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terça-feira, outubro 16, 2018

Como o feminismo se equivoca em relação ao capitalismo




E por que homens tendem a ganhar mais do que mulheres.

por Ivan Carrino(*).  

Terminei de ler o livro Economia Feminista - Como construir uma sociedade igualitária (sem perder o glamour), escrito pela doutora em economia Mercedes D'Alessandro, uma das principais ícones do feminismo mundial.

No livro, a economista — que possui formação marxista e é autodeclarada feminista — propõe uma análise centrada na desigualdade. Mas não na desigualdade de riqueza ou de patrimônios, mas sim na desigualdade de gênero. Ou seja, na desigualdade entre homens e mulheres.

Segundo D'Alessandro, a sociedade atual apresenta uma grande disparidade entre os gêneros, evidenciada nas diferenças de salários e no peso que as tarefas do lar exercem sobre a mulher. Essas disparidades de gênero, sentencia a autora, são culpa do capitalismo.

A solução proposta, embora não explicitamente declarada no livro, passa por uma maior regulação estatal.

A obra é um bom resumo dos pontos de vista econômicos do movimento feminista. Não obstante, está eivada de contradições e de problemas de argumentação. Acima de tudo: ela apresenta um diagnóstico errado sobre a situação atual.

A primeira grande inconsistência surge logo em sua proposta. Segundo D'Alessandro, seu livro "se propõe a pensar uma forma de organização social em que as mulheres tenham uma função diferente da que têm hoje".

A pergunta que imediatamente surge é: exatamente a que função ela se refere? À de uma profissional independente de 40 anos de idade? À de uma professora de escola primária? À de uma CEO de uma grande empresa? À de Christine Lagarde, diretora mundial do FMI?

Não seria um tanto pretensioso da parte da doutora D'Alessandro se auto-arrogar a representação de todas as mulheres do planeta e então pressupor que elas exercem hoje um papel que não desejam?

O segundo ponto controverso é que a doutora D'Alessandro sustenta que o trabalho doméstico (segundo suas estatísticas, 9 de cada 10 mulheres realizam esse tipo de trabalho independentemente de terem ou não um emprego fora de casa) é um emprego não-remunerado, e isso equivale a uma exploração.

Esta ideia é falsa.

Imagine um casal qualquer. Os dois membros voluntariamente chegam à decisão de que um deles permanecerá cuidando do lar. De mútuo acordo, "A" organiza a vida do lar enquanto "B" sai ao mercado para trabalhar diariamente em troca de um salário. Em muitas famílias, este é exatamente o arranjo vigente.

Sendo assim, é fato que A realiza um trabalho dentro do lar, da mesma maneira que B o realiza fora do lar. No entanto, não é correto dizer que A não seja remunerado pelo que faz.

Em definitivo, a renda de B se transforma na renda familiar, e serve para prover a todo o grupo. Neste caso, a família, ou o casal, funciona como uma equipe que divide as tarefas. Porém, ambas as tarefas são remuneradas. B trabalha no mercado em troca de um salário, o qual também será usufruído por A.

Logo, A também recebe uma remuneração, a qual se dá na forma de um teto sob o qual viver, na capacidade de consumir o que ambos decidirem comprar (ou na capacidade de consumir tudo aquilo que A quiser, desde que caiba na renda mensal de B), em poder usufruir uma viagem de turismo etc.

Essa ideia de que o trabalho doméstico não é remunerado seria a mais infeliz do livro se não fosse pela incoerente crítica que a autora faz ao capitalismo. D'Alessandro afirma que "em uma sociedade configurada por relações monetárias, a falta de salário transformou uma forma de exploração [os afazeres domésticos] em uma atividade normal".

Mas o fato é que, graças ao capitalismo, a mulher tem um papel cada vez mais importante no mercado de trabalho. De acordo com Steven Horwitz:
Dois fenômenos começaram a ocorrer no século XX, os quais, ao final, alteraram aquilo que até então era visto como um arranjo familiar estável. Primeiro, a inovação tecnológica lentamente começou a produzir máquinas (como a máquina de lavar e o aspirador de pó) que reduziram o tempo de trabalho despendido nas tarefas domésticas. Segundo, o crescimento econômico impulsionado pela economia de mercado aumentou a demanda por mão-de-obra (inclusive feminina) e continuou elevando o poder de compra dos salários.


Ou seja, graças ao crescimento da economia de mercado, é cada vez menos necessária a presença permanente de uma pessoa no lar para os afazeres domésticos, de modo que a ideia básica de "um homem trabalhando e uma mulher dentro de casa" vai perdendo sustentação.

Aliás, é exatamente em economias pouco capitalistas — atrasadas — que há uma menor oferta de ferramentas e máquinas que fazem as tarefas domésticas. Máquinas de lavar roupa, de lavar louça, aspiradores de pó e secadores — instrumentos que reduzem o fardo das tarefas domésticas — são bens caros e de oferta limitada nos países pouco capitalistas, exatamente o arranjo defendido pela doutora D'Alessandro.

O mais curioso é que a própria doutora D'Alessandro reconhece que o capitalismo gerou um avanço — do ponto de vista feminista — na participação da mulher no mercado de trabalho. Segundo seu livro:
Nos anos 1960, somente 2 de cada 10 mulheres trabalhavam fora de casa. Hoje, são quase 7 em cada 10.

Adicionalmente, o livro afirma que, nos EUA, para cada dólar pago a um homem, uma mulher recebe, em média, 79 centavos de dólar. No entanto, a própria autora reconhece que, há 50 anos, esse valor era de 59 centavos de dólar, o que significa que ele cresceu nada menos que 20 pontos.

Finalmente, a autora também reconhece a melhora ocorrida dentro do mundo corporativo:
Nas últimas décadas, as mulheres melhoraram seu acesso a cargos altos. Segundo o censo dos Estados Unidos, em 1980, somente 7% das mulheres possuía um emprego administrativo ou presidencial, sendo que tal cifra era de 17% para os homens. Em 2010, esta diferença já havia praticamente desaparecido.

Apesar de reconhecer essas tendências favoráveis, a doutora D'Alessandro não deixa de afirmar que "as diferenças salariais entre homens e mulheres já duram mais de duzentos anos e não há sinais de que irão mudar substantivamente".

Só que essa afirmação da doutora está em total contradição com as cifras que ela própria mencionou apenas alguns parágrafos antes.

A incoerência

A verdade é que a economia feminista parte de uma premissa totalmente equivocada: ela considera que todas as mulheres formam um grupo único e homogêneo, desconsiderando todas as nuanças e diferenças que existem entre os membros desse grupo. Ou seja, em vez de partir de uma análise individual, o feminismo recorre diretamente a agregações coletivistas, desta forma supondo que todas as mulheres são iguais e querem exatamente os mesmos objetivos.

Algo que já começa com pressuposições erradas não tem como chegar a conclusões corretas e lógicas.

Em segundo lugar, a economia feminista assume erroneamente que toda atividade que não tenha um salário monetário como contrapartida equivale a exploração.

Por último, acusa incoerentemente o capitalismo pelas desigualdades, sendo que foi exatamente este sistema o que mais fez para melhorar as condições de vida tanto dos homens quanto das mulheres. Principalmente: foi o sistema que libertou as mulheres da necessidade de se casar apenas para obter um sustento econômico.

O feminismo se equivoca em relação ao capitalismo. E, ao condená-lo, está jogando contra seus próprios interesses: o maior bem-estar econômico das mulheres ao redor do mundo.

Complemento do IMB

Em um mercado de trabalho com liberdade de contratação e demissão, é impossível haver divergências salariais entre homens e mulheres em decorrência unicamente de discriminação. 

