quinta-feira, agosto 16, 2018

Noivas Crianças na Turquia





H., 15 (direita), e sua irmã de 13 anos dividem um momento em sua casa em Kayseri.
Elas são originalmente de Alepo e viviam em um campo de refugiados na
fronteira com a Síria Foto de 
 Özge Sebzeci

por Burak Bekdil(*).


Onde você gostaria que sua filha estivesse aos 13 anos de idade? Na escola ou na cama com um adulto? A resposta a uma pergunta dessa natureza é o óbvio ululante em grande parte do mundo. Nas sociedades islâmicas, no entanto, como na Turquia, que não é árabe e teoricamente secular, a resposta é um tiro no escuro. Normalmente nesses países o poder da polícia do governo não combate essa tradição patriarcal, muito pelo contrário, ela a apoia.



O ex-presidente da Turquia,Abdullah Gül ex-aliado e cofundador islamista do homem forte Recep Tayyip Erdoğan, do partido que governa a Turquia desde 2002, tinha 30 anos quando se casou com Hayrünnisa que na época tinha 15 anos. Gül, nomeado para a presidência por Erdoğan foi o primeiro presidente islamista da Turquia.

Presidente da Turquia de 2007 a 2014, Abdullah Gül (à esquerda), tinha 30 anos quando
se casou com Hayrünnisa (à direita) que na época tinha 15 anos de idade.
(Foto: da assessoria de imprensa da OTAN via Getty Images)



Os turcos conservadores, em vez de questionarem o casamento de Gül com uma criança, aplaudiram sua ascensão à presidência. O autor desse artigo foi advertido ao pé do ouvido de maneira nada educada, inúmeras vezes, por políticos do alto escalão a não levantar a lebre em sua coluna em qualquer outra publicação.

➤    40% das meninas com menos de 18 anos na Turquia são forçadas a se casarem.



De acordo com o Fundo Turco de Filantropia (TPF), 40% das meninas com menos de 18 anos na Turquia são forçadas a se casarem. A TPF concluiu que a média nacional de evasão escolar no ensino médio do sexo feminino é de 56%. O Fundo também constatou que o casamento precoce acontece em maior número em famílias de baixa escolaridade . "Baixa escolaridade" abrange quase toda a Turquia: a escolaridade média no país é de apenas 6,5 anos. Em 45 províncias turcas a taxa de escolaridade está abaixo da média nacional.



O governo islamista no país, outrora secular, contribuiu para aumentar o problema das noivas crianças em vez de combatê-lo. Em novembro de 2017, o presidente Erdoğan assinou a "lei mufti", que permite aos clérigos aprovados pelo Estado (ou simplesmente imãs) conduzirem cerimônias de casamento, apesar da apreensão da sociedade civil de que a medida terá um impacto no casamento infantil.

➤    Meninas a partir dos 9 anos de idade e meninos a partir dos 12 podem se casar.
Em janeiro de 2018, o Conselho Administrativo para Assuntos Religiosos (Diyanet), órgão do governo sob jurisdição de Erdoğan, sugeriu que, de acordo com a lei islâmica, meninas a partir dos 9 anos de idade e meninos a partir dos 12 podem se casar. Diyanet é responsável pela administração das instituições religiosas na Turquia. Seu Website reafirma que, de acordo com a lei islâmica, quem tiver atingido a idade da "adolescência" tem o direito de se casar. Esta "fatwa" (decisão jurídica baseada na lei islâmica) levou o principal partido de oposição do país, um grupo secular, a pedir uma investigação nos casamentos de crianças.



A chegada de cerca de três milhões de refugiados sírios à Turquia desde o início da guerra civil no país vizinho piorou ainda mais as coisas. A título exemplificativo, um assistente social do Hospital de Treinamento e Pesquisa Kanuni Sultan Süleyman do distrito de Küçükçekmece em Istambul revelou que o hospital tratou de 115 meninas grávidas menores de idade, entre as quais se encontravam 39 sírias, entre 1º de janeiro e 9 de maio de 2017. O assistente social queixou-se aos promotores que o hospital procura acobertar as gravidezes e não notificar às autoridades, conforme o requisito legal para o tratamento de todas as meninas grávidas com menos de 18 anos na Turquia. Exemplos dessa natureza são apenas a "ponta do iceberg"de acordo com Canan Güllü, chefe da Federação das Associações de Mulheres Turcas.

Um caso recente de abuso infantil relacionado a refugiados sírios é motivo de mal estar, não apenas para a cultura política turca que nutriu o mal, como também para o judiciário turco:



Fatma C., uma criança refugiada síria chegou a Ankara, capital da Turquia, com a família há quatro anos. Em 2017, de acordo com uma acusação, ela foi forçada a se casar com um parente de nome Abdulkerim J aos 13 anos de idade. Não foi um casamento civil mas religioso (legal à luz do Islã se conduzido por um imã). Fatma C. engravidou e foi levada para um centro de saúde local onde os responsáveis pelo centro informaram às autoridades competentes por ela ter menos de 18 anos.



Os promotores decidiram que o marido da menina e a mãe dela, Emani B., deveriam ser julgados por forçarem uma menina menor de idade a se casar. De modo que houve um julgamento. Mas um tribunal em Ancara decidiu na primeira audiência pela absolvição. Os réus afirmaram que não conheciam a lei turca sobre o casamento e que a menina havia se casado "de acordo com a lei síria". Um promotor público turco extraordinariamente tolerante decidiu que o "casamento não ocorreu com a intenção de infringir a lei".



"É regra universal que não conhecer a lei não é desculpa quando ela é infringida", salientou Ceren Kalay Eken, advogada da Ordem dos Advogados de Ancara. "O lugar adequado para uma menina de 13 anos é na sala de aula, não cuidando do berço."



É impressionante o quão complacente e tolerante a Segurança Pública pode ser quando os criminosos agem motivados pelas rígidas tradições e valores islâmicos. Na mesma hora em que os abusadores da noiva criança foram liberados na primeira audiência, outro tribunal em Ancara prendeu quatro estudantes universitários por exibirem um cartaz na cerimônia de formatura considerado pelo tribunal ofensivo ao presidente Erdoğan. Na Turquia não dá em nada abusar de uma menina de 13 anos de idade, mas mexer com o presidente são outros quinhentos.



Fonte - pt.gatestoneinstitute.org


(*)Burak Bekdil, um dos principais jornalistas da Turquia, foi recentemente demitido do jornal mais importante depois país após 29 anos de trabalho, por ter escrito para o Gatestone Institute sobre o que está acontecendo na Turquia. Ele também é Fellow do Middle East Forum.
Original em inglês: Child Brides in Turkey
Tradução: Joseph Skilnik

sábado, agosto 11, 2018

O racismo de Che Guevara




A melhor foto de Ernesto Guevara

por Nação Mestiça.

