quinta-feira, maio 10, 2012

Israelenses mostram o ecumenismo em heavy metal.




Orphaned Land na capa de revista Iraniana em 2010


Um grupo israelense de heavy metal, o Orphaned Land, tem angariado fãs em vários lugares do Oriente Médio, inclusive onde o rock não é exatamente bem visto, informa o jornalista Marcos Guterman.

As páginas da banda nas redes sociais são frequentadas por judeus, muçulmanos e cristãos. Uma revista iraniana de rock dedicou sua capa ao grupo, em 2010.

O segredo do seu sucesso é a “fusão do heavy metal com instrumentos tradicionais, melodias e ritmos do Oriente Médio”, segundo o Jerusalem Post. “Ao fazer isso, conseguem não apenas explorar a sensibilidade estética regional, mas também demonstrar que o povo judeu tem raízes no Oriente Médio, e que a globalização não necessariamente tem de levar ao abandono da cultura local.”, acrescentou o jornal israelense. O Orphaned Land usa em suas letras trechos da Torá, do Novo Testamento e do Corão.

Em 2011, uma dançarina libanesa apresentou-se com a banda mostrando uma bandeira de seu país, lado a lado com a bandeira de Israel. 



É como dizem os fãs da banda: “O Orphaned Land é bem-sucedido onde os políticos fracassam”. (Fonte: blog da Conib)




Marcos Guterman no Estadão:

Na Terra Santa, só o heavy metal salva.

Enquanto os líderes israelenses e palestinos não mostram nenhuma disposição em superar suas divergências, um grupo de heavy metal tem conseguido transpor as fronteiras impostas pelo ódio para encontrar pontos em comum entre povos que os radicais teimam em ver como inimigos.


A banda Orphaned Land, de Israel, é, há um par de anos, o catalisador de fãs não só de seu país, mas de vários lugares do Oriente Médio, inclusive onde o rock não é exatamente bem visto. Nessa rede que se formou em torno do grupo, que tomou o Facebook e outras redes sociais, aparecem judeus, muçulmanos e cristãos, de países como Líbano, Síria, Turquia e Irã. Uma revista iraniana de rock, aliás, dedicou sua capa ao Orphaned Land em 2010.




O segredo do sucesso da banda é a “fusão do heavy metal com instrumentos tradicionais, melodias e ritmos do Oriente Médio”, escreve o comentarista israelense Roi Ben-Yehuda. “Ao fazer isso, eles conseguem não apenas explorar a sensibilidade estética regional, mas também demonstrar que o povo judeu tem raízes no Oriente Médio, e que o engajamento com a globalização não necessariamente tem de levar ao abandono da cultura local.” Ele explica que o Orphaned Land usa em suas letras trechos da Torá, do Novo Testamento e do Corão, numa “visão ecumênica de espiritualidade”.






quarta-feira, maio 09, 2012

Avon e a esquerda gayzista.


Revista esquerdista Carta Capital dá vez e voz para apologeta gayzista atacar Malafaia


por Julio Severo

Silas Malafaia ganhou a antipatia dos setores mais gayzistas e esquerdistas da sociedade. Não importa que ele tenha apoiado Lula em duas eleições presidenciais: Os esquerdistas nunca aceitarão a postura dele contra a agenda política e legal gayzista. Não importa que ele tenha deixado claro, milhares de vezes, que não é contra as pessoas, mas contra atos depravados específicos, como homossexualismo: os ativistas gays nunca aceitarão o que ele fala sobre Bíblia e homossexualismo.
E agora, esquerdistas e gayzistas unidos nunca aceitarão que a empresa Avon venda os livros de Malafaia.
A revista ultraesquerdista Carta Capital, em sua mais recente edição online, conta a estorinha de um gay coitado que, ao folhear inocentemente a revista da Avon, fica horrorizado ao ver o nome de Malafaia. Carta Capital diz:
O professor [Sergio Viula] conta que a gota d’água foi a inclusão do livro A Estratégia entre os títulos comercializados pela empresa. A obra, escrita pelo pastor americano Louis Sheldon, também é distribuída pela Editora Central Gospel – cujo dono é Silas Malafaia. Diante da situação, Viula resolveu se manifestar.
Primeiro, Viula se queixou para seus amigos gays. Depois, para a Avon. A resposta da Avon disse que a “variedade de títulos comercializados contempla a diversidade de estilos de vida, religião e filosofia presentes em nosso País”.
Grupos gays também entraram em contato com AllOut, milionária entidade gayzista americana que faz campanhas no mundo inteiro para promover o homossexualismo e derrubar toda oposição à agenda gay. No ano passado, AllOut lançou uma campanha para pressionar o PayPal a encerrar a conta de dez grupos cristãos, inclusive do meu blog. Tiveram sucesso, no meu caso, pois não sou tão poderoso e endinheirado quanto os promotores da agenda gay


[Quando menino] Jesus, a figura-mor da páscoa cristã, cresce, entra na puberdade com todas as tensões e tesões que ela abarca, mas não pode tocar em mulher e nem em homem, porque a doutrina da castidade e do celibato exigem que se pinte um cristo que tem pau mas não come, tem língua mas não lambe, tem boca mas não chupa, tem mãos mas não masturba, etc. Parece o salmo 115 (na Bíblia protestante) que fala dos ídolos mudos. Ele é sexualmente como um daqueles ídolos, ou seja, nada pode fazer.
Milagres lhe são atribuídos como prova de sua filiação divina. Ele faz aquilo que o povo sempre quer: pão e circo. Multiplica pães e arma o maior barraco no pátio do templo expulsando os camelôs da época. É o primeiro rapa da história registrada. Se fosse hoje teria saído no Ratinho. Detalhe: todos os milagres supostamente feitos num tempo e entre pessoas que jamais poderiam ser conferidos posteriormente. Hoje, que a gente pode conferir, os milagres só acontecem com a ajuda de remédios, terapias e médicos especializados. Mas o crédito fica sempre por conta do mito e não da ciência que desenvolveu tais procedimentos terapêuticos. Afinal, sem esse deus engravidador de virgens, a medicina não poderia coisa alguma.
Ele morre. Mas um herói não pode morrer no final e ficar por isso mesmo. O filme tem que ter continuação. Afinal, promete ser um sucesso de bilheteria no circuito histórico universal. Então, a classe sacerdotal dribla o suposto fato histórico de sua morte (apesar de não se ter certeza de que ele sequer tenha existido de fato). O drible é a invenção do milagre da ressurreição.
Trata-se simplesmente da retomada do mito egípcio de Osíris, sua morte e ressurreição, só que desta vez com ares de “fato histórico” — o que constitui o verdadeiro problema, pois uma coisa é conhecer um mito sabendo que é apenas um mito, outra coisa é afirmar que a narração mítica é histórica e ser capaz de matar e morrer por esse engodo.
O engraçado é que ele ressuscita, mas se esconde num suposto céu…
Quem disse que ateu não adora nada? Eu adoro os homens!
“Dessa maneira, confirma-se neles o quanto é verdadeiro o provérbio que diz: ‘O cão volta ao seu vômito’ e mais: ‘A porca lavada volta a revolver-se no lamaçal’”. (2 Pedro 2:22 KJA)
É claro que Viula não é, em termos bíblicos, a única porca lavada voltando ao vômito e ao lamaçal. Lanna Holder era lésbica, virou pastora, desvirou tudo e hoje é pastora lésbica. Ela prefere o pastorado porco!
Já Viula prefere o ateísmo porco. Com sua experiência passada de apologeta debochador de neopentecostais, hoje ele mira o próprio Jesus Cristo.
O problema então de Viula e inúmeros outros ativistas gays não é só Malafaia, Julio Severo e outros cristãos. O problema é Jesus Cristo! A rebelião deles é contra o Criador dos homens e da sexualidade.
“Esses rebeldes dizem: ‘Vamos nos livrar do domínio deles; acabemos com o poder que eles têm sobre nós.’ Do seu trono lá no céu o Senhor ri e zomba deles.” (Salmos 2:3-4 BLH)
Deus pouco se importa com a conduta porca desses debochadores. Aliás, ele ri deles. Nesse aspecto, Silas Malafaia tem tido uma reação exemplar.
De acordo com a Carta Capital, Malafaia deu de ombros para a apologética gayzista de Viula.

Em nota divulgada em seu site, Malafaia declarou: “Esses gays estão dando um ‘tiro no pé’, estão me promovendo com uma tamanha grandeza que nunca pensei de ser tão citado e até defendido por jornalistas como, por exemplo, Reinaldo Azevedo”.

Ele afirmou ainda que essas perseguições lhe dão mais força para lutar contra o PLC 122. “Se antes de ter leis que dão a eles privilégios, já se acham no direito de perseguir e intimidar os que são contra seus ideais, imaginem se a lei for aprovada”, disse ele.
Diante do comunicado de Malafaia, Viula afirmou: “Malafaia é um extremista. Inclusive, outros pastores não concordam com as atitudes dele”.
Como ex-apologeta protestante, Viula sabe muito bem do que fala. Ele conhece os autoproclamados apologetas que ainda continuam com capa de cristão e mantêm Malafaia e outros neopentecostais em mira implacável.

Esquerdistas e gayzistas são grandes debochadores dos cristãos. Por isso, Carta Capital escolheu Viula para expressar seus sentimentos com relação a Malafaia e aos cristãos. Tal preconceito não é de admirar: Luis Nassif, um dos figurões da Carta Capital, já me atacou por denunciar a nomeação de um professor pró-aborto para a Pontifícia Academia de Ciências.
Viula pode ser hoje um grande apologeta gayzista e debochador de Jesus Cristo, mas se o Genizah e outros apologetas debochadores precisarem de ajuda para lançar mais ataques a Malafaia, tenho certeza de que Viula seria capaz de mostrar um generoso espírito de colaboração. Porcaria é com ele mesmo.

terça-feira, maio 08, 2012

SEMPRE ENGANANDO OS BOBOS.





por Percival Puggina



Acho curioso o modo como por vezes são levados os debates. Se eu criticar os Estados Unidos pela guerra no Iraque ou pelo que acontece na prisão de Guantánamo, ninguém na face da terra vai me cobrar uma crítica ao regime cubano. Ninguém. Todos aceitarão que exerço um direito natural de opinião. Mas se disser qualquer coisa sobre a miséria, o totalitarismo e a opressão que pesa sobre a sociedade cubana imediatamente se forma fila para cobrar posição sobre abusos praticados pelos EUA. Entenderam? Junto à intelectualidade brasileira, para falar mal do comunismo tem que pagar pedágio.

Será o comunismo, como proclamam, uma utopia, uma ideia generosa? Seus 100 milhões de cadáveres devem ficar se revirando na cova. Foi um ideal alheio que lhes custou bem caro! Infelizmente mal conduzido, amenizam alguns cocmpanheiros. Que tremendo azar! Uma ideia tão generosa e não produziu um caso medíocre que possa ser exibido sem passar vergonha. Durante um século varreu com totalitarismos boa parte da Ásia e da África, criou revoluções na América Ibérica, instalou-se em Cuba e não consegue apresentar à História um único, solitário e singular estadista. Que falta de sorte! Tão generoso, tão ideal, tão utópico, e nenhuma coisa parecida como democracia para botar no currículo. E há quem creia que ainda pode dar certo.

