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quarta-feira, março 07, 2018

Teste feito por equipe da Unicamp revelou falhas de segurança nas urnas eletrônica






por Redação da Agência Senado | 06/03/2018, 15h43 





O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Diego de Freitas Aranha coordenou uma equipe de profissionais num teste de segurança promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2017. A missão deles, mostrar possíveis falhas no sistema de votação eletrônica adotado no Brasil, foi concluída com êxito.



O especialista foi um dos convidados da audiência pública realizada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, nesta terça-feira (6), sobre segurança do voto eletrônico e implementação do voto impresso nas eleições gerais de 2018.


- No último dia de testes tivemos progressos. Conseguimos, por exemplo, alterar mensagens de texto exibidas ao eleitor na urna para fazer propaganda a um certo candidato. Também fizemos progresso na direção de desviar voto de um candidato para outro, mas não tivemos tempo de testar esse tipo de ataque - explicou.


Segundo Diego, a equipe dele trabalhou em condições piores do que trabalhariam verdadeiros fraudadores, devido a restrições técnicas e de tempo impostas pelo tribunal, mas ainda assim foi possível explorar pontos vulneráveis para adulterar o software de votação e entrar no ambiente da urna eletrônica.


Segundo o professor da Unicamp, o resultado não foi surpresa, visto que todo software é potencialmente vulnerável. Por isso, é importante o registro físico para que a escolha do eleitor seja resguardada de outra forma.


- Esse é um entendimento da comunidade técnica internacional e segue a experiência de outros países. Não há país no mundo que tenha migrado para a votação eletrônica que não use o registro físico do voto como mecanismo de transparência. O registro físico é inegociável. É um instrumento básico de transparência - afirmou.


Professor lembrou que há cinco anos participou de testes semelhantes feitos pelo TSE. E na ocasião a equipe dele elaborou um ataque que quebrava o sigilo dos votos.


- Demonstramos que era possível recuperar os votos da urna em ordem, sabendo exatamente como votaram o primeiro, o segundo, o terceiro eleitores e assim sucessivamente - explicou.


Participantes de audiência veem má vontade do TSE com voto impresso

por Redação do Senado Noticias | 06/03/2018, 15h38


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem demonstrado má vontade e falta de interesse para implantar o sistema de impressão de votos na urna eletrônica. A opinião é de especialistas ouvidos nesta terça-feira (6) pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), que realizou uma audiência pública sobre o tema.

A lei que obriga a impressão do voto foi aprovada em 2015 (Lei 13.165), e desde então, segundo os participantes da audiência, o TSE pouco fez para viabilizar o sistema. Agora, a poucos meses das eleições, a corte alega falta de recursos diante do alto custo da medida.

- Dizer que seriam necessários R$ 2 bilhões para habilitar o voto impresso é um reflexo da má vontade do tribunal, que encontrou forma de inviabilizar o cumprimento da lei, alegando falta de orçamento - opinou o professor de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UNB), Pedro Dourado de Rezende, para quem não custaria tanto dar ao eleitor a garantia da lisura do processo.

O engenheiro especializado em segurança de dados, Amilcar Brunazo Filho, afirmou que o TSE "enrolou" até o fim de 2017 e agora se vê com pouco tempo e dinheiro para os procedimentos necessários.

- Tá na cara que estão protelando, empurrando. E agora no dia 5 de janeiro, último dia do mandato de Gilmar Mendes na presidência do tribunal, o Ministério Público apresentou uma ação direta de inconstitucionalidade contra uma lei aprovada três anos antes. Não dá para entender - disse.

▶Prevaricação

Representando a Associação Pátria Brasil, o procurador Felipe Marcelo Gimenez afirmou que o ex-presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, cometeu crime de prevaricação ao protelar por dois anos o cumprimento da lei, que não tem vício de forma, nem de iniciativa e nem de conteúdo.

Ele lembrou que o exercício do voto é secreto, mas o ato seguinte, que é a contagem, é um ato administrativo e se submete a um requisito de validade: a publicidade.

- O voto é secreto, mas a contagem é publica. O Boletim de Urna não prova nada. Quando é impresso, já houve a contagem do voto em segredo, e a fraude já ocorreu - afirmou.

▶Judiciário

Na opinião do senador João Capiberibe (PSB-AP), não haverá impressão do voto se não houver uma forte movimentação política. Ele lembrou que o Parlamento já fez a parte dele aprovando a lei, agora falta a Justiça. Segundo ele, há uma conspiração contra a democracia, o TSE descumpre a lei e o Ministério Público deve agir:

- Essa é uma decisão de um grupo fechado que está acima da lei, o Poder Judiciário. A Lei da Transparência [LC 131/2009], por exemplo, quem não cumpre é o próprio Judiciário. Para buscar informações em tribunais do Brasil, é preciso indicar CPF e ser especialista em navegação na internet, tamanha a dificuldade enfrentada pelo usuário.

A senadora Simone Tebet (PMDB-MS), por sua vez, disse que até acredita que a Justiça Eleitoral não tenha dinheiro para implantar a impressão, mas lembrou que o caixa da União tem. E é uma questão de remanejamento orçamentário.

- Mas a realidade é a seguinte: a sociedade tem dúvida, principalmente quando a diferença é de poucos votos, como nas eleições para vereadores e prefeitos. Se a sociedade tem dúvida, é óbvio que é preciso haver mais transparência. Por conta disso, sabendo que a população tem dúvida, é preciso resolver essa questão - opinou.

▶Defesa

O procurador regional da República Jairo Gomes lembrou que em momento algum o TSE afirmou que não implantaria o voto impresso. Segundo ele, o TSE informou que o faria dentro das possibilidades financeiras. Além disso, acrescentou, não existe sistema perfeito, mas os mecanismos de segurança estão em evolução.

- Houve um aperto no orçamento tão grande que até zonas eleitorais foram extintas [...] Não podemos considerar a teoria da conspiração e dizer que todos estão empenhados em fraudar o pleito: do mesário, ao juiz passando pelo Ministério Público. A realidade não é assim. A urna de lona também era sujeita a fraudes. Eu poderia elencar várias. Não só na hora da votação, mas na apuração - afirmou.

▶Luiz Fux

O senador Lasier Martins (PDT-RS), responsável por conduzir a audiência, afirmou que deixaria a reunião com a convicção de que as desconfianças têm procedência.

O parlamentar ainda confirmou para a próximo dia 13 a continuação dos debates com a presença do presidente do TSE, ministro Luiz Fux. Ele havia sido convidado para esta terça-feira (06), mas não pode comparecer.




Fonte - Agência Senado 

quarta-feira, setembro 20, 2017

Urnas eletrônicas: falhas, vulnerabilidades e fraudes do mesário





por Felipe Payão(*).



