domingo, agosto 11, 2013

A Seita do Mal ou a História se repete.








por Laís Bellini. 

(A história se repete? Leiam o post da entrevista de Eleonora Menicucci, a diferença é que esta gostou da ideia, se submeteu aos ditames da organização; já Lais Bellini não gostou. Quer saber quem paga para essa gente promover a baderna? Helio Fernandes Conta aqui)

Capilé com Haddad e com a Soberana



Comecei a escrever esse texto com incentivo e a coragem da Beatriz e a certeza de que falar a verdade nada mais é o que a melhor maneira de livrar-se do que ainda te revira o estômago.. a gente tem que enfrentar uma parada quando acredita que ela não é aquilo que diz representar.


2011 começou como o que seria meu último ano em Bauru, cidade onde cumpria meu curso de jornalismo pela Unesp, mesma universidade que uniu os primeiros integrantes do Enxame Coletivo, ponto da rede Fora do Eixo por lá. Entre uns shows e outros que assisti das noites fora do eixo, comecei a produzir conteúdo para eles durante os eventos, por meio da E-colab, Equipe de Comunicação Colaborativa de Bauru, grupo este que surgiu com integrantes do Fora do Eixo de Bauru mas que hoje trabalha independente dele. Escrever sobre as noites, os shows e os sons era muito prazeroso, escrevíamos às vezes, durante o próprio evento. Ali mesmo, online, publicávamos, e partíamos para a divulgação do que rolava ali por Bauru, integrando com outras cidades os comentários que rolavam em outros cantos por aí do país. Foi por essas que conheci o Fora do Eixo. A partir do Canja, comecei a me envolver mais ao Fde. Me encantei, e como sempre faço quando me apaixono por qualquer coisa, me joguei. Fui fundo, bem fundo, tapei meus olhos, cerrei minha boca (fui cerrando aos poucos, melhor dizendo). Meus ouvidos, a cada mês, ficavam mais aguçados (recebiam bem as mensagens vindas de cima) e a mente, mais convencida e dependente… 9 meses depois, antes que chegasse a bater a cabeça no fundo do poço, segurei numa cordinha que pendia perto da minha queda e voltei à realidade. Frustrada sim, decepcionada por demais, mas enfim, voltei a pensar. Passei uma semana olhando pra cima, chorando, questionando os meus porquês, me sentindo culpada. Hoje, primeiro dia que tomo coragem pra escrever sobre esse assunto publicamente, associo o meu envolvimento ao Fora do Eixo com diversos fatores da minha vida. Mas enfim, são tantos assuntos que eu vou tentar, veja bem, tentar definir os pontos que considero importantes para serem publicados e espalhados por aí.


O Canja acabou e eu, a cada dia mais encantada, me propus a trabalhar com o Enxame Coletivo como colaboradora. A cada dia mais envolvida, fui para Araraquara onde acontecia o Congresso Regional do Fora do Eixo, em agosto de 2011. Ali, conheci mais gente incrível, cheias de ideias para construir cenas independentes da cultura em suas cidades, para distribuí-las para todo o país, enfim, o discurso que todo mundo aqui que já conversou com qualquer pessoa do Fora do Eixo, já ouviu, pois sim, é bem rápido que se pega o vocabulário e as expressões te encantam, é uma bomba de novidades que faz seu coração e sua mente pensarem "finalmente, encontrei pessoas que pensam e querem mudar o mundo como eu". É, podem rir, mas é verdade, é essa exata sensação que eu tive. Não que mudar o mundo seja uma ação como a de um super herói, mas me refiro às que propõem mudança no seu espaço e em rede, integram essas mudanças que chegam enfim a ser grandes e fazem isso de forma coletiva. O congresso me pirou… e mais ainda porque foi ali que eu conheci o Pablo Capilé. No segundo dia de Congresso, cheguei ali e vi um cara argumentando brilhantemente bem diante de um outro que fazia algumas críticas. O pessoal que fazia críticas era de São Carlos e questionava a atitude da cúpula do Fora do Eixo por terem tirado os caras mais influentes do coletivo de São Carlos para irem viver em São Paulo. (Aqui vale ressaltar que quando eu perguntei o porque de "Fora do Eixo" me contaram que a proposta da rede era fugir da cena Rio-São Paulo e assumir um papel de incentivar as cenas culturais independentes de quaisquer outros cantos do país… No último ano de 2012, a maior luta do Fora do Eixo foi conseguir entrar no Rio de Janeiro, cidade que, durante o Congresso Nacional de 2011, foi imposta pelo Capilé para ser a sede do Congresso do ano seguinte, mas o Rio de Janeiro não abriu as pernas assim. São Paulo, um ano antes, recebeu a rede, conhecida mas nada comparada ao que é hoje, e foi arrombada pela mesma, tudo quanto é evento era coisa do Fora do Eixo, mas não necessariamente porque só eles fazem acontecer, mas porque sim, se apropriavam de realizações de outras organizações como muitos movimentos estão gritando por aí… que o Fora do Eixo não os representa. Mas enfim, vamos voltar ao meu relato pessoal. Conheci o Pablo e ele, obviamente, viu nos meus olhos que eu estava ali, encantada com tudo o que estava ouvindo, conhecendo, descobrindo. Me chamou para uma conversa pessoal (o que deve acontecer com um monte de gente, mas no dia, eu me senti muito importante, e meus próximos ficaram intrigados do porque "O grande Pablo Capilé" queria falar comigo, hoje eu bem sei que ele queria saber mesmo o quanto eu já estava dentro, envolvida, fascinada). Na conversa, fez com que eu me sentisse importante naquela rede, me fez ver o quanto meu papel como "mulher", como ele dizia, era essencial para que Bauru voltasse com toda a potência como antes (a integrante de Bauru que tinha saído do coletivo para ir morar na Casa Fora do Eixo em São Paulo era a única mulher até então, quando eu entrei, a ideia era, praticamente, que eu ocupasse seu espaço, cumprisse suas funções).


Em pouco tempo estava no núcleo duro do coletivo de Bauru, e por conseqüência, morando na sede de lá. (Núcleo duro é o grupo que está mais envolvido com a rede, dentro de um ponto (numa cidade) da rede e, por conseqüência, tem mais poder de fala, mais poder de decisão, mais poder, enfim, ou melhor, como eles dizem mais "lastro", o que pra mim significa tudo a mesma coisa e vem sim com o mesmo tipo de prepotência que a gente assiste ai nos poderes públicos do país. Lastro é sim poder, mas sobre isso eu vou falar mais pra frente). Continuando, meu último semestre na universidade ia por água a baixo. Liguei pra minha mãe e disse "mãe, não vou terminar a faculdade, a universidade não está com nada, vou trabalhar com educação popular, com conhecimento compartilhado que vai além desse engessamento institucional e bla bla bla. Ela, como sempre, tentou me entender e me disse "confio em você". E assim foi, intensamente, me joguei por completo. Já fazia parte de reuniões da regional São Paulo, e, com cada vez mais envolvimento e, bem percebido pelo núcleo duro geral da rede, estava sendo muito acionada por integrantes de outros pontos, "pequenos", da regional São Paulo. Só pra pontuar, digo pequenos aqui pra tentar demonstrar o que isso significava ali dentro da Casa Fora do São Paulo, sim, São Paulo era o controle dessas cidades do estado de São Paulo e também de todas as outras cidades do país e a ligação com os integrados na América Latina. O "pequenos" significa que eram menores em termos de poder em relação a rede e lá em Bauru, começamos a receber grupos de cidades que até então não tinham ponto fora do eixo e que estavam interessados em entender o que era a rede e fazer parte dela. Através de imersões (que aprendemos a fazer durante uma nossa lá na Casa Fora do Eixo São Paulo), começamos a espalhar o conhecimento da rede, as ideias, os vocabulários, os vícios, as dependências, e tudo mais que vem embolado nessa seita, com cara de culturalmente popular, musicalmente descolada, pessoalmente encantadora, internamente… cheio de gente incrível que está cega como eu já estive e com um número contável nas mãos de quem são os controladores e administradores da rede querendo consumir só uma coisa em você: a sua mente. E para quê?! Sinceramente até hoje eu não sei o que é que realmente o Capilé quer fazer da vida dele, nem até onde ele quer chegar. Antes eu pensava que ele queria, sei lá, virar ministro da Cultura, saca. Hoje eu acho que isso tá pequeno pra ele. Ele quer mais, e é por isso que não se diz de partido algum, surfa no mar de vários, tem interlocutor no partido da Marinão que eu sei, tem interlocutor no PT (que é o partido com quem esteve sempre mais próximo), e por aí vai. Hoje eu vejo o Fora do Eixo como uma rede que tá alimentando a imagem do Pablo Capilé, o grande criador da ideia de valorizar a troca de produtos e serviços, o grande criador da moeda solidária, que é o tal mal dito "card". Aliás, na moral, se o Fora do Eixo fosse pagar tudo o que deve em card (e em dinheiro) para os outros, poderia fatalmente decretar falência.


