Mostrando postagens com marcador reacionarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reacionarismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Reaça não é ofensa.








(titulo original: Parem de achar que “reacionário” é ofensa.)

por Flavio Morgenstern




Gregório Duvivier escreveu em 31 de março de 2014 um artigo na Folha chamado “Moda Reaça” (se tiver estômago, clique aqui e leia), explicando como deve ser o vestuário dos “reacionários”. Segundo Duvivier, o vestuário reaça é farda verde-oliva do vovô com manchas de sangue, e é preciso ser branco, heterossexual, católico e rico para ser “reaça”.

Por sorte, a Folha explica que Gregório Duvivier merece nos brindar com suas imprescindíveis opiniões por criar o canal de “humor” Porta dos Fundos.

Eu sou especialista em cultura trash, vi todas as temporadas de Beavis & Butt-Head, fiz minha formação moral com Chiclete com Banana, estudo e anoto todos os palavrões que possa aprender com Californication, Angry Video Game Nerd e Olavo Pascucci. Mas eu nunca sei o que são essas coisas como “Porta dos Fundos”, “Malhação”, revista “Contigo” ou artigo do Vladimir Safatle. Isso não é cultura junkie, é o rebotalho da decadência, é platitude para as massas abobalhadas, é palpitaria de shopping, é revolta a favor, é Danoninho pra marmanjo com síndrome de Peter Pan no DCE.

Felizmente a Folha ao menos nos explica por que estamos enfrentando a opinião de alguém tão nitidamente inábil para lidar com o objeto de seu texto. Basta criar um portal de “humor”, o Zorra Total do Youtube, os Teletubbies para gente crescida e voilà, eis a sua coluna semanal na Folha.

De acordo com Gregório Duvivier, a moda “reaça” que descreve é “o último grito do outono fascistão”. O “reaça” é um cara que “se algum viado der em cima dele, ele atira na testa”, mas “transa com travesti” e depois “enche a bicha (sic) de porrada”. É alguém que freqüenta igreja de padre “homofóbico e racista”. A mulher reaça é a que critica periguetes, e quer proibir gorda de sair na rua.

Todos são saudosistas da ditadura e fazem encontro no DOI-Codi – aquele lugar que hoje abriga um memorial da ditadura, por onde Yoani Sánchez passou logo após ser achincalhada por saudosistas da ditadura totalitária cubana, dessa vez sem ser agredida por nenhum jovem “revoluça”, já que ficaria ridículo tentar associar a blogueira dissidente cubana ao mal, quando ela critica todas as ditaduras – e não apenas a menos pior delas. Segundo Gregório Duvivier, o “reaça” anda sempre com soco inglês por aí.

Chegaria a ser engraçado (pela primeira vez na vida de Gregório Duvivier, que nunca conseguiu fazer gente muito inteligente rir) imaginar que ele sabe do que está falando, ao invés de misturar uma carrada de clichês que, ironicamente, estão mais em moda agora do que em 68 – falta pouco pra ele e sua turma se considerarem “proletários”, já que o “sindicato” está cada vez mais sendo trocado pelo poder direto do Estado, com seus Marcos Civis e leis criando privilégios específicos a uns nomeados às custas dos outros.

A moda, na verdade, é chamar tudo o que não atenda à sua exigência de pensamento único de “reaça”. Nada é mais modinha do que isso – sobretudo, na falta de encontrar um “ismo” pra chamar de seu, simplesmente se consideram “progressistas”, já que o Grande Ismo, a ideologia do comunismo – que chamava tudo o que não fosse comunista, justamente, de “ideologia” – saiu de moda, mesmo entre aqueles que não sabem o horror supremo que é Stalin, Holodomor, kolkhoz ou o Gulag. Basta agora ser “de esquerda”.

Na prática, defendendo o mesmo que Mao Zedong em sua Revolução Cultural ou Nicolae Ceaușescu e Kim Il-sung com o “socialismo Juche”, ou Walter Ulbricht com o Muro de Berlim (o “muro antifascista”).

A técnica é simples, qualquer adolescente pereba com preguiça de ler livros de mil páginas sobre esses países distantes consegue aprender: basta chamar aquilo que não for “progressista” e aderente ao pensamento único do Partido no poder de “reaça”, e com toda a sorte de contradições, associar tudo aquilo que for ruim ao “reacionário”: fascismo, racismo, ditadura, homofobia, soco inglês (como se sabe, só comprado por senhoras católicas na Galeria do Rock, nunca por punks black blocs ou invasores de reitoria da USP).

Reacionários, para quem estuda e pesquisa antes de vomitar achismos e opiniões inventadas de estro próprio por aí, são o exato oposto de tudo isso. Os reacionários são aqueles que, ao ver um problema social, desconfiam da solução “revolucionária” de plantão (aumentar o poder do Estado para que ele corrija/proíba/financie) e, imaginando como as coisas reagem, se posicionam contra a concentração de poder nas mãos de uns poucos bem-iluminados que, supostamente, podem “corrigir” o problema. Reacionários são os caras que desconfiam de políticos.

Por isso, os reacionários eram considerados os inimigos das “revoluções” – esta palavra que soa tão agradável a ouvidos desacostumados com a História, que não percebem que toda “Revolução” contra tudo o que está aí resultou no poder absoluto nas mãos de um tirano que simbolizava o pensamento único: a Revolução Francesa decai em Napoleão Bonaparte depois do Terror, a Revolução Russa faz o poder do tsar parecer minúsculo perto de Lenin, Stalin, Kruschev, Andropov e afins, a Revolução Chinesa põe no poder Mao Zedong, que mata sozinho, por métodos que vão do fuzilamento à fome, mais de 70 milhões de pessoas, a Revolução Iraniana, idolatrada por Michel Foucault (que era gay), transforma o ocidentalizado Irã no totalitarismo fechadíssimo de Rūḥollāh Khomeini que enforca gays em praça pública. Todos estes tiranos odiavam os “reacionários” que avisaram: “não faça revolução, vai dar merda…”



Não é engraçado como grandes “pensadores” comunistas, como Idelber Avelar, odeiam que se chame o golpe militar brasileiro de 1964 de “Revolução”? Deveriam era SÓ chamar o golpe de Revolução – também gerou uma concentração de poder e perseguição estatal aos inimigos, não? Revolução de 64, that’s what it is.

Não por outra razão, os “reacionários” eram cantados como alvo de ódio pelos hinos dos dois maiores totalitarismos da história mundial, a Internacional Socialista e o hino nazista, a Canção de Horst-Wessel („Kameraden, die Rotfront und Reaktion erschossen”). “Reacionário” era o epíteto dado aos inimigos dos revolucionários, que queriam o poder total (a marca da era moderna) para “corrigir” a sociedade. Reacionário foi quem se opôs a Lenin, a Mao, a Hitler, a Mussolini, a Khomeini, a Fidel, a Milošević, a Saddam, a Kadafi, a Mugabe, a Kim Il-sung – foram os refratários ao reformismo social pela tirania estatal.

