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domingo, abril 08, 2018

Lula preso: talvez, o fim do começo da guerra contra a corrupção




por Lucas Baqueiro(*).



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente foi preso, depois de uma longa negociação para se entregar às autoridades. Depois de tetricamente se refugiar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, lugar que simbolicamente marcou o início e o fim da sua longa e criminosa carreira política, agora ele está sob custódia da Polícia Federal. Só o futuro pode dizer se Lula não sairá mais do seu habitat natural, a cadeia.

Tudo se deu numa sequência muito rápida, para quem espera justiça há muitos anos. Na quarta-feira, foi a julgamento no Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus mixuruca, a última cartada da defesa do petista para impedir que ele iniciasse o cumprimento provisório da pena. O suspense tomou conta do país, pois o voto da ministra Rosa Weber era um mistério. Grande inquietação tomou conta do país, manifestações tomaram as ruas, e todos liam assustados reverberações sobre mensagens no Twitter do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, que soaram como ameaça velada de golpe militar.

Em sessão longa, que atravessou tarde, noite e madrugada, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus. O voto de Rosa Weber foi computado contra o líder do Partido dos Trabalhadores. Apesar da ordem, ainda havia muita incerteza: como a prisão não era dada como certa pelos próximos dias, temia-se que Lula recebesse algum outro salvo-conduto do Poder Judiciário, ou que fugisse do país, ficando impune.

Na quinta-feira, brasileiros preocupados com os rumos políticos do país almoçaram sem apetite, não imaginando que o melhor viria na sobremesa: perto do meio-dia, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, incensado pela militância petista como algoz do ex-presidente, expediu ordem de prisão contra Lula. A ordem era clara: Lula tinha até as cinco da tarde da sexta-feira para se apresentar na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, na capital mais fria do Brasil.

Lula começou a ser monitorado pela Polícia Federal a partir daquele momento. Fugir deixou de ser uma opção. Como um ator nato, que se sustenta com base em narrativas, resolveu então encenar o seu último ato. O palco principal seria o prédio do sindicato que o revelou para o Brasil e o mundo.

Desde o seu último refúgio, recebeu visitas de todos os seus puxa-sacos. Ficaram com ele, lado a lado, Dilma Rousseff, sua sucessora e parceira de crimes; Eduardo Suplicy, a mulher violentada com síndrome de Estocolmo, que não cansa de apanhar; Guilherme Boulos, o candidato do PSOLula; Manuela d’Ávila, que diz que é candidata à presidência; Gleisi Hoffmann, que em breve frequentará a mesma carceragem do chefe; e grande elenco. Imensa massa de sindicalistas pelegos, militantes aloprados, petistas alucinados, membros do Movimento Sem-Terra, subcelebridades contaminadas pelo vírus do lulismo, amontoaram-se ao redor do bunker do Führer tupiniquim. “Resistir com Lula” era a senha.

Badalaram as cinco da tarde no relógio, na sexta-feira. Em aberta zombaria, a militância fez a contagem regressiva. Lula não se entregou: preferiu ficar comendo picanha e tomando cerveja, tentando ganhar mais um dia sem comer arroz ou feijão frio, macarrão sem molho, salsicha ou frango, prato típico do xilindró. Dava mais tempo para planejar o show final.

No sábado pela manhã, realizou-se uma missa-showmício, bastante apropriada para a religião lulista. Dizia-se que era em comemoração pelo aniversário da falecida Marisa Letícia, ex-primeira dama do presidente Lula, que escapou de cumprir pena graças à morte. A missa foi comandada por Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, secundado por músicas de Gonzaguinha, Manuela d’Ávila fazendo o sinal da cruz, sob a assistência de Lula, reverentemente assistindo à eucaristia com um copo de cerveja na mão.

Terminado o ato religioso, era hora do discurso fúnebre, o último de Lula antes de sair da cela. Foi, honestamente, um dos mais patéticos já assistidos. Falou que a grande motivação de sua prisão era o fato de que “eles, os meninos do Ministério Público, não gostam que o pobre coma carne, que o pobre ande de avião, que o pobre vá para a universidade”. Disse que “eles querem Lula preso para não poder falar, mas Lula continuará falando pela boca de cada um”; que “mesmo que me matem, meu coração continuará batendo em cada um”. Que “nunca vão prender o Lula, porque Lula não é mais uma pessoa, é uma ideia”. Cada chavão bizarro da narrativa petista foi dito, por quase uma hora, para uma multidão ensandecida diante do messias da corrupção. Cônscio de que não havia escapatória, anunciou que iria se entregar.

Terminado o showmício travestido de missa, Lula tornou a se esconder dentro da sede do Sindicato. Ao anoitecer, num ato patético, fingiu que ia tentar sair, foi impedido por sua massa de manobra e voltou sorridente para dentro, como se magnanimamente dissesse que o povo estava disposto a resistir por ele. A farsa não durou muito, porque no microfone do palco, a senadora Gleisi Hoffmann anunciava: era melhor desmontar o circo, porque a Polícia Federal estava dando meia hora para que o bandido se entregasse; caso contrário, mais gente ia ser responsabilizada por obstrução da justiça.

Dali em diante, não tinha mais jeito: Lula seria preso. A pé, atravessou os portões do sindicato, soltando beijos e tchauzinhos para sua multidão de comparsas. E entrou, por fim, no carro da Polícia Federal, com direção ao aeroporto de São Paulo, para dali, iniciar sua pena cumprida em Curitiba. Às dez da noite, matou a saudade da cadeia, lugar de onde o Brasil espera que não saia até cumprir o último dia de sua condenação.

