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sexta-feira, julho 07, 2017

Cotas na USP: Estudar em uma universidade de ponta não é seu “direito”


por Flávio Morgenstern (*).





Há uma noção a ser percebida em todo debate sobre cotas: o povo paga a Universidade em troca do conhecimento, e não do privilégio dos alunos.



A USP aprovou pela primeira vez a inclusão de cotas raciais em seu vestibular. A Fuvest, a Fundação para o Vestibular que cuida do processo seletivo de admissão na Universidade de maior prestígio no país, terá até 2021 a obrigação de incluir 50% dos calouros advindos da rede pública e, dentre estes, 37% devem ser pretos (sic), pardos ou indígenas. Brancos se tornam gradativamente proibidos de cursar a USP, não importando seu desempenho, mérito e esforço.

A decisão do Conselho Universitário, cuja sigla é na verdade CO e qualquer tentativa de explicação não ajuda muito, é um adiamento da proposta original, na qual a USP já deveria ter 50% de calouros egressos de escolas públicas já em 2018.


Os grupos de pressão por cotas na USP exigem cotas entupindo a faculdade de pichações, lambe-lambes e cartazes com variegados graus de higiene. Apenas pichações racistas, de autenticidade duvidosa, ganham destaque na mídia.

Já há cotas para o ENEM, tal como cotas para concursos públicos após a conclusão do curso. A USP era uma das últimas universidades paulistas a resistir ao sistema. Basicamente o ITA será a única grande Universidade a adotar o sistema puro de notas. A paulatina proibição de brancos nas Universidades atinge também Unicamp e Unifesp.

A dinâmica que vai proibindo brancos de cursar Universidades como a USP, ou qualquer universidade de ponta, através de cotas, embotada em frases de efeito como “A USP ficará preta” ou “Quantos professores negros você teve?”, possui em seu bojo uma inversão da própria idéia da Universidade.

Modelos de ações afirmativas, que sempre emulam a estrutura das cotas raciais, pretendem corrigir uma injustiça passada punindo indivíduos no presente que nada têm a ver com o passado. É como tentar corrigir a injustiça contra os escravos judeus punindo-se os egípcios modernos e proibindo-os de cursar uma faculdade. Boa parte destes egípcios, por sinal, era e é negra, enquanto vários judeus são loiros de olhos azuis. Ignora-se a mudança política, econômica, cultural (egípcios hoje são em sua maioria muçulmanos, que também escravizaram europeus por mais de um milênio) e mesmo étnica, olhando-se apenas para a casca: a cor de pele.


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A ideia de se “empretar” a USP parece tentar corrigir os problemas da economia escravocrata no Brasil colônia, à força de cotas que impeçam brancos de cursar a Universidade. Historicamente, já há um equívoco enorme: mão de obra italiana, e mesmo japonesa e alemã, veio para o centro-sul do país em meios do século XIX para substituir os escravos africanos, que já ficavam caros.

Gilberto Freyre, antropólogo conservador, em Casa Grande & Senzala, demonstra como os gastos com escravos chegavam a consumir até 80% do orçamento das fazendas. A solução também veio de além-mar: importar mão-de-obra barata de países consumidos pela fome e tirania do Primeiro Mundo. Ao invés de arcar com os custos de vida do escravo, da senzala à alimentação, italianos, alemães, japoneses e afins eram pagos com salário de fome, e tinham de pagar ao proprietário de terras um endividamento de gerações para sobreviver à penúria. Não é preciso conhecer muito além da história de qualquer família italiana do centro-sul do país para descobrir tal obviedade.

Até mesmo historiadores com o ranço marxista costumam atacar a monarquia e realeza brasileira por seu papel na abolição da escravatura, considerando que apenas seguiam o hegeliano “espírito da História”: a escravidão nem era mais propriamente praticada como dantes quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.

Alguém cogita cotas para descendentes de italianos, com sobrenomes como Cavichioli e Gnacarrini (ou Salvatti, ou Palocci)? Ou alemães, variando do Ruschel e Finkler a Hoffmann? Que tal cotas para japoneses?




Para adicionar insulto à injúria, a idéia atual é que uma Universidade de ponta, como a USP, existe para que o estudante tenha bom emprego e dinheiro. Que o único objetivo da Universidade é o bem-estar do aluno, como se fosse um prêmio a ele a conquista da vaga. No caso de uma Universidade pública, é como se toda a sociedade resolvesse premiar alguns indivíduos com uma vida de rei, à qual alguns estão excluídos de jure para desfrutar de tais faustuosas glutonarias.

A verdade é exatamente o oposto. Se egressos da USP costumam ter dinheiro, é pelo peso intelectual de seu trabalho e estudo. A sociedade paga a USP não em troca de premiar seus alunos com adulações, mas para que a sociedade tenha em troca pesquisas médicas, um sistema jurídico avançado, intelectuais de respeito capazes de pensar a sociedade, a natureza, mesmo a estrutura da realidade.

Se tais intelectuais, por isso, conseguem receber mais do que a média, tal fato é apenas uma conseqüência, uma decorrência do mérito. Não o seu objetivo, como quer crer a política de ações afirmativas das cotas. A sociedade paga por Universidades de ponta (ou supostas) como a USP não para ver o João ou a Maria com o carro do ano, mas para ter bons médicos nos hospitais, engenheiros que façam prédios, pontes e aviões que não caiam e para que diplomatas não sejam tapeados ao negociar as riquezas do país com a Rússia.