Tem como se ofender com alguém nos chamando de “reacionários” por isso? Tem como não notar a contradição brutal em chamar alguém de reacionário e fascista ao mesmo tempo, quando um era inimigo mortal do outro a ponto de ser cantado como alvo de ódio até no hino nacional e internacional?

Reacionários são os caras que desconfiam dos corações bem intencionados, das cabeças com pouca leitura e dos ânimos exaltadíssimos dos revolucionários por saberem que essas coisas não têm bom resultado. São os chatos que dizem que “protesto” sem foco termina invariavelmente em black bloc matando inocente na rua. Não descobre isso por “preconceito”, e sim por conhecer a história: são os caras que chamam a Revolução Russa de “Revolução”, e também o golpe militar de “Revolução” sem apoiar nenhum dos dois pelo mesmo motivo: terminam em concentração de poder, tirania e repressão aos “anti-revolucionários”. Você já ouviu falar em repressão “anti-reacionária”? Nem eu.

Já o revolucionário acha que os expurgos stalinistas e as mortes de fome em fazendas coletivizadas foram apenas uma festinha que fugiu do controle – ou, caso seja na coletivização de fazendas do Zimbábue pelo socialista Robert Mugabe, amigo de Hugo Chávez, ainda posta foto de africanos morrendo de fome dizendo que é isso que o capitalismo, o livre mercado e a propriedade privada fazem.

O reacionário descobre como as coisas reagem porque pensa como um dos homens mais inteligentes da humanidade, G. K. Chesterton: em seu ensaio The Superstition of School, Chesterton explica que não é esperado que os homens “velhos” sejam reacionários, mas que, com a experiência, saibam que as coisas reajam e como reagem – ao contrário do furor revolucionário, que crê religiosamente que o mundo será moldado passivamente com as suas boas intenções. Se um homem atira num coelho, num velho ou num rei, deve esperar reações dessa ação. É a experiência que faz com que o homem tenha expectativa pelo tranco do revólver antes mesmo de puxar o gatilho em cada um desses de novo para saber o que acontece.

É por isso que David Hume, o cético que é maior expoente do empirismo, lembra que as doutrinas e tradições são conhecimento, e não precisamos atirar nós mesmos em um coelho, um velho ou um rei para descobrir as conseqüências. É por isso que conservadores olham para o passado: para não precisar seguir caminhos que os antigos já sabiam que dariam errado no futuro. É por isso que os conservadores conservam tradições e lêem livros antigos, de Platão a Montaigne, de Shakespeare a Solzhenitsyn – o revolucionário, por outro lado, acredita que suas boas intenções bastam para “consertar” o mundo, sem esperar nenhuma reação da dura realidade.

G. K. Chesterton nos ensina que o homem que acumula a sabedoria das reações não perdeideais, como os jovens costumam crer que os velhos perderam seus sonhos. Pelo contrário: o socialismo ideal, o capitalismo ideal ou qualquer Utopia, mantida pura no mundo das idéias, hagiograficamente virginal ao contato com a realidade, continua sendo sempre ideal. O problema é o real: como é um regime de “reforma agrária” com fazendas e fábricas coletivas na realidade, como é a vida livre da “burguesia” em um mundo real em que cada “burguês” desaparecido é mais um cadáver em uma pilha monstruosa.

Ser reacionário é saber como as coisas reagem. É ter um saber que prevê reações antes mesmo de elas ocorrerem. É o homem que vê conseqüências imprevistas onde o afobado vê motivo para exaltação e ânimo em marcha acelerada. É o homem que, como Prometeu no mito, o primeiro reacionário, vê o mal antes mesmo de ele ocorrer. É, enfim, o homem que não nasceu ontem, que não é seduzido por discursos maviosos de quem quer melhorar o mundo sob mandos da concentração de poder e da proibição do que não gostam e do subsídio ao que gostam. Como se ofender em ser reacionário?

Como setencia Nicolás Gómez Dávila, “El reaccionario auténtico no parte de ideas políticas reaccionarias. A veces llega a ellas.” Quantos, após estudar o que pensam os “reacionários” (e não os lugares-comuns inventados pela própria esquerda), chegaram à conclusão de que o melhor é ser de esquerda?

Você pode reunir toda a esquerda brasileira – Marilena Chaui, Emir Sader, Luiz Flávio Gomes, Leonardo Sakamoto, Cynara Menezes, Brizola Neto, Antônio Cândido, Chico Buarque, Antônio Abujamra, Lola Aronovich, Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Paulo Arantes, PC Siqueira, Alex Castro, Tico Santa Cruz, Luís Nassif, Túlio Vianna, Mino Carta, José Dirceu, Antônio Palocci ou os assassinos de Celso Daniel e Toninho do PT e perguntar o que já estudaram das obras dos maiores intelectuais da direita “reaça” que povoaram o século: Edmund Burke, Russell Kirk, Thomas Sowell, Eric Voegelin, Bernard Lonergan, Roger Scruton, Ludwig von Mises, Erik von Kuehnelt-Leddihn, Ortega y Gasset, Alain Peyrefitte, Anne Applebaum, Roger Kimball, Alain Besançon, Lionel Trilling, Paul Johnson, David Pryce-Jones, Vicente Ferreira da Silva, Theodor Dalrymple, T. S. Eliot, Rosenstock-Huessy, Michael Oakeshott, Irving Babbitt, Ellis Sandoz, Vladimir Bukovsky, Vladimir Tismăneanu, Matei Visniec. A chance de todos eles somados terem estudado 5% das obras mais básicas sobre teoria política “reacionária” é menor do que 1%.



Gregório Duvivier, tentando bancar o cientista político como se fosse Hannah Arendt rediviva, acredita na modinha irrefletida de que reacionários são “saudosistas da ditadura” só porque fazem marcha comemorando a deposição de um dos piores presidentes que o país teve, João Goulart – sem conhecer história e sem saber que o que a Marcha da Família com Deus pela Liberdade original queria eleição no ano seguinte, e os militares, após tomarem o poder sob aplausos populares, traíram essa população, que queria o monumental Carlos Lacerda no poder, e só houve eleição livre dali a 21 anos (erro em que muitos jovens “reaças” também caem).

Basta ver os países admirados pelos “reaças” pra ver se algum deles é uma ditadura militar: a Alemanha de Konrad Adenauer, a Polônia de Lech Wałęsa, a República Checa de Václav Havel, a Inglaterra de Margaret Thatcher, a América de Ronald Reagan. Qual destes países-modelos para os reacionários é uma ditadura, ainda mais uma ditadura militar?

