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quinta-feira, outubro 20, 2016

Com o povo se voltando contra suas ideias, os progressistas já começam a condenar a democracia.








Com o povo se voltando contra suas ideias, os progressistas já começam a condenar a democracia.
E essa saudável tendência é global.
por Ryan McMaken



Eis algo cada vez mais claro: a "democracia" só existe e só é boa quando os eleitores escolhem a opção preferida por determinada classe de intelectuais e políticos. Quando os eleitores escolhem candidatos ou resultados não-chancelados pela elite progressista, bom, aí a tal democracia saiu do controle e o povo demonstrou suprema ignorância.

Nos rastros do referendo do Brexit, do fenômeno Trump, do referendo em que a população húngara decidiu restringir a imigração, e do referendo em que o povo colombiano rejeitou o acordo de paz do governo com os terroristas das FARC, a esquerda global percebeu que algo tem de ser feito para restringir a ideia de democracia irrestrita — uma ideia que ela própria vem promovendo há mais de um século.

Percebendo que referendos populares [como o do desarmamento no Brasil] fornecem uma maneira de os eleitores contornarem a vontade das elites progressistas, intelectuais e jornalistas se uniram recentemente e, em uma reviravolta impressionante, passaram a denunciar a própria ideia de democracia direta.

Para lançar esse recém-criado ataque ideológico à democracia, o The New York Times, no início do mês, publicou um artigo intitulado "Why Referendums Aren't As Democratic as they Seem" (Por que referendos não são tão democráticos quanto parecem). Nele, os jornalistas citam vários "especialistas" que descrevem o processo democrático adotado em um referendo como "supérfluo" e "perigoso".

O artigo, que nem sequer se preocupa em parecer minimamente equilibrado — ele não apresenta nenhum "especialista" dando alguma opinião pró-referendo —, cita uma variedade de políticos, economistas e outros membros das elites com uma visão nada lisonjeira a respeito do povo que vota 'sim' para mudanças políticas, como o Brexit. O economista Kenneth Rogoff, o mesmo que defende a abolição de todo e qualquer dinheiro em espécie (o que seria fatal para os mais pobres que não têm conta em banco), disse que referendos são uma "roleta russa para as repúblicas".



Outros "experts" citados neste artigo do Times descrevem os eleitores como imbecis que não entendem o assunto em que estão votando; néscios propensos a mudar de ideia a qualquer momento influenciados por caprichos superficiais.

Enquanto isso, após o povo colombiano ter votado contra um acordo de paz entre o governo e os terroristas marxistas das FARC, tanto a revista The Economist quanto o jornal internacional Christian Science Monitor declararam que era necessário "repensar" a ideia de "deixar a democracia diretamente nas mãos do povo."

Assim como os porta-vozes da elite política citados no artigo do The New York Times, os especialistas anti-referendos disseram que somente políticos treinados estão devidamente qualificados para tomar decisões políticos. Isso é especialmente válido, dizem eles, no caso de política externa:

Escrevendo na revista Foreign Policy, o professor de ciência política Matt Qvortrup observou que o ex-Secretário de Estado americano Henry Kissinger e o ex-diplomata americano George Kennan diziam que assuntos internacionais deveriam ser mantidos estritamente sob a responsabilidade de uma "profética minoria" que sabe o que realmente é bom para o resto dos cidadãos.




Essa instintiva reação anti-povo, demonstrada por políticos confortavelmente estabelecidos e por seus assessores e apoiadores, não é necessariamente errada. Muitos eleitores de fato são ignorantes e muito realmente mudam de ideia sem qualquer motivo aparente. Mas o que esses recém-convertidos críticos parecem não entender é que, por uma questão de lógica, toda a sua reprovação aos referendos se aplica igualmente ao processo conhecido como democracia representativa.

Ou, o que é ainda mais provável, eles percebem a contradição, mas simplesmente não ligam. Na próxima ocasião em que o povo votar "corretamente", os atuais críticos irão simplesmente fingir que jamais fizeram qualquer crítica à sapiência do povo.

Porém, agora que a elite progressista anti-povo deixou claro acreditar que os eleitores são muito ignorantes e incompetentes ao ponto de votar pelo Brexit, pela restrição à imigração e contra o acordo entre o governo colombiano e as FARC, é de imaginar o que simultaneamente os torna competentes para votar para presidente, para senador e para deputado.


