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sexta-feira, janeiro 09, 2015

No futuro, todo jornalista terá status de correspondente de guerra.










No futuro, todo jornalista terá status de correspondente de guerra.

por Paulo Rosenbaum




Ninguém quer falar, mas agora ela se foi. Um último suspiro. Foi hoje pela manhã. Não divulgaram, mas as tentativas de salva-la, não foram só inúteis: evidenciou toda doença e expôs a desproteção sob a qual vivia.

O estado já era crítico, mas, sempre nos enganamos com a maquiagem e com as expressões suaves. A verdade é que esteve suprimida para não exaltar ainda mais seus sintomas. Mesmo assim, ninguém percebia bem a gravidade da sua situação. Andava doente, mas mantinha a cabeça erguida. Vinha reclamando da população. Num episódio célebre, notou pessoas se escondendo enquanto a mordaça estava sendo apertada contra sua boca. Com uma lesão na garganta não conseguia mais falar como antes. Enrouquecia todos os dias. Engasgava e precisava ter cuidado com as palavras. Mesmo assim, não faltou um só dia para voltar à carga. Se todos estão testemunhando por que não se manifestam? Nunca conseguiu compreender ou aceitar fingimento. A sociedade teria enfim aprendido a cegueira seletiva dos políticos? Chegou a considerar que vivíamos uma epidemia de estoicismo. Não ver ou se recusar a enxergar num mundo cada vez mais vigiado e controlado.

Os alertas iniciais foram dados, ela mesmo se encarregou de acenar. Valores democráticos são frágeis, e tem sempre gente tentada a regular, monitorar e todos sinônimos marotos para driblar a palavra “censura”, costumava dizer. Sem precisar forçar pendia ao bom humor. Tudo era natural nela: a risada, a ironia e a sátira sempre usadas para romper o clima pesado. Tudo se intensificava quando insistiam nas carrancas, lamentos e assuntos sérios. As vezes se questionava. Tinha o direito de ser provocadora? Talvez não, mas isso nunca a intimidava. Era obrigação ser careta? Conter-se na missão de opinar? Defendia-se afirmando o direito de interpretar as notícias e que ela mesma era o último valor pelo qual fazia sentido lutar. Mesmo sem aptidão para profeta, acabou gerando profecias.




Seu leitmotiv? Brincar com a seriedade. Colou na entrada da redação: "quanto mais nos levarmos a sério, mais insanos nos tornamos”. Acusada de irreverente quando deparava com culturas menos liberais, escrevia em seu diário que “Minha exigência? A razão da minha existência? Instigar o raciocínio, a crítica, desafiar e informar sem deixar que nos intimidem”. Contam os mais velhos que, certa vez, cercada por intolerantes de todos os lados, e à beira de um linchamento, saiu-se com essa: “Vocês podem acabar me eliminando, mas se é verdade que os valores subjetivos não morrem, sou como o fantasma que assombra. Piadas em dobro reservadas para aqueles que me perseguem”.

Em meio aos milhares de escritos inacabados, acaba de ser encontrado ao lado do corpo, um estudo que ela, A Liberdade de Expressão, esboçou para o próprio epitáfio: “A realidade é absurda: divirtam-se”.

Fonte: Pletz e G1

domingo, novembro 30, 2014

Maniqueísmo Instrumental.









por Paulo Rosenbaum




Já que o País está dividido ao meio, podemos enfim contar melhor as peças do tabuleiro.

Chefões e subordinados do regime não parecem mais temer as circunstâncias que criaram, nem os 51 milhões que não os avalizaram. A única pergunta significativa é por que? Conseguiram a cola perfeita, aquela que gruda em quem se opõe ao projeto de hegemonia. Nos adesivos, nomenclaturas desqualificadoras de ocasião. A pergunta é, como pode uma oposição que opera com tal frieza lidar com um trator cujo motor já deu sinais que está prestes a fundir?

Refrescando a memória coletiva, a oposição pouco se mexeu quando os primeiros indícios de que uma megaoperação de perpetuação no poder estava em curso. Pouco fez quando as evidências apontavam para o núcleo duro do partido. É verdade, torceu pelo magistrado-solo enquanto tentava superar as ameaças que corriam por fora. Quando ele mesmo dimensionou seu isolamento e jogou a toalha, quase nenhuma voz de desagravo.

A oposição apresenta-se hesitante e pouco convincente aos olhos da opinião pública, que espera bem mais do que “convocação de nova CPI em fevereiro”. A sociedade sente-se orfã diante dos fatos correndo na frente das barreiras. Urgência detectável para bem além das “redes sociais” — como algumas mídias preferem se referir aos rumores para circunscrever uma indignação muito mais ampla. Bem mais difusa do que mensagens rancorosas e preconceituosas entre usuários da internet. A sensação é de que os dinossauros estão esticados tomando sol sobre as pedras, em atitude expectante, diante de um regime agônico. Mas, novamente, podem estar enganados quando não consideram que o extravio leva à truculência, como aconteceu em toda República partisã. Nas circunstâncias que temos testemunhado, não há nada de paranoico evocar as circunstâncias que levaram jovens democracias à bancarrota.

O mais recente ícone do fracasso da democracia é o exemplo venezuelano. A oposição, por medo e intimidada pelo populismo chavista encistou-se numa trincheira distante, fria, com boicote, salto alto e esperança de que o desgaste natural desse conta do tirano. Pois, não ocorreu. Pelo contrário. O resultado de fato foi um avanço sem precedentes do que se convencionou chamar de bolivarismo. Palavra que traduz medidas autocráticas e invenções sob medida para justificar o totalitarismo. A “democracia direta”, por exemplo, é a evidente fissura entre a representação política e os votantes. Implementada, a sociedade se viu diante do desmanche dos três poderes. Extinta a auto regulação, os habitantes daquele país passaram a contar exclusivamente com agentes e líderes do executivo. Não é fortuito que a ONU tenha acabado de condenar Caracas por graves desrespeito aos direitos humanos, de prisões ilegais às torturas. A diplomacia brasileira perfilou-se aos países que tratam direitos humanos com mudez seletiva.

É particularmente espantoso que comentaristas e catedráticos nacionais – subsidiados ou não pelo erário — apontem para uma “nova direita” e uma “extrema direita ideológica” sem, ao mesmo tempo, apontar para o contexto real do parto destas forças. Seria por lealdade nostálgica por aquilo que já foi concebido como os valores progressistas? Faz tempo que o populismo autoritário vem ajudando a deslocar o centro para os extremos. Forças democráticas, da direita à esquerda em desacordo com o onipotência, foram empacotadas, comprimidas e reduzidas à “reação”, agora com insinuações de golpismo. O petismo, sacrificando o fiapo de coerência com seu comportamento e alianças, estas sim, à direita daqueles que são acusados de conservadores, instruiu uma aposta. E ela esta exatamente neste contingente de indignados sem filiação clara, manipulados para insuflar teses conspiratórias. Isso ajuda a propagar com mais facilidade seu maniqueísmo instrumental.

Recobram a desinibição para prosseguir no planejamento oportunista de reformas macro institucionais, à revelia da opinião pública. Não foi só ter levado o pleito na base da calúnia e difamação dos adversários. Não foram só acordos secretos com a ditadura cubana. Não são só os decretos arrivistas. Não é só a imposição de conselhos populares controlados pelo partido. Não é só a luta para extinção do Senado. Não são só financiamentos públicos de campanhas de candidatos dos países vizinhos. Não é só a complacência com governantes totalitários. E não se limita a grudar em um partido tampão como o PMDB, para ganhar aparência mais amigável perante a “nova classe média” que, em segredo chamam de “desprezível baixa burguesia”. Mas, principalmente, a autoconfiança político-jurídica que foram angariando para sustentar todas estas operações. Na clandestinidade atuam com uma única finalidade, já escancarada, de aglutinar-se como poder único.

Trata-se portanto de um regime que finge que não governa, para enfim trabalhar em sua especialidade, a oposição. Isso é muito sugestivo. Sugestivo de que estamos diante de um governo que já age num registro sub oficial. À sombra da legitimidade constitucional. Não porque quer, mas porque atingiu uma espécie de zênite transgressor, e sob o excesso de denúncias, acobertou uma verdade muito mais comprometedora que os alardes dos maus feitos que agora vazam por todos os lados. Por todos os lados, menos para o corredor central do Planalto. E enquanto se convencem de que a impunidade é o prêmio laudatório à grandiosidade de sua causa, o país encolhe, e nós junto.

sábado, junho 07, 2014

Livre arbítrio?.