Se as mulheres de fato ganhassem menos que os homens para realizar as mesmas tarefas, empresas que buscam o lucro só contratariam mulheres. Diante de dois candidatos com o mesmo potencial, o patrão contrataria o mais barato.

Ou seja, se de fato houvesse tal discriminação, qualquer empregador iria obter lucros fáceis contratando mulheres e dispensando homens, uma vez que as mulheres poderiam receber um salário menor para fazer exatamente o mesmo trabalho. Consequentemente, a concorrência entre os empregadores iria elevar os salários das mulheres e, assim, abolir qualquer diferença salarial que porventura exista.

Logo, sempre e em qualquer ocasião que houver qualquer tipo de discriminação salarial — e isto vale não apenas para gêneros, mas também para cor de pele, religiões, etnias etc. —, o capitalismo irá abolir tal situação, e não aprofundá-la. E o motivo essencial é que um empregador que permite que seus preconceitos turvem seu juízo de valor estará criando uma oportunidade de lucro para seus concorrentes. 

Uma mulher que produz $75.000 por ano em receitas para seu patrão, mas que recebe, digamos, $20.000 a menos que um empregado masculino igualmente produtivo, poderá ser contratada por um concorrente por, digamos, $10.000 a mais do que recebe hoje e ainda assim permitir que este novo empregador embolse os $10.000 de diferença. 

À medida que este processo concorrencial for se aprofundando ele irá, ao fim e ao cabo, elevar os salários femininos ao ponto de paridade com os salários masculinos caso a concorrência salarial seja vigorosa o bastante.

A realidade é que há outros fatores indeléveis nessa questão da divergência salarial entre homens e mulheres. Por exemplo, em termos gerais, a probabilidade de as mulheres saírem da força de trabalho por um período de tempo — por causa de gravidez, criação e educação de filhos e outras tarefas (das quais a maioria dos homens se esquiva) — é maior que a dos homens. As mulheres são muito mais propensas que os homens a se ausentar do mercado de trabalho por um período de tempo (anos) para se dedicar à família. E mesmo que não façam isso, elas tendem a gastar muito mais tempo que os homens cuidando das crianças e das tarefas domésticas. Consequentemente, elas ficam atrás de seus colegas homens em termos de acumulação de capital, produtividade e salários.

No entanto, explicações muito mais explosivas sobre diferenças salariais podem ser encontradas no livro do professor James T. Bennett, do departamento de economia da George Mason University, intitulado The Politics of American Feminism: Gender Conflict in Contemporary Society

Neste livro, o professor Bennett enumera mais de vinte motivos por que os homens ganham mais que as mulheres. Cumulativamente, tais explicações explicam por completo a existência de qualquer "disparidade salarial", embora o próprio Bennett acredite que a discriminação salarial por gênero não seja algo inexistente. 

Os motivos, baseados em generalizações respaldadas por volumosas estatísticas, são:
  • Homens têm mais interesse por tecnologia e ciências naturais do que as mulheres.
  • Homens são mais propensos a aceitar trabalhos perigosos, e tais empregos pagam mais do que empregos mais confortáveis e seguros.
  • Homens são mais dispostos a se expor a climas inclementes em seu trabalho, e são compensados por isso ("diferenças compensatórias" no linguajar econômico).
  • Homens tendem a aceitar empregos mais estressantes que não sigam a típica rotina de oito horas de trabalho em horários convencionais.
  • Muitas mulheres preferem a satisfação pessoal no emprego (profissões voltadas para a assistência a crianças e idosos, por exemplo) a salários mais altos.
  • Homens, em geral, gostam de correr mais riscos que mulheres. Maiores riscos levam a recompensas mais altas.
  • Horários de trabalho mais atípicos pagam mais, e homens são mais propensos que as mulheres a aceitar trabalhar em tais horários.
  • Empregos perigosos (carvoaria) pagam mais e são dominados por homens.
  • Homens tendem a "atualizar" suas qualificações de trabalho mais frequentemente do que mulheres.
  • Homens são mais propensos a trabalhar em jornadas mais longas, o que aumenta a divergência salarial.
  • Mulheres tendem a ter mais "interrupções" em suas carreiras, principalmente por causa da gravidez, da criação e da educação de seus filhos. E menos experiência significa salários menores.
  • Mulheres apresentam uma probabilidade nove vezes maior do que os homens de sair do trabalho por "razões familiares". Menos tempo de serviço leva a menores salários.
  • Homens trabalham mais semanas por ano do que mulheres.
  • Homens apresentam a metade da taxa de absenteísmo das mulheres. 
  • Homens são mais dispostos a aturar longas viagens diárias para o local de trabalho.
  • Homens são mais propensos a se transferir para locais indesejáveis em troca de empregos que pagam mais.
  • Homens são mais propensos a aceitar empregos que exigem viagens constantes.
  • No mundo corporativo, homens são mais propensos a escolher áreas de salários mais altos, como finanças e vendas, ao passo que as mulheres são mais predominantes em áreas que pagam menos, como recursos humanos e relações públicas.
  • Quando homens e mulheres possuem o mesmo cargo, as responsabilidades masculinas tendem a ser maiores.
  • Homens são mais propensos a trabalhar por comissão; mulheres são mais propensas a procurar empregos que deem mais estabilidade. O primeiro apresenta maiores potenciais de ganho.
  • Mulheres atribuem maior valor à flexibilidade, a um ambiente de trabalho mais humano e a ter mais tempo para os filhos e para a família.


Portanto, os grupos feministas organizados que querem impor salários maiores para as mulheres deveriam prestar mais atenção a estes determinantes e se concentrar menos em cruzadas quixotescas como legislações sobre "diversidade e igualdade" que demonizam empregados e patrões homens.

Porém, a lógica econômica é normalmente suprimida por grupos ativistas que julgam ser muito mais fácil e produtivo simplesmente difamar aqueles que tentam explicar que há motivos economicamente racionais para a existência de eventuais divergências salariais entre homens e mulheres.

(Texto originalmente publicado em 08/03/18)
(*)Iván Carrino é analista econômico da Fundación Libertad y Progreso na Argentina e possui mestrado em Economia Austriaca pela Universidad Rey Juan Carlos, de Madri.

by Instituto Mises Brasil

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?





Ressentimento, arrogância e ignorância.


por Jesús Huerta de Soto(*).


Por que os intelectuais sistematicamente odeiam o capitalismo? Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.


Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história. Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.


E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo. Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado. Eles querem controlar o resultado destas interações. Eles são socialistas. Eles são de esquerda. Por que é assim?


Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando. Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda. Todos estarão contra vocês.


"Por que razão eles agem assim?", perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.


Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.


Primeira, o desconhecimento. Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado. 


Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo. Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado. 


Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.


Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muita importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais. Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.


A segunda razão, a soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista. 


O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios. Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade. Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.


Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir. Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer. Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas. É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão. Abominam anúncios comerciais. De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população. E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos. 


E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real. E isso é um perigo. Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial. Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.


É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.


E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja. O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida. O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno. 


Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los. Você se torna um ressentido. Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances. 


Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam. O raciocínio é sempre o mesmo:

"Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados. Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas."


"Essa é uma sociedade injusta", prossegue o intelectual. "A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu". Ressentimento e inveja.


Segundo Bertrand de Jouvenel,

O mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas.
[...]
Enquanto o homem de negócios tem de dizer que "O cliente sempre tem razão", nenhum intelectual aceita este modo de pensar.

E prossegue de Jouvenel:

Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais? Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?


Conclusão


Somos humanos, meus caros. Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.


(*) Jesús Huerta de Soto, professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.

Fonte: www.mises.org.br

domingo, dezembro 10, 2017

O mito do capitalismo cruel



por Paulo Guedes(*).



Há várias maneiras de evitar os males e riscos atribuídos ao capitalismo, mas o “socialismo do século XXI” é um mergulho no abismo.