Quanto ao sistema econômico que ficou conhecido como capitalismo (que não é sistema político nem ideologia), eu afirmo que seu maior erro foi aceitar conviver com uma designação deplorável. Contudo, chamem-no assim, se quiserem, embora, a exemplo de João Paulo II, eu prefira denominá-lo "economia de empresa". Suas vantagens sobre um modelo de economia centralizada, estatizada, são irrefutáveis na teoria e certificadas pela prática dos povos. É um sistema que não foi concebido por qualquer intelectual. É um sistema em construção na história, muito compatível, também por isso, com a democracia. Promove a liberdade dos indivíduos e a criatividade humana. Reconhece a importância do mercado. A maior parte dos países que adotam esse sistema atribui ao Estado, em sua política e em seu ordenamento jurídico, a tarefa de zelar pelo respeito às regras do jogo em proteção ao bem comum. Aliás, quem quiser organizar as coisas desconhecendo a autonomia do econômico, submetendo-o a determinações que contrariem o que é da natureza dessa atividade (lembram dos tabelamentos de preços?) vai se dar mal. Vai gerar escassez, câmbio negro, fome. Digam o que disserem os arautos do fracasso do sistema de economia de empresa em vista da crise que afeta alguns países, os embaraços deste momento só se resolverão com atividade empresarial, comércio, pessoas comprando, indústrias produzindo, pesquisa e investimento gerando, expandindo e multiplicando a atividade produtiva.

Outro dia, nas redes sociais, alguém acusou o capitalismo de haver matado milhões. E não deixava por menos. Dezenas de milhões! O sistema? Onde? O capitalismo pode não resolver muitos casos de pobreza. Mas essa pobreza sempre terá sido endêmica, cultural, estrutural, de causa política. Não se conhecem sociedades abastadas que tenham empobrecido com as liberdades econômicas. Tampouco confundamos economia livre, de empresa, com colonialismo ou mercantilismo. Qualquer economia que queira prosperar e realizar desenvolvimento social sustentável vai precisar do empreendedorismo dos empreendedores, da geração de riqueza e de renda, e de coisas tão desejáveis quanto produção e consumo, compra e venda, lucro, salário e poupança interna.

Quem quiser atraso vá visitar os países que ainda convivem com economias centralizadas: Coreia do Norte e Cuba, onde só o armamento da polícia e das forças armadas não é sucata. Ali se planta com a mão e se mata lagarta com o pé. E o povo vive da mão para a boca, prisioneiro do "ideal" generoso que alguns insistem em impingir aos demais.

O Brasil vem sendo governado por socialistas e comunistas há mais de uma década. Embora não ocultem, no plano da política, as intenções totalitárias que caracterizam sua trajetória, num sentido geral vêm respeitando os fundamentos do sistema econômico no qual ainda engatinhamos. E, algo que muito os agrada, vão extraindo dividendo político de seus resultados. Mas procedem com indisfarçável esquizofrenia. Agem de um modo, falam de outro e vão enganando os bobos.

* Percival Puggina (67) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões.

domingo, maio 06, 2012

O QUE O STF PETISTA VEM FAZENDO SOB NOSSOS OLHOS.




SAPATO 42 PARA PÉ 37.(titulo original do artigo)

Por Percival Puggina(*).




Gosto de analogias. E foi essa que me ocorreu quando li, em Zero Hora,  que sobram vagas para cotistas na UFRGS. Pode? No Brasil pode. Calça e sai andando.

Aliás, com as tais de cotas, criou-se uma inadequação nas duas pontas do fio em que se enreda e desequilibra a sociedade brasileira. Quem assistisse às sessões nas quais o STF se manifestou pela constitucionalidade das cotas no vestibular da UnB poderia imaginar que a Lei Áurea, decorridos 124 anos, ganhava um upgrade decisivo e definitivo. Era como se a desigualdade social causada pelos séculos de escravidão estivesse sendo resolvida por dez homens e uma sentença. Não, não estou exagerando. Quem exagerou na retórica e na cena foram os ministros. Com a adoção de cotas, reiteradamente proclamada como transitória para não ser inconstitucional (palavras dos próprios, seguindo o relator), servia-se, enfim, "justice sociale à la suprême" no cardápio da universidade brasileira. Tudo provisório porque, graças a essa breve degustação, o Brasil logo apresentaria ao mundo uma fisionomia mais simétrica. Não fosse provisório, seria inconstitucional, claro... Retórica de fancaria, enganosa, mas ao gosto da tese e da turma.

É bom que saibamos: hoje, constitucional é o que a maioria do STF tem por justo. Ou por necessário. Ou por conveniente. Ou por correspondente ao clamor das ruas. Ou por imperioso ensinar às ruas. A escolha de qualquer desses critérios depende do caso e da opção de cada ministro. Basta, depois, para explicar o inexplicável, pinçar os dóceis princípios constitucionais e manipulá-los como massinha de moldar. Não subestimem a situação aplicando-lhe certas ideias que andam por aí a respeito de insegurança jurídica. A coisa é bem mais grave. Querem uma evidência? Os canais de tevê das duas casas do Congresso perdem audiência. É no canal do STF que acontece a real action, onde estão as novas celebridades, e onde as grandes questões se decidem. Que parlamento, que nada! E não esqueçam: o sistema de indicação dos ministros do Supremo foi concebido quando a reeleição presidencial era vedada. Em tese, a cada quatro anos mudariam os critérios de escolha. Hoje, oito dos onze membros da corte foram recrutados pela corrente política que encilhou o poder há mais de uma década.

Por outro lado, enquanto sobra sapato na ponta da universidade, a ponta do ensino fundamental anda de pé no chão. Para cada beneficiário de cotas raciais em atos de formatura do Ensino Superior, centenas de crianças com produção de melanina semelhante à do formando estão recebendo uma educação inicial de péssima qualidade. É equivocado afirmar que se cristalizam assim as injustiças sociais. Assim elas se reproduzem! Multiplicam-se, celeremente, na falta de planejamento familiar e numa realidade socioeducacional que só é vista de julho a setembro, em ano de eleição.

O STF deu mais uma prova de que a justiça discrimina. Se duvidar, pergunte às ruas. No subsolo do Brasil, nas senzalas do século 21, quem não faz discriminações, raciais ou sociais, leitor, é a injustiça. Ali, brancos, pretos e pardos são irmãos na miséria. Porque ocupam a franja do tecido social, dispõem do mesmo ensino público de péssima qualidade, abandonado pelo caminho por milhões de crianças, analfabetas funcionais, que ficam sem o molde da chave que abriria a porta dos salários dignos e dos méritos acadêmicos. Não fosse bastante, ainda serviram como cobaias para experiências pedagógicas tão fajutas e ruinosas quanto ideológicas e renitentes.


* Percival Puggina (67) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões.

quarta-feira, maio 02, 2012

A farsa não é novidade.


Na imagem acima, à esquerda uma farsa que correu o mundo sem ser retificada como deveria:


No dia em que eclodiu a Intifada, Tuvia Grossman estava indo de taxi visitar o Muro das Lamentações. Sua imagem foi fortemente aproveitada pelos holofotes da mídia internacional.
No dia 30 de Setembro de 2000, o jornais The New York Times, Associated Press e outros grandes órgãos da mídia publicaram a foto de um jovem rapaz - ensangüentado e ferido - sob a mira do cacetete de um policial israelense. A legenda o identificava como uma vítima palestina das recentes manifestações -- com a clara implicação de que o soldado israelense era o que estava agredindo o rapaz. A verdadeira identidade da vítima foi revelada quando o Dr. Aaron Grossman, de Chicago, enviou a seguinte carta ao Times: "A respeito da foto na página A5 do soldado israelense e o palestino no Monte do Templo, aquele palestino é na verdade meu filho, Tuvia Grossman, um estudante judeu de Chicago. Ele, e dois de seus amigos, foram arrancados de seu táxi, enquanto viajavam em Jerusalém, por uma multidão de árabes palestinos, e foram severamente espancados. A foto em questão não pode ter sido tirada no Monte do Templo, uma vez que não há postos de gasolina no Monte do Templo, e certamente não com inscrições em hebraico, como a que pode ser claramente vista atrás do soldado israelense que estava tentando proteger meu filho da multidão."Em resposta, o New York Times publicou uma insignificante correção que identificava Tuvia Grossman como "um estudante americano em Israel" -- não um judeu que havia sido espancado por árabes. A "correção" também dizia que o "Sr. Grossman foi ferido" na "Cidade Velha de Jerusalém" -- apesar de o espancamento na verdade ter acontecido no bairro árabe de Wadi al Joz, e não na Cidade Velha. Em resposta ao ultraje público que a correção inadequada causou, o New York Times publicou novamente a foto de Grossman -- desta vez com a legenda correta -- com um artigo completo detalhando seu quase-linchamento nas mãos de manifestantes palestinos.


Na imagem à direita, mais uma farsa:

Espalhou-se pela Internet que uma policial ferida durante o conflito gerado pelos aliados do governo federal (Apeoesp) estava sendo carregada 'gentilmente' por um professor tão dócil quanto uma ovelha no cio.

A verdade no entanto foi outra:




A Soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi contou que foi ferida com um golpe de madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos Professores.


Machucada, Érika foi imediatamente socorrida por um policial militar à paisana. Levada ao Hospital Albert Einstein, foi medicada e liberada, e hoje passa bem.


A policial militar Érika estava de serviço no local da manifestação, em 26 de março nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes, como outros policiais militares, para dar segurança ao ato pacífico dos professores. Porém, a manifestação se transformou em turba e a tropa foi agredida por pedras e paus. Nove manifestantes e sete policiais militares ficaram feridos. Érika, como os demais policiais militares de serviço, não estava sozinha, como nunca estará, provendo segurança ao cidadão ou se defendendo de toda hostilidade injusta e inconcebível.(do blog da policia militar do Estado de São Paulo)






Como se vê a farsa não é novidade e o partido que está no poder (leia-se petralhas) quer usar de toda a imaginação (que lhes falta quando o assunto é ética e honestidade) para induzir os incautos a erro (e depois as pesquisas compradas confirmarem) e influenciar na eleição que se aproxima (com Urnas Eletrônicas que só funcionam atreladas às pesquisas falsas).






É o Brasil que já virou a Republica Cleptocrática de Nova Sodoma.



Liberdade de expressão : Silas Malafaia consegue vitória.



Cristofobia: a Religião que mais cresce no mundo

Juiz extingue ação contra pastor Malafaia e deixa claro: ele não foi homofóbico, e a Constituição brasileira não comporta a censura sob nenhum pretexto

por Reinaldo Azevedo

O juiz federal Victorio Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível de São Paulo, extinguiu ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal contra o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, contra a TV Bandeirantes e também contra a União. Vocês se lembram do caso: no programa “Vitória em Cristo”, Malafaia criticou duramente a parada gay por ter levado à avenida modelos caracterizados como santos católicos em situações homoeróticas. Ao defender que a Igreja Católica recorresse à Justiça contra o deboche, Malafaia afirmou o seguinte: “É para a Igreja Católica entrar de pau em cima desses caras, sabe? Baixar o porrete em cima pra esses caras aprender. É uma vergonha!”

Acionado por uma ONG que defende os direitos dos gays, o Ministério Público Federal recorreu à Justiça, acusando o pastor de estar incitando a violência física contra os homossexuais. Demonstrei por que se tratava de um despropósito. E o que queria o MPF? Na prática, como escrevi e também entendeu o juiz Victorio Giuzio Neto, a volta da censura. Pedia que o pastor e a emissora fizessem uma retratação e que a União passasse a fiscalizar o programa.