Bom, continuando, saí de Bauru por 10 dias para fazer uma turnê com uns amigos de Bauru que haviam lançado um filme por lá e fecharam com o Fora do Eixo para circularem com eles por algumas cidades do Estado de São Paulo e mais outros dois integrantes de outras duas cidades que tem sede do Fora do Eixo, hoje nenhum deles está mais na rede. E em cada cidade, esses eventos, eram além de tudo, um momento de divulgar a "beleza" da rede. Um desses meus amigos me alertou sobre o quanto eu estava sendo impositiva quando tratava de falar para alguém o que era a rede Fora do Eixo e o quanto eu tava, de certa forma, pesando na mente das pessoas… naquele dia eu discuti com ele, fiquei puta da vida, falei que ele tava atrapalhando meu papel ali de aproximar as pessoas da rede (e sim, eu estava reproduzindo exatamente da maneira que eles queriam… em pouco tempo eu já havia adquirido o vocabulário que encanta quando bem discursado e saía por aí espalhando essa seita São Paulo a fora). No último dia de turnê o Capilé ligou no meu celular. Perguntou como tava rolando a turnê, como tava minha articulação com os possíveis novos pontos e tal… no fim da conversa disse assim: "então, o que você vai fazer sábado!?" isso era quinta, eu estava voltando para Bauru. "Eu gostaria que você viesse pra São Paulo sábado, aqui na casa fora do eixo São Paulo… vai rolar a festa de 10 anos da Fórum e eu gostaria que você estivesse aqui pra participar com a gente". Puuuuuuuta que pariu, me senti importante pra caraaaaaalho e olha só que irônico… hoje, eu vejo essa minha reação como nada mais que uma pessoa que inconscientemente ignorava o propósito horizontal da rede, pois ali eu estava vendo um momento de "subir na rede" como tanto já tinha ouvido falar e que, se entendermos essa expressão ao pé da letra, nada mais é do que a mais pura contradição da sua concepção. E isso rola com muita gente lá dentro, que se esquece e deixa o evo falar mais alto.


Cheguei na Casa Fora do Eixo em São Paulo naquele sábado. Entrei, vi a programação pregada no primeiro poste da casa e a roda de conversa que seguia trazia entre os debatedores "Laís Vellini", pensei eu, que curioso, tem uma mina com o nome quase igual o meu, e ela tá aqui. Beleza. Entrei, vi o Pablo, dei oi pra ele.. e ele: "ainda bem que você chegou, você entra no próximo debate." (WTF!?) Sim, o Pablo me colocou ali pra falar sobre o Fora do Eixo, defender a rede num debate que tratava de "Juventude, Ruas e Rede", eu tava no Fora do Eixo há menos de 6 meses. No mesmo papo estava o Cauê, um cara que eu conheceria de verdade mais adiante, quando fui trabalhar no Outras Palavras. Naquele dia, ele pareceu um cara que questionava uma coisa que pra mim era, naquele momento, a essência de algo que da teoria à pratica estava funcionando: a rede. Por baixo dos panos, a piada do foradoeixo com o Cauê era de que ele era muito "esquerdinha", tinha muito papo de teoria e nada de prática (na moral, ninguém ali conhecia o Cauê nem tampouco o que ele fazia da vida pra tacharem o cara de esquerdinha porque ele partiu pra fazer umas críticas - e olha que as críticas foram bem de leves). Mais pra frente eu ia entender que a coisa não é assim. Aliás, foi esse mesmo ponto que foi dito quando o Giuseppe Cocco, professor da UFRJ e criador da Uninômade, entrou em debate num dos grupos de email que tratam de Políticas Culturais no Brasil, o chamaram ali dentro de "esquerda demais", assim como o passa-palavra, o Arbex, e outros que escreveram críticas ao fora do eixo. A galera critica com conteúdo, lá dentro é tachada de esquerda demais. Hoje, eu analiso aquele dia como mais um dos dias em que o Pablo te coloca numa sinuca de bico pra ver como você se sai, e também, de certa forma, pra alimentar o seu ego, pra que comece a entender de uma maneira ou outra esse processo de querer "subir" na rede. Sim, bem na humildade, hoje, refletindo, consigo me deparar com diversas vezes em que, ali dentro, eu mesma agi de modo a impressioná-los, a querer subir na rede, para poder falar mais, alçava a possibilidade de um dia, páreo a páreo, poder perguntar, criticar uma coisa ou outra afim de que a rede melhore, mas isso é mera ilusão. E sim, tá cheio de gente lá dentro, com quem conversava, trocava ideia (quando dava tempo) que tinha medo da cúpula, que tinha medo de perguntar, de questionar, de opinar. A galera faz sim o que pedem, a todo momento. Sim, tenho amigos ali dentro que me vêem como quem desistiu, mas não se dão conta do escravismo que estão vivendo, e aqui eu digo escravismo referindo-me ao mental e ao financeiro. Quem toma coragem pra sair da rede tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia. Muitos amigos meus preferiram mudar de cidade, mudar de ares, enfim, pra tentar tudo de novo… uma das coisas interessantes que notei é que quando você está ali dentro, e não importa a época - não me refiro a agora que há por exemplo a Mídia Ninja pautando assuntos nacionais e internacionais, mas sim tempos em que eu ainda estava por ali e a coisa tava só começando com essa mídia mais externalizada -, enfim, você acredita piamente que tudo o que você está discutindo, debatendo, refletindo é sobre a própria rede, em constante ação de marketing.


Ah, quando eu digo cúpula, falo das seguintes pessoas, que, a meu ver, seguem sua própria escadinha de hierarquização, de poder (lastro, como eles dizem): Pablo, Lenissa, Mari e Carol e Felipe (os dois últimos num mesmo nível). Vejam aqui que isso aqui é mera opinião minha, um peixe pequeno naquele mar cheio de espécies… desde os mais capacitados questionadores que logo sumiram com suas caras, até o mais manipulado deles (e entendam que aqui cabe de tudo.. como dizia ontem a um amigo, tentando explicar-lhe a sensação, hoje é mais fácil você se colocar em questionamento sobre a rede, pois eles existem e a cada dia vem surgindo mais críticas, mas há dois anos atrás, um ou outro gato pingado que resolvia criticar era rapidamente abafado, rotulado de rancoroso e seguíamos adiante com nosso afazeres). 


Enfim, 15 dias depois eu estava de volta à Casa Fora do Eixo, dessa vez para trabalhar no pré-congresso. O Congresso Nacional Fora do Eixo que aconteceria, como votado no ano anterior em São Carlos, foi mudado impostamente pela cúpula mor para ser então em São Paulo, mas claro que se você perguntar isso pra eles, vai ter um milhão de respostas do tipo "decidimos em reunião coletiva" "todos podiam contra argumentar mas não tinham opção melhor" e bla bla bla. Não, meu bem, a parada ali acontece quando o Pablo quer. Quando, como, onde, e da maneira que ele quiser. E na moral, "você, que acabou de chegar e, tampouco você que tem os mesmos 6 anos de rede como ele, tem lastro como o lastro de Pablo… por isso, vai de boa, num pergunta muito não porque ainda te falta lastro, quando você tiver lastro, você terá mais poder de voz, aí pode perguntar mais, pode contra argumentar". Eu já vi gente que tem mesmo tempo de rede baixar a cabeça, já vi medo estampado no rosto de pessoas que tão ali na mesma dedicação que ele, já ouvi me falarem que tem que ficar quieto porque ele sabe o que tá fazendo e que a gente tem que confiar e não ficar perguntando muito. 


É, a coisa ali funciona bem assim. Comecei a trabalhar então pelo Congresso Fora do Eixo que aconteceu em dezembro de 2011, em São Paulo. A gente trabalhava das 8h, 9h da manhã até às 03h, 04h… e olha que eu não reclamo de muito trabalho quando acredito na causa… mas o problema que eu vejo é que ali parecia uma nóia coletiva de um querer demonstrar mais trabalho que o outro para o seu gestor. Sim, porque ali dentro haviam gestores. A galera nova que chegava tinha seu gestor, dependendo em que área ia trabalhar. Eu fiquei trabalhando com a Carol, na Universidade Fora do Eixo, e diversas vezes eu saquei que o "lastro" da Lenissa era o maior ali entre as meninas e ela junto da Mari que já estavam a mais tempo ficavam constantemente posicionando a Carol para ela se impor por cima de mim. E aí vem uma lista de coisas absurdas da vivência ali dentro que eu acho que tem que ser explicitada, lembrando ainda que espero eu que pessoas como Reinando Azevedo, um dos caras que mais me enojam na grande mídia, não venha considerar que quem está descrevendo aqui sua experiência tem alguma coisa a ver com seus ideais… pelo contrário.


Quer fazer crítica!? Faça diretamente ao seu gestor que ele resolve com você. Você quer conversar com seu amigo, você não pode. Sim, você tem um gestor lá dentro da casa e, sim, você não pode sair por aí conversando com sua amiga que vive e trabalha no mesmo lugar que você. Lugar este que por sinal pauta ser uma rede coletiva, compartilhada, integrada, de muito amor em sp e em todo o mundo. Eu conversei algumas vezes com alguns amigos e, no que se chama lá dentro de "choque pesadelo", fui chamada várias vezes pra conversas em off, a pressão é forte ali… na hora, você se sente a pessoa mais errada do mundo, sente que tá fodendo com um propósito muito maior e para de conversar com a sua amiga. Sério… eu fui proibida, digo proibida mesmo… de conversar com o cara que ali dentro eu considerava ser o meu melhor amigo. A seguinte frase foi dita a mim: "Laís, o Gabriel era seu "amigo" lá em Bauru. Agora ele está aqui para trabalhar com o Felipe. Qualquer coisa que ele precisar ele tem que conversar com o Felipe. Você tem que conversar com a Carol. Vocês não tem que ficar de conversa. Aqui dentro vocês não são amigos. Vocês trabalham para a rede e em setores diferentes." Claro que a coisa começou a pesar pro meu lado porque eu comecei a sacar que me tornei uma espécie de vírus ali. Não podia mais conversar com as pessoas que queria, com quem me sentia a vontade. Sinceramente, era muito nítida a falsidade todas as vezes que a Carol ou a Lenissa e a Mari me chamaram pra conversar como "amigáveis". Mas quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo. Ou seja, é bom você não conversar com seus amigos ali dentro porque se conversar pode ficar espalhando críticas absurdas que são "da sua cabeça" e isso não é bom… até porque na concepção delas eu era uma garota mimada, de classe média que não vi o que é sofrer pra crescer na vida e portanto não agüentava viver na pressão que a rede tinha pra conseguir se desenvolver. Se eu queria perguntar, eu tava perguntando de mais, tava com, como a Lenissa me dizia "síndrome da aparesidisse". 


