terça-feira, junho 12, 2012

Mais do que uma Guerra.




por Herman Glanz

No mundo islâmico a facção sunita domina as nações árabes em geral, enquanto a xiita está com não árabes. Daí termos também confrontos entre facções. No Egito, sunita, a condenação do ex-presidente Osni Mubarak a prisão perpétua trouxe confrontos. Enquanto isso, o segundo turno das eleições no mesmo Egito prognostica vitória do candidato da Irmandade Muçulmana, entidade sunita radical, que vai conseguindo espaço nos países árabes. Na Jordânia, a Irmandade Muçulmana busca derrubar a monarquia. Aliás, a Irmandade busca expulsar governantes moderados e que promovem governos laicos em todas as nações islâmicas. Os árabes consideram que o presidente americano, Obama, tem dado apoio a essa Irmandade Muçulmana.

Na Síria, os Estados Unidos fornecem armas ao grupo rebelde “Amigos da Síria”, que lutam, junto com outros grupos, para derrubar o governo de Bashir Assad, mas esse grupo pretende entronizar no governo a Irmandade Muçulmana. Também devemos observar que, enquanto o governo americano expulsa diplomatas sírios, recebe em Washington o Príncipe governante Salman bin Hamad Al-Khalifa, do Bahrein. O Príncipe não esteve com Obama, para evitar, talvez, algum constrangimento, mas prometeram-lhe armas sofisticadas, ainda não vendidas, porque o Congresso não autorizou. Todavia o apoio ao Bahrein se dá porque interessa aos sauditas, que mandaram tanques reprimir as revoltas locais no Bahrein. Os americanos se entendem com a Arábia Saudita: é o dinheiro saudita que conta. No caso do Yemen, apoiaram a mudança do dirigente porque interessava aos sauditas.

As críticas ao presidente americano, Obama, pela ausência de uma ação mais dura contra a Síria e contra o Irã são entendidas, mas Obama está em ano de eleições que ocorrerão em novembro próximo. O presidente americano não pode embarcar numa guerra, a não ser que haja um motivo muito forte. Do contrário pode perder as eleições, porque os americanos não querem seus filhos morrendo em terras estranhas. Por isso Obama vai empurrando qualquer solução agressiva para depois das eleições falando em soluções diplomáticas e forçando Israel a permanecer isolado.

Mas o tempo pode ser fatal no caso iraniano. A Síria já está removendo sua fronteira com o Líbano, tomando conta deste país, com apoio do Hizbollah, e onde já morreram 8 em confrontos. E diante da situação interna de guerra civil na Síria, Assad está mandando para o Hizbollah os foguetes e mísseis mais avançados de seu estoque de armas, e daí poderão atingir qualquer ponto de Israel e países vizinhos. Hizbollah e Síria estão pretendendo, ainda, fazer chegar tais armas à Faixa de Gaza. A ameaça a Israel fica mais séria.

O ódio continua sendo o “molho bem apimentado que faz o povo engolir e digerir as políticas”, disse Jabotinsky, ainda em 1940. Dirigentes americanos e também israelenses não entendem o sucesso que faz a propaganda do ódio aos judeus, e, porque não dizer, aos próprios americanos. Os homens têm instintos bárbaros para matar seus semelhantes. Parece que nada foi aprendido com as guerras e genocídios, e os massacres no século passado, não só da Alemanha nazista, não só na ex-União Soviética como denunciado na Declaração de Praga, bem como na antiga Iugoslávia, Ruanda, Bangladesh, Iraque, Sudão, este ainda fazendo seus massacres, sem esquecer Pol Pot.

A barbárie continua, e se não houver uma forma de estancar genocidas, o povo judeu enfrentará novos perigos. Todavia algo se move e pode tudo mudar, porque a ameaça do Irã continua e as potências estão inquietas. Segundo noticia a mídia, Obama autorizou ataque com vírus às instalações nucleares iranianas, como é o caso do vírus Flame, que furta informações, um vírus espião; e já se fala em intervenção militar na Síria.


Fonte: www.pletz.com

domingo, junho 10, 2012

Brasil vive "epidemia descontrolada" de Aids


Presidente do Grupo Pela Vidda, organização não-governamental dedicada ao combate à Aids, o psicanalista George Gouvea vem denunciando as falhas do programa DST/Aids do Ministério da Saúde. Para ele, o Brasil vive uma “epidemia descontrolada”, ao contrário da palavra oficial do Ministério que reafirma controle da doença.


Os números oficiais dão essa certeza ao presidente do Pela Vidda. Nos últimos dez anos, pelo menos 102 mil soropositivos morreram no país e 311 mil novos casos foram notificados (dados consolidados até 2010). Apesar de os números anuais não sofrerem grandes variações (média de 11 mil mortes e 34 mil novos casos por ano), Gouvea critica o uso do termo "estabilidade" para classificar os números no Brasil. "Seria o mesmo que considerar 10 mil mortes de judeus por ano no holocausto um número estável", diz.

Em recente publicação, a Fiocruz, órgão do Governo Federal, pediu uma "correção de rumo" para o programa DST/Aids no país. "Ao contrário do que se tem observado em outros países que também instituíram programas de acesso universal ao tratamento e têm observado queda na incidência de novas infecções, o Brasil não tem conseguido diminuir a incidência do HIV/Aids", aponta o documento.

Para o presidente da ONG, campanhas de prevenção à Aids devem contar com a participação do público-alvo para a obtenção de resultados positivos.“Não tem como eu ir para uma esquina falar com uma travesti sobre prevenção, a travesti vai rir da minha cara e tem toda a razão de fazer isso”. O Grupo Pela Vidda atende cerca de 300 pessoas por mês e realiza assistência jurídica, reuniões de acolhimento e palestras, entre outras atividades.

UOL - Por que você afirma que vivemos uma “epidemia descontrolada” de Aids no país?

George Gouvea - A gente não pode admitir que existam aproximadamente 35 mil novos casos de infecção pelo vírus HIV por ano. Em dados apurados em 10 anos, até 2010, a gente vai encontrar quase 350 mil novos casos de pessoas se descobrindo soropositivas. Eu não sei que estabilidade é essa. É a estabilidade da vergonha. A gente não pode se acomodar e achar que 35 mil novos casos por ano são poucos casos. A gente não pode achar que quase 12 mil óbitos por ano seja um número interessante. Que estabilidade é essa que o governo, que o Ministério da Saúde diz? É a estabilidade da morte?

UOL - O que está errado no programa DST/Aids?