A premissa oculta de qualquer defensor de cotas é uma experimentação contra tal realidade: para o cotista, só interessa o dinheiro advindo de um diploma da USP, ou de qualquer Universidade. Interessa o seu “direito” de dizer que é da USP, e não o quanto estuda para que a USP seja uma Universidade considerada de ponta, justamente por selecionar os também supostos melhores alunos.




Interessa a quem defende cotas o atalho entre o não-estudo e a grana. Não descobrir um novo remédio ou inventar um combustível barato. O que a política de cotas quer é o “direito” de alguém dizer que faz parte da USP e merece a adulação advinda, não o que pode dar ao mundo. Como se o povo pagasse pela USP tão somente para que ele, o João, ou a Maria, possam dizer que são uspianos, a forceps. Ou mais exatamente, por cota.

As ideologias do reducionismo contaminam justamente Universidades de ponta como a USP, observando apenas a casca, ou a cor de pele. Justamente elas que destróem a educação brasileira, jogando nossos índices acadêmicos para o subsolo do planeta.

Exatamente tais ideologias de acadêmicos perderam o contato com a realidade, enfastiados em suas torres de marfim separadas da vida concreta por um Muro de Berlim ao redor da Cidade Universitária. Elas que tentam corrigir os problemas econômicos, políticos e sociais com um teatrinho: dar cotas a uma parcela para que se sintam uspianos, e abracadabra, os problemas estruturais do país desaparecem no reino da igualdade.

Não há um único professor que não admita que diminuiu o nível das aulas para manter as notas (e não o desempenho, mas novamente o teatro para encobri-lo). É assim que ter um diploma da USP vale cada vez menos, sobretudo nos cursos mais ideológicos, como os da FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

As cotas, no materialismo mais rasteiro que não vê valor, e sim preço, crêem que resolverão os problemas do país transformando a USP em “preta”. O racismo não diminuirá na manobra, nem a USP será mais bem vista. Não é com encenações que algum problema intelectual e de estudo será resolvido na sociedade.




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(*)Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen







quinta-feira, novembro 05, 2015

As quotas raciais não funcionam e reforçam os piores estereótipos contra os negros







As quotas raciais não funcionam e reforçam os piores estereótipos contra os negros.

por André Petry da Veja.





Nesta polêmica e extremamente instigante entrevista ao correspondente de VEJA em Nova York, André Petry, publicada em 9 de março passado, o respeitado economista americano, professor e autor de livros Walter Williams explica por que, em sua opinião, o sistema de cotas não funciona. E se declara de tal forma um adepto radical da liberdade que é capaz de produzir declarações como esta: “Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar. Acredito na liberdade de associação radical. As pessoas devem ser livres para se associar como quiserem”.

“Inclusive para reorganizar a Ku Klux Klan?”, pergunta o repórter. Resposta: “Sim, desde que não saiam matando e linchando pessoas, tudo bem. O verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à ideia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de ideias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que se associem em torno de ideais que julgamos repugnantes.”

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Walter Williams é um radical. Na juventude, preferia o incendiário Malcolm X ao pacifista Martin Luther King. Hoje, aos 74 anos, Williams admira os dois líderes negros, repudia a violência e se define como um libertário radical, como os americanos se referem aos que se opõem ao excesso de ativismo do Estado e propugnam mais liberdade individual.

Fiel ao seu ideário, é contra ações afirmativas e cotas raciais, e diz que o melhor instrumento para vencer a desigualdade racial é o livre mercado: “A economia de mercado é o grande inimigo da discriminação”. Criado pela mãe na periferia de Filadélfia, Williams acaba de publicar uma autobiografia em que narra sua trajetória da pobreza à vida de professor universitário (desde 1980, leciona economia na Universidade George Mason, na Virgínia).

Com 1,98 metro de altura, voz de barítono, bom humor, ele demonstra muita coragem nesta entrevista.

Quem lê sua autobiografia fica com a impressão de que ser negro nos Estados Unidos das décadas de 40 e 50 era melhor do que ser negro hoje.

Claro que os negros estão muito melhor agora, mas não em todos os aspectos. Hoje, se os negros americanos fossem uma nação à parte, seriam a 15ª mais rica do mundo. Entre os negros americanos, há gente riquíssima, como a apresentadora Oprah Winfrey. Há famosíssimos, como o ator Bill Cosby, que, como eu, vem de Filadélfia. Colin Powell, um negro, comandou o Exército mais poderoso do mundo. O presidente dos Estados Unidos é negro. Tudo isso era inimaginável em 1865, quando a escravidão foi abolida. Em um século e meio, fizemos um progresso imenso, ao contrário do que aconteceu no Brasil ou no Caribe, onde também houve escravidão negra.

Isso diz muito sobre os negros americanos e sobre os Estados Unidos.

Em que aspectos a vida dos negros hoje é pior?

Cresci na periferia pobre de Filadélfia entre os anos 40 e 50. Morávamos num conjunto habitacional popular sem grades nas janelas e dormíamos sossegados sem barulho de tiros nas ruas. Sempre tive emprego, desde os 10 anos de idade. Engraxei sapatos, carreguei tacos no clube de golfe, trabalhei em restaurantes, entreguei correspondência nos feriados de Natal.