O professor Diego Aranha é uma das poucas pessoas independentes, sem relação com o governo, que conseguiram colocar as mãos nas urnas eletrônicas, realizar alguns testes de invasão e buscar vulnerabilidades. Aranha palestrou no evento Mind the Sec, em São Paulo, na quarta-feira passada (13), e o TecMundo conversou com ele por alguns minutos sobre a segurança das urnas eletrônicas no Brasil.

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Aranha coordenou em 2012 a primeira equipe de investigadores independentes capaz de detectar e explorar vulnerabilidades no software da urna eletrônica em testes controlados organizados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em 2016, foi convidado para realizar novos testes, mas se negou — os motivos você descobre na entrevista. Agora, em 2017, Aranha colocará novamente as mãos nas urnas, e você saberá o resultado dos testes em novembro aqui no TecMundo.

No Mind the Sec, o papo que o professor levou foi outro, abordando temas como criptografia e segurança computacional. Segundo o próprio evento, a "palestra tratou da evolução das técnicas criptográficas e outras tecnologias de preservação da privacidade sob um ponto de vista histórico, até o desenvolvimento da chamada criptografia fim-a-fim implementada em aplicativos modernos para troca de mensagens". Mais sobre isso, você encontrará no canal oficial do Mind the Sec no YouTube.

Agora, você vai acompanhar a conversa que tivemos com Diego Aranha especificamente sobre as urnas eletrônicas. Acompanhe:

TecMundo: Qual foi o seu envolvimento nos testes das urnas eletrônicas?

Diego Aranha: Eu participei como coordenador da equipe vencedora dos testes do TSE na edição de 2012. Em 2016, atuei apenas como observador externo dos testes; isso porque naquele ano o TSE introduziu um Termo de Confidencialidade que me recusei a assinar. Basicamente, o termo determinava que tudo que aconteceria nos testes por lá teria que ficar (sem divulgação). Havia conflito com as informações obtidas em 2012, que deixaram a situação confusa. E também tem o problema natural que eu sou um funcionário público, que deve prestar contas à sociedade. Meu salário não é pago para que eu guarde segredos do TSE. Muito pelo contrário, é para observar o que está funcionando bem e funcionando mal e relatar para a sociedade qual é a minha interpretação. Então, em 2016 eu só fui observador, fiz parte da comissão de avaliação que tentou garantir que os testes fossem minimamente razoáveis. Agora, em 2017, eu vou participar de novo com um grupo de investigadores.

TecMundo: E desta vez não será confidencial?

Aranha: O Termo de Confidencialidade foi alterado, após muita pressão. Agora, você pode relatar publicamente sobre o que foi observado, como vulnerabilidades e afins, desde que o Tribunal Superior Eleitoral seja comunicado antes. Entendi ser razoável. Ainda existem restrições de escopo, sistemas que investigadores não podem olhar, como a identificação biométrica — que não está disponível para teste apesar de estar em produção.

TecMundo: E quem desenvolve é o próprio pessoal do TSE...

Diego Aranha: Sim, o software hoje é majoritariamente desenvolvido por equipe do TSE. Anteriormente, já foi inteiramente terceirizado, mas hoje é responsabilidade do TSE, que conta com uma equipe própria para desenvolver o sistema e mantê-lo ao longo do tempo.

Diego Aranha: Sim, foi um absurdo. Foi quando o ministro Toffoli foi presidente do TSE (ministro Dias Toffoli, 2014/2016), e o PSDB perdeu as eleições gerais e pediu auditoria. Boa parte da imprensa, na época, encarou como um terceiro turno — o que eu acho uma estupidez. Qualquer sistema, de qualquer ordem, deve ser passível de auditoria, e é totalmente legítimo solicitá-la. O problema é que as pessoas olham mais o aspecto político do que o aspecto técnico. A auditoria precisa ser livre para qualquer partido que seja.

Então, montaram uma equipe para realizar a auditoria — eu fui convidado, mas decidi não participar porque os meus esforços são completamente apartidários, não represento e não me envolvo com partido algum — e contactaram duas pessoas para fazer parte dessa equipe: o Alex Halderman (professor na Universidade de Michigan), que já peregrinou o mundo violando segurança de equipamentos de votação — chegou quase a ser deportado da Índia —, e o Rubira por ser absolutamente competente.

O Rubira trabalha na Intel, fora do Brasil, e tem muita experiência em segurança de software, segurança de aplicações, enfim. O TSE negou a participação dos dois com o argumento de que como um é cidadão estrangeiro e o outro vive em cidade fora do Brasil, isso viola a soberania nacional. Supondo que, sei lá, a Intel tivesse interesse em roubar tecnologia das urnas eletrônicas, como se fossem tão avançadas a ponto da Intel considerar isso estratégico. Resultado, um cidadão brasileiro com domicílio fiscal no país foi impedido de participar com esse argumento.

TecMundo: Voltando um pouco para 2012, quando você de fato colocou a mão no sistema. Quais vulnerabilidades mais graves foram encontradas?



Diego Aranha: Acho que a mais grave observada foi a que nos deu a vitória. Observação: em 2012, os testes eram uma competição entre times também, o que era ineficiente, e até sugerimos que mudasse. Após reunir muita gente dedicada a tornar o sistema mais seguro, não faz muito sentido competir entre si. Voltando: o que exploramos no ambiente de teste foi uma vulnerabilidade no sigilo do voto. Conseguimos, após realizar uma eleição simulada, recuperar os votos em ordem, baseado apenas em informação pública. A hora de emissão da zerésima era a informação que a gente precisava para descobrir como votou o primeiro eleitor, o segundo eleitor, o terceiro eleitor e assim por diante. Sem, no entanto, saber quem eram o primeiro, o segundo e o terceiro eleitores — apesar dessa informação ser fácil de conseguir com a ajuda de um mesário malicioso.


Também descobrimos que a urna armazena o horário de votação de cada um desses eleitores. Então, por exemplo, se você quisesse descobrir o voto de um ministro do Supremo Tribunal Federal, você precisaria do horário de emissão da zerésima da seção eleitoral dele (que é informação pública), de um arquivo que se chama Registro Digital do Voto (que coloca os votos embaralhados e também é informação pública para os partidos) e do horário que ele votou, para descobrir o lugar dele na fila. Recuperando então os votos em ordem, você sabe qual é o voto do ministro. 

Observamos que não havia qualquer obstáculo técnico para, por exemplo, descobrir o voto do presidente do TSE nas eleições de 2010. Obviamente, não fizemos isso porque é antidemocrático e contra a lei, mas as condições técnicas estavam todas lá. 