Em 1952, em comentários sobre a Venezuela que não aparecem no roteiro do “Diários de Motocicleta” sobre um tour realizado pelo neto de um dos homens mais ricos da América Latina, Che Guevara afirma:


“Os negros, os mesmos magníficos exemplares da raça africana que mantiveram sua pureza racial graças ao pouco apego que têm ao banho, viram seu território invadido por um novo tipo de escravo: o português. (…) O desprezo e a pobreza os unem na luta cotidiana, mas o modo diferente de encarar a vida os separa completamente; o negro indolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão, ao passo que o europeu tem uma tradição de trabalho e de economia que o persegue até estas paragens da América e o leva a progredir”.**

Mas isto não significava que o Che Guevara tivesse sempre tempo e dinheiro de sobra para ficar passeando de motoca pelo continente; às vezes também tinha tempo e dinheiro de sobra para passear de navio. Também não significava que Che Guevara rejeitasse relações inter-raciais, especialmente com uma adolescente que o acompanhou pelo mar do Caribe até a Costa Rica, em 1953:


“Fiquei do lado de fora com Socorro, uma negrita [neguinha] que eu tinha arranjado, com 16 anos no lombo e mais puta do que uma galinha.”***

Fulgêncio Batista, o presidente de Cuba deposto pelo golpe de Fidel Castro, era mulato, o que não era bem visto por alguns. Numa entrevista radiofônica concedida em Havana, Che Guevara forneceu uma boa pista do que os negros e mulatos cubanos deveriam esperar do seu futuro na ilha. Um proeminente empresário cubano chamado Luis Pons, que por acaso era afrodescendente, perguntou a Che Guevara quais eram os planos da revolução para a população de cor, recebendo a resposta do guerrilheiro:


“Nós faremos por negros exatamente o que eles fizeram pela revolução – pelo que eu quero dizer: nada.”****

Pedro Corzo no documentário “Anatomia de um mito” entrevistou Miguel Sanchez, “El Coreano”, um dos que treinou a força expedicionária de Fidel Castro do Granma no México, em 1956.



Sem meias palavras, Miguel Sanchez refere que teve que se impor diante da arrogância de Che Guevara e afirma que:
“Che adorava diminuir um guerrilheiro cubano chamado Juan Almeida Bosque, que era negro. Ele sempre se referia a ele como ‘el negrito’. Almeida ficava possesso com Che, de modo que finalmente lhe disse: ‘Olha, Juan, quando Che te chamar de el negrito, chama-o de el chancho (o porco), porque o cara nunca toma banho’. Isto funcionou durante algum tempo, mas Che logo encontrou outras vítimas para seu racismo inato, desprezando todos ‘esses mexicanos, índios e iletrados’”.
No documentário também é revelado que o próprio apelido “Che” teria sido uma resposta ao “Dr. Ernesto” por falar mal do sotaque mexicano.


Em fevereiro de 1963, após anos treinando tiro-alvo em pobres cubanos, Che Guevara decidiu formar um foco guerrilheiro para continuar seu treinamento na Argentina, seu país natal. Alberto Castellanos afirma que o chefe da escolta, Harry Villegas, apelidado o Pombo, não foi chamado porque era negro, e Che dissera a todos: “Aonde vamos não existem negros”. Castellanos contou que Guevara então lhe falou: “Está bem. Mas não vá se vestir de índio, porque você não é índio, e diga a Villegas que ele não pode ir com você porque é preto e para onde nós vamos não há pretos.”*****


Em 18 de Fevereiro de 1957 o guia camponês Eutimio Guerra, acusado de passar informações ao inimigo, é acusado pelos rebeldes e condenado a morte. Na hora da execução, seus companheiros não se decidiam se iriam mata-lo a tiros ou de outra forma, e é quando Che se adianta, saca sua pistola e dá um tiro na região da têmpora de Eutimio, descrevendo esse ato em seu diário: “… acabei com o problema dando-lhe na têmpora direita um tiro de pistola [calibre] 32 […] Ao revista-lo os pertences não conseguia tirar o relógio amarrado com uma corrente no cinto, então ele me disse com uma voz distante e sem tremer: ‘Arranque, menino, tudo…’ Isso foi o que fiz, e seus pertences passaram a meu poder.” Depois Che escreveu em seu Diário: “Executar um ser humano é algo feio, porém exemplar.
Em uma carta a seu pai referindo-se a essa execução escreve: “Tenho que te confessar, papai, que nesse momento descobri que realmente gosto de matar”.
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Com informações de O Verdadeiro Che Guevara, 26/12/2010. Atualizado em 10/05/2018.

* “Society is undergoing a silent revolution, which must be submitted to, and which takes no more notice of the human existences it breaks down than an earthquake regards the houses it subverts. The classes and the races, too weak to master the new conditions of life, must give way”, Karl Marx (“Forced Emigration,” New York Daily Tribune, March 22, 1853).

** Osa Mayor, Año 16, Numero 16. University of Pittsburgh. Department of Hispanic Languages and Literatures, Department of Hispanic L & L, University of Pittsburgh, 2004. p. 145.

*** Jon Lee Anderson. Che Guevara: A Revolutionary Life, 1997, p.114.

**** Humberto Fontova. Exposing the Real Che Guevara: And the Useful Idiots Who Idolize Him, 2007, cap. 12. 

***** Jon Lee Anderson. Che Guevara: A Revolutionary Life, 1997, p.114.

Fonte- Nação Mestiça

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sábado, agosto 04, 2018

Escravidão branca: quando os europeus eram escravos





➤    Quando os europeus eram escravos: a pesquisa sugere que a escravidão branca era muito mais comum do que se acreditava anteriormente

COLUMBUS, Ohio – Um novo estudo sugere que um milhão ou mais de cristãos europeus foram escravizados pelos muçulmanos no norte da África entre 1530 e 1780 – um número muito maior do que o estimado até então.

Em um novo livro, Robert Davis , professor de história na Universidade Estadual de Ohio , desenvolveu uma metodologia única para calcular o número de cristãos brancos que foram escravizados na Costa Bérbere, chegando a estimativas de população escrava muito maiores do que os estudos anteriores haviam encontrado.

A maioria dos outros relatos de escravidão ao longo da costa de Bérbere não tentou estimar o número de escravos, ou apenas olhou para o número de escravos em cidades específicas, disse Davis. A maioria das contagens de escravos estimadas anteriormente tendeu a ser em milhares, ou no máximo em dezenas de milhares. Davis, em contraste, calculou que entre 1 milhão e 1,25 milhão de cristãos europeus foram capturados e forçados a trabalhar no norte da África entre os séculos XVI e XVIII.

➤     As novas estimativas de Davis aparecem no livro Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos: Escravidão Branca no Mediterrâneo, Costa Barbaria e Itália, 1500-1800 (Palgrave Macmillan).

“Muito do que foi escrito dá a impressão de que não havia muitos escravos e minimiza o impacto que a escravidão teve na Europa”, disse Davis. “A maioria dos relatos só vê a escravidão em um lugar ou apenas por um curto período de tempo. Mas quando você tem uma visão mais ampla, o escopo massivo dessa escravidão e seu poderoso impacto tornam-se claros ”.

Davis disse que é útil comparar esta escravidão mediterrânea ao tráfico atlântico de escravos que trouxe africanos negros para as Américas. Ao longo de quatro séculos, o tráfico atlântico de escravos foi muito maior – cerca de 10 a 12 milhões de africanos negros foram trazidos para as Américas. Mas de 1500 a 1650, quando a escravidão transatlântica ainda estava em seu início, mais escravos cristãos brancos foram provavelmente levados para Bérbere do que escravos negros africanos para as Américas, de acordo com Davis.

“Uma das coisas que tanto o público quanto muitos estudiosos tendem a considerar é que a escravidão sempre foi racial por natureza – que apenas os negros eram escravos. Mas isso não é verdade ”, disse Davis. 

➤     “Não podemos pensar na escravidão como algo que apenas pessoas brancas faziam para os negros”.

Durante o período de tempo que Davis estudou, era religião e etnia, tanto quanto a raça, que determinavam quem se tornaria escravos.