Com imensa desfaçatez, a militância petista proclamou: “para os coxinhas é o fim da corrupção no Brasil”. A única frase que podemos reservar é aquela célebre de Winston Churchill, quando de grande sequência de vitórias dos Aliados sobre o Eixo: “Agora, isto não é o fim. Nem sequer é o começo do fim. Mas é, talvez, o fim do começo”.

O simbolismo de um ex-presidente da República preso por corrupção é imenso para toda a classe política. Ninguém poderá dormir tranquilo em seus travesseiros de pena de ganso, esperando impunidade e roubalheira até o último dos seus dias. É a verdadeira proclamação de que nenhum brasileiro, por mais que componha a seleta nobreza dos políticos, está acima da lei, máxima constitucional tão ignorada desde sempre. A república estende seus punhos crispados a cada malfeitor conforme o seu demérito.

É o fim do começo para inúmeros outros políticos que se valeram até agora de seus cargos para benefício próprio, em malefício do povo. Michel Temer, Aécio Neves, Moreira Franco, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, Romero Jucá, entre outros bandidos que receberam voto popular e acreditam que, por isso, foram ungidos da lei, já não podem descansar em paz, sabendo que dificilmente escaparão do destino de Lula.

O fim, mesmo, é só para Lula, cujas esperanças de ocupar a presidência da República outra vez para rapinar, colocar o seu vezo caudilhista e ditatorial para fora, demolir a liberdade de imprensa, encher os bolsos de dinheiro público para si e seus filhos, acabaram hoje. Seu endereço não será mais o Palácio do Planalto, de onde comandou o maior saque jamais visto dos cofres do país; será, se Deus quiser – porque o Brasil inteiro quer! – algum presídio nos arredores de Curitiba. Que esquente a cela para seus comparsas de todos os partidos, que logo se somarão a ele.

Muita gente diz que é um momento triste, que não há o que comemorar, que é lamentável um ex-presidente do Brasil ser preso. Sentimos muito por quem acha triste. Para muitos de nós, é um momento de imensa alegria e júbilo. Comemoramos a verdadeira proclamação da república, porque todos os homens são a partir de hoje responsáveis pelos seus atos.

(*)Lucas Baqueiro -Liderança do Livres no sertão de Pernambuco
Fonte - Revista Amálgama (www.revistaamalgama.com.br)

sábado, junho 10, 2017

Sobre a hediondez e nobreza no terror



Os atos desses terroristas são uma opção existencial, que é a repugnância em si.


por Paul Berman, Tablet
tradução de Fabrício de Moraes
por Amálgama Traduções



Os ataques terroristas expressam ódio, e seria desumano, seria tolo, seria insensato, seria uma espécie de autoengano responder com algo que não seja o nosso próprio ódio – não um ódio cego e louco, nem com insanidade, mas com ódio, não obstante.

Não me importo com o que as histórias de vida dos vários terroristas londrinos revelar-se-ão ser, assim como não me importo com a história de vida do terrorista de Manchester. Ora, o terrorista de Manchester teve que sofrer as indignidades de ser um muçulmano vivendo numa sociedade não-muçulmana que foi suficientemente generosa a ponto de oferecê-lo uma vida decente? Os sofrimentos dele não me interessam. Estou escrevendo imediatamente após os ataques de Londres, e não sei absolutamente nada sobre esses novos terroristas – nem mesmo seus nomes, por ora. Não me importo com o nome deles. Será o caso de que também essas pessoas, os terroristas de Londres, sofreram as indignidades da vida cotidiana? Será o caso de que os terroristas eram pessoas que foram mal na escola, ou que talvez foram presos por dirigirem embriagados? Ou será que eram pessoas que foram bem na escola e jamais foram presas? É-me indiferente.

Não creio que os atos terroristas sejam expressão de angústia psicológica, nem o subproduto maléfico do imperialismo britânico, ou do sionismo. Os atos desses terroristas são expressões de sua própria doutrina, e nada mais. São uma opção existencial, que é a repugnância em si. Jamais existiu um movimento mais horrendo do que o terrorismo islamista. Existiram movimentos mais poderosos. Mais horrendos, não. O terror islamista é definitivo em sua torpeza.

Cada novo relatório de uma atrocidade terrorista traz consigo notícias de pessoas que responderam nobremente. No show em Manchester, dois moradores de rua, segundo o relato, se prontificaram imediatamente. Esses indigentes estavam no nível mais baixo da camada baixa, contudo eram homens de espírito e com um senso moral, e se dispuseram na ocasião. Estou escrevendo uma ou duas horas depois dos relatos dos attentats de Londres terem sido noticiados, e não sei quem serão as pessoas que responderam bem e de modo nobre aos ataques.



Entretanto, o The New York Times já publicou uma foto da agência Reuters, tirada por Hannah McKay, mostrando sete policiais e abaixo a legenda: “Policiais responderam ao ataque na London Bridge, na noite de sábado”. Responderam? Há sete policiais na foto, um dos quais possivelmente é uma mulher, e eles estão correndo a toda velocidade, os pés pairando sobre o asfalto. A visão dessa foto me faz inspirar profundamente. Esses policiais estão correndo em direção ao perigo, em direção ao seu dever, em direção à responsabilidade que a sociedade colocou sobre seus ombros, em direção a um grau de violência que não se pode conhecer. Eis aqui a nobreza.

A foto me faz parar por um momento a fim de refletir sobre o presidente dos Estados Unidos. Eu o imagino correndo para outra direção – para longe da responsabilidade da América para com o mundo, para longe da obrigação da América em liderar, para longe do destino histórico da América de convocar o mundo com vistas a objetivos superiores. Mas esqueçamos o presidente.