No entanto, a cada vez que há uma eleição e o escolhido é aquele chancelado pela elite progressista, somos obrigados a ouvir intelectuais e jornalistas dizendo que o povo realmente queria aquela opção e que, por isso, o eleito realmente ganhou "um mandato" do povo. 

Em suma, sempre que o povo vota em prol de algo que o establishment gosta, então "o povo se manifestou" e sua escolha é "sagrada".

"Democracia" é aquilo que só eles podem definir

Um grande exemplo desse padrão contraditório foi o recente caso de impeachment no Brasil, em que a presidente Dilma Rousseff foi afastada em definitivo da presidência. Às vésperas da votação do impeachment pela Câmara dos Deputados, as elites progressistas defendiam um referendo popular em que o povo deveria votar 'sim' ou 'não' pelo afastamento da então presidente. Tal referendo era considerado sacrossanto. Por outro lado, a remoção de Dilma por deputados e senadores — eleitos democraticamente por esse mesmo povo! — era considerado um "golpe contra a democracia".

Ou seja, a escolha dos eleitores em outubro de 2014 (por uma margem bastante apertada) era algo indiscutível e, acima de tudo, imutável. Já qualquer tentativa de reverter o resultado via democracia representativa — por meio de representantes democraticamente eleitos, os quais, em tese, representam a "voz do povo" — era considerado um 'golpe' e, portanto, 'ilegítimo'.

E agora vem a melhor parte: no caso do Brasil, o legislativo eleito pelo povo estava sendo "anti-democrático" ao contradizer a eleição popular de Dilma dois anos antes. Já no caso do Brexit, a esquerda progressista — capitaneada pelo jornal The Guardian — diz ser um dever do legislativo contradizer os eleitores e anular o voto do Brexit.

Em outras palavras, se o povo vota a favor de uma figura querida da esquerda globalista, então o povo é sábio e sabe perfeitamente o que está fazendo. Já se o povo vota pelo Brexit, contra um acordo de paz com os marxistas das FARC, ou até mesmo em Donald Trump, então o povo é composto por bufões ignorantes demais para entender os reais problemas.

Referendos e iniciativas populares não têm nada de novo

Esse recente pânico em relação à democracia direta também advém da falsa alegação de que a democracia via referendos e iniciativas populares são algo majoritariamente novo, sem precedentes na política ocidental.

A Suíça, vale lembrar, utiliza referendos e iniciativas populares desde 1893. Já a ideia da democracia plebiscitária era um componente convencional do liberalismo na Europa do século XIX. Ludwig von Mises, por exemplo, ele próprio muito bem enredado nos radicais movimentos pró-laissez faire na Áustria antes da Primeira Guerra Mundial, sugeriu em seu livro Liberalismo — Segundo a tradição clássicaque os eleitores de qualquer jurisdição política, mesmo em simples vilarejos, deveriam ser livres para se separar de outras jurisdições políticas via voto popular:


Quando os habitantes de um determinado território (seja uma simples vila, todo um distrito, ou uma série de distritos adjacentes) fizerem saber, por meio de um plebiscito livremente conduzido, que não mais desejam permanecer ligados ao estado a que pertencem, mas desejam formar um estado independente ou tornar-se parte de algum outro estado, seus anseios devem ser respeitados e cumpridos.


Tampouco é algum mistério saber por que Mises considerava que esse tipo de democracia direta era algo trivial. Menos de cinco anos antes de Mises lançar seu livro, a região alemã de Büsingen havia votado maciçamente em prol de se juntar à Suíça, tornando-se um dos cantões daquele país. Um ano depois, os eleitores da região austríaca de Vorarlberg votaram para se separar da Áustria e se juntar à Suíça.

Em ambos os casos, os suíços rejeitaram essas tentativas de alargar seu país.

Esse tipo de democracia direta sempre foi considerado por vários como sendo a prerrogativa dos eleitores. E certamente, em nenhum dos dois exemplos acima, ficou explicitado que os eleitores de Büsingen ou de Vorarlberg eram menos qualificados para determinar seu próprio destino do que a supostamente mais sábia e mais bem informada "profética minoria" de Berlim ou Viena.

Analisando as iniciativas populares restritas apenas aos eleitores suíços, vemos que, entre 1893 e 2014,apenas 22 de 192 iniciativas populares foram aprovadas pelos eleitores. A reticência com que essas iniciativas são recebidas pelos suíços indica prudência da parte dos eleitores, bem ao contrário do que alegam os oponentes das iniciativas populares, que afirmam que a imprudência e a afobação dos eleitores irão gerar um apocalipse. 