Que tal comparar com o que a esquerda bondosa defende? Cuba, Coréia do Norte, União Soviética, China, Camboja (aquele país em que Noam Chomsky, no New York Times, afirmava que Pol-Pot só tinha matado “um milhar ou outro” de “traidores”, totalizando 24% da população), Irã, os infernais totalitarismos islâmicos que são “coitadinhos” contra Israel (o Egito, a Líbia e a Síria ficam em posição estranha, já que são “vítimas” de Israel, ao mesmo tempo em que a esquerda comemora quando o povo derruba seus líderes na Primavera Árabe), Venezuela, Iraque, Peru… qual desses, stricto sensu, NÃO É uma ditadura militar?

Vários dos grandes reacionários brasileiros, como o brilhantíssimo filósofo Mário Ferreira dos Santos ou o crítico literário Otto Maria Carpeaux, autor da maior História da Literatura do mundo, morreram vociferando contra o golpe de 64 e seu obscurantismo.

Todavia, Gregório Duvivier, que da história só sabe que “a direita reacionária apoiou o golpe” contra Jango, crê que por isso o que reacionários querem é abolir a república e instaurar uma ditadura que fez de tudo e mais um pouco contrários ao que os reacionários pregam. Crê religiosamente que preferir que os militares derrubassem Goulart a transformar o Brasil em Cuba é ter “farda suja de sangue” – graças à ditadura militar brasileira legar 424 mortos em 21 anos. E que tal dizer que aqueles que queriam instaurar o comunismo cubano nestas paragens têm “roupas sujas de sangue”? Vários pegaram em armas – e mataram! – em nome de uma ditadura que matou 73 mil pessoas em 48 anos, com um único “presidente” depois trocado pelo seu IRMÃO sem consulta popular.

Por que os “não-reacionários”, os ex-guerrilheiros que juram que lutavam pela “democracia” da ditadura do proletariado, não têm as roupas “sujas de sangue”? Por que a esquerda agora sempre apela para o discurso de “não apóio nenhuma ditadura”, mas entre uma ditadu

ra que matou 424 pessoas (a maioria absoluta de armas em punho para instaurar uma ditadura pior) e outra que matou 73 mil e continua matando, critica quem “preferiu”, na falta de opção melhor, a menos assassina?

Por que não diz, afinal, que graças aos militares, apesar de todas as mortes e o estrago, ao menos ainda não somos Cuba? O motivo é óbvio: a esquerda é comunista, e não existe esquerdista que não é comunista. Ele só tem vergonha de admitir que é essa coisa antiquada: comunista.

Se é para ver as mãos “sujas de sangue”, que tal comparar os escritos dos reacionários e daqueles que tratam reacionários como inimigos? Vejamos algumas frases de Che Guevara, líder revolucionário que odiava negros, gays, judeus, proibiu o rock e cabelos compridos, queimou livros, instituiu o trabalho escravo (fora o próprio paredón, matando em um ano, sozinho, mais do que toda a ditadura militar brasileira em duas décadas):


Enlouquecido com fúria irei manchar meu rifle de vermelho ao abater qualquer inimigo que caia em minhas mãos! Minhas narinas se dilatam ao saborear o odor acre de pólvora e sangue. Com as mortes de meus inimigos eu preparo meu ser para a luta sagrada e me junto ao proletariado triunfante com um uivo bestial.

“Não posso ser amigo de quem não compartilha das mesmas idéias que eu”.

“Adoro o ódio eficaz que faz do homem uma violenta, seletiva e fria máquina de matar”.

Ou seu discurso ovacionado na ONU:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Qzu1paU6z7Q[/youtube]

Agora as palavras de um reacionário, o nobre Erik von Kuehnelt-Leddihn, homem de conhecimento enciclopédico capaz de ler em mais de 20 línguas e, como bom reacionário austríaco, um fugitivo do nazismo, em seu O Credo do Reacionário:


Como um reacionário honesto, eu naturalmente rejeito o Nazismo, Comunismo, Fascismo e todas as ideologias relacionadas que são, de fato, um reductio ad absurdum da chamada democracia e do “povo no poder”. Eu rejeito os pressupostos absurdos do governo da maioria, do parlamento hocus-pocus, o falso liberalismo materialista da Escola de Manchester e o falso conservadorismo dos grandes banqueiros e industrialistas. Eu abomino o centralismo e a uniformidade da vida em rebanho, o espírito estúpido racista, o capitalismo privado, bem como o capitalismo de estado (socialismo) que contribuíram para a ruína gradual da nossa civilização nos últimos dois séculos. O verdadeiro reacionário desses dias é um rebelde contra os pressupostos prevalecentes e um “radical” que vai até as raízes.

Tem como se ofender em ser chamado de “reacionário”?

Os “formadores de opinião” brasileiros, que desconhecem do séc. XX até mesmo a vida de Stalin ou o mundo além da Cortina de Ferro, acreditando que lá era um reino encantado para onde as pessoas boas vão depois que morrem, usam a própria ignorância como régua para definir o mundo e a moral. Gregório Duvivier não é causa, mas conseqüência da ditadura de pensamento único que se implanta no país. E, claro, perceber essa platificação de pensamento é ser um “extremista”, já que a ditadura de pensamento único não permite, por definição, pensamentos discordantes.

Trata-se de uma estratégia para definir limites do que é permitido pensar. Estar um pouquinho à direita da extrema-esquerda já te torna um “reaça” – basta ler como a feminista ultra-radical Lola Aronovich chama tudo o que não seja planificação totalitária, socialismo acachapante e concentração total de poder no Estado de “reaça”. De conservadores liberais a feministas libertárias, tudo é “reaça”. Integralmente incapaz de estudar obras de ciência política conservadora, basta rotular o alvo de “reaça” e todo o enxame de abelhas assassinas de su@s (como fazer isso com @? s@us? su@s?) leitor@s voa em cima do alvo sem precisar entender o que ele pensa.

A isso se chama hoje “pensamento crítico”, “livre pensar” ou “pensar com a própria cabeça”. É a uniformidade da vida em rebanho, o coletivismo bovinóide, o cult of the sameness tão combatido pelo reacionário Kuehnelt-Leddihn.

Assim como apóiam ditaduras militares e acusam os reacionários de serem saudosistas da ditadura, serem modistas e afirmarem que estão denunciando uma moda, serem sedizentes “críticos” e abraçarem irrefletidamente qualquer -ismo do momento, imputam pensamentos nojentos a seus adversários e admiram quem os leva a cabo, o anti-reaça da última moda também adora defender a “diversidade”, ao mesmo tempo em que odeia toda forma de “desigualdade”, nunca percebendo a contradição brutal no núcleo de sua crença fanática.

