Mostrando postagens com marcador Sergio Moro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sergio Moro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, abril 09, 2018

lula é inocente: 3 mil evidências, 13 casos e R$ 80 milhões em propina







por Diego Escosteguy(*).



No fim da tarde de uma segunda-feira recente, o ex-­presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco de um evento organizado pelo PT em Brasília. Empunhou sua melhor arma: o microfone. Aos profissionais da imprensa que cobriam o evento, um seminário para discutir os rumos da economia brasileira, o ex-presidente dispensou uma ironia:
“Essa imprensa tão democrática, que me trata maravilhosamente bem e, por isso, eu os amo, de coração”. 
Lula estava a fim de debochar. Não demorou para começar a troça sobre os cinco processos criminais a que responde na Justiça. Disse que há três anos ouve acusações sem o direito de se defender, como se não tivesse advogados. “Eu acho que está chegando a hora de parar com o falatório e mostrar prova. Eu acho que está chegando a hora em que a prova tem de aparecer em cima do papel”, disse, alterado. Lula repetia, mais uma vez, sua tática diante dos casos em que é réu: sempre negar e nunca se explicar. E prosseguiu: 

“Eu quero que eles mostrem R$ 1 numa conta minha fora desse país ou indevida. Não precisa falar que me deu 100 milhão, 500 milhão, 800 milhão... Prove um. Não estou pedindo dois. Um desvio de conduta quando eu era presidente ou depois da Presidência”. 


Encerrou o discurso aplaudido, aos gritos de “Brasil urgente, Lula presidente!”.

A alma mais honesta do Brasil, como o ex-presidente já se definiu, sem vestígio de fina ironia, talvez precise consultar seus advogados – ou seus processos. Há, sim, provas abundantes contra Lula, espalhadas em investigações que correm em Brasília e em Curitiba. Estão em processos no Supremo Tribunal Federal, em duas Varas da Justiça Federal em Brasília e na 13ª Vara Federal em Curitiba, aos cuidados do juiz Sergio Moro. Envolvem uma ampla e formidável gama de crimes: corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, crime contra a Administração Pública, fraude em licitações, cartel, tráfico de influência e obstrução da Justiça. O Ministério Público Federal, a Polícia Federal, além de órgãos como a Receita e o Tribunal de Contas da União, com a ajuda prestimosa de investigadores suíços e americanos, produziram, desde o começo da Lava Jato, terabytes de evidências que implicam direta e indiretamente Lula no cometimento de crimes graves. Não é fortuito que, mesmo antes da delação da Odebrecht, Lula já fosse réu em cinco processos – três em Brasília e dois em Curitiba. Também não é fortuito que os procuradores da força-tarefa da Lava Jato, após anos de investigação, acusem Lula de ser o “comandante máximo” da propinocracia que definiu os mandatos presidenciais do petista, desfalcando os cofres públicos em bilhões de reais e arruinando estatais, em especial a Petrobras.


A estratégia de Lula é clara e simples. Transformar processos jurídicos em campanhas políticas – e transformar procuradores, policiais e juízes em atores políticos desejosos de abater o maior líder popular do país. Lula não discute as provas, os fatos ou as questões jurídicas dos crimes que lhe são imputados. Discute narrativas e movimentos políticos. Nesta quarta-feira, dia 10, quando estiver diante de Moro pela primeira vez, depondo no processo em que é réu por corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de receber propina da OAS por meio do tríplex em Guarujá, Lula tentará converter um ato processual (um depoimento) num ato político (um comício).


Se não conseguir desviar a atenção, saindo pela tangente política, Lula terá imensa dificuldade para lidar com as provas – sim, com elas. Nesses processos e em algumas investigações ainda iniciais, todos robustecidos pela recente delação da Odebrecht, existem, por baixo, cerca de 3 mil evidências contra Lula. Elas foram analisadas por ÉPOCA. Algumas provas são fracas – palavrórios, diria Lula. Mas a vasta maioria corrobora ou comprova os crimes imputados ao petista pelos procuradores. Dito de outro modo: existe “prova em cima de papel” à beça. Há, como o leitor pode imaginar, toda sorte de evidência: extratos bancários, documentos fiscais, comprovantes de pagamento no Brasil e no exterior, contratos fajutos, notas fiscais frias, e-mails, trocas de mensagens, planilhas, vídeos, fotos, registros de encontros clandestinos, depoimentos incriminadores da maioria dos empresários que pagavam Lula. E isso até o momento. As investigações prosseguem em variadas direções. Aguardem-se, apesar de alguns percalços, delações de homens próximos a Lula, como Antonio Palocci e Léo Pinheiro, da OAS. Renato Duque, ex-executivo da Petrobras, deu um depoimento na sexta-­feira, dia 5, em que afirma que Lula demonstrava conhecer profundamente os esquemas do petrolão. Existem outras colaborações decisivas em estágio inicial de negociação. Envolvem crimes no BNDES, na Sete Brasil e nos fundos de pensão. Haja prova em cima de papel.


Trata-se até agora de um conjunto probatório, como gostam de dizer os investigadores, para lá de formidável. Individualmente e isoladas, as provas podem – apenas – impressionar. Coletivamente, organizadas em função do que pretendem provar, são destruidoras; em alguns casos, aparentemente irrefutáveis. Nesses, podem ser suficientes para afastar qualquer dúvida razoável e, portanto, convencer juízes a condenar Lula por crimes cometidos, sempre se respeitando o direito ao contraditório e à ampla defesa – e ao direito a recorrer de possíveis condenações, como qualquer brasileiro. Não é possível saber o desfecho de nenhum desses processos.




Ainda assim, os milhares de fatos presentes neles, na forma de provas judiciais, revelam um Lula bem diferente daquele que encanta ao microfone. As provas jogam nova luz sobre a trajetória de Lula desde que assumiu o Planalto. Assoma um político que conheceu três momentos distintos. O primeiro momento deu-se como um presidente da República que decidiu testar os limites do fisiologismo e clientelismo da política brasileira. A partir de 2003, e com mais força em 2004, Lula começou a agir para beneficiar, em atos sucessivos, empreiteiras e grandes grupos empresariais, por meio de homens de confiança em postos-­chave no governo. Era, naquele momento, um político cujas campanhas e base aliada eram financiadas, comprovadamente, com dinheiro de propina desses mesmos empresários – entre outros. Era um político que caíra nas graças do cartel de empreiteiras que rapinava a Petrobras e comprava leis no Congresso.


O segundo momento sobreveio entre 2009 e 2010, conforme o tempo dele no poder se aproximava do fim – e, com Dilma Rousseff como sucessora, todos, em tese, continuariam a prosperar. Nesse ponto, assomou um político que, pelo que as provas e depoimentos indicam, passaria a viver às custas das propinas geradas pelo cartel que ajudara a criar. Entre 2009 e 2010, o cartel, em especial Odebrecht e OAS, passou a se movimentar para assegurar que Lula e sua família tivessem uma vida confortável. Faziam isso porque, como já explicaram, deviam propina ao ex-presidente e, não menos importante, pela expectativa de que ele usasse sua influência junto a Dilma Rousseff para manter o dinheiro do governo entrando nas empresas – como fez, de fato, em algumas ocasiões.


Nesse período de final de mandato, houve uma série de operações fraudulentas e clandestinas, comandadas pelo cartel, que resultaram na multiplicação do patrimônio de Lula. Usaram-se laranjas e intrincadas transações financeiras para esconder a origem do dinheiro dos novos bens do ex-presidente. Mas, hoje, esses estratagemas foram descobertos, com fartura de provas, pelos investigadores. Da Odebrecht, Lula ganhou o prédio para abrigar seu instituto, um apartamento em São Bernardo do Campo, onde mora até hoje, e a reforma de um sítio em Atibaia que, todas as provas demonstram, pertence ao petista, e não é somente “frequentado” por ele. Da OAS, ganhou o famoso tríplex em Guarujá, assim como as reformas pedidas por ele – o apartamento só ficou pronto após a Lava Jato, de modo que não houve tempo para que Lula e família se mudassem para lá. A mesma OAS passou a bancar o armazenamento do acervo presidencial do petista. Todas essas operações – todas – foram feitas clandestinamente, para ocultar o vínculo entre Lula e as empreiteiras. Todas foram debitadas do caixa de propinas que Lula mantinha junto às empreiteiras.