Livre arbítrio?.
por Paulo Rosenbaum 




A neurociência vaticinou por aí: é finda toda especulação filosófica. Somos governados por condicionamentos neurais e, sendo os neuroescaneamentos quase inquestionáveis, não há espaço para decidir mais nada. Hoje, imagens falam mais alto. Nossas escolhas, todas, já estão predefinidas via interconexões químicas, e o quer que venhamos a decidir não passa de um reflexo sináptico previsível.

Mas, se a liberdade para arbitrar está predefinida, alguém poderia responder: onde está a graça?

Estamos então numa espécie de vão. Um vão que indica tempo, mas talvez indique também, ou principalmente, uma espécie de espaço descontínuo. Penso nas manifestações e em toda a energia desperdiçada no ralo. Na falta de diretriz. Num país que não consegue enxergar que a potência real está mais nos habitantes do que nos bilhões de recursos.

Se até este discurso pode estar quimicamente predefinido, por que insisto, persisto, e, mesmo contra as evidências, não desistimos? Isso também pode estar catalogado na lei geral da evolução, uma espécie de ilusão alimentada para que continuemos a acreditar na preservação da espécie – não duvido de Darwin, apenas suspeito de uma mensagem incompleta. E como escaparemos das garras dos deterministas?

Sempre que ouço gente discorrer – do púlpito, teclado ou nas plaquinhas de manifestantes – com convicção e resolutividade, fico deprimido. Deve ser também alguma falha axonial, esta de natureza melancólica. Isso não significa inveja, desejo de compartilhar o sentimento de gente com certezas absolutas. Confesso que meu problema principal está na hesitação. E esta tendência, ainda que potencialmente paralisante, é o que permite se cogitem outras formas de perguntar.

Parece mesmo que há um vão.

Um vazio que precisa ser preenchido com incertezas. É que a certeza nos traumatiza. A dúvida nos salva. Nos salva da ideologia. Devia haver uma reza que pedisse para nos livrar de gente com opinião formada. Não seria heresia, espero, incluir nos afastar dos formadores de opinião. Basta breve rodada na grade da programação da TV para julgar se exagero. Precisamos pedir férias das posições sólidas. Exonerações de alinhamentos automáticos. É que isso pode nos resgatar do mais grave dos efeitos colaterais já inventados: a morte da criatividade.

E é essa disposição a recusar o que pedem para pensar que poderia nos liberar para um diálogo mais livre, sem formatação, liberto dos formalismos. Pensei na intenção dos velhos filósofos e em sua insistência no regime tutorial, e, ao mesmo tempo, o ensino realizado nos espaços abertos. As caminhadas peripatéticas, uma forma simbólica de induzir abertura e porosidade na mente das pessoas. Os filósofos que admiro não buscavam discípulos obedientes, mas gente que podia dissentir, arguir e, se possível, criar contrapontos aos lugares sem saída. Becos que encaixotaram cabeças.

Desde quando não surgem cabeças estratégicas, não ideológicas, que apresentem soluções mais razoáveis para os problemas crônicos que nos castigam? A hipótese é que morrem no berço. Nas escolas e nas panelinhas. Sobra espaço para correligionários, companheiros e amigões.

É raro que um dissidente sobreviva na área educacional. Um docente de universidade precisa de uma rede de apoio político, senão sucumbe rapidamente. Piora bem se o ambiente for público, estadual ou federal. O mérito hoje reside na avaliação da capacidade para criar networks. A instrumentalização política do saber é problema antigo, porém nas proporções atuais precisa ser chamado de escândalo. Pode ser muito humano, mas isso não é álibi para abonar o desanimo.

Chega de euforia e lamúrias, o déficit é de gente que preza mais a criação que a repetição e fórmulas bem sucedidas. Meus neurônios provavelmente podem até não gostar da ideia. Tanto faz. Já aprendi a discordar deles.

terça-feira, março 11, 2014

Epidemia de generalizações.





por Paulo Rosenbaum 




Os acontecimentos na Ucrânia precisam e merecem inversão do pensamento. Aquilo a que temos assistido é mais um atestado de falência da diplomacia internacional. Falham numa das premissas essenciais a se evitar no ramo: uma epidemia de generalizações. Os russos são imperialistas. Os americanos só enxergam suas necessidades. O Ocidente é malévolo. Os ucranianos que se rebelaram contra o títere russo são fascistas.

De fato, um dos principais líderes, fervoroso ultranacionalista, impõe um vocabulário esdrúxulo, anacrônico e antissemita. Lidera uma corrente fascista, antiga como os progrons contra as minorias que remontam ao século 16. Mas, e os democratas, a maioria entre os combatentes da praça? E a significativa parcela do povo ucraniano que derrubou o presidente que ordenou abrir fogo nos insatisfeitos? E, aqui sim, pode-se responder por antecipação aos argumentos erráticos que tentaram embasar a invasão. Por que os manifestantes foram às barricadas? Por que escolheram a resistência não pacífica? E o principal: por que não o fizeram pela via democrática, o voto?

Um dos limites da democracia — um problema não previsto e muito menos equacionado — é quando o eleito usa das prerrogativas do poder conquistado nas urnas mas faz — por motivações ideológicas, pessoais ou pecuniárias — o que lhe parece mais conveniente. Pois é o que vemos em muitos países. A solução de impeachment vai ficando cada vez mais difícil, chega a sumir do horizonte, quando os poderes são amalgamados e controlados pelo Executivo.

E se nenhuma daquelas generalizações tiver consistência? É que, para fugir da complexidade pouco analisável, gostamos das reduções. Encolhidas a meras teorizações genéricas, pretensamente analisáveis, as matérias parecem nos dar a segurança da compreensão. Às vezes, ela é só uma ilusão, um ardil para não nos atordoar.

Obama se retrai diante de alguém que fala mais grosso e coloca seus diplomatas para fazer ameaças difíceis de cumprir. Enquanto acusam os fascistas, os russos violam a soberania da Ucrânia, enquanto Obama se retrai diante de alguém que fala mais grosso, coloca seus diplomatas para fazer as ameaças difíceis de cumprir. Todos fazem o jogo de fingir que são quando na verdade motivações ocultas é que dão as cartas: acesso ao mar, território rico em commodities.

Se a história é um registro, a interpretação pode virar sua borracha. Que outra explicação para que uma das primeiras medidas do novo Parlamento ucraniano tenha sido a aprovação — num país multiétnico — da supressão do russo como segunda língua? Inexperiência ou provocação? Inabilidade ou estupidez?

Putin, experiência curricular de ex-diretor da KGB, nem precisava de aulas extras de xadrez para enquadrar o falatório hesitante dos líderes do Ocidente. Ninguém tem saudades de Bush filho, mas não vamos exagerar. É o caso, com a desconcertante ingenuidade com que o atual presidente americano lida com questões gravíssimas. Por sua vez, Vladimir, com sua racionalização justificacionista e a liberdade hipnótica com que manipula os fatos, não macula sua habilidade. Nada menos que espetacular chamar a invasão de “resgate humanitário”.

Com a maior parte dos lideres ocidentais impotentes e em pânico, resta esperar que o efeito dissuasivo do piloto para a anexação da Crimeia se esgote e Putin volte a reinar, só, em seu enorme feudo. É que lá, como cá, também não se escuta a oposição. Quem imagina que a temperatura das guerras esfria, pode só estar com problemas de percepção térmica e de aclimatação.

A verdade é que nada é, nem parece.


Fonte: Pletz

terça-feira, março 04, 2014

História Natural da Falência do sistema binário.




por Paulo Rosenbaum




Consultando dicionários, a palavra oposição cai na seguinte chave temática: de um lado conveniência e consentimento, de outro, discrepância e protesto.

O levantamento faz parte de uma análise mais panorâmica para avaliar o terreno baldio onde pisamos. Faz parte do jogo político que um governo conviva com seu contraponto. Trata-se de um sistema binário, onde um não pode viver sem o outro. Quando o poder não compreende que essa competição é o que dá sentido ao processo democrático, ou está mal intencionado ou perdeu o rumo. Uma e outra coisa podem se sobrepor, mais frequentemente do que se imagina.

Tudo isso tangencia o óbvio, mas é como se a realidade turva do solo não permitisse a transparência. E se, num mundo de instantâneos, o papel do jornalismo ainda faz algum sentido, um deles talvez seja elucidar, abrindo mão de tentar explicar.

