sexta-feira, abril 11, 2008

BOLSA DITADURA





"Foi um impulso meu. Ele era tido como dedo-duro. Não fui investigar nem vou fazer pesquisa para livrar a barra dele. Não tenho arrependimento nenhum". A fala é de Hélio Jaguaribe, o Jaguar d'O Pasquim, novo premiado pelo bolsa ditadura,em entrevista à Revista Época; clique aqui .



O jaguar foi um dos algozes de Wilson Simonal, acusado injustamente pelos comunistóides da época de ser informante do SNI.

Aquela gentalha ultrapassada, que se considerava o último grama de sal do mar morto, hoje vive muito bem. Alguns, é bem verdade, já se foram para o inferno ou outro lugar qualquer; como o Henfil - outro que deitou o pau no Simonal - com as suas charges.


Aquela gente que reclamava tanto da Censura, acabou Patrulhando e calando o maior showman que o Brasil já teve: Wilson Simonal, um Pelé da musica.


Ziraldo, outro agraciado pelo bolsa-ditadura e integrante da tropa de choque do Pasquim, só reconheceu -mas, nem tanto - a merda que fizeram, somente quando Simonal estava a sete palmos da terra.
Quem não conheceu essa figura ímpar, pode ter "uma palhinha" num vídeo histórico - com a participação de Sarah Vaughan -, clicando Aqui

Dúvidas Cruéis:

1 - A família do Simonal poderá cobrar uma indenização desses novos milionários?
2 - O doutor Luiz Eduardo Greenhalg aceitará ser advogado da causa?
3 - Não ouço nem leio nenhuma homenagem das entidades afro-qualquer-coisa a esse negro brilhante. Na época, Simonal era rico e famoso, será esse o motivo do silêncio?




"Não suporto mais esse peso"

Matéria da Revista Época:

Internado em estado grave em São Paulo, o cantor Wilson Simonal afirma que nunca foi delator e pede para ser lembrado como artista

Hospitalizado na ala gratuita do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, desde o último dia 4, o cantor Wilson Simonal, de 62 anos, luta com dificuldade contra uma doença crônica no fígado. "O seu estado é grave", alerta o médico Alfredo Salim. O cantor se alimenta por sondas e vive sonolento por causa dos antibióticos e antidepressivos. "O que você tem, cara?", perguntou na semana passada o escritor e amigo Mário Prata. "Mágoa", respondeu, secamente, o cantor.

É uma mágoa que se arrasta há quase 30 anos. No governo Médici, no início da década de 70, na fase dura do regime militar, Simonal foi acusado de delatar comunistas ao temido Serviço Nacional de Informações (SNI), agora extinto. Ganhou a hostilidade do meio artístico e intelectual. O golpe o atingiu no momento em que dividia com Roberto Carlos o posto de cantor mais popular do Brasil. A carreira entrou em declínio irreversível. Segundo Sandra Manzini Cerqueira, sua mulher há sete anos, Simonal sobrevive graças a bicos esporádicos como músico e à ajuda de poucos amigos. Ele quase não canta mais. A média de shows é de dois ou três por ano.

No final dos anos 60, a vida do cantor provocava inveja. "Louras e morenas choviam na horta do 'Simona', navegando nas noites cariocas a bordo de um dos carros mais bonitos da cidade", lembra o jornalista Nelson Motta no livro Noites Tropicais. Contratado da multinacional Shell, Simonal foi o primeiro negro a gravar um comercial para TV no Brasil. Ao se apresentar no encerramento do Festival Internacional da Canção, em 1969, literalmente regeu 30 mil pessoas no Maracanãzinho, no embalo de "Meu Limão, Meu Limoeiro".

Fez longas turnês pelo país. Na volta de uma dessas viagens, em 1972, a bomba estourou. Simonal suspeitou que o contador Rafael Viviani o roubara. Entre os seguranças do cantor havia um policial ligado ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Mário Borges, a quem Simonal pediu para investigar o caso. Segundo o cantor, foi esse policial quem tomou a iniciativa de sequestrar e torturar Viviani.

No leito do Sírio Libanês, Simonal nega mais uma vez que tenha participado do seqüestro. No decorrer do processo que o condenou a cinco anos de prisão, dos quais cumpriu apenas uma semana, Borges disse que Simonal era informante - outro fato que ele nega até hoje. "Foi uma farsa", diz o cantor. Passados quase 30 anos, ninguém conseguiu provar sua culpa. Mas ficou a fama de delator - uma dúvida que persegue até os amigos que o defendem, como Nelson Motta. "No país da impunidade mais absoluta, é incrível que ele esteja até hoje sendo punido com tanto rigor", diz o jornalista.

