventos. O Comitê Olímpico Internacional (COI) irá, em breve, escolher entre Cazaquistão e China para sediar os jogos de inverno de 2022. (Oslo, na Noruega, recentemente cancelou sua candidatura após os pagadores de impostos do país protestarem contra as exigências — "típicas de uma diva de cinema", segundo a impressa norueguesa — feitas pelos membros do COI, que queriam benesses financiadas integralmente por impostos).

E faz sentido que regimes autoritários e nacionalistas sejam bem-sucedidos em suas candidaturas para sediar as Olimpíadas. Quanto menos um regime tem de se explicar aos cidadãos pagadores de impostos que arcam com a fatura do evento, maior é a sua facilidade em satisfazer as onerosas exigências do COI; maior é a sua facilidade de fazer as dispendiosas obras e de fornecer as "garantias" exigidas pelo COI, sempre financiadas por impostos.

As ruínas dos últimos jogos olímpicos

Enquanto isso, os pagadores de impostos dos países desenvolvidos já acordaram para os altos custos e para os parcos benefícios de se sediar as Olimpíadas. Muitos já viram estas fotos do jornal britânico The Guardian, que mostram o atual estado das instalações olímpicas construídas para os jogos de Atenas de 2004. Os bilhões de impostos que foram gastos pelo governo grego na construção dessas instalações se evaporaram completamente, e tudo o que restou foram estádios decrépitos e piscinas olímpicas cheias de lama.

Na época da escolha de Atenas, os gregos foram assegurados de que sediar as Olimpíadas representaria a entrada do país em uma nova era de grande prestígio internacional e de sucesso econômico. Desnecessário dizer que tal futuro róseo nunca se materializou. 

Ainda menos tempo se passou desde as Olimpíadas de 2008 em Pequim; porém, como mostram estas fotos, as já abandonadas instalações de Pequim terão, daqui a alguns anos, uma aparência muito semelhante às instalações de Atenas.

E enquanto o Brasil espera o início dos jogos olímpicos de 2016, os brasileiros já estão tendo um vislumbre do que ocorrerá futuramente com as instalações olímpicas que estão sendo construídas: os estádios da Copa do Mundo, construídos ainda no ano passado, já se tornaram gigantescos (e caros) elefantes brancos, como mostra essa reportagem. Um enorme estádio construído para a Copa [o Mané Garrincha, em Brasília] funciona hoje como um estacionamento para ônibus. Vários outros estão simplesmente se deteriorando sob o quente e úmido ar brasileiro.

O alto custo de eventos esportivos

Vários pesquisadores sérios (isto é, pessoas que não estão ali apenas para produzir "declarações impactantes" em prol do governo) já vêm há anos demonstrando que sediar grandes eventos esportivos não produz riqueza para as economias locais.

"Se há uma área na economia em que há consenso entre os economistas, é esta", disse Michael Leeds, um economista da Temple University. "Não há impacto substantivo".

"Por exemplo, se todos os times esportivos de Chicago repentinamente desaparecessem, o impacto sobre a economia de Chicago seria uma fração de 1%", disse Leeds.

Mas grandes eventos esportivos como as Olimpíadas são muito piores, pois eles inevitavelmente geram pesados transtornos para a população local: o comércio local é fechado e há uma pesada militarização da polícia local para propósitos de "segurança". Aqueles que já tiveram a infelicidade de morar próximo a estes eventos sabemque o trânsito pode ficar interrompido por vários dias seguidos, e o comércio dentro do perímetro de segurança perde todos os seus clientes. 

Quando o evento acaba e todos os visitantes vão embora, o comércio local não vê nenhum benefício que compense o maciço fardo tributário e o enorme endividamento gerados pelo evento.