Nos países onde a oposição aceitou fazer parte de uma coalização tácita — isso é, finge que se encoraja, mas consente no apoio inercial — boicota eleições, ou foi sendo apagada pelo medo de contestar populistas, desastres são certeiros.

Em um contexto assim, a sociedade, sem representatividade real, vai sendo empurrada para a polarização — nosso ponto atual no GPS — e ao sectarismo. E o sectarismo pode ser considerado o recheio das revanches. Ser oposição significa impedir que a prática adesista se instale para sempre e que o monológico não prevaleça.

Guardadas as circunstâncias, não é mais necessário obedecer a um poder que passou a negar as regras pelas quais o alcançou. Mas, qual tipo de desobediência caberia numa arena democrática?

Opor-se é renegar a submissão e reagir à coação. Significa insurgência à continuidade, e aceitação do revezamento, preservando o senso de República. Opor-se é lançar-se contra turbilhões em consenso. É negar linchamentos, mesmo aqueles que politicamente oportunos.

Opor-se é renegar a submissão e insurgir-se contra a continuidade e, ainda, aceitar o revezamento
Neste sentido, ser oposição é manter a integridade mesmo diante da evidente adulteração das regras do jogo. Ser o poder constituído deveria significar resistir às demandas do partido. Não só aquelas que não foram escolhidas pelos que votam como as geradas pelas injustiças e abusos. Especialmente quando estas últimas forem uma usurpação justificada pela autoridade adquirida pela votação.

O mais grave dos delitos, acobertados pelo sufrágio, é colocar em execução planos para os quais não se foi eleito. Não vale evocar a bula dos calhamaços rotulados de “programa partidário”, a que na vida prática ninguém dá a mínima, começando pelos próprios partidos.

Oposição serve para fazer a reparação e ampliar a distância que nos separa da unanimidade. Restaurar fé nos contrários é bloquear o culto à personalidade. Uma oposição lúcida acredita que é distinta e distante dos que habitam a outra margem, ainda que nunca eticamente superiores a priori.

Discrepar significa estar apartado da cooptação. É insinuar-se na luta enquanto a maioria se calou ou foi amordaçada. É defender o dever sem escudar-se no argumento duvidosamente legalista dos direitos adquiridos.

Oposição e poder deveriam respeitar quem confiou no voto, assim como desconfiar das aclamações ideológicas. Cabe à oposição o encargo de reunir forças daqueles que não transigem com totalitários. Uma oposição não aceita impunidade e repudia radicalmente toda forma de indução à violência: do discurso aos incêndios.

O sistema binário — poder x oposição — deveria aceitar o desafio que constitui a essência da democracia: garantir segurança e liberdade de expressão como prioridades absolutas. À oposição cabe fazer cisma, separar-se no voto e revidar, na medida da necessidade. Além de impedir o revanchismo e calcular como mostrar ao senso comum cada ponto cego dos óculos viciados no poder.

Por isso tudo, ser oposição ou governo exige mais responsabilidade, mais atenção e densidade do que escalar palanques a cada ciclo eleitoral.

Fica evidente: neste momento, infelizmente, não contamos com governo ou oposição.

Fonte: Pletz

quarta-feira, janeiro 29, 2014

O Holocausto, em uma e em 6 milhões de palavras.







por Paulo Rosenbaum






Há 70 anos, chegava ao fim uma das batalhas mais dramáticas da Segunda Guerra. Após 900 dias de confronto, as tropas soviéticas derrotavam os nazistas e recuperavam o controle sobre a cidade de Leningrado.

A Organização das Nações Unidas declarou em 2005 o dia 27 de janeiro como o dia internacional em memória das vítimas do Holocausto. Dia 27 foi a data da libertação dos prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz. Será que houve algum exagero? Por que aquilo que já foi descrito como o “maior drama da história ocidental” deve estar sempre em pauta? Por que não passamos a borracha e vamos adiante? Afinal já faz 69 anos! Desolado, as vezes sinto que não há cabimento dar ouvidos a quem não não quer aprender com a história. Como alguém já escreveu, é mais do que evidente que vivemos uma era com déficit de alunos.

Pois recentemente, numa discussão via web deparei com argumentos revisionistas clássicos na boca de usuários ou muito ingênuos ou muito mal intencionados. Lá, dizia-se (sic) “que eles (a senhora tinha um sogro que pertenceu à SS) foram tão vítimas quanto os que sofreram” (sic) além do desfile de chavões como “esqueçamos as versões que lemos e procuraremos nos informar melhor, já que a história é sempre escrita pelos vencedores” (sic), diante dos quais, alguém como eu, neto de vítimas do nacional-socialismo alemão, só teria duas alternativas civilizadas, reduzir-me ao silêncio, fazer uma denúncia ou promover uma serena discussão sobre a natureza do absurdo.


Como sou um ser verbal não sereno e as denúncias todas caem no abismo comum das atrocidades substituídas por decurso de prazo, resta promover um debate sobre o absurdo da condição humana. Imaginei a história contada pelos derrotados. E os nazistas teriam muito a dizer? Um resumo poderia ser o seguinte: Um dia tudo será retificado. Não só não fomos os carrascos voluntários do  Führer como fomos injustiçados violentamente pelas potencias que nos ocuparam. Não só não esqueceremos da humilhação que sofremos em Versalhes como sempre soubemos o plano dos aliados. Na verdade, tudo não passou de uma conspiração da mídia internacional contra o povo alemão já que a doutrina de Hitler se não exatamente pacifista, usava a beligerância na justa medida contra povos que não aceitavam as evidencias científicas de que algumas raças devem prevalecer sobre outras”


Poderia imaginar muito mais, mas fiquemos com fatos. Há alguns anos, durante em encontro de especialistas na Alemanha, um professor de história da medicina me respondeu categoricamente quando lhe fiz uma pergunta. Minha dúvida: como era a educação nas escolas contemporâneas alemãs sobre o período nazista. Além de um momentâneo mal estar o catedrático, muito sincero, me disse: ‘”Colega, sabe de uma coisa? Acho que é excessiva. Não aguento mais meus filhos tendo aulas sobre o assunto!” . Na hora não o contestei — pelo que sinto e pelo material que circula pela web, fica-se cada vez mais convicto da obrigatoriedade de explicitar o que significou o holocausto e a política nazista para as minorias — mas me limitei a anotar sua cara contrariada, mais ou mesma que devo ter deixado escapar. O mal estar estava gerado.

Pois no último dia deste colóquio este mesmo gentil professor me levou a uma cidade vinícola, região histórica não bombardeada pelos aliados, a cerca de 40 kms de Stuttgart. Pois lá ele me chamou de lado para me que talvez estivesse enganado em nossa pequena “não discussão” do dia anterior. Curioso, perguntei o que o tinha feito mudar de ideia. Ele me conduziu até uma ponte. No final, havia uma placa. Ele apontou o dedo e esboçou uma tradução, a qual relato o teor aproximado: “Nunca esquerecemos dos nossos heróis, ainda sem liberdade em prisões estrangeiras”.

A data da placa? 1959.

O mais comum é que a memória das tragédias permaneça subestimada, por isso mesmo a amnésia é um amanhã de erros persistentes. Lembrar está para além das homenagens: é trazer à vida e fazer reviver quem foi calado pelo arbítrio, a tirania e o descaso dos outros.

Fonte: Pletz

terça-feira, dezembro 03, 2013

Manual do ódio à classe média.













por Paulo Rosenbaum – 

Vários mandatários nacionais têm reclamado das demandas e exigências de uma classe social que só faz crescer no país.

Em rara unanimidade políticos, legisladores, intelectuais, sindicatos e fiscais tomaram a decisão de esmagar este inimigo crítico que ousa levantar a voz contra o Estado. Quem mandou ficarem insatisfeitos com a mão que anestesia? Quem foi que disse que uma classe alçada do nada por governos tão benévolos — que dispuseram de dinheiro de contribuintes para assegurar uma renda mínima para todos — tem o direito de sair berrando que só aquilo não basta? Já se viu pedintes rechaçar o níquel depositado nos chapéus? Querem agora cuspir no prato que comeram? Onde foi que desaprenderam com tanta rapidez o respeito? Quem fez a cabeça dessa gente que agora não se curva para ser ungida com as migalhas possíveis?