A decisão é primorosa. Trata-se de uma aula em defesa da liberdade de expressão. Fico especialmente satisfeito porque vi no texto muitos dos argumentos por mim desfiados neste blog — embora tenha sido esculhambado por muita gente: “Você não entende nada de direito”. Digamos que fosse verdade. De uma coisa eu entendo: de liberdade. O juiz lembra que o Inciso IX do Artigo 5º da Constituição e o Parágrafo 2º do Artigo 220 impedem qualquer forma de censura, sem exceção. De maneira exemplar, escreve:

Permite a Constituição à lei federal, única e exclusivamente: “… estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no artigo 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente”.
Estabelecer meios legais não implica utilização de remédios judiciais para obstar a veiculação de programas que, no entendimento pessoal, individual de alguém, ou mesmo de um grupo de pessoas, desrespeitem os “valores éticos e sociais da pessoa e da família” até porque seria dar a este critério pessoal caráter potestativo de obstar o exercício de idêntica liberdade constitucional assegurada a outrem.

Mais adiante, faz uma síntese brilhante:

Proscrever a censura e ao mesmo tempo permitir que qualquer pessoa pudesse recorrer ao judiciário para, em última análise, obtê-la, seria insensato e paradoxal.
Excelente!

Afirma ainda o magistrado:
Através da pretensão dos autos, na medida em que requer a proibição de comentários contra homossexuais em veiculação de programa, sem dúvida que se busca dar um primeiro passo a um retorno à censura, de triste memória, existente até a promulgação da Constituição de 1988, sob sofismático entendimento de ter sido relegado ao Judiciário o papel antes atribuído à Polícia Federal, de riscar palavras ou de impedir comentários e programas televisivos sobre determinado assunto.”

O juiz faz, então, uma séria de considerações sobre a qualidade dos programas de televisão, descartando, inclusive, que tenham influência definidora no comportamento dos cidadãos. Lembra, a meu ver com propriedade, que as pessoas não perdem (se o tiverem, é óbvio) o senso de moral porque veem isso ou aquilo na TV; continuam sabendo distinguir o bem do mal. Na ação, o MPF afirmava que os telespectadores de Malafaia poderiam se sentir encorajados a sair por aí agredindo gays. Lembrou também o magistrado que sua majestade o telespectador tem nas mãos o poder de mudar de canal: não é obrigado a ver na TV aquilo que repudia.
Giuzio Neto analisou as palavras a que recorreu o pastor e que levaram o MPF a acionar a Justiça:
As expressões proferidas não são reveladoras de preconceito se a considerarmos como manifestação de condenação ou rejeição a um grupo de indivíduos sem levar em consideração a individualidade de seus componentes, pois não se dirigiu a uma condenação generalizada através de um rótulo, ao homossexualismo, mas, ao contrário, a determinado comportamento ocorrido na Parada Gay (….) no emprego da imagem de santos da Igreja Católica em posições homoafetivas.
Diante disto, não pode ser considerado como homofóbico na extensão que se lhe pretende atribuir esta ação, no campo dos discursos de ódio e de incentivo à violência, pois possível extrair do contexto uma condenação dirigida mais à organização do evento - pelo maltrato do emprego de imagens de santos da igreja católica - do que aos homossexuais.
De fato não se pode valorar as expressões dissociadas de seu contexto.
E, no contexto apresentado, pode ser observado que as expressões “entrar de pau” e “baixar o porrete” se referem claramente à necessidade de providências acerca da Parada Gay, por entender o pastor apresentador do programa, constituir uma ofensa à Igreja Católica reclamando providências daquela.
(…)
É cediço que, se a população em geral utiliza tais expressões, principalmente na esfera trabalhista, para se referir ao próprio ajuizamento de reclamação trabalhista (…) “vão meter a empresa no pau”. Outros empregam a expressão “cair de pau” como mera condenação social; “entrar de pau” ou “meter o pau”, por outro lado, estaria relacionado a falar mal de alguém ou mesmo a contrariar argumentos ou posicionamentos filosóficos.
Enfim, as expressões empregadas pelo pastor réu não se destinaram a incentivar comportamentos como pode indicar a literalidade das palavras no sentido de violência ou de ódio implicando na infração penal, como pretende a interpretação do autor desta ação.

Bem, meus caros, acho que vocês já haviam lido algo semelhante aqui, não?, escrito por este “não-especialista em direito”, como sempre fazem questão de lembrar os petralhas. Caminhando para a conclusão de sua decisão, observa:

Por tudo isto e diante da clareza das normas acima transcritas, impossível não ver na pretensão de proibição do pastor corréu de proferir comentários acerca de determinado assunto em programa de televisão, e da emissora de televisão deixar de transmitir, uma clara intenção de ressuscitar a censura através deste Juízo.”

Mas e quem não se conforma com fim da censura na TV? O juiz dá um conselho sábio, com certo humor e uma pitada de ironia:

Para os que não aceitam seu sepultamento - e de todas as normas infraconstitucionais que a previram - restam alternativas democráticas relativamente simples para a programação da televisão: a um toque de botão, mudar de canal, ou desliga-la. A queda do IBOPE tem poderosos efeitos devastadores e mais eficientes para a extinção de programas que nenhuma decisão judicial terá.

Caminhando para o encerramento


Sábias palavras a do juiz federal Victorio Giuzio Neto! Tenho me batido aqui, como vocês sabem, contra certa tendência em curso de jogar no lixo alguns valores fundamentais da Constituição em nome de alguns postulados politicamente corretos que nada mais são do que os “preconceitos do bem” de grupos de pressão influentes. Os gays têm todo o direito de lutar por suas causas. Mas precisam aprender que não podem impor uma agenda à sociedade que limite a liberdade de expressão, por exemplo, ou a liberdade religiosa.
No caso em questão, a ação era, em essência, absurda. É claro que o contexto deixava evidente que o pastor recorria a uma linguagem metafórica — de uso corrente, diga-se. Se alguém foi vítima de preconceito nessa história, esse alguém foi Malafaia. Não fosse um líder evangélico — e, pois, na cabeça de alguns, necessariamente homofóbico —, não teria sido importunado por uma ação judicial. Há um verdadeiro bullying organizado contra os cristãos, pouco importa a denominação religiosa a que pertençam. Infelizmente, a “religião” que mais cresce no mundo hoje é a cristofobia.

Eu, que tenho criticado com certa frequência a Justiça, a aplaudo desta vez.


domingo, abril 29, 2012

Capitalismo e espiritualidade.



Katia Abreu na Folha(28/04/2012)(*)


A perda do paradigma espiritual tornou o homem ocidental alheio aos mais elementares padrões éticos


A CRISE financeira de 2008, cujos efeitos ainda abalam os mercados -e se desdobram na presente crise europeia-, não foi, como muitos sustentam, um sinal de esgotamento do capitalismo.
Ou, na síntese reducionista, "o muro de Berlim da direita".

O que fracassou não foi o capitalismo, mas o uso inadequado de suas regras mais elementares. A causa direta da crise foi a concessão, deliberada e irresponsável, de empréstimos hipotecários a credores sem meios de pagá-los, sobretudo com a alta dos juros.

Como se não bastasse, os agentes financeiros, para contornar o desastre, recorreram a novos artifícios desonestos, que apelidaram de "inovações financeiras", com o objetivo de alavancar suas operações sem ter de reservar os coeficientes de capital requeridos pelo Acordo da Basileia, cujo propósito era exatamente evitar o que se deu.

Esse princípio se baseia na ideia de que a busca da riqueza não é problema e, sim, a ganância para conquistá-la a qualquer preço.

Os bancos norte-americanos chegaram ao limite. E, para piorar o que já não era bom, decidiram securitizar os títulos podres, contra toda a ortodoxia econômica, servindo-se da cumplicidade das agências de risco, interessadas em agradar a seus clientes.
Trapaça pura.

A crise financeira norte-americana espalhou-se como metástase pelo mundo. Um de seus efeitos mais claros foi expor a fragilidade da economia europeia, também marcada por transgressões a fundamentos básicos da economia.

A crise europeia decorre da fragilidade fiscal de países como Grécia, Portugal e Itália, cujos governos gastam mais do que arrecadam. Os investidores já preveem um "default" de seus títulos de dívida.
Na base de toda essa confusão não está uma demonstração de inviabilidade do capitalismo.
Ele foi conspurcado, violado em seus princípios.

E a saída tem sido problemática devido a outro fator básico, que extrapola a ciência econômica, mas que sobre ela e toda atividade humana exerce influência vital: a quebra de confiança. Sem ela, nenhum sistema se sustenta.

Credibilidade e confiança são valores que decorrem do culto às virtudes, algo que se perdeu numa sociedade que confunde Estado laico com Estado ateu -ou, pior ainda, antirreligioso.
De há muito, a perda do paradigma espiritual tornou o homem ocidental alheio aos mais elementares padrões éticos.

A relativização dos valores levou-o a uma visão materialista e hedonista da existência, estabelecendo comportamentos viciados, condutas desleais e irresponsáveis, quando não simplesmente criminosas.
Dostoiévski tem a síntese perfeita, quando, por meio de Ivan Karamazov, diz: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

É o que se tem visto: Deus foi retirado da história.

Europa e Estados Unidos são civilizações erguidas sob os valores do cristianismo, que moldou suas legislações e tradições. Hoje, esses valores são renegados, sob o argumento do laicismo do Estado, que de modo algum é incompatível com os valores espirituais.

A ausência de qualquer referência às raízes cristãs da Europa no preâmbulo da Constituição da União Europeia confirma a perda da referência espiritual de uma civilização cujos momentos de esplendor se vislumbram, ainda hoje, nas majestosas igrejas e catedrais góticas que fascinam turistas de todo o mundo.

Ética sem espiritualidade, sem a noção de um porvir em que todos serão julgados pelos seus feitos, não passa de uma fachada.

Nesse ambiente, a política, que a Grécia antiga considerava uma virtude, foi a primeira a se desmoralizar. A economia veio em seguida. O que mais falta?

Será que o Brasil não está seguindo essa agenda laica e antirreligiosa, pautando suas políticas pelos mesmos paradigmas que alimentam a presente crise?

Desatento a isso, não chegará assim a lugar melhor.


(*)KÁTIA ABREU, 50 anos é senadora (PSD-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

sexta-feira, abril 27, 2012

As cotas raciais e o Leito de Procrusto.






por 
Roberta Fragoso Kaufmann


Teseu e Procrusto








Na mitologia grega, conta-se a história de Procrusto, famoso ladrão que além de surrupiar os transeuntes que passavam em seu território, submetiam-nos a um tratamento cruel e degradante: a necessidade de enquadrá-los em um leito de ferro, cortando-lhes a cabeça ou as pernas, acaso ultrapassassem a cama. A lenda de Procrusto é uma metáfora sobre a tentativa de padronização, ainda que lastreada apenas em artimanhas e em sortilégios.

E aqui estamos, em pleno século XXI, vivenciando as agruras da intolerância e da heteroidentificação pretendida por meio dos Tribunais Raciais. De composição secreta e com base em místicos critérios, são as “Comissões Raciais” quem vão estabelecer os rótulos identitários que irão acompanhar os candidatos às cotas raciais pelo resto de suas vidas.

Alguém poderia me ensinar qual é o limite exato entre um pardo e um branco no Brasil? Será que preciso andar com uma cartela de cores igual à das lojas de pintura para que esta definição seja precisa e possa fazer algum sentido? Em um país miscigenado desde a colonização, como o Brasil, a definição da mestiçagem revela-se completa loteria. Somos ao cabo todos mestiços e o que dantes era motivo de orgulho, momentaneamente parece ser a grande chaga e a prova do racismo no Brasil: a dificuldade de encaixar-se em meio às pretensas categorias raciais. Não por acaso, na única pesquisa de amostragem em que o entrevistado foi livre para dizer à que cor pertencia, o resultado em terras tupiniquins foram impressionantes 135 possibilidades, em uma mostra criativa que nem o Aurélio é capaz de reproduzir.