Gouvea - Muita coisa está errada. Nós temos um bom programa de Aids, ninguém pode dizer o contrário. A distribuição de retrovirais como política pública de saúde é realmente um marco, a gente não pode deixar de reconhecer. Mas não pode ser só isso. Não se pode apenas disponibilizar o remédio na boca da farmácia e dizer tchau, até logo. É preciso a criação de programas permanentes de prevenção, políticas, estratégias, esclarecimentos, tudo isso junto com a sociedade. Não é possível que a gente ouça a palavra Aids quando chega o verão e durante o Carnaval. É preciso se falar de Aids durante o ano todo, todos os dias. Eu deveria entrar no metrô e ver todos os dias um pôster falando de HIV. As crianças e os jovens precisam entrar nas escolas e ouvir sobre HIV. Eu fico imaginando a quantidade de pessoas que sequer ouvem a palavra Aids por meses. O assunto HIV deveria fazer parte do cotidiano da sociedade. O governo tem parcela de responsabilidade porque ele é um incentivador. Obviamente não pode fazer tudo, mas tem um papel de fomentar de provocar, de instigar e isso não está sendo feito.

UOL - No recente livro publicado pela Fiocruz, um dos problemas apontados é a questão do diagnóstico tardio.

Gouvea - Nós temos hoje no Brasil um índice de quase 50% de diagnóstico tardio, que é quando o sujeito se descobre com HIV já doente. Ele vai gerar uma série de custos por conta do diagnóstico tardio. Esse sujeito, quando interna, gera um custo com a permanência no hospital. Ele vai pedir licença do trabalho gerando custo para a previdência social. Mas o pior de todas essas coisas que eu acabei de falar é o sofrimento humano ao adoecer. Isso tudo poderia ser resolvido com um plano de testagem eficiente. Por que hoje nós não temos nenhum plano de testagem? Hoje existem centros de testagem a penas nas grandes cidades. É uma questão política, um cinismo para parecer que tudo funciona bem.

UOL - Não é interessante para o governo a criação de mais centros de testagem?

Gouvea - Se mais polos de testagem forem criados, vai demandar mais assistência porque mais pessoas serão diagnosticadas e essa demanda de pessoas soropositivas não vai encontrar atendimento. Se o número de testagens aumentar nós vamos ter o caos no atendimento.

UOL - A epidemia teve um crescimento espantoso na Região Norte. De 1998 a 2010 a incidência da Aids aumentou em 237,7%...

Gouvea - A tendência de uma epidemia descontrolada é que vá para o interior, é a interiorização. Se olharmos o mapa do HIV no Brasil se verifica essa tendência. Se nós já temos problemas nas grandes capitais eu fico imaginando o que será do interior.

UOL - O último boletim epidemiológico do governo federal apontou preocupação com a incidência de Aids no segmento jovem gay. Entretanto, a presidente Dilma Rousseff vetou a campanha de prevenção a Aids voltada ao público homossexual. Na propaganda vetada, um casal homoafetivo troca carícias, sequer há um beijo. Censura como essa não torna mais difícil a prevenção do crescimento do HIV no país?

Gouvea - O que a gente percebe é que nos últimos 10 anos a política nacional para DST/Aids tem sofrido alguns percalços. Isso tem nos preocupado muito. Há uma intromissão em políticas públicas de saúde no Estado laico de determinados setores religiosos. Se o Estado é laico, o nosso ordenamento político, com todo respeito, não é a Bíblia, é a Constituição. Nas últimas campanhas houve uma interferência de setores conservadores. Isso tudo foi muito triste para o movimento. Mas é importante ressaltar que essas intromissões acontecem nas esferas superiores. Porque aquele gestor que est á lá na ponta, que é nosso parceiro, que está em um determinado nível para baixo dentro do governo do Estado ou município ou governo federal, essas pessoas são parceiras. Mas acontece que elas têm limites de atuação. Por isso é preciso uma política de governo que atenda a todos os segmentos da população em parceria com a sociedade civil organizada.

UOL - E como você interpreta a vulnerabilidade do jovem gay apontada no boletim do Ministério da Saúde?

Gouvea - É comum a gente ler reportagens que dizem que está tendo mais casos com uma parcela da população. Mulheres, idosos, jovens gays. Na verdade essa é uma forma estranha de ver as coisas. O que existe é o HIV se espalhando por todo o tecido social, essa que é a realidade. Por esse motivo a gente deve ter políticas que atendam as demandas de todos os segmentos de todas as regiões do país. Eu não posso falar de HIV com um jovem gay da mesma forma que eu falo com uma pessoa da terceira idade. Se a gente não respeitar a diversidade de cada segmento fica difícil a informação chegar.

UOL - O documento publicado pela Fiocruz apontou ainda a superlotação de hospitais, a falta de leitos para pacientes soropositivos como outro grande problema. No Rio, onde é a área de atuação do Pela Vidda, a situação não é diferente. O último relatório do Ministério da Saúde como o Estado entre os cinco de maior incidência de casos no país. Você que vive esse dia a dia, qual a realidade destinada aos pacientes?

Gouvea - Nós temos muitas dificuldades. Infelizmente a questão da Aids está relegada ao décimo plano no Rio de Janeiro. Eu vou ousar dizer a você que no Rio de Janeiro, tirando o Ipec da Fiocruz que é federal, nenhum hospital, seja do município ou do Estado, recebe dignamente um doente de Aids. Nós temos falta de leitos, os pacientes com Aids, que precisam ficar em leitos isolados devido ao sistema imunológico debilitado, ficam jogados nos corredores das enfermarias com outros doentes. Faltam médicos, faltam infectologistas na rede. Se a pessoa se descobre soropositiva e procura uma unidade d e saúde, só vai ter a primeira consulta daqui a quatro, cinco meses. O sujeito que recebe aquela batata quente, o resultado na mão, não consegue atendimento imediato. Outro problema é a falta de remédios. O que a gente tem de informação é que a compra dos medicamentos está em fase de licitação. Mas há quatro meses. A gente não está falando de saco de cimento, de tijolo, de argamassa. Se o governo sabe que está acabando, tem de fazer a licitação bem antes de acabar. A gente está falando de saúde, de vida, de morte. O que acontece agora é uma licitação assassina.

UOL - O que um paciente soropositivo enfrenta, hoje, para conseguir atendimento?

Um indivíduo que se descobre soropositivo sem estar doente só consegue uma consulta depois de quatro, cinco meses. E é fundamental esse primeiro contato com o médico, porque é ele que vai esclarecer, que vai acalmar esse paciente que procura a unidade de saúde achando que vai morrer. Depois de conseguir a primeira consulta, ele vai precisar fazer um exame de sangue. Esses exames em geral demoram mais de trinta dias para ficarem prontos , o que é outro absurdo, já que na rede privada os mesmos exames ficam prontos em cinco dias. Depois, para retornar ao médico com os exames, mais quatro, cinco meses. Então esse paciente espera quase um ano para o encaminhamento do tratamento dele.

UOL - E se esse paciente se descobre com HIV já com os sintomas das doenças que afetam o sistema imunológico. O que ele enfrenta na rede pública de saúde?