Os reacionários não seguem um bloco de pensamento fechado, como crêem e evangalizadoramente querem fazer crer Gregório Duvivier e outros seguidores do pensamento único hegemônico sendo instaurado no Brasil. Kuehnelt-Leddihn, Chesterton, Xavier Zubiri, Miriam Joseph, Mário Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho são pensadores católicos. O grosso dos “reaças” americanos, por óbvio, são protestantes. Alguns, judeus (essa turma que foi vítima do nazismo e que a esquerda odeia pelo mesmo motivo, mas jura que o nacional-socialismo nada tem a ver com socialismo): Dennis Prager, Ben Shapiro, Mark Levin, Michael Medved. Outros são muçulmanos, como René Guénon, Frithjof Schuon ou Hossein Nasr. Alguns são ateus, como S. E. Cupp, P. J. O’Rourke, H. L. Mencken, Jillian Becker.


Foi assim durante toda a história, para quem conhece os fatos antes de engolir o supositório de idéias e disparar a metralhadora da cagação de regra: Eric Voegelin, que não parecia acreditar na transcendência, a defendeu por ser a origem da ordem política e da moral social. René Girard já via no mito bíblico, de Caim a Jesus Cristo, o cerne da sociedade que não precisa mais de “sacrifícios” para se purgar, vendo a realidade do cristianismo tão fortemente quanto teólogos como Bernard Lonergan. Mircea Eliade via na esquerda não mais do que tentativas de reviver Cião através de mentiras, sendo o mais importante mitólogo do mundo. Já Emil Cioran, que viu o socialismo juche na sua própria pele, odiava a Deus e o mundo (literalmente para ambos), tal como se vê no reacionarismo furioso de Arthur Schopenhauer ou no materialismo total de Ayn Rand.

Ser “reaça” é defender o individualismo e a responsabilidade individual perante o coletivo – por óbvio, portanto, que eles discordem bastante entre si. Ronald Reagan era a favor de anistia para imigrantes ilegais. William F. Buclkey Jr. era a favor da legalização das drogas (como o são todos os “libertários”). Barry Goldwater era a favor da descriminalização do aborto. Ser “reaça” é defender a liberdade de pensamento individual – por exemplo, alguém não defender o casamento gay porque acredita que o casamento é instituição de formação da sociedade, e acredita que não se deve tratar como “casamento” uma união que não é formação de família.

Já ser de esquerda, sim, é pensar em bloco: se você é de esquerda, obrigatoriamente tem de ter as mesmas opiniões do coletivo sobre aborto, casamento gay, drogas etc da patotinha. Discordar em um ponto é “preconceito obscurantista”. Sempre que alguém apresenta argumentos contra o pensamento único dos “anti-reaças”, os rebanhistas imediatamente dizem que são pessoas poderosas e malévolas querendo defender os seus “privilégios”: o reaça, seja no artigo “Moda Reaça” de Gregório Duvivier, seja em “A Vida dos reaças” de Murilo Silva, no site Fora de Foco, seja em “Como se vestir como um direitista”, na revista Vice, é sempre retratado como branco, rico, heterossexual e católico.

Para não encarar a profundidade absolutíssima das filosofias de Eric Voegelin, Louis Lavelle ou Bernard Lonergan, dizem que o reaça é o “Almeidinha” ou o “Ricardinho” – o que trai a verdade latente, já que “reaças” costumam é vir das classes baixas (tão defendidos por G. K. Chesterton), enquanto é raríssimo ver um esquerdista sem um sobrenome como “Salvatti” ou “Hoffmann”.

Thomas Sowell, Walter Williams, Herman Cain, E.W. Jackson são negros (tal como Martin Luther King pai, que era um devoto cristão odiador do Partido Comunista). Russell Kirk, ostentador de 12 doutorados honoris causa, veio da pobreza – tal como Eric Voegelin, que foi aprender os hieróglifos egípcios para entender a ordem política grega e sua correlação de crise alexandrina com a crise medieval e o gnosticismo político de Marx a Hitler, chegou a passar fome para poder estudar. Thomas Sowell vivia tão enfurnado na comunidade negra que até anos avançados de sua infância não sabia que amarelo poderia ser uma cor de cabelo. Andrew Sullivan é gay, tal como Robert Bauman, Michael Huffington ou nosso Guy Franco (e como não lembrar daquele propaganda da campanha eleitoral de Marta Suplicy perguntando se Kassab é casado e tem filhos?).

Quer ver um direitista pobre? Fale com Marco Mattei, gari italiano que vivia com a família num subúrbio e teve o apartamento no terceiro andar incendiado por Achille Lollo, da organização terrorista de extrema-esquerda Potere Operaio (dá pra ver como gostam das classes baixas). No incêndio, um dos seis filhos de Mattei ficou preso no quarto, enquanto duas filhas pulavam pelo balcão. Um filho resolveu voltar para tentar salvar o irmão menor e ambos morreram abraçados e carbonizados. O caso ficou conhecido como “Rogo di Primavalle” (incêndio de Primavelle) na Itália. Achille Lollo fugiu para a Argélia e depois para o Brasil, onde foi um dos fundadores do PSOL, junto com Heloísa Helena. Outro terrorista italiano fugitivo, o mais conhecido Cesare Battisti, também fugiu após assassinar quatro pessoas, entre elas um carcereiro (que não deve ganhar muito).

Quem são os “ricos brancos heterossexuais católicos” Almeidinhas, se não os ricaços da esquerda caviar como Gregório Duvivier? Quem é que usa “soco inglês” e “enche de porrada” quem discorda deles por aí?

Quem é preconceituoso e vive de senso comum? Quem segue modinhas e quem é crítico? Quem é paranóico e quem vê a realidade do pensamento único? Quem defende planificação e ditadura e quem luta contra isso em prol da diversidade?

No desespero, além de falar em “soco inglês”, também pode-se apelar para “direitistas” extremistas – sobretudo o ultra-nacionalista norueguês Anders Breivik, que assassinou 77 pessoas em um único dia, sobretudo atirando em um acampamento para jovens do Partido Trabalhista norueguês. Breivik foi repudiado pelos nazistas noruegueses, como Vark Vikernes (“não é matando a juventude com o nosso sangue que vamos fazer algo!”) e, claro, por TODOS os reacionários NO MUNDO.

Você já viu algum “reaça” por aí usando Breivik como exemplo, herói, norte moral ou ideal de ação política? Agora você já viu algum esquerdista com camiseta de Che Guevara, alguém se dizendo “socialista morena”, alguém achando bonito fazer “bloco soviético”, ou dizendo que o problema é o socialismo “real” (não diga!)?

O que querem é associar todos os não-comunistas com o único extremista sem amigos que encontram – assim, não aderir ao pensamento único hegemônico da esquerda tão bondosa é ser um extremista com “manchas de sangue” na roupa do armário.