Esta exposição se torna melancólica em relação ao nosso país quando se percebe que se a Corte Constitucional conceder o beneplácito à instituição das políticas de cotas raciais em Universidades, como é o caso hoje em julgamento, paulatinamente as cotas raciais serão estabelecidas em todos os setores sociais, como pretendido pela Secretaria de Igualdade Racial, beneficiando tão-somente uma casta de privilegidos de classe média e alta de negros que não seriam os mais necessitados da ajuda estatal. Consta do ideário de pleitos da referida Secretaria do Racismo Institucional a instituição de cotas raciais em partidos políticos, no mercado de trabalho, na publicidade e na propaganda, além de atendimento diferenciado no Sistema Único de Saúde e do estabelecimento de indenizações para cada descendente de escravo (?) no Brasil.

Em vez de observarmos o Brasil como exemplo para o mundo do século XXI, a partir do convívio harmônico entre brasileiros natos e imigrantes das mais diferentes culturas, religiões e cores, ativo absolutamente estratégico nesse século de tantos conflitos, pretende-se promover o dissenso e a divisão de nossa unidade nacional. As tentativas de racialização e de imposição de categorias estanques colocam em risco justamente o que temos de diferente – e de melhor – em relação aos outros países.

Nós não precisamos copiar um modelo que foi pensado para resolver o problema do racismo institucionalizado e praticado em outros países. Podemos ser criativos e elaborarmos um modelo próprio de ação afirmativa para a necessária integração dos negros carentes no Brasil. Cotas sociais, sim! Cotas raciais, não! Porque a pobreza, no Brasil, é a grande causa da segregação.




quinta-feira, abril 26, 2012

Já passou da hora de o STF tomar jeito





- MARCO ANTONIO VILLA(*)


O STF como ele é


Virou um tribunal de última instância. É lento, pesado

O encerramento do mandato de Cezar Peluso à frente do Supremo Tribunal Federal pode significar uma mudança positiva no rumo daquela Corte? É difícil supor que subitamente o STF passe a agir de forma republicana, cumprindo suas funções constitucionais. O clima interno é de beligerância. A cerimônia de posse do presidente Ayres Britto sinalizou que o provincianismo continua em voga. Foi, no mínimo, constrangedora a presença de Daniela Mercury cantando (mal) o Hino Nacional. Mas pior, muito pior, foi o momento em que a cantora recitou um poema do presidente recém-empossado, já chamado de ministro pirilampo: "Não sou como camaleão que busca lençóis em plena luz do dia. Sou como pirilampo que, na mais densa noite, se anuncia." Mas como tudo o que é ruim pode piorar, o discurso de posse foi recheado de metáforas. Numa delas disse algo difícil de supor que seria pronunciado naquele recinto (e mais ainda por um presidente): "A silhueta da verdade só assenta em vestidos transparentes."

O clima circense (os mais otimistas dirão: descontraído) da posse é uma mostra de como as instituições republicanas estão desmoralizadas. Teremos uma curta presidência Ayres Britto. Logo o ministro vai se aposentar. Pouco antes, Cezar Peluso também vai seguir o mesmo caminho. A presidente Dilma Rousseff dificilmente vai nomear dois ministros para preencher as vagas. Assim, teremos um STF com 9 membros, paralisado, com milhares de processos para julgar. E, para dar mais emoção, tendo na presidência Joaquim Barbosa. Ah, teremos um segundo semestre inesquecível naquela Corte.

Peluso saiu da presidência atirando. Foi sincero. Demonstrou o que é: autoritário, provinciano, conservador, corporativista e com uma questionável formação jurídica. Fez Direito na Faculdade Católica de Santos. Depois teve na USP como orientador Alfredo Buzaid, ministro da Justiça do presidente Médici. Não viu nada de anormal. Devia comungar das ideias de Buzaid. Afinal, a tese foi feita quando ele era ministro do governo mais repressivo da ditadura. Com a redemocratização, Peluso buscou outras companhias. Acabou se aproximando dos chamados setores progressistas. O poder tinha se deslocado e ele, também.

Na entrevista ao site Consultor Jurídico, disse que organizava reuniões domésticas com os teólogos Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez. Relatou que ficou impressionado quando Gutierrez alertou sobre a importância do ato de comer na Bíblia. Sim, leitor, o que chamou a atenção de Peluso, na Bíblia, foi a comida. Sem nenhum pudor, disse que uma carta do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns foi determinante para sua escolha para o STF pelo ex-presidente Lula. Como se um assunto de Estado fosse da esfera da religião, esquecendo que a Constituição (e desde a primeira Carta republicana, a de 1891) separou a Igreja do Estado.

Atacou frontalmente a ministra Eliana Calmon, corregedora do CNJ. Afirmou que sua atuação estava pautada pela mídia e pelo desejo de fazer carreira política. E, mais, que não obteve nenhum resultado prático da sua ação. Fugiu à verdade. Se não fosse a corajosa atuação da corregedora, por exemplo, não ficaríamos sabendo dos fabulosos "ganhos eventuais" dos desembargadores paulistas (Peluso incluso - teria recebido 700 mil reais).

Peluso foi descortês com os colegas do STF. Na votação sobre as atribuições do CNJ, fez de tudo para ganhar a votação. Interrompeu votos, falou diversas vezes defendendo seu ponto de vista e mesmo assim perdeu. Imputou a derrota à ministra Rosa Weber, que teria dado o voto decisivo. Deixou no ar que ela votou sem ter conhecimento pleno do processo. Nos ataques aos colegas, não poupou o ministro Joaquim Barbosa. Insinuou que ele não gostava de trabalhar. Era inseguro. Que frequentava bares. E que não tinha nenhuma doença nas costas. O estereótipo sobre Barbosa é tão vil como aqueles produzidos logo após 13 de maio de 1888.

Apontei em três artigos no GLOBO alguns problemas do STF ("Um poder de costas para o país", "Triste Judiciário" e "Resta, leitor, rir"). O mau funcionamento daquela Corte não deve ser atribuído somente aos bate-bocas de botequim ou a alguma questão conjuntural. O STF padece de problemas estruturais. Deveria ser um tribunal constitucional, mas não é. Virou um tribunal de última instância. É lento, pesado. Tem de melhorar o desempenho administrativo. E o problema, certamente, não é a escassez de funcionários. São 3 mil. Os ministros tiram muitas licenças. Tudo é motivo para a suspensão dos trabalhos. E não é de hoje. A demora para a indicação de vagas abertas no tribunal também é um complicador.

Tudo indica que a questão central para o bom funcionamento do STF é a forma de como são designados os ministros. De acordo com a Constituição, a iniciativa é do Executivo. O nome é encaminhado, também segundo o rito constitucional, para o Senado. E lá deveria - deveria - ser sabatinado pelos senadores. São dois problemas. Um é a escolha presidencial. Não tem se mostrado o melhor método. Os nomes são questionáveis, as vinculações pessoais e partidárias são evidentes. E o selecionado geralmente está muito abaixo do que seria aceitável para uma Corte superior. Já a sabatina realizada pelos senadores não passa de uma farsa. A última, da ministra Rosa Weber, foi, no mínimo, constrangedora. A ministra mal conseguia articular uma frase com ponto final. Disse que estava muito nervosa. Foi dado um intervalo para café. No retorno, infelizmente para nós brasileiros, o desempenho da senhora Weber continuou o mesmo. Já passou da hora de o STF tomar jeito.


(*)Marco Antonio Villa

Historiador. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia e Doutor em História.
http://www.marcovilla.com.br/

quarta-feira, abril 25, 2012

Para onde foi o (sigilo do) voto?




Por Pedro Antonio Dourado de Rezende em 17/04/2012(observatóriodaimprensa)


Em sua segunda edição, o Teste Público de Segurança da Urna Eletrônica brasileira, organizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), teve suas três fases – análise de código pelas equipes de investigadores inscritas, propostas e testes, e audiência pública para divulgação dos resultados – realizadas em março deste ano. Encerrou-se com a divulgação dos resultados no dia 29/03/2012, mas teve a publicação do relatório final postergada para 10 de abril.

Nesta edição, algo de inusitado: todo o esquema para controlar a forma como iria repercutir o que lá se passava, habitual em eventos envolvendo o sistema de votação do TSE, falhou no momento em que uma observadora credenciada, advogada e representante partidária, conseguiu, na tarde do segundo dia de testes, escapar momentaneamente de um vigia que a seguia por lá e enviar um email para o moderador do Fórum do Voto Seguro, informando que havia acontecido o inesperado.

O que houve foi comunicado da seguinte maneira: o investigador Diego Aranha (da equipe da UnB) conseguiu, através de testes, montar a sequência dos votos dados por 475 eleitores. Podemos completar: ele conseguiu isto com o material que a urna normalmente produz, como resultado numa eleição. A saber: os arquivos que a urna emite e grava em uma mídia de resultados quando a votação se encerra, destinados a fiscais de partido, ao mesário e ao cartório eleitoral, junto com o que vai cifrado para a Justiça Eleitoral totalizar.

Ao recuperar e imprimir, a partir do arquivo RDV, os votos de uma eleição simulada na ordem em que foram sufragados, o teste do professor Diego materializa violação flagrante do inciso IV do artigo 103 do Código Eleitoral (Lei 4737/65), que prescreve, ao sistema de votação IV: “emprego de urna que assegure a inviolabilidade do sufrágio e seja suficientemente amplapara que não se acumulem as cédulas na ordem que forem introduzidas”. O RDV é o Registro Digital do Voto, que representa o conjunto embaralhado de cédulas. É um dos arquivos emitidos pela urna do TSE para fiscalização de eleições oficiais, conforme a Lei 10.740/03.

Tempos modernos

A partir daí, aconteceu o inesperado para a Justiça Eleitoral. Um jornalista postou, às 9h37 do dia seguinte – último dia de testes –, num portal de grande penetração no mundo da informática, uma matéria intitulada UnB quebra o sigilo da urna eletrônica. E a Justiça Eleitoral, lá no ambiente em que os testes estavam sendo conduzidos, surtou. Não sabia bem o que fazer... mas começou a reagir. A primeira reação foi cassar as credenciais de observadores que haviam sido concedidas ao fiscais de partido interessados (o teste seria público).

Depois, dizer, pelo mesmo portal, que já tinham consertado, e que o que havia acontecido lá nos testes não quebrava o sigilo do voto. E, então, entrar na grande mídia dando declarações com o sentido de conter o estrago na imagem de perfeição, de indevassabilidade do sistema (SIE), algumas das quais vamos tomar como fio condutor desta narrativa. O mais importante para um professor de ciência da computação que se dispõe a fazer isto é o fato de o presidente do Tribunal Superior Eleitoral ter respondido ao que estava acontecendo, para o jornal O Globo, falando em código. Vamos então ao que o ministro declarou.

“Não houve violação da urna eletrônica durante o teste, porque os especialistas tiveram acesso a um código… Foi dentro de um ambiente controlado. Isto numa situação real seria absolutamente impossível porque ele não teria acesso à fonte.… O eleitor pode ficar tranquilo que não é uma quebra, porque esta não era uma situação real e não há como vincular a sequência de votação ao eleitor” disse Lewandowski.

