quinta-feira, janeiro 12, 2017

Você está com dó de Meryl Streep? Nem eu.







por Flavio Morgenstern(*)



A atriz das atrizes de Hollywood, Meryl Streep, usou um subterfúgio bem fictício para atacar Donald Trump: se fazer de coitada. Alguém cai?

O infame discurso de Meryl Streep na entrega do Globo de Ouro, em que a atriz se aproveita de sua condição privilegiada para atacar o presidente eleito americano, Donald Trump, já rendeu toda a sorte de análises pela internet.

Um ponto, entretanto, permanece o mais das vezes intocado: o fato de Meryl Streep ter se colocado na posição de coitadinha. Segundo a talentosa atriz, “Vocês e todos nós nessa sala, realmente, pertencemos ao segmento mais difamado da sociedade americana agora”. Streep se referia a Hollywood, à imprensa e aos imigrantes, que compõem os dois grupos.

Pouco precisa ser dito sobre a confusão brutal entre “imigrantes” (a América foi feita por eles) e “imigrantes ilegais“, que Meryl Streep trata como se fossem uma única categoria, o que gera algumas pequenas confusões sinápticas. Ou sobre sua lambeção quase pornográfica da velha mídia clintonista, que espalha difamações de hora em hora sobre Donald Trump e os Republicanos, tratados como nazistas (spoiler: foram eles que venceram os nazistas, acabaram com a escravidão etc), enquanto esconde as tramoias de Democratas como Barack Obama e Hillary Clinton (dos rituais satânicos de seus amigos ao escândalo de Benghazi, nada chega aos ouvidos moucos fora da América republicana).

O mais chocante é ver Meryl Streep, em uma das festas mais caras do globo (!), dizendo que faz parte do “segmento mais difamado da sociedade”. Chamar de “esquerda caviar” não é sequer suficiente: qual a “coragem” tão aplaudida da atriz em ir a uma festa de atores de Hollywood, os atores mais bem pagos do planeta, e repapagaiar a única visão política-ideológica-epistemológica-metafísica-moral-cosmológica permitida na bolha de atores endinheirados?

Será que alguém, mesmo que concorde com a visão da atriz sobre Donald Trump (o que é o mesmo que concordar com a visão de todo mundo que se informa pela Rede Globo ou pela CNN sobre Trump), acha mesmo que Meryl sabe mesmo o que é ser difamada? O que é estar numa posição socialmente desfavorável? Lembra a descrição de uma vítima do personagem Rorschach, de Watchmen: “Gordo. Rico. Acha que sabe o que é sofrer.” Pior: Meryl Streep nem se digna a ser gorda para nos insuflar alguma dózinha perdida entre nossas parcelas atrasadas do FGTS.

Como assim, a atriz bem paga das atrizes bem pagas, a atriz das atrizes, a celebridade non plus ultra, diz que é uma pessoa estigmatizada por… bem, por ser a atriz das atrizes, la crème de la crème das pessoas que não precisam de mais nada na vida, e se ainda “trabalham” é só porque seu trabalho é morbidamente idêntico ao que os comuns mortais denominam entretenimento?

Sério, podemos nos esforçar para sentir uma dó profunda de Meryl Streep, nos comovermos com sua voz embargada na cerimônia do Golden Globe (e como não sentir dó de alguém após sua 30.ª indicação para o Globo de Ouro, 8.ª vitória e ainda um prêmio de conjunto da obra?), cogitando se quando uma atriz talentosa nos arrebata com suas lágrimas, se ela está sendo sincera ou atuando, mas… dá para andar na rua e ver alguém que, se perguntado, não cogitaria largar toda a sua vida para trocar pela chuva de difamações de nossa heroína. A técnica de Streep para uma voz descompassada, de respiração ofegante (falar expirando, inspirar de boca aberta), é bem conhecida de qualquer aspirante a ator em sua quarta aula do método Stanislavski. Difícil crer que logo Meryl não manjaria do assunto.

Sério mesmo. Pode perguntar pra qualquer um, “quer sua vida sem difamações ou a vida de Meryl Streep?”, e provavelmente o Datafolha dá 102% de respostas para “Meryl Streep, Meryl Streep, Meryl Streep”. Aliás, você já viu o tamanho da página de prêmios da protagonista das protagonistas na Wikipedia?

Claro, podemos sentir uma desconfortável contrição ao descobrir, por exemplo, que, em 2014, o Ranking das Celebridades da Forbes mostrou que ela caiu da posição de 73.ª atriz mais rica para apenas 92.ª. Certamente haverá algum textão de Hillary Clinton a respeito, divulgado como “lacrada” pelo Estadão e repetido entre outras lágrimas enternecidas pela Globo News sobre a necessidade de revisão dos contratos de mulheres em posição desvantajosa. É excelente para criticar Donald Trump pela única coisa que ele pode ser criticado: dizer que é “machista” por não aceitar políticas feministas.