Além de dar moradia a Lula, as empreiteiras passaram a bancar o ex-presidente e sua família, além de pessoas próximas. Havia, segundo as provas disponíveis, pagamentos de propina da Odebrecht a um dos filhos do presidente, a um irmão dele, a um sobrinho e a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e um dos assessores mais próximos de Lula. Havia pagamentos em dinheiro vivo e, em alguns, casos, por meio de empresas – como a de um filho e a de um sobrinho. Havia, ainda, os pagamentos à empresa de palestras de Lula e ao próprio Instituto Lula. Na maioria dos casos, segundo as evidências, não se tratava de doação ou contratação para palestras, embora essas tenham acontecido em alguns casos. Trata-se de propina disfarçada de doação. Até que a Lava Jato mudasse tudo, Lula e seus familiares receberam, de acordo com as evidências disponíveis e se obedecendo a um cálculo conservador, cerca de R$ 82 milhões em vantagens indevidas – bens ou pagamentos ilegais.


O terceiro momento de Lula, aquele que as provas revelam com mais nitidez, precipita-se em março de 2014, quando irrompe a Lava Jato. O petista, que sabia o que fizera e intuía o potencial da operação, preocupou-se. É esse Lula preocupado – quiçá desesperado – que aparece nos processos de obstrução da Justiça. Que, segundo depoimentos e documentos, tenta destruir provas. Tenta, em verdade, destruir a Lava Jato, para por ela não ser destruído. Há semanas, dias antes do discurso de Lula em Brasília, a voz rouca de Léo Pinheiro sacudira Curitiba. Diante do juiz Sergio Moro, Léo Pinheiro expunha segredos guardados por anos. 
“Eu tive um encontro com o presidente, em junho... bom, isso tem anotado na minha agenda, foram vários encontros.” Era 20 de abril e Léo falava de um encontro mantido há quase três anos, em maio de 2014, quando a Lava Jato começava a preocupar. 

“O presidente, textualmente, me fez a seguinte pergunta: ‘Léo’, e eu notei até que ele estava um pouco irritado, ‘você fez algum pagamento a João Vaccari no exterior?’. Eu disse: ‘Não, presidente, nunca fiz nenhum pagamento dessas contas que nós temos com Vaccari no exterior’. ‘Como é que você está procedendo os pagamentos para o PT?’. ‘Através do João Vaccari. Estou pagando, estamos fazendo os pagamentos através de orientação do Vaccari, caixa dois e doações diversas que nós fizemos a diretórios e tal’. ‘Você tem algum registro de algum encontro, de conta, de alguma coisa feita com o João Vaccari com você? Se tiver, destrua. Ponto. Acho que quanto a isso não tem dúvida’.”


Lula, como Renato Duque confirmou em depoimento a Moro na sexta-feira, estava se mexendo para descobrir quanto estava sob risco. No depoimento, Duque, que fora indicado pelo PT e pelo próprio Lula à Diretoria de Serviços da Petrobras, destruiu o antigo chefe. Disse, como Léo Pinheiro, que Lula “tinha o pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”. Referia-se ao petrolão. Nas últimas semanas, Duque e o ex-ministro Palocci disputavam quem fecharia antes um acordo de delação premiada, em busca de pena menor. Ambos pretendiam entregar informações sobre Lula, pois suas defesas detectaram que a Lava Jato queria mais elementos para cravar que o então presidente não só sabia da existência, como comandava o esquema de corrupção na Petrobras. Palocci recuou duas ou três casas em sua negociação, após a libertação do ex-ministro José Dirceu. Duque aproveitou para avançar. Disse que encontrou Lula pessoalmente três vezes. “Nessas três vezes ficou claro, muito claro para mim, que ele tinha pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”, disse Duque. No último encontro, em 2014, segundo Duque, Lula perguntou se ele tinha recebido dinheiro na Suíça da holandesa SBM, fornecedora da Petrobras. Duque diz que negou. Lula, então, perguntou: “Olha, e das sondas? Tem alguma coisa?”. Lula se referia a negócios da Sete Brasil, a estatal criada para turbinar o petrolão. Duque afirma que mentiu a Lula ao dizer que não tinha. Ouviu do então presidente, de saída do cargo: “Olha, presta atenção no que vou te dizer. Se tiver alguma coisa, não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?”.




No ano seguinte, Lula prosseguiu em sua tentativa desesperada de sabotar a Lava Jato. Em maio de 2015, o então senador Delcídio do Amaral foi à sede do Instituto Lula, em São Paulo. Àquela altura, líder do governo no Senado, Delcídio era um interlocutor frequente de Lula sobre a situação precária do governo Dilma no Congresso, mas, principalmente, sobre o avanço da Lava Jato em direção ao coração petista. Na conversa, Lula se disse preocupado com a possibilidade de seu amigo, o pecuarista José Carlos Bumlai, ser engolfado pela operação. Delcídio percebeu que fora convocado para discutir o assunto. Avisou que Bumlai poderia ser preso devido às delações do lobista Fernando Baiano e do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Delcídio também tinha medo disso, pois recebera propina junto com Cerveró. Então, contou a Lula que, quatro meses antes, recebera um pedido de ajuda financeira de Bernardo, filho de Cerveró. Delcídio afirma que Lula determinou que era preciso ajudar Bumlai.




Assim, Delcídio passou a trabalhar. Dias depois, encontrou-se com Maurício, filho de Bumlai, e “transmitiu o recado e as preocupações de Lula”. Maurício topou a empreitada: era preciso bancar as despesas com advogado e sustentar a família para “segurar” a delação de Cerveró e, assim, tentar salvar o pai de Maurício. Nos meses seguintes, Maurício Bumlai entregou R$ 250 mil em espécie a um assessor de Delcídio, em encontros em São Paulo. O dinheiro era levado depois à família Cerveró. Quando, em setembro, ÉPOCA publicou que Cerveró fechara um acordo de delação, Maurício interrompeu os pagamentos. Em novembro de 2015, Delcídio foi preso, por ordem do Supremo, por tentar obstruir a Lava Jato.



Por meio de nota, o Instituto Lula afirma que “não há nenhum” ato ilegal nas delações dos executivos da Odebrecht e que as delações não são provas, mas “informações prestadas por réus confessos que apenas podem dar origem a uma investigação. Por enquanto, o que existe são depoimentos feitos aos procuradores, a acusação, divulgados de forma espetacular”. Sobre a “conta Amigo”, a nota afirma ser “a mais absurda de todas as ilações no depoimento de Marcelo Odebrecht”. “Se for verdadeiro o depoimento, Marcelo Odebrecht teria feito, na verdade, um aprovisionamento em sua contabilidade para eventuais e futuras transferências ou pagamentos. A ser verdadeira, trata-se, como está claro, de uma decisão interna da empresa. Uma ‘conta’ meramente virtual, que nunca se materializou em benefícios diretos ou indiretos para Lula.” Sobre a ajuda da Odebrecht a Luís Cláudio, um dos filhos de Lula, o Instituto Lula afirma que “mesmo considerando real o relato de delatores que precisam de provas, Emílio Odebrecht e Alexandrino Alencar relatam que a ajuda para o filho de Lula iniciar um campeonato de futebol americano foi voluntária e após diversas conversas e análises do projeto”. Sobre a mesada de R$ 5 mil que a Odebrecht pagou por anos a Frei Chico, irmão do ex-presidente, a nota afirma que “não só Lula não pediu, como não foi dito que Lula teria pedido”. Afirma que o principal assessor de Lula, Paulo Okamotto, “negou ter recebido qualquer ‘mesada’ de Alexandrino Alencar”. O Instituto diz que a Odebrecht não inventou Lula como palestrante e que “as palestras eram lícitas e legítimas”.


(*)DiegoEscosteguy é articulista da Revista Época
Fonte: epoca.globo.com

sábado, abril 07, 2018

Lula soltou o monstro do Ódio.






por Diego Escosteguy(*).

Uma cascata colou como chiclete no debate público brasileiro nos últimos dias. Nela, o ex-presidente Lula não é um cidadão condenado por corrupção, mas uma liderança popular vítima de uma inominável injustiça - de uma caçada política travestida de processo judicial. Não há, contudo, teoria conspiratória e retórica biliosa que resista a um exame detido dos fatos do caso contra ele. Eis uma afirmação que deveria ser incontroversa, vivêssemos em tempos mais racionais: 

➤(por enquanto a primeira) condenação 

A condenação do ex-presidente obedeceu aos princípios largamente garantistes do nosso estado democrático de direito. Respeitou-se o devido processo legal - toda a ampla gama de garantias constitucionais concedidas a qualquer cidadão acusado criminalmente pelo estado. Ao contrário da vasta maioria da população carcerária brasileira, Lula aproxima-se da prisão após um processo examinado rigorosamente por nove dos mais preparados juízes do Brasil, espalhados por três instâncias - além dos ministros da Suprema Corte.