Se já é um paciente doente que já apresenta a manifestação das doenças oportunistas por já estar com o sistema imunológico debilitado, esse sujeito interna e começa a sua via crucis. Ele tem de contar com a sorte de cair com um médico que perceba se tratar de um caso de HIV, mas o que geralmente acontece é o paciente chegar com, por exemplo, tuberculose em um hospital e apenas essa doença oportunista ser tratada. Não vai adiantar muita coisa. Essa pessoa fica misturada a outros pacientes, exposta a pegar outras doenças. Essa falta de estrutura da rede de saúde em todo o país resulta nesses quase 12 mil óbitos por ano. São mais de 30 por dia. É como se todo dia um ônibus caísse em uma ribanceira. Na Guerra da Síria já morreram 14 mil pessoas e a ONU está alarmada achando um crime contra a humanidade. Aqui morrem 12 mil pessoas por ano de Aids e todo mundo acha que é normal. Que estabilidade é essa?

UOL - Que tipos de projetos podem ser executados para que as campanhas contra a Aids atinjam segmentos diferentes da população brasileira?

Gouvea - Vou te dar um exemplo. Nós fizemos um projeto chamado Babadão da Prevenção voltado para garotos de programa que trabalham em saunas gays. Procuramos esses garotos, fizemos com eles um trabalho de capacitação falando sobre prevenção, o uso da camisinha. Dessa forma, esses garotos que foram capacitados passaram a conversar com outros garotos de programa usando a linguagem comum a eles, com seus próprios símbolos de comunicação. E, por consequência, esse trabalho acabou atingindo todo o universo de pessoas que frequentam aquele ambiente: os clientes, os travestis que fazem programa. Não tem como eu ir para uma esquina falar com uma travesti sobre prevenção, a travesti vai rir da minha cara e tem toda a razão de fazer isso. Por isso nós criamos um grupo que é coordenado por uma travesti. É preciso falar a mesma língua. A prevenção ao HIV só vai funcionar se conseguir atingir todo o tecido social. Se a gente não conseguir atingir todo o mosaico social, está fadado ao fracasso ou a essa estabilidade vergonhosa.

Fonte:http://noticias.uol.com.br

quinta-feira, junho 07, 2012

Greve da alimentação pública.







Autor: Leandro Narloch.

Por Leandro Narloch, Rodrigo Constantino e Anthony Ling


Um exercício de imaginação: como seria se a alimentação, feito o transporte público, fosse gerida pelo governo? Má qualidade, filas e corrupção


Depois de uma semana de greves de metrôs e ônibus pelo país, políticos e especialistas voltaram a repetir as opiniões de sempre.
Dizem que é preciso haver mais planejamento do poder público, que o governo precisa investir mais no transporte coletivo, que a mobilidade urbana deve ser prioridade etc.
Recomendações assim são como oferecer uísque a alcoólatras: o remédio que se receita é precisamente a causa do problema.
O que impede a melhoria do transporte não é a falta de cuidado do governo, e sim o monopólio público sobre o transporte coletivo. Para chegar a essa constatação, basta imaginar uma notícia comum nos últimos dias tratando de outro serviço essencial: a alimentação.

“A semana foi de muito transtorno para quem precisa se alimentar fora de casa. Greves de garçons e cozinheiros paralisaram os serviços de mais de 30 mil restaurantes, padarias e lanchonetes que formam o sistema de alimentação pública municipal. Os trabalhadores pedem aumento real e reajuste dos abonos salariais. Não houve acordo entre o governo e o sindicato até o fim da noite de ontem.

Na capital, 6 milhões de pessoas utilizam diariamente o serviço de alimentação coletiva.
Todos os estabelecimentos que vendem comida pronta são operados sob concessão por apenas 16 consórcios e cooperativas. A prefeitura e o governo estadual supervisionam a distribuição dos prato feitos e comerciais, planejam o sistema e realizam os repasses para as concessionárias.

Sem ter a quem recorrer diante da paralisação dos serviços, usuários chegaram a depredar bares e restaurantes. Outros se arriscaram em lanchonetes clandestinas, aquelas que não foram escolhidas nas licitações do governo e por isso atuam à margem do sistema de abastecimento da cidade.

A prefeitura alerta que esses serviços, além de ilegais, trazem diversos riscos para os usuários.
O sistema oficial, porém, é mal avaliado pelos cidadãos. Pesquisa recente mostra que o número total de queixas à prefeitura contra as comedorias saltou de 119.755, em 2010, para 143.901, em 2011.
A demora no atendimento ficou em primeiro lugar entre as dez principais reclamações. Outras queixas comuns são o desrespeito dos garçons, a pouca variação do cardápio e a falta de limpeza nas instalações.
O prefeito prometeu ontem mais investimentos na área. ‘Até 2013, esperamos reduzir para 40 minutos o tempo de espera para o almoço’, disse. Ele negou que o aumento dos salários dos garçons e cozinheiros resulte em aumento da tarifa do prato feito, hoje em R$ 30.

O Ministério Público investiga supostos repasses ilegais da prefeitura a concessionárias, que fizeram expressivas doações de campanha na última eleição. Os promotores acreditam que esses repasses seriam o principal motivo para a comida custar tão caro mesmo sendo subsidiada pelo governo.

Analistas afirmam que seria melhor que o governo deixasse para a iniciativa privada toda a venda de comida pronta. A concorrência entre padarias, botecos e restaurantes, argumentam eles, levaria diversidade e qualidade ao setor, atrairia a classe média e ainda baixaria o custo do serviço popular, como acontece em centenas de outros ramos da economia.

Para os analistas, a livre iniciativa e a concorrência poderiam até fazer a cidade ser mundialmente conhecida por seus restaurantes.
O sindicato dos garçons, a prefeitura, a associação das concessionárias, o Ministério Público e o governo estadual reagiram veementemente a essa proposta, que qualificaram de ‘irresponsável e neoliberal’.

Para as entidades, a ausência do Estado na alimentação poderia resultar na falta de lanchonetes em áreas distantes, além do desabastecimento de comida na cidade. ‘Se algum dia entregarmos o setor de restaurantes a empresários comprometidos apenas com o lucro, criaremos um completo caos’, disse o prefeito.”


Fonte: Folha de S. Paulo, 31/05/2012


quarta-feira, junho 06, 2012

Holocausto - As almas que perdemos.



                Entrada para Auschwitz-Birkenau e antigo caminho-de-ferro.   m.wikitravel.org


por Silvia Perlov (*)

Um céu de um azul tão puro, o revoar dos pássaros e um leve soprar das pétalas amarelas. Um ambiente bucólico, que encobre um passado mais do que sombrio. É difícil pensar que esse cenário não faz parte da produção de um filme, mas sim, é um dos mais emblemáticos símbolos do Holocausto. Nos campos de Auschwitz-Birkenau, esse último conhecido, também, como Auschwitz II, mais de um milhão e cem mil pessoas morreram, fisicamente. Sim, porquê suas almas já estavam mortas antes de seus corpos chegarem lá.