Adicionalmente, o Journalist's Resource compilou uma prestativa lista de sérios estudos sobre os impactos de grandes eventos como os jogos Olímpicos. Conjuntamente, os estudos revelam uma grande ausência de benefícios econômicos em se sediar as Olimpíadas e eventos similares. Há um enorme abismo separando as promessas grandiosas feitas por políticos antes do evento e os benefícios concretos que podem ser observadosapós o evento. Em todos esses estudos, vê-se repetidamente frases como estas:

  • "Os efeitos econômicos de longo prazo do legado dos eventos parecem ser bastante modestos."
  • "O impacto do êxito dos atletas nacionais sobre a felicidade da nação ... é estatisticamente insignificante."
  • "As Olimpíadas de Pequim conseguiram apenas impactos limitados sobre a imagem da cidade."
  • "Os resultados indicam que não houve impacto de longo prazo sobre o comércio ou sobre o emprego."


A politicagem por trás dos eventos: quem realmente se beneficia

Não é de se estranhar que os brasileiros — muitos dos quais vivem sem uma infraestrutura urbana decente, como rede de saneamento — tenham protestado em 2014 contra o uso de bilhões de reais de impostos para a construção de estádios que iriam beneficiar apenas um ínfimo número de brasileiros ricos. 

Assim como os noruegueses, e agora dos bostonianos, os brasileiros sabem a quem esses grandes eventos internacionais — muito especialmente as Olimpíadas — realmente interessam: tudo se resume a prestígio e diversão para a classe política. Os eventos são um parque de diversões para políticos, empreiteiras e grandes empresários, os quais irão se beneficiar imensamente dos lucrativos contratos para construir os estádios, as piscinas e as luxuosas edificações, nas quais farão festinhas privadas com os ricos e famosos.

Por maiores que sejam seus defeitos, os políticos da Noruega ao menos responderam positivamente às demandas dos pagadores de impostos noruegueses, cancelaram a candidatura para sediar os jogos de inverno de 2022. Os políticos de Boston também foram forçados a fazer o mesmo, não sem antes terem tentado ridicularizar as vozes dissonantes como – o prefeito de Boston disse que os opositores à candidatura eram apenas "dez pessoas no twitter" — e dito as platitudes de sempre sobre os supostos benefícios oriundos de obrigar os pagadores de impostos a arcar com mais um projeto político vaidoso.

Após a cidade de Boston ter sido forçada a retirar sua candidatura, o jornal local The Nation corretamente diagnosticou a façanha como sendo "uma vitória dos ativistas e uma derrota para os grandes grupos de interessa da cidade".

Negócios corporativistas como as Olimpíadas ajudam a nos lembrar que há uma grande — aliás, intransponível —diferença entre defender o livre mercado e defender grandes empresas. Empreiteiras e outras grandes empresas sempre estarão muito à vontade em espoliar os pagadores de impostos caso saibam que esse dinheiro irá para seu bolso ou para subsidiar projetos do seu interesse. 

Por outro lado, empreendedores, empregadores e pagadores de impostos que não possuem poder organizacional, que não fazem lobby e que não têm políticos em sua folha de pagamento não têm importância nenhuma para esses "líderes" empresariais que influenciam políticos e suas políticas.

Para a infelicidade destes, muitas pessoas educadas já começaram a perceber o esquema e as negociatas. Estádios bonitos e instalações vistosas, e mega-eventos globais sem dúvida nenhuma são ótimos para as contas bancárias dos ricos e poderosos. Mas aqueles que arcam com a fatura disso tudo não melhoram em nada sua situação.

Ryan McMaken é o editor do Mises Institute americano.

sábado, agosto 25, 2012

Negros segundo o MEC: uma educação que amputa o cérebro






Por José Maria e Silva

Antes mesmo de pisar em solo inglês para disputar as Olimpíadas de 2012, o Brasil já vinha de uma queda de braço com o Reino Unido. Trata-se de uma disputa econômica para ver quem ocupa o sexto lugar da economia mundial. A princípio, a vitória é do Brasil. Com um PIB (Produto Interno Bruto) de 2,45 trilhões de dólares em 2011, o Brasil havia ultrapassado o Reino Unido, tornando-se a sexta maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Todavia, com a desvalorização do real frente ao dólar, ocorrida nos últimos meses, o PIB brasileiro deve cair para o patamar de 2,34 trilhões de dólares, levando o Reino Unido a recuperar a sexta posição, enquanto o Brasil voltará a ser a sétima economia mundial, ainda assim, à frente da Itália, Rússia e Canadá.