É o moralismo capenga do progressismo: define-se limites para o que pode ser pensado, através de conceitos pedestres: associa-se fascismo à “extrema-direita” (termo que os fascistas nunca usaram para se auto-definirem), diz-se que então os progressistas são opositores do fascismo e da direita, ao mesmo tempo em que também odeiam judeus e Israel (bar mitzvah é considerado “reaça” demais em um dos textos), e detestam o liberalismo e o capitalismo, dizendo que quanto mais liberal, mais é “reaça” e de direita, crendo que extrema-direita é a hiper-privatização, ao mesmo tempo em que a vida dissociada do Estado é associada com o fascismo Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato - e se você aponta qualquer contradição nisso, você é que não sabe brincar com esses conceitos chulé, você que é fanático obscurantista, você que não conhece a complexa realidade da mentalidade esquerdista – tão bem descrita por Lionel Trilling em seu clássico The LIberal Imagination.

Assim se cria a conceitofobia, o medo primevo e brutal de conceitos mais sólidos do que o lugar-comum da linguagem banal do dia-a-dia, conceitos que vão além dos limites do que é permitido pensar e do que é anátema, pecaminoso, sujo, proibido.

É a “fé metástica” de que nos fala Eric Voegelin: a fé que odeia a realidade, tendo mais amor pela opinião (filodoxia) do que amor ao saber (filosofia) e que quer reformar toda a estrutura da realidade – para tal, não pode senão repudiar a realidade com medo dela, achando-se por isso “crítico” do que é simplesmente verdadeiro.

Cria-se a resposta fácil para tudo: “sou crítico porque não leio revista Veja, não leio Reinaldo Azevedo, não leio Rodrigo Constantino e não leio Olavo de Carvalho”, já que ler algo do qual se discorda certamente causará câncer radioativo, e não se deve se misturar com essas coisas horrendas da direita reacionária nem por brincadeira – vai que alguém se torne minimamente mais reaça ao inventar de ler a Teoria dos Quatro Discursos aristotélicos do Olavo, os horrores e malversações públicas denunciados n’O País dos Petralhas de Reinaldo ou a ridicularização da Esquerda Caviar por Constantino? Não, é preciso passar longe e associá-los sempre ao pior, ter medo de encostar na capa dos livros e virar pó (o que nenhum reaça faz com livros de esquerda) – uma velhinha fanática religiosa queimando os discos do AC/DC do filho não conseguiria fanatismo maior.

Hello-o, companheirada! Nós já conhecemos essa logorréia repetitiva da esquerda! Nós já cansamos de Chomsky, Foucault, Sartre, Deleuze, Dworkin, Adorno, Gramsci, Alinsky, Habermas, Rorty e Butler! Nós não somos de esquerda porque estamos mal informados da realidade: vocês é que têm ódio dos reaças por só lerem preconceito contra eles – e nunca eles próprios!

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=_kxuo-JO9io[/youtube]

Conclusão intempestiva

Como se vê, ser reacionário exige experiência, conhecimento de causalidade, a “prudência” na política que nos pedem de Aristóteles a Russell Kirk – aquele cara que tentou elencar Dez livros conservadores pra serem lidos, já que ser conservador exige uma vida de leituras, e não apenas macaquear um Das Kapital ou algum livrinho com pretensão de reunir todo o conhecimento da humanidade, do Céu e da Terra em alguns princípios gerais a serem repetidos bovinamente pelos rebanhistas de plantão (total destes livros lidos por formadores de opinião, professores universitários, jornalistas que falam de política 25 horas por dia e boçais da palpitaria política nas colunas sociais do Brasil: zero).

Ser “reaça” é apenas saber das coisas, e não querer moldar os outros conforme a sua imagem e semelhança – o que fazem de Lenin com suas fazendas coletivas a Kim Jong-un exigindo o mesmo corte de cabelo para toda a Coréia do Norte (ou Pol-Pot, mandando ser morto por crocodilos quem fosse alfabetizado ou usasse óculos). Ser reaça é ser contra aqueles regimes onde você pode sair fuzilando quem discorda de você.

Mas eu não me incomodaria se Gregório Duvivier me xingasse de alguma coisa séria. Me chamar de idiota, bobo, cara de melão – ou, como o modismo do pensamento único agora exige, de coxinha, de fascista, de extremista, de olavete. Isso, partindo de um cara cuja obra intelectual mais profunda é o Zorra Total do Youtube só pode significar que estou incomodando as pessoas certas.

Quando Marilena Chaui chama a classe média de “fascista”, de “reacionária”, de “terrorista” (sic), ela só recai naquilo que Ben Shapiro afirma sobre os valentões, os bullies da esquerda americana: não faz sentido chamar um membro da KKK (esquerdista, ao contrário do que dizem) de “racista”, nem um figurão da Waffen SS de “nazista” tentando ofendê-los. Isso é o que eles são.

A esquerda chama todo mundo de quem discorda de “racista”, de “homofóbico”, de “fascista” justamente porque sabe que os xingados odeiam racismo, homofobia, fascismo – e se calarão quando tiverem sua opinião associada a estas coisas das quais têm nojo mortal (vide Kuehnelt-Leddihn acima). Se fossem de fato racistas, homofóbicos ou fascistas as pessoas simplesmente diriam “Sim” e continuariam na mesma. Não é o que a esquerda planeja.

O problema mesmo é Gregório Duvivier querer me ofender me chamando de “reacionário”, devido à sua própria ignorância em relação ao termo. Aí não dá. Porque eu tomo como o elogio que é. O que há de tão ofensivo em saber como as coisas reagem? Em ser inimigo mortal de nazistas, comunistas e totalitarismos islâmicos homofóbicos e misóginos? Em ser contrário à concentração de poder, ao reformismo rebanhista, à planificação econômica, à mesmice cultural?

Eu tenho uma reputação a zelar. Como poderei sair na rua, se as pessoas resolverem apontar pra mim e dizer: “Olha lá, é o cara que o Gregório Duvivier elogiou!” PUTA MADRE! Precisarei fugir do país, de uma plástica como a do Dirceu, trocar de nome, sobrenome, tentar apagar minhas memórias com elevadas sessões de psiquiatria pesada. Os danos morais não podem ser cobertos por nenhuma indenização.

Pelamor, revoluças que não vêem nada demais em alguém admirar um facínora como Che Guevara (um idealista! um crítico social! um mundomelhorista!) e querem associar tudo o que é ruim a quem discorda de vocês de “saudosistas da ditadura”, numa maçaroca homogênea e platiforme como vocês próprios pensam: xinguem de outras coisas, mas não tratem “reacionário” como ofensa.