Catar e cooptar. Vejam bem moças e rapazes, se você for considerado um perfil estratégico para estar e entrar na rede, cuidado, você em breve pode perceber alguma pessoa que vai se aproximar bastante de você, mas bastante mesmo a ponto de demonstrar muito desejo por você. Quando você está se aproximando, há reuniões que acontecem dentro da cúpula, as vezes com mais uns ou outros, que podem ser indicados para tal ação, para definir quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede. Sim, essas conversas acontecem em reunião e ali é definido o nome da pessoa que vai partir pra cima. Cada um aqui que tire a sua conclusão. Tanto sei desse papo que soube ainda que ficaram preocupados quando o cara que foi enviado para partir pra cima de mim não conseguiu, e por isso não sabiam o quanto eu estava me envolvendo realmente com a rede ou não. Só pra pontuar, quando eu ainda estava lá, eu participei de uma conversa na qual propunham que eu tinha que demonstrar que eu estava mais dentro, que eu estava mais entregue à rede, pra que elas pudessem confiar em mim e pra que eu pudesse partir pra fazer ações estratégicas como sair pra catar e cooptar uns caras que considerassem interessante estar dentro. Uma semana depois dessa conversa eu estava fora. E não se enganem queridos, o amor tá aí pra ser mais uma ferramenta… seja você um(a) universitário(a), um(a) intelectual, um(a) artista interessante pra eles, um(a) professor(a) bem posicionada politicamente. Não importa, se você é alvo, o "amor", ou melhor, o "pós-amor" é uma ferramenta.


Quero pontuar uma coisa interessante também… o sexismo forte que existe numa rede que se propõe apoiar "feministas". A sala das meninas é a sala do Banco, da Universidade… a sala dos meninos é a sala da música, da política. E por favor, que cada um tire suas conclusões. Mas o direcionamento é algo bem nítido. Me pergunta qual o sexo do gestor da cozinha. E me pergunta quem sai pra uma ou outra noitada do Fora do Eixo pra dar as caras na festa com uma "galera".


Com quem você se relaciona?! Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede. Você vai viver aquilo ali e nada mais. Ficar dentro da casa o dia inteiro e só sair quando é necessário para a casa (cumprir alguma agenda da sua frente de trabalho ou então se você está escalado para almoço, compras, algo do tipo). Você não vai sair de casa para ir ao cinema, nem tampouco ao teatro, você não vai sair pra ouvir um som, nem tomar uma cerveja com o seu vizinho, afinal você nem conhece seu vizinho, porque não há tempo, espaço, disponibilidade. Você vive dentro da Casa Fora do Eixo São Paulo e isso é a sua vida. Se você quer visitar seus pais no interior… olha sinceramente, que você tenha um bom motivo… e que não venha "pedir" 2 meses seguidos. Sim, porque ali o verbo era esse. "Posso ir visitar minha mãe essa semana?", coisas do tipo. Tá afim de encontrar uma pessoa que não faz parte da rede?! Vai inventar a maior mentira pra conseguir sair dali uma noite se quer, e no dia seguinte se demorar pra voltar, não tem cara bonita te dizendo bom não. Ali, é cobrança 24h por dia. Agora, ai de você perguntar porque o Pablo tá saindo. Porque a Lenissa vai passar 3 dias fora. Você não tem que perguntar. Ela vai sair, vai usar o dinheiro do caixa coletivo, não vai pedir a ninguém o quanto vai usar. Mas claro, veja bem, ela tem "mais lastro que você". O Pablo resolveu dormir até mais tarde e perdeu o vôo. Não importa, ele nem se deu a obrigação de cancelar o vôo. "Você vai ligar lá Laís, vai dar um jeito de trocar a passagem." "Mas já passou a hora do checkin" "não importa, troca, ou compra outra, tem que comprar outra, rápido Laís, já resolveu (o gtalk bombando!!!) vai Laís, vai logo, menina, tá lerda hoje, você é lerda mesmo né, parece retardada". Sim, você fica na função de comprar 70 passagens aéreas e não para durante 4 dias fazendo todas as cotações possíveis e impossíveis. Ai de você comprar um horário que seja errado. Ligue para ela, pergunte que horas ela vai chegar. Tem que ter um vôo pra ela. Laís, você é retardada, NÃO TÁ OUVINDO O QUE EU TO FALANDO?" É nesse nível. E retardada é pouco. Já ouvi a Lenissa mesmo xingar com uma raiva gigante vários que passaram ali na sala "das meninas" por motivos absurdos. Eu passava horas e horas suando pra conseguir prosseguir com as passagens e constantemente sob o olhar difícil de descrever da Lenissa. Era uma mistura de prepotência com aspereza e intencionalmente querendo me passar medo. Sim, ela gostava que eu tinha medo dela. Hoje, não tenho mais. Sei que tudo ali fazia parte dessa tendência de manter você ali dependente da rede e de tudo o que ela teoricamente, na sua cabeça representava de grandioso. E já vi Pablo falar assim com muitos caras ali dentro da sala da música. A sala, com Felipe e com Pablo era uma. Sem eles, era outra. A casa também, mudava o clima. E todo mundo que tá lá, obviamente vai falar que é mentira. Eu já fiz isso. Já senti imenso "prazer" em estar vivendo aquilo e me auto sabotar sem nem perceber.


Quero fortemente pontuar que as pessoas que vivem ali dentro, muitas, a maioria delas, considero que vivem a mesma situação que eu. Eu já estive lá. Já vivi momentos em que aparecia um texto com crítica ao Fora do Eixo e aparecia o Pablo sala por sala ou recebíamos a informação via gtalk: " Escrevam aí sobre o quanto você curte estar vivendo isso aqui, o quanto a gente faz coisa massa", e ai, como mais uma demanda, em 15 minutos o facebook tinha 300, 400, 500 textos com esses mesmos tantos de curtir e compartilhar. É bom lembrar que curtir e compartilhar coisas que o Pablo e mais outros por lá escrevem no facebook é demanda diária. Mas quando você está lá dentro parece mais que você está defendendo a causa da rede, que por mais que você tenha crítica, todo mundo tá ali pra algo maior. E sinceramente, acredito muito que tem muita gente lá dentro que tá lá da mesma maneira que eu, mas que tá trabalhando pra meia dúzia de gatos que controlam tudo o que estão fazendo diariamente, no seu quarto, no seu computador, na sua vida.


Eu já cheguei a ouvir da Carol (e sinto muito que são fortes recomendações da Lenissa e do Pablo) coisas do tipo: "com quem você está conversando aí no facebook Laís? Esse cara nem é do Fora do Eixo. Quem é ele?! Porque você está conversando com ele" e veja bem, ai de você perguntar alguma coisa a Pablo, Felipe, Mari, Lenissa, Carol no mesmo nivel de prepotência. Ai de você querer saber o que ou com quem o Pablo conversa horas de porta fechada. Qual o assunto da conversa fechada em gtalk entre eles e assim por diante. Aliás, pra desmistificar esse encantamento sobre as reuniões gerais… elas são pré-definidas… inclusive seus encaminhamentos. Explico: "Mandem suas pautas, todos podem mandar pautas até dias antes da reunião "geral, aberta, participativa". Assim, horas antes da reunião geral, sempre há reunião da cúpula, em off… preparam textos já combinados com encaminhamentos pré definidos. Às vezes até propõem a você, que está ali do lado e também vai participar da reunião, para que você escreva sobre algum dos pontos que vão ser debatidos, mas claro, já com o encaminhamento dado.. e claro que isso não acontece explicitamente, mas quem vive lá dentro sabe, sente, mas não pergunta nada, a gente sabe. Durante a reunião, deixam um monte de gente de tudo quanto é coletivo falar, expor sua opinião, escrever sua idéia e depois vem, na ordem: o texto brilhantemente escrito de quem ficou pra escrever, entre eles, sobre a pauta tal, em seguida os outros com um "massa! curti sua ideia" e mais uma ou outra proposta incrementando. E aí, sempre se ouve na sala alguém falando "chuva de Ok" ou "chuva de sim", pra adiantar o processo, evitar debates, discussões mais aprofundadas e pra que deslegitime qualquer possibilidade de uma contraproposta. Na verdade, se ela vier, pode saber que há uma resposta pra isso e que eles já estão combinados com tudo o que vão apoiar. E posa vida né, você que acabou de entrar, tá aí quietinho e vai argumentar contra os 5 caras mais "fodões da parada"? Não! Você vai ficar quietinho e participar da chuva de sim! Qualquer mudança de rumo no meio das reuniões eles estão conectados em gtalk e rapidamente se apóiam. É tudo muito rápido e você meu cara, não vai nem perceber. Eu sei que daqui, depois disso que to escrevendo, vai aparecer muita gente dizendo que é tudo mentira, que sou rancorosa, mesquinha, filha de mamãe e bla bla bla. Ok, ok, eu também já escrevi textos dizendo que tal pessoa era rancorosa, mentirosa e que eu era pós-rancor. Eu sei como funciona, apesar de ter passado só 9 meses na rede, pouco tempo na Casa Fora do Eixo São Paulo, ter tido pouco "lastro" e bla bla bla, foi bem mais que o suficiente para me implodirem lá dentro ao perceberem que eu estava despertando, claro.