O caso teve conseqüências profundas na vida familiar do cantor. Simonal, que mora sozinho num flat em São Paulo, tem uma relação difícil com os filhos Max de Castro e Wilson Simoninha, ambos músicos. No final do ano passado, o pai assistiu, escondido no fundo de uma casa noturna, a um show dos filhos. E saiu antes do fim para não ser notado - nem pelos filhos nem pela platéia. "Não quero prejudicar a carreira deles", justifica, com lágrimas nos olhos. "Não quero que ninguém aponte para mim e diga que o pai deles é aquele que entregou todo mundo." Depois de anos sem falar com o pai, Simoninha visitou-o no hospital no domingo 16. "Ele sofreu muito em conseqüência da doença", conta. "Disse para ele se cuidar, refazer a vida." As acusações ao pai, protesta Simoninha, são "ranço de pessoas antigas". "Ele é um artista único", elogia.

Em 1972, Simonal foi acusado de ser "dedo-duro" na capa do jornal O Pasquim. Vinte anos depois, o humorista Jaguar, um dos fundadores do semanário, chegou a declarar que se orgulhava de ter ajudado a destruir a carreira do cantor. Hoje admite que pode ter se equivocado, mas diz estar muito velho para revisar posições. "Foi um impulso meu", diz. "Ele era tido como dedo-duro. Não fui investigar nem vou fazer pesquisa para livrar a barra dele. Não tenho arrependimento nenhum", diz.

Na luta contra o estigma, Simonal recorreu em 1991 à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Nada existe nos arquivos oficiais que indique ter sido servidor ou prestador de serviços ao SNI. Em junho de 1998 outro documento, emitido pelo Centro de Inteligência do Exército, isentou-o das mesmas acusações. Uma declaração de 26 de janeiro de 1999, assinada pelo então secretário de Estado dos Direitos Humanos e atual ministro da Justiça, José Gregori, reiterou os dois pareceres anteriores.

De nada adiantaram os documentos. Simonal está tão estigmatizado como dedo-duro que até uma piada da anárquica turma do Casseta & Planeta no jornal O Globo o fez entrar em depressão. "É um patrulhamento absurdo", revolta-se a mulher, Sandra. "Mesmo que ele tivesse feito o que dizem, houve uma anistia neste país", protesta Mário Prata. Outro amigo, o cantor Jair Rodrigues, lamenta que com esse episódio o Brasil tenha perdido a chance de conhecer um grande artista. "Por causa desses problemas ele fica deprimido e volta a beber", diz. Entre as razões da disfunção hepática, afirma o médico Alfredo Salim, pode estar o alcoolismo. "Mas é difícil especificar, também pode ser hepatite ou outro problema." Com uma voz que em nada lembra a de seus grandes momentos, Simonal diz que nunca se meteu em política, nunca teve nada contra a esquerda ou a direita. "Não agüento mais esse peso. Meu negócio é a música", diz. E é por ela que ainda sonha ser reconhecido.

+No dia 25 de março de 2000, Simonal fez o seu último show, no Espaço Memphis, um bar em Moema. Alguns dias depois foi internado no Hospital Sírio-Libanês, recebendo visitas de Jair Rodrigues e, inesperadamente, de Geraldo Vandré. O cantor faleceu em 25 de junho de 2000, vítima de uma cirrose hepática decorrente do alcoolismo

Um comentário:

Meire Bottura disse...

É, eu também gostaria muito de saber como é que fica a indenização para a família de Wilson Simonal. Felizmente, os meninos herdaram o talento do pai e estão se saindo muito bem, não precisam de esmola. Este país não é sério e pelo jeito nunca será, aqui as coisas funcionam assim, dois pesos e duas medidas. A arte de Simonal representava alegria num momento de dor e perdas, o que gerou perseguição policialesca por parte dos intelectuais engajados que não podiam questionar publicamente o sistema. Eles transformavam suspeitas em verdades absolutas e, já que eram obrigados a engolir a humilhação de viver sob o jugo dos militares, se vingavam em bodes expiatórios como o Simonal. O maior cantor do Brasil foi desmoralizado não apenas porque a mídia (porca) promoveu uma campanha sórdida contra ele, mas também porque a classe artística tratou de engolir rapidinho toda a história...
Não é difícil compreender o que houve, basta o brasileiro ter real interesse em pesquisar, afinal, já passou da hora de reconhecermos que Wilson Simonal é um patrimônio cultural nosso. Devemos isso è memória dele e, principalmente, a nós mesmos.