As crianças negras de hoje que vivem na periferia de Filadélfia não têm essas oportunidades de emprego. No meu próximo livro, Raça e Economia, mostro que em 1948 o desemprego entre adolescentes negros era de 9,4%. Entre os brancos, 10,4%. Os negros eram mais ativos no mercado de trabalho. Hoje, nos bairros pobres de negros, por causa da criminalidade, boa parte das lojas e dos mercados fechou as portas.

Outra mudança dramática é a queda na qualidade da educação oferecida às crianças negras e pobres. Atualmente, nas escolas públicas de Washington, um negro com diploma do ensino médio tem o mesmo nível de proficiência em leitura e matemática que um branco na 7ª série. Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.

O Estado de bem-estar social, com toda a variedade de benefícios sociais criados nas últimas décadas, não ajuda a aliviar a situação de pobreza dos negros de hoje?

Todos os economistas, sejam eles libertários, conservadores ou liberais, concordam que sempre cai a oferta do que é taxado e aumenta a oferta do que é subsidiado. Há anos, os Estados Unidos subsidiam a desintegração familiar. Quando uma adolescente pobre fica grávida, ela ganha direito a se inscrever em programas habitacionais para morar de graça, recebe vale-alimentação, vale-transporte e uma série de outros benefícios.

Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Muitas eram mandadas para o Sul, para viver com parentes. Hoje, o Estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que nos anos da minha adolescência entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%. O salário mínimo, que as pessoas consideram uma conquista para os mais desprotegidos, é uma tragédia para os pobres. Deve-se ao salário mínimo o fim de empregos úteis para os pobres. A obrigação de pagar um salário mínimo ao frentista no posto de gasolina levou à automação e ao self-service. O lanterninha do cinema deixou de existir não porque adoramos tropeçar no escuro do cinema. É por causa do salário mínimo.

Na África do Sul do apartheid, os grandes defensores do salário mínimo eram os sindicatos racistas de brancos, que não aceitavam filiação de negros. Eles não escondiam que o salário mínimo era o melhor instrumento para evitar a contratação de negros, que, sendo menos qualificados, estavam dispostos a trabalhar por menos. O salário mínimo criava uma reserva de mercado para brancos.

As ações afirmativas e as cotas raciais não ajudaram a promover os negros americanos?

A primeira vez que se usou a expressão “ação afirmativa” foi durante o governo de Richard Nixon (1969-1974). Os negros naquele tempo já tinham feito avanços tremendos. Um colega tem um estudo que mostra que o ritmo do progresso dos negros entre as décadas de 40 e 60 foi maior do que entre as décadas de 60 e 80. Não se pode atribuir o sucesso dos negros às ações afirmativas.

As ações afirmativas não funcionam?

Os negros não precisam delas. Dou um exemplo. Houve um tempo em que não existiam jogadores de basquete negros nos Estados Unidos. Hoje, sem cota racial nem ação afirmativa, 80% são negros. Por quê? Porque são excelentes jogadores. Se os negros tiverem a mesma habilidade em matemática ou ciência da computação, haverá uma invasão deles nessas áreas. Para isso, basta escola, boas escolas, grandes escolas.

Há um aspecto em que as ações afirmativas são até prejudiciais. Thomas Sowell, colega economista, tem um estudo excelente sobre o assunto. Mostra como os negros se prejudicam com a política de cotas raciais criada pela disputada escola de engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das mais prestigiosas instituições acadêmicas dos Estados Unidos. Os negros recrutados pelo MIT estão entre os 5% melhores do país em matemática, mas mesmo assim precisam fazer cursos extras por alguns anos. Isso acontece porque os brancos do MIT estão no topo em matemática, o 1% dos melhores do país. Os negros, mesmo sendo muito bons, estão abaixo do nível de excelência do MIT. Mas eles podiam muito bem estudar em outras instituições respeitáveis, onde estariam na lista dos candidatos a reitor e sem necessidade de cursos especiais.

Por causa de ações afirmativas, muitos negros estão hoje em posição acima de seu potencial acadêmico. Se você está aprendendo a lutar boxe e sua primeira luta é contra o Mike Tyson, você está liquidado. Você pode ter excelente potencial para ser boxeador, mas não dá para começar contra Tyson. As ações afirmativas, nesse sentido, são cruéis. Reforçam os piores estereótipos raciais e mentais.

O senhor já teve alguma experiência pessoal nesse sentido?

Quando eu dava aula na Universidade Temple, em Filadélfia, tive uma turma com uns trinta alunos, todos brancos, à exceção de um. Nas primeiras aulas, eles me fizeram uma bateria de perguntas complexas. Você pode achar que era paranoia minha, mas eu sei que o objetivo deles era testar minhas credenciais. A cada resposta certa que eu dava, eu podia ver o alívio no rosto do único aluno negro da classe.

De onde vinha esse sentimento, esse temor do aluno negro de que seu professor, sendo negro, talvez não fosse suficientemente bom? Das ações afirmativas. Não entrei na universidade via cotas raciais. Por causa delas, a competência de muitos negros é vista com desconfiança.

Num país como o Brasil, onde os negros não avançaram tanto quanto nos Estados Unidos, as ações afirmativas não fazem sentido?

A melhor coisa que os brasileiros poderiam fazer é garantir educação de qualidade. Cotas raciais no Brasil, um país mais miscigenado que os Estados Unidos, são um despropósito. Além disso, forçam uma identificação racial que não faz parte da cultura brasileira. Forçar classificações raciais é um mau caminho. A Fundação Ford é a grande promotora de ações afirmativas por partir da premissa errada de que a realidade desfavorável aos negros é fruto da discriminação.