Também descobrimos que os mecanismos que protegem o software contra manipulação sofriam de falhas de projeto fundamentais. Todas as urnas compartilham o mesmo segredo para proteger o software de votação e isso está diretamente inserido no código-fonte do equipamento. Então, tem ao menos 500 mil cópias dessa informação às claras em cartões de memória, não dá nem para chamar isso de segredo. Mas não tivemos tempo de realizar um ataque em tempo real sobre essa vulnerabilidade, nos deram apenas três dias. Dois dias ficamos realizando ataques no sigilo do voto e o terceiro para montar o relatório e negociar com o TSE o que entraria no relatório. Então, tiveram vulnerabilidades que descobrimos, não atacamos ou exploramos, mas documentamos.


TecMundo: E depois de tudo isso as urnas passaram por alguma atualização?


Diego Aranha: Sim, o software mudou. Fisicamente é praticamente a mesma urna, mas algumas coisas mudaram. Em 2012, havia dois modelos principais: um que não tinha um módulo de segurança em hardware e outro que tinha esse módulo, mas não era usado para tarefas importantes. Esse módulo gera números aleatórios, exatamente para realizar esse embaralhamento de maneira segura; e também há um espaço para armazenar chaves para encriptar a mídia de maneira segura, mas não era usado assim... com o aparente argumento de que "se nem todas as urnas têm, nenhuma pode usar", o que não faz qualquer sentido em termos de segurança.


Desde então, a fração das urnas com esse módulo em hardware com certeza aumentou. As urnas antigas vão saindo de operação e as novas já têm esse recurso. É claro que, entendo e acredito, que o TSE integrou alguns desses mecanismos, que já estavam lá e já haviam sido comprados, nas versões mais novas do software. Eu não tenho evidências disso, mas seria algo natural — foi até o que recomendamos no relatório. Todos esses equipamentos são custeados por impostos, é o mínimo que podem fazer.


TecMundo: Os hackers estão cada vez mais jovens e o hacker brasileiro tem um certo costume de invadir sites por diversão, mesmo que falte um conhecimento técnico alto como atacante. Chegando para as urnas, é fácil se tornar um atacante desse sistema em específico? 


Diego Aranha: O que observamos é o seguinte: os mecanismos de segurança que estavam no sistema não ofereciam custo proibitivo para algum atacante minimamente sofisticado. Um atacante de eleições é um atacante muito bem equipado, politicamente e financeiramente, tanto que possuem milhões para comprar votos.


Evidentemente eu também não sei se os atacantes de eleições brasileiras, como os políticos da velha guarda, possuem interesse real em fraudes tecnológicas. Eles têm vencido eleições do jeito antigo desde que o Brasil é Brasil. Não temos como especular. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que não deveríamos estar nessa posição, até porque do ponto de vista custo-benefício, é um ponto tentador de ataque. Se você compromete alguém, por exemplo, que esteja dentro do TSE para escrever software que vai roubar votos para alguém, isso tem (em tese) custo muito mais barato do que comprar 100 mil votos em uma cidade. É um ponto tentador de ataque, que concentra risco. Eu não sei se os partidos e os políticos já perceberam ou se preocupam com isso, até porque eles encontram outras formas de ganhar eleições. Mas o que é evidente é o seguinte: infelizmente, temos uma comunidade muito profícua em produção de software malicioso e fraude financeira. As condições técnicas, caso sejam transportadas para as eleições, estão lá — ou estavam lá em 2012.


TecMundo: Ocorrem outros tipos de fraude?


Diego Aranha: Nós temos outros tipos de fraude menos tecnológicas nas eleições brasileiras, mas se fala pouco a respeito. A fraude do mesário, em que ele vota no lugar de pessoas que não foram votar. Então, quando a pessoa justifica a falta, percebe-se posteriormente que já votaram no lugar dela. Esse tipo de coisa acontece. Isso porque os mesários também concentram risco nas eleições, eles têm acesso privilegiado ao equipamento.


TecMundo: Mas como isso acontece, especificamente?


Diego Aranha: O mesário opera o equipamento e um eleitor que justificou o voto, por estar em outra cidade, observa posteriormente que o voto foi computado para o título de eleitor dele. O Tribunal Superior Eleitoral fez um cruzamento recentemente e acharam um volume, se não me engano, de dezenas de milhares de votos justificados, mas que receberam votos, que foram contabilizados. O TSE se manifestou de maneira inconclusiva, como se fosse uma questão dúbia. É evidente que foi uma fraude de mesários votando por pessoas que não foram votar.


Então, temos fraude eleitoral no Brasil. Temos compra de votos, temos fraude de mesário, temos modalidades menos tecnológicas de fraude eleitoral que ainda não são devidamente discutidas. Há uma preocupação excessiva com a urna, até porque o equipamento representa maior risco, mas existe fraude eleitoral no Brasil.


E quando a gente fala de dezenas de milhares de votos, estamos falando de algo decisivo em eleições de menor porte. Basta olhar para as recentes e diferentes eleições, como os resultados estão cada vez mais divididos e ao mesmo tempo apertados, como a eleição presidencial passada. Isso pode interferir nos resultados de uma eleição.


TecMundo: Fraudes menores passam despercebidas, certo? E com as eleições cada vez mais apertadas, isso pode fazer uma grande diferença...


Diego Aranha: As pessoas quando pensam em fraude, pensam em um cenário fictício e espetaculoso para uma fraude eleitoral. Mas, na verdade não é isso, às vezes são 500 votos que separam o primeiro do segundo turno. Aí tem um escândalo de corrupção prestes a estourar que vai fazer o candidato perder a eleição no segundo turno. Se ele consegue resolver ainda no primeiro, a vantagem é enorme. Então, sim, pode ser uma fração bem pequena de votos que decide os resultados.


Você apontou muito bem: a eleição presidencial passada e as nossas eleições daqui para frente serão muito polarizadas. A sociedade está se polarizando cada vez mais e fica cada vez mais complicado resolver disputas em resultados eleitorais, por isso transparência é tão importante.


As nossas eleições sempre vão ser muito disputadas. Se não tivermos um sistema minimamente auditável e transparente, isso só dificulta e atrapalha as coisas.


TecMundo: E o que poderia ser feito para aumentar a segurança das urnas e também tornar o processo eleitoral transparente?


Diego Aranha: No Brasil, utilizamos um sistema de votação com registro puramente eletrônico dos votos. Uma consequência direta desse fato é que tanto o sigilo do voto quanto a compatibilidade entre os resultados da eleição e a intenção do eleitorado dependem diretamente da qualidade do software de votação e de sua resistência contra manipulação por agentes internos e externos. Dessa forma, o aprimoramento do sistema passa não apenas pelo incremento de segurança do software de votação e de seus processos de auditoria, mas também da implantação de mecanismos que permitam ao eleitor verificar se o sistema registra sua intenção corretamente. Isso deve acontecer a partir de 2018, quando o TSE começará a implantar o voto impresso em 6% das urnas eletrônicos. É importante acompanhar esse processo para ver qual será o impacto no sistema. 