A análise seria dura demais, extensa demais e explícita demais para que alguém tivesse a paciência de ler. Mas uma síntese pode ser concluída antes do próximo clique do mouse. A razão pela qual os governantes não suportam a crítica é a mesma pela qual têm insônia e pesadelos com uma imprensa livre e combativa e gente comum que começou a ajuntar os pedaços do quebra-cabeças do poder

Reclame dos impostos e os coletores te perseguem, fale das cotas raciais e ouvirás de tudo (menos que as quotas deveriam ser sociais, antes que étnico-raciais). Ouse mencionar a diminuição da idade penal e verá a esquerda-mordaça ceifar tua língua. Agora explique calmamente que você não entende para onde vão suas contribuições e que só queria que a educação e a saúde não fossem tratadas a quatro anos ou sob grandes reservas de fósseis decompostos.

Faça com que eles se fixem nas grandes construções, em meganegócios que o pais atrai e despreze as manchetes que tragam dúvidas sobre a seriedade econômica da nação. Lembre-o sempre: somos a sétima economia do mundo. Repita como mantra que o país estourou. Se alguém falar mal do teu partido diga que ele não entendeu o espírito da coisa. E se o fulano quiser insinuar que está tudo mal feito encerre a discussão propondo uma cerveja num lugar mais tranquilo. Use outra estratégia com jornalistas cricas que aporrinham todo mundo com lamúrias: mande ele sair do pais e buscar lugar melhor.

E se te contestar com a ladainha de que “quer melhorar este aqui e não sai daqui nem a pau” cogite dar um gelo, constranja-o em público. Se falhar, ameace com coisa pior para ele saber com quem está falando. Por um tempo vocês ficarão estremecidos. Assimile. Tudo passa, e assim que reencontrá-lo finja que nunca haviam discutido antes. Pode ser que você não o convença de vez, mas sempre que o ódio é plantado a semente pode germinar e vingar lá adiante.

O que você não deveria aceitar em hipótese nenhuma é que ele faça troça das campanhas político-partidária. Essa classe média é o seguinte! Mas vamos lá: se te disser que todos falam a mesma coisa diga que ele é surdo, se o sujeito reclamar que todo mundo se locupleta na vida pública rebata com o infalível “isso é assim no mundo todo”. Sim, esse pessoal é difícil mesmo. Às vezes não entende a lógica do socialismo para todos, menos alguns. Ignore.

Tente mostrar que as coisas seriam muito mais fáceis se houvesse só um partido. Ele vai vir com o discurso de “pluralidade”. Aqui chegou a hora de negar. Negue tudo. Insista, e explique que absolutamente não é verdade que não há liberdade de expressão em ditaduras centro- americanas. Tente dizer tudo com parcimônia e máxima convicção. Sem forçar, lógico. O defeito que ele enxerga é a grande solução: seguir modelos onde há igualdade sem liberdade. Só o burguês não entende isso.

Faça um gesto com a mão e indique que a maioria das campanhas contra Estados totalitários que tratam bem seus povos não passa de difamação plantada pelos grandes capitalistas. Batata. Ele virá então com aquele discurso de “veja o que acontece com a Venezuela”, aí você dá um basta e afirme calmamente e sem elevar o tom de voz que aquele é um pais do futuro, assim como já foi o nosso.

Fonte: Pletz

segunda-feira, agosto 12, 2013

Aposentem os Espiões.











por Paulo Rosenbaum – 
  


Além da notoriedade, que outras características pessoas famosas precisam ter para merecer nossa veneração? Nenhuma. Basta que alguém lhes siga, compartilhe aos milhões, e sejam citados na mídia milhares ou centenas de milhares de vezes.

Pois é esse combustível que, paradoxalmente, leva à abulia crônica na qual nos metemos todos. Aquela que nem os mais poderosos psicofármacos são capazes de corrigir, já que a correção demanda elevação do discernimento, não sua eliminação.

Mas há sim uma função social na adoração das celebridades: contingenciar a imobilidade psicológica das massas. Por aqui, com a mobilidade social provisoriamente assegurada, será preciso lembrar que mais recursos financeiros garantem apenas acúmulo de bens, não patrimônio cultural.

Fotografado com beldades em sua banheira de ouro puro, uma destas celebridades internacionais do mundo musical recém explicou: o negócio é fazer com que acreditem que “eles sou eu”.

Parece que funciona. Variações de cultura? Maia, o mundo da ilusão, é, para a cultura hindu, o próprio equívoco. Mas para a nossa serve bem. Para quem quer popularidade a todo preço é uma forma de fidelizar a clientela.

É óbvio que quanto mais se expõe uma personalidade pública, menos privacidade terá. Mas é esse o negócio. Isso é vendido pela indústria da mídia como vantagem. E o que isso tem a ver com espiões? O enorme aparato de escutas, monitoramento e repressão que foi montado a fim de deixar a vida privada desnuda, tem a missão colateral de acobertar a esfera pública.

É assim que a fórmula se fecha: transparência privada/opacidade pública.

Vêm bem a calhar a polêmica sobre o vai-não-vai de Snowden. Não é porque estamos sob holofotes que ameaçam a vida privada que precisamos eleger espiões profissionais e delatores como grandes defensores das liberdades civis.

Há uma avaliação errônea, sobretudo precoce, ao apontá-los como heróis. Repete-se a ingênua celebrização de Assange,– que se recusa a responder aos processos de agressão sexual na Suécia — e agora se encontra sob a proteção do notório perseguidor de jornalistas equatoriano. O resultado final é que, ironicamente, tanto Snowden como Assange devem se tornar popstars sem a menor chance de voltar a usufruir privacidade. E quem foi que disse que é isso que desejam com a perspectiva de publicar best sellers.

Antes de se tornar um business, a fama vinha junto com a maldição da exposição, do narcisismo, do hipnotismo de espelhos. Para em nossos dias quem precisa estar sempre em evidencia serve tanto o escândalo como o boato.

O marketing político não apenas usa, conta com fatos diversionistas para obnubilar eventos mais sérios. Claro que, no caso de Snowden o que ajudou a propagar a indignação mundial não foi só a invasão das privacidades e a deplorável pressão sobre o avião presidencial boliviano. O motor da onda de espanto pelas injustificáveis violações que todos os adultos do mundo occidental estavam cansados de saber, só pode ser explicado pelo gana antinorteamericana, uma das grandes religiões contemporâneas.

Espiões arrependidos são perigosos para todos e costumam ser mais comprometidos que seus mandantes.

Confirmando o entendimento pouco criterioso deste tópico, o mais comum é acusar a imprensa de golpista e tendenciosa. Se é esse o caso, vamos lembrar da contrapartida, há também uma imprensa chapa branca e acrítica. É preferível acreditar que nada seja tão preto no branco. A tarefa de formar a opinião pública é simplesmente supragovernamental e transpartidaria, portanto incompatível com adulação e subserviência ao poder. A imprensa precisa se concentrar em exercer seu insubstituível papel social: informar e opinar criticamente.

Pró ou contra, o foco essencial deve ser restabelecer a crítica. A crítica que o poder não se faz. A crítica que a oposição não pode fazer. Traduzir as vozes que as ruas exprimem hoje com os protestos.

Por isso seria de grande importância examinar o culto à personalidade. Vale para as artes e para a política. Que tal começar a pensar quem são os que ganham com a abolição da crítica e da análise? Definitivamente, calar a boca não é mais uma opção.

terça-feira, julho 16, 2013

Oposição Substituta.



Oposição Substituta.

por Paulo Rosenbaum

Imagem: oliveiradimas.blogspot.com





No pronunciamento todos botavam fé. Nunca as palavras foram tão importantes. Como dizia um muro de Paris em 1968: chega de atos, queremos palavras. É isso. Até os muros falam quando há vida nas ruas.

Isso significa que havia uma chance de reconciliação. O poder poderia se reinventar e, a depender do encaixe e do discurso, esclarecer todos, a maioria, ou uns poucos. As 21hs, fala sério, era para restabelecer o diálogo – não cooptar com concessões de linhas de crédito, propor reformas oportunistas, ou medidas de escopo e alcance paliativos. Aí mora o ilegítimo. Falou o que lhe mandaram. E quem manda? Quem assopra a brasa lá dentro? Quem sabota os esforços para aprender a pilotar durante o voo em apuros? Ou alguém duvidava do despreparo político? Há enorme lastro de dúvidas, mas é certo que as ondas embarcam de outra maré. Estão lá dentro, de molho, na agua estagnada.