A visão dos policiais me comove. Eles estão avançando com um plano bem concebido? Estão suficientemente bem treinados? Terminarão, acidentalmente, fazendo a coisa errada? Estão se expondo a um risco excessivo? Eles não sabem, e eu não sei. Sei somente que, até que novas informações cheguem, meu coração e alma estão com eles.

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Paul Berman é autor, entre outros, de Terror and liberalism e The flight of the intellectuals.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Quem me dera fossem minhas palavras inscritas em pedras



por Fabricio Moraes




🔺Como verdadeiros libelos revolucionários, alguns jornais publicaram, nestes últimos dias, a notícia de que todos os esforços levados a cabo por certo prefeito para a limpeza de sua cidade constituem-se ingratamente como uma tarefa de Sísifo, já que pichadores, como represália, tornam-se cada vez mais ousados, emporcalhando agora lugares de difícil acesso. Num primeiro momento, a solução fácil que se apresenta é a supressão ou punição dos pichadores[1], o que não é de todo injusto, visto que alguns, de fato, recorrem ao vandalismo, como foi o caso do Museu da República, em fins de novembro de 2016, ou em janeiro de 2015, na Catedral Nossa Senhora dos Prazeres, igreja matriz de Itapetininga (SP), em cujos portões picharam símbolos supostamente satânicos (embora pertençam mais ao universo da pop art e dos álbuns de black metal) e dizeres em latim macarrônico.

De todo modo, é preciso, como de costume, compreender a fonte principal de legitimidade do movimento. Em certa discussão, dentro da academia, sobre o “caráter artístico” da pichação, os preletores distinguiram, antes de tudo, entre grafite e pichação, citando, como sempre, o norte-americano Basquiat, para eles paradigma de excelência técnica e consciência artística, com o intuito de legitimar academicamente o status de arte do primeiro movimento. Naquele momento, ainda crente na compatibilidade entre a reta razão e os acadêmicos, declarei que jamais me deparara com qualquer atributo artístico na pichação, e pelos seguintes motivos:

1) a pichação, no mais das vezes, reduz-se a simples emblemas – égides ou brasões esvaziados de complexidade ou beleza – de determinados grupos, de acordo com um código circunstancial, efêmero e conhecido apenas pelos grupos que integram esse universo. Isto é, a pichação, por sua própria natureza, jamais pode se configurar como um símbolo cultural ou artístico, pois é incapaz de transcender seu aspecto circunstancial.

2) devido ao seu caráter emblemático ou representativo, e segundo o próprio movimento interno dos pichadores que é, a grosso modo, territorial (isto é, as inscrições dos pichadores atuam como marcos temporários de conquista territorial, que podem, a qualquer momento, ser suprimidos ou rasurados por grupos opostos, embora alguns deles se pautem num código ético que proscreve o overwriting), a pichação é reproduzida em escala “bélica”, avançando irrefreável e geograficamente com o intuito de assinalar ou demarcar um grupo ou pichador específicos. Nesse sentido, os próprios intelectuais progressistas, que citam a granel o artigo de Walter Benjamim (“A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”) – que já foi alçado à categoria de texto sagrado ou ritual iniciático nas Humanidades brasileiras –, e que defendem o caráter artístico da pichação, terminam, eventualmente, na posição dilemática, para não dizer contraditória, de defender, legitimar e elevar à condição de arte uma atividade técnica (a pichação) que se vale da própria repetição maciça para fazer-se notar. O conceito benjaminiano de “aura”, a unicidade da obra de arte e a concepção renascentista de que a arte é um corpo real no qual se projeta a luz do ideal não são, nesse domínio, factíveis.

3) há uma problemática do suporte, no universo das pichações, que por vezes inviabiliza a própria expressão artística. É o caso de Banksy, talvez o mais famoso artista de rua na contemporaneidade, que inscreveu em alguns muros nas áreas mais caras de Londres os seguintes termos: DESIGNATED GRAFFITI AREA [Área Designada para Grafite]; para em seguida compor seus superestimados grafites. Theodore Dalrymple, referindo-se a essas circunstâncias, observa:

Banksy afirma que todo espaço público deveria ser disponibilizado para a autoexpressão por parte do povo, esquecendo-se de que a maioria das pessoas talvez queira se expressar deixando elegantes muros brancos elegantemente brancos. Mas, daí eles são apenas pessoas, não o povo – uma distinção crucial na mente de Banksy
.

De fato, em alguns casos, a possibilidade da “arte de rua” (que aqui inclui o grafite e a pichação), especialmente nos casos mais ousados e politicamente “questionadores”, se dá justamente na negação, transgressão ou invasão da propriedade privada. É o caso de seu trabalho Red Carpet Rats, num dos muros do luxuoso hotel Ritz em Londres, em que compara seus hóspedes e funcionários a ratos sendo recepcionados por um tapete vermelho que conduz a um buraco. Na típica ironia autofágica da contemporaneidade, celebridades como Brad Pitt e Christina Aguilera, precisamente a classe que ali se hospeda, são alguns de seus apreciadores e compradores de seu trabalho. Pode-se mencionar, de passagem, o curioso sucesso (mil cópias vendidas) de um seu trabalho que representa um leilão de uma tela com os dizeres: “I CAN’T BELIEVE YOU MORONS ACTUALLY BUY THIS SHIT” [Eu não posso acreditar que vocês, imbecis, estão realmente comprando essa merda]; ou ainda seu primeiro filme, Exit Through the Gift Shop (2010), que não obstante sua classificação como fraude ou hoax, ou, antes, justamente por isto, angariou o louvor até mesmo de críticos renomados e brilhantes como Roger Ebert, para quem a especulação de que o filme é uma grande farsa somente contribuiu para que se tornasse ainda mais fascinante.