Isso pôde ser mais do que constatado na viagem que fiz junto ao grupo de jornalistas da América Latina, convidados pelo Congresso Judaico Latino-Americano –CJL, com o apoio fundamental do Fundo Comunitário do Estado de São Paulo e da Fundação Safra, a mergulhar nesse passado tão recente, cuja ferida não pode e, tampouco deve ser fechada pela simples razão de que, atos ou situações como essa, devem servir de exemplo à toda humanidade para que não permitam repeti-las ou que ousem negá-las.

Os jornalistas trabalhavam incessantemente, buscando o melhor ângulo, saber mais detalhes, mas, sobretudo, procuravam entender o que e porquê tudo aconteceu. Para mim, particularmente, mais chocante que ver os campos, foi tentar compreender como o mundo deixou isso acontecer! Qual a razão de toda essa maldade? Conquistar terras? Demonstrar poder?

A máquina da morte que se instaurou, talvez tenha sido mais eficaz, que os pogroms, a inquisição, porque não era uma morte simples e rápida! Ela era precedida pela morte espiritual. Quando vi o gueto de Cracóvia, me ocorreu a pergunta, porque este muro é tão trabalhado? Nosso monitor me respondeu com uma pergunta: “O que ele te lembra, Silvia?”. Na hora, retruquei: “Um cemitério”. Não preciso me delongar…

Dias antes, outro choque, ao adentrar no cemitério de Varsóvia, localizado no final do gueto da cidade, e que é a última morada de grandes personalidades, como I.L Peretz, Lázaro Ludoviko, o que parece um nonsense, estar sepultado nesse espaço, alguém que pretendia criar uma língua universal falada e compreendida por todos, o Esperanto.

Há mais de 150 mil lápides inscritas nos mais diversos idiomas (polonês, alemão, ídish, russo), ele foi fundado por judeus ricos do subúrbio de Praga. E está cheio de histórias, como a de Czerniakow, responsável pelo Judenrat, e que se suicidou, mas está em meio a outros túmulos por ter se recusado a entregar uma enorme lista de seus compatriotas ou a do historiador Meir Balaban, procurado pelos nazistas para identificar quem eram de fatos os judeus do local.

De volta ao fato, percorria o local e observava um grupo de alunos poloneses acompanhados por sua professora relatando o que tudo significava, e de repente, fui chamada a atenção. Estava em meio a uma das muitas valas comuns, que pensava avistar adiante, quando olhei ao redor, me dei conta que, na verdade, estava em um enorme círculo, e abaixo dele, muitos dos que pereceram na miséria do gueto. Fui alertada: “Há mais de 35 mil pessoas enterradas, sem nomes, porque não dava tempo para cumprir os rituais pós-morte”.

Em Varsóvia, senti-me especialmente mal em mais três outros momentos, além desse. Ao chegar, nós, os brasileiros, fomos desbravar um pouco a cidade antes do cair da noite. No caminho, vejo no chão, inscrito: “Muralha do Gueto 1941-1943”. Penso comigo: “Na calçada, e as pessoas tranquilamente passam por cima da história?!”.

Segundo episódio: Vejo um teatro ídish, penso que bom estão revivendo nossa cultura, assim como uma sinagoga, tudo bem próximo ao então gueto. Sim, mas as peças são feitas por poloneses, e os que oram são outros judeus, afinal dos 450 mil judeus que se atolavam nos 75 quarteirões ocupados pelo gueto, muitos se não pereceram nele, tiveram um final, ao que se pode julgar, melhor? Uma morte mais rápida?! Entrei em um dos prédios… Procurei me colocar (isso invariavelmente), no lugar daquelas pessoas, repartindo um minúsculo espaço, derramada no meio-fio.

O terceiro episódio, e que me causa arrepios, a praça de deportação, onde ficavam horas, dias, semanas esperando seu destino final, encostado a ele, funcionava um hospital, em que um médico e uma enfermeira piedosa deram cianureto aos seus pacientes para evitar que lhes roubassem a alma, já que o corpo estava no limite. A praça possui um banco mais baixo, simbolizando o período de luto observado pelos judeus. Hoje, em frente a Auschwitz ou ao bairro judaico de Kazimiersz, ambos em Cracóvia, há um turismo alegre e lucrativo, porém, outro, macabro. Nesse último, encontramos em uma feirinha de artesanato, um senhor vendendo uma estrela com os contornos realçados por borracha, como se fossem originais, e dessem tempo de fazê-los

O museu de Oskar Schindler nos posiciona bem no tempo e espaço. Vida e morte se encontram em Cracóvia, se por um lado temos Auschwitz, Museu de Schindler, gueto; há Kazimiersz, que recria o tempo em que a comunidade gozava de certo prestígio, dado pelo rei Casimiro. Mas, há que se ressaltar que após ver tudo isso, tentar refletir acerca dessa experiência, ainda muito recente, ainda acredito que a essência do homem é boa. Há pessoas como o ‘Justo entre as Nações’ Tadeus Pankiewicz, um farmacêutico, cuja vida não ganhou as telas de Hollywood, mas que seu estabelecimento servia de passagem para medicamentos e outros gêneros a fim de garantir a vida dos que estavam no gueto, e que abrigava um funcionário que falsificava documentos de trabalho.

O que aconteceu nesse período? Por que tantas mortes? E, pior, porque tanto requinte nessa execução? Não sei…. Voltei com mais perguntas, que respostas. Mas, com uma certeza, essa é uma experiência obrigatória para se tornar uma pessoa melhor, para se alegrar com cada pôr-do-sol e alvorada, sorrir ao observar o bater de asas de uma borboleta, ou simplesmente, por sentir seus cabelos ao vento.

(*) Silvia Perlov é assessora de imprensa, jornalista e bacharel em Letras Orientais
Fonte:-Pletz.com

segunda-feira, junho 04, 2012

A ONU e o terrorismo.





Jenin, o massacre que não houve

Revendo a história recente:

Jenin foi um dos 26 campos de refugiados nos territórios da Autoridade Palestina (18 na Judéia/Samaria e 8 na Faixa de Gaza) transformados nos últimos anos em fortalezas do terrorismo palestino. Desde o início da intifada de Al-Aksa, uma das células terroristas mais perigosas dos muçulmanos fanáticos funcionava em Jenin. Não foi por acaso que Jenin tornou-se conhecida como "fábrica do terror". "De todos os combatentes, nós éramos os mais bem preparados", disse o terrorista palestino Omar ao jornal egípcio Al-Ahram pouco após o término da luta em Jenin. "Nosso plano era criar uma armadilha para os soldados israelenses em Jenin, detonando cada um que entrasse no campo de refugiados".
Foto aérea mostrando que apenas alguns prédios do
campo de refugiados de Jenin foram destruídos na luta. 
 