O caldo entorna quando, lembrando João Ubaldo Ribeiro, pesquisamos o cachê de um único filme de nossa querida atriz. Para quem está acostumado a ler Forbes, e até corrigir a Forbes, sem notar o curioso que é ler a revista no metrô lotado, de repente nos damos conta de que estamos acostumados a lidar com tais cifras ao falar do PIB de países da Ásia, não do salário mensal de uma atriz.

Quando descobrimos que Streep embolsou US$ 8 milhões só pelo filme Simplesmente complicado, nós, que parcelamos viagem em 24 vezes e andamos de avião pela primeira vez depois de sair da faculdade, mal conseguimos acreditar que tal grana exista. Se Meryl quiser, podemos sofrer todas as ofensas e difamações e sofrências que ela heroicamente agüenta todo dia só pelos US$ 35 mil do seu primeiro filme, O Franco-Atirador. A bem da verdade, por 5% do atual cachê, aceito até tomar umas porradas. Só não vale xingar a mãe. Mas por 10%, talvez até ela entenderia. Mãe é mãe.

Se Meryl Streep consegue ir a uma festa no qual só entram triliardários, vestida num vestido que custa duas vezes meu rim direito, coberta de jóias que resolveriam uma semana de fome na África, e dizer, invertendo a respiração, que está numa sala com as pessoas mais “perseguidas” na sociedade americana hoje, sobretudo porque vários são imigrantes, que dirá eu, que sem querer não entendi o que o garçom disse em Nova York e aceitei uma água de US$ 10 dólares com o câmbio a R$ 3,60!

Este é um dos grandes problemas da esquerda mundial: tentar bancar a pobrezinha, explorada, injustiçada, oprimida e outros particípios de verbos pesados, quando na verdade é mais rica, poderosa, admirada e topo de cadeia alimentar do que quem está criticando. Quando falam em “inversão de valores”, poderíamos até colocar valores financeiros na jogada: os ricaços de Hollywood sentando a ripa nos pobres rednecks americanos que têm de plantar a própria comida e sem os quais Los Angeles, Miami e Nova York morreriam de fome. Basta se dizer eleitor de Hillary Clinton e crente cego no New York Times e voilà, está criado um “oprimido” pelo terrível autoritarismo republicano!

Se Meryl Streep já havia dado um festival de very poor choice of words, os exemplos que usa para defender imigrantes são ainda mais incompatíveis com a vida real (e sempre ignorando a leve distinção entre imigrantes legais e ilegais). Por exemplo, afirmar que Natalie Portman nasceu em Jerusalém. O que será que Streep tem a dizer sobre a política externa de Donald Trump, que pretende mudar a embaixada americana de Tel Aviv para a Jerusalém da cidadania de Natalie Portman?

Para Meryl Streep, sem os imigrantes, não haveria nada para se assistir na América além de futebol e MMA, as mixed martial arts, que “não são arte de verdade”. Como não são?! Seguir o Bushido exige mais auto-disciplina, superação de limites, respeito ao próximo e mentalidade aberta do que aulas no Actor’s Studio. Aliás, que preconceito é esse com imigrantes? Não existe arte marcial americana (até o Brasil tem duas) – de repente, dá para fazer um discurso “anti-xenofobia” maldizendo o jiu-jitsu, o tae kwon do, o muay thai e até a capoeira?!

Artes marciais exigem também um timing constante. Timing que Meryl ignorou completamente, além do conteúdo: como pode afirmar logo isso, sendo ovacionada em desespero hollywoodiano e faniquitos meméticos mundiais, poucos dias após um eleitor de Donald Trump, cadeirante, ser espancado e torturado por 4 ativistas do Black Lives Matter, obrigado a dizer “Fuck Trump” e “Fuck white people”, no caso de maior tortura com desproporção de força (e exploração, e opressão, e desigualdade…), que, miraculosamente, foi exatamente o caso de violência menos comentado pela imprensa mundial – a imprensa que Meryl Streep termina seu discurso defendendo, por seus “princípios”, que nunca vão contra seu grande financiador, George Soros?

Tudo o que Meryl Streep quis foi a famosa LACRADA, a última modinha de 2016. É quando pessoas de esquerda, sem muito ânimo para se admitirem “esquerdistas” nos tempos que correm, soltam uma frase de efeito sem nenhum conteúdo factual, um flatus vocis, tão somente para pegar bem com quem já concorda com tal proposição. Nos anos de PT no Brasil ou de Obama na América, poderia até parecer uma, digamos, “verdade”: bastava ter ganhado as eleições para esperar vitórias absolutas ad eternum. Mas discursos lacradores cansam por serem ocos: logo as pessoas querem conteúdo, não só um rostinho bonito papagaiando platitudes.








A coisa já é ridícula quando os maioristas (“bolchevique” não significa exatamente isso?) confunde maioria com verdade, mas se torna ainda mais cacete quando a esquerda progressista, ainda mais em posição minoritária, ataca uma maioria de pobres, de coitados, de gente realmente explorada, oprimida e incapaz até mesmo de conceber sua vida luxuosa em nome destes mesmos pobres – que, assim que não compram mais um discurso vazio, passam a ser “brancos” e “sem instrução” e gente que “assiste futebol e MMA”.




Você defende o povo ou a elite, afinal?




(*)Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen


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