Ser reaça é mó legal – basta parar de querer ter auto-estima apenas através do grupinho, jurando que com isso é “crítico” e auto-pensante. É saber que o mundo não tem soluções fáceis e prontas, e que há muito mais livros a serem estudados demoradamente antes de tirar conclusões apressadas do que jamais sonharam nossos progressistas.

Basta apenas se acostumar a ser xingado de fascista, de saudosista da ditadura, de branco, de rico, de homofóbico, de católico, de racista, de nazista e de usar soco inglês por gente como Gergório Duvivier – e, claro, ser xingado de “fascista” por gente que quer tudo dentro do Estado, tudo para o Estado, bem ao contrário de você.

Mas, acredite: nada dói mais do que ser “xingado” de “reacionário” por pessoas que querem nos ofender, mas nos elogiam sem perceber.

domingo, dezembro 28, 2014

O Natal do Sakamoto e o nosso – a diferença entre nós e eles.













O Natal do Sakamoto e o nosso – a diferença entre nós e eles.


Por Flavio Morgenstern(*), para o Instituto Liberal 



Na grande família de um formador de opinião esquerdista há parentes de todas as classes sociais e ramos de atividade. Neste Natal, uma tia do palpiteiro chegou desanimada. Afirmou desairosa:

— Trabalho 11 horas por dia, fora o que faço em casa pelos filhos, estudei muito para não ser uma faxineira como minha mãe, pago impostos cada vez mais altos quanto mais eu vendo com minha empresa e todo o esforço do meu trabalho de meses, feito para dar um futuro para os meus filhos melhor do que o meu passado, vai pro lixo: nesse ano, por 3 vezes fui assaltada à mão armada por arruaceiros que me levaram meses de trabalho, apenas porque tomaram à força o meu trabalho. Por isso sou desiludida quanto ao governo e gostaria de penas mais duras para diminuir a criminalidade e deixar os trabalhadores em segurança.

Nosso herói das opiniões prontas da internet ouviu tal relato com sentimento de “terror e pânico”, como se fossem coisas muito distintas. Ficou indignado e até “bege” ao perceber como sua tia, que nasceu pobre, pegava ônibus para a periferia quase meia noite, esforçada e estudiosa, mesmo com mil adversidades todo dia em sua vida, podia ter pensamentos tão, tão… como dizer?, reacionários - e parem de achar que reacionário é ofensa -.

Seguiu-se um grande bate-boca, em que a tia ficava espantada em como seu próprio sobrinho podia defender tanto as “razões sociais” de pessoas que tomaram atalhos violentos na vida, enfiavam armas em sua cabeça, lhe xingavam de nomes violentos diante de estranhos e dos filhos pequenos, a amarravam, agrediam, ameaçavam matá-la… mas, de acordo com o bem pago opinador de internet, era apenas uma consequência do “sistema capitalista”, e o que a sua tia criou na verdade pertencia, por alguma lógica, a eles.

A coisa se acalmou um pouco quando chegou uma prima sua de outro ramo da família. Rica de berço, não pisa nas bocadas onde a outra tia morava nem de helicóptero. Com pais burocratas, viagens internacionais no currículo desde os 8 anos, faculdade de Artes paga (nunca trabalhou no ramo), é feminista, tem um blog revoltado, é loira, magra, sexy, dirige um Range Rover e luta pelas minorias:

— Viver em São Paulo está impossível, IM-POS-SÍ-VEL. Nesses dias fui buscar meu baseadinho de boa atrás da faculdade, o povo da comunidade é tudo de bom, não é igual esses reaças pensam não, o trafica é o mais gente boa da comunidade e tem até um jipe igual o meu… mas vocês acreditam que um pedreiro fedorento, quando saí do carro, me chamou de loira gostosa e olhou pra minha bunda?! É um ABSURDO esse machismo do patriarcado!!

Nosso blogueiro então se acalmou com uma indignação mais correta. Com efeito, o patriarcado machista era terrível. Um absurdo uma familiar sua, uma minoria, ter de sofrer tanta humilhação nas mãos de uma sociedade tão injusta, em que os opressores tratam asminorias com tanto preconceito, em que a desigualdade é capaz de matar tantas pessoas como sua prima por dia, sem que ninguém fale nada.

Essa situação é absurdamente ridícula. Mas não é tão ficcional quanto parece: basta ver o que intelectuais de 140 caracteres como o blogueiro do UOL Leonardo Sakamoto andam dizendo sobre o Natal. Não é um epifenômeno acidental dentro de um espectro rigoroso do pensamento de esquerda: é a sua quintessência, o verdadeiro núcleo do que é ser de esquerda – todo o mais, todos os senões, os contrapesos, as tolerâncias e concessões é que são contrárias à esquerda.

Simbologia falsa

Tal se dá porque a esquerda, mesmo tendo seu cerne em um livro de economia (lido por todos, exceto por economistas), trabalha com o imaginário coletivo: são de esquerda os críticos literários, os ficcionistas, os psicólogos, analistas da linguagem e sociólogos que trabalham com o próprio mecanismo com o qual interpretamos o mundo.

A direita (liberal ou conservadora) é técnica: domina a economia, o Direito, as relações internacionais – todavia, sem conseguir comunicar o que pensa, por que pensa, com quais objetivos e através de quais meios pretende atingi-los, é vista até por apolíticos pelos signos de interpretação da esquerda, que a ela atribui racismo, intolerância, xenofobia, machismo, homofobia. Mesmo seus próprios defeitos, como intolerância à diversidade e o uso do Estado para impedir a liberdade das pessoas, ou defeitos de inimigos da direita, sobretudo o nazismo.

O próprio texto de Leonardo Sakamoto, relatando como seus leitores sofreram momentos de “terror e pânico” no Natal em família, é construído desta forma, para seus leitores, julgando estarem vencendo preconceitos, criarem preconceitos sobre o que desconhecem.

São citadas frases informais e tipicamente exageradas da linguagem oral e familiar, sem preocupação com qualquer rigor em uma festa misturando álcool e política, o que até os antigos romanos sabiam ser desastroso. E tome-se uma frase qualquer sobre um parente que “jogou o carro contra ciclistas”, outra tia que disse que “mulher na política só faz besteira”, um primo que “defendeu que pegasse todos os usuários de drogas e passasse fogo”.

Não há um único comentário sobre uma experiência concreta dessas pessoas cometendo injustiça alguma ou ferindo alguém, mas cita-se frases desproporcionais em um ambiente familiar como se significassem que todo o país virou o Partido Nazista.

Todavia, o problema da esquerda é exatamente o oposto: fala maviosamente sobre “justiça social”, edulcora seus métodos para se vender como “preocupada com os pobres”, canta com voz melíflua a respeito de “direitos humanos”… mas, em toda história mundial, é a campeã número 1 (contando até teocracias esquisitas e reinados bárbaros da Antiguidade) de mortes, injustiça, escravização, censura e destruição de direitos básicos do homem.