“A escravização era uma possibilidade muito real para qualquer um que viajasse pelo Mediterrâneo, ou que vivesse ao longo das praias em lugares como Itália, França, Espanha e Portugal, e até mesmo no norte da Inglaterra e Islândia”, disse ele.



Piratas (chamados corsários) de cidades ao longo da costa de Bérbere, no norte da África – cidades como Túnis e Argel – invadiriam navios no Mediterrâneo e no Atlântico, bem como aldeias à beira-mar para capturar homens, mulheres e crianças. O impacto desses ataques foi devastador – a França, a Inglaterra e a Espanha perderam milhares de navios, e longos trechos das costas espanhola e italiana foram quase completamente abandonados por seus habitantes. No seu auge, a destruição e o despovoamento de algumas áreas provavelmente excediam o que os traficantes europeus mais tarde infligiriam no interior da África.

Embora centenas de milhares de escravos cristãos tenham sido levados de países mediterrâneos, observou Davis, os efeitos das incursões de escravos muçulmanos foram sentidos muito mais longe: parece, por exemplo, que durante a maior parte do século XVII os ingleses perderam pelo menos 400 marinheiros por ano aos escravagistas.

Até os americanos não estavam imunes. Por exemplo, um escravo americano relatou que 130 outros marinheiros americanos haviam sido escravizados pelos argelinos no Mediterrâneo e no Atlântico apenas entre 1785 e 1793.

Davis disse que o vasto escopo da escravidão no norte da África tem sido ignorado e minimizado, em grande parte porque não faz parte da agenda de ninguém discutir o que aconteceu.

A escravização dos europeus não se encaixa no tema geral da conquista do mundo europeu e do colonialismo que é central para a erudição no início da era moderna, disse ele. Muitos dos países que foram vítimas da escravidão, como a França e a Espanha, mais tarde conquistaram e colonizaram as áreas do norte da África, onde seus cidadãos já foram detidos como escravos. Talvez por causa dessa história, estudiosos ocidentais tenham pensado nos europeus primariamente como “colonizadores do mal” e não como vítimas às vezes, disse Davis.

Davis disse que outra razão pela qual a escravidão no Mediterrâneo foi ignorada ou minimizada é que não houve boas estimativas do número total de pessoas escravizadas. As pessoas da época – tanto os europeus quanto os proprietários de escravos da Costa da Barbária – não mantinham registros detalhados e confiáveis ​​do número de escravos. Em contraste, existem extensos registros que documentam o número de africanos trazidos para as Américas como escravos.

Então, Davis desenvolveu uma nova metodologia para chegar a estimativas razoáveis ​​do número de escravos ao longo da costa Bérbere. Davis encontrou os melhores registros disponíveis, indicando quantos escravos estavam em um determinado local em uma única vez. Ele então estimou quantos novos escravos seriam necessários para substituir os escravos quando eles morressem, escapassem ou fossem resgatados.

➤     “A única maneira de conseguir números concretos é inverter todo o problema – descobrir quantos escravos eles teriam que capturar para manter um certo nível”, disse ele. “Não é a melhor maneira de fazer estimativas populacionais, mas é o único caminho com os registros limitados disponíveis.”

Juntando essas fontes de atrito como mortes, fugas, resgates e conversões, Davis calculou que cerca de um quarto dos escravos tinha que ser substituído a cada ano para manter a população escrava estável, como aparentemente era entre 1580 e 1680. Isso significava 8.500 novos escravos tiveram que ser capturados a cada ano. No geral, isso sugere que quase um milhão de escravos teria sido capturado durante esse período. Usando a mesma metodologia, Davis estimou que até 475.000 escravos adicionais foram levados nos séculos anteriores e seguintes.

O resultado é que entre 1530 e 1780 havia quase certamente 1 milhão e possivelmente até 1,25 milhão de brancos, cristãos europeus escravizados pelos muçulmanos da Costa Bérbere.

Davis disse que sua pesquisa sobre o tratamento desses escravos sugere que, para a maioria deles, suas vidas eram tão difíceis quanto as dos escravos nos Estados Unidos.

➤     “No que diz respeito às condições diárias de vida, os escravos do Mediterrâneo certamente não o fizeram melhor”, disse ele.

Enquanto os escravos africanos faziam trabalho árduo nas plantações de açúcar e algodão nas Américas, os escravos cristãos europeus eram frequentemente trabalhados tão duramente quanto letalmente – em pedreiras, em construções pesadas e, acima de tudo, remando as galeras dos corsários.

Davis disse que suas descobertas sugerem que essa escravidão invisível dos cristãos europeus merece mais atenção dos estudiosos.

➤     “Perdemos a sensação de quão grande a escravização poderia pairar para aqueles que viviam em torno do Mediterrâneo e a ameaça que estavam sofrendo”, disse ele. “Os escravos ainda eram escravos, fossem eles brancos ou negros e sofriam na América ou no norte da África.”



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Entre em contato com Robert Davis, (614) 292-5324; Davis.711@osu.edu Escrito por Jeff Grabmeier, (614) 292-8457; Grabmeier.1@osu.edu

Fonte - http://logosapologetica.com


Tradução: Emerson de Oliveira

sexta-feira, agosto 03, 2018

Capitalismo Democrático




➤   "Nossa engrenagem econômica – de forte controle e ingerência estatal – é uma máquina de perpetuação da miséria coletiva"


Só a geração de riqueza é capaz de superar a pobreza social. O problema é que nossa engrenagem econômica – de forte controle e ingerência estatal – é uma máquina de perpetuação da miséria coletiva. Para pagar as insustentáveis contas públicas, é preciso asfixiar o ímpeto produtivo privado. E como o déficit fiscal não para de crescer, nossa capacidade de crescimento potencial é constantemente pressionada para baixo. É preciso, portanto, inverter a ordem da equação: reduzir o déficit e liberar a economia.

A questão é temos um sistema econômico fechado em favor de poderosos monopólios ou oligopólios setoriais. Aqui, a briga é de facão. Aliás, um Estado obeso precisa de grandes negócios para sustentá-lo. Ou seja, uma saudável concorrência entre pequenos negócios é incapaz de gerar uma arrecadação tributária substantiva. Mas é aí que está: o sistema econômico foi feito para beneficiar as pessoas e, não, o Estado. Logo, o estabelecimento de um ambiente concorrencial saudável é pressuposto necessário para liberar a capacidade de crescimento individual que, somada em suas múltiplas expressões, gera negócios, cria riqueza e possibilita a ascensão social ao trabalho honesto.

Em tempo, no plano macro, a festejada Operação Lava Jato não deixa de ser uma tentativa de inaugurarmos um novo e autêntico capitalismo no Brasil. Sem cortinas, a corrupção descontrolada explodiu o preço de determinados contratos públicos, tornando-os um negócio caro e arriscado. Mais uma vez, a liberdade negocial foi sequestrada por um ganancioso estatismo dirigista que, demagogicamente, dizia defender os pobres para promover a riqueza de políticos e empresários despidos de preceitos éticos. Foi socialismo retórico ao som de ilicitudes praticadas.

Ora, no crepúsculo da velha institucionalidade brasileira, ainda não temos uma alternativa hegemônica dominante. Num mar de dúvidas, o poder navega desorientado. A própria desorganização da política é uma consequência do surgir de novos e jovens players político-econômicos. A questão é que os novatos – além de inexperientes nos movediços jogos do poder – exigem regras mais claras, práticas mais limpas e instituições mais probas. Na verdade, busca-se uma nova dinâmica das relações de poder, novas lógicas de composição de interesses e, quem sabe, um novo começo para o Brasil.