Também descobrimos que os mecanismos que protegem o software contra manipulação sofriam de falhas de projeto fundamentais. Todas as urnas compartilham o mesmo segredo para proteger o software de votação e isso está diretamente inserido no código-fonte do equipamento. Então, tem ao menos 500 mil cópias dessa informação às claras em cartões de memória, não dá nem para chamar isso de segredo. Mas não tivemos tempo de realizar um ataque em tempo real sobre essa vulnerabilidade, nos deram apenas três dias. Dois dias ficamos realizando ataques no sigilo do voto e o terceiro para montar o relatório e negociar com o TSE o que entraria no relatório. Então, tiveram vulnerabilidades que descobrimos, não atacamos ou exploramos, mas documentamos. 


TecMundo: E depois de tudo isso as urnas passaram por alguma atualização? 


Diego Aranha: Sim, o software mudou. Fisicamente é praticamente a mesma urna, mas algumas coisas mudaram. Em 2012, havia dois modelos principais: um que não tinha um módulo de segurança em hardware e outro que tinha esse módulo, mas não era usado para tarefas importantes. Esse módulo gera números aleatórios, exatamente para realizar esse embaralhamento de maneira segura; e também há um espaço para armazenar chaves para encriptar a mídia de maneira segura, mas não era usado assim... com o aparente argumento de que "se nem todas as urnas têm, nenhuma pode usar", o que não faz qualquer sentido em termos de segurança. 

Desde então, a fração das urnas com esse módulo em hardware com certeza aumentou. As urnas antigas vão saindo de operação e as novas já têm esse recurso. É claro que, entendo e acredito, que o TSE integrou alguns desses mecanismos, que já estavam lá e já haviam sido comprados, nas versões mais novas do software. Eu não tenho evidências disso, mas seria algo natural — foi até o que recomendamos no relatório. Todos esses equipamentos são custeados por impostos, é o mínimo que podem fazer. 


TecMundo: Os hackers estão cada vez mais jovens e o hacker brasileiro tem um certo costume de invadir sites por diversão, mesmo que falte um conhecimento técnico alto como atacante. Chegando para as urnas, é fácil se tornar um atacante desse sistema em específico? 


Diego Aranha: O que observamos é o seguinte: os mecanismos de segurança que estavam no sistema não ofereciam custo proibitivo para algum atacante minimamente sofisticado. Um atacante de eleições é um atacante muito bem equipado, politicamente e financeiramente, tanto que possuem milhões para comprar votos. 


Evidentemente eu também não sei se os atacantes de eleições brasileiras, como os políticos da velha guarda, possuem interesse real em fraudes tecnológicas. Eles têm vencido eleições do jeito antigo desde que o Brasil é Brasil. Não temos como especular. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que não deveríamos estar nessa posição, até porque do ponto de vista custo-benefício, é um ponto tentador de ataque. Se você compromete alguém, por exemplo, que esteja dentro do TSE para escrever software que vai roubar votos para alguém, isso tem (em tese) custo muito mais barato do que comprar 100 mil votos em uma cidade. É um ponto tentador de ataque, que concentra risco. Eu não sei se os partidos e os políticos já perceberam ou se preocupam com isso, até porque eles encontram outras formas de ganhar eleições. Mas o que é evidente é o seguinte: infelizmente, temos uma comunidade muito profícua em produção de software malicioso e fraude financeira. As condições técnicas, caso sejam transportadas para as eleições, estão lá — ou estavam lá em 2012. 

TecMundo: Ocorrem outros tipos de fraude? 

Diego Aranha: Nós temos outros tipos de fraude menos tecnológicas nas eleições brasileiras, mas se fala pouco a respeito. A fraude do mesário, em que ele vota no lugar de pessoas que não foram votar. Então, quando a pessoa justifica a falta, percebe-se posteriormente que já votaram no lugar dela. Esse tipo de coisa acontece. Isso porque os mesários também concentram risco nas eleições, eles têm acesso privilegiado ao equipamento. 

TecMundo: Mas como isso acontece, especificamente? 

Diego Aranha: O mesário opera o equipamento e um eleitor que justificou o voto, por estar em outra cidade, observa posteriormente que o voto foi computado para o título de eleitor dele. O Tribunal Superior Eleitoral fez um cruzamento recentemente e acharam um volume, se não me engano, de dezenas de milhares de votos justificados, mas que receberam votos, que foram contabilizados. O TSE se manifestou de maneira inconclusiva, como se fosse uma questão dúbia. É evidente que foi uma fraude de mesários votando por pessoas que não foram votar. 

Então, temos fraude eleitoral no Brasil. Temos compra de votos, temos fraude de mesário, temos modalidades menos tecnológicas de fraude eleitoral que ainda não são devidamente discutidas. Há uma preocupação excessiva com a urna, até porque o equipamento representa maior risco, mas existe fraude eleitoral no Brasil. 

E quando a gente fala de dezenas de milhares de votos, estamos falando de algo decisivo em eleições de menor porte. Basta olhar para as recentes e diferentes eleições, como os resultados estão cada vez mais divididos e ao mesmo tempo apertados, como a eleição presidencial passada. Isso pode interferir nos resultados de uma eleição. 

TecMundo: Fraudes menores passam despercebidas, certo? E com as eleições cada vez mais apertadas, isso pode fazer uma grande diferença... 

Diego Aranha: As pessoas quando pensam em fraude, pensam em um cenário fictício e espetaculoso para uma fraude eleitoral. Mas, na verdade não é isso, às vezes são 500 votos que separam o primeiro do segundo turno. Aí tem um escândalo de corrupção prestes a estourar que vai fazer o candidato perder a eleição no segundo turno. Se ele consegue resolver ainda no primeiro, a vantagem é enorme. Então, sim, pode ser uma fração bem pequena de votos que decide os resultados. 

Você apontou muito bem: a eleição presidencial passada e as nossas eleições daqui para frente serão muito polarizadas. A sociedade está se polarizando cada vez mais e fica cada vez mais complicado resolver disputas em resultados eleitorais, por isso transparência é tão importante. 

As nossas eleições sempre vão ser muito disputadas. Se não tivermos um sistema minimamente auditável e transparente, isso só dificulta e atrapalha as coisas. 

TecMundo: E o que poderia ser feito para aumentar a segurança das urnas e também tornar o processo eleitoral transparente? 