Em outras palavras, o Brasil não é mais o longínquo País de 1936, do qual o escritor Stefan Zweig (1881-1942) se despediu, ao cabo de sua primeira visita, pensando: “Percebi que havia lançado um olhar para o futuro do mundo”. E, antes desse elogio do escritor austríaco, o Conde Afonso Celso, em 1900, enumerando as grandezas que o levavam a ufanar-se do Brasil, indagava a respeito do País: “É verdade que a grandeza não deriva da simples posse de dons valiosos, mas do seu sábio aproveitamento. Por que, porém, deixaremos de pôr em ação os nossos prodigiosos recursos?”. Essa pergunta ainda reboa nos ouvidos da nação, que, a despeito de estar entre as sete maiores economias do mundo, ainda se vê como a pátria da esperança e não das realizações.

O brasileiro nunca percebeu o Brasil como obra sua e, sim, como dádiva de Deus. Por isso, o gigante continua deitado em berço esplêndido, comodamente adaptado ao olhar estrangeiro, que sempre viu o País como uma exuberante natureza morta, destituída de pessoas à altura da história. Como confessa Stefan Zweig: “Imaginava que o Brasil fosse uma república qualquer das da América do Sul, que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente, insalubre, com condições políticas de intranquilidade e finanças arruinadas, mal administrada e só parcialmente civilizada nas cidades marítimas, mas com bela paisagem e com muitas possibilidades não aproveitadas — país, portanto, para emigrados ou colonos e, de modo nenhum, país do qual se pudesse esperar estímulo para o espírito”.

A fúria machadiana

Um Machado de Assis branco; assim a Caixa  Econômica Federal
o via num comercial:desinformação?


E esse mal não é novo. Já incomodava o “Escritor Nacional” (como diria o personagem Donga Novais do novelário de Autran Dourado), a propósito de quem a escritora Nélida Piñon cinzelou a máxima: “Se Machado de Assis existiu, então o Brasil é possível”. Escrevendo semanalmente na “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, entre 24 de abril de 1892 e 11 de novembro de 1900, o criador do alienista Simão Bacamarte dedicou uma de suas crônicas a repudiar o viciado olhar estrangeiro que só via no Brasil a paisagem natural, desprezando completamente o povo que habitava essas paragens, como se não fora digno de constar nem mesmo no rodapé da história.
Machado de Assis, o verdadeiro.

Em 20 de agosto de 1893, a propósito de um telegrama de Sarah Bernhardt (1844-1923), em que a atriz parisiense desmentia os conceitos a respeito do Brasil que um jornal argentino lhe atribuíra, Machado de Assis (1839-1908) discorre sobre essa espécie de síndrome do Brasil telúrico, sempre mais próximo da natureza do que da cultura. Para desculpar-se com o Brasil, Sarah Bernhardt havia empregado a expressão “ce pays féerique” (“este país feérico”), razão da crítica de Machado: “Uma das minhas convicções (e tenho poucas) era esta: se algum dia Sarah escrever a nosso respeito, não empregará a velha chapa de todos os viajantes que por aqui passam: ce pays féerique. E tu, amiga minha, tu arrancas-me sem piedade esta ilusão do meu outono”.

Machado de Assis é sarcástico: “O meu sentimento nativista, ou como quer que lhe chamem, —patriotismo é mais vasto, — sempre se doeu desta adoração da natureza. Raro falam de nós mesmos; alguns mal, poucos bem. No que todos estão de acordo, é no pays feérique. Pareceu-me sempre um modo de pisar o homem e as suas obras. Quando me louvam a casaca, louvam-me antes a mim que ao alfaiate. Ao menos, é o sentimento com que fico; a casaca é minha; se não a fiz, mandei fazê-la. Mas eu não fiz, nem mandei fazer o céu e as montanhas, as matas e os rios. Já os achei prontos”.