O mito do capitalismo cruel foi sempre muito popular. Afinal, sendo o capital tão velho quanto o diabo, são-lhe atribuídos todos os males do mundo. Floresceu entre os negociantes assírios, nos mercados da Babilônia, com navegantes fenícios, comerciantes atenienses, latifundiários e feirantes medievais, industriais e financistas anglo-saxões e agora até mesmo entre ex-comunistas sino-soviéticos. A antipatia é tamanha que a profecia de aprofundamento das desigualdades até seu inevitável colapso acabou tornando Karl Marx, um economista pós-ricardiano menor do século XIX, o mais influente ideólogo do século XX.



O fervor religioso de seus crentes resiste aos fatos. Pouco importa que um apocalipse do regime socialista tenha mergulhado na miséria 3,5 bilhões de eurasianos, que buscam agora, em desespero, sua inclusão nos mercados globais, derrubando salários e aumentando os lucros em todo o mundo. A culpa é sempre do capitalismo.



Pouco importa que os governos impeçam a colossal destruição de riqueza financeira através das operações de salvamento de bancos, em vez de garantirem apenas os pequenos depositantes. “Salvar bancos não era salvar o mundo”, descobre agora o Prêmio Nobel Paul Krugman. A culpa pela concentração de riqueza é do capitalismo, que permitiu a acumulação desigual nos tempos em que houve abusos e excessos, ou dos governos, que impediram grandes perdas patrimoniais nas crises decorrentes? Por que não aliviaram hipotecas de classes de baixa renda e dívidas de estudantes, em vez de garantirem grandes fortunas estacionadas em um sistema financeiro quebrado? Isso pode ser coisa do diabo, de financistas e do governo, mas não é coisa do capitalismo, que também destrói privilégios e riquezas todo tempo e em toda parte. Um economista pós-walrasiano menor contemporâneo acaba de “demonstrar” mais uma vez a perversidade do capitalismo cruel. Poderíamos evitar males como a concentração excessiva de renda e riqueza? Poderíamos reduzir os riscos de uma desestabilização política das democracias liberais? É claro que sim, e de várias maneiras. O único caminho inexorável para o abismo, o verdadeiro beco sem saída lamentavelmente escolhido pelos nossos vizinhos kirchneristas e bolivarianos, é o “socialismo do século XXI”.


(*)Paulo Guedes é economista com Ph.D pela Universidade de Chicago, EUA. É fundador e sócio majoritário do grupo financeiro BR Investimentos e um dos quatro fundadores do Banco Pactual. Assina colunas no jornal “O Globo” e na revista “Época”



Fonte: conservadorismodobrasil.com.br

sexta-feira, novembro 18, 2016

Precisamos falar sobre o "capitalismo de quadrilhas"




🔻Este câncer tem de ser extirpado - e só há uma maneira.

É fácil definir ou entender as políticas estatizantes.

Aumento de impostos é quando políticos pegam uma maior fatia do seu dinheiro — afetando suas decisões de poupança, investimento e consumo — e o direcionam ou para o inchaço da máquina pública ou para bancar seus grupos de interesse favoritos. (Grandes empresários, funcionários públicos e pessoas no assistencialismo).

Protecionismo é quando políticos utilizam tarifas de importação e outras barreiras não-tributárias para restringir sua liberdade de comprar bens e serviços produzidos em outras nações.

Lei do salário mínimo é quando políticos criminalizam contratos de emprego voluntariamente acordados entre adultos, proibindo que pessoas de baixa qualificação consigam um trabalho que lhes pague de acordo com sua produtividade, condenando-as ao desemprego.

Pacotes de estímulo são quando políticos tomam dinheiro de uma parte da economia e gastam em outra parte da economia e, com isso, fingem todos estão mais ricos. Equivale a tirar água da parte funda da piscina, jogá-la na parte rasa e, com isso, acreditar que o nível geral de água na piscina aumentar.

A lista é potencialmente infinita. Mas há um tipo específico — e extremamente abrangente — de política estatista que não possui uma definição simples. Na literatura econômica anglo-saxã, tal política é conhecida como "crony capitalism" ou simplesmente "cronyism". No Brasil, ela passou a ser traduzida como "capitalismo de estado", "capitalismo de compadrio" ou mesmo "capitalismo de quadrilhas".

A palavra "crony" vem do grego "khronios" e significa "de longa duração". Nos países anglo-saxões, ela se tornou uma gíria para designar amigos, afilhados, capangas, comparsas, apaniguados, membros de uma quadrilha ou irmãos no crime.

Quando o termo "crony" é acompanhado do termo "capitalism", tem-se então a referência ao "capitalismo crony" ou "capitalismo de compadrio", "capitalismo de estado", "capitalismo corporativista" ou mesmo "capitalismo de quadrilhas", uma alusão a um arranjo econômico dominado pelo favoritismo, pela arbitrariedade e pela corrupção.

Neste arranjo, há apenas uma aparência de mercado; na prática, todas as transações são conduzidas pelo estado. Tem-se um capitalismo dirigido e deturpado por políticos em prol de seus empresários favoritos.

Subsídios representam um capitalismo de estado? Sim. Pacotes de socorro a empresas? Sim. Protecionismo? Sim. Mas há muito mais do que isso.

Generalizando, pode-se dizer que o capitalismo de estado (ou de quadrilhas) ocorre quando políticos criam privilégios que os governos então concedem a empresários e empresas específicas.

🔻O capitalismo deturpado e manchado

Uma das características mais deletérias do cronismo é o fato de ele dar ao capitalismo uma má reputação. Por causa do cronismo, várias pessoas leigas não mais conseguem fazer uma distinção entre "mercado", "negócios" e "negociatas". Assim, quando grandes empresários recebem privilégios e favores especiais do governo, as pessoas acabam concluindo que o capitalismo é um sistema manipulado. Eles associam o termo 'capitalismo' a monopólios, a privilégios, e a ricaços poderosos manipulando a economia para proveito próprio. 

🔻Mas nada poderia ser mais falso. Comecemos do básico.

Foi Marx quem deu nome ao modelo de organização econômica capitalista. O capitalismo, entretanto, não foi criado por algum cérebro brilhante, nem gerado em saraus de intelectuais que queriam mudar o mundo ou a natureza humana. Ao contrário, surgiu como resultado natural dos processos sociais de divisão do trabalho e trocas voluntárias, realizados num ambiente de liberdade até então poucas vezes visto ao longo da história.

Os economistas clássicos chamavam-no de laissez-faire. O governo era um mero coadjuvante, cujo papel limitava-se a fazer cumprir os contratos, proteger a vida e a propriedade dos cidadãos. 

As maiores virtudes desse modelo, na visão de Adam Smith, eram a liberdade de empreendimento e o governo limitado — este último um antídoto contra as arbitrariedades, os desmandos e as falcatruas inerentes ao poder político. 

Em resumo, o sistema pouco dependia das virtudes dos bons governantes, enquanto os danos causados pelos maus eram mínimos.

Por conta de um desses grandes paradoxos da vida, no entanto, o livre mercado, embora tivesse trazido volumes de riqueza inéditos aos países que o abraçaram, foi sendo paulatinamente substituído, principalmente no decorrer do século XX, por um novo arranjo institucional: sim, o capitalismo de estado.

O processo de substituição foi bastante facilitado pelo fato de que muito poucos estavam dispostos a defender, politicamente, o capitalismo liberal. Não é de se admirar. O liberalismo, afinal, é muito arriscado, pouco previsível e totalmente incontrolável, seja por empresários, políticos ou acadêmicos. Tal modelo, embora possibilite uma acumulação coletiva extraordinária de riqueza, está longe de ser um caminho seguro para o sucesso individual.