4) uma consequência dessa visão epitomizada em Banksy é uma espécie de totalitarismo estético. Ora, Trotsky, em Literatura e Revolução, afirmava que, por meio da construção cultural e do autodidatismo no qual o homem se verá envolto quando do estabelecimento do comunismo, “a espécie humana, na sua generalidade, atingirá o talhe de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E sobre ela, se levantarão novos cimos”. Entretanto, na atual conjuntura, o que temos é justamente o contrário, a saber, o clericalismo da arte tão mais opressivo, autárquico e esnobe do que a caricatura do clero católico preponderante durante a Revolução Francesa. Num mundo em que as tradições, a autoridade, o cânone e a religião são rejeitados ad limine, os artistas se veem como os únicos fornecedores de sentido ou beleza ao restante da humanidade. Nas palavras de Eduardo Lourenço:

Os reis morreram todos, mas o lugar do rei não está vazio. O lugar do rei não é o do poder, mas o que dá um sentido ao poder. Depois da Revolução, são os filósofos, os poetas, os artistas que se tornam padres e reis, guardiães, magos, imperadores do sentido.




🔺Os pichadores se autodesignam, portanto, como os resgatadores da “beleza que salvará o mundo”, os caleidoscópios vivos que impedem que a cidade seja tomada pelo império cinzento da burocracia e do autoritarismo político. Há, inclusive, um famoso documentário brasileiro pautado exatamente nessa metáfora, que, por ironia, denigre o cinza (o trocadilho é intencional), até então sempre utilizado pelos relativistas como a coloração da imprecisão, da neutralidade, um tiers aspect que fornece uma opção contra a sufocante dicotomia “preto e branco” dos religiosos, conservadores, classicistas, enfim todos aqueles que ainda sustentam alguma inteligibilidade efetiva do real.

Reduzindo o próprio espectro de suas metáforas e lugares-comuns, os progressistas, niilistas e tutti quanti se valem agora da dicotomia: cinza versus colorido; obtusidade burguesa versus criatividade das ruas; ordem impositiva versus liberdade emulsiva; higienização opressiva versus embelezamento redentor, respectivamente. Tomam como pressuposto o fato de que são não somente os mantenedores mas também os reguladores do gosto citadino; sempre baseados no dilema entre “cidade cinzenta” e “cidade artística” – e aqueles que rejeitam ou deploram seus trabalhos são os de antemão inaptos e destituídos de sensibilidade artística –, como se muros ou superfícies caiadas fossem a materialização mesma do desafeto.

Novamente, para aqueles que consideram a pichação como arte, a contradição é inerente, pois nada impede que se promova, cínica e deliberadamente, a caiação de superfícies como manifestação artística. Afinal, os monocromos de Yves Klein, em especial IKB74, não são consagrados como arte?

De todo modo, a posição dos pichadores com projeção pública é ambivalente: conforme dito, na fachada de seu discurso, asseguram, na linha de Trotsky, que a “arte das ruas”, que se confunde com uma arte do povo (claro, semelhante a Banksy, povo são sempre algumas pessoas, e determinadas pessoas, em especialmente os desafetos, não constituem o povo), deve permanecer poluindo visualmente as metrópoles de todo o mundo, visto que é uma expressão do homem comum em face da desumanização urbana; entretanto, não abrem mão de seus status – autoconcedido, evidentemente – de representantes e promovedores do senso estético municipal. Na sua perspectiva, encarnam o Volkgeist estético e são, por isso, inquestionáveis, apagar seus trabalhos significa dissolver a cultura de uma sociedade, por mais que a maioria dos cidadãos sequer compreenda o código subjacente ou o ícone ali representado.

Contudo, os pichadores têm consigo um ponto demasiadamente justo: grande parte das fachadas, edifícios e construções brasileiras são tão abomináveis ao olhar, que qualquer solução, mesmo a mitigação cosmética dos grafites e pichações, é, num primeiro momento, aceitável. A questão, todavia, é esta – os trabalhos são simples maquiagem, por vezes horrendamente feitas, que ocultam a destruição da arquitetura brasileira que tem uma perfeita metonímia no projeto de Brasília. Afinal, Niemeyer inspirou-se fortemente na concepção de Le Corbusier da arquitetura[2] como machine à émouvoir (a máquina para comover), que, concebendo as relações arquitetônicas e sociais citadinas como partes mecânicas justapostas, gerou os atuais guetos em Paris, que em lugar de autonomia produziram isolamento hostil.

Nesse sentido, temos um movimento circular e autofágico: a fealdade dos edifícios, especialmente em São Paulo, incentivou grafiteiros a desenvolverem seus trabalhos “cosméticos” com propósitos de embelezamento ou humanização. Claro que, na maior parte das vezes, o que se consegue é mitigar a brutalidade arquitetônica. No entanto, alguns pichadores, por seu turno, ultrajados pela feiura urbana e confundindo iconoclastia com originalidade, desfiguram ainda mais as superfícies e edifícios, numa efetiva revolta estética. Ademais, é preciso levar em conta o cumprimento do presságio de Baudelaire: “Porque o Belo é sempre surpreendente, seria absurdo supor que o que é surpreendente seja sempre belo”. Desprovidos de um parâmetro objetivo mediante o qual é possível analisar ou criticar (no sentido do radical grego krinei, isto é, separar para julgar) a arte, os que se pretendem artistas recorrem à base crua mesma da civilização: aos mecanismos do instinto. Daí vemos a insubmissão e o acinte serem transmutados em símbolos de resistência cultural e indivíduos compensando a inabilidade artística com feitos físicos e atitudes temerárias.


🔺Por fim, conforme nos ensina uma parábola de Kafka, e como se evidenciou, em 2001, com destruição de estátuas budistas no Afeganistão por parte do Talibã, a barbárie demarca seu processo de imolação da civilização destruindo precisamente seus marcos.