Sua recusa em aceitar a prisão, submetendo-se serenamente à lei, transforma-o num algoz da justiça brasileira. A insubordinação barulhenta de Lula ao estado democrático de direito estimula seus seguidores - e eles são numerosos - a desprezar igualmente a Constituição, o Judiciário e até mesmo as normas de conduta civilizadas que deveriam nortear o comportamento de qualquer cidadão. E, assim, substitui-se a voz legítima de protesto pelas pedras ilegítimas de ataques. Lula soltou o monstro do ódio. Ele já deixou São Bernardo, destruindo os inimigos que encontra pelo caminho. Por enquanto, com palavras e pedras, nas redes e nas ruas. Para imortalizar-se como vítima política, Lula mostrou-se disposto, e nisso não há surpresa, a sacrificar os outros - aqueles que lutam por ele e aqueles que por ele são combatidos.
➤Relembremos. 

Houve um processo público. Respeitou-se o direito à ampla defesa. Ao contraditório. O processo teve uma duração razoável. Lula foi tratado com cordialidade ao ser conduzido coercitivamente pela Polícia Federal a depor, no início da investigação, e também meses depois, quando depôs perante o juiz Sergio Moro. Pôde apresentar, diretamente ou por meio de sua defesa, suas razões, em face da acusação do Ministério Público Federal.

Sucessivos juízes, seja na segunda instância, seja na terceira instância, seja na quarta e última instância, no Supremo, analisaram a fundo recursos do petista, assim como seu pedido preventivo de habeas corpus. A discussão deste tomou duas sessões da Suprema Corte do país, e incluiu ministros indicados ao cargo pelo ex-presidente e por sua sucessora, Dilma Rousseff. Nunca houve, na história recente do Brasil, um caso criminal tão examinado, desde a primeira até a última instância. (O mensalão foi julgado somente numa instância, no Supremo.)

Lula e seus aliados, por mais que repitam o trololó da conspiração das elites, nunca ofereceram qualquer evidência da existência dela. Não poderia ser diferente agora, com a prisão iminente do ex-presidente e a consequente necessidade de emplacar a - eta palavra feia que político adora! - “narrativa” de perseguição política. À turma mais radical do PT, a que sobrou para defender Lula, restou gritar “golpe!” a cada cinco minutos, ao lado de cânticos de guerra que mobilizam, pelo ódio aos imaginários conspiradores, a massa de manobra que está correndo às ruas distribuir pancada em jornalistas. Sobrou até para a presidente da Suprema Corte, cujo apartamento foi alvejado por tintas vermelhas, num ataque do MST.

Não há falsa equivalência neste momento; não há dois lados opostos e igualmente culpados recorrendo à violência e ao ódio. Desde a decretação da prisão de Lula, a violência parte de quem defende o ex-presidente - e, sejamos claros, em função das palavras de ordem proferidas pelo petista ou por lideranças sob o comando dele. O ex-presidente esculacha o Judiciário e a imprensa desde que começou a ter problemas com a polícia. Ou seja, há um tempão. Este grave momento que sobressalta os brasileiros, em que não se sabe quando uma ordem de prisão contra o maior líder popular do Brasil será cumprida, oferece apenas a maior das plataformas para palavras que bordejam a violência verbal sejam amplificadas. O monstro aparece em seguida, nos socos dos militantes contra qualquer um e nas pedras contra jornalistas e prédios públicos. 

Uma conspiração - uma concertação nefasta para incriminar e aprisionar um homem inocente - exigiria a participação, ou cumplicidade, de dezenas de funcionários públicos de carreira. Além dos nove juízes das três instâncias e de seis ministros da Suprema Corte, estariam no barco do complô delegados da Polícia Federal, agentes da Receita, procuradores da República e um sem-número de assessores desses profissionais de carreira, distribuídos em diferentes instituições. No mesmo ajuntamento de canalhas, dezenas de jornalistas que acompanharam de perto o caso. Sério?

Segundo Lula, a razão da conspirata promovida, supõe-se, por essa ampla aliança de brasileiros, muitos dos quais nem sequer se conhecem, residiria no sempre citado “ódio das elites” a ele. Que se manifestaria no também mui repetido desejo de impedir o retorno triunfal ao poder do maior líder popular do Brasil. Quais os fatos apresentados por Lula e sua turma para sustentar os motivos desse complô? São desconhecidos como os comprovantes de aluguel do ex-presidente no apartamento de São Bernardo. (Fato: o imóvel foi comprado pela Odebrecht após operações de lavagem de dinheiro, e descontado da conta de propina do PT junto à empreiteiras.)

As palavras de Lula e de dirigentes do PT, repetidas dia após o dia, em palanques físicos e virtuais, mediante slogans repletos de palavras de ordem mas desprovidos de sentido lógico, chocam-se contra a rocha de fatos, provas e bom direito que constituem o processo contra o ex-presidente. São mísseis políticos que prescindem da verdade factual; estão armados de narrativas e ideologias. É um arsenal de octanagem emocional. Daí sua eficácia perante parcela expressiva da população - perante as pessoas que querem, até mesmo precisam, acreditar atavicamente não somente na inocência de Lula, mas em sua messiânica pureza moral.

É assim há quinze anos, independentemente do acúmulo cotidiano de fatos desfavoráveis e até mesmo criminosos envolvendo o petista. Os mísseis são políticos, essencialmente emocionais; a rocha é jurídica, essencialmente racional. Os mísseis não destroem a rocha, mas mantêm os defensores de Lula engajados na luta. A rocha aguenta o impacto dos mísseis, mas nada pode fazer a não ser existir - nunca convencerá quem não se dispõe a ser convencido, a quem não se entrega ao exercício racional do livre pensar e da análise desapaixonada de verdades factuais.

A principal vítima desses ataques não é o Judiciário. São os brasileiros, obrigados a assistir, impotentes, ao violento espetáculo promovido, com impunidade, pelo algoz da Justiça brasileira. O monstro estará nas ruas ao menos até segunda - até que a Polícia Federal execute finalmente o mandado de prisão contra o pai dele.


(*)DiegoEscosteguy é articulista da Revista Época
Fonte: epoca.globo.com

quarta-feira, julho 19, 2017

Da sentença de Moro









por Carlos Andreazza(*).



É aula de reconstrução cronológica, preciosa e precisa em roteirizar o que se passou. A saber, porém, se definitiva também como peça condenatória


A sentença por meio da qual Sergio Moro condenou Lula precisa ser lida pelo brasileiro que quiser entender o país em que vive. Está tudo ali. O texto é obra-prima da interpretação; mas pretende desmontar — tecnicamente — a politização dos processos promovida tanto pela defesa do ex-presidente quanto pelo Ministério Público. Não terá sido tarefa fácil, dada a qualidade da denúncia que recebeu. Significativo é, pois, que o juiz se negue a tratar — explicitamente — de organização criminosa ao mesmo tempo em que a evidencia na costura de delações, testemunhos, documentos e circunstâncias. A sentença é aula de reconstrução cronológica, preciosa e precisa em roteirizar o que se passou. A saber, porém, se definitiva também como peça condenatória.

O ano-chave para se compreender a associação entre Lula e o tríplex é 2009. Ele ainda era presidente da República. Até 15 de setembro, Lula e Marisa haviam pagado 50 de 70 prestações relativas à aquisição de uma unidade simples no então Residencial Mar Cantábrico. O projeto imobiliário era da Bancoop, presidida por João Vaccari Neto, futuro tesoureiro do PT. Menos de um mês depois, em 8 de outubro, a Bancoop transferiria os direitos sobre o empreendimento à OAS — que o renomeou: Condomínio Solaris.

A partir de 27 de outubro de 2009, com prazo de 30 dias, os cooperados da Bancoop teriam de optar entre celebrar novo contrato, doravante com a empreiteira, ou pedir restituição de dinheiro. Lula e Marisa, entretanto, nem se manifestaram a respeito nem voltaram a pagar parcelas. Somente no final de 2015, com a Lava-Jato na rua — Léo Pinheiro, presidente da OAS, fora preso em novembro de 2014 — e a história já pública, formalizariam a desistência. No curso desses seis anos, jamais a construtora ou a cooperativa pressionaram para que se decidissem. No curso desses seis anos, contudo, o apartamento equivalente à unidade a que haviam aderido foi vendido. Apenas um imóvel do Solaris nunca seria posto à venda: o tríplex — que, conforme documentos da empreiteira, estava reservado.