O escritor lembra, nesta crônica, que há muitos anos havia ciceroneado um estrangeiro no Rio e que este, numa noite em que falaram da cidade e sua história, mostrou desejo de conhecer uma velha construção: “Citei-lhe várias; entre elas a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria buscá-lo para subir o morro do Castelo. Era uma bela manhã, não sei se de inverno ou primavera. Subimos; eu, para dispor-lhe o espírito, ia-lhe pintando o tempo que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera”.

Mas a decepção de sempre aguardava Machado: “Chegamos ao alto, a igreja estava aberta e entramos. Sei que não são ruínas de Atenas; mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: ‘Que natureza que vocês têm!’ (...) A admiração do nosso hóspede excluía qualquer ideia da ação humana. Não me perguntou pela fundação das fortalezas, nem pelos nomes dos navios que estavam ancorados. Foi só a natureza”.

Enegrecimento à força

Se Machado de Assis encarnasse uma de suas criaturas, o defunto-autor Brás Cubas, e se fizesse cronista póstumo deste Brasil da Copa e das Olimpíadas, haveria de notar que as coisas pioraram ainda mais e que já não é apenas a geografia do País que se conforma em ser cartão-postal — hoje, é a própria alma da nação que se entrega feito natureza morta. Como no verso do poeta e crítico piauiense Mário Faustino (1930-1962) — “o olhar recebe a forma e esquece a essência” —, o brasileiro é convocado a encarnar em sua própria alma a aparência que o mundo formou dele: um ser feito só de sentidos, em que o instinto é maior do que a razão.


É o que se percebe, por exemplo, no clipe com a canção-tema das Olimpíadas, dirigido por Estevão Ciavatta, da Pindorama Filmes, e lançado na semana passada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O clipe reforça esse Brasil para inglês ver, expresso pela alma carioca no que ela ter de pior — a absorção, em si mesma, do clima tórrido e insalubre, palco da terrível febre amarela, no passado, e da dengue, no presente, como se essas enfermidades do corpo plasmassem o próprio espírito da gente trêfega, que, de modo bisonho e malemolente, desfila por esse vídeo que vai mostrar ao mundo a imagem do palco oficial das Olimpíadas de 2016.
André Rebouças: engenheiro, advogado,inventor, deputado e
conselheiro do imperador Pedro II e esquecido até dos
movimentos negros

Composta por Arlindo Cruz, Rogê e Arlindo Neto e produzida por Alexandre Kassin, a música-tema “Os Grandes Deuses do Olimpo Visitam o Rio de Janeiro” é interpretada por Diogo Nogueira, Mart’nália, Mr. Catra, Thalma de Freitas, Zeca Pago­dinho, Ed Motta e pelo próprio Arlindo Cruz. Além dos intérpretes, ela reúne vários artistas, como Buchecha, Fernanda Abreu, Fun­do de Quintal, Jorge Aragão, Pedro Luís, Roberta Sá, Ronaldo Bastos, Sandra de Sá, Toni Gar­rido, Zélia Duncan e as Velhas Guardas do Império Serrano e da Vila Isabel. No clipe, aparece até mesmo a escritora Nélida Piñon, fazendo o papel da deusa Atena, em meio a outros artistas, como Fernanda Montenegro e Rodrigo Santoro, que também encarnam personagens mitológicas. Mas a música nada tem a ver com o corpo atlético de Apolo. Ela exalta o corpo relaxado de Baco: “Ficaram na roda de samba até clarear / ficaram até de perna bamba de tanto sambar”.

Os deuses do Olimpo são praticamente os únicos brancos do clipe. A inclusão do negro no imaginário visual do país está sendo feita à custa da exclusão do branco — que, no entanto, representa 47,7% do total de brasileiros, segundo dados do IBGE. Os negros propriamente ditos são apenas 7,6%. Mas como o governo petista — cavalo de santo do racismo de laboratório produzido pela academia — está empenhado em fomentar uma guerra racial no país, os negros passaram a ser chamados oficialmente de “pretos” (termo que até outro dia era amaldiçoado pela ditadura do politicamente correto) e, somados aos 43,1% de pardos — que foram enegrecidos à força — formam um contingente de 50,7% de negros estatísticos. Obviamente, essa população negra só existe na mente pueril das autoridades, teleguiada pela insanidade moral dos intelectuais universitários.