Sim, me distanciaram dos meus amigos. Me questionaram sobre minha vida amorosa. Disseram pra eu não me relacionar com tal pessoa porque "este não é o momento de você se relacionar com tal pessoa. É o momento de você trabalhar para subir na rede, para adquirir lastro, para ter espaço pra falar, pra conquistar essas coisas, você tem que assumir esses papeis". "Laís, porque você tá indo caminhar todos os dias no Parque com a Bianca. Acho que vocês duas estão conversando muito. Não é para vocês ficarem conversando muito". "Laís porque hoje você ficou de risadisse com os meninos na cozinha!? Você é mulher, tem que se posicionar como tal, não é pra ficar de conversa, de risada com ninguém na cozinha. Vai na cozinha porque tá com fome. Pega o que tem que comer e voltar a trabalhar. Não tá vendo que tá todo mundo aqui focado!?". Na moral, o que é se "posicionar" como mulher? E foco? Ali é passar o dia inteiro fazendo marketing online do Fora do Eixo. Toma banho rápido. Vai no banheiro correndo. Ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo, isso não existe. E, ainda mais com o discurso do Capilé de que ler é perda de tempo, que agora a comunicação está mais dinâmica, que a gente usa o facebook pra ter informação de tudo e que isso basta juntando um ou outro artigo e tal que você vai ler porque obviamente estará falando do Fora do Eixo, e sim, isso é tudo. Cinema… tem um clube de cinema dentro da rede e marcávamos uma vez por semana (que era nossa hora de descanso da semana) para assistir a algum filme. Mas, sim, rolava uma puta pressão psicológica e disfarçada. Porque, na real, se a sua gestora não vai assistir, porque você vai?! Você tem que trabalhar e trabalho ali, meu amigo, não tem fim. 


Outras coisas que acho interessante questionar. Grito Rock 2012, do nada o Felipe chega e diz que vamos gravar não sei quantos segundos para passar na Rede Globo o comercial do Grito Rock. Por que raios vamos passar o comercial do Grito Rock na Globo!? Na moral, esse assunto, por debaixo das asas da cúpula, gerou burburinho entre a galera, mas como ninguém tem coragem nenhuma de perguntar nada, ficou por isso mesmo, eu inclusive fui num estúdio ver gravar a voz de dois amigos pro comercial e mais nada sobre isso pra geral foi dito. É lógico, isso é coisa de conversa da cúpula. Assunto de quem tem lastro maior, olha a hierarquia aí. Quando o China escreveu merda do Fora do Eixo, era quase véspera de Natal… ficamos mais um dia em São Paulo, porque a repercussão foi tão intensa no campo da música, que o Fora do Eixo tinha que dar uma resposta e naquele dia foi chuuuuva de likes pra cada depoimento que surgia, e você.. que vá escrever o seu sobre o quanto de amor tem pelo fde. 


O dinheiro de verdade do Fora do Eixo. Na moral, o que eu vou escrever aqui diz respeito a somente o que eu associei entre conversa com ex integrantes do fora do eixo, e vivências que tive na casa, além de acessos a documentos e, claro, ao poder de pensar que readquiri tempos depois de sair da rede. Não venham me pedir que prove isso ou aquilo, quem tem que provar que não é assim que funciona são eles. O esquema que consigo visualizar é bem simples e vou tentar descrevê-lo: o Fora do Eixo é uma rede com vários coletivos. Quando existia em Cuiabá o Cubo eles tinham uma associação, a Asprogic, cuja presidenta, se não me engano, é a Lenissa. Em São Carlos, uma outra associação existia e se chamava Associação Caminho das Artes cuja presidenta depois de um tempo, se tornou a Carol. A partir disso, tem-se, ali dentro da cúpula do Fora do Eixo, duas pessoas que são presidentas de duas associações, portanto, que podem emitir notas, e podem emitir, portanto, notas de serviço a outras organizações. Organizações tais que podem ser por exemplo, o Fora do Eixo, que recebe dinheiro público por editais ou relações diretas com empresas privadas como a Vale do Rio Doce, a Petrobrás, a Oi, etc. Quem recebe dinheiro para apoiar atividades culturais tem que justificar os gastos. Por exemplo, então, a associação Caminho das Artes pode prestar um serviço ao Fora do Eixo e emitir uma nota sobre sua atividade prestada a tal organização que vai servir de justificativa ao que o Fora do Eixo tem que apresentar ao governo ou a empresas que o apóiam. 


Outro dia fiz umas associações na minha cabeça e me coloquei a questionar… bom, um coletivo do Fora do Eixo quer fazer um festival local, em sua cidade. Trabalha com o card para fazer troca de serviços com várias organizações e empresas, consegue assim, gastar o menos possível em dinheiro real para realizar. Por vezes, rola inclusive apoio da prefeitura, até porque os caras já tão ai "bem vistos na mídia"… Aí pode rolar um apoio da Oi no Circuito Regional de Festivais, que vai e apóia com alguma parada específica. Aí vai a Petrobrás e investe com 600 mil na Universidade Fora do Eixo, que busca contrapor a ideia de cursos e propõe a ideia de percursos. Através disso, circulam pelos "campus" do Fora do Eixo os "docentes" da Universidade Fora do Eixo. E os "campus" Fora do Eixo nada mais são do que os próprios festivais que já rolam independentemente da Universidade Fora do Eixo. Em realidade, a Universidade divulga uma lista de docentes, pessoas de nome influente na cultura e na política, na educação e nos movimentos, que estão se aproximando da rede e tão achando legalzão o que eles fazem… o Pablo com todo seu discurso lindo o convida para ser docente do Fora do Eixo e o cara acha a idéia massa, e topa. Pronto, tá lá sua foto no flyer da Universidade Fora do Eixo. Ele te chama pra ir dar uma palestra, participar de uma mesa lá numa cidade do interior de São Paulo, por exemplo, e aí pronto, você vai, porque tá achando a ideia legal, vê que eles dividem tudo, grana e tal, acham que não rola grana por aí e tal e aparece na capa do Fora do Eixo, não recebe cachê, participa de uma mesa, e pronto, você já é contabilizado como um apoiador. Uma parada aqui só pra contar que eu sei de gente que nem sabia que taba com a cara estampada nos flyers da universidade foradoeixo e descobriram depois, quando viram na internet. Sem contar que, dos flyers lançados pela Universidade nesses campus que são os festivais, metade dessas pessoas são "orgânicas", ou seja, é a galera que vive la na Casa, que tá no Fora do Eixo e que tá ali preenchendo o espaço porque vai lá dar uma palestra sobre comunicação colaborativa ou sobre a Rede Brasil de Festivais. E olha que aqui, vale lembrar, eu não deslegitimo o quanto eu acho massa incentivar festivais, circulação de gente, de pessoas que vão acrescentar conteúdo em diversos cantos desse mundo, pelo contrário. Simplesmente, o que me deixa chocada é que ali eles não estão interessados em falar sobre comunicação colaborativa, estão só ali fazendo mais marketing do Fora do Eixo. Falando do Fora do Eixo. Eles não vão falar dos Festivais mil e dar espaço pra que surjam um milhão de novos grupos para fazer festivais no país. Eles vão te ensinar como se tornar um ponto fora do eixo e aí você vai fazer festival sobre a guarda das ideias deles, com as bandas que circulam com eles. E é tão mais fácil já que você já vai ter gente que trabalha o seu marketing, a circulação, te ajuda com mil e uma planilhas que você só tem que aprender a preencher e por aí vai.


Pergunta pra Ivana Bentes e pro Claudio Prado se eles vão sair de suas bem acomodadas e "media ou alto classeadas" casas e vidas para ir viver numa casa fora do eixo, dividir seu quarto com mais 8 pessoas, suas roupas com mais 20, 30 pessoas, seu sabonete com mais 22, sua bermuda com mais 15 caras, vai lavar a louça do almoço pra 80 pessoas e o prato do Capilé (que eu nunca vi lavar uma louça em todo tempo que estive morando lá, "mas calma lá Laís, ele tem coisa mais importante pra fazer"). Também nunca vi Carol, Lenissa e Mari fazer um almoço, uma janta. Ops, vi sim, acho que duas vezes, quando deu uma vontadezinha de fazer uma coisa diferente. "Mas Laís, deixa de ser mesquinha, egoísta, você acabou de chegar, tá perguntando coisa demais, fica de boa, vai de boa". Eu nunca vi Mari, Lenissa, Carol, Pablo, Felipe, levantarem da cadeira pra lavar um banheiro pós-domingo na casa… e nunca vi também alguém ter coragem de pedir pra eles ajudarem sendo que batia final de domingo na casa e o resto da casa toda levantava e ia limpar a parte inteira externa pra ficar limpa porque segunda-feira a vida e o trabalho continuam. Eu nunca vi nenhum deles sair pra fazer compras. E na moral, não me venham dizer que já fizeram muito quando começaram há 5 anos atrás ou quando a casa em São Paulo surgiu e bla bla bla, sinceramente, pra mim, quer viver num coletivo, então viva como um coletivo, horizontalmente, e sempre horizontalmente, sempre, dividindo trabalho braçal, compartilhando o intelectual, trocando constantemente, de verdade, não de mentirinha.. Não vem com esse papo de horizontalidade sendo que o Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida, ditatorial diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem auto-intitulado rei-mor da bancada. Diria mais, ali se vive uma ditadura monárquica com toda a sujeira de autoritarismo de milhões de outras caras bonitas que possa haver num governo que se descreva como tal. Monárquica porque o Pablo é um rei lá dentro. Só não parece porque ele não se importa muito em demonstrar e porque também, po, é bem descolado aparecer como um cara de boa, que não liga pra roupa que tá vestindo, tá sempre tranqüilão… é o pós-rei-cult. E dito ditatorial porque a única coisa que eu consigo associar com o medo que existe nas pessoas em questionar o poder da cúpula é a ditadura. E sim, eu sou rancorosa pra caralho, na moral, vem falar de coletividade, de horizontalidade?! E ainda diz que horizontalidade é entender que você tem seu papel e a outra pessoa tem a outra. Porra, isso eu entendo muito bem. Aliás, acho até interessante ponderar, a idéia de coletividade funcionou internamente bem em muito coletivo por aí… a horizontalidade é possível. Mas claro, o papel do Pablo é articular, ficar analisando se está tudo no caminho que eles querem, mas tempo pra fazer trabalho braçal não, eles não tem mais, e você tem que entender… e quando você tiver lastro você vai poder ser como eles, olha que legal gente! "Calma Laís, você tem que crescer primeiro na rede" mas que porra de idéia de crescer é essa se essa merda aqui se diz horizontal?! putaquepariu, não to entendendo mais nada.


