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domingo, junho 14, 2015

Menos direitos, por favor.










Menos direitos, por favor.por Colombo Mendes







Nas eleições passadas e nos discursos políticos de sempre, “direito” foi e é uma das palavras mais utilizadas por políticos em seus discursos. A estratégia é eficaz, pois nós, eleitores e cidadãos em geral, somos especialmente simpáticos à ideia de receber. Oferecer algo, contudo, é um pouco mais difícil – a não ser que usemos verbas públicas e façamos o “bem” com dinheiro alheio.

Nestes primeiros meses de novos mandatos, já vemos ações que visam à reeleição em 2018. Governantes e legisladores seguirão prometendo e, de fato, até distribuindo privilégios travestidos de direitos, por puro eleitoralismo, em um projeto egoísta de acúmulo de poder econômico. Todavia, há quem proceda de forma muito mais periculosa, dentro de um projeto de poder político mais amplo. Falo de quem promete e distribui benesses em nome de ideologias – e a humanidade sabe (sobretudo os milhões de russos, ucranianos, chineses, cubanos, alemães etc.) o potencial de devastação das abstrações ideológicas. 
Seguindo a máxima do “dividir para conquistar” (atribuída ora a Júlio César, ora a Napoleão), políticos populistas e demagogos prometem vantagens a determinados grupos (normalmente, organizados e queixosos) e deixam outros grupos insatisfeitos. Com a divisão consolidada e o caos instalado, apresentam-se, então, como arautos da sensatez, dispostos a mediar as tensões, oferecendo colheradas de bondade a gregos e a troianos.

O rol dos supostos direitos prometidos é vasto, em quantidade e irresponsabilidade, pois ignora-se que cada direito traz consigo uma proporcional carga de deveres e entra em conflito com outros direitos. Trabalhemos com um exemplo prático: se estudantes não pagarem passagens no transporte público, como defenderam alguns candidatos, o serviço acabará sendo pago pelos trabalhadores que utilizam os coletivos e pelos empresários que subsidiam vale-transporte a seus funcionários. Além disso, a concorrência fugirá do processo e a qualidade do serviço, então monopolizado pelo Estado, tenderá à queda. Ou seja, direitos para uns, deveres para outros, com a tensão social devidamente estabelecida, levando todos à solicitação da mediação estatal.

Outro exemplo: organizações não governamentais pressionam autoridades para que deem proteção especial a homossexuais. Não deixa de ser um pedido justo, mas esse zelo deve ser estendido a todos os outros brasileiros, vítimas de mais de 50 mil assassinatos e de milhões de assaltos, sequestros, estupros e outras violências por ano. Por fim, cito a questão das cotas raciais em vestibulares. Ora, privilegiar vestibulandos em função de sua cor de pele, pressupondo que estão menos capacitados para uma disputa meritocrática, é diferenciação racial; logo, é racismo. Aliás, é racismo de mão-dupla: contra o negro, por pressupor que ele precisa de uma vantagem competitiva; e contra o não negro, por prejudicá-lo na disputa. Novamente, são agraciados estes e depreciados aqueles – e quem possibilita essa tensão é quem detém o remédio.

Não, não tenho absolutamente nada contra os indivíduos que compõem as [supostas] minorias citadas ou tangenciadas nesses exemplos. O problema é tão somente o ativismo oportunista, que caça vantagens a determinados grupos em função de preferências que deveriam limitar-se à vida íntima das pessoas (no caso das “minorias sexuais” [sic], por exemplo) e de características físicas e naturais que não determinam nada per se (como a cor da pele ou o sexo do indivíduo). Apenas para ilustrar o quão artificiais são essas tensões: a quem alega que cotas são uma política de reparação histórica inegociável, vale lembrar que eram negros os líderes de tribos africanas que capturavam seus conterrâneos e os vendiam aos europeus e que eram brancos os europeus escravizados – oito séculos antes da escravidão nas Américas – por hordas islâmicas, repletas de negros do Norte da África.