Eugenia às avessas

O clipe das Olimpíadas de 2016 reduz os brasileiros ao perfil simiesco de exportação, em que as gentes dos trópicos são sempre apresentadas como não tendo cérebro, feitas exclusivamente para dançar samba e jogar futebol. E, como sempre, o negro é convocado a fazer esse papel abjeto. Seguindo a política racialista iniciada pelo governo Fernando Henrique e transformada em eugenia às avessas pelo governo Lula, o clipe faz do Brasil um país exclusivamente de negros. E o que é mais grave: uma vez que o País é uma nação de negros, a Prefeitura do Rio entendeu que é também uma nação de bola, pandeiro e cachaça. Só faltou explorar a indefectível imagem das mulatas seminuas esfregando as calipígias formas no rosto louro de algum estrangeiro.

Nos últimos anos, especialmente depois da ascensão de Lula ao poder, o símbolo por excelência do Brasil passou a ser o negrinho de periferia jogando bola nas ruas, utilizado exaustivamente em comerciais de TV. Essa imagem, confesso, me dá asco duplamente: primeiro, por vilipendiar o negro, circunscrito a corpo e sentido, sem cérebro; segundo, por conseguir esconder o verdadeiro e óbvio racismo que está por trás dessa redução do negro a uma espécie de fenômeno bruto da natureza, incapaz de se relacionar com elementos nobres da cultura, como um livro, um violino, uma aquarela. É claro que jogar bola e dançar capoeira não avilta ninguém, mas fazer dessas atividades a expressão por excelência da cultura negra é, sem dúvida, alijar o negro do universo intelectual que produziu o teatro de Shakespeare, as sinfonias de Beethoven, a física de Einstein.
Cruz e Souza, escritor nascido na loura Florianópolis: outro esquecido
dos Movimentos Negros.

Mas, no fundo, é justamente isso o que faz o Ministério da E­ducação no documento “Orien­tações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais”, publicado em 2006, na gestão do ex-ministro Fernando Haddad, atual candidato a prefeito de São Paulo. Citando o jornalista e sociólogo Muniz Sodré, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o documento do MEC enfatiza textualmente: “Na cultura negra o corpo é fundamental”. Só na cultura negra? — cabe a pergunta. Um povo que não considerasse o corpo como fundamental estaria condenado ao suicídio coletivo. Toda cultura zela pelo corpo com sua melhor tecnologia, sejam as raízes cultivadas pela tradição, seja o bisturi adestrado na ciência. Até a cultura judaico-cristã, acusada de vilipendiar o corpo com jejuns e martírios, foi uma precursora da profilaxia, como se vê nas leis de Moisés.

Mas, obviamente, o MEC não está falando da dimensão simplesmente física e médica do corpo. O documento parte de uma concepção demencial do negro, como se ele não fosse um brasileiro como os outros e tivesse acabado de aportar no Brasil do século XXI proveniente da Angola do século XVI. É o que fica claro no restante do texto do MEC: “Na cultura negra o corpo é fundamental. Sobre o corpo se assenta toda uma rede de sentidos e significados. Esse não é apartado do todo, pertence ao cosmos, faz parte do ecossistema: o corpo integra-se ao simbolismo coletivo na forma de gestos, posturas, direções do olhar, mas também de signos e inflexões microcorporais, que apontam para outras formas perceptivas”.

Negro como natureza


Não há limite para a demência do MEC nas orientações que fornece à escola sobre o modo de tratar a cultura negra. Depois de afirmar que “o corpo é a representação concreta do território em movimento” (uma frase digna de hospício), o documento do MEC sustenta: “Ao contrário de uma percepção de mundo na qual a alma é onde reside a força e a possibilidade de continuidade, para uma cultura negra a força está no corpo, não existe essa ideia de uma força interior alavancada pela ação da fé. Toda possibilidade encontra-se no corpo potente que procura suas mediações nas relações que constitui no cosmos, daí o compartilhamento como práxis ser uma questão fundamental para se entender a dinâmica de uma cultura negra no Ocidente”.