Diego Aranha: No Brasil, utilizamos um sistema de votação com registro puramente eletrônico dos votos. Uma consequência direta desse fato é que tanto o sigilo do voto quanto a compatibilidade entre os resultados da eleição e a intenção do eleitorado dependem diretamente da qualidade do software de votação e de sua resistência contra manipulação por agentes internos e externos. Dessa forma, o aprimoramento do sistema passa não apenas pelo incremento de segurança do software de votação e de seus processos de auditoria, mas também da implantação de mecanismos que permitam ao eleitor verificar se o sistema registra sua intenção corretamente. Isso deve acontecer a partir de 2018, quando o TSE começará a implantar o voto impresso em 6% das urnas eletrônicos. É importante acompanhar esse processo para ver qual será o impacto no sistema.





(*) Felipe Payão @felipepayaoCybercrime reporter. Repórter em @Tec_Mundo

Fonte: TecMundo


Veja também: 

sábado, setembro 24, 2016

Fraude Eleitoral em Capítulos 2.









E já que até hoje nada mudou, repetimos a matéria de novembro de 2014

Capítulo 1
O PSDB entrou a última quinta-feira (30 de outubro de 2014) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com um pedido de auditoria a fim de que se verifique a "lisura" da eleição presidencial.

Na solicitação apresentada pelo coordenador jurídico da campanha do candidato derrotado Aécio Neves, deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), o partido sugere a criação de uma comissão com representantes do tribunal e de partidos para verificar o sistema que apura e faz a contagem dos votos.

O texto protocolado diz que a confiabilidade da apuração e a infalibilidade da urna eletrônica têm sido questionadas pela população nas redes sociais.


Capítulo 2
O pedido ao TSE, encontra-se disponível no link a seguir:


Capitulo 3

Os Erros e a Inconsequência do PSDB

Na petição ao TSE prestem atenção ao que segue:


..Nas redes sociais os cidadãos brasileiros vêm expressando, de 

forma clara e objetiva, a descrença quanto à confiabilidade da apuração dos votos 
e a infalibilidade da urna eletrônica, baseando-se em denúncias das mais variadas 
ordens, que se multiplicaram após o encerramento do processo de votação, 
colocando em dúvida desde o processo de votação até a totalização do resultado.
O aguardo do encerramento da votação no Estado do Acre, 
com uma diferença de três horas para os Estados que acompanham o horário de 
Brasília, enquanto já se procedia a apuração nas demais unidades da federação, 
com a revelação, às 20h00 do dia 26 de outubro, de um resultado já definido e 
com pequena margem de diferença são elementos que acabaram por fomentar,
ainda mais, as desconfianças que imperam no seio da sociedade brasileira.


O PSDB deixa claro que quem duvida do sistema eleitoral brasileiro  é o cidadão e não propriamente o partido.


Capitulo 4

Porque então o cidadão brasileiro desconfia desse sistema?


Desde a eleição de 2006 a suspeita de Fraude nas Urnas Eletrônicas acompanha boa parte dos cidadãos e vem crescendo ao longo dos anos. Essa suspeita fica mais clara pesquisando-se no Google e encontrando-se centenas (milhares de compartilhamentos) de resultados envolvendo basicamente o engenheiro Amilcar Brunazo Filho e mais recentemente o também engenheiro e professor no Instituto de Computação da UNICAMP e especialista em Segurança Digital e Votação Eletrônica, Diego Aranha; que pode ser visto na entrevista a Danilo Gentili:



Capítulo 5

Seremos enganados novamente? O PSDB ajudará a passar recibo de honestidade a um sistema absolutamente vulnerável?

O plenário do Tribunal Superior Eleitoral negou nesta terça-feira (4) um pedido do PSDB para formar uma comissão de representantes de partidos para realizar uma auditoria nos sistemas de votação e totalização do resultado das eleições de 2014.

A corte, no entanto, liberou o fornecimento de dados e acesso a programas e arquivos eletrônicos usados no processo. Com as informações em mãos, o PSDB poderá fazer sua própria auditoria ou mesmo contratar uma verificação independente.(G1)

A resposta é sim e sim se o PSDB não se municiar de todos os mecanismos já existentes, de todas as descobertas já feitas e que podem ser vistas nos artigos a seguir:

Capítulo 6

Fraude Anunciada 4 dias antes das eleições?

Sim, pode-se chamar de fraude anunciada o documento de um partido de esquerda da Guatemala, o Alternativa Nueva Nación - ANN (perfil no Facebook), publicado não só no Facebook (aqui), mas também no site do Petê (aqui). Essa congratulação não esconde nem que o documento foi emitido em 22 de outubro de 2014, portanto 4 dias antes do segundo turno e muito menos a diferença de votos entre a presidentE e Aécio Neves. Mas é claro que todos esses links podem sumir da Internet num piscar de olhos (Nem sei porque não o fizeram ainda) e portanto printamos as páginas de cada link.







sexta-feira, novembro 07, 2014

Fraude Eleitoral em Capítulos.







Capítulo 1
O PSDB entrou a última quinta-feira (30) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com um pedido de auditoria a fim de que se verifique a "lisura" da eleição presidencial.



Na solicitação apresentada pelo coordenador jurídico da campanha do candidato derrotado Aécio Neves, deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), o partido sugere a criação de uma comissão com representantes do tribunal e de partidos para verificar o sistema que apura e faz a contagem dos votos.

O texto protocolado diz que a confiabilidade da apuração e a infalibilidade da urna eletrônica têm sido questionadas pela população nas redes sociais.

Capítulo 2
O pedido ao TSE, encontra-se disponível no link a seguir:

Capitulo 3
Os Erros e a Inconsequência do PSDB

Na petição ao TSE prestem atenção ao que segue:
...Nas redes sociais os cidadãos brasileiros vêm expressando, de 

forma clara e objetiva, a descrença quanto à confiabilidade da apuração dos votos 
e a infalibilidade da urna eletrônica, baseando-se em denúncias das mais variadas 
ordens, que se multiplicaram após o encerramento do processo de votação, 
colocando em dúvida desde o processo de votação até a totalização do resultado.
O aguardo do encerramento da votação no Estado do Acre, 
com uma diferença de três horas para os Estados que acompanham o horário de 
Brasília, enquanto já se procedia a apuração nas demais unidades da federação, 
com a revelação, às 20h00 do dia 26 de outubro, de um resultado já definido e 
com pequena margem de diferença são elementos que acabaram por fomentar,
ainda mais, as desconfianças que imperam no seio da sociedade brasileira.

O PSDB deixa claro que quem coloca o sistema eleitoral brasileiro é o cidadão e não propriamente o partido.

Capitulo 3
Porque então o cidadão brasileiro desconfia desse sistema?

Desde a eleição de 2006 a suspeita de Fraude nas Urnas Eletrônicas acompanha boa parte dos cidadãos e vem crescendo ao longo dos anos. Essa suspeita fica mais clara pesquisando-se no Google e encontrando-se centenas (milhares de compartilhamentos) de resultados envolvendo basicamente o engenheiro Amilcar Brunazo Filho e mais recentemente o também engenheiro e professor no Instituto de Computação da UNICAMP e especialista em Segurança Digital e Votação Eletrônica, Diego Aranha; que pode ser visto na entrevista a Danilo Gentili:



Capítulo 4
Seremos enganados novamente? O PSDB ajudará a passar recibo de honestidade a um sistema absolutamente vulnerável?