A verdade é que supostas reparações e correções artificiais de aparentes injustiças servem apenas a tensionar a população, a colocar-nos uns contra os outros, a dividir para conquistar, enfim. A atual sanha por privilégios só faz aumentar as tensões sociais, opondo-nos em raças, gêneros, classes etc.; mas geram dividendos eleitorais, enriquecem e cobrem de poderes os pretensos benfeitores. São essas situações claros indícios de por que o Brasil atravessa tamanha crise ética e moral. Quando cada um coloca os direitos de sua preferência à frente do bem comum, o resultado é a guerra de todos contra todos.


Publicado na revista Voto.

terça-feira, janeiro 14, 2014

Carta aberta aos não-esquerdistas.




Ou: O cegante brilho de nossas botas.

por Colombo Mendes





Aos amigos da direita, ou, melhor, da não-esquerda. Aos daqui, aos de lá, aos de toda parte (porque são muitos os tipos), mas, sobretudo, àqueles que se dão a censurar, diminuir e até ridicularizar aqueles outros que têm-se dedicado a fazer algo para que saiamos todos do duradouro estado de letargia em que nos encontrávamos. Àqueles que se imbuíram de uma superioridade tirada sabe-se lá de onde, que bem poderiam dedicar-se a orientar aqueles que julgam perdidos pelo afã de resolver a situação; que bem poderiam ajudar de alguma forma aqueles que julgam que põem os pés pelas mãos em suas ações, como organizar hangoutsvários e protestar contra aqueles que sempre massacraram os não-esquerdistas impunemente (e.g., Porta dos Fundos e Ghiraldelli versus Sheherazade).

Aos gostosões intelectuais, aos aprendizes de fariseus, aos santarrões, aos caçadores de falhas alheias, aos próceres da prudência, enfim, a todos que resmungam entre os dentes que quaisquer formas de ativismo e militância são contra os preceitos conservadores. Peço permissão a toda essa gente para imbuir-me de uma autoridade tirada não sei de onde para dizer-lhes:




Concordo com vocês: são hangouts, palestras e entrevistas demais. Contudo (eis uma obviedade), há esquerdistas demais falando e escrevendo por aí; é preciso equilibrar essa conta. Seria maravilhoso se todos fossem capazes de dar contribuições como as do professor Olavo de Carvalho, do Padre Paulo Ricardo, do Mário Ferreira dos Santos, mas não é assim. Evidentemente, como estes, há apenas estes e mais alguns que ainda estão preparando-se, creio. A propósito, o conselho do professor Olavo, de que devemos estudar muito antes de sairmos por aí falando o que pensamos, é muito prudente e deve ser seguido por todos; mas a admoestação se refere à publicação de idéias próprias, inéditas, não para a reprodução do que aprendemos nem para a denúncia do que é errado.

Não precisamos sentirmo-nos prontos, maduros, tinindo, capazes de ensinar ao mundo o muito que aprendemos e que dominamos como poucos para que comecemos a falar de nossas próprias experiências, fartas de erros e percalços. Por isso mesmo, boa parte dos hangouts não são especificamente para vocês, superiores, que já têm muito mais a dar do que a receber. Por suas próprias características de tempo e abordagem, os hangouts, são para neófitos, servem para atrair e acolher aqueles que (como nós fizemos em algum momento) estão querendo ir além do que aprenderam nas escolas e do que lêem nos jornais. Esseshangouts têm algo de grupo de reabilitação, como alcoólicos anônimos. Ou, ainda, os hangouteiros talvez sejam como os moleques que vão para a rua entregar panfletos de restaurantes, de assistência técnica de ar-condicionado, de escolas de informática; o transeunte lê o panfleto, interessa-se e, depois, vai atrás do que é propagandeado. Não devem – nem têm como – concorrer com o Curso Online de Filosofia, por exemplo; devem, sim, introduzir os temas, acolher os recém-chegados e atrair os que olham com desconfiança. Também, servem os hangouts para quem os faz acontecer, no sentido de organizar o pessoal, de mobilizar e aglutinar forças.