O ministros já fizeram sua lista de acusados, só faltou o veredito. Apedrejaram a oposição, a burguesia, jornalistas, a fração belga da Belindia, os sem representação, uma minoria. E o que seria da democracia sem a voz das minorias? Daí ousaram pular para imputações menores, num varejo pueril e que reforça o diagnóstico do clima da capital: cinismo institucional pleno. O poder é, neste momento, a reação em seu pior momento. Aquele instante, quando se está saindo das cordas, e como barata tonta distribui ganchos no ar.

Isso para um movimento mambembe, que não pretendia ser revolucionário. Lembram-se da predição do acadêmico? Faz pouco tempo era para ser “o fim da história”. Mas ela é persistente. Nas ruas, apenas a vocalização do grito parado, aquele que precisava sumir da garganta para limpar o ar de tanta maledicência. A faxina do coro era espiritual. As pessoas comuns fizeram as vezes da oposição que não cumpriu seu papel político. E apesar do ultraje dos punguistas e radicais, fizeram-se ouvir.

Ainda há pólvora no ar e o mal estar subsiste. Quando se erra a origem o diagnóstico está condenado e o prognóstico permanece aberto. De forma alguma a fonte das desavenças vem de onde está o fogo. Ela se propaga pelo outro lado. Eis que a fumaça original estava lá dentro, no interior do palácio. É que quando se solta o bicho ninguém pode garantir que ele não se instalará na sala.

Foi só isso. Erro de cálculo. A chave das jaulas foi operada por quem não sabia o segredo. Querem nomes? O que temos é agitação inominável, por isso ficamos sem palavras.


Fonte: Pletz

sexta-feira, junho 21, 2013

As faces do movimento nas ruas.










As faces do movimento nas ruas.

por Paulo Rosenbaum  



Punks, tribos sem vínculos políticos, viciados, trabalhadores e moradores de rua foram personagens dos protestos.

O maior inimigo desta vitória não foi ainda identificado. Ele anda no esconderijo sutil, lá, onde sabe que é impossível ser defenestrado. Ficou a espreita por uma geração e meia. Ele não só se articulou para trazer a passividade excessiva, como, impedir que qualquer um descobrisse sua missão central. Preferiu ficar imerso na sombra, o lado escuro de todo acerto. Torcia quieto, não queria que nada atrapalhasse a hibernação coletiva.

A cara deste monstro inominável bem que poderia ser encontrada naqueles gibis velhos. Deveríamos procurá-lo nos antigos romances. Em meio aos personagens sombrios. Alguns admitem terem sentido sua presença em becos sem um pingo de esperança. Ele esteve nas piores guerras, nos massacres sucessivos. Dizem que vigia e estimula as ofensas que cometemos uns contra os outros. Viveu em toda opressão que exercemos sobre aqueles que não podem se defender. Sua última aparição pública precedeu a devastação e depois comandou as sessões de tortura contra a natureza.

Essa aberração nunca esteve longe. Sempre aqui, bem ao lado. Low profile, foi criado em cada casa. Alimentado em cada escola. Mantido em todos os postos de trabalho, em qualquer reunião, nos passeios, nos mercados e na via pública. O silêncio. Exato, é dele que falamos. Ádito, omissão, interdição do diálogo, apuridar-se. Há terapêutica? Mas é claro, diálogo, seu nome é diálogo! Também conhecido por interlocução, conversação, debate, parouvelar, cavaquear, discretear.

Mas soube-se que o medicamento, apesar de ser instrumento imprescindível para a democracia, passou gerações inteiras sem ser treinado ou ensinado. Por aqui ninguém compreendeu sua importância. Sua força permanece ignota. Cult para as ciências humanas, só foi isolado para estudo em profundidade uma única vez, em maio de 1968. Enigmático, ninguém das ciências naturais ousou mensura-lo em joules até que escapou de uma prisão de segurança máxima.

As vozes que agora se ouvem não querem só gritar. Preferem audiência atenta, intensa, prolífica. Não podem mesmo ficar impassíveis quando sentem a farsa. E quem atua no poder não pode fingir. Não pode atuar para fazer parecer que não é com ela. Quem governa não pode dissimular. Ignorar quem fala é como cultivar o abandono. Ainda que não saibam perfeitamente disso, a multidão exige mais ser escutada que obter respostas práticas pelas quais ela luta. Não há culpa e sequer culpados isoladamente. Precisamos consentir: o mal já estava sendo feito há muito. Feito e consumado. Eu mesmo demorei para perceber que não era só o caso de consumidores enfurecidos. Era isso também, mas era mais.

Somos todos, gerações que não sabem conversar. Para abreviar, pode-se dizer que perdemos o hábito. O sucesso dos meios intermediários de comunicação é prova disso. Dependemos de filtros, anteparos, telas e fios. Repararam? Como a TV fala por nós. Como forjamos a cultura inútil que, ganhando vida própria, pode perdurar à nossa revelia? E também o vício nos computadores, as redes sociais, os telefones. Lemos menos. Ouvimos menos. A prosa se encolheu. E quem nos ensinou a falar? Quem explicou que negociar é o caminho para a compreensão? Que o sim pode invadir o não para os devidos acordos. Quem em nossos dias sabe aceitar não? Quem tolera que não se façam nossas vontades?

A ditadura passou sobre todos nós com tratores, ocluiu as bocas dessas crianças. Quem a sucedeu repetiu a fórmula: fez exatamente a mesma coisa. E de paternalismo em paternalismo, as crianças desaprenderam o que dizer, como falar, o jeito de reivindicar.

Para a maioria foi emocionante vê-las ontem passando com flores, improvisos e cartazes rabiscados. Estão tentando reaprender uma arte caçada não só pelos Atos Institucionais de 1964. Readquirir a linguagem que lhes foi roubada por todos estes anos sem liberdade, com liberdade assistida, com o falso cuidado de líderes inúteis. Fomos governados por tutores que, no fundo, não queriam ninguém fora das jaulas, da ignorância, do cabresto.

Por isso mesmo escolher a liberdade é cada vez mais difícil. E mantê-la, o segredo da paz. Por isso para os velhos quase dói testemunhar como eles todos ainda conservam o ímpeto dos que acreditam, o tino da aventura, o dom de se desdobrar pelas utopias, deslumbrar-se pelo risco, levantar pela fome de justiça adiada, erguer-se do jejum prolongado.

Ao mesmo tempo, a fragilidade! Todos os vimos. Aqueles que só queriam namorar, os que precisavam gritar, os ordeiros, os deixa-disso, comandantes, pacifistas, ladrões, pilantras e sacanas. Os justos sempre se espantam com malandros otários. Mas eles assumiram, andariam lado a lado. Agora dá para ver melhor que essa mesma fusão incauta, que não fixa nada, é ao mesmo tempo a principal fonte de energia: é dali que descolam suas forças. É isso que é, e, por isso, todos são traídos pelas análises. Um grande paradoxo. No pueril a vitalidade é inata, e seu poder emana de sua enorme vulnerabilidade.

O que está acontecendo é indefinível, novo, mais uma destas complexidades sem paralelo. Pode-se sentir que ainda têm nos olhos a esperança e a força, e usam as duas para pressionar o futuro. Eles não foram introduzidos à tolerância como forma de entendimento. Por isso, surpreende vê-los andando calmamente, sem nenhum destino alvo, como se a rua fosse parte de uma rota indistinta. Sabem o que os espera? Não importa. Vão em frente, e não tem medo nem inveja da maturidade. Pelo contrário, fazem questão de ignorá-la. Por isso, revoluções só devem ser iniciadas por gente abaixo dos vinte. E onde ficamos nós? Nós somos os velhos. Aqueles que por sua vez também desaprenderam a arte da conversação. Ficamos duros, insensíveis e mentirosos. Hábeis na propaganda, safos na enrolação e no jogo de protelação. Os jovens não saberiam como nos contestar. Por isso — e eles sabem disso — não somos mesmo confiáveis.

Precisamos assumir coletivamente: muito de tudo isso veio desta mudez, um silêncio que durava duas ou mais gerações. A solução nunca foi censura, mas mais expressão. A saída nunca foi a intolerância e é vital que a resistência não seja violenta. Não fomos convidados e ainda estamos separados do mar de vozes, onde a península é apenas um esboço.

Não é por isso que os amamos menos.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

O mundo não termina, o mundo nem começou.





por Paulo Rosenbaum (*)




Se o fim do ano é um registro que separa o passado do futuro, onde andará o presente? Como responde uma criança ansiosa pelo futuro quando os pais lhe indagam por que ela não aproveita o presente em vez de desejar o amanhã? Em algum momento essa resposta já foi dada: — É que o presente dura tão pouco!