Apesar das acusações contra Israel veiculadas em toda a mídia mundial, em que se chegou a falar de milhares de mortos entre a população civil, logo ficou claro que se tratava apenas de propaganda palestina. Israel evitou bombardear o campo de refugiados justamente para preservar a vida dos civis. Desse modo, os soldados israelenses tiveram que enfrentar uma dificílima luta no solo, o que resultou na morte de 23 deles. Dos 50 palestinos encontrados mortos nas ruínas, 45 estavam uniformizados e armados e apenas 5 eram civis.


Muitos jornalistas divulgaram as alegações palestinas sobre centenas de cadáveres enterrados em valas comuns e sob os escombros das casas que teriam sido destruídas indiscriminadamente. O oficial israelense Joni Wolf, que combateu em Jenin, explica: "Os buldozeres eram chamados apenas quando víamos que um prédio estava ocupado por terroristas ou impedia o aceso a alguma posição importante. Além disso, duas vezes por dia havia um cessar-fogo e apelos eram feitos por alto-falantes para que os terroristas se entregassem, o que muitos fizeram. Mesmo depois disso, ainda esperávamos por algum tempo para ver se alguém mais sairia do prédio. Somente depois disso os buldozeres o demoliam".

"Mortos vivos" e "mortos mortos"

Para dar a impressão de que havia um maior número de vítimas em Jenin, os palestinos também encenaram sepultamentos para a mídia ocidental e para as organizações de defesa dos direitos humanos. Por exemplo, o exército israelense divulgou um filme mostrando que um palestino "morto" caiu da padiola em que estava sendo transportado e saiu correndo. Jornalistas israelenses também constataram que funcionários da AP tinham "abastecido" a vala comum dos "massacrados" com cadáveres retirados do cemitério de Jenin. Além disso, os habitantes foram ameaçados para não contarem aos investigadores nada a respeito da realidade da luta e das ações dos terroristas.


A ONU administra os campos de refugiados
UNWRA em Jenin um colete à prova de balas da ONU
pendurado junto a quadros de "mártires" palestinos. 

Antes que a ONU possa condenar Israel por um massacre que nunca aconteceu, ela deveria examinar a si mesma, procurando explicar como os campos de refugiados palestinos puderam se transformar em centros de terrorismo. No fogo cruzado das acusações contra Israel, esqueceu-se que os campos são administrados pela UNWRA (Agência de Socorro Para os Refugiados Palestinos), um organismo da ONU responsável pelos refugiados.

"Aliás, há muitos anos perdura o escândalo da submissão da ONU à estratégia árabe de manter os campos de refugiados como abrigos temporários", diz o especialista israelense 
Dr. Shlomo Avineri. Ele explica a razão: "Apenas assim os palestinos e a UNWRA podem exigir a manutenção do status de refugiados. Dessa forma eles também podem continuar insistindo no direito de retorno dos refugiados a Israel". Por isso, a AP de Yasser Arafat nunca investiu no melhoramento da situação nos campos de refugiados, apesar de ter recebido apoio financeiro dos EUA e dos países da União Européia para essa finalidade. "Qualquer tentativa de reabilitação ou melhoramento das condições dos refugiados tem sido rejeitada pelos políticos árabes. Desse modo eles conservam conscientemente a miséria dos palestinos para não enfraquecerem suas exigências com relação a Israel", explica o Dr. Avineri.

12.500 palestinos são funcionários da ONU

O número elevado de palestinos que são funcionários da ONU (4.500 na Judéia/Samaria e 8.000 na Faixa de Gaza) causa estranheza. Os palestinos trabalham nas mais variadas atividades da ONU nos territórios (escolas, serviço social, escritórios) e são pagos por ela. Isso explica porque a ONU não fez nada contra a criação de centros de terrorismo nos campos de refugiados. Em outras palavras: os funcionários da ONU deixaram de observar conscientemente as atividades terroristas e até participaram delas.

A ONU sempre mostra compreensão pelo lado palestino, mas não pelo israelense. No mês de março, terroristas palestinos assassinaram 130 israelenses e não se ouviu nenhuma crítica por parte da ONU. Na véspera da páscoa, 28 judeus perderam suas vidas no atentado contra o Hotel Park em Netania. A ONU condenou os palestinos por isso? "O derramamento de sangue de ambos os lados deve ser interrompido", disse, como sempre, o Secretário-Geral Kofi Annan. Mas, o que Israel pode esperar da ONU, se dos seus 189 países-membros 52 são nações muçulmanas e inúmeras outras são alinhadas com elas?

Fonte: Beth-shalom.com.br

domingo, junho 03, 2012

Polônia e Holocausto não combinam


Polônia e Holocausto não combinam.

Polonia exige desculpas de Obama.




Jan Karski nasceu como Jan Kozielewski

Muitas atrocidades do nazismo ocorreram em solo polaco, e Varsóvia há décadas que se empenha em apagar a ideia de que a Polónia teria alguma responsabilidade pelo extermínio de cerca de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

"A Casa Branca vai se desculpar pelo ultrajante engano", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, no Twitter na noite de terça-feira. "É uma pena que a ignorância e a incompetência tenham ofuscado uma cerimónia tão importante", frisou.

Na quarta-feira, acrescentou que não acreditava na má fé de Obama, mas sim num lapso dos redatores do seu discurso.
Ao entregar postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade ao combatente Jan Karski, Obama referiu-se a "Campo de extermínio Polonês", deixando a impressão de que a Polônia participou dessas atrocidades.

"O presidente cometeu um erro, ele estava a referir-se aos campos de extermínio nazis na Polónia. Lamentamos essa declaração equivocada, que não deveria diminuir a clara intenção de honrar o sr. Karski e esses bravos cidadãos que ficaram ao lado da dignidade humana perante a tirania", disse Tommy Vietor, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

O primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, também exigiu explicações junto da embaixada dos EUA. O ex-presidente Lech Walesa, único polaco a ganhar o Nobel da Paz, afirmou: "Deveríamos usar essa enorme gafe para assegurar que ninguém, em lugar nenhum do mundo, nunca mais diga isso".

Quem foi Jan Karski

Jan Karski, legendário herói polonês da Segunda Guerra, nasceu em 24 de abril de 1914  e faleceu aos 86 anos em 13 de julho de 2000 em Washington. Membro da Resistência Polonesa, Karski atravessava as linhas inimigas levando informações e mensagens para os aliados.

Mais informações sobre esse herói acesse clicando aqui (em português)ou aqui (English).

sábado, junho 02, 2012

Ritmo de expansão do Brasil perde até para nações em crise.


Ritmo de expansão do Brasil perde até para nações em crise.