Parafraseando o que diz C. S. Lewis no prefácio de “Cristianismo puro e simples”, quando propõe que é necessário defender primeiro uma causa comum para, só depois, aprofundar conhecimentos e expor e debater desavenças, eu diria que os hangouts, as palestras, as entrevistas e as reações aos ataques esquerdistas conformam uma grande sala-de-estar, pela qual se entra na residência e se passa; depois, os convidados e os anfitriões se recolhem aos seus aposentos e fazem o que deve ser feito. Vocês, superiores, já estão em seus aposentos, recostados em seus recamiers, trajando roupões de seda roxos, charutando e "eruditizando-se" deliciosamente, enquanto a esquerdalha prepara-se para invadir suas residências e estourar-lhes os miolos (na verdade, não será necessário "invadir”; a esquerda entrará tranqüilamente nas casas dos gostosões da prudência). Enquanto limitam-se a estudar (o que em si não é ruim, obviamente) e resmungar em seus confortáveis aposentos, há hordas do lado de fora, querendo tomar a propriedade. Definitivamente, não há prudência [palavra adorada por vocês] em desprezar os poucos aliados que estão na sala-de-estar.

Além disso tudo, há a necessidade de equilibrar a balança da opinião pública, que há muito está capenga para a esquerda. Esses hangouts, essas entrevistas, a que vocês se recusam a participar (lamentavelmente, pois, não tenho dúvidas de que seus relatos de vida, de formação, serviriam a muitas pessoas) e que insistem em menosprezar, ajudarão a levar pessoas do “nosso lado” (seja lá o que isso for) para a mídia (o que já está ocorrendo, aliás; vide Felipe Moura Brasil na Veja); ajudarão a respaldar os “dos nossos” que estiverem por aí, escrevendo em blogs, jornais e revistas, falando na televisão e no rádio e ensinando em escolas e universidades.

Todos nós devemos, sim, fazer o que vocês fazem e nos admoestam que façamos: estudar a sério, reservadamente. Todavia, se fizermos “só” isso (entre aspas, porque, reconheço, já é muito), as esquerdas crescerão mais do que já cresceram e nos sufocarão mais do que já nos sufocam, ao ponto de que nem isso (estudar reservadamente) nos será permitido fazer. Esses muitos hangouts podem ser um meio de reconquistarmos o direito de dizer que um mais um é dois.

Como católico (dos piores), evito emitir opiniões contra o protestantismo; como um pretenso conservador, evito emitir opiniões contra os liberais (embora não consiga, muitas vezes; o que é um erro). Temos inimigos demais querendo nossas cabeças, de modo que não creio que devamos atacar aqueles que, em determinada especificidade, agem em desacordo com aquilo que julgamos correto. Precisamos de companhias para a viagem, pois a estrada é cheia de perigos. Por exemplo: há algum tempo, a cada quatro anos, vemo-nos obrigados a votar em gente que jamais votaríamos se vivêssemos em um cenário político minimamente decente. Se chegamos ao ponto de votar em sociais[socialistas]-democratas por pura necessidade de sobrevivência, por que, por outro lado, atacamo-nos mutuamente?

Espero, honestamente, poder viver o dia em que teremos tempo e tranqüilidade para discutir, entre nós, os erros e acertos dos mais variados pormenores, sobre os meios com que nos comunicamos, as maneiras como falamos etc. Contudo, por ora, estamos recém tentando falar.

Hoje, não posso dar-me ao luxo de chamar a atenção do soldado ao lado porque suas botas não estão bem lustradas. Depois que conseguirmos ao menos sair do buraco em que estamos escondidos, enquanto somos bombardeados por todos os lados, talvez eu pense nisso. Não é hora de ficar no buraco, admirando o brilho de minhas botas; a não ser que eu não me importe em ser soterrado pelo inimigo.



Fonte: Midia Sem Máscara, http://colombomendes.blogspot.com.br