Ela pode ter razão. O que está, já foi. O que virá nem veremos, ou teremos que imaginar e apostar. O passado apenas parece ser um registro mais fiel, sobretudo mais memorizável. Mas lembramos com seletividade, como nos avisam os biólogos. Temos filtros bem instalados. Somos leitores cheios de ismos, e alguém nos doutrinou na religião, na filosofia, na ideologia política. E o que vimos este ano? Um julgamento que, apesar das pernadas, da gritaria, das falsas analogias, mudou o rumo das coisas. Pela primeira vez na história do pais um embate nos trouxe para bem perto das entranhas do poder. Mais de 150 advogados, intermináveis sessões da Corte e a excessiva espetacularização.

Era o palco completo. As penas e a punição importam bem menos do que o simbolismo. Vislumbrou-se ali que, mesmo à revelia, “os mais iguais que os outros” podem estar em pé de igualdade com qualquer um. Que os poderosos são passíveis de penalidades, que ninguém é invulnerável para sempre, que existe uma organização da sociedade civil, que as instituições funcionaram, que há muito por fazer para sairmos da barbárie em que se transformou o manejo da coisa pública. E o mais importante: há mais diversidade política do que sonham nossas filosofias.

Sim, as mesmas guerras. Sim, a velha rotina de massacres non sense. As mesmíssimas cidades sem segurança pública. Os impostos tirados e distribuídos na derrama. Gente que foi embora e gente que chegou. A mesma falta de estadistas, a mesma lenga-lenga dos malandros otários. O mundo é assim, mas, para nossa sorte, sua dinâmica está longe de ser decifrada. Essa é a parte nobre da ignorância sobre como funciona a espantosa Gea. A bola azul rodopia no espaço e não quer nem saber no que vai dar. E isso, senhores, notável exemplo para ser forçado a viver o aqui e agora. Só assim a imanência pode fazer parte da transcendência.

Mas a retrospectiva do período também mostrou que times que sofrem podem se regenerar, que as partículas podem ser aceleradas sem que o mundo rache, que a ciência poderá sair do beco obscuro descobrindo que o segredo de muitas curas está no próprio organismo e que há, felizmente, muito mais saúde que doença. Mas este período mostrou, antes de tudo, falta muito mais do imaginamos para o fim. O mundo não termina, o mundo nem começou.

Nem os esportes nem a atividade profissional nem a vida competitiva podem fazer sentido. E se invertêssemos tudo e valorizássemos mais o empate? Prezar o equilíbrio das forças, ao invés de aplaudir o vencedor e vaiar o derrotado? Nem pensar. Não é espantoso e não se pode culpar ninguém. Tudo isso vem de berço, a base de nossa cultuada educação ocidental. Pode parecer zen demais, mas, e se os governos tivessem a audácia de ser impessoais? De ter a cara de todos e não só a de quem recebe mais votos? E se os políticos formassem coalizações onde todos se fizessem representar e tivessem voz? E se a diversidade fosse não só radicalmente respeitada como tomada como modelo de convívio social? E se as prisões não fossem átrios do submundo, mas lugares para um apartamento social com finalidade reconstitutiva?

Se as escolas não discriminassem, a educação poderia ser esperança no presente e não no futuro do pretérito. Querer vencer, ser o melhor, o primeiro, o mais acessado, o mais bem sucedido e o mais votado não é salvação, é a raiz da patologia. Não, senhor, ninguém precisa se converter à fracassomania, apenas entender que, exauridos, estamos cansados de repetir as mesmas manchetes por meses a fio. Deve haver algum lugar onde a utopia flua fácil e nós, todos nós, possamos ter dias melhores.

Esse lugar já existe, se chama presente mais que perfeito.

(*)Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)
Fonte:Pletz


domingo, dezembro 02, 2012

Holocausto Subliminar.





por Paulo Rosenbaum 

Logotipo de página da Federação Israelita do Paraná (feipr.org.br)


“O oráculo decreta o destino, o filósofo torce contra si mesmo, esperando que suas previsões fracassem”.

Em meio aos assuntos que dominaram a mídia nas últimas semanas está a aberta e escandalosa demonização de Israel: um eufemismo covarde para incluir judeus sem mencioná-los. Trata-se de um claro sinal de que há algo sistêmico em curso. A ONU fez a partilha da ex-colônia britânica e outorgou a dois povos, dois Estados. Como se trata de uma das regiões que mais mudou de mãos na história, não se deve olvidar o pesado passado colonial, que trai a confiança mútua entre as partes, ambas responsáveis pelo desperdício de preciosas possibilidades de acordo. A questão Palestina, portanto, é apenas a tecla da vez. Para alimentar preconceitos e ideologias, como Sartre escreveu, sempre se pode inventar algum álibi.

Temos que encarar o recente cessar fogo como um epílogo de uma guerra bem maior, cujo enredo está entrelaçado com a crise econômica mundial, a explosão de violência e o holocausto subliminar.

Aos poucos, abandona-se, de lado a lado, a ênfase na solução por dois Estados. Na auto-armadilha bem montada, os bem pensantes criaram impasses para si mesmos: como exorcizar Israel e defender o Hamas ou o Hezbollah sem conceder espaço aos argumentos fundamentalistas? Há muito tempo, na palestina do sul, a luta do califado da retidão já não é só contra o Estado Hebreu. Há, portanto, uma espécie de estatuto moral duplo. Se, de um lado, há consenso que após o 11 de setembro a islamofobia seja inaceitável, de outro, a aversão aos judeus tem sido “naturalizada”, normatizada e regulamentada. A banalização é o primeiro passo ao conformismo. Basta espiar as redes sociais, as manchetes e o escandaloso aumento de ataques “espontâneos” contra judeus na Europa. Da construção lingüística, às imagens super exploradas, Israel vem figurando nos textos e nas charges como agressor, belicoso, hostil, quase uma entidade macabra. São conclamações ao ódio, retocadas como análise política imparcial. Não importa como se mova, para onde e com quem se mova estará, a priori, errado.

Uma campanha, sim, dessas publicitárias, que conta até com o apoio de nomes de peso, como intelectuais americanos, europeus e latino americanos. Eles emprestaram seus nomes a uma causa e compraram e foram comprados pela ideia de que um Estado Moderno, democrático, com população de 7.9 milhão de pessoas, multiétnico, incluindo quase 1.6 milhões de árabes-israelenses, pode ter seu direito à existência cassado. Não adianta espernear, evocar paranoia conspiratória ou bufar! É isso mesmo: estamos diante de um tentame de deslegitimização do Estado de Israel. Os doutores chegaram à conclusão que ele não merece mais respirar.

Como eutanásia e pena de morte são coisas sérias, caberia entender como alcançaram, depois de meia dúzia de cervejas, este brilhante veredicto. Só o inverno da razão explica como mentes iluminadas concebem execrar um Estado e como isso passou a ser não só aceitável, como politicamente correto.

Por aqui, o governador do Rio Grande do Sul subsidiará um fórum para discutir a questão palestina. É mais que sintomático que não tenham convidado ninguém ligado à Israel. Todos fazem parte do time das convicções absolutas, das ideias acabadas, cabeças formatadinhas. E por que dariam voz à outra versão dos fatos? Mais um palanque para insuflar a demonização do outro lado. Aberrações que o centralismo partidário e o aparelhamento do Estado brasileiro tornaram possível. A proposta viola explicitamente os termos da constituição federal, que não só reconhece o direito à existência de Israel e da criação de um estado Palestino, como proíbe a incitação ao ódio religioso, étnico e racial. E, para satisfação dos que prezam guerra, tentam minar o convívio impar e pacífico que árabes e judeus têm por aqui. A esquerda senil, incluindo a ideológica diplomacia brasileira, vai sendo movida pelo dominante e pré-escolar sentimento de antiamericanismo.

Mais um bom exemplo de como monólogos podem ser travestidos de diálogos numa suposta democracia.

Sob a cegueira antissionista o mundo parece solidário com organizações que, enquanto escolhem deliberadamente civis como alvos, vestem gravatas e negociam com a diplomacia internacional. São neo-terroristas. Quem os apóia, incluindo os senhores catedráticos, deveria rezar à noite para que seus pedidos jamais sejam atendidos. O risco é acordar com pesadelos lembrando Foucault defendendo o aitolá Khoumeini. Diante desse irrefletido apoio o que será do Oriente Médio com o eventual triunfo do fundamentalismo? O quem nos espera com a aplicação literal das leis religiosas ao modo talibã? Como ficarão as democracias, os tribunais, os direitos das mulheres, das minorias, dos muçulmanos moderados, das comunidades cristãs? Como assistiremos a conversão à espada dos “infiéis” das outras etnias?