Ao analisar os desafios contemporâneos da democracia institucional, a inteligência crítica de Ian Bremmer – em seu excelente “Us vs. Them: The Failure of Globalism” – bem pontua que o setor privado terá um papel crucial nos esforços para se reescrever o contrato social. Vivemos um tempo no qual empresas se tornaram economicamente mais relevantes que governos, tendo, portanto, uma inarredável responsabilidade política na construção de sociedades mais livres, justas e com oportunidades de prosperidade para todos.

É possível dizer que estamos inaugurando uma era de capitalismo democrático, um sistema de poder que, através do respeito à lei, privilegiará a capacidade criadora dos cidadãos e das empresas, elegendo a educação de nossas crianças, a garantia da segurança pública e o atendimento à saúde do povo como prioridades fundamentais. Para tanto, precisaremos reduzir os pesados e anacrônicos tentáculos de ingerência estatal, substituindo burocracias ineficientes pela agilidade de mecanismos de inteligência artificial que trabalham 24 horas por dia, sem hora extra, vale-alimentação nem adicional noturno.

Estamos diante de um mundo desconhecido. A fronteira tecnológica imporá radicais mudanças de concepções. Aqueles que realmente acreditam na democracia e na força criadora do capitalismo têm o dever de assumir a responsabilidade histórica de libertar o Brasil das pesadas amarras do atraso, proporcionando a nosso povo a efetiva possibilidade de uma vida melhor.


(*)Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr. é advogado especializado em direito do estado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Certificado pelo Programa de Negociação de Harvard para Senior Executives. Membro Diretor da Federasul/RS. Escreve sobre questões contemporâneas, envolvendo temas políticos, econômicos e constitucionais.

Fonte - www.institutomillenium.org.br

segunda-feira, julho 23, 2018

A Inexorável Radicalização da Suécia






por Judith Bergman(*).


Um novo estudo [1] sobre o salafismo na Suécia, conduzido pela Universidade de Defesa da Suécia, pinta uma imagem sombria da radicalização dos muçulmanos em curso na Suécia.

Os salafistas são os "antepassados devotos" das primeiras três gerações de seguidores de Maomé, sua ideologia chegou a ser associada nas últimas décadas à al-Qaeda e ao ISIS, bem como aos grupos locais ligados à al-Qaeda. Segundo o estudo, os salafistas que acreditam no Islã praticado pelos primeiros seguidores de Maomé, tendem a rejeitar a sociedade ocidental em favor de um Islã "puro": "nem todos os salafistas são jihadistas, mas todos os jihadistas são salafistas". [2]

Embora o estudo não forneça uma estimativa sobre quantos salafistas se encontram na Suécia, ele mostra como os meios salafistas evoluíram e se fortaleceram, principalmente na última década, o estudo lista vários casos da influência que eles exercem em diversas cidades e localidades suecas.

Os "salafistas", concluem os autores do estudo, "defendem a segregação de gênero, exigem que as mulheres usem os véus islâmicos para limitar a 'tentação sexual', restringem o papel das mulheres na esfera pública e se opõem categoricamente a ouvir música e a determinadas atividades esportivas".[3].

De acordo com o estudo, muitos salafistas também instruem os muçulmanos a não fazerem amizade com os suecos, referindo-se a eles como "kufr", termo árabe usado para identificar um não muçulmano ou "infiel". O pregador salafista Anas Khalifa salientou:

"isso significa que se você se deparar com um cristão ou um judeu você deve espancá-lo ou ameaçá-lo? Não. Não há uma guerra entre você e cristãos e judeus na sua escola por exemplo. Você o odeia em nome de Alá. Você sente ódio porque ele não acredita em Alá. Você quer do fundo d'alma que ele ame Alá. De modo que é necessário trabalhar com eles, conversar com eles, porque você quer que Alá os guie". [4]

Ao que tudo indica, os salafistas dividiram a Suécia entre eles, geograficamente. Segundo o estudo:

"chama a atenção que os pregadores salafistas, objeto do estudo, parecem cooperar uns com os outros em vez de serem rivais. Na realidade esses pregadores dividem sua da'wa (missão) em diferentes áreas geográficas"[5].

➤    Alguns dos insights do estudo de várias cidades onde os salafistas são atuantes:

Em Borås, crianças não bebem a água da escola ou pintam com aquarelas porque elas dizem que a água é "cristã". A polícia informou que crianças muçulmanas disseram a seus colegas de classe que irão cortar suas gargantas e mostram decapitações em seus celulares. Há casos de "adolescentes que chegam às mesquitas no final de um dia na escola para se 'lavarem' depois de terem interagido com a sociedade não muçulmana". Funcionários da saúde (assistência médica, assistência à infância, etc.) na cidade testemunharam como os homens exercem o controle sobre as mulheres, vistoriando-as mesmo nas salas de espera[6]. Um funcionário da saúde ressaltou:
"percebi que há uma rede que controla as mulheres para que elas não fiquem sozinhas com os funcionários da saúde. Elas não têm condições de dizer a ninguém sobre o que acontece com elas. Muitas mulheres vivem numa situação pior do que viviam em seus países de origem".
Esse tipo de controle das mulheres aparenta ocorrer em praticamente todas as cidades suecas mencionadas no estudo.

Em Västerås a influência religiosa se entrelaça com o crime.

"Poderia ser um bando entrando em uma mercearia. Se a mulher do caixa não estiver usando véu, eles pegam o que quiserem sem pagar, chamam a mulher do caixa de 'prostituta sueca' e cospem nela", disse um policial, segundo o estudo. 

Em outros episódios, sírios e curdos que gerenciam lojas e restaurantes na região são questionados por jovens muçulmanos sobre a religião. Se a resposta não for o Islã, são molestados. Em outros casos, meninos de 10 a 12 anos se aproximam de mulheres mais velhas, perguntando se são muçulmanas, dizendo "este é o nosso pedaço".[7]

Em Gotemburgo, de acordo com o estudo,[8] salafistas disseram aos muçulmanos para não votarem nas últimas eleições porque é "haram" (proibido).

"Eles disseram: no dia do julgamento vocês serão responsáveis por tudo que os políticos estúpidos em que vocês votaram fizerem. Eles estavam a postos em frente às seções eleitorais... Em uma seção eleitoral eles balançaram a bandeira do Estado Islâmico", disse um funcionário local aos autores do estudo. Segundo um imã da cidade, Gotemburgo tem sido a capital do wahhabismo (uma versão saudita do salafismo) na Europa desde os anos 90.[9]

Dos 300 muçulmanos suecos que se juntaram ao ISIS na Síria e no Iraque, praticamente um terço veio de Gotemburgo.[10] (Em relação à população do país, um número maior de pessoas foram da Suécia para se juntar a grupos jihadistas na Síria e no Iraque do que da maioria dos países europeus, a proporção somente é mais alta de indivíduos provenientes da Bélgica e da Áustria [11]). O pregador somali-canadense Said Regeah, ao discursar na Mesquita Salafista Bellevue, em Gotemburgo, "chamou a atenção para a importância das pessoas nascerem 'puras' e que somente os muçulmanos são puros. Todos nascem muçulmanos, mas são os pais que os moldam para que se tornem judeus, cristãos ou zoroastristas".[12]