No capitalismo de estado, por outro lado, o governo é capturado por grupos de interesse, que o utilizam para promover a transferência de riqueza e status. Por meio de um processo lento, mas ininterrupto, castas influentes e bem articuladas obtêm privilégios especiais, contratos, empregos, reservas de mercado, créditos baratos e proteções diversas, sempre à custa do dinheiro alheio.

Há o capitalismo de estado legal e há o ilegal - e ambos são imorais

No capitalismo de estado, o mercado é artificialmente moldado por uma relação de conluio entre o governo, as grandes empresas e os grandes sindicatos. Políticos concedem a seus empresários favoritos uma ampla variedade de privilégios que seriam simplesmente inalcançáveis em um genuíno livre mercado. 

Por meio do capitalismo de estado, o governo acintosamente cria e protege monopólios, oligopólios, cartéis e reservas de mercado por meio de regulamentações que impõem barreiras à entrada da concorrência no mercado (via agências reguladoras), por meio de subsídios a empresas favoritas, por meio do protecionismo via obstrução de importações, por meio de altos tributos que impedem que novas empresas surjam e cresçam

O governo, em prol das grandes empresas já estabelecidas e contra os interesses dos consumidores, utiliza seus poderes para cartelizar os setores bancário, aéreo, telefônico, internet, elétrico, postos de gasolina etc., restringindo a concorrência por meio de agências reguladoras para proteger as empresas já estabelecidas e prejudicar a liberdade de escolha dos consumidores.

Esses são os privilégios legais, os quais também incluem até mesmo coisas mais paroquiais, como a obrigatoriedade do uso de extintores e do kit de primeiros socorros nos automóveis (o que traz altos lucros para as empresas que os fabricam e fornecem) e a obrigatoriedade do uso de canudinhos plastificados (devidamente fornecidos pela empresa lobbista) em bares e restaurantes. 

Mas há também os privilégios ilegais. E estes vão desde fraudes em licitações e superfaturamento em prol de empreiteiras (cujas obras são pagas com dinheiro público) a coisas mais simples como a concessão de bandeiras de postos de combustíveis para empresários que pagam propina a determinados políticos (bandeiras essas negadas para empresários honestos e menos poderosos).

Em troca, os empresários beneficiados lotam os cofres de políticos e reguladores com amplas doações de campanha e propinas. 

A criação destes privilégios pode ocorrer ou abertamente, por meio de lobbies e da atuação de grupos de interesse, ou na surdina, por meio do suborno direto.

Tanto nos exemplos legais quanto nos ilegais, empresários poderosos e grupos de interesse conseguem obter privilégios, extraídos de toda a população, mediante o uso do aparato estatal. 

E isso só é possível porque há um estado grande que a tudo controla e tudo regula.

Um estado grande sempre acaba convertendo-se em um instrumento de redistribuição de riqueza: a riqueza é confiscada dos grupos sociais desorganizados (os pagadores de impostos) e direcionada para os grupos sociais organizados (lobbies, grupos de interesse e grandes empresários com conexões políticas).

A crescente concentração de poder nas mãos do estado faz com que este se converta em um instrumento muito apetitoso para todos aqueles que saibam como manuseá-lo para seu benefício privado.

🔻Conclusão

Quanto maior e mais poderoso um governo, quanto mais leis e regulamentações ele cria, mais os empresários poderosos e com boas conexões políticas irão se aglomerar em torno dele para obter privilégios; e mais brechas ele abrirá para que empresários poderosos se beneficiem à custa dos concorrentes e da população como um todo.

O cronismo — ou o "capitalismo de estado" ou, melhor ainda, o "capitalismo de quadrilhas — é um câncer que compromete e definha o genuíno capitalismo, o qual nada tem a ver com privilégios, proteções e reservas de mercado, mas sim com competição, abertura e liberdade de empreendimento.

O cronismo nada mais é do que uma variação do mercantilismo. Trata-se de um capitalismo regulado em prol dos regulados e dos reguladores, e contra os interesses do povo.

Eis o caminho para lutar contra os grupos de interesse, contra os lobbies empresariais e contra toda a corrupção que eles geram: reduzir ao máximo o tamanho do estado para que se reduza ao máximo as chances de privilégios. Não há outro jeito. Com estado grande, intervencionista e ultra-regulador, lobbies, grupos de interesse e subornos empresariais sempre serão a regra.

Como bem frisou Jonah Goldberg, no excelente "Fascismo de esquerda", muitos esquerdistas estão corretos quando lamentam a cumplicidade entre governos e grandes corporações. O que eles não compreendem é que tal sistema convém justamente aos governos intervencionistas da nova esquerda, dita democrática. Uma esquerda que não pretende expropriar os empreendimentos privados, mas, ao contrário, usá-los para implantar sua agenda política — exatamente como testemunhamos no Brasil.

Essa é a grande diferença entre os verdadeiros liberais/libertários e os esquerdistas/desenvolvimentistas e até mesmo alguns conservadores que defendem estado e suas políticas "desenvolvimentistas": Nós somos pró-mercado. Eles são pró-negócios.



➧Fonte: http://www.mises.org.br/

sábado, outubro 29, 2016

Quanto mais a livre iniciativa retira pessoas da pobreza, mais ela é desprezada









Empreender, ao contrário do que dizem os intelectuais, é uma das mais nobres e caritativas vocações



Ao longo de quase toda a história da humanidade, as condições humanas foram de penúria e pobreza abjetas. Sim, havia reis, príncipes e ordens religiosas que viviam melhor que todo o resto da massa humana. Porém, olhando em retrospecto o padrão de vida deles, mesmo o mais privilegiado e poderoso líder político ou chefe tribal viveu sob condições materiais que a maioria de nós, hoje, consideraria horripilantes, algo meramente acima da subsistência.

Por milhares de anos, essas foram as circunstâncias da raça humana. A pobreza dantesca era a norma; era a condição natural e permanente de cada ser humano. 

E então, começando a partir de menos de trezentos anos atrás, as condições humanas começaram a mudar — primeiro, lentamente e de maneira desigual, em pontos localizados da Europa; depois, na América do Norte. Desde então, essas melhorias foram se espalhando por todo o globo.

Historiadores econômicos já estimaram a intensidade em que a pobreza foi abolida ao redor do mundo. Há apenas 200 anos, em 1820, aproximadamente 95% da população mundial viva na pobreza, com uma estimativa de que 85% vivia na pobreza "abjeta". Em 2015, o Banco Mundial calculou que menos de 10% da humanidade continua a viver em tais circunstâncias.

Agora, 10% de 7,4 bilhões de pessoas que vivem neste planeta ainda equivalem a 740 milhões de homens, mulheres e crianças. É um número alto? Extremamente. Mas se levarmos em conta que, em 1820, toda a população humana totalizava um bilhão de pessoas, e que a vasta maioria vivia na pobreza absoluta, então aproximadamente 6,4 bilhões de pessoas foram acrescentadas à população global. Destas, "apenas" 740 milhões (três quartos de um bilhão) ainda têm de ser retiradas da pobreza, dentro de um total de 7,4 bilhões de pessoas.

O surgimento do capitalismo — e a revolução industrial gerada por este — foi o responsável por essa estrondosa melhoria na qualidade de vida das pessoas.

A feição característica do capitalismo que o distinguiu dos métodos pré-capitalistas de produção era o seu novo princípio de distribuição e comercialização de mercadorias. Surgiram as fábricas e começou-se a produzir bens baratos para a multidão. Todas as fábricas primitivas foram concebidas para servir às massas, a mesma camada social que trabalhava nas fábricas. 