Na verdade, o que hoje incomoda nos judeus contemporâneos é não mais poder confundi-los com a aura de povo vitimizado pela história, os nômades apátridas, eternamente perseguidos e oprimidos. Agora há um país cujo vigor é, em si, a própria mensagem do “nunca mais”. O que hoje estimula o atavismo antissemita enraizado pelo mundo, é que diferentemente de todos os períodos nos últimos dois milênios, Israel existe e resiste militarmente a sua imediata eliminação, como propõem explicitamente em suas “cartas constitucionais” o regime iraniano e todas suas filiais, Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica e Al Quaeda.

Sim, tudo mudou e pouco teve a ver com a primavera árabe. Se antes o acordo era varrer os párias que atrapalhavam o desenvolvimento europeu, agora o defeito intolerável nos judeus, simbolizados pelo Estado de Israel, é sua força, e, a missão, destruí-los primeiro simbolicamente, depois sua nação e, se possível, com o aval da indiferença do mundo, levar a cabo a solução final.

Não vai acontecer. O mais provável é que depois do inverno da razão, o tempo mude para dias mais amenos, com trovoadas e pancadas ocasionais, num novíssimo e refrescante verão do mundo.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”.


domingo, novembro 25, 2012

A responsabilidade nasce dos sonhos.





por Paulo Rosenbaum (*)


Por que um dos julgamentos mais importantes da história contemporânea aconteceu em Nuremberg? E por que ao processo que envolveu os genocidas nazis foi selado sob o nome de “tribunal de exceção”?

A cidade era uma escolha simbólica, e os fatos, sem paralelo na história contemporânea. Em 1935, naquele histórico sítio alemão, foram editadas as leis raciais e de “proteção do sangue” que inauguraram um dos períodos de sombra da humanidade. Sancionadas pelo chanceler eleito e pelos ministros do interior e da justiça a promulgação daquela legislação tornou-se prova de que a manipulação da razão pode tomar destinos equivocadíssimos, mesmo na democracia. Se esta razão vier escoltada por alguma ideologia então, é mesmo para tremer e esperar pelo pior, sempre! Dito e feito!

Se índios, negros e outras etnias não tem alma porque os respeitaríamos rezava o consenso dos juízes da Inquisição. Por que povos inferiores devem ter os mesmos direitos que brancos europeus civilizados, reafirmavam os higienistas. Medições de crânios, a chamada “craniometria” dos cientistas que trabalharam pela e para a ideologia nazista apresentaram suas “evidencias empíricas”: o encéfalo dos não arianos “era menos evoluído e tendia à degeneração”. Os arianos, “intrinsecamente superiores”, representavam a “raça pura, de ascendência sem vícios ou corrupção genética”.

Era o apogeu político da eugenia, uma doutrina que embora encontrasse raízes pré-existentes nas ciências naturais, tomou corpo e se fortaleceu graças à causa organizada pelo terceiro Reich. Foi assim que profissionais liberais especialmente médicos, pequenos comerciantes, o grande capital e professores universitários da Alemanha começaram a achar que poderiam acertar as contas com a humilhação decorrente do tratado de Versalhes e se safar da crise econômica com hiperinflação do final nos anos 20.

Finalmente, os juízes se prestaram ao papel e começaram a definir novas regras para a sociedade alemã: judeus, ciganos, homossexuais, negros, doentes mentais, mestiços – e alguém se lembrou de incluir gente politicamente desviada – mereciam tratamento especial. O cólume desta arquitetura, todos sabem, resultou no maior drama da história ocidental e, provavelmente, o mais sistemático e sem paralelo massacre da história recente.

A ideologia ariana forçou os cofres do Estado alemão a desembolsar milhões para divulgar e patrocinar a doutrina do Führer, e ali, muitos dizem, o berço da mentira como indústria e, portanto, do marketing político moderno. Centenas de milhões do opúsculo raivoso de Hitler circularam e não possuir um exemplar de “Mein Kampft” era tomado como séria ofensa ao Estado. A palavra nazista originária de nazional sozialism – literalmente nacional socialista, diferentemente de matizes à direita e à esquerda do fascismo, comporta uma designação precisa. Trata-se de um termo em franca vulgarização, que tem evocado banalmente o mal genérico e universal. A linguagem não costuma trair. Hoje em dia, se bobear, qualquer porteiro mal educado, jornalista independente ou sujeito crítico corre o risco.

Quando o Estado, centralizado em poucas cabeças, obriga todos os outros a segui-las, e há obediência civil, está aberta uma trilha ao abismo. Na lista de aberrações, temos o livro vermelho de Mao, o livro verde de Khadafi, a obra marrom de Pol Pot, fora as outras tonalidades de muitos outros. O mínimo múltiplo comum é que todos eles se auto-intitulam salvadores; sim, claro, de si mesmos. Pois nascem, crescem e morrem com um só objetivo, narcísico, o culto à própria personalidade.

Pulo para o nada sóbrio relatório do diretório do partido governista acusando o STF de “tribunal de exceção” e comparando ambos, processo e julgamento, aos procedimentos nazistas. Dado o respaldo popular e apoio maciço aos juízes deixaram para emitir a nota depois das eleições. Professores universitários e jornalistas decanos emprestaram suas habilidades e estilos à causa, dando os retoques finais ao documento. É aqui que nos perguntamos se a isso chamam honestidade intelectual?

Bastou para a enxurrada de pseudo-artigos na web, e na grande, média e minúscula imprensa, classificando o julgamento da ação penal 470, “erro jurídico rotundo”. Depois espalharam rumores e insinuações gravíssimas contra a corte jurídica e o procurador geral da República. Além das calúnias, exageros retóricos e grotesca falta de acurácia terminológica esses dirigentes partidários ficaram devendo às novas gerações uma versão verossímil dos fatos.

Poderiam ter afirmado, por exemplo, que as penas foram desproporcionais, que as provas deveriam ser mais consistentes, e até esbravejar para discordar da decisão do tribunal. Aliás, ninguém duvidaria que fosse esse o papel do partido. Infelizmente, veio a imprecisão panfletária, a palavra de ordem, a conclamação das massas, o intransigente desrespeito à constituição. Já que uma virada humanista e um governo de coalização parecem alternativas impensáveis, o único e involuntário aspecto favorável da ação dos dirigentes do partido hegemônico talvez tenha sido acelerar sua decadência.

Os magnatas do poder podem estar se aposentando coletivamente. Que durmam bem e nem precisam mais mandar notícias. Não custa sonhar que nos novos postos de trabalho, gente mais crítica e mais disposta a ir além do sectarismo ranzinza, assuma responsabilidades e conceda nada além do que deveriam ser nossos direitos naturais: plena cidadania e direito à vida.

Viajei, sei que viajei! Mas, como escreveu o poeta irlandês Willian Butler Yeats, é nos sonhos que começa a responsabilidade.

(*)Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)
Fonte: Pletz


quarta-feira, novembro 21, 2012

Com olhos em Gaza.





por Paulo Rosenbaum(*)


Ahmadinejad e Kaled Meshaal, líder do grupo terrorista Hamas



O Ministério adverte: esse artigo não é recomendável para torcedores fanáticos nem para aqueles que insistem em ter razão a priori.

O que está acontecendo entre Israel e o Hamas, que ocupou a faixa de Gaza depois que as forças de defesa desocuparam aquela região, era o segundo mais previsível dos conflitos. O primeiro será a manobra derivacionista, conduzida sob o estímulo direto do Irã, parceiro de Assad nos massacres contra o povo sírio. Nos próximos dias, se tudo sair direitinho conforme planejado, o regime teocrático vai tentar reabrir novo front ao norte.

O que virá depois ninguém sabe. As superpotências e a ONU estão ocupadas demais com as bancarrotas financeiras nos seus quintais para bloquear a selvageria que acomete a região.

Mesmo assim, é preciso um pouco de suspensão de qualquer crase ideológica para colocar qualquer luz nos fatos recentes. Os palestinos da Cisjordânia, ligados ao Fatah, tem sido mais pragmáticos e, mesmo capengas, os acordos de Oslo ainda dão alguma sustentação a ideia de dois Estados, a única saída para o conflito. Ninguém pode dizer que não há uma vida tensa, porém vigora certa normalidade, e até prosperidade econômica. Na Palestina de cima há uma classe média, politizada e crítica, e um crescimento econômico de 8% ao ano. Nada mal para tempos de recessão mundial.