O estudo também faz menção que proprietários, não muçulmanos, de empresas tiveram seus estabelecimentos vandalizados com pichações a favor do Estado Islâmico e que padres foram alvo de ameaças de decapitação.[13]. Samir disse o seguinte: "se vocês não seguirem o Islã estarão condenados ao ostracismo. Há pais aqui que cobrem seus filhos de três anos de idade com véus. É coisa do outro mundo. Nós não estamos no Iraque".[14]

A outro sujeito de nome Anwar foi negado emprego em um restaurante muçulmano porque ele não era religioso. Ele ressalta que a sociedade está deixando os muçulmanos seculares de lado: "eu não necessito de uma Bíblia ou um de Alcorão na minha vida. O único livro que eu preciso é... a lei (sueca). Mas se a sociedade sequer está ao meu lado, fazer o quê?"[15]

O estudo calcula que na região de Estocolmo o número de jihadistas salafistas pode chegar a 150[16]. Os salafistas estão em sua maioria concentrados na região de Järva, uma das "zonas proibidas" de Estocolmo. Vira e mexe jihadistas e criminosos se sobrepõem, esses muçulmanos aterrorizam quem reside naquela região. Uma mulher ressaltou que os salafistas e os islamistas passaram a dominar empresas, mesquitas instaladas em subsolos e associações culturais nos últimos dez anos e que "os suecos não têm ideia do tamanho da influência do Islã político nos subúrbios". Ela elucidou a maneira com que até as crianças são segregadas por gênero e que os líderes religiosos instruem as mulheres a não denunciarem às autoridades caso o marido abuse delas. "As leis suecas não são cumpridas nos subúrbios".[17]

O estudo conclui com uma crítica às autoridades suecas por sua aparente incapacidade de ligar casos individuais de muçulmanos radicais aos "ambientes que moldam sua maneira de pensar e, em certos casos, facilitam o ímpeto de se juntarem a grupos mais radicais e violentos". O estudo menciona, a título de exemplo, o seguinte:
"quando o então Coordenador Nacional Contra o Extremismo Violento realçou que a razão pela qual tanta gente sai da Suécia para se juntar ao Estado Islâmico é 'um enorme ponto de interrogação', ilustra a incapacidade das autoridades suecas (com exceção da polícia e polícia de segurança) de enxergarem que esse problema não apareceu do nada".[18]
Essa incapacidade ou quem sabe cegueira deliberada de enxergar que o terrorismo jihadista não aparece do nada e sim é alimentado em determinados ambientes, não é de maneira alguma uma conjuntura exclusivamente sueca. A insistência de tantas autoridades europeias e ocidentais de caracterizarem os ataques terroristas como casos de "doenças mentais" ilustra categoricamente o problema.

Os autores do estudo também mencionam que as escolas e autoridades locais não sabem como lidar com os desafios criados pelos salafistas. O estudo cita, a título de exemplo, que uma aluna muçulmana queria tirar o véu para brincar de cabeleireira com as outras crianças, mas os funcionários suecos não permitiram por respeito aos desejos dos pais. Em outro caso em uma pré-escola sueca, uma menininha não queria usar o véu, mas os funcionários suecos forçaram-na a usá-lo, "ainda que parecesse errado", porque esse era o desejo dos pais. Os funcionários da escola sueca também disseram que não sabem como agir quando as crianças querem comer e beber durante o Ramadã, visto que os pais as instruíram que elas devem jejuar.[19]

O estudo é um passo importante, primeiro do gênero na Suécia, que finalmente reconhece que há um problema, mas a menos que as autoridades competentes, como o governo sueco e os líderes políticos, que se recusam a reconhecer a realidade sueca, o leiam e o internalizem, o estudo terá sido feito em vão.

(*)Judith Bergman é colunista, advogada e analista política.
Fonte - pt.gatestoneinstitute.org
Original em inglês: The Relentless Radicalization of Sweden
Tradução: Joseph Skilnik



[1] "Entre Salafismo e Jihadismo Salafista - Impacto e Desafios da Sociedade Sueca", publicado em 28 de junho. O estudo foi encomendado pela Agência de Contingências Civis da Suécia.
[2] Entre Salafismo e Jihadismo Salafista - Impacto e Desafios da Sociedade Sueca, p 14.
[3] ib., p 24
[4] ib., p 132
[5] ib., p 223
[6] Borås está descrito nas pp 162 ff do estudo.
[7] Västerås está descrito nas pp 168 ff.
[8] ib., p 186
[9] ib., p 182
[10] ib., p 103
[11] ib., p 107
[12] ib., p 131
[13] ib., p 186
[14] ib., p 187
[15] ib., p 187
[16] ib., p 210
[17] ib., p 213
[18] ib., p 109
[19] ib., p 194

quinta-feira, julho 19, 2018

O reino das Fake News









por Norival Silva Júnior (*)


Uma lei que pretenda proibir notícias falsas está inevitavelmente vocacionada a ser utilizada como fundamento para censura e violação de direitos.

“Não há nada que tanto nos atire aos perigos 
quanto a fome inconsiderada de deles escapar.”
Michel de Montaigne

Quem subestima a intensidade das transformações provocadas nas relações humanas pelo avanço tecnológico é convidado a acompanhar a mais recente celeuma nos ambientes digitais. Em qualquer plataforma aberta à expressão do pensamento, o tema do momento, a poucas semanas de eleições gerais, é o combate às fake news. De alguma forma as redes sociais teriam criado esse monstruoso fenômeno que ameaçaria a equivocada ilusão de uma democracia sólida e à prova de manipulação. Não que o assunto não seja sério; é muito importante que se discuta a disseminação de mentiras num ambiente pouco controlado e massificado como a Internet. A questão é que acreditar na possibilidade de resolver definitivamente o problema é trabalhar no sentido de atingir, ainda que involuntariamente, conquistas que custaram à sociedade contemporânea um alto preço.

Para que possamos ter uma discussão séria a respeito da questão, importa primeiramente resgatar os cruzados do combate às fake news de seus devaneios imperativos e de volta à realidade. A opinião pública sempre esteve sujeita não apenas a opiniões equivocadas e desprovidas de sentido, mas, sobretudo, a muita mentira friamente construída e sordidamente vendida como fato, inclusive por autoridades e agências de notícias. A história está repleta de exemplos a ilustrar a hipótese, para quem quiser pesquisar.
➤    1. A capacidade de mentir

É muita ingenuidade acreditar que fake news decidam eleições apenas agora, quando a Internet e plataformas como Twitter, Facebook e Whatsapp (para citar apenas as mais populares) seriam utilizadas por agentes “maliciosos.” Ingenuidade porque, primeiramente, a imensa maioria dos usuários de Internet consomem outras fontes de ilusão, como Rádio, Televisão, Jornais Impressos etc. Em segundo lugar, ingenuidade porque as redes apenas registram, em códigos e sinais elétricos, as mentiras e opiniões furadas que as pessoas já propagam entre si no boteco após o futebol, no salão de beleza, no cafezinho do escritório, no ponto de ônibus, no clube de tênis, na reunião do sindicato e por aí vai.

O fato é que a Internet acabou com o monopólio da informação temerária (ou leviana) e da desinformação amplamente exercido por grupos específicos até a massificação do acesso à rede. Fake news sempre abundaram nas mídias hoje tidas por tradicionais. Afinal, uma característica peculiar de nossa espécie é que os homens mentem uns para os outros e para si mesmos, especialmente se motivados por fins coletivos, como ocorre, obviamente, em processos eleitorais.

Informação, manipulação de ideais, mentira e histeria são ferramentas comumente empregadas pelo homem para exercer domínio sobre o universo e seus semelhantes. Tudo isso se deve ao desenvolvimento do primeiro e maior artefato humano, como define Tom Wolfe: a fala.