Tragamos Vaccari de volta, elemento cuja ação obscura ilumina o entendimento da negociata pela qual Lula foi condenado; trama em que a propriedade no Guarujá é sobra — franja para agrado pessoal — do complexo corruptivo que sustentou o projeto de poder petista.

A OAS participou do esquema que saqueou a Petrobras durante os governos petistas. Em 2008, segundo relato de Léo Pinheiro, Vaccari o procurou para tratar do pagamento ao PT de 1% sobre o valor do contrato firmado para a construção da refinaria de Abreu e Lima. A operação ocorria — desde o início da gestão de Lula — sob a guarda de uma conta-propina do partido junto à empreiteira.



A transação por meio da qual o condomínio foi transferido à construtora não consistiu simplesmente num bom negócio objetivo para a OAS, mas em concerto que compunha o mutualismo criminoso em que se transformou, sob a administração petista, a relação entre Estado e iniciativa privada no Brasil, cujos expoentes são consultores como Palocci e campeões nacionais como Joesley Batista. Em 2009, quando das tratativas para transmissão do empreendimento, Vaccari contou a Pinheiro que havia uma unidade de Lula no condomínio, sugeriu que seria interessante à empreiteira assumi-lo, sobretudo em função da parceria entre a empresa e o partido, e informou que ao então presidente caberia o tríplex, muito mais caro — e não o imóvel simples pelo qual faltava pagar 20 parcelas.

Veio, no entanto, a já histórica reportagem do GLOBO, publicada em março de 2010, que — antes de existir qualquer investigação judicial — afirmava que o tríplex pertencia a Lula e Marisa. A notícia alarmaria Pinheiro, que procurou Vaccari e Paulo Okamotto. Queria saber sobre como proceder, uma vez que o imóvel ainda estava em nome da OAS. Deveria vendê-lo? Não. A determinação que recebeu foi para que o mantivesse reservado, oculto como patrimônio da construtora. Era ano eleitoral — e Lula trabalhava para eleger Dilma Rousseff. Aliás, sobre a transferência formal do apartamento, Vaccari e Okamotto sempre foram claros ao pedir que permanecesse em nome da empreiteira, com a qual o PT tinha sólida ligação, vínculo de confiança graças ao qual podiam prescindir de título de propriedade.



Só se voltaria a conversar a respeito em 2013, com o ex-presidente já recuperado do câncer. De uma reunião no Instituto Lula, em dezembro, derivariam a visita do casal ao tríplex, no início de 2014, e as obras no imóvel. O mais importante, porém, teria vez em meados daquele ano — novamente eleitoral, o da reeleição de Dilma: Pinheiro enfim acertou com Vaccari que a diferença de preço entre a unidade simples, pela qual se desembolsara apenas parte, e o tríplex, assim como os custos com a reforma do apartamento (e do sítio em Atibaia), seria descontada dos créditos do PT junto à construtora. O tríplex reservado era bem material extraído da conta-propina petista na OAS — traficância de titularidade, portanto, impossível.

Moro desenhou sem papel.

Leia aqui a sentença na íntegra.

(*)Carlos Andreazza é editor de livros

Fonte: oglobo.oglobo.com


quinta-feira, julho 13, 2017

Lula foi condenado COM provas abundantes.





por Flavio Morgenstern(*).



Não caia na conversa de quem tá com dele na reta.

Há uma narrativa de que "Lula foi condenado sem provas". Conversa de petistas para tapear eleitores: não faltam provas documentais no caso.

A narrativa atual feita pelos petistas e pela esquerda diante da condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro, já que o mito do “Lula dos pobres” foi desfeito, é a de que o ex-presidente teria sido condenado “sem provas”, tão somente usando-se a força da lei para impedir que Lula disputasse as eleições de 2018.

A narrativa (e tudo o que importa em política, como em boa parte da vida, são narrativas) é complementada com tentativas de associar o juiz Sérgio Moro aos adversários eleitorais do PT, o PSDB (que só apoiou o impeachment de Dilma depois de toda a sociedade), além da Rede Globo, que é incalculavelmente mais pró-PT do que anti-PT.

Assim, petistas tentam comparar a condenação de Lula, com as provas documentais do caso do triplex (incluindo documentos na casa de Lula em São Bernardo, que são provisoriamente “esquecidos” na hora de engabelar o povo), com as provas contra Aécio e Temer. O primeiro é uma anta o suficiente para deixar pastas com a sigla “cx 2” em sua casa (sic). O segundo tem contra si, justamente, a Rede Globo, que fez um auê desgraçado sobre uma frase de Temer gravada por Joesley Bastista, que nem comprovou tanto o sentido que a Globo (e o país) queria que tivesse.

Mas, bem ao contrário da típica narrativa petista, abundam provas documentais, além das testemunhais e circunstanciais, no caso da condenação de Lula. O que a Justiça tem de fazer é montar um todo coerente, mostrando que qualquer outra visão (como a de que Lula não usufruiu do triplex) possui incoerências. E assim o fez.

A decisão do juiz Sérgio Moro possui 218 páginas. É hilariante pensar que qualquer petista a tenha lido em 2 minutos antes de sair esbravejando no Twitter que “Moro condenou sem provas” para a militância roboticamente repetir, no conhecido processo de dog whistle. Até falando do “terno preto cafona” e da “voz que não combina com a cara” de Sérgio Moro. E olha que era ninguém menos do que o breguíssimo Big Brother Jean Wyllys tentando dar lição de elegância.




Há provas que precisam tão somente de contextualização. Por exemplo, Lula ter informado à Justiça Eleitoral que pagou R$ 47.695,38 pelo apartamento. Um vizinho pagou em torno de R$ 925 mil pelo mesmo apartamento, mostrando que Lula foi beneficiado através de desconto na folha de propina da OAS. Não é preciso muito esforço para entender o caso, seria uma questão de matemática no vestibular que até quem faz Letras acertaria.

Há prova documental de memorial descritivo que aponta a uma reforma estrutural do triplex, mostrando que é o único com elevador privativo. Além de prova documental sobre a instalação da cozinha.

Algumas outras só precisam ser analisadas pelas circunstâncias, decorrendo das provas materiais para que sejam entendidas. Por exemplo, o fato de o triplex nunca ter sido colocado à venda (então, quem teria mandado fazer a reforma? quem seria “o chefe” e quem seria “a madame”?), a um só tempo em que Lula nunca tenha negociado, em momento algum, o preço do triplex.

Há ainda documentos apreendidos na sede da Bancoop, cooperativa aboletada de petistas que deu o calote em mais de 3 mil famílias, que pagaram por casas que nunca tiveram, enquanto Lula achava que um triplex no Guarujá era um apartamento “muito apertado” para sua família passar um fim de semana (presidente dos pobres que tirou trilhões da miséria etc, sem ressarcimento e condenações até hoje). É a Bancoop que faz a triangulação e passa o imóvel para a OAS.




É por isso que jornalistas safados, apostando na ignorância de seus próprios leitores, soltam manchetes recortadas da realidade, como “Moro usou reportagem do Globo como prova”, crendo muito acertadamente que seus leitores são ignaros estúpidos, sem dizer que a citação só comprova que Lula usava o triplex como seu, e não que isto foi usado como “documento”.

Apenas para corroborar as provas documentais vão sendo adicionadas outras provas, como os testemunhos, mensagens, manuscritos com códigos etc. É aí que são analisadas, por exemplo, mensagens no celular de Paulo Gordilho, arquiteto e ex-executivo da OAS, citando reformas em “sítio” e “praia”. Ou no celular de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, se referindo ao projeto do “chefe” e para marcar com a “madame”. Ou ainda testemunhos de funcionários da OAS e do edifício Solaris declarando que Lula e Marisa eram tratados como donos do apartamento, e não “prováveis compradores que nunca adquiriram o triplex”.

A defesa de Lula insiste em uma tese para chamar a patuléia ignorante para as ruas, sabendo que os eleitores de Lula são ignorantes e se surpreendem com palavras, sem conhecer seu significado. É a tese de que o apartamento está em nome da OAS, portanto, “não é de Lula”. Jornalistas do porte de colunistas do Estadão, ao invés de estudar minimamente mais do que uma criança, compram e espalham a advocacia de Lula.