Por Ronaldo D'Ercole (ronaldod@sp.oglobo.com.br) | Agência O Globo



SÃO PAULO - Quando se toma o ritmo de expansão das economias no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, o Brasil figura apenas na 22ª posição entre os 33 países que já divulgaram os seus dados. E se distancia de seus pares do Brics (grupo das cinco maiores economias emergentes, Rússia, Índia, China e África do Sul), aproximando-se das economias mais afetadas pela turbulência europeia, como os Estados Unidos (2,1%) e Alemanha (1,7%). A China, que cresceu 8,1% de janeiro a março, aparece no topo do ranking, com a Índia em quarto (5,3%) e a Rússia em quinto (4,9%). Com expansão de 2,1%, a África do Sul é a 14 no ranking, oito postos à frente do Brasil.

No fim da lista, que tem a Grécia como lanterna (em 33 lugar, com retração de 6,2% no PIB trimestral), estão ainda Portugal (32 colocação e queda de 2,2%), a Itália (31 lugar e PIB negativo de 1,3%) e a Holanda (30 colocação, cujo PIB encolheu 1,1%).

- O Brasil é um país com características semelhantes às dos grandes emergentes mas que cresce no ritmo dos europeus - compara Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, que compilou os dados para o ranking dos PIBs do primeiro trimestre. - Isso é reflexo dos problemas estruturais (Previdência, estrutura tributária, inexistência de planejamento de longo prazo) que persistem no país, cuja solução é adiada governo após governo.

Mesmo com a economia quase estagnada no primeiro trimestre, o Brasil conseguiu se manter à frente do Reino Unido como a sexta maior economia do mundo. Mas a diferença conseguida no fim do ano passado, quando deslocou os britânicos para a sexta posição, agora é bem pequena: enquanto o PIB brasileiro acumulado nos quatro trimestres encerrados em março somava US$ 2,483 trilhões, o do Reino Unido era de US$ 2,417 trilhões. O cálculo é do banco WestLb e leva em conta o dólar médio do primeiro trimestre. Com a alta da moeda americana ante o real nos últimos dois meses, ressalva o banco, o país muito provavelmente voltaria para a sétima posição.

- Não houve alteração no ranking comparando-se com o resultado fechado de 2011, apesar da diferença em relação ao Reino Unido ter diminuído. Mas o efeito do câmbio depreciado deve ser maior neste segundo trimestre - diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do WestLb.

Estados Unidos se mantêm como maior economia

No agregado dos quatro trimestres até março, os Estados Unidos se mantêm com folga no posto de maior economia do mundo, com PIB de US$ 15,4 trilhões, seguidos da China (US$ 7,56 trilhões), e do Japão (US$ 5,95 trilhões). Apesar do agravamento da crise na Europa, a Alemanha se mantém como a quarta economia, com geração de riquezas de US$ 3,5 trilhões. O PIB de US$ 2,76 trilhões garante a permanência da França em quinto.

sexta-feira, junho 01, 2012

Falha na urna brasileira ‘reproduzia fielmente’ erro de 1995.









O Prof. Dr. Diego Aranha, da Universidade de Brasília, foi o responsável por liderar a equipe que descobriu, em março, uma falha na urna eletrônica brasileira durante um teste de segurança autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O professor conversou com a coluna Segurança Digital do G1 para explicar melhor o problema que foi descoberto – que permite reordenar votos – e fazer outras observações sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Prof. Dr. Diego Aranha, da UnB. (Foto: Emília Silberstein/UnB Agência)  




Se tiver alguma dúvida sobre termos técnicos usados na entrevista, confira o glossário no final da página. O TSE também comentou alguns dos pontos levantados pelos professor e as observações do tribunal estão ao final da entrevista. Se você tiver qualquer dúvida, utilize a área de comentários.

G1 – Quando começou seu interesse por sistemas de voto eletrônico?
Diego Aranha – Meu interesse começou quando cursei a disciplina Segurança de Dados, ministrada pelo Prof. Pedro Rezende, enquanto aluno de Ciência da Computação da Universidade de Brasília. Naquela época, o referido professor já estava envolvido na discussão em torno da questão e trazia a problemática com alguma frequência para discussão em sala de aula.

G1 – O teste da sua equipe conseguiu reordenar os votos registrados no RDV. O que está presente no RDV, quem tem acesso a ele e por que a ordem deve ser embaralhada?
Diego Aranha - O Registro Digital do Voto (RDV) é uma tabela que armazena desordenadamente os votos propriamente ditos inseridos pelos eleitores na urna eletrônica. O objetivo desse embaralhamento dos votos é desassociar a ordem em que os votos foram inseridos da ordem em que foram armazenados.

O RDV foi introduzido no lugar do voto impresso para supostamente permitir a mesma capacidade de verificação independente dos resultados da urna. Por essa razão, é um documento público disponibilizado para os partidos após as eleições. Entretanto, enquanto o voto impresso permite de fato a verificação independente dos votos computados eletronicamente, o RDV é produzido pelo mesmo componente de software que produz o Boletim de Urna (BU) contendo os totais de cada candidato computados pela urna. Desta forma, qualquer ataque que comprometa a integridade do BU pode também comprometer o RDV.

Pode-se concluir, portanto, que o RDV não serve a nenhum propósito prático, além de permitir a violação do sigilo do voto caso seja projetado e implementado de forma insegura.

G1 – Seria possível ter conseguido o que vocês fizeram sem o acesso ao código fonte? O erro que havia no registro do RDV era complexo ou amador?
Diego Aranha - Não teria sido possível com o curto limite de tempo disponível para os testes — em torno de apenas 6 dias, divididos em fases de preparação e avaliação. Ainda assim, não se pode assumir que a segurança do RDV ou qualquer outro componente do sistema eletrônico de votação depende exclusivamente da confidencialidade do código-fonte ou dos detalhes técnicos dos mecanismos de segurança que os protegem.

Segurança advém de simplicidade de transparência. Para tanto, deve-se assumir que potenciais fraudadores conhecem os sistemas envolvidos em seus mínimos detalhes, mesmo porque absolutamente nada impede que os ataques partam de agentes internos. A área de Segurança da Informação utiliza essa noção de segurança há quase 130 anos.

A vulnerabilidade presente no projeto e a implementação do RDV que utilizamos para reconstruir a lista dos votos em ordem reproduzia fielmente outra vulnerabilidade encontrada sem ajuda de código-fonte em 1995 por calouros da Universidade de Berkeley na versão 1.1 do navegador Netscape. O software da urna eletrônica, de natureza muito mais crítica que um simples software comercial, possuía um erro conhecido há pelo menos 17 anos.

Em termos mais técnicos, a urna utiliza um gerador de números pseudoaleatórios para produzir a ordem de embaralhamento dos votos. A segurança desse gerador depende de suas características estatísticas e da aleatoriedade e sigilo de sua semente. O software da urna não só utilizou um gerador de baixa qualidade estatística, como também utilizou uma tomada de tempo claramente não-aleatória com resolução de segundos para alimentar o gerador de números pseudoaleatórios.

Além disso, esta tomada de tempo era tornada pública tanto nos logs quanto na impressão da chamada zerésima. A vulnerabilidade encontrada advém, portanto, da utilização de uma técnica criptográfica fora de seus limites de operação.