Elas serviam às massas tanto de forma direta quanto indireta: de forma direta quando lhes supriam produtos diretamente, e de forma indireta quando exportavam seus produtos, o que possibilitava que bens e matérias-primas estrangeiros pudessem ser importados. Este princípio de distribuição e comercialização de mercadorias foi a característica inconfundível do capitalismo primitivo, assim como é do capitalismo moderno.

O capitalismo, em conjunto com a criatividade tecnológica, foi o que livrou o Ocidente do fantasma da armadilha malthusiana. Antes da Revolução Industrial, as populações crescentes pressionavam inexoravelmente os meios de subsistência. Porém, quando as fábricas de Manchester, na Inglaterra, começaram a atrair um volume maciço de pobres que estavam ociosos no meio rural, e quando elas passaram a importar trigo barato, Malthus se tornou um profeta desacreditado em sua própria Grã-Bretanha.

Como acabou ocorrendo, toda a criatividade e inventividade que o capitalismo desencadeou se refletiu nas estatísticas de natalidade: pessoas de classe média que não mais necessitavam gerar famílias grandes para ter filhos que trabalhasse e ajudassem no sustento começaram a limitar a quantidade de filhos.

Essa combinação entre famílias menores e uma aplicação mais engenhosa da ciência à agricultura acabou com o problema da inanição no Ocidente. A partir daí, a pobreza deixou de ser predominante e passou a ficar restrita a um número cada vez menor de pessoas.

Não obstante esse estrondoso feito na redução da pobreza e no aumento da liberdade e da dignidade de bilhões de pessoas ao redor do mundo, o clima político e cultural ao redor do mundo ainda é virulentamente anti-capitalista e anti-livre iniciativa. No entanto, foi exatamente onde as forças do capitalismo e da livre-iniciativa estiveram mais livres para operar, em conjunto com a aceitação e até mesmo respeito aos empreendedores, que os mais dramáticos avanços foram feitos em termos de abolir as piores e mais esquálidas condições materiais da humanidade.

A condenação moral dos empreendedores

A produção em massa se torna lucrativa quando o empreendedor demonstra saber como satisfazer as necessidades e desejos da população. No passado, a massa humana se mantinha presa às terras nas quais eram obrigadas a servir a seus mestres e senhores feudais, os quais, por meio da conquista e da espoliação, viviam como senhores de engenho. Hoje, sob o capitalismo e o livre mercado, aqueles que assumem o papel de empreendedores não possuem outra fonte de ganhos senão a sua competência em atender e satisfazer os desejos e necessidades do público, que voluntariamente opta por consumir seus bens e serviços. E este público somos todos nós.

Seria de se imaginar que um sistema econômico que gera um arranjo no qual os mais criativos, industriosos e inovadores membros da sociedade possuem incentivos para direcionar seus talentos e habilidades para a melhoria das condições de vida de terceiros — em vez de utilizar suas qualidades superiores para pilhar o que seus vizinhos produziram — seria aclamado e aplaudido como o maior dos arranjos institucionais já criados pelo homem.

Seria de se imaginar que um arranjo que é capaz de domar as pessoas mais egoístas, ambiciosas e talentosas da sociedade, fazendo com que seja do interesse financeiro delas se preocuparem dia e noite com novas maneiras de agradar terceiros, seria louvado por todos como uma brilhante criação.

No entanto, quanto mais os criativos e industriosos prosperam neste arranjo produtivo e pacífico, mais eles são condenados e acusados de cometer algum tipo de "crime contra a humanidade" por causa dos lucros que auferem ao melhorar as circunstâncias das pessoas ao seu redor.

Neste arranjo, aqueles que buscam a liderança nos negócios, aqueles que demonstram excelência empreendedorial em criar, dirigir e comercializar produtos melhores, produtos novos e produtos mais baratos se tornam alvos de condenação, escárnio e até mesmo ódio daquelas mesmas pessoas cujo padrão de vida foi melhorado substancialmente em decorrência destas criações empreendedoriais.

Os intelectuais, os acadêmicos, os jornalistas e os auto-proclamados "críticos" da atual condição humana estão sempre apontando dedos para os empreendedores como se estes fossem a fonte e a causa de todas as misérias, frustrações, decepções e insatisfações da humanidade.

As elites sociais e intelectuais sonham com "um mundo melhor", mas acreditam que este mundo melhor só virá se elas estiveram no comando de todos os arranjos sociais da humanidade. "O grande mal do mundo é que eu não estou mandando", pensam elas.

Para essas pessoas, empreendedores representam um obstáculo à utópica "revolução social" que tanto almejam, pois as instituições da propriedade privada e da acumulação de riqueza são um empecilho para aqueles que sonham ter livre acesso às posses e à riqueza de terceiros, e utilizá-la de modo a implantar sua própria "utopia".

Empresários e empreendedores honoráveis

A baixa estima que empresas usufruem perante várias pessoas ao redor do mundo é preocupante. Afirmo isso porque empreendedores que operam no livre mercado estão em uma dimensão completamente diferente da daqueles que ganham a vida por meio da política, isto é, por meio dos impostos confiscados da população.

Com efeito, digo que não há maneira mais honrada e moral de ganhar a vida do que sendo um empreendedor na arena concorrencial e competitiva do livre mercado, ganhando seu dinheiro exclusivamente por meio da satisfação das pessoas, e não por meio de privilégios, subsídios e proteções concedidas pelo governo — com o dinheiro confiscado de terceiros — a seus favoritos.

Utilizando uma frase bíblica, muitos são os chamamentos, mas poucos são os escolhidos para assumir o papel de empreendedor. Eleitores não vão às urnas para alçar o empreendedor à sua posição de líder de uma empresa. Ele ganha sua posição não por meio de promessas aos eleitores, mas sim por meio dos serviços efetivamente entregues aos seus consumidores.

Em uma economia de mercado, aqueles que imaginam, projetam, criam, implantam e dirigem empreendimentos não precisam, inicialmente, da aceitação, da aprovação ou do consentimento de um grande número de coalizões de indivíduos ou de grupos, como têm de fazer os políticos em um processo eleitoral.

O empreendedor que opera no livre mercado é, inicialmente, auto-escolhido e auto-nomeado. Com efeito, suas idéias — que o levam a criar, organizar e implementar suas atividades, levando assim à produção de bens e serviços — podem não ser nem sequer entendidas e acreditadas pela grande maioria das pessoas. Antes de seu produto estar finalizado e ser oferecido aos consumidores, que podem livremente rejeitá-lo, o empreendedor não tem a mínima ideia sobre se será bem sucedido ou um fracasso retumbante.

Aceitar a tarefa de liderança empresarial, portanto, requer visão, arrojo, confiança, determinação e disciplina. Acima de tudo, requer apoio financeiro: ou de sua própria poupança, ou daqueles que ele consegue persuadir a lhe emprestar os fundos necessários, ou de eventuais sócios que ele consiga convencer a se arriscar junto a ele para levar suas idéias ao mercado.

O empreendedor é, portanto, alguém que está disposto a correr riscos em busca de lucros. E que pode acabar perdendo tudo.

Em contraste, políticos e funcionários públicos, tão logo escolhidos, têm renda e até mesmo aposentadoria garantidas.

As qualidades dos empreendedores que operam no livre mercado

Ao contrário do processo político, o sucesso de um empreendedor não é mensurado pelas urnas, mas sim de acordo com o êxito do empreendedor em conquistar a preferência voluntária dos consumidores pelo seu produto. E o grau dessa preferência será mensurado pelo total de receitas em relação ao total de custos incorridos pelo empreendedor para levar seu produto ao mercado.