Como já explicamos, Lula é investigado, entre outros, pelo crime de ocultação do patrimônio, ou seja, escondeu da Justiça um patrimônio, usufruindo-o na vida concreta sem tê-lo comprado legalmente. Qualquer um pode comprar um bem se puder pagar por ele. Já não se pode receber vantagens indevidas de alguém que comprovadamente recebeu benesses do PT de Lula (tanto que até teve de devolver o dinheiro) na forma de propina. Tudo isto está provado com documentos, e ainda corroborado com testemunhos e contextualizado por circunstâncias.

Ainda que Lula tivesse o apartamento em seu nome, se o tivesse recebido como “presente” da OAS, como os próprios valores, reforma, intenção da empreiteira e confissões de culpa dos envolvidos e presos por isso o confirmam, ainda assim Lula estaria cometendo um crime. Apenas Lula confiou que uma mera triangulação disfarçaria o caso para a Justiça, que tanto fechou os olhos aos seus desmandos anteriores.

O próprio Sérgio Moro explicou a questão irrefutavelmente.




É claro que ainda há pasto e circunstância para interpretações bovinóides, que nas ganas de tentar defender Lula per fas et per nefas, acabam não percebendo que confessam a culpa do chefe da quadrilha.



Por fim, sobretudo nas manjadas comparações com Temer e Aécio (“há provas, não apenas testemunhos!”), petistas dos mais variados quilates vão repassando às classes mais baixas do seu estamento hierarquizado em vertical a noção de que “não há provas” contra Lula, pois só há “depoimentos”.

Em primeiro lugar, confissão é prova. Não é apenas prova: como diz o brocado jurídico, confissão é a rainha das provas – Confessio est regina probationum. Ao tentar tratar testemunhos como “não-provas”, petistas tratam seus próprios fãs como retardados, tapados facilmente manipuláveis por palavras chocantes.

Ninguém confessa e aumenta sua própria pena à toa. O showzinho feito por petistas que estão com o seu na reta, repetido por jornalistas com pouco uso de sua massa cinzenta, emulado por professores, sindicalistas e autoridades locais e, por fim, macaqueado pela militância com pouco estudo, ignora tal obviedade.

É como se Léo Pinheiro, Marcelo Odebrecht, João Vaccari (além de ex-tesoureiro do PT, ex-presidente da Bancoop) et caterva de repente tivessem virado, digamos, reacionários direitistas conservadores (talvez até meio Bolsonarianos) e quisessem ferrar Lula (“perseguição“, não é esta a palavra que usam?) tão somente pelo prazer de destruir a carreira de um “inimigo”.

A única coisa que estão fazendo é provando o esquema do qual participaram, no qual se refastelaram e enriqueceram (e delação premiada sem provas é anulada), e no qual, por ventura, para desgosto de quem vê em Lula um santo, o próprio Lula foi não apenas partícipe, mas maestro.

A única forma de o PT tentar enganar seu público é crendo que todos os delatores, que nem podem ficar sabendo das delações uns dos outros antes de delatarem, são na verdade direitistas mancomunados que combinaram de antemão uma história golpista e, por mera coincidência, estão todos a falar que Lula é culpado. Pela Teoria da Mera Coincidência.

Não há inteligência capaz de comprar esse disco riscado repetindo acerebradamente que “Lula foi condenado sem provas” e nunca ir além da martelação contínua dessa frase oca jogada à canalha. Caso você ainda seja petista, está na hora de rever se seus ídolos não o tratam como um imbecil inepto tão facilmente tapeável e substituível por alguém mais útil caso a ocasião mude.


(*)Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen

domingo, maio 14, 2017

Lula-2010 confessou o que Lula-2017 esconde



por Augusto Nunes (Veja)



Em 7 de outubro de 2010, empenhado no segundo turno da sucessão presidencial, Lula desembarcou em Angra dos Reis para batizar a plataforma P-56 da Petrobras. Caminhando de um lado para outro, o palanque ambulante revelou o que acabaria por transformá-lo, neste maio de 2017, num forte candidato à cadeia:

“Teve um tempo que a diretoria da Petrobras – não é no seu tempo não, Zé Sérgio – achava… achava que era o Brasil que pertencia à Petrobras, não era a Petrobras que pertencia ao Brasil. A ponto de ter presidente que falava: ‘A Petrobras é uma caixa preta, ninguém sabe o que acontece lá dentro’”.

Enquanto José Sérgio Gabrielli, então presidente da empresa, e Luiz Fernando Pezão, vice-governador do Rio, se juntaravam no sorriso abobalhado, o estadista de picadeiro derrapou na confissão:

“No nosso governo ela é uma caixa branca. E transparente. Nem tão assim…. Mas é transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro e a gente decide muitas das coisas que ela vai fazer”.


Sete anos depois,, a caixa transparente ficou preta durante o depoimento a Sérgio Moro: “Um presidente da República, nos oito anos que eu fiquei na Presidência da República, a gente não tem reunião com a diretoria da Petrobras”, desconversou Lula.

Intrigado com a informação, Moro perguntou: “Senhor presidente, o senhor tendo nomeado, indicado, pelo menos dado a palavra final para a indicação ao conselho de administração da Petrobras de Paulo Roberto Costa, Renato Souza Duque, Nestor Cuñat Cerveró, Jorge Luiz Zelada, o senhor não tinha conhecimento de nenhum dos crimes por eles praticados enquanto diretores da Petrobras?”. Um surpreendentemente lacônico Lula limitou-se a uma resposta monossilábico: “Não”

“Ou desse esquema criminoso que alguns deles começaram?”, insistiu Moro. “Não. Nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal”, viajou o ex-presidente. “Todos nós só ficamos sabendo quando foi pego no grampo a conversa do Yousseff com o Paulo Roberto Costa”.

Em outro trecho do depoimento, o representante do Ministério Público voltou ao tema. Vale a pena reproduzir o diálogo:

MP: “Senhor ex-presidente, o senhor foi o responsável por indicar o senhor José Eduardo de Barros Dutra para a presidência da Petrobras?”

Lula: “Fui. Fui.”

MP: “Foi uma indicação pessoal do senhor?”

Lula: “Indicação do presidente da República não é pessoal. A indicação de uma instituição chamada Presidência da República”.

MP: “Perfeito. O senhor”.

Lula: “Que é ele e o governo”.

Perdido, o depoente enveredou pela trilha do penhasco:

“Lamentavelmente, quando as pessoas assumem uma empresa importante como a Petrobras, as pessoas viram petroleiros. Ou seja, as pessoas passam a tomar decisões dentro do conselho da Petrobras e não precisam ouvir o presidente da República”.
Como todas as mentiras que desfiou no depoimento que consolidou sua liderança no ranking mundial dos especialistas em perjúrio continuado, também essa tropeçou em uma das inúmeras discurseiras que circulam na internet. Lula o tempo todo prova que Lula mente. Confrontados os vídeos, fica provado que, como Lula-2010 confessou, Lula-2017 é apenas um caso de polícia implorando pela condenação.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Você está bem, Reinaldo Azevedo?






por Lucas Berlanza do Instituto Liberal


Foto Montagem de OAC




Nos anos que imediatamente antecederam meu ingresso à faculdade, bem como no seu começo, sempre estive a favor do colunista da VEJA, Reinaldo Azevedo, autor de O País dos Petralhas, diante dos ataques constantes que o via receber na universidade. Achava – e continuo achando – que ele era um articulista talentoso, capaz de irritar profundamente as esquerdas radicais por ser uma das poucas vozes a questionar sem dó suas articulações políticas.


Reinaldo se portou como guerreiro em seus textos, combatendo as artimanhas do petismo com desenvoltura e até, nalguns momentos, certa poesia. Estava certo de ser esse o único motivo para merecer o escárnio e a zombaria com que era tratado. Eram de sua autoria algumas das melhores sentenças e definições irônicas do entulho lulista. Não que concordasse com ele o tempo todo, e é natural sempre haver alguma discordância entre duas pessoas que se dispõem a verdadeiramente pensar; mas eu o admirava como colunista.


De uns tempos para cá, porém, a partir do momento em que Lula e Dilma se reduziram aos trapos que merecem ser, comecei a pensar que Reinaldo estava um tanto esquisito em sua eleição de prioridades. Quando teceu suas primeiras críticas a Sérgio Moro e aos procuradores da Lava Jato, observei aquilo com cautela e respeito. Não endosso qualquer discurso, afinal de contas, que santifique pessoas e as torne automaticamente impolutas, por maiores sejam os seus méritos; Moro e os procuradores podiam e podem, de fato, estar equivocados em alguns aspectos. Por que não criticá-los, se este fosse o caso?