Eu dividi o que eu tinha ali, não me venha dizer nas respostas que podem bombardear minha vida depois desse texto, que eu não dividi. Eu dividi sim, e dividiria a minha vida inteira novamente, sem medo de errar, sem medo de me foder de novo se sentisse que dessa vez, quem tá por perto tá querendo fazer diferente. E quem tiver afim, eu garanto, pelo tanto de gente foda que eu conheci tanto lá na rede, e que ainda estão lá dentro noiados ou que já saíram, quanto gente que nunca se envolveu, que há muita gente querendo fazer diferente, há muito coletivo que não tem marca Fora do Eixo e tá fazendo coisa pra caralho. Mas se você não quer ter a marca, você vai ser excluído "da rede" cara, sério. Você é um movimento e não quer estar junto!? Não quer ser junto?! Então tu tá fora. E aí você some do mapa para eles. Na real, eu posso bater minha cabeça um milhão de vezes na parede, vai doer, mas eu vou levantar e o calo vai sair depois de um tempo e novamente eu vou tentar. Porque se eu sai dessa rede não foi por não ter força pra agüentar, nem foi por não entender lastro, nem tampouco por ser classe media ou que raios de classe vocês querem definir, não foi por não entender uma vida em coletivo, uma vida compartilhada. Eu pouco me importo, sinceramente, se a vida, o dia a dia, fizesse valer a pena, pelo seu propósito de mudança real, eu disponho aqui o que há de material, o que há de imaterial em mim e na moral, quem me conhece de verdade mesmo, sabe o que eu to falando e que isso é verdade. A quem eu me refiro aqui não me conhece de verdade, viram eu me dedicar e só rotularam a minha cabeça com um milhão de tags pra tentar moldar a minha cabeça, pra eu ser o que eles precisavam, mais uma peça do lego fora do eixo. Eu perdi muitos amigos por sair dali, mas readquiri novos porque você, querido, que quer entrar na rede, vai se dando conta que os amigos que tem agora, não vão mais ser seus amigos em pouco tempo, porque vão te fazer acreditar que simplesmente eles não fazem mais parte da sua vida, nem faz sentido você estar perto de gente que não está no mesmo ritmo que você. Sim, vão dizer que você já está em outro patamar de compreensão da vida, que você entende, eles não entendem, por isso te criticam, porque o ego deles é maior que a beleza do que você vive… é isso que vão te dizer e você vai acreditar. E sua família?! Ah, sua família poxa, vai ficar longe cara. Cada vez mais distante, cada vez mais e mais longe. Eu sei que aqui vão aparecer um milhão de pessoas falando "a minha mãe apóia, ela ama o que eu faço e bla bla bla" galera, eu to ligada. quando eu entrei no Fora do Eixo minha mãe achou genial, achou foda o que eu tava fazendo e tal, mas ela foi lá pra conhecer, me alertou sem impor qualquer coisa, mas enfim, até hoje, ela como vocês que estão lendo, nunca souberam da minha história e se hoje eu remexo nela é porque eu considero um momento importante pra falar porque eu não to sozinha, porque eu sei que tá cheio de gente aqui me lendo que tá com medo inclusive de se dar conta do que eu to falando. Tem gente lendo e com medo de curtir. Tem gente lendo e com medo de escrever o seu próprio relato. Eu espero que mais gente tenha a coragem da Beatriz, a minha coragem e a de tanta gente que ainda vai aparecer, cada uma a seu tempo, cada uma no seu espaço, porque abrir a boca pra falar disso aqui não é fácil não. Sim, eu tenho amigos que já foram ameaçados e não venham pedir nomes, cada um vai falar da sua experiência a hora que bem entender. 


Saí com o Fora do Eixo me devendo pouco menos de 5 mil reais (não em card, em real mesmo…). Negociei com eles porque muita coisa diziam que era "investimento meu na rede" e diziam ainda que no fundo mesmo eu que devia pra eles pelo tanto de coisa que eu aprendi enquanto estive na rede. O que toparam pagar segue: passagem aérea comprada no cartão de crédito da minha mãe, meu limite do cartão que ficou negativo, mais de 8 multas no período de um mês com meu carro circulando São Paulo - Rio de Janeiro - Minas Gerais. Sendo que eu não considerei, por exemplo, cobrar a batida no carro que acabou com uma lateral, devolvi o carro pra minha mãe assim mesmo, um ano de 3g no meu cartão e mais. Eu não queria mais ficar debatendo, fechei em cerca de 3 mil reais… os quais eu só vi a cor de 500 reais e já trocamos incansáveis 57 emails nos quais a resposta sempre é que o orçamento, o caixa, não deu pra fechar pra pagar esse mês. Lembrando ainda que colocaram meu nome no Serasa por não pagaram uma conta de um celular que não era meu mas estava no meu nome mesmo depois de eu ter saído e eu que fui pagar essa conta um ano depois pra que meu cartão fosse liberado e meu nome limpo. Eu saí do Fora do Eixo em fevereiro de 2012. Estamos em agosto de 2013. E que aqui cada um pense o que quiser.


Cada um sai da casa com uma tag. Lembro que tinha a ‪#‎traíra‬, o ‪#‎filhodaputa‬, eu sai como a‪#‎desistente‬, sei que depois de mim saiu a ‪#‎loca‬ e por aí vai. Pra cada um que se vai, eles justificam com um milhão de defeitos da pessoa, po, ela sai por isso, ela fraquejou nisso, ela não agüentou por isso, e bla bla bla. Até quando eu estava lá, tinha uma frase do Pablo pra quando alguém saía: "pode ir, pra cada um que sai, chega 10 a mais". A coisa já não tá mais bem assim. As pessoas estão acordando e eu espero que esse meu relato seja mais um despertar. Eu sei que depois desse texto podem rolar diversas reações da Casa. Ou eles vão ignorar ou vão retalhar a minha pessoa como bem tentam fazer. Podem falar, podem gritar. Pode ser que doa dependendo de quem escreva até porque de lá de dentro eu ainda guardo carinho de muita gente, mas o meu papel hoje tá sendo social, de despertar o olhar de quem tá vendo de fora e também de quem não tá vendo de dentro. Que fique claro que quando eu trato de fora do Eixo eu não to generalizando as pessoas da rede que fazem parte dela, como eu fiz, eu to falando de quem a comanda, quem a organiza, quem a vê como ferramenta estratégica para eu não sei chegar aonde. Fica aqui que se daqui em diante, qualquer dia por aí eu sumir, só tem dois cantos em que podem procurar que é certeza que vão me achar, e eu não sei muito bem em que estado eu estaria. Comecem pelos cabeças do Fora do Eixo. Se não estiver por lá, aí deixa que minha mãe, meus irmãos e meu amigos mais próximos vão saber onde e exatamente com quem eu vou estar. 


Quando eu saí da casa, pedi pra sair tranqüila, avisei a Carol que eu não queria alarde, que eu não estava bem, tinha passado dois dias acordada pensando na atitude a tomar. Não agüentava mais a pressão, não queria mais estar ali, só queria ir embora tranqüila, sem discutir, sem problemas. A resposta pra esse meu pedido foi colocar as 22 pessoas que viviam comigo e mais umas outras que estavam ali na casa no dia na minha frente numa reunião geral. Descer uma enxurrada de argumentos os quais eu não estava afim de responder. Esquentaram meu psicológico até eu não agüentar mais. Eu só chorava, queria sair dali, sem problemas, sem mal estar. As pessoas ali me olhavam com cara de "coitada, desistiu" e a cúpula, mais precisamente Lenissa e Mari com uma certa cara de que eu era lamentável, falando com arrogância mas deixando com que se parecesse que nenhuma das palavras haviam sido combinadas. De verdade, eu mal me lembro do que me disseram naquela noite. Eu só queria sair dali e me mantiveram ali como se eu tivesse que bater cartão pra galera já que eu estava saindo. Fizeram isso comigo porque eu não tava saindo de lá sabendo de nada de mais que pudesse comprometê-los. Eu era só um peão ali dentro. Quem sabia muito eles fizeram sair na surdina. Da noite pro dia, como rolou com muita gente que ainda não se sentiu a vontade pra falar, mas que com certeza tem muito mais que eu pra contar. A mim me colocaram diante de todos ali que eram meus amigos, até então alguns bem próximos, e perguntaram "porque você tá saindo Laís?" Eles sabem que o estado em que eu me encontrava psicológica e emocionalmente não dariam condições para que eu contra argumentasse e puxasse um debate coletivo ali. Hoje, como diriam os Doces Bárbaros, de "pé quente e com a cabeça fria" eu lhes dou essa resposta. A última fala daquela conversa foi, obviamente, do Capilé: "Laís, independente de qualquer coisa, a gente vai se cruzar por aí, tenho certeza". E sim, Capilé, é aqui que a gente tá se cruzando de novo. Eu aqui, você aí.




Laís Bellini


terça-feira, agosto 06, 2013

Cerimônia de posse do presidente do Cade

O CASO SIEMENS e a vontade ferrenha da Quadrilha tomar o poder na marra.