Em seu último livro, O Reino da Fala (2016), Tom Wolfe, recentemente falecido, apresenta uma envolvente história sobre 150 anos de discussões e pesquisas acerca dos mistérios envolvendo o intrigante dom observado apenas nos humanos: a capacidade de articular sons para transmitir ideias, a habilidade da fala. De Darwin a Chomsky, Wolfe emprega humor, ironia e ceticismo à análise dos estudos sobre a linguagem para conceder algum especial crédito a nomes menos conhecidos como Alfred Wallace e Don Everett, que em seus trabalhos de campo ofereceram argumentos e provas contra a concepção da fala como capacidade inata, que decorreria da simples evolução de algo como a capacidade de canto apresentada pelos pássaros ou de comunicação gestual ostentada pelos orangotangos. Após concluir a jornada pela história da linguagem até os dias atuais, com a rendição do mundo acadêmico em 2014, que declarou não possuir respostas para a origem do fenômeno, Wolfe não deixa de entregar ao leitor sua própria teoria: o homem desenvolveu a fala/linguagem como um artefato, um instrumento de trabalho que lhe permitiu dominar não somente a natureza, mas idealizar e planejar seu próprio destino, elaborar explicações para seus infortúnios, conferir sentido às contingências do viver.

- Fake News ou mau caratismo de Guga Chacra e Organizações Globo?
➤    2. Informação e persuasão

O surgimento da cultura de forma geral, e das culturas, em forma ramificada, bem como suas transformações, está diretamente relacionada ao uso desta ferramenta, a linguagem, para o bem ou para o mal. Seja pela estruturação da comunicação e das organizações coletivas que possibilitaram a instituição da agricultura e assentamento nas primeiras comunidades, o surgimento das nações e a consolidação do comércio gentil, seja pela concepção de ideias e sonhos, a partir do momento em que se estabelece como canal de transmissão de ideias, fatos e conhecimento, a fala se transforma em útil ferramenta de negociação e persuasão. E persuasão, todos sabemos, não se promove apenas com dados irrefutáveis.

A justificação do emprego da mentira como recurso em defesa do bem contra o mal é uma constante na história do pensamento político e o filósofo Gabriel Liiceanu, em sua obra Da Mentira (2006) analisa o serviço prestado pela desinformação e pelo poder de se dizer “o que não é” à legitimação de tiranias e de regimes autoritários. Das tragédias em Sófocles ao jornalismo sob o comunismo soviético, passando por Maquiavel e a projeção do homem virtuoso capaz de um ato de vilania quando necessário, Liiceanu observa o fenômeno da mentira e da dissimulação como ferramenta em favor de algo maior, obviamente, idealizado, e geralmente, impraticável. Sempre houve alguém disposto a recorrer a uma “pequena” mentira, um mal por definição, em nome de uma “grande” causa, e é por isso que, conclui o pensador romeno, “toda a história dessa espécie é a expressão de uma fraude linguística.”

O poder da fala e da capacidade de propagar conhecimento – verdadeiro ou falso – na historia do homem é realmente inquestionável. Não à toa, dois dos momentos cruciais desta jornada ocorrem em momentos particulares de revolução na forma de comunicação: a invenção da imprensa por Gutenberg, no século XV, e a adoção massificada da Internet propulsionada pelo protocolo world wide web (o “www”) desenvolvido por um grupo de pesquisadores em Genebra no início dos anos 1990. Curiosamente, estas duas revoluções impactaram a forma como consumimos conhecimento até os dias atuais. Se vincularmos a informação à moda antiga aos jornais, rádio e televisão, é possível opor a esta forma “tradicional” de comunicação os “modernos” mecanismos de informação, notadamente, os portais da Internet e as redes sociais.
➤    3. O fim do oligopólio da persuasão

A informação que tramita no ambiente digital é, por concepção da própria rede, descentralizada, livre e essencialmente democrática. O que poderia explicar a razão de a mídia tradicional ter adotado, desde os anos noventa, uma aguerrida tática de descrédito aos meios digitais como fonte de informação. De fato, o filósofo e sociólogo Pierre Lévy, especialista em sociedade da informação, registra em seu livro Cibercultura (1999) que a Internet, inicialmente pensada para usos militares e estruturada para resistir inclusive a ataques nucleares, logo passou a ter como principal utilização a troca de informações entre pesquisadores de instituições acadêmicas. Foi apenas no fim dos anos 80 que o público descobriu a praticidade e segurança da rede como sistema de correio eletrônico, passando, a partir de então, a canalizar um volume cada vez maior de informações.

Lévy ressalta que a natureza plural e por vezes caótica da Internet, descentralizada e democrática, certamente não está imune à ação de grupos ou pessoas mal-intencionadas. Contudo, ressalva que é exatamente nessa esfera, da possibilidade das intenções maliciosas, que a Internet, ao contrário do que aparenta, representa uma possibilidade real de batalha contra a desinformação. Afinal, como afirma o filósofo tunisiano, “é muito mais difícil executar manipulações em um espaço onde todos podem emitir mensagens e onde informações contraditórias podem confrontar-se do que em um sistema onde os centros emissores são controlados por uma minoria.”

De fato, não há como negar que hoje as informações podem ser rapidamente checadas e desmentidas pelas ferramentas de informação que a própria Internet disponibiliza. É preciso reconhecer que, se é verdade que a maior parte dos usuários da rede ainda está despreparada para o consumo consciente e desconfiado de informações, também é verdade que esse é o mesmo público que há pouco tempo estava sujeito a uma ou duas fontes de informação, e reféns, portanto, de possíveis deturpações maliciosas dos fatos. A persuasão pela desinformação não é mais uma arma exclusiva de poucos.

Ainda assim, a despeito da pluralidade e da impossibilidade de monopolização da informação, a cada boato ou farsa promovida por indivíduos na Internet, surgem novas proposta de regulamentação das fake news. Qualquer seja o tom ou argumento retórico que se empregue a tais iniciativas, o fato é que uma lei que pretenda proibir notícias falsas está inevitavelmente vocacionada a ser utilizada como fundamento para censura e violação de direitos.
➤    4. A lei, a mentira e a verdade

A efetividade de uma lei que pretenda acabar com as fake news esbarra na inegável dificuldade de se distinguir entre notícia falsa (uma mentira) e uma opinião equivocada ou uma interpretação livre dos fatos. Se alguém diz que o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 foi golpe, isso é uma opinião ou uma mentira? À luz da lei e dos procedimentos legais, uma clara mentira. Contudo, assentada em interpretações históricas e ideológicas, uma opinião que não fere lei alguma, e, por mais absurda que soe, sua expressão é livre e constitucionalmente garantida.

Não se olvide, ainda, a possibilidade de uma legislação voltada ao combate às ditas notícias falsas acabar por reprimir as mock news, notícias fictícias que empregam de grande ironia e de paródia para fazer humor crítico, um dos elementos mais importantes na preservação de uma democracia efetivamente livre e saudável.