Ninguém desconhece que houve discriminação pesada no passado e há ainda, embora tremendamente atenuada. Mas nem tudo é fruto de discriminação. O fato de que apenas 30% das crianças negras moram em casas com um pai e uma mãe é um problema, mas não resulta da discriminação. A diferença de desempenho acadêmico entre negros e brancos é dramática, mas não vem da discriminação. O baixo número de físicos, químicos ou estatísticos negros nos Estados Unidos não resulta da discriminação, mas da má formação acadêmica, que, por sua vez, também não é produto da discriminação racial.

Qual o meio mais eficaz para promover a igualdade racial?

Primeiro, não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei, mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa.

A melhor forma de permitir que cada um de nós – negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês – atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação. Mas, para ter um livre mercado que mereça esse nome, é recomendável eliminar toda lei que discrimina ou proíbe discriminar.

O senhor é contra leis que proíbem a discriminação?

Williams: é fácil defender a liberdade de expressão quando dizem o que julgamos positivo e sensato

Sou um defensor radical da liberdade individual. A discriminação é indesejável nas instituições financiadas pelo dinheiro do contribuinte. A Universidade George Manson tem dinheiro público. Portanto, não pode discriminar. Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar. Acredito na liberdade de associação radical. As pessoas devem ser livres para se associar como quiserem.

Inclusive para reorganizar a Ku Klux Klan?

Sim, desde que não saiam matando e linchando pessoas, tudo bem. O verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à ideia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de ideias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que se associem em torno de ideais que julgamos repugnantes.

O mesmo vale para a liberdade de expressão. É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas.

O senhor exige ser chamado de “afro-americano”?

Essa expressão é uma idiotice, a começar pelo fato de que nem todos os africanos são negros. Um egípcio nascido nos Estados Unidos é um “afro-americano”? A África é um continente, povoado por pessoas diferentes entre si. Os vários povos africanos estão tentando se matar uns aos outros há séculos. Nisso a África é idêntica à Europa, que também é um continente, também é povoada por povos distintos que também vêm tentando se matar uns aos outros há séculos.

A presença de Obama na Casa Branca não ajuda os negros americanos?

Na autoestima, talvez. Mas não por muito tempo, o que é lamentável. Em 1947, quando Jackie Robinson se tornou o primeiro negro a jogar beisebol na liga profissional, ele tinha a obrigação de ser excepcional. Hoje, nenhum negro precisa ser tão bom quanto Robinson e não há perigo de que alguém diga “ah, esses negros não sabem jogar beisebol”. No caso de Obama, vale a mesma coisa. Por ser o primeiro negro, ele não pode ser um fracasso. O problema é que será. Aposto que seu governo, na melhor das hipóteses, será um desastre igual ao de Jimmy Carter. Vai ser ruim para os negros.

segunda-feira, maio 19, 2014

EUA: Suprema Corte aprova fim de cotas raciais no Michigan










EUA: Suprema Corte aprova fim de cotas raciais no Michigan.

por Luis Dufaur


A Suprema Corte de justiça dos EUA – a mais alta instância judicial do país – deu ganho de causa à proibição de cotas raciais nas universidades públicas do estado de Michigan, noticiou a “Folha de S.Paulo”, 23-4-14.

Em 2003, um tribunal aprovou a política de cotas na Faculdade de Direito da Universidade de Michigan. A medida de seleção racial foi anulada por uma emenda da Constituição estadual aprovada em plebiscito popular em 2006.

Porém, os “democráticos” defensores da classificação e triagem dos alunos pela cor da pele – a chamada “discriminação positiva” ou “ações afirmativas” – apelaram à Justiça visando abafar a vontade popular.

Agora, a decisão da última instância vetou qualquer “tratamento preferencial a indivíduos ou grupos com base em raça, sexo, cor, etnia ou origem” na admissão em instituições públicas de ensino superior de Michigan. Quer dizer, o fim das cotas raciais.



Na prática, o acórdão estende seus efeitos a mais sete estados americanos que adotaram proibições análogas. Entre eles, a Califórnia, a Flórida, a Arizona e o Nebraska.

Grupos contrários às cotas raciais agora vão se sentir animados a realizar plebiscitos em outros estados que veem essa prática como odiosa.

A Corte estimou “não ter autoridade” para invalidar a legislação aprovada no referendo, a qual contou com 58% dos votos.

A juíza Sonia Sotomayor, representante da tendência ideológica “progressista”, defendeu a posição derrotada e criticou a Constituição do país.

O jornal “The New York Times”, caixa de ressonância habitual do presidente Obama e das causas da esquerda, estrebuchou contra a sentença.

O jornal repetiu o realejo de que a suspensão das cotas nas universidades de Michigan causou uma diminuição de 25% dos alunos racialmente julgados “negros”.

O argumento foi quase um cavalo de batalha dos partidários das cotas raciais. Mas acaba reconhecendo que entravam nos altos institutos de educação pública estudantes que não tinham méritos nem nível para fazê-lo.