Será que esse empreendedor conseguirá antecipar a direção e a tendência das demandas futuras dos consumidores? Mais ainda: será que ele conseguirá fazer isso de maneira mais precisa que seus concorrentes no mercado? Será que ele está alerta às oportunidades de lucro que outros não conseguiram perceber? Será que ele saberá como introduzir novos e melhores produtos no mercado — ou então produtos bons e mais baratos — para assim conseguir os "votos" dos consumidores por meio do dinheiro que estes gastam?

Acima de tudo: será que ele conseguirá fazer com que os consumidores voluntariamente gastem seu dinheiro em seus produtos e não nos produtos de outros concorrentes?
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Não importa se um empreendedor vende geladeiras, pentes ou computadores: sua concorrência serão todos os outros empreendedores que estejam vendendo qualquer outro bem ou serviço no mercado. Para um empreendedor conseguir o dinheiro dos consumidores, estes terão necessariamente de abrir mão de algum gasto em alguma outra área.

Por isso, pode-se dizer que o mercado é uma democracia na qual cada centavo permite o direito de votar. Por meio de seus votos, mensurados em unidades monetárias, os consumidores determinam qual empreendedor continuará no mercado e qual perderá sua posição.

Embora o empreendedor inicialmente se auto-nomeie e se auto-escolha para incorrer o risco de uma atividade até então desconhecida, sem o consentimento prévio e o apoio financeiro do público consumidor, são os consumidores quem, em última instância, determinarão se ele manterá ou não sua posição empreendedorial nesta divisão de trabalho criada pelo mercado.

A determinação e o impulso empreendedorial

O líder empreendedorial tem de ser distintivamente obcecado e passionalmente dedicado ao seu papel na divisão do trabalho. Outros em sua empresa podem se dar ao luxo de chegar ao trabalho às nove da manhã e sair às 6 da tarde. Ele, não. Ele tem de trabalhar 24/7, mesmo quando está longe do seu local de trabalho.

A cadeia de fornecimentos da empresa está operando eficientemente? Os executivos e gerentes estão supervisionando corretamente suas divisões? Estas estão funcionando adequadamente? O que seus concorrentes estão planejando fazer? O que sua própria empresa está planejando fazer em termos de campanha publicitária, melhoria de produtos, inovações tecnológicas, e adaptação às constantes alterações no padrão de demanda dos consumidores?

O fardo de manter em dia a folha de pagamento de seus empregados — pelos quais ele é responsável e cujo salário tem de chegar pontualmente mesmo que a empresa tenha vultosos prejuízos — em conjunto com as obrigações que ele assumiu de entregar os bens e produtos aos seus consumidores e clientes significam que, como líder de seu negócio, sua mente simplesmente não pode descansar e desligar quando a jornada de trabalho de seus empregados acaba.

Uma grande parte da ética da livre iniciativa, portanto, é refletida na integridade, na disciplina, e na qualidade do caráter daqueles que optam por esse papel na divisão do trabalho.

Conclusão

Todos aqueles que já tiveram um negócio próprio, e fizeram grandes sacrifícios para isso, sabem bem o drama do primeiro dia: será que o mundo quer aquilo que tenho a oferecer? Seja um imigrante abrindo um simples salão de beleza ou Steve Jobs vendendo um computador da Apple, o sucesso está longe de ser garantido. Com efeito, a única coisa realmente garantida é o fracasso, o qual inevitavelmente ocorrerá caso você não saiba agradar aos outros.

Essas corajosas almas, os empreendedores que são a alma do capitalismo e que nos fornecem infindáveis benefícios materiais, desde caixas eletrônicos a remédios que salvam vidas, deveriam ser venerados, e não malhados.

São essas pessoas, por meio deste trabalho, que elevam o padrão de vida das massas. Foram elas, por meio de seus bens criados e serviços oferecidos, que reduziram a penúria das pessoas ao longo dos séculos, levando conforto, bem-estar e maior expectativa de vida para todos.

Acima de tudo, são elas que sustentam uma economia, que fornecem um meio de vida para todas as pessoas e que, de quebra, ainda têm de bancar toda a máquina pública.

Elas são seres humanos como eu e você, que utilizam o melhor de suas habilidades para servirem aos seus semelhantes e, com isso, moldarem seu próprio destino.

E são essas pessoas que são desprezadas pelos seus próprios beneficiários — os quais levam uma vida cada vez mais pujante.

Fonte: Mises.org.

sexta-feira, setembro 16, 2016

A fórmula para um mundo mais rico? Liberdade, justiça e virtudes burguesas.






por Deirdre McCloskey (Mises Brasil)


Idéias e uma profunda mudança de atitude geraram nosso enriquecimento


O mundo é rico e irá se tornar ainda mais rico. Pare de se preocupar.


Nem todos já estão ricos, é claro. Aproximadamente um bilhão de pessoas no planeta ainda sobrevive com a equivalente a US$ 3 por dia ou menos. No entanto, no ano de 1800, praticamente todas as pessoas sobreviviam com US$ 3 ao dia (em valores de hoje).

O Grande Enriquecimento começou na Holanda do século XVII. No século XVIII, o fenômeno já havia se espalhado para Inglaterra, Escócia e as colônias americanas. Hoje, ele é praticamente universal.

Economistas e historiadores concordam quanto à sua espantosa e surpreendente magnitude: em 2010, a renda média diária de uma grande variedade de países, incluindo Japão, EUA, Botsuana e Brasil, havia crescido de 1.000 a 3.000% em relação aos níveis de 1800. As pessoas deixaram de viver em tendas e cabanas de lama e foram morar em casas de dois andares e apartamentos em condomínios. Saíram de uma realidade marcada por doenças causadas por água suja e infectada e alcançaram uma expectativa de vida de 80 anos. Saíram da ignorância plena para a alfabetização e o conhecimento.

Ainda há quem diga que os ricos se tornaram mais ricos e os pobres, mais pobres. Nada mais errado. A se julgar pelo padrão de conforto básico trazido por itens essenciais, as pessoas mais pobres do planeta foram as que mais ganharam. Em locais como Irlanda, Cingapura, Finlândia e Itália, mesmo as pessoas que são relativamente pobres têm acesso a alimentação adequada, educação, alojamento e cuidados médicos. Seus ancestrais não tinham nada disso. Nem mesmo remotamente.

Desigualdade de riqueza financeira é algo que varia intensamente ao longo do tempo; no entanto, no longo prazo, esta se reduziu. A desigualdade financeira era maior em 1800 e em 1900 do que é hoje,como até mesmo o economista francês Thomas Piketty reconheceu. E quando se toma como base o conforto trazido pelo consumo de itens básicos — que é o padrão mais importante de mensuração —, a desigualdade dentro de um país, e também entre países, caiu quase que continuamente.

[N. do E.: a este respeito, vale repetir um trecho deste artigo:

Diferenças na propriedade de ativos não significam uma igual diferença no padrão de vida, muito embora várias pessoas tenham esse fetiche. Por exemplo, a riqueza de Bill Gates deve ser 100.000 vezes maior do que a minha. Mas será que ele ingere 100.000 vezes mais calorias, proteínas, carboidratos e gordura saturada do que eu? Será que as refeições dele são 100.000 vezes mais saborosas que as minhas? Será que seus filhos são 100.000 vezes mais cultos que os meus? Será que ele pode viajar para a Europa ou para a Ásia 100.000 vezes mais rápido ou mais seguro? Será que ele pode viver 100.000 vezes mais do que eu? 

O capitalismo que gerou essa desigualdade é o mesmo que hoje permite com que boa parte do mundo possa viver com uma qualidade de vida muito melhor que a dos reis de antigamente. Hoje vivemos em condições melhores do que praticamente qualquer pessoa do século XVIII.]