Nas ceias de Natal que geraram indignação entre os leitores progressistas de Sakamoto, não há ninguém indignado porque um parente foi assassinado num país com 56 mil homicídios em um ano. Não há um único muxoxo contra sermos obrigados a gastar mais para financiar quem ceifa nossas vidas e de nossos entes queridos pelo Estado do que para a educação de crianças inocentes.

Pelo contrário: quem expressa tais sentimentos na mesa de Natal, ainda que de forma desajeitada, é tratado como alguém capaz de provocar “terror e pânico”. A única indignação permitida é contra assoviar para uma mulher, não enfiar uma arma em sua cabeça e atirar. Ou ser contra o Bolsa Família.

Decadialética

Este disparate permite ensejo para uma reflexão importante entre quem pretende discutir política – e, nesta segunda década de século XXI, já chega contaminado de trejeitos de linguagem e automatismos verbais típicos, como feminismo, machismo, homofobia, sociedade conservadora etc.

A esquerda, tão dominante em cursos de Humanas, parece sempre aos recém-chegadosnas discussões como a única força moral, a única preocupada com os pobres e desamparados. A direita, contraditoriamente consubstanciada em uma abstração – o “capitalismo”, tratando com essa palavra realidades tão distintas quanto a Suíça e Cuiabá – só tem suas idéias transmitidas para o povo através da clave de entendimento da esquerda, cujas palavras engastadas já dirigem o pensamento de incautos: desigualdade, exploração, patriarcado, homofobia etc.

O jovem esquerdista tem a impressão de que a esquerda é o reino da racionalidade, da justiça e do correto, e a direita é apenas um poço homogêneo de preconceitos, racismo e malvadez, que não é de esquerda apenas porque não leu Foucault o suficiente.

A um só tempo, nada do que a direita pensa, de seus valores, argumentos, objetivos e métodos – enfim, do que este tal de capitalismo é de fato – nem sequer passa pela cabeça do diletante, que quanto mais ignora e mais se distancia do conhecimento, mais jura que o entende à perfeição.

O maior filósofo brasileiro, Mário Ferreira dos Santos, completamente ignorado pela esquerda, criou um método único na humanidade para permitir que esta abstração teórica em que às vezes se fecha a mentalidade possa voltar à experiência concreta e vice-versa. Chamou tal método de decadialética, composto de dez modos de captar o objeto pela intelecção humana.

Um deles, o segundo, campo da atualidade e da virtualidade, diz respeito ao que um ente é de fato em determinado momento, e ao que ele pode (ou não) se tornar num momento seguinte. Ora, a liberdade e a justiça podem se transformar em seus contrários, já um gato não pode se tornar um “anti-gato”.

Aparentemente óbvia depois de exposta, tal assunção passa completamente despercebida de todo o arcabouço teorético da esquerda, que, perdida em pedantismo e abstrações como “igualdade”, e não em verdadeiros sujeitos da História, fica toda atabalhoada ao lidar com a realidade.

Exemplo óbvio: Sakamoto (e seus leitores) adoram defender direitos humanos de bandidos, inclusive assassinos (a única “indignação” que causou terror e pânico elencada por ele que envolvia morte falava de pena de morte). É um teoria comum da esquerda, escondida em todos os esquerdistas modernos debaixo de uma logorréia enorme de palavras técnicas com aparência de profundidade. Todavia, por que alguém deveria estar tão preocupado com o (muitas vezes suposto) preconceito das pessoas, sendo que elas podem deixar de ser preconceituosas, mas não há esquerdista que saiba transformar o cadáver de um ente querido em um ente querido vivo?

A esquerda, dominante na Academia, na mídia, na política e no imaginário coletivo, é sempre bastante teórica, com cacoetes de linguagem (de “luta de classes” a “patriarcado”) que pegam na língua comum.

Contudo, é exatamente o senso comum, livre de construções teóricas que funcionam como um cabresto para se enxergar corretamente a realidade, que deve ser resgatado. Um senso comum que, com décadas de dominação teorética progressista, é hoje um senso incomum: a maior parcela da população já foi contaminada.

Para evitar que livros de faculdade e pilhas de jornais formem teorias como a que permite que alguém se indigne mais com uma cantada a uma mulher do que com uma arma para sua cabeça que se deve resgatar uma sabedoria mais profunda e mais incomum para nossa era de planificação e mesmificação social.

Imaginário coletivo contaminado

Uma boa parte das pessoas já foi de esquerda um dia. Entretanto, após anos de estudo – e descobrindo aquilo que os nem seus professores aprenderam – acabam se tornando defensoras rigorosas do capitalismo e dos ideais conservadores ou liberais. O contrário nunca acontece.

Uma dica de pensamento para os jovens que estão se debatendo na internet e nem sempre conseguem entender o que se passa no mundo é justamente esse: faça um atalho que funcione, e leia o que os velhos leram para chegarem às melhores conclusões no fim da vida.

Ninguém nega as boas intenções da esquerda, o problema é o que tais intenções acarretam quando materializadas. E não é porque a direita é uma monstruosidade habitada apenas por Maluf, ditadores militares, skinheads e fanáticos religiosos (quase que integralmente não são de direita, diga-se) que se deve ouvi-la, e sim porque ela tem críticas ao show business dos famosíssimos intelectuais de esquerda que estes mesmos intelectuais nunca ouviram falar.

Ora, um dos problemas da esquerda é sua clave única de entendimento. Com o tripé de injustiças da esquerda moderna sendo reduzido a machismo-racismo-homofobia é fácil cair no algoritmo de siricutico que permite indignação perante uma cantada e culpabilização coletiva da sociedade, no mesmo molde em que forma uma eterna desculpabilização de autores de crimes violentos.

A esquerda, portanto, tem um arcabouço fraco para enxergar a realidade. Mesmo que tenha boas intenções ou uma congruência lógica posterior até funcional, seus conceitos iniciais são mentirosos.

A esquerda é a agremiação de teóricos mundiais do quilate de Rousseau e Marx, de artistas regionais em eterna decadência como Chaplin e Picasso, até jornalistas de segunda ordem como Edward Murrow e Al Sharpton, além de suas grosseiras caricaturas brasileiras do escol de Caio Prado Jr. e Marilena Chaui, Pablo Villaça e Oscar Niemeyer, Cynara Menezes e, claro, Leonardo Sakamoto. Não são pessoas insanas que teorizam diretamente: “Devemos proibir cantadas em mulheres, mas quem as mata em assaltos deve ser solto, pois a culpa é apenas da sociedade”. São pessoas que acabam propondo as duas coisas juntas, sem nunca perceber seu absurdo, por pensarem sob estas claves fracas do entendimento da realidade. Muitas vezes, são até boas em lógica e comunicação, apesar disto.