O plenário do Tribunal Superior Eleitoral negou nesta terça-feira (4) um pedido do PSDB para formar uma comissão de representantes de partidos para realizar uma auditoria nos sistemas de votação e totalização do resultado das eleições de 2014.

A corte, no entanto, liberou o fornecimento de dados e acesso a programas e arquivos eletrônicos usados no processo. Com as informações em mãos, o PSDB poderá fazer sua própria auditoria ou mesmo contratar uma verificação independente.(G1)

A resposta é sim e sim se o PSDB não se municiar de todos os mecanismos já existentes, de todas as descobertas já feitas e que podem ser vistas nos artigos a seguir:
- O TSE e a descoberta do programa de fraude nas Urnas.
- Dilma virou o jogo com quase 90% dos votos apurados.

Capítulo 5
Fraude Anunciada 4 dias antes das eleições?

Sim, pode-se chamar de fraude anunciada o documento de um partido de esquerda da Guatemala, o Alternativa Nueva Nación - ANN (perfil no Facebook), publicado não só no Facebook (aqui), mas também no site do Petê (aqui). Essa congratulação não esconde nem que o documento foi emitido em 22 de outubro de 2014, portanto 4 dias antes do segundo turno e muito menos a diferença de votos entre a presidentE e Aécio Neves. Mas é claro que todos esses links podem sumir da Internet num piscar de olhos (Nem sei porque não o fizeram ainda) e portanto printamos as páginas de cada link.

ANN-Perfil no Facebook


ANN-Documento no Facebook


O Documento constante no Site do Petê e no Perfil de Facebook do ANN
Mais explícito? Impossível

Site do Petê e as Felicitações Fraudulentas




Aguardemos pois, se teremos que engolir as Urnas e o Petê eternamente ou se enfim tomarão vergonha na cara e acabarão com esse sistema absolutamente vulnerável.

sexta-feira, junho 01, 2012

Falha na urna brasileira ‘reproduzia fielmente’ erro de 1995.









O Prof. Dr. Diego Aranha, da Universidade de Brasília, foi o responsável por liderar a equipe que descobriu, em março, uma falha na urna eletrônica brasileira durante um teste de segurança autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O professor conversou com a coluna Segurança Digital do G1 para explicar melhor o problema que foi descoberto – que permite reordenar votos – e fazer outras observações sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Prof. Dr. Diego Aranha, da UnB. (Foto: Emília Silberstein/UnB Agência)  




Se tiver alguma dúvida sobre termos técnicos usados na entrevista, confira o glossário no final da página. O TSE também comentou alguns dos pontos levantados pelos professor e as observações do tribunal estão ao final da entrevista. Se você tiver qualquer dúvida, utilize a área de comentários.

G1 – Quando começou seu interesse por sistemas de voto eletrônico?
Diego Aranha – Meu interesse começou quando cursei a disciplina Segurança de Dados, ministrada pelo Prof. Pedro Rezende, enquanto aluno de Ciência da Computação da Universidade de Brasília. Naquela época, o referido professor já estava envolvido na discussão em torno da questão e trazia a problemática com alguma frequência para discussão em sala de aula.

G1 – O teste da sua equipe conseguiu reordenar os votos registrados no RDV. O que está presente no RDV, quem tem acesso a ele e por que a ordem deve ser embaralhada?
Diego Aranha - O Registro Digital do Voto (RDV) é uma tabela que armazena desordenadamente os votos propriamente ditos inseridos pelos eleitores na urna eletrônica. O objetivo desse embaralhamento dos votos é desassociar a ordem em que os votos foram inseridos da ordem em que foram armazenados.

O RDV foi introduzido no lugar do voto impresso para supostamente permitir a mesma capacidade de verificação independente dos resultados da urna. Por essa razão, é um documento público disponibilizado para os partidos após as eleições. Entretanto, enquanto o voto impresso permite de fato a verificação independente dos votos computados eletronicamente, o RDV é produzido pelo mesmo componente de software que produz o Boletim de Urna (BU) contendo os totais de cada candidato computados pela urna. Desta forma, qualquer ataque que comprometa a integridade do BU pode também comprometer o RDV.

Pode-se concluir, portanto, que o RDV não serve a nenhum propósito prático, além de permitir a violação do sigilo do voto caso seja projetado e implementado de forma insegura.

G1 – Seria possível ter conseguido o que vocês fizeram sem o acesso ao código fonte? O erro que havia no registro do RDV era complexo ou amador?
Diego Aranha - Não teria sido possível com o curto limite de tempo disponível para os testes — em torno de apenas 6 dias, divididos em fases de preparação e avaliação. Ainda assim, não se pode assumir que a segurança do RDV ou qualquer outro componente do sistema eletrônico de votação depende exclusivamente da confidencialidade do código-fonte ou dos detalhes técnicos dos mecanismos de segurança que os protegem.

Segurança advém de simplicidade de transparência. Para tanto, deve-se assumir que potenciais fraudadores conhecem os sistemas envolvidos em seus mínimos detalhes, mesmo porque absolutamente nada impede que os ataques partam de agentes internos. A área de Segurança da Informação utiliza essa noção de segurança há quase 130 anos.

A vulnerabilidade presente no projeto e a implementação do RDV que utilizamos para reconstruir a lista dos votos em ordem reproduzia fielmente outra vulnerabilidade encontrada sem ajuda de código-fonte em 1995 por calouros da Universidade de Berkeley na versão 1.1 do navegador Netscape. O software da urna eletrônica, de natureza muito mais crítica que um simples software comercial, possuía um erro conhecido há pelo menos 17 anos.

Em termos mais técnicos, a urna utiliza um gerador de números pseudoaleatórios para produzir a ordem de embaralhamento dos votos. A segurança desse gerador depende de suas características estatísticas e da aleatoriedade e sigilo de sua semente. O software da urna não só utilizou um gerador de baixa qualidade estatística, como também utilizou uma tomada de tempo claramente não-aleatória com resolução de segundos para alimentar o gerador de números pseudoaleatórios.

Além disso, esta tomada de tempo era tornada pública tanto nos logs quanto na impressão da chamada zerésima. A vulnerabilidade encontrada advém, portanto, da utilização de uma técnica criptográfica fora de seus limites de operação.

G1 – Até que ponto você entende que o sigilo do voto foi comprometido?
Diego Aranha - Para violar completamente o sigilo do voto, é preciso se recuperar a lista em ordem dos votos e a lista em ordem dos eleitores.