Tudo veio em seu auxílio durante o trabalho de construção. Os trabalhadores estrangeiros trouxeram os blocos de mármore, esquadriados e ajustados uns aos outros. As pedras foram erguidas e colocadas de acordo com os movimentos de aferição dos seus dedos. Nunca um edifício passou a existir de maneira tão fácil quanto esse templo – ou melhor, esse templo passou a existir do modo como um templo deveria. Exceto que, para dar vazão à malevolência, ou para profaná-lo ou destruí-lo completamente, instrumentos obviamente de magnífica agudeza foram usados para rabiscar em cada pedra – de que pedreira tinha vindo? –, por uma eternidade mais duradoura que o templo, as toscas garatujas das mãos de crianças insensatas, ou antes as inscrições de bárbaros montanheses.




Ressentidos da perfeição e ordem do templo, bárbaros e crianças insensatas profanam suas pedras com garatujas ininteligíveis, rasurando a Beleza com inscrições desprovidas de sentido. Resta apenas o reconhecimento honesto de que a cacofonia tende sempre à permanência.

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NOTAS

[1] Atualmente, a própria opção entre as grafias “pichador” e “pixador” refletem, de certo modo, ao menos na compreensão dos artistas de rua, a dicotomia entre o discurso oficial e o discurso “problematizador”, respectivamente. Nesse sentido, a própria recusa em se utilizar os termos dicionarizados “pichação”, “pichar”, “pichador”, etc. configura-se como ato insurrecional ou subversivo contra a autoridade, e como afirmação dos artistas de rua – que em geral grafam o verbo como “pixar” – como a genuína instância legitimadora. Desse modo, o uso do termo “pichação” aqui é deliberado.

[2] A referência original é à residência Savoye, projeta em 1928.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Você realmente admira e se emociona com Obama?







por Lucas Oleiro,

Faça uma breve reflexão e pense se você é o tipo de pessoa em busca de uma figura "carismática" para admirar.




É óbvio que ninguém sozinho consegui ir muito longe apenas com a sanha autoritária. Os sociopatas presentes nos meios políticos dependem de outros, como aliados motivadas pela mesma sede de controle, por dinheiro ou benefícios e privilégios, além das pessoas que por alguma motivação que leva à obediência (seja por culpa, necessidade afetiva, mas sobretudo psicológica), assume e propaga massivamente um tipo de devoção ao algoz, que já foi conhecida como síndrome de Estocolmo e hoje talvez se chame “síndrome de Suécia”.

Veja o caso da comoção popular, mesmo no Brasil, com a figura do Obama. Muita gente que não se ateve aos fatos e legado da gestão do advogado, simplesmente declara gostar do ex-presidente dos EUA, que chora, se declara para a esposa, dança e almoça em um bandejão. Em seu discurso de despedida, ao defender a paz, a democracia e a força da lei, muitos ignoraram que o ganhador do Prêmio Nobel da Paz 2009 bombardeou a Líbia imediatamente após a falha dos órgãos de inteligência dos EUA com seus próprios diplomatas, que culminou na morte de dezenas de civis. Além da Líbia, em seus 2 mandatos, Obama atacou outros 6 países, ininterruptamente. Apenas o Paquistão sofreu mais de 340 ataques com drones.

Para não fugir à regra da grande potência, presidente Obama também interferiu na política internacional, principalmente na Síria, onde desde 2012 há o alerta de financiamento de rebeldes (ou terroristas, dependendo da sinceridade do analista), com o apoio do Catar, Arábia Saudita, Turquia e França. Fato confirmado em 2015, com o registro do envio de munições por via aérea.

A pretensão de “polícia do mundo” na administração Obama avançou (ou revelou fatos) em escândalos envolvendo ações da Agência de Segurança Nacional (NSA) para o escrutínio massivo de políticos ao redor do mundo e principalmente adversários políticos do partido democrata, como o professor e ativista Dinesh D’Souza, que passou um período preso, sem apelação, pela extrapolação de uma doação partidária em US$ 10 mil. Houve também o registro de e-mails e ligações telefônicas de jornalistas do canal Fox News que foram “investigados” a pedido do departamento de Justiça, no melhor estilo latino-americano.

Há ainda os escândalos internos com o Serviço Secreto, envolvendo a diretora 




Hans Sennholz, economista e professor, produziu uma excelente reflexão a partir da chamada “ciência do caos”. A teoria do caos dá relevância para experiências simples que descartamos. Elas podem ser desordenadas e aleatórias à primeira vista, mas, para este método de estudo, a complexidade tende a revelar padrões profundos de regularidade.

Para tentar identificar a dinâmica pela qual os sistemas se organizam autonomamente, utiliza-se os chamados “atratores”. Tendo o complexo sistema social como exemplo, entende-se que um leilão de bens antigos pode ser visto como um atrator para colecionadores de antiguidades; hospitais como atratores para doenças e restaurantes atratores para pessoas com fome, portando dinheiro ou não. Na economia de mercado, o sistema de preços é um atrator para produtores, compradores e vendedores que desejam, voluntariamente, trocar suas propriedades e auferir riqueza.

Mas o estado, de maneira direta, realista e verdadeira, pode ser definido como “um sistema que usufrui um monopólio legal do uso da violência e das decisões jurídicas supremas dentro de um dado território”. E apesar de todas as propagandas institucionais e da doutrina do sistema de ensino controlado pelo governo, no sistema político as pessoas são compelidas — por meio da violência e da ameaça de violência — a fazer aquilo que elas voluntariamente não fariam ou são obrigadas a deixar de fazer aquilo que gostariam.