O prosseguimento das publicações de Reinaldo, porém, mudou bastante a minha percepção. Percebi que, na contramão de muitos articulistas e colunistas, diante de todos os nossos problemas, ele elegeu as figuras por trás da Operação Lava Jato como alvos prediletos de seus vitupérios, como que numa verdadeira perseguição inveterada. Chovem acusações de que seja tucano, e me sinto bastante desconfortável em fazer ilações sobre sua ética profissional, mas é impossível não vir à cabeça a triste dúvida se, no momento em que quase todos os partidos, e não apenas o PT, ficam com a água no pescoço nas delações avaliadas, a recorrência dessas publicações se tornou tão intensa.


Quando quase todos estavam torcendo para Carmen Lúcia homologar as delações da Odebrecht, Reinaldo deu um chilique na Jovem Pan, taxando-a de aventureira; sobre Donald Trump, ele engole todas as deformações que a imprensa de esquerda fabricou a respeito; numa das últimas de sua lavra, escrachou Moro por ter comentado à imprensa, em nota protocolar, depois de questionado insistentemente, que Fachin é um jurista eficiente e de elevada qualidade. Isso, para ele, foi ir “além das sandálias”. Moro estaria muito vaidoso. Ninguém compreende a lei, apenas ele, Reinaldo, e os especialistas que consulta. Sua forma de criticar quem mereceria um pouco mais de consideração e alardear certezas jurídicas, particularmente na rádio, quase como, com o perdão da expressão, uma franga tendo um ataque histérico, só o tornou ainda mais antipático aos meus olhos.


Agora, comentando o governo Temer, Reinaldo, que se diz liberal, acredita quase em que não é relevante a palhaçada de aumentar o número dos ministérios, abrigando uma desembargadora no Ministério de Direitos Humanos – como se lei já não houvesse – e Moreira Franco, oportunamente premiado com um foro privilegiado, na Secretaria Geral da presidência, alçada a Ministério. Une-se àqueles que me decepcionam ao emular os petistas e fechar os olhos para os eventuais malfeitos de tucanos ou peemedebistas.


Tudo isso, a meu ver, é um erro grosseiro de posicionamento, mas ainda pode ser visto como bastante subjetivo; o mesmo não se pode dizer de bobagens como a que segue, em que, comentando a reeleição de Rodrigo Maia para a Câmara – que, justiça seja feita, Reinaldo afirmou ter sido ilegal -, o colunista disse: “é certo que eu e Maia pertencemos a um mesmo universo mental em matéria de política: somos liberais – o que se chamaria na Europa de ‘conservadores’ e, nos EUA, de ‘direita’. Infelizmente, no Brasil, rematadas bestas reivindicam essa condição e só criam embaraços à agenda liberalizante, com seus direitos fascistoides e regressivos”.


O que Reinaldo diz é de tal maneira uma enormidade de bobagens que fica difícil definir por onde começo. Em primeiro lugar, é discutível se o que é chamado de “liberal” no Brasil é chamado de “conservador” na Europa e de “direita” nos EUA; esse é o tipo de frase que não diz coisa alguma, porque esses termos têm um uso tão elástico entre nossos pobres tupiniquins, quiçá no resto do mundo. Contudo, se é para nos preocuparmos com o que se diz por aí ou como as coisas são chamadas, aquilo que a imprensa mundial faz, e Reinaldo aqui, sub-repticiamente, também, é chamar qualquer coisa que esteja “à direita” de tipos como Rodrigo Maia de “extrema direita” ou “fascista”.


A “direita saudável”, para Reinaldo Azevedo, é Rodrigo Maia, do partido Democratas do Rio – cujo pai fez, há pouquíssimo tempo, campanha em nome da legenda no estado clamando por um “governo público” e contra as privatizações. Rodrigo Maia que foi eleito em entusiástico apoio tanto do governo quanto de forças à esquerda que desejam manter engavetadas coisas como a CPI da UNE. Rodrigo Maia que é uma figura tão “liberal” que se ornou de pedantismo quando disse que quem manda na Câmara é ele, quando o relatório da Comissão que julgou o pacote de 10 medidas chegou à casa legislativa, como se fosse uma espécie de ente superior e o povo que assinou (certo ou errado) o tal pacote não fosse o mesmo a pagar seu salário.

Já escrevi aqui tantas vezes e reitero: acho que o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) tem sido um bom presidente da Câmara, ainda que eu discorde disso ou daquilo. Mais: penso ser ele, de longe, o melhor dos três postulantes até agora conhecidos — e isso pode mudar até o dia da votação, 2 de fevereiro. Os outros dois são Jovair Arantes (PTB-GO), que tem a simpatia de parte do Centrão, e André Figueiredo (PDT-CE).
Por Reinaldo Azevedo
30 jan 2017, 05h43



Quer dizer que qualquer um que esteja à direita de figuras fisiológicas como Rodrigo Maia – fisiológicas e sem qualquer carisma, diga-se de passagem –, com quem o próprio Reinaldo se compara, é um fascista? Então quer dizer que Rodrigo Maia é a referência de liderança saudável da direita para Reinaldo Azevedo, e ambos, na cabeça do colunista, são a mesma coisa que, digamos, os Republicanos dos Estados Unidos e os conservadores britânicos. Rodrigo Maia seria uma Margaret Thatcher ou um Ronald Reagan. É isso?

Reinaldo Azevedo, você está bem?



quinta-feira, março 10, 2016

Lula sabe que não engana Sérgio Moro, por isso esperneia.






Lula sabe que não engana Sérgio Moro, por isso esperneia.por Hermes Rodrigues Nery






A decisão do juiz Sérgio Moro, de obrigar o ex-presidente Lula a depor por meio de uma ação coercitiva, na manhã da sexta-feira, no dia 4 de março de 2016, foi certamente um dos fatos mais relevantes da história recente do Brasil, com implicações, consequências e desdobramentos que poderão ser um divisor de águas. Moro acertou o alvo ao deflagar a “Operação Aletheia”, e poderá estar fazendo a verdadeira reforma política, que é o grande anseio do povo brasileiro, exausto das espertezas de Lula, que há décadas encarnou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Acertou o alvo porque, à frente da Operação Lava Jato, o juiz Sérgio Moro atinge o cerne de toda a problemática, que é a questão moral, pois a crise que vivemos atualmente é mais do que política ou econômica, mas profundamente moral. Com isso ele presta um grande serviço à nação brasileira, na medida em que trabalha para fazer cumprir a lei, pois a democracia é não só a garantia das liberdades individuais, mas sobretudo [justamente para fazer valer a liberdade com responsabilidade], o cumprimento da lei.

É evidente que Lula e seus apaniguados estão surpreendidos e chocados com tudo o que está acontecendo, com tantos desmoronamentos, pois especialmente Lula se sentia há mais de uma década, acima de tudo e de todos, acima de toda lei, o homem mais blindado de todo o País, com uma blindagem que o fazia se sentir super mimado, como sempre foi paparicado, desde quando Cláudio Hummes criou a Pastoral Operária, assessorado por Frei Betto, para lançá-lo à grande aventura do menino pobre que passou fome e chegou à Presidência da República, mas que sempre desprezou estudar. Quase toda a sua carreira política foi fazendo a “glamourização da ignorância”, como destacou Joice Hasselman, e essa ignorância de “homem-massa” (tão bem descrito por Ortega Y Gasset) que o faz apelar para o emocionalismo, choramingando, como fez, por exemplo, quando foi diplomado Presidente, chegando às lágrimas, comovendo a todos com o seu pieguismo cênico.