G1 – Até que ponto você entende que o sigilo do voto foi comprometido?
Diego Aranha - Para violar completamente o sigilo do voto, é preciso se recuperar a lista em ordem dos votos e a lista em ordem dos eleitores.

Após o fim dos testes no TSE, também recebemos a informação de que a urna registra em arquivo de acesso público a hora em que cada voto foi computado. Nossa metodologia é capaz de recuperar a lista em ordem dos votos e, se associada ao horário em que cada voto foi computado, também as escolhas de um eleitor que votou em um determinado horário. Para se fazer a correspondência completa entre as identidades dos eleitores e suas escolhas durante a votação, é preciso apenas que se monitore a ordem de votação dos eleitores ou a hora em que tiveram acesso à urna eletrônica.

Entretanto, eu gosto de ver a questão por outro ângulo: derrotamos o mecanismo de embaralhamento do votos para armazenamento no RDV, única medida tomada pelo software da urna eletrônica para proteger o sigilo dos votos.

G1 – O número do título de eleitor ou outro documento que o identifica é armazenado na urna? Ele poderia ser atrelado ao voto?
Diego Aranha -A lista de títulos de eleitores habilitados para aquela seção eleitoral é armazenada dentro da urna eletrônica, para controle de comparecimento e para permitir que o mesário libere o acesso à urna apenas com um título de eleitor válido. Existe um período de tempo, após a liberação da urna pelo mesário e até o término da interação entre eleitor e urna eletrônica, em que essas duas informações precisam estar presentes simultaneamente na memória do equipamento.

Recuperar essa correspondência durante esse período de tempo requer acesso ao ambiente interno à urna ou inserção de um programa malicioso que faça o registro permanente da informação. Durante os testes, estávamos concentrados em metodologias de ataque não-invasivas e que não deixassem nenhum vestígio, por isso optamos por analisar apenas os produtos públicos de uma votação oficial.

G1 – Como você avalia o procedimento de testes elaborado pelo TSE e a avaliação que a comissão fez do teste que vocês realizaram?
Diego Aranha - A iniciativa de organizar os testes é muito louvável, pois permite a fiscalização e avaliação da segurança do sistema por investigadores independentes. Entretanto, o tempo disponibilizado é muito curto para se executar qualquer metodologia sofisticada. Observe que potenciais atacantes podem, a partir de poder econômico ou político, desfrutar de um período de tempo muito maior para tentar organizar uma fraude em pequena ou larga escala.

Enquanto inicialmente o TSE se manifestou de forma extremamente positiva à contribuição que demos ao aperfeiçoamento do sistema, a Comissão Avaliadora do evento, apontada pelo próprio TSE, optou por penalizar significativamente nossa participação. Por exemplo, nossa metodologia foi qualificada como tendo objetivo de causar uma falha ao invés de uma fraude no sigilo ou integridade de uma votação eletrônica. Entretanto, nossa urna eletrônica não apresentou nenhuma falha e funcionou durante seus limites de operação por todo o tempo. Não seguimos nenhum procedimento que não seria realizado em uma votação oficial.

Como resultado, fomos premiados ainda em primeiro lugar, mas com uma pontuação pífia de 0.0313 numa escala que vai de 0 a 400.

G1 – Existe mais alguma questão técnica da urna que merece atenção?
Diego Aranha - Encontramos no software da urna eletrônica uma série de práticas indesejáveis do ponto de vista de segurança. Por exemplo, todas as mídias são cifradas com a mesma chave criptográfica. O vazamento desta chave criptográfica por uma única vez abre simultaneamente todas as mídias de todas as urnas para inspeção e possível manipulação por parte de agentes mal-intencionados. Curiosamente, essa chave criptográfica estava declarada no código-fonte e acessível para qualquer um dos investigadores.

A integridade de parte do software da urna eletrônica também parecia não estar sendo verificada, por conta da desativação de uma linha crítica do código-fonte. As máquinas dedicadas à exibição do código continham também informações de usuários, senhas e servidores na rede interna responsáveis pelo versionamento do software desenvolvido.

Além disso, também observamos algoritmos obsoletos (não-recomendados desde 2005) ou funcionando fora de sua especificação e com implementações repetidas diversas vezes ao longo do código, o que em muito dificulta uma auditoria do seu funcionamento correto.

Por fim, verificamos também que não existe a utilização frequente de ferramentas de análise de código-fonte, visto que a vulnerabilidade encontrada no embaralhamento do RDV utiliza uma função que produz alertas até nas ferramentas de análise gratuitas e mais primitivas.

Em relação ao processo de desenvolvimento do software, detectamos na interação com o pessoal técnico do TSE uma preocupação exagerada com atacantes externos, quando acreditamos que atacantes internos possuem uma possibilidade muito maior de executar fraudes em larga escala.

A equipe já se colocou à disposição do TSE para ministrar palestra tratando especificamente dos problemas encontrados, mas até agora não houve convite concreto para tal.

G1 – E o processo eleitoral brasileiro como um todo – como você avalia? O que deveria melhorar?
Diego Aranha - Os testes se concentraram na urna eletrônica, mas gostaria de que a mesma metodologia permitisse a investigadores independentes avaliar a segurança de outros componentes do sistema eletrônico de votação, como o totalizador centralizado dos Boletins de Urna. Ataques a outros componentes do sistema podem não só atrasar significativamente a apuração e divulgação dos resultados como fragilizar a confiabilidade e reputação da autoridade eleitoral.

Em termos mais gerais, o maior problema do sistema de votação eletrônica no Brasil é a carência de qualquer forma que permita ao eleitor verificar que seu voto foi computado corretamente. No modelo de urna eletrônica atualmente adotado no Brasil, a integridade do resultado das eleições depende unicamente da integridade do software de votação que é executado dentro da urna. Já foi mostrado que esse software é como qualquer outro, passível de vulnerabilidades.

Portanto, é imprescindível que seja introduzido algum mecanismo para verificação independente da integridade dos resultados. A proposta do voto impresso, ou voto verificável pelo eleitor, consiste exatamente em produzir uma versão materializada do voto em algum veículo que permita contagem posterior sem permitir simultaneamente que o eleitor possa comprovar sua escolha para uma terceira parte interessada.

A contagem dos votos impressos pode ser feita por amostragem apenas, sem impacto significativo na velocidade totalização dos resultados eletrônicos. Esta é forma mais simples e compatível com o sistema atual para se permitir a verificação da integridade do resultado, independente da integridade software, para que assim a urna brasileira satisfaça a requisitos mínimos e plausíveis de segurança.

Outro lado
O TSE foi consultado pelo G1 sobre as principais observações feitas pelo Prof. Dr. Diego Aranha e se defende das alegações. Veja a íntegra do posicionamento do TSE.