Que tipo de indivíduo se sente atraído por carreiras que lhe dão o poder arbitrário de obrigar terceiros a seguir ordens, em um trabalho cuja premissa é a imposição da obediência? Seriam apenas pessoas incapazes ou insatisfeitas em adquirir riquezas por meios econômicos, pelas relações de oferta de valor e acordos de ganho mútuo?

O indivíduo que está preparado para aprovar ou iniciar um ato de punição, que através de um decreto ou regulamentação, força a obediência, não é diferente da figura do policial valentão, integrante de uma equipe de força-tarefa que sente prazer em invadir residências, confiscar bens e torturar pessoas. A mentalidade é a mesma. Não interessa se um utiliza a caneta e o outro a força física. Os métodos são diferentes, mas a mentalidade autoritária que os estimula é a mesma. Há um apetite pelo poder absoluto sobre terceiros, que guia estas pessoas.

indicada por Obama; o fiasco do “SUS americano”, que além de aumentar os custos dos serviços médicos do país, tem escândalos como o do website de US$ 2 bilhões (!) para o “Obamacare”, que nunca funcionou; a promoção da boa vida de doadores de campanha, que mais angariaram fundos para a eleição e reeleição e se tornaram embaixadores, sem qualquer preparo ou experiência; o aumento de tensões raciais, onde o próprio Obama é apoiador de entidades segregacionistas como a Black Lives Matter; a doação de US$ 500 milhões de dinheiro recolhido via impostos do povo norte americano para a entidade abortista Parent Childhood e outros episódios.

Faça uma breve reflexão e pense se você é o tipo de pessoa em busca de uma figura “carismática” para admirar. Talvez seja melhor passear em um parque, visitar um shopping, assistir um filme no cinema ou uma peça de teatro. Há quanto tempo você não faz isso?

O lazer é saudável e todos precisamos viver emoções diferentes para sair do tédio. Mas cuidado com os lugares e as figuras onde você busca. Donald Trump participou do filme Esqueceram de Mim 2 em 1992, Um Maluco no Pedaço em 1994, liderou o reality show O Sócio em 1996, apareceu no seriado Sex and the City em 1999 e em diversos outros programas de entretenimento antes de se tornar presidente. Tente perceber se você não está sendo conduzido por mera propaganda. Não é possível que o sistema político seja o melhor ambiente para investir suas caras emoções.



quinta-feira, novembro 03, 2016

O perigo Hillary e o gênio maligno de John Podesta











por Elton Flaubert (31/10/2016)

Hillary é uma gângster manipuladora, obcecada por controle, poder e dinheiro.




1.

Erguido a inimigo número um da humanidade pela grande imprensa mundial, Donald Trump conquistou esse posto seja por sua personalidade extravagante e discurso boquirroto, seja por representar uma reação popular (não necessariamente no sentido censitário) contra o establishment político, econômico, intelectual e midiático do Ocidente, seja por representar uma resposta aos valores liberais que, em última instância, se tiraniza a toda sociedade enquanto poder integrado. Em fevereiro, expliquei aqui na Amálgama, como ele construiu um personagem com três intenções: a)restaurar os mitos de fundação do país; b)substituir o apelo conservador pelo apelo nacional; e c)apresentar-se como uma personalidade forte, capaz de reunir o povo e falar sua língua contra a iniquidade das elites. Isto num momento de crescente revolta contra as elites do poder integrado.

A figura de Trump não é conservadora, mas antes nacionalista com um forte apelo nostálgico às proteções sacrificiais, remetendo ao tribalismo, ao localismo e ao nativismo. Trump defende, por exemplo, que pessoas transgêneras utilizem o banheiro que acharem adequado. Em 30 de outubro, Trump abriu seu comício no Colorado com uma bandeira do movimento gay e depois garantiu seu apoio ao que chama de “ampliação de seus direitos civis”.

Muitas coisas já foram ditas sobre The Donald e os perigos do que representa seu personagem. No entanto, sua adversária democrata, Hillary Clinton, oferece ainda mais perigos para o país e ao mundo do que ele. Ela faz parte do contexto social e intelectual da esquerda americana que reformou o partido democrata entre o século XIX e XX. O liberalismo moderno americano parte de uma concepção ampla de liberdade, onde o Estado deve assegurar as garantias de que os indivíduos sejam livres e iguais para exercer suas potencialidades, produzindo valores e usando um poder integrado a toda a sociedade. A maior parte do establishment americano prega os valores liberais e um poder integrado que discipline e produza esses valores. E, contra Trump, conseguiu aliar nacos do establishment republicano que estão próximos do liberalismo econômico clássico.

Hillary Clinton representa os interesses desse consórcio e as políticas que consolidam o seu poder integrado, criando – em nome da liberdade – a pior das tiranias. A quintessência desse agrupamento, digno da máfia, aparece claramente nos e-mails revelados pelo Wikileaks. Embora Assange seja um escroque a serviço da Rússia e um perigo para a segurança americana, não se pode negar a realidade do que está sendo apresentado. Como nas escutas de Lula, alegar ilegalidade no que foi apresentado não esconde a realidade dos fatos. O que os e-mails nos mostram é a figura de uma gângster manipuladora, obcecada por controle, poder e dinheiro, que age em nome de um consórcio e, para isto, planeja dissolver as soberanias, a cultura cristã e qualquer lastro com a realidade.

Antes do Wikileaks, a imagem de tecnocrata honesta de Hillary já tinha sido atingida por sua má atuação no governo Obama. Para piorar, em 2015, quando os republicanos abriram um inquérito no Congresso para investigar o atentado em Benghazi na Líbia, descobriu-se que Hillary (já fora do cargo) usava um servidor particular para enviar e-mails no exercício do cargo. Usar um servidor particular é imperícia, por ser facilmente hackeado, colocando em perigo a segurança nacional, como pode ser também indício de atividades criminosas no cargo, pois facilita a exclusão das provas. De nada adiantaram os encontros entre Bill Clinton e Loretta Lynch, ministra da Justiça, para encerrar no nascedouro a investigação conduzida pelo FBI, pois o assunto veio a público antes pelo jornal Washington Post.