Como decodificar? Tentando. Primeiro: ninguém, nos primeiros momentos da divulgação do que estava acontecendo nos testes de segurança da urna, declarou ou divulgou que tinha havido quebra ou violação da urna propriamente dita, e sim do sigilo do voto na urna (pelo inciso IV do artigo 103 do Código Eleitoral). Para evitar confusões, é imperativo considerar que, em se tratando de informática, há códigos e códigos.

No caso em análise, código fonte é o que o programador escreve para ser traduzido, por outro programa, em linguagem de máquina que vai ser entendida pela urna. Então, código fonte é o que o programador entende, e sobre o qual ele trabalha; é obra dele; enquanto código executável é um resultado desse trabalho que a urna entende, e segundo o qual ela trabalha. Ninguém mexeu em código na urna! Conheceu-se código fonte que é usado para gerar código executável na urna.

Outra grande confusão, que pode ocorrer em possíveis interpretações da declaração em exame, é entre a urna e o sistema. O sistema eleitoral brasileiro, chamado SIE, não é só a urna eletrônica. A urna é só um pedaço do SIE. E, creiam vocês, não é o mais importante para quem queira fazer trapaças com o processo eleitoral, nos moldes em que ele é conduzido hoje.

Antes de uma eleição, há um processo de preparação, que é tão importante quanto o que ocorre no dia da votação. Tudo o que vai durante uma votação deveria ser homologado para verificar se atendeu à especificação, mas do jeito que é feito hoje, é praticamente apenas a Justiça Eleitoral que a isso se dedica. Nem sempre com muita precisão a verificar se o que foi entregue, se o que foi feito, corresponde ao que foi solicitado por escrito nos editais. E o mais importante é que o processo deveria incluir, ou possibilitar, meios independentes de verificação dos resultados.

Não mais. Nossa sociedade aceitou trocar o direito de fiscalizar de fato, com eficácia, o processo que escolhe nossos representantes políticos por algum fetiche relacionado à facilidade e à rapidez. Se a sociedade está desencantada com os políticos, por que seus cidadãos iriam fiscalizar pessoalmente o processo que os escolhe? Não seria mais prático, nesses tempos modernos, confiar tal tarefa à própria tecnologia, a mecanismos automatizados e impessoais, mesmo que incompreensíveis para o eleitor comum? Não estaria tudo bem, já que com tais mecanismos em uso ninguém consegue ver ou provar que estaria havendo fraude?

Ufanismo ingênuo

Reflita. Há algo crucial que tal linha de raciocínio tende a ignorar: são esses mesmos políticos que escolhem, através de leis, como serão esses mecanismos. Ignorar tal fato, e suas consequências mais óbvias, pode ser sinal de doença para a democracia, potencialmente fatal. Se alguém quiser avaliar por si mesmo se tal ignorância seria ou não perigosa, mesmo ou como, precisa então conhecer melhor nosso processo eleitoral, superando suas próprias desculpas para tão toscas confusões. O diagrama abaixo tenta ilustrar um pouco como é o processo de votação.


Os momentos e os canais pelos quais um eleitor ou um candidato poderia agir para fiscalizar se o processo está ocorrendo corretamente, sem interferência indevida, são essas linhas verticais ou inclinadas que cruzam a linha vermelha. No processo eleitoral, o que é eletrônico corre pela linha horizontal superior em cada quadro do diagrama acima, e a atuação das pessoas que querem fiscalizar deve ocorrer nas etapas de controle, nos quadros abaixo da linha vermelha.

A informatização como instrumento para facilitar e/ou agilizar a apuração e a totalização deveria ser acompanhada de (sub)processos de fiscalização que normalmente existem em eleições, informatizadas ou não. Um fiscal deve poder conferir se o eleitor, que está indo votar, é quem foi identificado mesmo pelo mesário (quadro de controle à esquerda, no diagrama acima); o eleitor deve poder ver se o voto que ele está registrando é o que vai ser entendido ou recebido pela urna (segundo quadro), e assim por diante.

No voto em papel, o eleitor sabe que a cédula a ser depositada ali vai ser – se a urna não for violada – uma das que surgirão quando a urna for aberta para contagem ou recontagem. Enquanto numa urna DRE, ele só vê o botão que aperta; ele vê alguma coisa na tela, mas ele não está vendo os bits que vão entrar numa tabela (RDV) dizendo para qual candidato seu voto será contado. Nem como os bits vão representar o total de votos dados a cada candidato na sua seção eleitoral, em um arquivo chamado Boletim de Urna (BU), que serão somados numa outra tabela na totalização nos TREs.

O eleitor está acreditando que vai ser conforme ele vê na tela, conforme os eleitores veem em suas telas, mas ele não tem como verificar. Verificar com a própria urna dizendo estarem íntegros os seus programas, seja por testes de votação paralela, por assinatura digital ou por qualquer outro método, é puro teatro, com mais ou menos truques, como até o próprio inventor da assinatura digital atesta. É um ato de fé, artificiosa e distinta da fé na persistência do papel, pois a violação eletrônica de registros e mapas de votação virtuais pode ser invisível, sem rastro e por atacado, tudo ao contrário da violação de registros materiais. Alegar aqui a honestidade dos “nossos programadores”, contar com ela ou supô-la por decreto, funciona como prova científica de que o modelo de segurança de sistemas de votação com urnas DRE nasce quebrado.

No modelo VVPT, sigla em inglês para Voter-Verifiable Paper Trail, sistemas que permitem uma trilha de auditoria para verificação, pelo eleitor, de que o registro e a contagem de votos estão sendo feitos corretamente, a urna tem que não só somar eletronicamente os votos, mas também produzir ou trabalhar com um registro material de cada voto que corresponda ao voto contado eletronicamente, para efeito de recontagem em caso de dúvida ou de sinais de que alguma coisa errada ocorreu por falha ou manipulação indevida através do software.

Existem duas maneiras de a urna VVPT fazer isso: ou ela trabalha com o registro material na entrada – escaneando o voto registrado em papel –, maneira usada na maioria dos países hoje que usam votação eletrônica, como os EUA (na grande maioria dos estados), a Rússia, a França (onde a votação é feita eletronicamente em apenas 3% das seções eleitorais) e muitos outros; ou ela trabalha com o registro material do voto na saída – imprimindo o voto para ir para um repositório que permite uma conferência independente do software em caso de necessidade.

A trilha de auditoria com registro material do voto no modelo VVPT não é uma solução ideal, não é uma solução necessariamente boa. Até porque, em havendo discrepância entre contagem virtual e recontagem manual, o modelo VVPT não indica onde está o erro ou manipulação indevida, e uma delas terá de ser privilegiada. No final das contas, porém, nenhum sistema de votação será bom se a sociedade não tiver interesse em usá-lo para fiscalizar sua função. Não adianta imprimir voto, ler voto escaneado, ou fazer eleição com uma parafernália de medidas teatrais mas sem nenhum registro material – como é o caso brasileiro – se uma massa crítica de eleitores não estiver interessada e diretamente envolvida na fiscalização do processo, mas não como meros espectadores ou robôs.

Entretanto, o modelo VVPT apresenta uma certa vantagem sobre o DRE que é crucial em democracias que se levam a sério. A saber, a vantagem de não cercear, a pretexto de uma inevitável modernização, o direito do eleitor que queira fiscalizar o processo de votação eficazmente poder fazê-lo. Se esse direito for cerceado pela arquitetura do sistema de votação, não adianta nem querer. E se quisermos mesmo evoluir nisso, temos que começar reconhecendo e desmistificando o ingênuo ufanismo que tem prevalecido entre nós, alimentado por intensa e difusa propaganda institucional. Para isso precisamos enxergar nosso processo eleitoral em perspectiva, com um olhar desapaixonado, para entendermos como chegamos onde estamos.

Urnas, mais urnas

Voltando ao ano de 2002, na trilha do que ficou conhecido como “escândalo do painel do Senado”, em que o presidente e um ex da casa lavaram roupa suja na mídia, a sociedade se chocou com a manipulação de votações eletrônicas – lá a “falha” foi justamente de quebra do sigilo em votações supostamente secretas –, e o resultado do choque foi uma lei que reintroduzia o voto impresso, para fins de fiscalização da apuração eletrônica, medida presente em nossa primeira eleição com voto informatizado, em 1996, embora não usada. Esta lei, a 10.408/02, exigia que as urnas DRE em estoque fossem adaptadas para VVPT, e que nas eleições seguintes 3% delas tivessem a apuração recontada manualmente, a partir dos votos impressos e guardados na mesma, para validação da apuração eletrônica.

Tal medida foi objeto de sutil sabotagem pelo fiscalizado, ao interferir na tramitação do correspondente projeto de lei – e consequentemente na posterior vigência da mesma –, para depois se dispor a “testar” tal medida antes da lei entrar em vigor, nas eleições de 2002, indo ao encontro dos anseios de quem não quer nada com fiscalização de votação. Para então, em 2003, uma vez esquecido o escândalo do painel do Senado, de lá mesmo promover uma espécie de “solução” para o “caso”: aprovada de forma estranha e às pressas, uma nova lei, de número 10.740/03, substituiu o voto impresso por algo equivalente a um bode na sala da urna – o RDV –, o qual viria depois a ser o pivô das inusitadas ocorrências na segunda edição do Teste Público de Segurança da Urna, em março de 2012.

O RDV, sigla para “Registro Digital do Voto”, é uma espécie de representação virtual daquilo que conteria uma urna VVPT que imprime votos. A urna conteria uma cédula de papel para cada voto, com uma marcação de candidato escolhido para cada cargo em que o eleitor votou. Esta cédula é então representada eletronicamente no RDV, cujo formato natural é de uma tabela ou planilha eletrônica. Segundo a justificativa no projeto de lei que o introduziu, o RDV serve para fiscais de partido “validarem” a apuração e totalização, e para pesquisadores estudarem comportamentos do eleitorado.

Doutro lado, como nesse período cresceu o rol de deputados que se sentiram lesados ou desprotegidos em eleições, dentre outras razões pela total ineficácia do RDV como instrumento fiscalizatório, semelhante ao de se comparar um documento questionável com uma cópia xerox do mesmo, a Câmara do Deputados tomou a iniciativa de aprovar, e aprovou em 2009 – derrubando reveses que o Senado havia enganchado em 65 emendas –, mais uma lei eleitoral, a número 12.034/09, que mais uma vez reintroduzia o voto impresso como medida fiscalizatória via adaptação das urnas DRE em estoque ao modelo VVPT (no Artigo 5°).

Mas tal medida, prevista para vigorar a partir de 2014, foi suspensa desta vez por sentença cautelar, em Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4543) impetrada com base em argumento tecnicamente falacioso, que confunde assinatura eletrônica da urna com assinatura eletrônica do eleitor na cédula impressa. Confusão esta inteiramente gratuita, já que não há nada na legislação eleitoral que preveja, descreva ou mencione assinatura digital do eleitor no processo de votação, se ao termo “assinatura digital” for atribuído o mesmo sentido técnico – como certamente pretendeu o legislador – que a própria Justiça Eleitoral sempre atribuiu à “assinatura digital” da urna, lavrada e verificada desde 2002 em arquivos eletrônicos que a urna DRE emite e recebe.

A sentença cautelar desprezou argumentos apresentados em amicus curiae, admitido nos autos, explicando como a ADI 4543 se baseia apenas em tal confusão gratuita. E foi proferida, em outubro de 2011, pela mesma ministra do Supremo Tribunal Federal que, salvo desconhecida homonímia, assume a presidência do Tribunal Superior Eleitoral em 18/04/2012. Tribunal que licitou, dez meses após a aprovação da Lei 12.034/09 e 15 meses antes de proferida a tal cautelar, uma compra de 250 mil novas urnas totalmente desqualificadas para cumprir as medidas de segurança exigidas pelo artigo 5° daquela lei, resultando em contrato que depois foi aditado para a compra de mais urnas, totalizando 313 mil, a maior parte entregue antes mesmo de impetrada a ADI 4543.