Releiam esta absurda frase: “Para uma cultura negra a força está no corpo, não existe essa ideia de uma força interior alavancada pela ação da fé”. Esse documento do MEC fere frontalmente a Constituição ao querer impedir os negros brasileiros — majoritariamente cristãos — de exercer livremente sua crença. E mais do que ofender a fé do negro, o MEC — neste texto vil e moralmente criminoso — vilipendia a própria humanidade do negro ao negar-lhe a alma, o espírito, a razão, deixando-lhe tão-somente o corpo, como faziam os traficantes de escravos. Estarrece saber que esse documento oficial do MEC foi escrito por cinco mulheres — vítimas potenciais de toda cultura centrada na força física. A mulher só tem lugar na civilização, onde impera o cérebro; onde manda o corpo, ela vira repasto do macho, como ocorre entre a maioria dos animais.

Mas o MEC não se contém em suas orientações sobre a cultura negra na escola e chega a reduzir o negro a um mero elemento da natureza. Eis o que diz o documento: “Todos trocam algo entre si, homens, mulheres, árvores, pedras, conchas. Sem a partilha, não há existência possível. Faz-se necessário pensar que a cultura negra não está marcada por uma necessidade de conversão. Existe um sentido de agregação que não gira em torno de uma verdade única”.

Após esse ataque nada sutil ao cristianismo, o MEC regurgita outras bobagens sobre as “comunidades de matriz africana” (isso existe no Brasil?) para concluir: “Uma visão de mundo negra implica a possibilidade de abertura para o mundo, para a vida e principalmente para o outro. Por exemplo, em uma ‘roda de capoeira’, todos que compartilham os códigos são aceitos, desde que se coloquem como parceiros(as) e respeitem a hierarquia”.

Pensamento mágico do MEC

Para essa abominável pedagogia do MEC, herdeira da nefasta autoajuda marxista de Paulo Freire, o negro não é um brasileiro como os demais: cristão, falante do português, eivado dos mesmos sonhos da gente comum, que quer estudar, trabalhar, constituir família, criar filhos, vencer na vida. Para os lunáticos do MEC, o negro é um ser à parte, prisioneiro da materialidade do seu próprio corpo, que se agrega à natureza como um elemento indistinto dela. O MEC está tratando o negro como sempre tratou o índio: arranca-lhe a alma humana, legada pela civilização, e o atira na paisagem de uma cultura telúrica, que, em vez de ser sujeito da natureza, é tão objeto dela quanto os bichos, as pedras, as plantas. Se isso não for racismo, não sei o que seja.

Para completar, o documento do MEC chega a flertar com o pensamento mágico, que vê na cultura do negro brasileiro uma circularidade ancestral. Eis o que diz o texto, sentenciosamente: “E aqui vale uma pequena abordagem relativa à circularidade. Para a cultura negra (no singular e no plural), o círculo, a roda, a circularidade é fundamento, a exemplo das rodas de capoeira, de samba e de outras manifestações culturais afro-brasileiras. Em roda, pressupõe-se que os saberes circulam, que a hierarquia transita e que a visibilidade não se cristaliza. O fluxo, o movimento é invocado, e assim saberes compartilhados podem constituir novos sentidos e significados, e pertencem a todos e todas elas”.
Alguém consegue imaginar cientistas e matemáticos movimentando-se em rodas de capoeira para formular teoremas, descobrir o antibiótico, inventar o avião? Pensar é concentrar-se. Esse negro gregário, plástico, permanentemente aberto ao outro que o MEC inventa não é capaz de criar civilização — é objeto e não sujeito de sua própria cultura.

E aí voltamos ao clipe das Olimpíadas de 2016, da Prefeitura do Rio, que segue integralmente as diretrizes do MEC e das universidades relativas à cultura negra. O clipe mostra um Dionísio caindo de bêbado nas ruas (numa infeliz referência a Baco, que é o antônimo de Olimpíadas) e ainda um trabalhador negro, de calção e sem camisa, carregando uma geladeira ao mesmo tempo em que dança. É essa a imagem que o Brasil vende ao mundo: a de um povo tão esculhambado que não leva a sério nem o trabalho. E, como sempre, cabe ao negro encarnar esse papel vergonhoso.