Apesar de ter considerado negligência, o diretor do FBI, James Comey, tinha encerrado o caso, mas teve que reabrir as investigações quando novos e-mails de Hillary apareceram noutra investigação: a do escândalo sexual do democrata de Nova York, Anthony Weiner, que era casado com o braço-direito de Hillary, Huma Abedin.

Entretanto, se o FBI tinha encerrado as investigações, o Wikileaks tinha nos dado a certeza que Hillary usava um servidor privado não por negligência, mas para praticar crimes. Além disso, ficamos sabendo também que ela apagou milhares de e-mails comprometedores e que o presidente Obama sabia disso. Tendo ciência desses fatos, houve grande revolta entre os agentes do FBI quando a investigação foi abortada por Comey.

Hillary Clinton utilizava das atribuições do cargo para fazer lobby, acertar negociatas com governos estrangeiros, ditar os passos da imprensa democrata e preparar (ou financiar) sua campanha presidencial. Aqui e aqui, ela confessa que recebeu financiamento da Arábia Saudita e estava ciente de seus interesses mesmo sabendo que este governo e o do Catar patrocinavam o ISIS.



Ela se utilizava da Fundação Clinton para traficar influência. Recebendo dinheiro para projetos inexistentes ou não cumpridos em sua integridade (mesmo ajudas humanitárias para o Haiti), Hillary usava da influência do seu cargo e de sua importância no partido para realizar o desejo dos doadores. A partir desse sistema, criava-se um consórcio, onde Hillary era apenas a representação desses interesses. De extensão internacional, um dos e-mails mostra que a Fundação Clinton recebeu 12 milhões de dólares do Rei do Marrocos para defender seus interesses enquanto ela era Secretária de Estado. Noutro e-mail, seu chefe de campanha, John Podesta, confessa que Hillary defenderá sempre o desejo dos seus doadores.

As opiniões, as chacotas, os desejos, a arrogância de Hillary Clinton e de seu staff nos e-mails traçam um perfil de uma mulher manipuladora, sedenta por poder, que trabalha por ganância, mas também convicção (as duas coisas sempre andam juntas como vimos no petismo), para o establishment liberal e por um poder integrado que opera uma mudança civilizacional – a utopia de uma “liberdade impositiva” promovida por uma governança que produz esses valores.

Para o banco Goldman Sachs, Hillary fez três discursos remunerados. Neles, tratou essencialmente de geopolítica. Admitiu uma estratégia agressiva (através da OTAN) contra a Rússia comandada por Putin e defendeu uma zona de exclusão aérea na Síria. No banco, ela admitiu que essa zona traria muitas baixas civis e subestimou o poderio russo. Hillary é uma estudiosa de geopolítica e conhece bem cada região estratégica do globo. Ao mesmo tempo, ela tem o temperamento arrogante de quem acredita controlar os fatos. A junção desses dois fatores sempre trouxe desastres. Mais do que um perfil hawkish, Hillary promete ser prepotente e controladora na política externa. Subestima a aliança russo-chinesa, superestima o poderio bélico americano e, sobretudo, acredita puerilmente que ameaças no quintal russo irão dissuadir Putin. Ela também desconhece profundamente as motivações ideológicas/espirituais/nacionais das ações de Putin.

Essas revelações alarmaram mesmo a esquerda americana e europeia. No Guardian, Spencer Ackermann mostrou por qual razão o plano da democrata para a Síria pode provocar a Terceira Guerra Mundial. Uma guerra contra a Rússia nunca é uma boa coisa (Hitler e Napoleão que o digam), ainda mais nas atuais condições. Enquanto isso, Putin se prepara para guerra, estendendo sua influência geopolítica e contando com a prepotência e ignorância das elites ocidentais em reconhecer o estado das coisas. Com Trump, as relações entre Rússia e Estados Unidos teriam uma melhora momentânea e, mesmo que isso proporcionasse riscos para parceiros americanos, significaria também uma chance de melhores condições bélicas e geopolíticas em médio prazo.


Hillary e seu staff também demonstraram desaprovação quanto à Israel. O jornalista Sid Blumenthal, pai de Max Blumenthal (um reconhecido antissemita), enviou para Hillary alguns artigos falando do lobby judeu na imprensa, criticando Netanyahu e contando algumas teorias conspiratórias. Hillary enviou-os para um de seus assessores para assuntos internacionais, Jake Sullivan, chamando-os de fascinante.

Nos discursos para Wall Street, Hillary defendeu uma política de irrestrita liberdade econômica e de fronteiras. Um mundo livre de nações, tradições, culturas religiosas, soberanias, mas integrado pelo dinheiro, pelo espírito burguês, por uma cultura e religião biônica, uma moral laica civil. Um mundo livre sustentando por um poder integrado que produza esses valores e criminalize os outros sem contestação. Tudo isto em nome da liberdade, claro. Uma junção de liberdade econômica e social, desejo expresso das elites ocidentais que Hillary se encarrega de encarnar e de realizar; a pior das tiranias ao qual me referia no artigo que indiquei no primeiro parágrafo.

Outra situação onde Hillary atuou como lobista dos interesses desse consórcio, foi na Albânia. George Soros, um bilionário húngaro fundador da Open Society, que patrocina as causas da esquerda liberal e é o maior doador pessoal dos Clinton, pediu para que ela intervisse na política interna da Albânia junto à comunidade internacional.