Surpreendido às seis da manhã (como no samba do japonês da Federal), daquela sexta-feira, foi ainda poupado pelo próprio Sérgio Moro de ser algemado ou transportado no carro com o emblema da Polícia Federal. E ele fez birra, cara feia, xingou tudo e todos, e disse que ficou muito ofendido, e esperneou. Assim que saiu do Aeroporto de Congonhas, recolheu-se ao diretório do PT, onde proferiu a sua mais hilária e trágica coletiva de imprensa, como o verdadeiro Macunaíma, chorando às pitangas, expressando raiva em seus olhos esbugalhados, e, mesmo assim, contando vantagens, e tentando persuadir com a retórica, chantagem e emocionalismo, o irrealismo de suas bazófias. Sim, porque ele perdeu totalmente o chão da realidade. A casa caiu. Mesmo assim, ele se gabou em sua fala, de considerar-se o maior presidente de todos os tempos, e transtornado com os acontecimentos daquele dia, foi flagrado conversando com a presidente Dilma Roussef, como se estivesse num boteco, com fala chula, mandando a Polícia Federal enfiar no c... o seu processo. Apesar de seus rompantes, se comparando a uma jararaca que atingiram o rabo, mas que está viva, Lula perdeu totalmente, naquele dia, a noção dos fatos. E não percebeu que aquela ação coercitiva foi o começo de um périplo, de um acerto de contas, daquele duro acerto de contas que acaba chegando para todos os embusteiros, principalmente àqueles a quem a vida deu tanta oportunidade. “Ao que muito teve, muito será cobrado”, e Sérgio Moro chega agora com a cobrança da fatura, alta demais, por tudo o que fizeram. A Lava Jato alcançou “o chefe” do maior esquema de corrupção como nunca antes se viu em toda a história do País. E não adianta agora ele esbravejar. Fica valendo, com a evidência dos fatos, a máxima de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Quanto mais Lula tenta se justificar, mais se enrola, porque não consegue perceber o emaranhado em que se envolveu, desde quando cobiçou um poder pantagruélico, satisfazendo a lógica das forças que o levaram a se tornar o monstro político que é, uma jararaca ferida, e que certamente será pisoteada pela ação firme e corajosa da equipe da Lava Jato, comandada por Sérgio Moro. Por que não poderá haver impunidade a todos os desmandos feitos, à tanta gula e abuso de poder. Os próprios comentaristas da imprensa que tanto o afagaram esses anos todos, reconheceram que havia acabado naquele dia, o mito Lula, até mesmo para os militantes pagos, cada vez mais reduzidos, que o defendem apenas por vil interesse. Joelmir Betting acertou em dizer que “o PT é, de fato, um partido interessante. Começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos”. Ainda quando eclodiu o escândalo do mensalão, em 2005, o jornalista Ivo Patarra escreveu “O Chefe”, enquanto a imprensa torcia o nariz e boicotava a sua obra, hoje muitos terão de reconhecer a coragem de Patarra em por a nu o que se sentia rei, o morubixaba que fez do projeto de poder do Foro de São Paulo, a miragem de Pasárgada, aonde todos os “amigos do rei”, e ele próprio, serão pois arrastado para atrás das grades, por quererem demais e de modo totalmente escuso, privilégios não pautados pela virtude, mas apenas na malandragem. Chegou a hora e a vez de Sérgio Moro, para deter Ali Babá e todos os demais ladrões, comprovando assim, mais uma vez, na História, que o crime não compensa.



Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida. 

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Sergio Moro, um ilustríssimo desconhecido.





por Rogerio Waldrigues Galindo (Gazeta do Povo)

Operação Lava Jato alçou o juiz paranaense à fama. Mas poucos conhecem quem ele realmente é. Gazeta do Povo ouviu pessoas próximas ao magistrado e que conviveram ou convivem para traçar um perfil do grande personagem deste ano






Milhões de brasileiros ouvem o nome “Sergio Moro” todos os dias na tevê e no rádio, leem sobre ele nos jornais e na internet. É fácil associá-lo à Lava Jato . Mas para a imensa maioria ele não passa disso, um nome: sem rosto, sem voz, sem passado e sem personalidade.

Tímido por natureza, desde que começou a trabalhar na Lava Jato Moro se fechou ainda mais. Não dá entrevistas há mais de um ano. Aos amigos, pediu que não deem informações sobre ele, até por prudência: alguém que está mandando prender empreiteiros, gente ligada à maior estatal do país, políticos e doleiros tem razão para não querer que se diga onde mora ou detalhes de sua rotina (o que será respeitado nestas páginas). Durante o tempo em que este perfil foi escrito, Moro falou uma única vez com a reportagem: para dizer que não se pronunciaria.

Mas para muita gente Moro é bem mais do que o nome na tevê. Para os funcionários da Justiça Federal, é o sujeito pacato que até pouco tempo atrás ia de bicicleta trabalhar. Para os alunos da UFPR, é o professor que ensina sobre lavagem de dinheiro e que mesmo durante a Lava Jato não se atrasa para a aula. Para os advogados, é osso duro de roer. Para os amigos, é o são-paulino que gosta de vinho e charutos. Para dona Odete, é o filho que saiu cedo de casa para ser juiz. Para Rosângela e os filhos, é o pai de família com dois empregos que passa as férias em Santa Catarina.
As origens: o Sergio de Maringá

Faz quase 50 anos. Recém-formado, Dalton conheceu Odete e os dois partiram para vida nova. Casaram e saíram de Ponta Grossa rumo a Maringá. Ele, aprovado em concurso para dar aulas de geografia, escolheu o colégio Gastão Vidigal para lecionar. Odete dava aulas de português. Juntos, tiveram dois filhos, Sergio e Cesar, e viveram casados por quase quatro décadas, até a morte de Dalton em 2005.

O professor se dizia “positivista”, mas escolheu a geografia humana – estudava a região de Maringá e a debandada da população rural. Um amigo, em homenagem póstuma, diz que Dalton chegava a chorar ao ver o sofrimento dos roceiros na cidade grande. Mas achava que pesquisador não devia chorar, e pedia segredo.

Os meninos estudaram em colégio religioso. Faziam aula no Instituto de Línguas de Maringá, única escola de idiomas da cidade. Não era vida de luxo – a típica situação da classe média no interior do Brasil, numa época de “milagre econômico” e de falta de liberdades individuais.

Sergio passou no vestibular e entrou no curso de Direito. Típico de sua timidez, não chegou a chamar a atenção de muita gente. Um ex-professor, questionado sobre o aluno famoso, diz que nem tem certeza de que lhe deu aulas. “Dei aula para ele? Nem sei... Teria que olhar no histórico.”

Mas Sergio chamou a atenção de advogados. Indicado por um ex-reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Neumar Godoy, foi parar em um escritório de advocacia de direito tributário. Hoje, Moro brinca com seu antigo gosto pelo tema. “Sinceramente tenho muita dificuldade de me lembrar por que eu gostava daquilo...” Mas fazia bem o trabalho. “Ele ficou dois anos com a gente. Sujeito sensacional”, diz o advogado que o contratou, Irivaldo de Souza.

Sergio começou fazendo pesquisas. Ia ao fórum. Depois passou a redigir petições, memoriais, cada vez assumindo mais responsabilidade. Mas o sonho era outro e veio com a aprovação no concurso para juiz, em 1996. Recém-saído da faculdade, aos 24 anos, Sergio repetia o pai: conseguia emprego em outra cidade e se mudava para seguir a profissão escolhida. O destino era Curitiba – na sede da Justiça Federal.

[Sergio Moro] é só um cara tranquilo, tímido, que gosta de ficar com a família, os amigos, fumar charuto e tomar um vinho.

Amigo do juiz que pediu para não ser identificado.

O juiz : a linha dura começou cedo



Ser juiz e decidir coisas fundamentais sobre a vida alheia aos 24 anos pode ser intimidador. Mas os relatos sobre os primeiros tempos de Sergio Moro como juiz federal não fazem parecer que ele se deixou intimidar. A “linha dura”, de que hoje reclamam os advogados da Lava Jato, vem da vara previdenciária em que ele começou.


Em 1996, não era comum o uso da tutela antecipada – um tipo de liminar que pode favorecer, por exemplo, alguém que está pedindo algo ao governo. A lei era recente e os advogados não estavam acostumados a pedir. Moro, visto pelos procuradores do INSS como “pró-velhinhos”, passou a perguntar nos autos se haveria interesse em fazer a solicitação.

No INSS, houve choro e ranger de dentes. Pediu-se a suspeição de Moro, já que ele não poderia fazer sugestão às partes. Ele levou o caso ao Tribunal Regional Federal, que lhe deu razão. A partir daí, sempre que o INSS questionava seus despachos lembrando a existência da tutela antecipada, Moro tascava a decisão do tribunal e perguntava se o procurador queria continuar com o pedido de suspeição, mesmo sabendo de possíveis consequências processuais. No INSS, isso foi visto como ameaça e os procuradores pediram uma correição parcial de Moro.


O Sergio é um juiz fantástico. É um cara que realmente faz o processo andar. Às vezes eu brincava, dizendo que com um juiz desse nem precisava de promotor. Celso Três, promotor.

A situação era difícil porque, numa vara previdenciária, o juiz só trabalha com o INSS. Se o INSS o considera suspeito, como pode ficar lá? Ao fim e ao cabo, Moro não precisou lidar com o problema. Acabou tendo sua primeira transferência, para Cascavel. Lá, a fama de juiz durão prosseguiria com o caso das contas CC5.