Como se não bastasse tudo isso, entre os negros chamados a representar o Brasil monocromático do samba está um tal Mr. Catra. Fui pesquisar quem é o sujeito. Ele se diz convertido ao judaísmo apenas para poder praticar a poligamia de Fernandinho Beira-Mar, com várias mulheres e mais de 20 filhos, dos quais ele nem sabe o nome. Suas letras — facilmente encontradas na Internet — colocam as mulheres muito abaixo das cadelas de rua. Impossível citá-las aqui como exemplo. Seria como abrir o esgoto. Não creio que alguma corrente do judaísmo aprove isso. Mas a Prefeitura do Rio, o MEC e os intelectuais universitários aprovam. Tanto que Mr. Catra é um queridinho da mídia.

Feitores de almas

É lamentável que se dê espaço tão nobre para esse tipo de negro, como se ele fosse representativo da cultura afro-brasileira. Os negros legaram ao Brasil, entre muitas outras coisas, o maior poeta simbolista do país, que é também o maior escritor de um dos Estados mais brancos — o poeta Cruz e Sousa (1861-1898), de Santa Catarina. Também legaram um dos maiores músicos eruditos da América Latina, o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), em cuja obra se inspira o próprio Hino Nacional Brasileiro. E seria preciso escrever um verdadeiro tratado de história e sociologia do conhecimento para enumerar todos os mulatos — começando por Machado de Assis, Lima Barreto (1881-1922) e o engenheiro André Rebouças (1838-1898) — que, em plena escravidão, legaram obras fundamentais ao país em todas as áreas.

Mas tanto no clipe das Olímpiadas, quanto nas diretrizes do MEC e nas teses universitárias, não há lugar para esse tipo de negro altivo, cerebral, não gregário. Para racialistas do MEC e da academia, os negros foram feitos para dançar e sorrir. Não sentem tristeza, não sabem o que é reflexão, não se permitem ser introspectivos. E andam sempre em bando, como se não fossem indivíduos, mas reses de algum rebanho. Sua música jamais seria um blues. É sempre um samba, falando ao corpo, jamais à alma. Aliás, todas as manifestações culturais tidas como autenticamente negras pelas universidades — como a capoeira, o hip hop, a roda de samba, o funk — costumam ter essas duas características: são gregárias e dançantes, condenando o negro a viver em bando, superficialmente.
Padre José Maurício Nunes Garcia, maior compositor
das Américas em seu tempo.


Ao tratar o negro dessa forma, a universidade brasileira age da mesma forma que os brutais traficantes de escravos. Foram eles que criaram — na base do açoite — esse negro dançante e sorridente. No livro “A Vida dos Escravos do Rio de Janeiro (1808-1850)”, a historiadora norte-americana Mary Karasch descreve a venda de escravos no Valongo (o grande mercado de negros da corte) e conta que os comerciantes negreiros, a fim de convencer os compradores de que suas peças não estavam com “preguiça” ou depressão, ministravam-lhes estimulantes como pimenta, gengibre e tabaco. “Um segundo remédio para a nostalgia era ‘estimular’ os africanos a cantar e dançar a música de suas terras natais”, acrescenta a historiadora.

“Assim, o som de tambores e palmas e das canções africanas enquanto os escravos dançavam contribuía para a atmosfera do Valongo. Se alguns escravos se recusassem a tomar parte, um feitor forçava-os a dançar, porque acreditavam que a falta de movimento estimularia a nostalgia e assim diminuiria seus lucros. Além disso, exigia-se com frequência que os africanos dançassem de ‘maneira alegre’ durante seu exame físico, a fim de convencer os compradores de sua saúde excelente. Se expressassem seus verdadeiros sentimentos ou apatia e depressão eram açoitados”, conta a historiadora. Felizmente, o negro se libertou dos feitores de corpos; mas precisa se libertar dos feitores de almas — que o espreitam com a escravidão mental.

Fonte: Jornal Opção, Goiânia, 19 de agosto de 2012.