G1 – As mídias eletrônicas onde são gravados todos os votos das urnas eletrônicas é cifrada pela mesma chave. Isso é verdade?
TSE – A utilização de criptografia é apenas uma de inúmeras barreiras de segurança.

A afirmação de chave única, se vista isoladamente, não procede. A cada eleição, o TSE gera e cifra uma única desse sistema de arquivos que é gravada nas mais de 400 mil urnas eletrônicas. Por critério de segurança, esta mídia é cifrada por uma única chave, com o objetivo de evitar ataques criptoanalíticos baseados em estimadores estatísticos. Portanto, qualquer outro procedimento, como o de utilizar-se de várias chaves para cifrar o mesmo conteúdo com o objetivo de prover sigilo, torna por si só o resultado fragilizado. Por esse motivo, a cada eleição, o TSE gera uma chave que é utilizada para manter sigilo da mídia que é gravada em cada Urna.

G1 – O professor Diego Aranha diz que gostaria que houvesse testes também no sistema que totaliza os votos dos boletins de urna. O TSE pretende realizar algo nessa linha?
TSE – Ao final de cada votação, ainda na seção eleitoral, a urna imprime em até 20 vias o resultado da votação naquela seção. Esse relatório chama-se Boletim de Urna (BU) e algumas dessas vias podem ser entregues aos fiscais dos partidos. Nesse momento, o resultado da urna se torna público.

Desta forma, torna-se simples a verificação da integridade da totalização das eleições. Isso porque os fiscais de partido podem comparar essas cópias impressas dos Boletins de Urna de cada seção eleitoral com o resultado recebido, totalizado e publicado pela Justiça Eleitoral (disponível na Internet). Assim, a simples comparação do resultado recebido pelo fiscal e o processado na JE é suficiente para qualquer interessado criar sua própria totalização e verificar individualmente o resultado de cada urna eletrônica.

G1 – Ainda segundo o professor, o TSE coloca uma preocupação muito grande na atuação de agentes externos ao processo. Quais as medidas que o TSE tem tomado para evitar a ação de agentes internos (colaboradores e funcionários do próprio TSE)? Quem tem acesso à chave usada para cifrar as mídias (pergunta 1)?
TSE – A segurança do sistema eletrônico de votação não depende somente de pessoas, ela permeia todo o processo, desde o TSE até os tribunais regionais e cartórios eleitorais, e se baseia na utilização em conjunto e em vários momentos de técnicas de criptografia, assinatura digital e segregação de funções. É inviável que agentes internos realizem fraudes sem o registro de rastros para a auditoria.

G1 – O professor disse também que uma linha importante do código fonte estava desativada durante a análise permitida aos investigadores. Essa linha, segundo ele, era responsável por verificar a integridade/autenticidade do software. O TSE sabia que essa linha estava desativada?
TSE – O TSE não pode emitir opinião por desconhecimento do conteúdo da alegação, uma vez que não está presente no relatório do professor sobre o teste.

G1 – O professor Diego defendeu a introdução de um mecanismo de impressão do voto por amostragem, como proposto em lei. Essa legislação está atualmente suspensa por decisão do STF, se não me engano. O TSE tem alguma posição sobre a impressão do voto conferível pelo eleitor?
TSE – Na mesma audiência pública citada anteriormente, o Prof. Walter Carnielli (matemático e filósofo, CLE e IFCH-UNICAMP) fez uma apresentação intitulada “Sistema de votação, falsa segurança e a qualidade da democracia”.

Nesta apresentação, o Prof. Carnielli demonstrou que existe um balanço delicado entre privacidade (sigilo) e verificabilidade (verificação do voto eletrônico com outro meio duplicado, no caso o voto impresso) nas votações eletrônicas.

Segundo ele, as urnas do tipo das utilizadas atualmente nas eleições brasileiras (tipo DRE ou Direct-Recording Electronic) seriam passíveis de perfeita privacidade, embora com menor verificabilidade. Carnielli afirma que é matematicamente impossível atingir privacidade e verificabilidade absoluta e que, portanto, não há sentido na crítica de que “pesa a mão” apenas na verificabilidade (falta do voto impresso).

A pretensa solução defendida na legislação suspensa pelo STF, oferecia apenas uma falsa (e cara) sensação de segurança, como mostrou Carnielli. Não há qualquer critério sobre como seriam escolhidas as urnas da amostragem de cada Zona Eleitoral, nem se leva em conta a distribuição das urnas no país. Sem um estudo amostral de aleatoricidade, o voto impresso dará uma segurança ilusória de credibilidade a um custo extremamente alto.

Um equívoco muitas vezes repetido é a afirmação de que a “urna eletrônica brasileira é de segunda geração”, comparando-a com as urnas argentinas e peruanas que seriam de “terceira geração”. A própria noção de ‘geração’ tem origens comerciais, nas empresas que vendem ao Peru e à Argentina suas urnas, e não tem nenhum fundamento mais profundo.

Querer enfatizar um dado comercial ou o fato de se ter descoberto, num teste público, uma fraqueza técnica que pode ser consertada e a partir daí defender medidas sem a devida cautela é ameaçar a democracia.

Glossário

Agentes internos: colaboradores, funcionários e pessoas ligadas à própria empresa ou instituição; se diferenciam dos agentes externos, que são pessoas de fora.
Algoritmo – Sequência lógica e matemática executada por um software para realizar um determinado cálculo, processamento ou decisão automatizada.
Chave criptográfica - Como uma chave comum é capaz de abrir uma porta, a chave criptográfica é o “segredo” que um computador precisa conhecer para acessar (decifrar) dados cifrados.
Cifrar – Procedimento de segurança que torna uma informação ilegível para pessoas que não tenham a chave de acesso (chave criptográfica).
Integridade de software: Um programa de computador, como o que opera a urna eletrônica, pode sofrer alterações não autorizadas. Checagens de integridade garantem que o software em uso é idêntico ao que foi desenvolvido e autorizado para distribuição.
Log: Arquivo que registra eventos, incidentes e outras informações técnicas sobre um sistema ou software. Costuma trazer a hora e a data de quando algo aconteceu. O “histórico” do navegador de internet, que registra as páginas visitadas, é um tipo de log.
Semente: Computadores não podem “gerar um número qualquer”. Quando isso é necessário, usa-se um “gerador de números pseudoaleatório”, que retorna uma sequencia programada e previsível (não aleatória) de números. No entanto, quando um valor especial é fornecido para servir de base aos cálculos do gerador, os números serão diferentes, criando uma variação imprevisível sem o conhecimento do valor. Esse valor especial é chamado de “semente”.
Versionamento - Controle de alterações (versões) de um documento ou código fonte de um software para facilitar o trabalho em equipe. Em ambientes de desenvolvimento, programadores acessam o software de versionamento para baixar códigos, efetivar alterações e tomar conhecimento de modificações realizadas por outros colaboradores.
Zerésima: Relatório emitido pela urna para provar que ela está zerada antes da votação.




Fonte: G1 
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