Como se já não bastasse ter em mãos a Urna Eletrônica que é capaz de eleger um poste!!!





“Por que não fala sobre a Siemens?”, esgoela-se a petralhada. E logo vem a suposição, que a súcia pretende seja uma resposta: “Só porque, desta vez, envolve o PSDB?”. Ora, ora… Os tucanos, e com razão, são sempre os primeiros a negar o parentesco entre o que eles pensam e o que eu penso. Já afirmei aqui umas 300 vezes, e posso repetir outras tantas, que — para fazer uma blague influente, nestes dias — o PSDB não me representa. Mas votarei, sim, em Geraldo Alckmin em 2014 — e não vejo por que alguém deva supor algo diferente disso. Ou me imaginam escolhendo, deixem-me ver, Alexandre Padilha, do PT, ou Paulo Skaf, do PMDB? Falo, sim, sobre o caso Siemens, um troço que guarda mais parentesco com uma novela de Kafka do que com um processo conduzido num país em que vige um estado democrático e de direito. Vamos ver. Se alguém cometeu alguma safadeza nas licitações do metrô, que seja punido. Por que haveria de ser diferente? Mas é evidente que não dá para ignorar os absurdos que envolvem essa denúncia. Vejamos. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), uma autarquia subordinada ao Ministério da Justiça — cujo titular é o notório José Eduardo Cardozo —, conduz uma, atenção!, “INVESTIGAÇÃO PRELIMINAR” para apurar se houve uma espécie de formação de cartel, com combinação de preços, que teria resultado em prejuízos aos cofres do estado — fala-se de irregularidades em São Paulo e no Distrito Federal. Primeira dúvida: nos demais estados, a Siemens agiria de modo diferente? Por quê? E quando negocia com o governo federal? Adiante. Ficamos sabendo que existe o chamado “Acordo de Leniência”, por meio do qual executivos da Siemens — a empresa nega que seja a fonte de informação — teriam revelado as irregularidades, sustentando que o governo de São Paulo (no caso, o de Mário Covas) teria ciência das irregularidades, compactuando com elas. Contratos renovados nos governos seguintes carregariam, então, o mal de origem. Essas informações, ou suposições, vieram a público em reportagens da Folha e do Estadão. Notem que, obviamente, não estou aqui a negar que tenha havido safadeza. Como poderia? Não conheço o processo. Não tenho os dados em mãos. Ocorre que há uma coisa espantosa: o governo de São Paulo, o principal interessado nessa história, também não tem. Assim, o ente “governo do estado” está sendo acusado na imprensa de ter compactuado com uma tramoia, mas — e eis o dado kafkiano — não tem acesso à investigação porque, afinal de contas, ela está resguardada pelo sigilo de Justiça. Então vamos ver se a gente consegue entender direito: jornalistas, como resta evidente, tiveram acesso a pelo menos parte da investigação que está no Cade. O principal acusado, no entanto, está a chupar o dedo. NÃO TEM COMO SE DEFENDER PORQUE NÃO SABE DIREITO DO QUE É ACUSADO. A justificativa do Cade é que o papelório está protegido por sigilo de Justiça. Leio na Folha: “O procurador-geral do Estado de São Paulo, Elival da Silva Ramos, disse que a lei permite ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) fornecer à administração paulista documentos da investigação sobre a suposta formação de cartel em licitações de trens em São Paulo, independentemente de autorização judicial. O CADE, órgão federal de combate às práticas empresariais prejudiciais à livre concorrência, sustenta que só pode fornecer os papéis após decisão da Justiça. Segundo Ramos, a recusa de entrega de dados atrasa eventuais ações de reparação de danos a serem iniciadas pelo Estado caso haja provas de conluio nas concorrências. A Procuradoria-Geral do Estado, órgão responsável pela defesa jurídica do Executivo paulista, afirma que foi obrigada a preparar um mandado de segurança para pedir ao Judiciário o acesso às informações da investigação.


”Retomo 
Não se trata de exercitar teoria conspiratória, não! Estamos diante de uma matéria de fato. Há uma investigação preliminar no Cade; dados dessa apuração chegam à imprensa em tom acusatório — com um genérico “o governo sabia de tudo” —, mas não se sabe que “tudo” é esse, quais as pessoas envolvidas e que irregularidade foi cometida. Pode até ser que o escândalo tenha mesmo acontecido — e, se assim foi, cadeia para a turma. No momento, o único escândalo incontroverso é esse vazamento seletivo de dados de uma investigação sem que o principal acusado consiga ter acesso aos autos. Esse é um procedimento muito comum, hoje em dia, nas ditas repúblicas bolivarianas. Chávez (e agora Nicolás Maduro), Rafael Correa e Evo Morales costumam recorrer a acusações de corrupção para se livrar de seus adversários políticos. Falas suspeitas. Ademais, não dá para ignorar certas falas, não é? O site “Implicante” levou ao ar o vídeo que registra a solenidade de posse de Vinícius Marques de Carvalho, presidente do Cade. Prestem atenção:





Notem a sua verdadeira devoção a um outro Carvalho, o Gilberto. A proximidade é de tal sorte que, rompendo com o protocolo, trata o ministro como “você”. Trata-se, mesmo, de uma relação de profunda amizade; se os “Carvalhos” do sobrenome traduzem parentesco, isso não sei. Há quem diga que sim. Pouco importa. Por que um chefe do Cade recorre a esse tom laudatório para se referir ao “engajamento” de um ministro? “O que você está querendo dizer com isso, Reinaldo?” Nada de muito misterioso: um órgão técnico como o Cade não poderia, parece-me, estar sujeito a esse tipo de sotaque político. Não é preciso ser um gênio da raça para que se perceba a óbvia influência de Carvalho, o Gilberto — braço operante de Lula no Planalto —, na autarquia. Mais: o Cade pertence ao Ministério da Justiça. Dos ministros de Dilma, Cardozo tem sido o mais dedicado à tarefa de criar dificuldades para a gestão do PSDB em São Paulo. Teoria conspiratória? Não! Mais uma vez, matéria de fato. O ministro está na raiz da crise que resultou na demissão de Ferreira Pinto, ex-secretário de Segurança do estado. O ministro tentou tirar uma casquinha dos protestos em São Paulo. Escrevi vários textos a respeito. É evidente que o vazamento obedece a um propósito político. Sem que a investigação seja tornada pública, a coisa fica como o PT e o diabo gostam, não é mesmo? A suspeita recai genericamente sobre os “tucanos” e suas sucessivas gestões no estado. Nestes dias em que qualquer grupinho de 20 para a Paulista, o objetivo é fornecer combustível aos protestos de rua em São Paulo. E justamente na área que está a origem das mobilizações de rua: transporte público. Concluo A turma não brinca em serviço. E olhem que o jogo mal começou. Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, agosto 01, 2013

O vale-crime de Francisco Bosco.






O vale-crime de Francisco Bosco.
por Felipe Moura Brasil



* Francisco Bosco é autor de outra pérola: Odeio o Brasil (leia aqui)



A PM pergunta: “Quem está tentando saquear lojas está reivindicando um país melhor?” C responde:

"(...) quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam."

Bosco tem razão. Os vândalos saqueadores de lojas representam os intelectuais saqueadores da moralidade. Os primeiros são a ação dos pensamentos dos segundos.

Exemplo didático dos segundos, Bosco chega até a falar em nome dos primeiros:

“(...) aqueles que passam ao real (os ‘vândalos’) na verdade não querem isso, não querem falar a ‘linguagem’ da PM. Esse é apenas o último recurso que resta quando os recursos da realidade são todos falseados.”

Bosco sabe o que os vândalos querem. Bosco garante que vandalizar é seu último recurso. Sempre que os vândalos precisarem de um porta-voz, já sabem que podem procurar por Francisco Bosco no jornal O Globo, na editoria de saques. Só não sei se vão querer falar a sua linguagem e “passar ao real”.

Para o colunista, “a única atitude que pode tirar as pessoas das ruas e acabar com essas passagens ao real é uma atitude efetiva, vinda do Estado, na realidade”.

Isto significa que ou o Estado faz o que os vândalos exigem ou eles continuam vandalizando, com a chancela moral de Francisco Bosco.

Acusado de “defender” e “incitar a violência”, ele ainda repetiu a sua tese revolucionária, digna de uma Nina Capello, do Movimento Passe Livre [ao Comunismo], quando se explicou a um leitor:

“é justamente por achar isso um horror que estou dizendo que a única resposta possível para acabar com a violência (...) está no estado, e não é em forma punitiva, e sim transformadora.”

Preciso repetir também o que isto significa? Ou só a parte de achar um horror aquilo que ele mesmo justifica; aquilo para o que ele mesmo não quer punição?

Para uma segunda leitora, ele afirmou que não estava "incitando a violência", apenas dizendo as 3 coisas que me dou ao trabalho de comentar abaixo, porque este é o meu último recurso quando os recursos dos intelectuais são todos falseados:

“1) em certas condições só se transforma a realidade com essas intervenções no real (não há processos revolucionários feitos na base da palavra, apenas);”

Se alguém tiver alguma dúvida sobre quais são as “certas condições”, favor consultar as Leis de Bosco na versão atualizada da Constituição bosco-brasileira. Ou qualquer manual para jovens revolucionários que queiram transformar o mundo junto com ele.

“2) não se vai resolver essa questão da violência nas ruas com a legitimação da ordem (no caso, isso significa autorizar a pm a incorrer em todo tipo de ilegalidade para acabar com as manifestações vandalizantes);”

Nas Leis de Bosco – já estão com elas à mão aí? –, a legitimação da ordem significa autorizar a PM a incorrer em todo tipo de ilegalidade. Enquanto as ilegalidades da PM são condenáveis – e servem até para questionar o seu papel de manutenção da ordem –, as ilegalidades dos vândalos são justificáveis e servem para se exigir do Estado a transformação desejada.