Outro problema óbvio é o vício na igualdade. A própria idéia de falar tanto em desigualdadetraz em seu bojo o perigo: dá a impressão de que o capitalismo, e apenas ele, causam uma “des”igualdade entre homens, que originalmente eram iguais.

O grande pensador Erik von Kuehnelt-Leddihn, ao falar do “Culto da Mesmificação” (Cult of the Sameness) que é o Leitmotiv da esquerda, dá a seu livro o subtítulo de Procrustes at Large. Procrustes era um ciclope que seqüestrava pessoas para remoldá-las conforme uma prancha – esticando seus ossos caso ficassem menores, cortando-as em pedaços quando fossem maiores.

Para realizar o intento em massa, at large, é preciso um poder central capaz de obrigar toda a sociedade a se reformar em nome dessa “igualdade”. Curiosamente, são as mesmas pessoas que também bradam a favor da “diversidade”, sem perceber que ela sempre foi garantida, a não ser por elas próprias. São um tipo de gente incapaz de conviver com pessoas de crenças, opiniões, escolhas, trabalhos, responsabilidades, famílias, valores, destinos e investimentos diversos dos seus – então, é preciso “corrigi-las” à força, sem perceber que, em nome de corrigir uma suposta “injustiça” na desigualdade, criam a maior injustiça do mundo, espalhada igualitariamente a todos – o que, afinal, só aumenta a injustiça.

Imaginação moral

Um último remédio que pode ser ministrado a quem ainda crê no potencial libertador e reformador da esquerda ante a liberdade econômica capitalista e os valores associados à direita, liberal ou conservadora, é a imaginação moral.

É comum à esquerda buscar justiça apenas procurando encontrar um “opressor” ou “explorador” – destarte, já recaindo em sua gaiola conceitual que apenas enxerga problemas de variação salarial (julgando que são “classes”, e que estas estão em “luta”), ou ainda um maniqueísmo raso, em que supõe-se que exista uma verdadeira luta entre ricos e pobres, homens e mulheres, hetero e homossexuais, brancos e negros.

Tal chave de entendimento está em quase todos os bordões da esquerda mundial, mas não dá conta de absolutamente nada da realidade complexa – se há um negro gay com uma arma apontada para um rico heterossexual, quem é o opressor e o oprimido na situação? E com uma jovem loira e rica com os peitos de fora contra a Igreja, diante de um pobre velhinho religioso rezando em paz?

É com esse tipo de narrativa de heróis e bandidos facilmente identificáveis que muitas pessoas inteligentíssimas ainda creem no mistifório de “correção de injustiças pelo Estado e pela conscientização” da esquerda. Tais narrativas são insuficientes para se conhecer o mundo.

Muito melhor é o conceito de imaginação moral, tão bem trabalhado por intelectuais como Lionel Trilling. Trata-se de notar em narrativas de ficção como personagens são colocados em situação de dúvida e ambiguidades, em que as contradições da vida concreta nem sempre tornam claro o que é certo e o que errado, nos típicos paradoxos e contingências da vida moral, não esquematizada em abstrações e clichês facilmente repetíveis.

É a imaginação moral que gera os monumentos à humanidade que são os monólogos internos e externos de Hamlet, é a imaginação moral que permite uma vida de dúvida, arrependimentos e indecisões sobre as consequências dos atos de Raskolnikov, de Crime e Castigo. Questões muito complexas e profundas, que nunca conseguiram ser vislumbradas mesmo pelos altos escalões da esquerda, que dominou a crítica literária por décadas – mesmo o grande crítico literário marxista Georg Lukács encontrava mais eco sobre o realismo objetivo em Balzac, Dostoievsky e Thomas Mann do que nos bastiões da ficção do “realismo socialista”. Como bem dizia uma piada dos países do Leste, no impressionismo você pinta o que sente, no expressionismo você pinta o que vê e no realismo soviético você pinta o que mandarem você pintar.

É comum à esquerda vender suas teses em tratados abstratos sem conexão com a realidade (suas elucubrações sobre “desigualdade” e “estupro”, mas sempre passando a mão na cabeça de burocratas milionários e estupradores da vida real) ou em narrativas simplórias de “menino pobre que matou o menino rico pela falta de oportunidades”. Nunca vemos dialética interna, nunca uma dúvida ou conflito.

Não vemos nunca entre intelectuais de esquerda, sejam os Negris ou os Saderes, personagens complexos como Settembrini, o racionalista da modernidade liberal, e o soturno Naphta, jesuíta comunista e ocultista, da Montanha Mágica de Thomas Mann. Ambos reunindo contradições dentro de si, mas também postos em disposição que permanentemente os testa. Settembrini, otimista celebrador da vida, está na verdade às portas da morte, e seu cosmopolitismo é uma forma provinciana de eurocentrismo. Também Naphta, que se alimenta do fanatismo religioso, da impessoalidade e da valoração excessiva da morte, nunca se cura, mas também nunca se entrega a seu dogma de fé na morte por inteiro. É quem, afinal, está de verdade escandalizado pelo horror que é perceber que ser homem é também ser doente, e que uma vitalidade verdadeira é sua aspiração secreta.

Sem reeducar o imaginário, sobretudo com a ficção complexa, dos clássicos e dos modernos, não teremos saída senão o mundo platiforme da esquerda, que se julga justamente mais “crítico”, “racional” e “justo” justamente por não conhecer nada além de sua auto-congratulação umbigocêntrica – crendo exatamente por isso que é possui mais “diversidade”, “tolerância” e menos “preconceito” que seus adversários, que ataca sem conhecer.

Por ora, a esquerda, mesmo pavimentada de boas intenções, tem um problema de visão: só enxerga o que está em sua clave de injustiças, não vendo problema nenhum no mundo fora do tripé de indignação seletiva. E julga que quem não veste o mesmo cabresto só pode ser um obscurantista irracional.

É fácil se assustar com o capitalismo e a direita liberal ou conservadora pelo que a esquerda fala dela. Ou atribuindo suas características às frases mal formuladas, a histrionismos de ocasião, aos discursos enfezados e atípicos de políticos sem papas na língua, sem saber o que é de fato a liberdade que permite que países como a Suíça sejam a Suíça – e por que ela odeia a esquerda.

Fica um convite para os racionais que ainda creem no planejamento reformador, no centralismo burocrático e no progressismo seletivo da esquerda: conheçam o capitalismo, e saibam o que é de fato a direita liberal ou conservadora. Do contrário, seu destino é apenas a indignação modelo Sara Winter: uma loira, rica, magra, famosa e que alguns consideram atraente, protestando jurando a si mesma que é uma “minoria” vítima de injustiças.



*Flavio Morgenstern - Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para jornais como Gazeta do Povo, além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Em breve lançará seu primeiro livro pela editora Record.