Digitando e compilando

O direito a mecanismos de fiscalização baseados em registro material do voto foram e seguem sendo assim quebrados, por mudanças na legislação ocorridas em 1997, 2003 e 2011 (indicadas na figura acima). Seu pretenso substituto, o RDV, passou mais da metade de sua vida recluso, com a Justiça Eleitoral levando cinco anos para permitir o cumprimento de sua suposta finalidade. Respirou ares desta finalidade só nas duas últimas eleições, quando fiscais de partido receberam RDVs de 2008 e 2010, apesar de os estarem solicitando desde a eleição de 2004. E pôde finalmente mostrar para que serve, em situações, diremos, reais, em 2012. Se é para conhecer melhor o processo, cabe aqui perguntar: por que a Justiça Eleitoral demorou tanto para permitir sua suposta finalidade, e qual é a sua real utilidade?

Para possíveis respostas, temos antes que entender como o RDV pode representar publicamente todos os votos de uma seção eleitoral sem violar o sigilo do voto do eleitor. O RDV é no fundo um arquivo linear de caracteres digitais, mas com um formato que corresponde a uma tabela, a uma planilha, onde o eleitor, ao votar, tem suas escolhas nela registradas pelo software da urna em posições aleatórias. Ou supostamente aleatórias (um exemplo hipotético, com uma seção de sete votantes para eleição de presidente, governador e senador, pode ser vista aqui).

Para desfazer mais confusões que se seguiram, é bom frisar logo um fato importante: os testes que o professor Diego Aranha conduziu no TSE em 20 e 21 de março foram realizados num ambiente de eleição oficial simulada, apenas com material que a urna produz normalmente. Ele não tocou na urna. Ele apenas recebeu o material que a urna gravou e imprimiu ao fim da votação simulada, e com ele tentou reconstruir a sequência de votos dados. O rompimento do lacre do pendrive, ali, atesta apenas e tão somente que o teste foi feito com uma votação oficialmente íntegra, e nunca que ele teria violado a urna para poder realizar o teste, pois os votos dessa urna só seriam oficialmente válidos e totalizados se o mesmo lacre estivesse ileso ali para ser rompido, naquele exato momento, tal e qual.

O que é que o professor Diego precisava para fazer o que fez? Ele precisava saber como foram escolhidas as posições dos votos, supostamente aleatórias, na tabela do RDV. Como ele só pôde examinar o código fonte do software da urna por algumas horas em dois dias, e uma semana antes dos testes, e esse código tem cerca de dois milhões de linhas, então é como se ele tivesse tido a oportunidade de entrar numa biblioteca com cinco mil livros para consultá-los e entender nesse tempo como a urna seria programada. Daí ele iria para o teste, para programar, em um computador alocado para isso, algo que pudesse mostrar como a urna é vulnerável. Mas o jogo desses testes – públicos, porém controlados (i.e., não independentes) – é de cartas marcadas contra os investigadores.

Ele teria três dias para fazer isso, mas teria que antes dizer à Comissão Organizadora dos testes o que pretendia fazer, isto é, qual o seu plano de ataque, e obter dela autorização para executá-lo, sempre vigiado pelo pessoal do TSE que desenvolveu o sistema. Ele então submeteu um plano para dois tipos de ataque, com detalhamento raso o suficiente para serem aprovados (para que a Comissão os considerasse de sucesso impossível), mas com uma óbvia preocupação. A de que se o pessoal que o estava vigiando percebesse o que ele estava mesmo fazendo, eles poderiam, violando ocultamente as regras do jogo, ir ao ambiente de desenvolvimento do sistema e mudar o código na urna de teste para que o ataque não mais funcionasse como planejado.

Ou seja, se a urna que iria gravar o pendrive fosse mudada no meio do jogo, o que ele estaria tentando fazer não iria dar certo. Então ele teve que fazer seu programa, que reconstrói a sequência de posições para gravação no RDV, escondendo o que estava fazendo dos que o vigiavam, limpando a tela quando alguém vinha com olhar mais curioso, não deixando rastro no computador que lhe deram para trabalhar no TSE, tendo que lembrar à noite o que foi feito no dia, digitando e compilando de novo em casa. E já no primeiro dia ele havia conseguido: no computador que lhe deram para trabalhar, a partir do material produzido pela urna em votação simulada, reconstruir a sequência das posições para cada eleitor, ler e montar a sequência das votações numa lista, e apresentá-la como resultado.

Leitura atenta

Como o pessoal que desenvolveu o software da urna parecia não estar acreditando no que estavam vendo, o professor Diego precisou repetir o teste para dez, 16, 21 eleitores até que os mesmos decidiram, para o dia seguinte, fazer um teste definitivo: com votação a mais próxima da real possível, com 475 eleitores, que é a média de participação por seção na eleição passada. E fizeram. Levaram duas horas e meia para fazê-lo. E quando estavam por encerrar, uma advogada devidamente credenciada junto ao TSE como representante partidária e observadora dos testes, aproximou-se para observar. E presenciou quando o professor Diego, ao final da simulação e do resultado bem sucedido, recebeu permissão do seu vigia para falar com a imprensa da Universidade de Brasília, e concedeu entrevista.

Só que a Comunicação Social da Universidade de Brasília parece não ter tido autonomia para soltar o material lá gravado. Nem no dia seguinte, nem no outro. Talvez porque na Comissão Organizadora dos testes houvesse gente do alto escalão da reitoria não muito interessada em que a divulgação do ocorrido naqueles testes saísse primeiro pela versão do investigador, e não pela versão do investigado, que lhe nomeara para a tal Comissão. Se não fosse aquele e-mail da advogada, e a matéria do jornalista da Convergência Digital, o ministro que presidia o Tribunal Superior Eleitoral, e que até o dia 18/04 deverá presidi-lo, não teria nos dado a oportunidade de decodificar aquelas suas declarações a O Globo. O que pretendo continuar fazendo, com a permissão do leitor.

A próxima frase é a seguinte:

“…Foi dentro de um ambiente controlado. Isto numa situação real seria absolutamente impossível porque ele não teria acesso à fonte.…”

Ora, o investigador Diego não teve acesso a nenhum código fonte na hora em que ele executou o teste. Nem à do seu próprio programa, que estava em sua casa. A do software da urna, ele teve acesso uma semana antes. E aquela montanha de código, ele teve pouco tempo para examinar. É como se o tivessem amordaçado, atado uma venda nos seus olhos, jogado-o num palheiro contendo uma agulha, e lhe pedido: “Encontre a agulha.” Como ele é um exímio profissional, competente cientista, e tem o jeito para a coisa como especialista em segurança computacional, ele usou o faro e o tato. E achou a agulha no palheiro, que é a reconstrução daquela sequência de posições no RDV.

Ele sabia exatamente o que procurar, e onde. E se surpreendeu com o que encontrou. Tanto que em menos de uma hora de inspeção, nas mais de dois milhões de linhas de código, ele já tinha um plano de ação para os dias de teste. Então, está na cabeça do professor Diego, está na cabeça de quem o professor Diego pode ou escolhe explicar – e que também entenda –, daqui para a frente, o que aconteceu nos testes, e por que. Não há necessidade de se ver de novo o que está lá guardado no TSE, ou o código fonte que na ocasião lá estava. Até porque a explicação que está na cabeça do professor Diego é possível de ser inferida, por pessoas aptas a entender, do relatório dos testes elaborado em conjunto por sua equipe e a tal Comissão, publicado pelo TSE em seu portal em 10/4.

No que concerne à mensuração das vulnerabilidades reveladas pelo sucesso de tais testes, código fonte é importante para aquilo que o software da urna fará em eleições seguintes. Muda-se nele o trecho que gera as posições de gravação no RDV, para uma forma não ou menos previsível. Já o código fonte de versões do software instaladas nas urnas em eleições passadas, as quais geraram RDVs como parte do seu funcionamento normal, este já era. Para tal mensuração, a lógica que determinou as posições de gravação naqueles RDVs, inclusive os das eleições de 2008 e 2010 que hoje estão com fiscais de partido, está fixada e é testável nos próprios RDVs, apesar dessa lógica ter se originado de um código fonte que... Mas de que fonte estaria falando o ministro?

Seria a de eleições anteriores, ou a desses testes? Será que são o mesmo código, ao menos no trecho que determina as posições de gravação no RDV? Ou não? Que dica maravilhosa tal ambiguidade conota, para quem possa querer fraudar: se você mudar uma linha, 5 ou 20 de um código, numa agulha de um palheiro de símbolos, você pode produzir efeito em até 450 mil urnas, sem precisar ir a cada uma delas, ou sequer mandar alguém se aproximar. Se prejudicados não souberem da mudança, ou melhor, se os trouxas não tiverem como provar que ela foi feita, eis aí um fio de bigode. Pois o leigo não percebe o perigo da votação em urnas DRE, no fato dela concentrar riscos em quem faz o software funcionar. Das fraudes, ele se preocupa é com as visíveis de varejo.

Voltando ao que a frase do ministro denota, sua leitura direta dá a entender que a “fonte” à qual se refere seria o código fonte do software da urna que “ele” (professor Diego) testou em 20 e 21 de março, código que ele teria visto uma semana antes. E que o “isto” na mesma frase refere-se à recuperação da ordem dos votos a partir de um RDV produzido por uma urna em votação normal, que o teste simulou. Assim, o ministro estaria literalmente dizendo, em palavras menos ambíguas, que fora dos testes seria impossível recuperar a ordem correta dos votos porque ele (Diego) não vai mais ter acesso à fonte que ele viu na primeira fase dos testes. Mas, alto lá.

O professor Diego não precisa mais ter acesso à tal fonte para reordenar os votos de RDVs gerados com o software testado: isto ele provou pelas próprias condições, aqui citadas, sob as quais seus repetidos testes foram bem sucedidos. Portanto, ele não precisa desse acesso para desembaralhar os votos de qualquer RDV gerado por qualquer software que, tendo funcionado em votações, determinou da mesma forma as posições para gravação no RDV. Nem o professor Diego precisa desse acesso, nem ninguém que venha a entender, até de uma leitura atenta do relatório dos testes: que forma é esta, e como replicá-la para se ler os votos na ordem certa. Inclusive possivelmente dos RDVs das eleições de 2008 e 2010 hoje em posse de fiscais de partidos ou de pesquisadores.

Edital dixit

Há ainda duas outras extensões da vulnerabilidade detectada com os testes que cabem citar. Uma, que concerne ao código fonte para o software da urna em eleições futuras: qualquer cidadão que se inscreva como fiscal de partido tem direito legal de examiná-lo (Lei 9.504/97), durante um período que antecede sua compilação, em cerimônia pública, para o software correspondente. Ou, supostamente correspondente: embora o objetivo da lei suponha assim, sua execução pelo TSE não tem dado qualquer garantia de que o código fonte mostrado aos fiscais seja o mesmo que é compilado na cerimônia, ou que o sofware ali compilado seja o mesmo que irá funcionar nas urnas. Ao contrário: ao menos nas eleições de 2000, 2004 e 2008, um ou outro sabidamente não o foram.