“3) é claro que eu preferiria obter transformações estruturais sem as injustiças e as confusões decorrentes dessas passagens ao real (que não é o mesmo que ‘passar ao ato’), mas isso não me parece possível, justamente.”

É claro que Bosco preferiria não legitimar moralmente o crime, mas você sabem: em “certas condições”, não lhe parece possível evitá-lo... (Ainda mais se um dos partidos à frente das "manifestações" é o PSOL de Marcelo Freixo, para quem Bosco fez campanha e tudo.) 

A propósito: a violência, que já tinha virado “intervenções no real”, virou agora “injustiças e confusões decorrentes dessas passagens ao real”. Eis aí a linguagem e o método bosqueanos: primeiro você fala que os vândalos “nos representam”, que lutam por um país melhor, que estão apelando ao seu “último recurso” (e conquista assim a plateia vândala, que repassa seu texto por aí com uma alegria danada, segura de que está representando o país de maneira legítima); se alguém o acusar de defender ou incitar a violência, você, em vez de retirar o que disse, transforma a violência numa outra coisa cada vez mais vaga, distante, encoberta por mil e um eufemismos e malabarismos verbais, deixando claro que você mesmo a considera um horror. É o suficiente para que a plateia bocó, incapaz de entender o que você escreveu, SINTA que você é bonzinho e não quer a violência – sem atinar que não se trata de uma questão de querer ou de achar um horror, e nem mesmo de defendê-la ou incitá-la, mas de LEGITIMÁ-LA em “certas condições”, o que você em momento algum deixou de fazer. (Qualquer pessoa que frequente ou recomende uma academia de ginástica sabe que é possível endossar um ato ao mesmo tempo que se considera este mesmo ato um horror, não é mesmo? Sigamos.)

Para um terceiro leitor, Bosco ainda tentou se explicar de novo:

“em primeiro lugar eu não defendi a violência, apenas expus a sua dimensão política,”

Bosco é assim: transforma a violência em ato político e legitima o ato político de violência.

“que havia sido anulada pela pergunta retórica da pm.”

A única dimensão que havia sido “anulada” nisso tudo era a da “retórica” de Bosco, que agora exponho aqui aos meus leitores.

“e essa dimensão política não é ‘apropriada para democracia’, como vc faz parecer que eu disse, mas forçada a se colocar para que haja democracia”

A violência, que virou “dimensão política”, é “forçada” a se colocar, segundo as “condições”, conforme já vimos (e ainda veremos), das famosas Leis de Bosco.

“(sem resultados até agora, e essa é uma crítica que me pode ser feita).”

Bosco deixa você criticá-lo pela falta de resultados do vandalismo. Pela defesa dele, não, ok? 

“reconheço ainda que meu texto tinha uma ambiguidade que hoje eu teria preferido esvaziar (refiro-me sobretudo à última frase).”

A última frase é aquela que diz que os saqueadores “são os únicos que nos representam”. Só um “reconhecimento” falseado para fazer de uma frase tão unívoca uma “ambiguidade”. Mas é preciso entender Francisco Bosco: se já é difícil reconhecer um erro quando você tem certeza de que não acredita mais naquilo que disse, imagine quando você ainda insiste em dizê-lo de outras formas, não é mesmo? Era esperar demais de Francisco Bosco que ele “esvaziasse” o texto inteiro.

“e reconheço tb pertinência em algumas das críticas que me foram feitas.”

Reconhecer pertinência genericamente, sem dizer quais críticas foram pertinentes, em quais pontos e por quê, é puro jogo de cena para posar de bom moço (mui tolerante), enquanto se reafirma tudo que havia sido dito, com malabarismos cada vez mais vexaminosos. 

“seja como for, já voltei ao assunto e esclareci minha posição.”

Esclareceu nada. Reafirmou dissimuladamente a posição, repudiando todas as críticas concretas contra ela. Posição que não é de hoje, como já veremos.

“só um comentário de má-fé, como esse seu, para desconsiderar isso.”

Só um comentário que faz jus à recomendação leninista “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”, como este de Francisco Bosco, para acusar de má-fé o comentário do leitor indignado e ainda posar de vítima por ele não ter levado em conta o seu suposto esclarecimento, como se Bosco em algum momento tivesse deixado de legitimar moralmente o crime.

Ele ainda escreveu este trecho como introdução à resposta aos dois primeiros leitores:

“o meu post original (...) argumenta com toda a clareza em favor de uma solução dada na realidade (por meio de medidas do estado, e não da pm), e não na continuação dos confrontos violentos”

É claro que Bosco havia sido claro ao defender que a "solução" tem de vir das medidas do Estado. O que ele finge não perceber são as consequências lógicas do que defende.

Se ele diz que a única atitude cabe ao Estado e que ela não tem de ser punitiva, mas transformadora – ao mesmo tempo que diz que os vândalos “nos representam”, que lutam por um país melhor, que estão apelando ao seu “último recurso” –, está dizendo que os vândalos não devem ser punidos e que não cabe a eles parar de vandalizar, mas ao Estado fazer com que parem, atendendo às suas reivindicações. Se isto não é a legitimação moral dos crimes dos vândalos (como uma forma de chantagear o Estado através da violência), Bosco é Madre Teresa de Calcutá.

Agora vejam se Madre Teresa diria tais coisas:

“(...) o fundamental aqui é lembrar que essa violência é a resposta real à violência real sofrida pelo povo. Por isso eram inúteis, e até ridículos, os pedidos de 'sem violência', de manifestantes de classe média aos manifestantes da periferia.”

Como diria o ex-senador americano Daniel Patrick Moynihan: “Você tem direito a desenvolver uma opinião própria, não fatos próprios.” Bosco inventa que os vândalos (que ele chama de manifestantes) eram da periferia e aqueles que lhes pediam paz (o que ele acha ridículo) eram de classe média, quiçá do tipo que não sabe a dor que é sofrer a opressão estatal... Os amantes da luta de classes têm dessas coisas: moldam os fatos para caber na sua teoria. Que importa afinal se os terroristas foram arregimentados pelos militantes ou até contratados por eles para aterrorizar, sempre com a ajuda dos delinquentes de classe média que adoram um quebra-quebra, sendo que muitos de todos eles tinham folha corrida e tudo? Para quem está acostumado a legitimar crime de pobre, nada como inventar que os autores do crime que se quer legitimar são pobres. Assim fica mais fácil diluir a culpa por toda a sociedade e impedir que eles sejam responsabilizados.

Só não sei por que usar de tanto malabarismo para fingir que não disse o que disse. Advogar intelectualmente em favor de saqueadores não é nada para quem advogou intelectualmente em favor de Nem, da Rocinha, quando ele foi preso em 2011, alegando que o traficante foi “impelido à criminalidade” como tantos outros “jovens, quase todos pretos” em função das condições, desigualdades, humilhações e todas aquelas coisas que nunca fizeram a maioria dos pobres recorrer ao crime, porque, felizmente, não são leitores do Globo.

Não preciso refutar linha a linha daquele texto – em cujo trecho mais memorável ele dizia que a fala de Nem “mesmo que ela seja forjada, é autêntica; mesmo que seja mentirosa, é verdadeira” – porque Renato Pacca já fez isto na ocasião, como se pode ler aqui, de modo que, antes de acrescentar outras análises, apenas lhe corrijo um detalhe: onde Pacca diz que “O artigo [de Bosco] é quase uma justificativa do banditismo”, esqueçam o “quase”, ok?

Como escreveu o filósofo Olavo de Carvalho – com quem Bosco deveria ter umas aulinhas – muito antes disso, em 2006:

“Na escala individual a pobreza só pode ser justificação direta e determinante do crime em exemplos excepcionais e raros – tão excepcionais e raros, na verdade, que em todo país civilizado a lei os isenta da qualificação mesma de crimes. São os chamados ‘crimes famélicos’ – o desnutrido que rouba um frango, ou o pai sem tostão que furta um remédio para dar ao filho doente. Em todos os demais casos, a pobreza, se está presente, é um elemento motivacional que, para produzir o crime, tem de se combinar com uma multidão de outros, de ordem cultural e psicológica, entre os quais, é claro, a persuasão pessoal de que delinqüir é a coisa mais vantajosa a fazer nas circunstâncias dadas.

Quando o hábito da delinqüência se espalha rapidamente numa ampla faixa populacional, é claro que, antes dele, essa persuasão se tornou crença geral nesse meio, reforçando-se à medida que as vantagens esperadas eram confirmadas pela experiência e pelo falatório. Ora, é de conhecimento público que, entre a mesma população pobre, por exemplo das favelas cariocas ou da periferia paulistana, duas crenças opostas se disseminaram concorrentemente nas últimas três décadas: de um lado, o apelo do crime; de outro, a fé evangélica. Numa população uniformemente pobre, o número de evangélicos praticantes que delinqüem é irrisório. Basta esse fato para provar que a correlação entre pobreza e crime é uma fraude, um sofisma estatístico da espécie mais intoleravelmente suína que se pode imaginar.

Nenhuma ação humana é determinada diretamente pela situação econômica, mas pela interpretação que o agente faz dela, interpretação que depende de crenças e valores. Estes, por sua vez, vêm da cultura em torno, cujos agentes criadores pertencem maciçamente à camada letrada, como por exemplo os bispos evangélicos e os cientistas sociais. Os bispos ensinam que, mesmo para o pobre, o crime é um pecado. Os cientistas sociais, que os criminosos, agindo em razão da pobreza, são sempre menos condenáveis do que os ricos e capitalistas que (também por uma correlação geral mágica) criaram a pobreza e são por isso os verdadeiros culpados de todos os crimes. Essas duas crenças disputam a alma da população pobre. Não é preciso dizer qual delas estimula à vida honesta, qual à prática do crime.