A convivência tácita entre os dois povos é uma realidade. Era essa a chance de diálogo que vem sendo desperdiçada há pelo menos uma década. Sempre será a paz fugidia, instável e permanentemente tensa, ainda assim paz.

Completamente diferente da situação da Palestina do Sul, dominada pelo Hamas, organização paramilitar islamofascista, que usa a população civil de Israel como alvo preferencial de mísseis destrutivos, falsamente artesanais, há alguns anos, seguidamente. Essas provocações, que obviamente não são só feitas com biribas inócuas, provocam pânico, destruição e morte entre a população civil do sul de Israel, acarretando uma semi-vida em bunkers para cerca de um milhão de pessoas. Exatamente a mesma população de Gaza, onde por sua vez, prevalece extrema pobreza, apesar de circular muito dinheiro. Lá, como no tráfico dos morros, o fluxo financeiro das doações é controlado com mão de ferro pelos aiatolás do Hamas. Esse controle permite sustentação política através da bem sucedida politica assistencialista, que tanto seduz aqueles que querem dominar as massas sem lhes conceder independência de opinião, liberdade de expressão e aquelas palavras horríveis, que provoca sinceros arrepios nos populistas do mundo: consciência crítica.

Apesar da esmagadora superioridade militar das Forças de Defesa israelenses, a tática de guerrilha islâmica dá certo por uma conjunção de dois fatores interdependentes: o medo crescente da população civil e o consequente apoio da população israelense aos governos que usam preferencialmente a linguagem militar dura: só retaliações permanentes protegem. O fato é que não protegem, e na infernal retroalimentação, agora o risco concreto é cair na velha armadilha e abrir novo front, desta vez por terra. O resultado já pode ser antecipado e bem antes da abertura das urnas funerárias: mais foguetes e mais baixas entre civis, dos dois lados.

O agravante agudo é o Egito, agora com a irmandade muçulmana no poder, adepta da prima-irmã da doutrina que inspirou o Hamas. Mas o grande tabuleiro oculto vem do xadrez pesado que o Irã faz para hostilizar o Estado Judaico através do expansionismo xiita e sua pan-influencia, que vai da Síria à faixa de Gaza, passando pelo Líbano com sua sucursal naquele país, o Hezbollah.

Há poucos dias, uma efeméride chamou-me a atenção um fato que desconhecia, no século V, um rei etíope puniu os judeus daquele país por ajudar muçulmanos. Sabíamos dos antecedentes de ajuda mútua na idade média: no século X o mesmo aconteceu com os muçulmanos, desta vez por abrigar e esconder judeus das garras da Inquisição. Ou seja, há precedentes históricos de solidariedade e paz entre estes povos. Isso para dizer que o conflito não é, nunca foi atávico. Atávico virou uma designação politica contemporânea para confirmar que não tem jeito, que devemos nos conformar com o inexorável.

Mas não só não devemos, como não podemos nos dar a este luxo!

O fato de termos chegado a um lugar onde aparentemente não há uma saída visível para ninguém, evidencia que, mais uma vez, a sociologia da ignorância entrou em ação para mostrar todos seus resultados pedagógicos. Nenhum dos lados é santo, mas a culpa está sempre aonde se concentram mais fanáticos.

Estamos em pleno fogo que decerto vai respingar no mundo, quando poderíamos ter, todos nós, evitado mais essa vergonhosa saraivada de mísseis estúpidos.

Não é a toa que precisamos pedir ajuda aos Céus, onde ainda há esperança de vida inteligente.

(*)Paulo Rosenbaum, é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”

sexta-feira, agosto 17, 2012

O IRÃ NÃO ESTÁ DORMINDO.


(Título original do artigo: Internacional Teocrática)
por Paulo Rosenbaum(*)


Acabaram-se as Olimpíadas mas a vibração continua fora dos campos e das raias olímpicas. O brasileiro – até as padarias tem deixado a tela acesa na TV Justiça – ainda espera pelo justo, e sem compreender a linguagem jurídica a conversa que se ouve nas ruas é “vamos ver no que isso vai dar”.

Mas hoje o mundo opera numa simultaneidade caótica. Sempre foi assim, a diferença é que a informação online nos obrigou à onisciência. Enquanto o mensalão é debatido, num canal de tevê paga pode-se assistir o documentário sobre quem são os atuais líderes do Irã. Imaginem, mas a realidade é pior do que parece. A estratégia persa para controlar a região é estarrecedora.

Explicitamente o regime dos aiatolás e sua guarda revolucionária traçaram planos onde mundo é o limite. Graças aos bons negócios que empresários europeus e de muitos outros países fazem no mercado negro o boicote internacional simplesmente não tem funcionado, faliu, conforme as câmeras da TV britânica provaram. O mercado central de Teerã repleto de mercadorias de última geração, dos americanos aos chineses. Plataformas e tecnologia para extração do petróleo foram compradas da China depois que os Estados Unidos e União Europeia se recusaram a vendê-las ao iranianos. Componentes para usinas atômicas estão chegando em dia, da Coreia do Norte e Rússia, sem prejuízos ao cronograma para obter a bomba nuclear.

A verdade é que o regime de Teerã se internacionalizou e é com essa ideologia que eles tem aumentado a presença em vários pontos do globo. Depois que G. W. Bush nos fez o favor de trocar o regime em Bagdá a “internacional teocrática” aportou com força total no Iraque e já desestabiliza países na África. A presença de assessores militares iranianos e agentes políticos dentro das fronteiras iraquianas é crescente. Nas palavras de um jornalista iraniano que preferiu o anonimato: “eles sempre consideraram o Iraque como parte do Irã, ainda sonham com o grande império persa”.

A recente prisão de agentes da guarda revolucionária iraniana em Aleppo e a troca de agrados verbais entre Damasco e Teerã, também são pistas importantes para rastrear as intenções dos sucessores de Khomeini. Os assessores militares iranianos se uniram às equipes de extermínio de Assad fornecendo armamentos e logística para a indústria do massacre na Síria. Teerã assegura casa e comida para o clã sírio se tudo der errado. A ONU e a comunidade internacional seguem expectadoras. De onde vêm todo este descaso com os consensos internacionais?

No front, a dobradinha AA, Assad-Ahmanejahd já tem pronto planos derivacionistas como provocar alguma reação norte-americana ou reativar os conflitos com Israel na fronteira ao norte para criar um foco mais sustentável enquanto finalizam o serviço genocida sobre o povo sírio. A planilha incluiria ataques contra alvos via Hezbolhah repassando o máximo de armamentos para a organização terrorista que há décadas constrói sistemas de bunkers e já conta com um expressivo arsenal subterrâneo de mísseis.

Ninguém é santo no tabuleiro explosivo dos jogos de poder, a diferença brutal é que quando Israel, EUA ou qualquer país democrático faz das suas, a imprensa livre – cada vez mais comprometida — tem um colossal alcance e assim exerce poder sobre a opinião publica interna e externa. Completamente diferente dos outros países no oriente médio, inexiste liberdade de expressão. Como tudo é filtrado – destarte passado como realidade — espalham-se ainda mais as fronteiras do rancor antissionista e antiamericano.

Como se não bastasse o apetite pelo jihadismo internacional, os aiatolás de longo alcance estão muito provavelmente por trás de recentes atentados terroristas com tendência a abrir filiais na América do Sul, notadamente na tríplice fronteira. Além do escandaloso e ainda impune atentando contra a AMIA em Buenos Aires, os países da tríplice aliança seguem fazendo vistas grossas a estas perigosas aproximações. Problema grave, especialmente para o Brasil, com a proximidade de dois eventos de relevância mundial.

Para completar suas metas o ditador iraniano vem usando as facilidades oferecida pelo companheiro da Venezuela e paga a conta com pesados investimentos em infra estrutura e campanhas eleitorais. Ninguém se espante se sob os auspícios de Hugo Chaves, e a conivência de Brasília, contarmos com o Irã como próximo convidado do Mercosul.

O que os roteiristas e assistentes esqueceram de prever no script é que a maioria não é corrompível, há exaurimento crescente pela sensação de já termos sido suficientemente manipulados e ninguém mais quer ser escravo da causa nem viver sob o cutelo de quem diz encarnar a divindade.

(*)Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com