Então, em situações reais, muitos poderão saber, embora talvez aproximadamente, como a urna funciona(ria). E é assim, de lei, simplesmente porque em sistemas de votação com urnas DRE tal possibilidade é a única âncora de confiabilidade que eles oferecem. Porém, nas situações em que o software da urna pode mudar a qualquer momento, sem que legítimos fiscais saibam como, quem por último escreve na fonte ou produz tal software terá a primazia de saber como exatamente ela funcionará. Brandir tal fato como garantia – implícita ou derivada – de segurança ao eleitor que quer lisura no processo, é um crasso erro de engenharia da segurança, conhecido como tal há mais de cem anos (Lei de Kerckhoffs). Pois nessa primazia podem crescer certos fios de bigode.

Diante disso, cabe concluir que, com a introdução dos RDVs, nada relativo a sigilo do voto é absoluto. Mudar no código fonte o trecho que gera as posições de gravação no RDV para uma forma não previsível é tarefa de sucesso incerto até nas novas urnas, que já vêm com hardware criptográfico, pois as ações da urna no início da votação são bem previsíveis, gerando entropia pouca até para esse hardware, se nem todos os recursos deste forem usados corretamente. Mudar o código para uma forma menos previsível ou percebível, por sua vez, expõe à tal primazia uma faca e queijo, já que o RDV acabou amarrado à forma como o software da urna hoje opera, talvez devido a inconsistências que sua introdução, imprevista, causou num sistema desenvolvido precariamente. Na sala, bode amarrado também cresce barba, cujos fios poderiam ser de bigode.

Outra extensão da vulnerabilidade detectada que cabe citar concerne às eleições passadas. Trata-se do que o professor Diego chamou de “ataque de Sandy”. Voltando à declaração do ministro, dela entende-se que “isto” – o que o investigador fez nos testes – seria absolutamente impossível “numa situação real”. As quais incluem, obviamente, eleições passadas. Como as de 2008 e 2010, que distribuíram RDVs. Então, podemos completar nosso entendimento da frase concluindo que seria absolutamente impossível revelar votos das eleições de 2008 e 2010 usando a técnica que o professor Diego empregou nos testes. E, portanto, que nos RDVs de 2008 e 2010 as posições de gravação não foram determinadas da mesma forma, escancaradamente previsível, que no software testado em 21/3/2012.

Mas então, surge uma dúvida, talvez cruel. Se o software da urna nas eleições de 2008 e 2010 não tinha esse furo, na forma escancaradamente previsível de embaralhar votos no RDV, e o das eleições futuras não o terão, pois o furo teria sido imediatamente corrigido, por que ele ocorre somente no software submetido a testes de segurança em março de 2012? O sistema não estaria evoluindo para maior segurança, como diz a propaganda institucional, nesse intervalo? Ou será que o software de 2010 e o desses testes são os mesmos, quiçá no trecho de código que gera posições de gravação no RDV, onde está esse furo (que poderíamos chamar de “furo de Sandy”)? E que, portanto, o ministro deve ter se enganado sobre aquela impossibilidade?

Por que temos esta suspeita? E por que é preferível acreditar nela, em detrimento da alternativa, que seria a hipótese de uma ambiguidade marota sobre o código do qual se está falando? Porque é o que está no edital dos testes! O Edital dos Testes de 2012 diz que o software a ser examinado pelas equipes inscritas é o que roda na urna. Ou seja, o que rodava na urna até o dia do teste. Na versão lida da web antes dos testes, o edital dizia, explicitamente, que os testes vão “considerar o software de votação utilizado na seção eleitoral”. Se o ministro de fato se enganou a respeito da sua impossibilidade em situações reais, o que seria possível fazer então com o tal ataque de Sandy?

Abordagens inteligentes

Algumas coisas, além das que o investigador Diego pôde fazer em dois dias, com os autores daquele código fonte em suas costas, com interesse dos mesmos no fracasso de suas tentativas, e com acesso deles ao código da urna para mudá-lo durante os testes – como de fato declararam tê-lo feito, no último dia dos testes. Se, dos documentos para fiscalização que a urna gera ao final da votação numa seção, alguém tiver além do RDV o Log, o qual registra dados de eventos ocorridos na urna, incluindo o horário dessas ocorrências, é possível recriar um ordenamento maior, sabendo-se como montar o ataque de Sandy.

Para isso é necessário saber como, num software com o furo de Sandy, a semente para o embaralhamento é obtida pela função que gera as posições de gravação no RDV, e qual função é esta. Ambas informações dedutíveis, por quem é capaz de entendê-las, do referido relatório. Emparelhando-se os eventos de votação registrados no Log, com a sequência de votos lidos do RDV na ordem correta, é possível então listar os votos dados na seção segundo o horário em que foram registrados. Mas aí tropeçamos na frase seguinte daquelas declarações do ministro Lewandowskia O Globo. Examinemo-la:

“... O eleitor pode ficar tranquilo que não é uma quebra, porque esta não era uma situação real e não há como vincular a sequência de votação ao eleitor.”

É certamente uma exploração de um furo, o qual pode estar presente em situações reais, através da lógica que determinou as posições de gravação nos RDVs das eleições de 2008 e 2010, alguns dos quais estão hoje também com fiscais de partido. E em se detectando nestes RDVs, através de testes, os sinais de origem do furo de Sandy, haverá como vincular claramente deles a sequência de votação ao horário em que o eleitor votou. E daí? A resposta requer que examinemos melhor essas situações reais. Para ilustrar, tomemos um exemplo que nos parece didático.

Com a ajuda do Google encontramos uma nota, publicada pela Agência de Notícias da Justiça Eleitoral, informando que o sr. ministro, o próprio declarante da frase acima, votou na 679ª seção da 1ª Zona Eleitoral do Distrito Federal, “por volta das dez horas da manhã”, em trânsito, no primeiro turno da eleição de 2010. É certo que o horário informado na nota está vago, e que quem tiver o RDV e Log correspondentes – o TRE-DF certamente deve ter – e deles sequenciar os votos da seção, não vai saber qual foi o voto deste eleitor. Mas se a grande mídia é confiável em relação a assuntos eleitorais, então podemos procurar melhor: o Correio Braziliense informa que naquela ocasião Ricardo Lewandowski votou às 10:30h, e levou menos de um minuto para votar.

Pelo menos nesse exemplo, do próprio declarante da frase que tentamos decodificar, uma situação real permitiria, sim, vincular o voto ao eleitor. Dependendo apenas do código da urna de 2010 ter também, ou não, o furo de Sandy. O que nos devolve àquela dúvida, talvez cruel, mas testável. E se testes indicarem que tal furo está também lá, quem poderia fazer “isto”? Ora, qualquer um que tenha, ou possa obter, os arquivos de fiscalização da 679ª seção da 1ª Zona Eleitoral do Distrito Federal, de 2010, com capacidade para entender como funciona o ataque de Sandy. Se “isto” não se configura em quebra de sigilo ou violação de urna, pelo menos em quebra de confiança de eleitores que querem lisura eleitoral (inciso IV do art. 103 do CE incluído) em algo ou alguém responsável pelas eleições.

Numa eleição, não é só o interesse da Justiça Eleitoral que está em jogo. Ou, o do eleitor em abstrato. Ou, o de um candidato. Há muitos atores, agentes que participam de um processo eleitoral que podem abrigar interesses, visíveis ou não, potencialmente conflitantes com interesses de outros participantes, legítimos ou não. Certamente interesses de candidatos que estão concorrendo para o mesmo cargo, esses são explicitamente conflitantes: ambos querem ser eleitos para o mesmo cargo e só um vai ser eleito; mas, e os dos outros? Uma lista resumida de atores e agentes principais pode ser assim:

** Eleitores (em geral, que desejam lisura);

** Candidatos a cargo (em geral, mais de um);

** Administradores do processo (juízes eleitorais);

** Técnicos internos (do TSE e TREs);

** Auxiliares externos (fornecedores, terceirizados);

** Mesários (eleitores com função operativa);

** Fiscais (de partidos ou candidatos).

Quem acredita, por exemplo, que “'rouba mas faz” é uma boa atitude em relação a votação, seria um eleitor que não se enquadra no padrão abstrato, entre os que são acima listados como representativos de algum interesse legítimo no jogo eleitoral. Doutro lado, eleitores em abstrato podem representar um padrão de atitude conflitante com a de muitos, se, por exemplo, cada candidato quiser ser eleito de qualquer jeito, mesmo com fraude se possível. Então, os pontos no processo eleitoral onde algo pode dar errado, na perspectiva de um ou de outro interesse, onde alguma trapaça pode acontecer, são inúmeros, não é só a urna.

O que foi mostrado acima é algo que pode ser feito com um pequeno componente de toda essa coisa chamada Sistema Informatizado de Eleições (SIE), que é o RDV. E de onde vem tanta confusão, que nos causou levar tanto tempo para tentar decodificar quatro frases em declarações do ministro responsável pelo SIE a O Globo? A confusão começa com o entendimento do que é segurança. Palavra que é ... uma palavrinha abusada! Qual seria a melhor maneira de entendermos o verdadeiro significado dela? Creio que seja procurando no dicionário os verbos que estão associados ao substantivo.

Se procurarmos no Aurélio e no Houaiss, o Aurélio tem 12 acepções para “segurança” e o Houaiss tem 15. Dessas, 9, tanto no Houaiss como no Aurélio, podem estar relacionadas com procedimentos eletrônicos, digitais, de informação, de informática. Todas essas 9 acepções de segurança nos dicionários mais usados hoje, e que podem dizer respeito a informatização, remetem ao verbo “proteger”; e o verbo “proteger” é um verbo bitransitivo. Então a confusão com “segurança” acontece quando as pessoas usam a palavra como se fosse associada a um verbo que não é bitransitivo. Protege-se alguém (ou algum interesse), contra algo (ou algum risco). Proteger simplesmente, pode ter sentido ambíguo; e em segurança toda ambiguidade é perigosa.

De sorte que esse negócio de falar em segurança da urna, e não do processo eleitoral ou do SIE, é um golpe neurolinguístico na cabeça das pessoas para elas não entenderem o que está acontecendo e acharem que estão entendendo: Todos têm opinião. Todos se chocam quando mostramos essas coisas, não? Então, por que o fato de poderem existir mais de dois interesses potencialmente conflitantes num processo, como certamente no eleitoral, é crucial para abordagens inteligentes aos seus aspectos de segurança? Porque, com mais de dois interesses potencialmente conflitantes, surge um tipo de risco inexistente em processos mais simples: o risco de conluios.

Sem rastro material

É difícil escrever inteligentemente sobre segurança para um grande público, especialmente com concisão (como consegue fazer, por exemplo, Bruce Schneier), dentre outros motivos por barreiras na linguagem. Como falar desse tipo de risco a uma audiência cuja maioria desconhece o significado da palavra empregada no Direito? Conchavo. Colusão. Treta. Esconder um interesse conflitante ou concordante com o de outro para enganar um terceiro. Aquilo que está descrito no artigo 171 do Código Penal etc. Mas, temos que tentar. E aqui escolhi então usar, acima, uma hipérbole para bom entendedor: aquilo que se firma com certos fios de bigode.

O que é importante, para navegarmos as dimensões da segurança no SIE, é que neste caso “segurança” deixa de ser sinônimo de sigilo ou de transparência (pois há risco inerente de conluios) e passa a ser sinônimo de equilíbrio entre sigilo e transparência. Porque aí há que se considerar interesses potencialmente conflitantes onde há mais de dois, e não há razão, em princípio, para que um só prevaleça na escolha dos interesses mais importantes. E mesmo que haja escolha – hobbesiana ou não – de um interesse mais importante no processo, para que esse interesse possa ser melhor atendido, na presença do risco de conluios, nem sempre o sigilo máximo ou a transparência máxima correspondem a eficácia em seu (sub)processo de segurança.