Em todo caso, o problema sempre foi a pobreza, e não a desigualdade em si. O problema não é quantos iates possui a herdeira da L'Oreal Liliane Bettencourt, mas sim se a francesa média possui o suficiente para se alimentar. À época em que se passa a história de "Les Misérables", ela não tinha. Nos últimos 40 anos, estima o Banco Mundial, a proporção da população mundial vivendo com apavorantes US$ 1 ou US$ 2 por dia caiu 50%. 

Paul Collier, economista da Universidade de Oxford, nos exorta a ajudar aquele "1 bilhão de pessoas mais pobres do mundo" entre as mais de 7 bilhões de pessoas que habitam a terra. Claro, esse é nosso dever moral. Mas ele também observa que, 50 anos atrás, de cinco bilhões de pessoas, quatro bilhões (80%) viviam em condições miseráveis. Em 1800, eram 95% de um bilhão.

Podemos melhorar as condições da classe operária. Aumentar a produtividade — o que permite aumentos salariais — por meio de engenhos possibilitados pela criatividade humana é o que sempre funcionou. Em contraste, tomar dos ricos para dar aos pobres é um truque que fornece alívio apenas momentâneo. Por definição, a expropriação é sempre um truque efêmero, sem qualquer efeito benéfico de longo prazo. Já o enriquecimento trazido por aprimoramentos testados e aprovados pelo mercado é algo perene e que pode se perpetuar por séculos. Mais ainda: é o que trará ainda mais conforto em termos de acesso a itens básicos e essenciais a praticamente qualquer pessoa do planeta. 

As causas deste Grande Enriquecimento

Mas o que então gerou este grande enriquecimento iniciado ainda na Holanda do século XVII?

Em termos simplificados, houve uma mudança radical na mentalidade das pessoas. Houve uma mudança na atitude das pessoas em relação ao empreendedorismo, ao sucesso empresarial e à riqueza em geral

Antes de os holandeses, por volta de 1600, ou de os ingleses, por volta de 1700, mudarem o seu modo de pensar, havia honra em apenas duas opções: ser soldado ou ser sacerdote. A honra estava apenas em estar ou no castelo ou na igreja. As pessoas que meramente compravam e revendiam coisas para sobreviver, ou mesmo as que inovavam, eram desprezadas e escarnecidas como trapaceiras pecaminosas.

Um carcereiro, no ano de 1200, rejeitou apelos de misericórdia de um homem rico: "Ora, Mestre Arnaud Teisseire, o senhor chafurdava na opulência! Como poderia não ser um pecador?"

E então algo mudou. Primeiro na Holanda, quando a população se revoltou contra o controle espanhol do país. Depois na Inglaterra, com sua revolução, a qual é considerada a primeira revolução burguesa da história. As revoluções e reformas da Europa, de 1517 a 1789, deram voz a pessoas comuns fora das hierarquias de bispos e aristocratas. As pessoas passaram a admirar empreendedores como Benjamin Franklin, Andrew Carnegie e, atualmente, Bill Gates. A classe média, a burguesia, passou a ser vista como boa e ganhou a autorização para enriquecer.

De certa forma, as pessoas assinaram o 'Tratado da Burguesia', o qual se tornou uma característica dos lugares que hoje são ricos, como a Inglaterra, a Suécia ou Hong Kong: "Deixe-me inovar e ganhar dinheiro no curto prazo como resultado dessa inovação, e eu o tornarei rico no longo prazo".

E foi isso que aconteceu. Começou no século XVIII com o pára-raios de Franklin e a máquina a vapor de James Watt. Isso foi expandido, nos anos 1820 (século XIX), para uma nova invenção: as ferrovias com locomotivas a vapor. E então vieram as estradas macadamizadas, assim chamadas em homenagem ao engenheiro escocês John Loudon McAdam. Depois surgiram as ceifadeiras, criadas por Cyrus McCormick, e as siderúrgicas, criadas por Andrew Carnegie. Ambos eram escoceses que viviam nos EUA. 

Tudo se intensificaria ainda mais no restante do século XIX e aceleraria fortemente no início do século XX. Consequentemente, o Ocidente, que durante séculos havia ficado atrás da China e da civilização islâmica, se tornou incrivelmente inovador. As pessoas simplesmente passaram a ver com bons olhos a economia de mercado e a destruição criativa gerada por suas lucrativas e rápidas inovações.

Deu-se dignidade e liberdade à classe média pela primeira vez na história da humanidade e esse foi o resultado: o motor a vapor, o tear têxtil automático, a linha de montagem, a orquestra sinfônica, a ferrovia, a empresa, o abolicionismo, a imprensa a vapor, o papel barato, a alfabetização universal, o aço barato, a placa de vidro barata, a universidade moderna, o jornal moderno, a água limpa, o concreto armado, os direitos das mulheres, a luz elétrica, o elevador, o automóvel, o petróleo, as férias, o plástico, meio milhão de novos livros em inglês por ano, o milho híbrido, a penicilina, o avião, o ar urbano limpo, direitos civis, o transplante cardíaco e o computador.

O resultado foi que, pela primeira vez na história, as pessoas comuns e, especialmente os mais pobres, tiveram sua vida melhorada.

Será que o mundo enriqueceu, como diz a esquerda, por meio da exploração de escravos ou de trabalhadores? Ou por meio do imperialismo? Não. Os números são grandes demais para ser explicados por um roubo de soma zero.

Não foi a exploração dos pobres, nem investimentos, nem instituições já existentes. O que causou o Grande Enriquecimento foi uma mera mudança de mentalidade, uma mera mudança de atitude. Ou, para simplificar, uma mera ideia, a qual o filósofo e economista Adam Smith rotulou de "o plano liberal para a igualdade, a liberdade e a justiça". Em uma palavra, foi o liberalismo. Dê às massas de pessoas comuns igualdade perante a lei e igualdade de dignidade social, e então deixe-as em paz. Faça isso e elas se tornam extraordinariamente criativas e energéticas.

A ideia liberal foi gerada por uma feliz coincidência de acontecimentos no noroeste europeu de 1517 a 1789: a Reforma, a Revolta Holandesa, as revoluções na Inglaterra e na França, e a proliferação da leitura. Estes acontecimentos, conjuntamente, libertaram as pessoas comuns, dentre elas a burguesia e sua livre iniciativa. 

Em termos sucintos, o Tratado da Burguesia é este: primeiramente, deixe-me tentar este ou aquele aprimoramento. Ficarei com os lucros, muito obrigado. Porém, em um segundo ato, estes lucros servirão de chamariz para aqueles importunos concorrentes, os quais irão também entrar no mercado, aumentar a oferta de bens e serviços, pegar parte da minha clientela e, consequentemente, erodir esses meus lucros (como a Uber fez com a indústria de táxi). Já no terceiro ato, após todos os aprimoramentos e melhorias que criei terem se espalhado, eles farão com que você melhore de vida substantivamente e fique rico.

E foi isso o que ocorreu.

Você pode discordar e dizer que idéias são coisas corriqueiras e nada especiais, sendo que, para torná-las realidade, é necessário termos um capital físico e humano adequado, bem como boas instituições. Esta é uma ideia muito popular, principalmente à direita, mas é errada. Sim, é necessário ter capital e instituições para implantar e incorporar as idéias. Mas capital e instituições são causas intermediárias e dependentes, e não a raiz.

A causa básica do enriquecimento foi, e ainda é, a ideia liberal, a qual originou a universidade, a ferrovia, as edificações, a internet e, mais importante de tudo, nossas liberdades. A acumulação de capital é extremamente importante, mas não é a causa precípua do enriquecimento. Qual foi a acumulação de capital que inflamou as mentes de William Lloyd Garrison e Sojourner Truth

Desde Karl Marx, a humanidade criou o hábito de buscar explicações materiais para o progresso humano. Depender exclusivamente do materialismo para explicar o mundo moderno — seja o materialismo histórico da esquerda ou o economicismo da direita — é um erro. Idéias sobre a dignidade humana e a liberdade foram as grandes responsáveis. O mundo moderno surgiu quando se começou a tratar as pessoas com mais respeito, concedendo a elas mais liberdade.