Excessos, como os ocorridos no recente caso da vereadora assassinada no Rio de Janeiro que teve sua imagem e reputação atacada por boatos infundados, já são alcançados pela legislação brasileira. Aliás, mentiras, falsas promessas, injúrias, calúnias e difamações, são combatidas com um enorme aparato legal que passa pela própria Constituição Federal, Código Penal, Código Civil, Código de Defesa do Consumidor e pelo Marco Civil da Internet, sem falar na construção doutrinária e jurisprudencial sobre o tema. O que não faltam são dispositivos legais que reprimam condutas maliciosas. Há um pouco de dificuldade na identificação de autoria destas noticiais falsas? Sem dúvida. Contudo, apesar da tecnologia ser relativamente nova, os investigadores vem obtendo resultados cada vez mais rápidos na apuração dos ilícitos, numa sequencia de pequenas vitórias que servirá para educar a comunidade digital sobre a responsabilidade de expressão que acompanha o livre exercício do opinar.

Ao contrário do que acreditam as vozes mais exaltadas dos que representam a visão clássica de informação, a população vem se educando, gradativamente, para este mundo em constante transformação. E se tem algo que a proliferação de fake news lega de importante, é a educação para o ceticismo e prudência na Sociedade da Informação, inclusive para o consumo desconfiado da informação vendida pela mídia tradicional, que a despeito da posição inquisitória, é também culpada dos mesmos pecados que denuncia genericamente.


O que é preciso ter claro é que o dito “combate” à epidemia de fake news não deve ser travado pelo processo legislativo, que envolve inegável risco de prejuízo à liberdade de expressão. Quem pode e deve encarar a natural tendência humana de criar mentiras, elaborar ilusões, aumentar um ponto, é a surpreendente e heroica vontade humana de alcançar o conhecimento por refutar tudo o que é falso, condenar o que é superstição, apontar o dedo aos sofismas: um combate que se dá no plano das palavras, no reino da fala, território da mentira e palco do restabelecimento da verdade.
(*)Norival Silva Júnior - Advogado especialista em Direito Digital.

quarta-feira, julho 18, 2018

Nelson Mandela: racista, amigo de ditadores e admirado apenas por quem não sabe quem ele era



por Flavio Morgenstern(*).

Cai-se facilmente na tentação de elogiar Mandela como "anti-racista" sem saber quem ele era. Sua luta contra o apartheid é uma das maiores farsas da história recente.

Quando Nelson Mandela criou o movimento pelo fim do Apartheid, a África do Sul vivia um surto de 44 mil homicídios por ano, a maior parte naturalmente de componente racial. Famílias como a do garoto Amaro, de 12 anos, o mais novo da família Viana, que, após ter a mãe estuprada e assassinada junto ao pai, foi jogado em água fervente, num puro ato de sadismo que só o racismo desabrido pode gerar.

Ou o caso de Sue Howarth e seu marido Robert Lynn, que foram acordados às duas da manhã por invasores mascarados que quebraram o vidro de sua casa, na vila remota de Dullstroom por onde moravam por 20 anos, amarrados a uma cadeira e torturados com um maçarico por diversas horas.

Os homens mascarados enfiaram um saco de plástico goela abaixo da senhora Howarth, e tentaram sufocá-lo com outro saco ao redor de seu pescoço. Levados para um matagal ainda em seus pijamas na sua própria caminhonete, a senhora Howarth, 66, executiva de uma companhia farmacêutica, levou dois tiros na cabeça. O senhor Lynn levou um tiro na nuca.

Milagrosamente eles sobreviveram, e Lynn conseguiu se rastejar até a rodovia para pedir socorro para o primeiro carro que passou. A polícia conseguiu encontrar a senhora Howarth seguindo seus gemidos de dor, com uma toalha sobre a cabeça e pouco mais do que um fiapo da blusa, com o peito coberto de sangue. Toda a sua resposta eram gemidos e cobrir os seios com as mãos, numa última tentativa de proteção. Ela acabou falecendo no hospital dois dias depois.

Oh, espere. Esta, é claro, é na verdade a África pós-Mandela, onde os brancos são perseguidos por serem brancos (sim, também com o discurso de “dívida histórica” ou o que o valha) e mortos por gangues de negros, simplesmente por serem brancos. A profissão de bôer (fazendeiro branco) foi considerada a mais perigosa do mundo há 3 anos. Assassinatos horrendos de brancos são rotina no país, que só não parece mais perigoso do que, digamos, o Brasil.

Nelson Mandela é um dos principais símbolos do imaginário político moderno, como Martin Luther King, Che Guevara, Madre Teresa de Calcutá, Malcolm X, Mahatma Gandhi ou Simón Bolívar. Raríssimos, todavia, são aqueles que já leram e pesquisaram sobre tais figuras, além do que o imaginário mais primário diz sobre elas – basicamente, que queriam um mundo sem pobreza e preconceito, e geralmente foram mortos por ricos preconceituosos exploradores que queriam manter seus privilégios de classe.

É curioso como esse imaginário mistura personalidades completamente díspares, como Martin Luther King e Malcolm X no mesmo balaio: o primeiro, um pastor batista conservador, Republicano, que lutou contra uma KKK, Democrata e desarmamentista, pelo direito de armar os negros. Era contra o aborto (política pública usada na América para controlar o aumento da população negra) e o casamento gay. Seu famoso sonho era uma América color-blind: nada de cotas ou movimento negro, e sim uma única lei para todos. Já Malcolm X era um racista que pregava a superioridade dos negros sobre os brancos, uma vingança histórica transformada em leis, era um radical de extrema-esquerda que pregou abertamente o terrorismo para atingir seus fins.

➤    Preso por terrorismo

Nelson Mandela é bem mais parecido com Malcolm X do que com Martin Luther King. Foi abafada em Hollywood uma gafe gigantesca: Leonardo DiCaprio, após tirar uma foto com Mandela quando fez seu filme Diamantes de Sangue, sobre o tráfico de diamantes em Serra Leoa (com uma cena na fronteira com a África do Sul), acabou recebendo uma resposta ríspida do próprio Mandela, que negou seu apoio à narrativa do filme. O que DiCaprio não sabia é que Mandela foi eleito com o dinheiro dos traficantes de diamantes de Botswana e Namíbia, que tanta miséria causam na África.

Mandela foi fundador do movimento uMkhonto we Sizwe, o braço armado do partido radical African National Congress (ANC). Foi preso não por seus pensamentos humanitários contra um regime racista, e sim por planejar um atentado terrorista. E mesmo dentro da cadeia, orquestrou uma operação com Oliver Tambo que explodiu um carro-bomba que deveria chegar a um prédio público. Parado no trânsito, o carro explodiu no famoso caso Church Street Bombing, matando 19 civis em uma área comercial.

A maioria das vítimas do movimento eram civis. Recebeu apoio financeiro e teve próxima amizade com tiranos como Muammar Kadafi, Robert Mugabe, Yasser Arafat e Fidel Castro. Foi considerado terrorista, extinto e, com o partido de Mandela no poder, posteriormente integrado à segurança nacional (sic).

Mandela acabou fazendo um governo pífio, com péssimos indicadores econômicos (sobretudo para os negros) e acabou nem sequer sendo reeleito, embora seu prestígio como símbolo político anti-racista pelo mundo seja inquestionável. Acreditam até mesmo que foi o “Madiba” quem deu direito de voto aos negros (como se só brancos tivessem votado no ex-terrorista). Sobra mesmo sua luta contra o anti-ético regime do apartheid, mas mesmo esta excrescência histórica é mal compreendida.