Nos bairros mais miseráveis e desassistidos, qualquer um pode fazer esta observação direta e simples: as pessoas de bem repetem o discurso dos bispos, os meliantes o dos cientistas sociais (...). Quando, do alto das cátedras, esses senhores pregam a doutrina de que a pobreza produz o crime, não estão cometendo um inocente erro de diagnóstico. Estão ocultando, com maior ou menor consciência, a colaboração ativa que eles próprios, por meio dessa mesma doutrina, dão ao crescimento irrefreado da criminalidade.”

Francisco Bosco, aplicando a Nem e aos vândalos o discurso dos cientistas sociais, tanto em sua coluna no Globo quanto em sua página no facebook, oculta, sabe-se lá com que grau de consciência, a sua própria colaboração ativa ao crescimento da criminalidade.

De resto: 
Legitimar moralmente os crimes falando em termos genéricos das condições de pobreza e opressão é fácil e, sem dúvida, comove muitas criancinhas, sobretudo as universitárias. Quero ver é estipular de uma vez por todas a condição-limite abaixo da qual o crime é justificável e justo, sendo a culpa do “sistema” e da “sociedade”, e acima da qual é injustificável e injusto, sendo a culpa do próprio indivíduo que o comete. Qual é a linha divisória entre aqueles que merecem o vale-crime e os que não merecem? Se Francisco Bosco me disser, eu publico seu texto no meu Blog.

Tenho algumas perguntinhas para ajudar:

Qual é o limite da renda mensal que moralmente autoriza alguém a cometer crimes? Há quanto tempo é preciso estar nessa faixa? Só ela basta para tanto? Ou é preciso combiná-la com humilhações sofridas pelo Estado, pela polícia, pela extrema direita fascista e pela classe média que a Marilena Chaui odeia? Como se pontuam essas coisas? Quem as verifica? As violências sofridas nas mãos dos demais criminosos supostamente pobres contam ou não contam pontos? Dizer-se vítima de preconceito é o suficiente, ou é preciso comprovar as perdas e danos? Os negros e gays têm mais direitos ao vale-crime do que os brancos? Diga-me: um adolescente rico que tenha sofrido estupros do pai ou do padrasto ou de quem quer que seja também está moralmente autorizado a cometer crimes, ou a riqueza o desqualifica? Quem está mais autorizado: o riquinho estuprado, que, sei lá, ainda perdeu a mãe, assassinada por um traficante em um legítimo ato de crueldade, ou um pobre que nunca sofreu abusos sexuais e cujos pais vão muito bem, obrigado? 

Como tantos outros colunistas, o sr. Bosco jamais esclareceu esses pontos; jamais escreveu as Leis de Bosco. O motivo é simples: se o fizer, deixará clara a sua colaboração ativa para o crescimento da criminalidade, uma vez que os cidadãos aptos a receber o vale-crime conforme as condições descritas sentir-se-ão mais à vontade do que já sentem muitos deles para cometer seus crimes.

Por isso é melhor apelar genericamente ao sentimentalismo da plateia bocó do que esclarecer as premissas do próprio discurso. Ninguém quer lançar luz sobre a confusão da qual se beneficia.

Já imaginou Francisco Bosco tendo de responder por aqueles que tentariam a todo custo preencher os requisitos necessários para obter o vale-crime ou por aqueles que usariam quem os preenchesse para cometer os crimes em seu lugar, como os bandidos adultos já fazem com os menores de 18 anos, que não podem ficar presos por mais de três? Ora, para que tanta dor de cabeça se ele pode justificar tudo sem se comprometer com nada do que diz, não é mesmo?

Só um leitor muito inocente ou de má-fé pode enxergar aqui uma simples divergência ideológica entre mim e Bosco. Não é preciso ser conservador, de direita, reacionário ou qualquer coisa que o valha (até o esquerdista Miguel do Rosário reprovou a legitimação bosqueana da delinquência no caso das manifestações) para entender que Bosco – consciente ou não, admitindo ou não – é um impostor intelectual, um falsificador da realidade, um porta-voz voluntário da bandidagem, um garoto-propaganda do PSOL, um revolucionário gramsciano da pior espécie, que contribui para a inversão completa dos valores na sociedade, enquanto posa de bom moço com sua linguagem afetada cheia de "intervenções no real".

Os criminosos, por piores que sejam, só prejudicam suas vítimas diretas. O discurso feito por gente como Bosco contra a sociedade nos maiores jornais do país legitima a ação de todos os criminosos e ainda contribui para retirar os freios morais de todos aqueles que apenas pensam em cometer crimes. E quem são as principais vítimas da criminalidade? Justamente os pobres(!), que essa gente jura defender.

Muito mais importante do que a pergunta da PM, portanto, é a seguinte:

Quem está tentando, como Bosco, saquear a moralidade do país está reivindicando um país melhor?




Felipe Moura Brasil, colunista do Blog do Pim e colaborador do Mídia Sem Máscara, responde:

– Claro que não.

O artigo sobre a "injusta"prisão de Nem:
por Francisco Bosco



Não quero diminuir a importância da ocupação da Rocinha pela polícia, tampouco a política das UPPs em geral. Comemoro ambas. Mas devo começar essa coluna com uma frase estranha, e entretanto necessária para encaminhar o pensamento estrutural que deve orientar a sociedade brasileira nesse momento: embora legal, a prisão de Nem, num sentido profundo, é injusta.

Um imenso contingente de jovens, quase todos pretos (ou pretos simbólicos, como Nem), compete em condições radicalmente desiguais com jovens de classe média ou ricos; são humilhados pela polícia; têm sua cidadania esvaziada pela precariedade de serviços públicos fundamentais (saúde, saneamento etc); são quase sempre invisibilizados pelo olhar do outro; não são reconhecidos, em suma, pelo Estado, nem pela sociedade. Por que então deveriam respeitar um pacto social que não os respeita? Impelidos à criminalidade, são presos ou mortos pela polícia. Isso é justo?

Eis a diferença entre os modos como a direita e a esquerda compreendem o problema da criminalidade. Para a direita, o crime é sobretudo uma decisão da ordem da escolha moral individual. Basta ver a capa da revista “Veja” dessa semana: um personagem de novela, uma mulher de meiaidade, com macacão sujo e uma ferramenta na mão, olhar sofrido e firme, encara quem a olha. É o elogio da integridade moral individual nos trabalhadores de classes sociais inferiores Mas o que, no fundo, essa capa diz é o seguinte: há pessoas que, mesmo desfavorecidas socialmente na largada, recusam-se a quebrar as regras do jogo e trabalham obstinadamente para melhorar de vida. Logo, os criminosos são esses seres abjetos a quem falta essa grandeza moral. Conclusão: a culpa é deles mesmos, que portanto devem ser punidos com rigor pela sociedade. É fácil pensar assim, responsabilizando o outro, e não a sociedade em seu funcionamento geral (o que inclui cada um de nós, sendo essa a visão da esquerda).

Alguns dias antes de ser preso, Nem conversou com a jornalista Ruth de Aquino, da revista “Época”. A fala de Nem não traz nenhum dado inédito ou interpretação nova do problema; além disso, é possível que, nela, Nem esteja querendo influenciar a opinião pública a seu favor. Mas mesmo que ela seja forjada, é autêntica; mesmo que seja mentirosa, é verdadeira. Há duas linhas que ela estabelece. Numa delas, Nem se apresenta como uma versão do “bandido justo”, que cuida da comunidade (“Mando para a casa de recuperação na Cidade de Deus garotas prostitutas, meninos viciados”) e separa, no interior do crime, as dimensões do pragmático e da crueldade, rechaçando essa última (“Nada de atirar em policial que entra na favela. São todos pais de família, vêm para cá mandados”). Na outra linha, ele se revela um traficante lúcido, crítico da estrutura social e a favor da política de segurança do Estado: “A UPP é um projeto excelente.” E ainda: “Meu ídolo é o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Dois pontos fundamentais foram tocados aí. Conta-se que Nem seria, na verdade, um bandido sanguinário, desses que ri enquanto toca fogo em alguém nos pavorosos “microondas” das favelas. Não sei se é verdade, mas o argumento é usado para defender que não se deve ter pena ao julgar, sentenciar, ou mesmo matar sem julgamento um criminoso como ele. A versão do bom bandido, apresentada por ele, serviria para amenizar essa visão. Seja como for, a versão “bandido sanguinário” é, justamente, aquela em que se revela melhor a estrutura social perversa de que o crime deriva: como esperar que um sujeito humilhado, desprezado, agredido, possa ser racional e calculista no crime? O seu ódio é a resposta simétrica à humilhação sofrida. Quem pode ser racional e calculista no crime são os sujeitos para quem o crime não resulta de violências sofridas no mais íntimo de sua identidade, mas aqueles para quem o crime é uma escolha possível entre outras, ou seja: banqueiros ladrões, políticos corruptos etc.

Quando Nem diz que perdeu seus homens para o PAC, a implicação é a mesma: se a sociedade oferecer emprego e cidadania, dificilmente as pessoas optarão pela vida do crime. Aí sim será legítimo falar de escolha individual moral. Os que têm alternativa digna e optam pelo crime, esses sim serão presos com toda a justiça. Muito se falou sobre o valor simbólico da prisão de Nem. Mas chefões do tráfico são presos ou mortos há décadas. Valor simbólico deve ser atribuído ao feito que consagra uma mudança estrutural, ou abre caminho a ela. Valor simbólico terão as prisões de políticos corruptos e banqueiros ladrões (aqui é preciso ser justo: a revista “Veja” contribui intensamente nesse sentido). Valor simbólico terá a entrada em vigor da lei da Ficha Limpa.