Mudanças econômicas em todo e qualquer período da história dependem — muito mais do que os economistas acreditam — da mentalidade das pessoas. Dependem daquilo em que elas acreditam. Foram idéias e mudanças de atitude o que geraram o nosso enriquecimento.

É claro que nem todas as idéias são doces. Fascismo, racismo, eugenia e nacionalismo são idéias que, recentemente, estão adquirindo um alarmante índice de popularidade. Mas idéias práticas e agradáveis a respeito de tecnologias lucrativas e de instituições libertadoras, bem como a ideia liberal que permitiu que pessoas comuns, pela primeira vez na história, tivessem liberdade para empreender e enriquecer, geraram o Grande Enriquecimento. Por isso é importante inspirar, estimular e encorajar as massas. As elites não precisam desse empurrão, pois já são plenamente inspiradas. Igualdade perante a lei e igualdade de dignidade ainda são a raiz do desenvolvimento econômico e espiritual.

Por fim, a grande ameaça à nossa prosperidade não são as recessões econômicas temporárias, mas sim a adoção de atitudes contrárias ao lucro e ao progresso. Quando o ato de empreender e ganhar dinheiro passa a ser demonizado, e quando a inovação é obstaculizada, perdemos aquilo que Adam Smith rotulou de "o óbvio e simples sistema da liberdade natural". Aceitar e respeitar o capitalismo é uma ideia que funcionou muito bem para as pessoas ao longo dos dois últimos séculos. Sugiro que a aceitação e o respeito devem continuar.

sexta-feira, abril 08, 2016

Com a Venezuela falida e sem energia, Maduro transforma todas as sextas-feiras em feriado






Por Marcelo Faria -07/04/2016










Com a Venezuela falida graças ao socialismo e sem energia graças à falta de investimentos no setor de geração de energia, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, decretou que todas as sextas-feiras dos próximos dois meses serão feriado, numa tentativa desesperada de poupar energia no país, o qual tem sofrido blecautes constantes mesmo tendo a maior reserva de petróleo do mundo. 

Críticos da medida apontam que a nova semana de quatro dias úteis tornará ainda pior a recessão econômica, escassez de alimentos e remédios e a inflação de 270% ao ano. A medida acontece logo depois de Maduro ter decretado a semana de Páscoa inteira como feriado e ter ordenado que os shopping centers gerem sua própria energia. 






As noticias:


DALLAS - No Texas, as fazendas eólicas estão gerando tanta energia que algumas estão dando eletricidade. A professora primária Briana Lamb espera até seu relógio marcar 21h para ligar as máquinas de lavar louça e roupas. Ele não paga nada por isso até as 6h. Kayleen Willard, que trabalha com cosméticos, tira seus aparelhos da tomada quando vai trabalhar de manhã. Às 21h, liga tudo de novo. Já herri Burks, gerente de um escritório de advocacia, mantém um marcador amarelo no termostato da casa com a seguinte informação: “Depois das 21h, não importa o que você fará. Você pode fazer uma festa após as 21h”.


Essas três mulheres são apenas três dos milhares de clientes da TXU Energy que são a vanguarda de uma tentativa ousada de mudar a forma como as pessoas consumem eletricidade. O plano da TXU de energia de graça durante a noite, que é contrabalançada com tarifas mais caras durante o dia, é uma das dezenas de ofertas feitas por mais de 50 empresas de energia no Texas nos últimos três anos e que têm um objetivo simples: fazer com que os clientes gastem menos quando o preço no varejo é mais alto e usem seus aparelhos quando o custo é menor.






Isso é possível porque o Texas tem mais energia eólica do que qualquer outro estado americano, que responde por quase 10% da eletricidade gerada no estado. Só o Texas, em todo os Estados Unidos, gere toda a sua eletricidade e mal conecta sua rede ao restante do país, de modo que o excesso de energia gerada pelos ventos tem que ser consumido no estado. 


Os ventos sopram com mais força à noite e a energia que geram não tem custo devido à sua abundância e subsídios fiscais federais. Uma mudança no uso energético, se afastando do horário de pico, significa menores preços no varejo e a possibilidade de evitar a construção de mais usinas de alto custo. 


— É uma relação ganha-ganha para a empresa e o cliente — disse Omar Siddiqui, diretor de eficiência energética do Electric Power Research Institute, um grupo industrial sem fins lucrativos. 
REDUÇÃO DE CUSTOS 
Para as usinas eólicas, dar energia não é uma ação altruísta. A desregulamentação no Texas tem estimulado intensa concorrência na disputa por clientes. Ao incentivar o uso de energia durante a noite, as empresas reduzem alguns dos encargos e custos gerados pelo excesso de oferta eólica na rede elétrica. 


Experiências similares estão em testes em outros lugares. Na Itália, clientes da Enel podem receber prêmios se gastarem menos energia do que um determinado patamar nas horas de maior demanda. 


Em Maryland, a Baltimore Gas & Electric permite que seus clientes ganhem crédito em suas faturas por cada quilowatt-hora economizado nos horários de pico. O programa é dirigido pela Opower, que gere programas semelhantes para outras empresas. 


Em Worcester, em Massachusetts, a National Grid instalou sistemas de gerenciamento doméstico de energia da Ceiva Energy em cerca de 11 mil lares, conectando aparelhos como tomada inteligente, termostatos de última geração e molduras digitais que mostram o uso de energia da casa junto com as fotos. 


Mas nenhum mercado foi tão longe quanto o do Texas, que conduz um amplo experimento energético que tornou possível a distribuição quase universal nos últimos anos de leitores residenciais inteligentes capazes de receber e transmitir informações sobre eletricidade.


— O Texas tem os ombros e a cabeça de vantagem sobre qualquer um com ofertas realmente úncias para o consumidor — disse Soner Kanlier, especialista em varejo energético da DNV GL, uma consultoria de Oslo, na Noruega.

O Texas é um mercado energético único, o que permite inovar mais do que outros. De longe, é o mais desregulado do país, com muitos concorrentes no varejo famintos por conseguir novos consumidores e para manter os antigos.

— Você pode ser verde e agir de forma verde — disse Scott Burns, diretor sênior de inovação da Reliant Energy, que tem planos para oferecer incentivos para elevar o uso da eletricidade à noite e nos fins de semana.

Especialistas em energia dizem que os medidores inteligentes ainda não atingiram todo o seu potencial e que fizeram pouca diferença no uso energético total. Em muitos casos, as empresas detêm monopólios e tarifas fixas e não querem que os consumidores sejam cooptados por fontes de energia renováveis, por isso dão pouco incentivo ao uso de novas fontes de energia de forma criativa, dizem especialistas. O que o Texas tenta fazer é uma exceção, embora os analistas digam que ainda não é possível avaliar o impacto dessa experiência.

— Os consumidores americanos querem ter opções — disse Jim Burke, diretor-presidente da TXU. — A escolha do consumidor, com seus impactos e benefícios, vai levar ao futuro da indústria de energia. Mas o ritmo em que isso vai acontecer ainda é desconhecido.E executivos falam abertamente que o alcance de seus planos residenciais de eletricidade é uma ferramente de marketing.

— Todos nós estamos tentando crescer e é um mercado muito competitivo — disse Manu Asthana, presidente da divisão residencial da Direct Energy, que oferece ao consumidor vários planos diferentes.

Propagandas na TV, no rádio, nas estradas e nas mídias sociais prometem lazer, refrigeração e gastronomia de graça algumas horas do dia.