O presidente da Corte Suprema, ministro John Roberts Jr., julgou que o “caminho para acabar com a discriminação é acabar com a discriminação com base na raça”, numa resposta, aliás, de palmar bom senso e lógica elementar, endereçada à juíza “antirracista” Sonia Sotomayor

Fonte : IPCO

sábado, novembro 03, 2012

Cotas, o futuro do Brasil é isso:.












por Nilo Fujimoto



(título original: Ah! Eles querem estudar?)


Eles querem estudar! Talvez seja por isso que um grupo de estudantes e professores depredaram o edifício da Reitoria da Universidade Federal do Ceará, numa manifestação inequívoca de suas aptidões e qualidades acadêmicas…

Não encontraram outras opções mais adequadas ao proceder universitário como, por exemplo, a redação de um manifesto contundente com sóbrios, sólidos e irrefutáveis argumentos em favor de suas posições?

O que motiva tal manifestação violenta é “a implantação total do sistema de cotas na universidade, o qual determina que 50% das vagas sejam reservadas para os alunos de escolas públicas.” (G1, 30/10)

O Conselho Universitário (Consuni) da Universidade Federal do Ceará decidiu implantar 12,5% a cada ano até 2014, prazo final dado pelo governo federal para implementação total dos 50% de cotas.

Para os estudantes, o prazo não é suficiente: “tendo em vista situação de alunos de escolas públicas, que têm menos condições de disputar um vestibular, a lei precisa ser integralmente aplicada já em 2013″, afirma o manifestante Edir Soares, estudante que participou do protesto na manhã desta terça-feira (30/10). Altruísta, não?

O que parece estar por detrás do movimento das cotas é o nivelamento da sociedade por baixo. Por que não fazer uma política de incremento do ensino secundário para os alunos de escolas públicas que se mostram mais aptos, para que assim possam competir com igualdade de condições com os alunos de escolas particulares?

A resposta é simples: os marxistas não querem resolver a situação, mas levar à cabo a luta de classes preconizada por seu mestre. Eis a causa do uso da violência dos estudantes no Ceará, certamente instrumentalizados por professores marxistas…

Fonte: IPCO

Abaixo, fotos de protesto em Brasília contra as "cotas". As fotos são da revista Carta Capital, uma publicação a serviço do governo. A revista, capitaneada por Mino Carta, tenta desmerecer toda e qualquer manifestação contrária ao governo.

Estudantes de escolas particulares protestam em frente ao Palácio do Planalto contra o regime de cotas nas universidades públicas. Fotos: Agência Brasil
Para eles, o sistema de cotas é parte do “jeitinho brasileiro”


Os cara-pintadas em Brasília agora têm outra bandeira





segunda-feira, outubro 22, 2012

Dívida histórica.





por Percival Puggina



A tal dívida histórica não encontra devedores vivos de quem possa ser cobrada. É tolice e é anti-histórico.

Tem sido dito que a política de cotas, raciais ou sociais, resgata uma dívida histórica. Dívida de quem? Dos brancos para com os negros e os índios, afirmará alguém com furor justiceiro. Pergunto: dos brancos assim, tipo todo mundo? Milhões de brasileiros descendem de europeus emigrantes de seus países de origem por injustiças que contra eles se praticavam. Nada tinham com a encrenca da escravidão aqui. Também são devedores? Muitos brancos portugueses foram enviados a contragosto para o desterro no Brasil, onde arribaram tão "pelados" quanto os índios. Seus descendentes também têm dívida a pagar? Segundo essa linha de raciocínio, sou conduzido a crer que eu teria uma dívida histórica a cobrar da Itália e que os descendentes dos desterrados portugueses teriam outra na velha terrinha, ora pois. Absurdo.

Tudo que é dado tem um preço. Vejamos como se aplica essa constatação a uma política de cotas. Quando uma universidade pública as estabelece, ela está dando a determinado grupo social a possibilidade de acessar seus cursos mediante notas inferiores às dos candidatos que não pertencem a tal grupo. Trata-se de uma regalia custeada por concorrentes que não integram o grupo privilegiado. A fatura da vantagem concedida vai para aqueles que poderiam ter ingressado e não ingressaram. Isso é inquestionável.

Quem concorda com a lei de cotas, embora motivado por nobres intenções, olha para um prato da balança da justiça e fecha os olhos para o outro. Vê o beneficiado e desconsidera o prejudicado. Por quê? Não sei. Jamais topei com um vestibulando do grupo fraudado que considere justa a adoção das cotas. O apoio a tais políticas, concedido por quem nada tem a perder com elas, é generosa barretada com o chapéu alheio. É dar presente com o cartão de crédito dos outros. Não é justo. Nem honesto.

A tal dívida histórica não encontra devedores vivos de quem possa ser cobrada. É tolice e é anti-histórico. O que o Brasil tem é uma necessidade de resolver seus desajustes sociais. Admitir que essa tarefa existe implica assumi-la como dever moral da nação. Vale dizer, de todos os brasileiros, como membros de uma sociedade que estampa infames desníveis. A miséria, a ignorância, a falta de oportunidades não têm cor de pele. O absurdo da lei de cotas é jogar no colo do estudante branco da escola particular o ônus dessas correções. A responsabilidade maior e a maior potencialidade material para combater tais desníveis é da política, do Estado brasileiro, mediante instrumentos não expropriatórios. Aliás, no que concerne à educação, a política de cotas equivale a pretender resolver o problema de fundações de um prédio nivelando seu telhado. Para cada formando pela política de cotas, todo ano, em virtude das muitas deficiências dos ensinos Fundamental e Médio, a base do sistema afasta do tecido social centenas de crianças cuja educação está sob responsabilidade de quem? De quem pretende enxugar gelo, em nome da justiça, com a lei de cotas.