➤    Apartheid

O regime que perdurou de 1948 a 1984 não era mero “racismo” de ingleses e holandeses: na verdade, os primeiros brancos a chegarem à África do Sul e instalarem seus assentamentos por lá datam de 1652, enquanto a maior parte dos ancestrais das atuais populações negras que migraram tão para o sul do continente chegaram lá depois, quando a África do Sul já era a região mais rica da África subsaariana com uma cavalar dose de capitalismo. Como escreve Selwyn Duke, afinal,
como a vida na África do Sul “racista” era largamente preferível àquela nas nações ao redor, ela foi por muito tempo atrativa para negros migrantes. De fato, devido a este fator e às altas taxas de natalidade entre os negros, a demografia negra da África do Sul aumentou 920 por centodesde 1913. Esta é a principal razão pela qual a população do país aumentou de 6 milhões no começo do século passado para 52 milhões hoje, enquanto a demografia branca aumentou apenas 3,3 milhões durante este período. (grifos nossos)

O tão demonizado “colonialismo”, afinal, foi justamente o fato de os brancos terem criado a tão desejada democracia e a espalhado pelo mundo alternativa bem mais viável do que guerras tribais-étnicas). Até hoje, países negros que estão no Commonwealth britânico ou por eles passaram, como Jamaica e África do Sul, são invariavelmente mais ricos do que seus vizinhos.

Todavia, com tal demografia sul-africana, era fácil que esse próprio esquema tribal fosse mais forte e vencesse eleições do que um sistema, digamos, parlamentar (sentido etimológico, em que tudo é resolvido pela conversa). Com diversos conflitos étnicos entre negros que nunca se resolviam mesmo criando-se uma lei civilizada (quem ousaria dizer que a lei inglesa nascida da Magna Carta é ruim?), preferiram viver à parte. Estava criado o apartheid.

O que geralmente não percebem sobre o apartheid é que, muito mais do que um regime racista, ele nasceu como um regime de proteção e separação: eles criaram a democracia, eles usariam a democracia. Exatamente como aconteceria se brancos e negros nunca tivessem se cruzado: a África do Sul se mataria em guerras tribais, enquanto quem vive à parte dessas guerras vota e resolve tudo pelo parlamento.

Com a mentalidade cristã de ingleses e afrikaners (holandeses), os negros que trabalhavam para os brancos acabavam recebendo educação ocidental, falando línguas européias e criaram o sentimento de pertencimento a esta nação que ia surgindo, a África do Sul. Selwyn Duke prossegue:
Isto criou uma situação interessante. Se os brancos tivessem mantido separação completa – se eles tivessem e pudessem evitar qualquer contato com as tribos africanas – não haveria Nelsons Mandelas (pela mesma razão pela qual nativos amazônicos que não conhecem nada além da cobertura de sua floresta não fazem pressão por direitos de voto). Se, como ocorreu com os japoneses e o povo indigente de suas ilhas, os Ainus, os brancos da África do Sul viessem a surpassar em número e em grande medida subjugar as tribos, não haveria ninguém de nota para fazer pressão por nada.
Mas, afinal, “a África do Sul não é uma ilha e migrantes africanos podem facilmente cruzar a fronteira em grande número”. Para aumentar o imbróglio, a população negra surpassava a branca na razão de 10 para 1.

Uma mesma população branca que trouxe conceitos de democracia para um continente em que eles nunca existiram fez o que mesmo tribos negras que não conjugam dos mesmos laços fariam: criaram um sistema em que a representação, economia e civilização dos brancos ficava à parte, separada dos negros (só a África do Sul tem 11 línguas oficiais, muitas de tribos que não aceitariam dividir a mesma mesa).

É claro que houve diversas ações racistas em um sistema imorável e insustentável, que facilitava toda a forma de discriminação contra negros. O que permanece curioso é que a única forma de julgar o apartheid é justamente pelos critérios dos próprios brancos que se protegeram dentro desse sistema.

De fato, sistemas similares ao apartheid são justamente o padrão na África subsaariana: tribos que se protegem entre si. Na batalha entre tutsis e hutus em Ruanda, por exemplo, nenhum crítico ocidental vê como “política racial” quando um grupo negro toma o poder e pratica o genocídio sobre uma tribo rival.

➤    Mandela de perto

Com sua retórica anti-brancos, era apenas questão de tempo para as taxas de homicídio na África do Sul dispararem horrendamente tão logo Nelson Mandela chegasse ao poder. São mortos 20 brancos a cada 24 horas. De fato, os negros continuaram morrendo loucamente sob seu regime, apenas tendo virado estatísticas ignoráveis.

Hoje, a grande herança do presidente Mandela, que teve suas políticas econômicas socialistas desfeitas tão logo saiu do cargo, é uma África do Sul considerada um dos lugares mais perigosos do mundo para brancos. A taxa de homicídios é de 310 a cada 100.000 por ano (as taxas de homicídio na Londres dos “colonizadores” malvados, que aceita negros sem problema, é de 3 a cada 100 mil).

Os Boer foram expulsos do vizinho Zimbábue pela reforma agrária do socialista Robert Mugabe, que estatizou as terras dos “brancos”. O resultado é apenas mais socialismo: fome, fome e fome. Mandela tentou o mesmo, apenas mais lentamente: criou cotas anti-brancos que apenas os jogaram na pobreza, além de expropriar os frutos de seu trabalho.

Havia 128 mil fazendas comerciais em 1980. Hoje, são 40 mil. O partido de Nelson Mandela até hoje nega a perseguição racial. Com a retórica sakamotiana de sempre, o governo apenas diz que os brancos são vítimas por serem “ricos”. É certamente um fator, mas isso não explica crimes como uma vítima branca amarrada atrás de seu veículo e arrastada até seu rosto ser completamente esfacelado no asfalto (algo como usar a esparrela da “desigualdade social” para explicar o crime contra o menino João Hélio, quando até um de seus assassinos tinha carro em casa). Ou adolescentes espancados até a morte depois de seus pais serem mortos. Ou um bebê de dois anos jogado em óleo fervente.

A Genocide Watch classifica a África do Sul no sexto estágio do processo de genocídio. O sétimo é o último – e significa extermínio.

Mandela não disse muito a respeito da violência contra os Boer. Ou melhor, até mesmo foi flagrado durante um cântico de Kill the Boer, hino usado por algumas etnias nas duas Guerras dos Bôeres. (outras ocorrências da música são retiradas do YouTube por “discurso de ódio”)

Sua letra diz “We are going to shoot them; they are going to run. Shoot the Boer; shoot them, they are going to run. Shoot the Boer. We are going to hit them; they are going to run; the Cabinet will shoot them with the machine-gun. The Cabinet will shoot them with the machine-gun….” – palavras extremamente semelhantes ao hino nazista, a Canção de Horst-Wessel, jurando vingança: “Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen, Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit” (“Camaradas, baleados pela Frente Vermelha e pelos reacionários, Marchem em espírito em nossas fileiras”).

Aliás, Nelson Mandela passou décadas no cárcere cumprindo prisão perpétua, mas foi solto. Com a pressão internacional (da mesma cultura ocidental mais parecida com o apartheid do que com qualquer cultura africana), o presidente J. W. Botha ofereceu-lhe a soltura em 1985, desde que prometesse não mais se envolver no terrorismo e na luta armada contra os brancos. O Prêmio Nobel da Paz recusou.

É ridiculamente fácil cair na esparrela de defender figuras carimbadas, identificadas como símbolos por todos, sem saber o que são de fato (o mesmo é válido para Che Guevara, Simón Bolívar e tantos outros tiranos fofinhos). Exige-se coragem intelectual para saber a verdade. Mas ela sempre liberta.

Ao contrário do que foi a África do Sul sob Nelson Mandela, até hoje sofrendo com as conseqüências de um terrível presidente.

(*)Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen

Fonte-http://sensoincomum.org