No caso do processo político, a transparência é quase sempre uma arma a favor do político e do administrador honesto, enquanto um risco para o corrupto. Então, quando lhe falarem amanhã sobre segurança da urna, entenda segurança no processo eleitoral ou no SIE. Podemos então aproveitar que chegamos até aqui para avaliar com inteligência os riscos e benefícios da transparência que foi possível consubstanciar-se nesse Teste Público de Segurança. Para começar, quais são quais, vai depender do referencial de interesses em foco. Por exemplo, o ataque de Sandy, que dele emergiu, é apenas um dos possíveis ataques, e de longe o mais ameno comparado a outros também possíveis com o SIE. Mas, em dois sentidos, muito melhor/pior que os outros.

Pois bastante educativo: aconteceu dentro do TSE, vazou o fato por uma observadora ativista, ativistas do Fórum do Voto Seguro divulgaram, um jornalista que acompanha o Fórum foi atrás, deu o furo da notícia pela versão do investigador em um portal de grande penetração, a autoridade eleitoral — que não pôde negar tudo — reagiu como pôde, permitindo à audiência do 1° Encontro Nacional de Grupos Contra Corrupção e Impunidade assistir, em palestra no dia seguinte à última etapa dos testes (a de premiação), em primeira mão no Brasil, a uma explicação didática do que havia de fato lá ocorrido. Coisa que nunca foi possível com os outros tipos de ataque.

Por que nunca foi possível? Por um motivo simples: porque, caso tenham de fato ocorrido em alguma eleição, a vítima, para provar que certo ataque teria ocorrido e prejudicado sua candidatura no pleito em que concorria, teria que buscar provas e apresentá-las em juízo para impugnar o resultado da eleição, ou a própria. Mas qual é o problema que um tal candidato enfrentaria numa situação dessas, como vários já enfrentaram? As provas estão na mão de quem poderia ser réu, que também é o juiz. E o possível réu vai entregar provas contra ele, ou admiti-las, para ele mesmo julgar-se?

Então, o que significa para quem, como o autor, está em busca do voto consciente, da eficácia da ficha limpa e da ética na política, o que significa tudo isso num processo eleitoral onde o responsável pela votação, apuração, totalização e divulgação oficial de resultados é quem julga tudo a respeito, é quem prepara o processo, e – com lobby legislativo – é quem diz como tem que ser o sistema de votação e sua fiscalização externa? Aquele vai-e-vem entre VVPT e DRE, modelos com ou sem rastro material do voto para permitir fiscalização eficaz, é fruto do lobby da Justiça Eleitoral para não permitir o voto impresso. Por quê? Antes de entrar nesta questão, vamos primeiro entender o motivo do nome “ataque de Sandy”.

Bico de laser

Ao explicarmos o ataque aqui ou alhures, poderia parecer que estamos perseguindo algum eleitor em especial. Um nome para esse tipo de ataque foi então escolhido para conotar que ele é mais facilmente executável contra eleitores ilustres, personalidades suficientemente famosas. As revistas de fofoca estão sempre dizendo de tudo que a Sandy anda fazendo e, portanto, é só procurar nelas alguma notícia relatando em que horário e em qual seção eleitoral a cantora votou, e procurar os respectivos arquivos de fiscalização e de ataque. A escolha do nome tem, pois, o condão de despersonalizar o ataque. Ataque que, como foi dito, é o mais ameno dos conhecidos possíveis no SIE.

Outros tipos de ataque podem ser bem piores. A Rede Globo gostou da palavra “brecha”; disse em horário nobre que o ataque do professor Diego mostrou “uma pequena brecha, que já foi reparada”. Bem, então, existem outras brechas. Algumas listadas a partir do slide 62 da dita palestra. A mais nefasta delas pode ocorrer na totalização: se não for possível evitar a impressão, evita-se que o Boletim de Urna (BU) impresso saia autenticado da origem para a vítima (direto da urna, assinado pelo mesário, às mãos do fiscal partidário presente na seção), em suficientes seções. Quando os pendrives dessas seções chegam para a totalização, remanejam-se os votos na planilha conforme aquilo que precisa surgir ao final, de acordo com o firmado a fio de bigode, e vai-se desenhado-o ao longo das parciais.

Começam a aparecer um punhado de eleições onde o candidato vitorioso acaba ganhando no finalzinho, com as últimas seções eleitorais, por uma margem bem pequena. Supomos que os candidatos derrotados nesses casos gostariam de poder verificar esses totais. Mas eles não podem contar para isso com fiscais do seu partido nas seções eleitorais, se um tal de “representante do comitê interpartidário” – figura privilegiada pelo artigo 42 da Resolução TSE 22.154 como único representante de candidatos que pode receber BU impresso autenticado na origem – estiver a serviço do adversário. Se a justificativa para isto for a de economizar papel, supomos também que quem aceitá-la poderia estender tal medida de economia ao banheiro da própria casa.

Então, se é possível fazer trapaça com software na urna e com software na totalização, existe também o risco de uma corrida crítica: duas equipes internas tentando, e a que fizer sua mexida funcionar por último – pela lógica, na totalização – honrará seu fio de bigode. E, aí, os dois candidatos amarrados têm que ficar calados, pois um não pode denunciar o outro. É um cenário plausível, e possível, corroborado por um fenômeno eleitoral relativamente recente, que parece exclusivo ao Brasil: o das pesquisas de opinião que disparam a divergir quando se aproxima o dia da votação. Todavia, não convém discorrer aqui sobre cenários plausíveis e possíveis; o autor fez isso durante dez anos apenas para ganhar a pecha de paranoico, conspiracionista, agitador etc.

Mas agora, graças ao colega e ex-aluno Diego Aranha, temos o ataque de Sandy para expormos mais concretamente o tema título deste artigo. E com isso observar melhor a reação das pessoas quando informadas do que vem acontecendo com nossa democracia, por trás do que a grande mídia mostra.

Por quê? Logo que a Lei 10.740/03 introduziu o RDV, o autor escreveu um artigo intitulado “A seita do Santo Byte“, que descreve a seita, e o porquê do nome, tendo-a observado em ação no Senado. O autor frequentou o Senado durante a tramitação do projeto de lei que criou o RDV, porque não acreditava que os senadores iriam aprová-la. Aqueles com quem conversou, todos se fizeram de loucos. Então, é bom que se diga os pais da criança.

Tal projeto foi apresentado pelo senador Eduardo Azeredo, também conhecido como mentor do esquema do mensalão. Foi relatado na Comissão de Constituição e Justiça pelo senador Demóstenes Torres, conhecido hoje por um telefone celular comprado em Miami e por estar às voltas com respingos de cachoeira. A quem o autor procurou na ocasião (2003) para apresentar um abaixo-assinado por especialistas pedindo audiência para debater tecnicamente o projeto, e argumentar do descalabro em se aprová-lo. A resposta foi de que o projeto era fruto de um acordo político entre a Casa Civil da Presidência e a Justiça Eleitoral, e que ele, mesmo na oposição ou como relator, não tinha autonomia para invadir esse espaço, nem mesmo para realizar audiências.

Naquele encontro, o senador fez uns telefonemas diante do autor, para convencê-lo do que dizia. Agora o autor está convencido de que o bode amarrado assim na sala da nossa democracia, para que os eleitores se esquecessem da fiscalização potencialmente eficaz do processo de votação, está finalmente começando a feder. O sigilo do voto, o bode RDV pode tê-lo comido. O que será feito do bode, ainda não sabemos, mas já há sinais. Na publicação do relatório final da Comissão Avaliadora dos testes, em 10/04/2012, por exemplo. Quanto à seita, continua firme, desde ao menos – como ilustra a propaganda abaixo – os primóridos da informatização eleitoral, que começou pelo cadastro, e já com marotagens demográficas na distribuição de títulos, depois dos “testes” da Proconsult.

Ela mostra que no céu tem PC, como eram em 1987. Já no Brasil, é o modelo básico de urna DRE que almeja a eternidade. Aqui a ferro e fogo, entre licitações e respingos, desde 1996. Com a ajuda até de especialistas da academia, que não se acanham de tentar enganar membros da Subcomissão Especial do Voto Eletrônico da Câmara, a qual havia recomendado a minirreforma eleitoral de 2009, parcialmente suspensa no STF sabe-se como. Nomeados num Comitê Multidisciplinar, mais inclinado à intimidade do poder do que à verdade científica, responderam àquela Subcomissão – mas só em papel – citando ao revés um exaustivo estudo sobre voto eletrônico nos EUA (VVSG), que recomenda sistemas de terceira (E2E) ou segunda geração (VVPT) em substituição à primitva 1ª geração (DRE).

Os mesmos notórios desse Comitê compõem, com o ex-projetista-chefe dessa urna DRE, a Comissão Avaliadora dos testes de 2012. Que dez dias depois do prazo divulgou seu relatório, final e – pelo Edital – inapelável. A peça, vazia de justificativas, conclui: 1) o resultado que o professor Diego obteve teria produzido falha (e não fraude); assim, o ataque de Sandy não é fraude, apenas falha. 2) O ataque seria local, ou seja a falha só afetaria a operação da urna lá testada; portanto, a dúvida cruel – mas testável – se os RDVs de 2008 e 2010 têm o furo de Sandy estaria resolvida. E, 3) o sucesso do ataque requer “violação da urna” (cita lacre do pendrive); aqui, ou 3a): os signatários mostram que não entendem de testes de segurança (simulações), ou 3b: cedem à tentação de uma birra marota – condizente com a nota que deram – de quem se sente ofendido com tal sucesso.

A conclusão 3 desse inapelável relatório de notórios especialistas pode estar prenunciando algo para o futuro do bode amarrado na sala da nossa democracia: o acesso ao pendrive gravado pela urna durante o teste é, obviamente, parte integral da simulação de uma votação normal; mas, e quanto ao seu conteúdo? À parte deste conteúdo que sai cifrado da urna, o professor Diego solicitou acesso, mas não o obteve. A parte que sai às claras ele teve acesso porque esta constitui os arquivos de fiscalização que a urna produz, de acordo com o ordenamento normativo vigente para o SIE. A citação do “lacre”, que pode parecer birra, pode também ser um sinal: o bode RDV era um dos arquivos de fiscalização até o momento do teste, mas talvez doravante não mais.

Se o bode RDV voltar à condição de recluso, como nos seus primeiros cinco anos de vida, a solução para o mau cheiro que ele agora exala terá sido a de fechar a porta da sala, que então se tornará íntima. E o ataque de Sandy voltará a ser uma possibilidade exclusiva dos internos, que desenvolvem e mantêm o SIE do TSE. Mas esta não é a porta que importa. Nossa atual aventura eleitoral reedita a da República Velha. A concentração de poderes nos que controlam o uso de tecnologias de informação e comunicação (TIC) no processo eleitoral passou, entre duas ditaduras, do bico de pena na mão do legislativo d’antanho para o bico de laser na mão do judiciário d’agora. Porém, a Revolução de 1930 não será reeditada. Quando a porta que importa se fechar, e o Senhor vier levar os seus, haverá choro e ranger de dentes, de quem ficar de fora. Ainda há tempo para revermos nossas iniquidades.

[Pedro Antônio Dourado de Rezende é matemático, professor de Ciência da Computação na Universidade de Brasília, coordenador do Programa de Extensão em Criptografia e Segurança Computacional da UnB; www.cic.unb.br/docentes/pedro/sd.htm]