Enchem páginas de jornal as matérias sobre o péssimo nível de ensino no país, o abandono dos cursos voltados para a educação e o quanto isso obsta nosso desenvolvimento. A melhoria do ensino básico tem custo. E é mais barato posar de justiceiro com os direitos alheios do que fechar as torneiras pelas quais se esvaem recursos que deveriam servir para acabar com a injustiça ali onde ela crava perversas raízes sobre o destino de milhões de crianças.

Fonte: Jornal Zero Hora


domingo, julho 29, 2012

COTAS RACIAIS - UMA IDEIA ELITISTA.




por Percival Puggina(*)




A Universidade Federal do Rio Grande do Sul avaliou o desempenho acadêmico dos alunos cotistas e não cotistas e concluiu, segundo matéria de Zero Hora em 25 deste mês, que "os cotistas negros apresentam índices consideravelmente piores". Para cada aluno admitido pelo ingresso universal em 2008, com desempenho insuficiente, há 2,4 cotistas negros na mesma situação. Em percentuais, o mau desempenho é de 14,8% no sistema geral e de 34,8% entre os autodeclarados negros.

Tal informação contradiz o que ouvi em sucessivos debates ao longo dos últimos anos, segundo os quais tudo ia muito bem, graças a Deus. Não havia diferença entre cotistas e não cotistas. Sabe-se agora que há, sim, como seria previsível. A universidade não serve - e não deve, mesmo, servir - para suprir deficiências na escolaridade anterior de seus alunos.

As desigualdades sociais em meio às quais vivemos excedem, em muito, o tolerável, mesmo se considerarmos que há uma efetiva desigualdade natural entre os indivíduos. Nosso índice Gini (que mede a distribuição da renda nos países) é comparável ao das sociedades com desenvolvimento mais retardado. Chega a ser um disparate alguém observar o Brasil nessa perspectiva e deduzir que o mal está no acesso às universidades públicas. Não está! É na base do sistema de ensino, no bê-á-bá da cadeia produtiva da Educação, que ele se aloja e opera.

Só os gênios que comandam a Educação nacional não sabem que na vida real, na vida do mau emprego, do subemprego e do desemprego, no mundo do trabalho árduo e do salário baixo, para cada graduado de cor negra que recebe seu diploma no último andar do sistema, dezenas de crianças estão entrando pelo térreo para padecer as mesmas deficiências que inspiraram a ideia das cotas. Atrás do conta-gotas racial percebido nos atos de formatura, há uma hidrelétrica de alunos negros e pobres, recebendo o precário tipo de educação que a nação fornece a seus alunos pobres e negros. E ninguém vê isso? De nada nos servem os tantos bons exemplos de outros povos que superaram desigualdades internas maiores do que as nossas e emergiram como potências no cenário industrial e tecnológico, através de um bom sistema de ensino, do trabalho e do mérito?

Ademais, o próprio STF, ao contrário do que vem sendo repetido equivocadamente, deixou implícito que o sistema de cotas raciais é inconstitucional. "O quê?" perguntará espantado o leitor. "Mas não foi exatamente o contrário?". Estive bem atento durante toda a sessão em que o STF admitiu o sistema. Percebi que os ministros falaram muito mais sobre Sociologia, História do Brasil, Antropologia e Política do que sobre a Constituição. Nesse particular, nesse pequeno detalhe, seguiram o voto do relator, ministro Lewandowski. Quanto a este, era inevitável que, em algum momento, abrisse a Carta da República e topasse ali com coisas como a igualdade de todos perante a lei e com o preceito (quase universal no mundo civilizado) de que ninguém será discriminado, entre outras coisas, por motivo de raça. Como saiu o ministro dessa enrascada? Afirmou que um sistema de cotas raciais precisa ser transitório, temporário, devendo viger até que desapareça a situação que lhe deu causa. Não sendo assim, seria inconstitucional. Ora, isso significa que o conta-gotas funcionará até que se esvazie a hidrelétrica. O preceito da não discriminação persiste, mas perde vigência por prazo impreciso, embora não infinito. Ah! Se isso não é um truque na cartola do politicamente correto, então vou ter que pedir para voltar à universidade por um sistema de cotas para deficientes mentais. E mais: doravante, pelas letras da mesma oratória, todo concurso para magistratura, todo certame intelectual ou cultural, toda prova de habilitação, que não previr cotas raciais será provisoriamente inconstitucional. Arre, STF!

O Brasil importa técnicos e trabalhadores qualificados de nível médio porque não oferece esse tipo de formação aos seus jovens! Enquanto isso, as políticas de desenvolvimento social via universidade fazem o quê? Reproduzem a estúpida estrutura, tão do agrado da elite brasileira: um bacharelado, um canudo, um título de doutor, uma festa de formatura. E está resolvido o problema dos pobres. Até parece ideia de rico de novela.



(*)Percival Puggina (67) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões

quarta-feira, maio 16, 2012

Professores exigem menos de estudantes das minorias raciais.





Um novo estudo descobriu que as minorais raciais podem estar recebendo feedbacks mais positivos e menos críticos de seus professores. Seria essa uma maneira de “compensar” outros preconceitos?