O processo da CC5, que analisava remessas ilícitas de dinheiro para o exterior, foi a primeira grande experiência de Moro com o crime do colarinho branco. O Ministério Público pediu uma quebra de sigilo gigantesca, de todas as contas usadas para esse tipo de remessa. E os promotores só tinham elogios para o jovem juiz, de 26 anos, que assumiu o processo.

“O Sergio é um juiz fantástico”, diz Celso Três, promotor do caso. “É um cara que realmente faz o processo andar. Às vezes eu brincava, dizendo que com um juiz desse nem precisava de promotor”, diz. A frase de Celso Três faz lembrar o tom dos acusadores de Moro. O resumo da acusação cabe na frase de um desafeto: “Com o Moro, o jogo já começa sempre dois a um: é ele e o MP contra o acusado”.

O próprio Celso Três diz que não é assim. “É que no Brasil tem muito juiz que trava o processo. Ele não. E não cerceia a defesa, que tem o direito de recorrer ao Supremo, se for o caso. Agora, se o juiz mata tudo na primeira instância, a gente não tem a quem recorrer”, diz.

Seja como for, o resultado do caso Banestado e das contas CC5 desanimou Moro. Em 2009, já tendo saído de Cascavel, passado por Joinville e subido a serra de volta para Curitiba, ele escreveu um e-mail para amigos. “Quanto aos crimes de colarinho branco, o custo e o desgaste não valem o resultado. Se prende-se, se solta. Se não prende, prescreve pelo tempo entre eventual condenação e início da execução da pena.”

A Lava Jato mostraria ao Moro de 2015 que o Moro de 2009 estava redondamente errado.


O professor: bem visto pelos alunos, contestado por colegas


Duas vezes por semana, Sergio Moro sobe a escadaria da UFPR para suas aulas. O ritual se repete desde 2007, quando passou em segundo lugar no concurso para o Departamento de Direito Penal. Lá, dá uma disciplina obrigatória para o último ano e, neste semestre, uma optativa sobre... lavagem de dinheiro. Evidente: a sala lota.

E Moro não costuma decepcionar os alunos. Mesmo em meio à Lava Jato, não falta e, segundo os alunos, só uma vez se atrasou no semestre. Visto como professor tranquilo, dá mostras de bom humor. Na política interna, se abstém de disputar cargos e até foge de votar (se não se pronuncia em público nem sobre os partidos da faculdade, imagine sobre PT e PSDB...).

Entre os professores, está longe de ter a mesma unanimidade. Para alguns, Moro foi atacado pela “juizite”. Houvesse um dicionário de advogados a doença seria definida como o mal que ataca os magistrados, tornando-os arrogantes e de difícil trato. “Nem no cafezinho ele se mistura”, diz uma professora. “Nunca conversa com ninguém”, diz outro. Há quem o defenda. “Não tem juizite nenhuma. A vida da gente é corrida, ninguém fica lá matando tempo depois da aula”, diz o professor João Gualberto Garcez Ramos.

O modo como muitos olham para Moro dentro da UFPR tem a ver com um processo em que ele não era juiz, e sim parte autor. Convidado para ser juiz instrutor do Supremo Tribunal Federal durante o mensalão, Moro pediu para acumular todas as aulas numa só noite. Uma portaria proibia isso. O juiz, ao ouvir a resposta, não só não gostou como entrou com um processo para conseguir o que queria. Perdeu.

Para quem vê de fora, parece ter havido mais um problema de comunicação e de diplomacia. O problema acabou sendo resolvido de uma forma ou de outra. Mas ficaram as mágoas . Moro quis mostrar a importância de um professor da casa ir ao STF. Para muitos colegas, soou arrogante. Juizite? Depende de quem vê.


O funcionário: o homem que escreve as próprias sentenças

Antes da Lava Jato, o dia de Sergio Moro começava muitas vezes com uma pedalada de três quilômetros de seu apartamento até o prédio da Justiça Federal, na Anita Garibaldi. Hoje, por motivos óbvios, a pedalada em público está fora de cogitação. Mas muito da rotina segue igual: Moro continua acordando cedo e indo para sua sala na Torre Judiciária do Ahú.

Chegar à 13.ª Vara exige passar por pelo menos duas barreiras de segurança. Na portaria, há detecção de metais e é preciso se identificar. Para chegar ao andar, só acompanhado por funcionário e passando pela segurança.

A vara segue o padrão de todas as outras. Com a Lava Jato, ganhou mais quatro pessoas recentemente. Vagas disputadíssimas, aliás: cerca de 100 estudantes se cadastraram para ser estagiário de Moro. Os onze escolhidos para fazer a seleção foram informados por Gabriela Hardt, juíza substituta, que “a discrição conta pontos”. Os dois discretos estagiários escolhidos para a função ajudam a superpovoar o cartório, único setor visível da vara para quem vê de fora: é a parte administrativa e burocrática. Numa sala à esquerda, ficam os dois assessores jurídicos de Moro, classificados de “geniozinhos”. Genialidade à parte, o que corre pelos bastidores é que os dois auxiliam o Moro a pensar, mas não têm autorização para escrever uma linha das e sentenças.

Tudo isso é escrito nas duas salas finais da vara. De um lado, Gabriela Hardt toca as demais ações. De outro, Moro cuida exclusivamente da Lava Jato. O fato de escrever as próprias sentenças já é estranho no Judiciário: há casos em que se dá exatamente o oposto, com o juiz delegando todo o trabalho de escrever a assessores. O trabalho é muito. “Tem sentença dele de quatro da manhã”, diz um observador.

Recentemente, esse mesmo “observador” disse a Moro, brincando, que a qualidade dos textos caiu com a Lava Jato. Ouviu como resposta que ,com a quantidade atual de trabalho, “é o que dá para fazer”. Quantidade de trabalho que, segundo um amigo, só é viável por causa de uma capacidade (rara nos juízes, segundo ele) de manter várias bolas no ar ao mesmo tempo. “É impressionante o trabalho de logística dele”. Nem todos concordam. “O Sergio, metódico?”, questiona um amigo de longa data. “Acho ele até meio atrapalhado.”

Seja como for, as 38 ações da Lava Jato continuam sendo tocadas pelo solitário juiz Moro. Talvez a custo de algum Red Bull, segundo quem já viu sua mesa. Faz sentido.


Ele sempre foi um ponto fora da curva. Tinha nossa idade, formado há menos de um ano, aprovado em concurso de juiz meses após colar grau e dando aula em faculdade.Ex-aluno de Moro.

O marido: os olhos brilharam para ela

O ano que mudou a vida de Moro? Aposte em 1996. Foi o ano em que ele pegou o diploma de Direito, passou no concurso para juiz, começou a dar aulas na Faculdade de Direito de Curitiba e – mais importante – conheceu Rosângela.

Quando chegou a Curitiba, Moro tinha basicamente a idade de seus alunos. Não é de admirar que se desse bem com eles, apesar da timidez. Era admirado pela turma. “Ele sempre foi um ponto fora da curva. Tinha nossa idade, formado há menos de um ano, aprovado em concurso de juiz meses após colar grau e dando aula em faculdade”, diz um aluno da primeira turma.

Como ninguém é de ferro, dava uma esticada com os alunos depois das aulas noturnas. “Aí saía às vezes com a turma. Foi numas festas nossas e os olhinhos brilharam para a Rô”, conta um aluno. Rosângela Wolff de Quadros (hoje Moro) se formaria naquele ano. Hoje, dezenove anos depois, os dois continuam juntos e têm dois filhos.

A família mora em um apartamento num prédio típico de classe média na zona norte de Curitiba. Com dois carros na garagem, a família não é de ostentar. Passa as férias em Balneário Camboriú e pelo menos uma vez por semana tem uma reunião com amigos. Entre os convivas mais frequentes, um assessor parlamentar, um dono de restaurante e um investidor da bolsa.

Na conversa, nada de Lava Jato ou política. A grande disputa é sobre times de futebol. Moro é são-paulino. “Ele tem problema para escolher duas coisas: vinho e time de futebol”, diz um palmeirense que recusa qualquer rótulo de arrogante para o amigo famoso. “É só um cara tranquilo, tímido, que gosta de ficar com a família, os amigos, fumar charuto e tomar um vinho. Mas o melhor é que eu escolha o vinho pra ele”, diz, sorrindo. 

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/