Coerente com qualquer defesa do aborto, Hillary Clinton deseja que a mulher possa matar o filho a qualquer momento da gravidez. A Planned Parenthood, que patrocina sua campanha, seria uma grande beneficiária, pois lucraria ainda mais com a venda de órgãos fetais e tornaria legal os abortos que já realiza fora do tempo previsto.

Os e-mails revelados pela Wikileaks mostram também como o grosso da imprensa americana (CNN, NYT, NBC, ABC, CBS, Washington Post etc.) age como membro desse consórcio. Donna Brazile (nome é destino), que era analista da CNN e membro do Partido Democrata, conseguiu as perguntas que seriam feitas num dos debates com Donald Trump e entregou com antecedência para a campanha de Hillary. Outros e-mails mostram como esta campanha entregava para imprensa peças difamando Trump e instruções estratégicas de como ele deveria ser atacado. Como veremos, 65 jornalistas participaram de uma reunião com John Podesta para acertar essas questões e manifestar apoio.

Glenn Thrusch, escritor do site Politico, enviava seus artigos com antecedência para Podesta aprovar. E a campanha de Hillary também tinha influência sobre o editor do New York Times e no que ele escolhia publicar. Mesmo uma entrevista dada para Chris Hayes da NBC foi ensaiada palavra por palavra com antecedência. A imprensa também foi utilizada para atacar Bernie Sanders durante as primárias. O noticiário é tão enviesado nos grandes canais que apenas 6% da população acredita na imprensa.
2.

No entanto, se Hillary é a representação das elites americanas (e ocidentais) na implementação de um poder integrado que tiraniza seus valores, há uma mente maligna e estrategista por trás dessa personalidade ambiciosa e prepotente que pretende presidir os Estados Unidos. Essa mente é John Podesta.

Advogado com origem em Chicago, Podesta viu sua carreira de lobista decolar em 1988 quando fundou uma empresa com o irmão para esta finalidade. Desde cedo ligado aos democratas (trabalhou na campanha de McGovern em 1972), Podesta foi chefe de equipe do governo Bill Clinton. Chefe da campanha de Hillary Clinton, ele se viu no centro da crise quando seus e-mails foram hackeados e divulgados pelo Wikileaks.

Mais do que um chefe de campanha, Podesta tem uma ampla visão estratégica para a transformação social e cultural que almejam o consórcio das elites. Ele identifica dois objetivos: transformar as soberanias nacionais e transferir o centro do poder para entidades transnacionais; transformar a religião por dentro, conferindo-lhe novos valores e grupos políticos bem estabelecidos para ditar essa transformação que se aproxime de uma religião universal e neutra.

Para isto, ele estabelece três táticas: controle da informação através da imprensa; vilanizar conservadores, religiosos e nativistas; e infiltração na Igreja Católica. Como chefe da campanha de Hillary, ele confessa nos e-mails que exerce de certo modo essas três táticas.

Antes da campanha aquecer, Podesta se encontrou com 65 jornalistas para acertar as operações. Nos e-mails, ele confessou também que exerce sua influência em pesquisas eleitorais. Num dos jantares com Haim Saban, um dos proprietários da Univision, ele acertou a identidade que a emissora dará a Trump como um racista perigoso aos hispânicos. Outro e-mail mostra também o empenho do Huffington Post em fazer o que for preciso para elegê-la.

A terceira tática era ainda mais sórdida: infiltrar-se na Igreja Católica para criar uma “Primavera Católica”. Podesta associa toda tradicional fé católica e seus rituais a uma “ditadura medieval”. Seria preciso criar uma “primavera católica”, infiltrando-se na Igreja para realizar uma revolução doutrinal que mudasse os valores cristãos. De tal modo que o catolicismo se tornasse uma espécie de religião desprovida de essência e regulamentada por lobbys políticos. Ou seja, uma religião sem Cristo e meramente formal que permitisse e defendesse os valores liberais do poder integrado sem entraves. A “Primavera Católica” seria responsável por tornar o catolicismo numa religião que defenda o casamento gay, o aborto, a igualdade de gênero e todo ideário cultural dos progressistas.

Num dos e-mails, Sandy Newman, outro braço-direito de Hillary e fundador da Voices for Progress, admite que desconhece o catolicismo e, por isto, seria incapaz de dirigir essa infiltração. No entanto, Podesta afirma que já conta com duas organizações com esta finalidade: a Catholics in Alliance for the Common Good e a Catholics United. A primeira foi fundada por Tom Perielle em 2005 e conta com Fred Rotondaro (ligado a John Podesta) no seu conselho. Um dos seus objetivos é promover a igualdade de gênero e a ordenação sacerdotal das mulheres. Podesta se gaba também de ser criador de grupos de pressão política em todo o país.

Nos e-mails também se verifica o desprezo por católicos. John Halpin, do Center for American Progress, goza da fé católica com John Podesta, dizendo que todo aquele “papo tomista”, “sistemático” e “retrógrado” serve para parecer sofisticado, mas que “ninguém entende de que diabos estão falando”.

Portanto, se é verdade que Trump é um pastiche entre a figura do bufão sincero e popular e a figura autocrata que domina o espetáculo, Hillary é ainda pior e mais perigosa. Ela representa o consórcio das elites extremamente iníquas, que pretendem estabelecer cada vez mais um poder integrado com seus valores liberais que unem o materialismo e a desconexão da realidade em todas suas dimensões. Se isso já não bastasse, Hillary – com seu temperamento controlador e arrogante – pode ocasionar uma guerra mundial com as crescentes hostilidades entre essa elite ocidente e a aliança russo-chinesa.

Fonte: www.revistaamalgama.com.br