A pesquisa foi conduzida nos estados americanos de Nova York, Nova Jérsei e Connecticuti. Os cientistas analisaram 113 professores brancos de escolas de ensino fundamental e médio de locais variados, como escolas públicas, bairros majoritariamente brancos, ou racialmente mistos, etc.

O estudo concluiu que os professores dão um feedback (uma correção) menos crítica a estudantes negros ou latinos, em comparação aos brancos. Claro que esse feedback é útil e tem a intenção de ajudar o aluno, mas ainda assim, o maior problema é que, por não serem mais “duros”, eles podem impedir um maior crescimento por parte de alunos da minoria racial.

“As implicações sociais destes resultados são importantes. Muitos estudantes minoritários podem não estar recebendo conselhos de seus instrutores que estimulem o crescimento intelectual e promovam realizações”, disse o pesquisador Kent Harber, professor de psicologia.
Ou seja, a falta de crítica pode fazer com que os alunos da minoria racial pensem que o que eles fizeram está bom, que não precisam melhorar, ou, pelo menos, não serve de estímulo para que a pessoa cresça mais intelectualmente.

Em um trabalho de igual mérito, feito por estudantes brancos, negros e latinos, os primeiros são mais estimulados, ou seja, recebem mais crítica para que possam fazer melhor, e os últimos recebem mais elogios. Isso pode explicar a diferença entre esses grupos (porque negros e latinos têm um “desempenho pior”).

O estudo

Os pesquisadores deram um trabalho feito por eles para os professores corrigirem, que estava mal escrito. Em alguns casos, eles disseram que um estudante branco o tinha feito, em outros, que um negro ou latino tinham feito o trabalho. Os professores tinham que corrigi-lo, e sua correção iria diretamente para o “aluno”.

Com as correções em mãos, os pesquisadores perceberam que os professores eram propensos a elogiar e menos propensos a criticar o trabalho se acreditavam que um estudante minoritário o tinha escrito.
Entre os fatores que influenciavam esse padrão, estava o apoio que o professor recebia de colegas e da administração da escola. No caso de um estudante negro, os professores que não tinham apoio eram mais propensos a “pegar mais leve”. No entanto, quando os professores pensaram que o estudante era latino, o fato de terem apoio não importou: eles mostraram a tendência de um feedback positivo do mesmo jeito.

O pesquisador acredita que isso tem consequências não só nas escolas americanas (e, se a mesma atitude for verdade em outros países, em escolas do mundo todo), mas também no mercado de trabalho.
Os governos têm procurado diminuir a lacuna de desempenho escolar entre os brancos e as minorais raciais. No Brasil, por exemplo, existe o sistema de cotas que ajuda estudantes de escolas públicas, negros e outros a conquistarem lugares nas universidades. Porém, de que adianta tudo isso, se eles não estiverem recebendo o mesmo tratamento?

Segundo Harber, essa atitude dos professores pode “inverter sucessos sociais conquistados através de legislação, jurisprudência, e mudança de atitudes culturais” em relação às minorias.
As tentativas de resolver essa diferença de desempenho escolar (como desigualdades no financiamento, racismo, etc) precisam levar em conta também a natureza do feedback instrucional dos professores brancos para estudantes de minorias.

A conclusão que fica é: os professores podem estar interferindo no futuro dos estudantes minoritários ao não exigirem deles o mesmo que de estudantes brancos. Se você é professor, vale uma reflexão
[LiveScience, ScienceDaily] Fonte:hypescience.com

E, como tudo o que é ruim sempre é copiado no Brasil, aguardemos as consequências.

domingo, maio 06, 2012

O QUE O STF PETISTA VEM FAZENDO SOB NOSSOS OLHOS.




SAPATO 42 PARA PÉ 37.(titulo original do artigo)

Por Percival Puggina(*).




Gosto de analogias. E foi essa que me ocorreu quando li, em Zero Hora,  que sobram vagas para cotistas na UFRGS. Pode? No Brasil pode. Calça e sai andando.

Aliás, com as tais de cotas, criou-se uma inadequação nas duas pontas do fio em que se enreda e desequilibra a sociedade brasileira. Quem assistisse às sessões nas quais o STF se manifestou pela constitucionalidade das cotas no vestibular da UnB poderia imaginar que a Lei Áurea, decorridos 124 anos, ganhava um upgrade decisivo e definitivo. Era como se a desigualdade social causada pelos séculos de escravidão estivesse sendo resolvida por dez homens e uma sentença. Não, não estou exagerando. Quem exagerou na retórica e na cena foram os ministros. Com a adoção de cotas, reiteradamente proclamada como transitória para não ser inconstitucional (palavras dos próprios, seguindo o relator), servia-se, enfim, "justice sociale à la suprême" no cardápio da universidade brasileira. Tudo provisório porque, graças a essa breve degustação, o Brasil logo apresentaria ao mundo uma fisionomia mais simétrica. Não fosse provisório, seria inconstitucional, claro... Retórica de fancaria, enganosa, mas ao gosto da tese e da turma.