Após o fim dos testes no TSE, também recebemos a informação de que a urna registra em arquivo de acesso público a hora em que cada voto foi computado. Nossa metodologia é capaz de recuperar a lista em ordem dos votos e, se associada ao horário em que cada voto foi computado, também as escolhas de um eleitor que votou em um determinado horário. Para se fazer a correspondência completa entre as identidades dos eleitores e suas escolhas durante a votação, é preciso apenas que se monitore a ordem de votação dos eleitores ou a hora em que tiveram acesso à urna eletrônica.

Entretanto, eu gosto de ver a questão por outro ângulo: derrotamos o mecanismo de embaralhamento do votos para armazenamento no RDV, única medida tomada pelo software da urna eletrônica para proteger o sigilo dos votos.

G1 – O número do título de eleitor ou outro documento que o identifica é armazenado na urna? Ele poderia ser atrelado ao voto?
Diego Aranha -A lista de títulos de eleitores habilitados para aquela seção eleitoral é armazenada dentro da urna eletrônica, para controle de comparecimento e para permitir que o mesário libere o acesso à urna apenas com um título de eleitor válido. Existe um período de tempo, após a liberação da urna pelo mesário e até o término da interação entre eleitor e urna eletrônica, em que essas duas informações precisam estar presentes simultaneamente na memória do equipamento.

Recuperar essa correspondência durante esse período de tempo requer acesso ao ambiente interno à urna ou inserção de um programa malicioso que faça o registro permanente da informação. Durante os testes, estávamos concentrados em metodologias de ataque não-invasivas e que não deixassem nenhum vestígio, por isso optamos por analisar apenas os produtos públicos de uma votação oficial.

G1 – Como você avalia o procedimento de testes elaborado pelo TSE e a avaliação que a comissão fez do teste que vocês realizaram?
Diego Aranha - A iniciativa de organizar os testes é muito louvável, pois permite a fiscalização e avaliação da segurança do sistema por investigadores independentes. Entretanto, o tempo disponibilizado é muito curto para se executar qualquer metodologia sofisticada. Observe que potenciais atacantes podem, a partir de poder econômico ou político, desfrutar de um período de tempo muito maior para tentar organizar uma fraude em pequena ou larga escala.

Enquanto inicialmente o TSE se manifestou de forma extremamente positiva à contribuição que demos ao aperfeiçoamento do sistema, a Comissão Avaliadora do evento, apontada pelo próprio TSE, optou por penalizar significativamente nossa participação. Por exemplo, nossa metodologia foi qualificada como tendo objetivo de causar uma falha ao invés de uma fraude no sigilo ou integridade de uma votação eletrônica. Entretanto, nossa urna eletrônica não apresentou nenhuma falha e funcionou durante seus limites de operação por todo o tempo. Não seguimos nenhum procedimento que não seria realizado em uma votação oficial.

Como resultado, fomos premiados ainda em primeiro lugar, mas com uma pontuação pífia de 0.0313 numa escala que vai de 0 a 400.

G1 – Existe mais alguma questão técnica da urna que merece atenção?
Diego Aranha - Encontramos no software da urna eletrônica uma série de práticas indesejáveis do ponto de vista de segurança. Por exemplo, todas as mídias são cifradas com a mesma chave criptográfica. O vazamento desta chave criptográfica por uma única vez abre simultaneamente todas as mídias de todas as urnas para inspeção e possível manipulação por parte de agentes mal-intencionados. Curiosamente, essa chave criptográfica estava declarada no código-fonte e acessível para qualquer um dos investigadores.

A integridade de parte do software da urna eletrônica também parecia não estar sendo verificada, por conta da desativação de uma linha crítica do código-fonte. As máquinas dedicadas à exibição do código continham também informações de usuários, senhas e servidores na rede interna responsáveis pelo versionamento do software desenvolvido.

Além disso, também observamos algoritmos obsoletos (não-recomendados desde 2005) ou funcionando fora de sua especificação e com implementações repetidas diversas vezes ao longo do código, o que em muito dificulta uma auditoria do seu funcionamento correto.

Por fim, verificamos também que não existe a utilização frequente de ferramentas de análise de código-fonte, visto que a vulnerabilidade encontrada no embaralhamento do RDV utiliza uma função que produz alertas até nas ferramentas de análise gratuitas e mais primitivas.

Em relação ao processo de desenvolvimento do software, detectamos na interação com o pessoal técnico do TSE uma preocupação exagerada com atacantes externos, quando acreditamos que atacantes internos possuem uma possibilidade muito maior de executar fraudes em larga escala.

A equipe já se colocou à disposição do TSE para ministrar palestra tratando especificamente dos problemas encontrados, mas até agora não houve convite concreto para tal.

G1 – E o processo eleitoral brasileiro como um todo – como você avalia? O que deveria melhorar?
Diego Aranha - Os testes se concentraram na urna eletrônica, mas gostaria de que a mesma metodologia permitisse a investigadores independentes avaliar a segurança de outros componentes do sistema eletrônico de votação, como o totalizador centralizado dos Boletins de Urna. Ataques a outros componentes do sistema podem não só atrasar significativamente a apuração e divulgação dos resultados como fragilizar a confiabilidade e reputação da autoridade eleitoral.

Em termos mais gerais, o maior problema do sistema de votação eletrônica no Brasil é a carência de qualquer forma que permita ao eleitor verificar que seu voto foi computado corretamente. No modelo de urna eletrônica atualmente adotado no Brasil, a integridade do resultado das eleições depende unicamente da integridade do software de votação que é executado dentro da urna. Já foi mostrado que esse software é como qualquer outro, passível de vulnerabilidades.

Portanto, é imprescindível que seja introduzido algum mecanismo para verificação independente da integridade dos resultados. A proposta do voto impresso, ou voto verificável pelo eleitor, consiste exatamente em produzir uma versão materializada do voto em algum veículo que permita contagem posterior sem permitir simultaneamente que o eleitor possa comprovar sua escolha para uma terceira parte interessada.

A contagem dos votos impressos pode ser feita por amostragem apenas, sem impacto significativo na velocidade totalização dos resultados eletrônicos. Esta é forma mais simples e compatível com o sistema atual para se permitir a verificação da integridade do resultado, independente da integridade software, para que assim a urna brasileira satisfaça a requisitos mínimos e plausíveis de segurança.

Outro lado
O TSE foi consultado pelo G1 sobre as principais observações feitas pelo Prof. Dr. Diego Aranha e se defende das alegações. Veja a íntegra do posicionamento do TSE.

G1 – As mídias eletrônicas onde são gravados todos os votos das urnas eletrônicas é cifrada pela mesma chave. Isso é verdade?
TSE – A utilização de criptografia é apenas uma de inúmeras barreiras de segurança.