É bom que saibamos: hoje, constitucional é o que a maioria do STF tem por justo. Ou por necessário. Ou por conveniente. Ou por correspondente ao clamor das ruas. Ou por imperioso ensinar às ruas. A escolha de qualquer desses critérios depende do caso e da opção de cada ministro. Basta, depois, para explicar o inexplicável, pinçar os dóceis princípios constitucionais e manipulá-los como massinha de moldar. Não subestimem a situação aplicando-lhe certas ideias que andam por aí a respeito de insegurança jurídica. A coisa é bem mais grave. Querem uma evidência? Os canais de tevê das duas casas do Congresso perdem audiência. É no canal do STF que acontece a real action, onde estão as novas celebridades, e onde as grandes questões se decidem. Que parlamento, que nada! E não esqueçam: o sistema de indicação dos ministros do Supremo foi concebido quando a reeleição presidencial era vedada. Em tese, a cada quatro anos mudariam os critérios de escolha. Hoje, oito dos onze membros da corte foram recrutados pela corrente política que encilhou o poder há mais de uma década.

Por outro lado, enquanto sobra sapato na ponta da universidade, a ponta do ensino fundamental anda de pé no chão. Para cada beneficiário de cotas raciais em atos de formatura do Ensino Superior, centenas de crianças com produção de melanina semelhante à do formando estão recebendo uma educação inicial de péssima qualidade. É equivocado afirmar que se cristalizam assim as injustiças sociais. Assim elas se reproduzem! Multiplicam-se, celeremente, na falta de planejamento familiar e numa realidade socioeducacional que só é vista de julho a setembro, em ano de eleição.

O STF deu mais uma prova de que a justiça discrimina. Se duvidar, pergunte às ruas. No subsolo do Brasil, nas senzalas do século 21, quem não faz discriminações, raciais ou sociais, leitor, é a injustiça. Ali, brancos, pretos e pardos são irmãos na miséria. Porque ocupam a franja do tecido social, dispõem do mesmo ensino público de péssima qualidade, abandonado pelo caminho por milhões de crianças, analfabetas funcionais, que ficam sem o molde da chave que abriria a porta dos salários dignos e dos méritos acadêmicos. Não fosse bastante, ainda serviram como cobaias para experiências pedagógicas tão fajutas e ruinosas quanto ideológicas e renitentes.


* Percival Puggina (67) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões.

sexta-feira, abril 27, 2012

As cotas raciais e o Leito de Procrusto.






por 
Roberta Fragoso Kaufmann


Teseu e Procrusto








Na mitologia grega, conta-se a história de Procrusto, famoso ladrão que além de surrupiar os transeuntes que passavam em seu território, submetiam-nos a um tratamento cruel e degradante: a necessidade de enquadrá-los em um leito de ferro, cortando-lhes a cabeça ou as pernas, acaso ultrapassassem a cama. A lenda de Procrusto é uma metáfora sobre a tentativa de padronização, ainda que lastreada apenas em artimanhas e em sortilégios.

E aqui estamos, em pleno século XXI, vivenciando as agruras da intolerância e da heteroidentificação pretendida por meio dos Tribunais Raciais. De composição secreta e com base em místicos critérios, são as “Comissões Raciais” quem vão estabelecer os rótulos identitários que irão acompanhar os candidatos às cotas raciais pelo resto de suas vidas.

Alguém poderia me ensinar qual é o limite exato entre um pardo e um branco no Brasil? Será que preciso andar com uma cartela de cores igual à das lojas de pintura para que esta definição seja precisa e possa fazer algum sentido? Em um país miscigenado desde a colonização, como o Brasil, a definição da mestiçagem revela-se completa loteria. Somos ao cabo todos mestiços e o que dantes era motivo de orgulho, momentaneamente parece ser a grande chaga e a prova do racismo no Brasil: a dificuldade de encaixar-se em meio às pretensas categorias raciais. Não por acaso, na única pesquisa de amostragem em que o entrevistado foi livre para dizer à que cor pertencia, o resultado em terras tupiniquins foram impressionantes 135 possibilidades, em uma mostra criativa que nem o Aurélio é capaz de reproduzir.



Esta exposição se torna melancólica em relação ao nosso país quando se percebe que se a Corte Constitucional conceder o beneplácito à instituição das políticas de cotas raciais em Universidades, como é o caso hoje em julgamento, paulatinamente as cotas raciais serão estabelecidas em todos os setores sociais, como pretendido pela Secretaria de Igualdade Racial, beneficiando tão-somente uma casta de privilegidos de classe média e alta de negros que não seriam os mais necessitados da ajuda estatal. Consta do ideário de pleitos da referida Secretaria do Racismo Institucional a instituição de cotas raciais em partidos políticos, no mercado de trabalho, na publicidade e na propaganda, além de atendimento diferenciado no Sistema Único de Saúde e do estabelecimento de indenizações para cada descendente de escravo (?) no Brasil.

Em vez de observarmos o Brasil como exemplo para o mundo do século XXI, a partir do convívio harmônico entre brasileiros natos e imigrantes das mais diferentes culturas, religiões e cores, ativo absolutamente estratégico nesse século de tantos conflitos, pretende-se promover o dissenso e a divisão de nossa unidade nacional. As tentativas de racialização e de imposição de categorias estanques colocam em risco justamente o que temos de diferente – e de melhor – em relação aos outros países.

Nós não precisamos copiar um modelo que foi pensado para resolver o problema do racismo institucionalizado e praticado em outros países. Podemos ser criativos e elaborarmos um modelo próprio de ação afirmativa para a necessária integração dos negros carentes no Brasil. Cotas sociais, sim! Cotas raciais, não! Porque a pobreza, no Brasil, é a grande causa da segregação.