A afirmação de chave única, se vista isoladamente, não procede. A cada eleição, o TSE gera e cifra uma única desse sistema de arquivos que é gravada nas mais de 400 mil urnas eletrônicas. Por critério de segurança, esta mídia é cifrada por uma única chave, com o objetivo de evitar ataques criptoanalíticos baseados em estimadores estatísticos. Portanto, qualquer outro procedimento, como o de utilizar-se de várias chaves para cifrar o mesmo conteúdo com o objetivo de prover sigilo, torna por si só o resultado fragilizado. Por esse motivo, a cada eleição, o TSE gera uma chave que é utilizada para manter sigilo da mídia que é gravada em cada Urna.

G1 – O professor Diego Aranha diz que gostaria que houvesse testes também no sistema que totaliza os votos dos boletins de urna. O TSE pretende realizar algo nessa linha?
TSE – Ao final de cada votação, ainda na seção eleitoral, a urna imprime em até 20 vias o resultado da votação naquela seção. Esse relatório chama-se Boletim de Urna (BU) e algumas dessas vias podem ser entregues aos fiscais dos partidos. Nesse momento, o resultado da urna se torna público.

Desta forma, torna-se simples a verificação da integridade da totalização das eleições. Isso porque os fiscais de partido podem comparar essas cópias impressas dos Boletins de Urna de cada seção eleitoral com o resultado recebido, totalizado e publicado pela Justiça Eleitoral (disponível na Internet). Assim, a simples comparação do resultado recebido pelo fiscal e o processado na JE é suficiente para qualquer interessado criar sua própria totalização e verificar individualmente o resultado de cada urna eletrônica.

G1 – Ainda segundo o professor, o TSE coloca uma preocupação muito grande na atuação de agentes externos ao processo. Quais as medidas que o TSE tem tomado para evitar a ação de agentes internos (colaboradores e funcionários do próprio TSE)? Quem tem acesso à chave usada para cifrar as mídias (pergunta 1)?
TSE – A segurança do sistema eletrônico de votação não depende somente de pessoas, ela permeia todo o processo, desde o TSE até os tribunais regionais e cartórios eleitorais, e se baseia na utilização em conjunto e em vários momentos de técnicas de criptografia, assinatura digital e segregação de funções. É inviável que agentes internos realizem fraudes sem o registro de rastros para a auditoria.

G1 – O professor disse também que uma linha importante do código fonte estava desativada durante a análise permitida aos investigadores. Essa linha, segundo ele, era responsável por verificar a integridade/autenticidade do software. O TSE sabia que essa linha estava desativada?
TSE – O TSE não pode emitir opinião por desconhecimento do conteúdo da alegação, uma vez que não está presente no relatório do professor sobre o teste.

G1 – O professor Diego defendeu a introdução de um mecanismo de impressão do voto por amostragem, como proposto em lei. Essa legislação está atualmente suspensa por decisão do STF, se não me engano. O TSE tem alguma posição sobre a impressão do voto conferível pelo eleitor?
TSE – Na mesma audiência pública citada anteriormente, o Prof. Walter Carnielli (matemático e filósofo, CLE e IFCH-UNICAMP) fez uma apresentação intitulada “Sistema de votação, falsa segurança e a qualidade da democracia”.

Nesta apresentação, o Prof. Carnielli demonstrou que existe um balanço delicado entre privacidade (sigilo) e verificabilidade (verificação do voto eletrônico com outro meio duplicado, no caso o voto impresso) nas votações eletrônicas.

Segundo ele, as urnas do tipo das utilizadas atualmente nas eleições brasileiras (tipo DRE ou Direct-Recording Electronic) seriam passíveis de perfeita privacidade, embora com menor verificabilidade. Carnielli afirma que é matematicamente impossível atingir privacidade e verificabilidade absoluta e que, portanto, não há sentido na crítica de que “pesa a mão” apenas na verificabilidade (falta do voto impresso).

A pretensa solução defendida na legislação suspensa pelo STF, oferecia apenas uma falsa (e cara) sensação de segurança, como mostrou Carnielli. Não há qualquer critério sobre como seriam escolhidas as urnas da amostragem de cada Zona Eleitoral, nem se leva em conta a distribuição das urnas no país. Sem um estudo amostral de aleatoricidade, o voto impresso dará uma segurança ilusória de credibilidade a um custo extremamente alto.

Um equívoco muitas vezes repetido é a afirmação de que a “urna eletrônica brasileira é de segunda geração”, comparando-a com as urnas argentinas e peruanas que seriam de “terceira geração”. A própria noção de ‘geração’ tem origens comerciais, nas empresas que vendem ao Peru e à Argentina suas urnas, e não tem nenhum fundamento mais profundo.

Querer enfatizar um dado comercial ou o fato de se ter descoberto, num teste público, uma fraqueza técnica que pode ser consertada e a partir daí defender medidas sem a devida cautela é ameaçar a democracia.

Glossário

Agentes internos: colaboradores, funcionários e pessoas ligadas à própria empresa ou instituição; se diferenciam dos agentes externos, que são pessoas de fora.
Algoritmo – Sequência lógica e matemática executada por um software para realizar um determinado cálculo, processamento ou decisão automatizada.
Chave criptográfica - Como uma chave comum é capaz de abrir uma porta, a chave criptográfica é o “segredo” que um computador precisa conhecer para acessar (decifrar) dados cifrados.
Cifrar – Procedimento de segurança que torna uma informação ilegível para pessoas que não tenham a chave de acesso (chave criptográfica).
Integridade de software: Um programa de computador, como o que opera a urna eletrônica, pode sofrer alterações não autorizadas. Checagens de integridade garantem que o software em uso é idêntico ao que foi desenvolvido e autorizado para distribuição.
Log: Arquivo que registra eventos, incidentes e outras informações técnicas sobre um sistema ou software. Costuma trazer a hora e a data de quando algo aconteceu. O “histórico” do navegador de internet, que registra as páginas visitadas, é um tipo de log.
Semente: Computadores não podem “gerar um número qualquer”. Quando isso é necessário, usa-se um “gerador de números pseudoaleatório”, que retorna uma sequencia programada e previsível (não aleatória) de números. No entanto, quando um valor especial é fornecido para servir de base aos cálculos do gerador, os números serão diferentes, criando uma variação imprevisível sem o conhecimento do valor. Esse valor especial é chamado de “semente”.
Versionamento - Controle de alterações (versões) de um documento ou código fonte de um software para facilitar o trabalho em equipe. Em ambientes de desenvolvimento, programadores acessam o software de versionamento para baixar códigos, efetivar alterações e tomar conhecimento de modificações realizadas por outros colaboradores.
Zerésima: Relatório emitido pela urna para provar que ela está zerada antes da votação.




Fonte: G1 
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