E, enquanto toda a Europa se degenerava no fascismo, no nazismo e no autoritarismo ao longo das décadas de 1920 e 1930, a Suíça, com toda a sua democracia direta, permaneceu notavelmente estável.

Adicionalmente, vários estados americanos (majoritariamente estados do meio-oeste) utilizam referendos e iniciativas populares. E, dado que esses estados tendem a ter um desempenho econômico e social, no mínimo, tão bom quanto o do resto do país em termos de expectativa de vida, criminalidade e "saúde fiscal" (com a exceção da Califórnia), não há nenhuma evidência de que jurisdições que empregam a democracia direta tenham qualquer semelhança com a "roleta russa" imaginada por Rogoff.

É impossível concluir, obviamente, que a estabilidade política da Suíça ou a baixa criminalidade do estado do Oregon sejam causadas pela proeminência da democracia direta daquelas jurisdições. Porém, também não podemos concluir que a democracia direta seja especialmente problemática naquelas áreas. Tampouco, por extensão, há qualquer motivo para acreditar que a democracia representativa seja especialmente bela e moral quando comparada a este estilo mais direto de democracia.

Com efeito, assim como ocorre com a democracia representativa, a democracia direta tem gerado resultados mistos. Eleitores frequentemente irão votar em prol de um salário mínimo maior ou de outras regulamentações governamentais que não seriam aprovadas sem um voto direto. Tais iniciativas irão empobrecer e afetar as economias dessas jurisdições. Por outro lado, eleitores frequentemente votaram contra aumentos de impostos e outras onerosas regulamentações estatais, como a recentemente rejeitada proposta de uma "renda mínima básica" na Suíça.

Seria a democracia direta mais facilmente manipulável?

Os oponentes da democracia direta sempre alegaram que iniciativas populares e referendos podem ser manipulados por grupos de interesses e lobbies. [No Brasil, os intelectuais de sempre falaram que o referendo do desarmamento no Brasil foi manipulado pela indústria de armas]. 

Curiosamente, essas mesmas pessoas ignoram que políticos eleitos por meio da democracia representativa raramente demonstram independência em relação aos lobbies e aos grupos de interesse [a Lava-Jato é um claro exemplo].

Como observou o cientista político chileno David Altman, eleitores na América Latina rejeitaram referendos e iniciativas populares com grande frequência:

Nos últimos 40 anos, 109 votos populares foram convocados pelas autoridades da América Latina na forma de plebiscitos e referendos compulsórios. Destes, 64 (58%) receberam o apoio da população, ao passo que 45 foram rejeitados. Mas os votos propostos pelo público — tais como iniciativas populares ou referendos contra leis existentes — também não foram aceitos automaticamente. Dos 18 votos populares que ocorreram, nove foram aceitos.


Altman conclui que "o instrumento da democracia direta é menos suscetível a manipulações do que geralmente se imagina"

A democracia possui vários defeitos graves, e nenhum deles pode ser ignorado com meras piadinhas do tipo "a democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais". No entanto, tão logo começamos a analisar todos os sistemas democráticos existentes, não há nenhum indício de que a democracia direta leve a resultados demonstravelmente piores do que a democracia representativa. 

Recentemente, é fato, o povo de vários países tem votado de uma maneira que vem preocupando as elites globais e progressistas, que se acostumaram a ter resultados eleitorais a seu favor. Consequentemente, o The New York Times, o The Guardian, a The Economist, e todos os seus seguidores e imitadores se apressaram em nos explicar que o povo é simplesmente ignorante demais para ter o poder de decidir questões grandes e importantes.

Se tais pessoas estão infelizes com o arranjo, então há motivos para ficarmos felizes.

A democracia direta não é perfeita, mas, considerando os inimigos que ela vem ganhando ultimamente, talvez ela não seja tão ruim quanto pensávamos.


Fonte: Mises.org.br

quarta-feira, março 09, 2016

Para haver crescimento econômico, o segredo não é trabalhar muito, mas sim trabalhar produtivamente






Para haver crescimento econômico, o segredo não é trabalhar muito, mas sim trabalhar produtivamente.
por Ryan McMaken,




Em sua mais recente inserção de TV, o Partido dos Trabalhadores disse que a maneira de superar a atual crise econômica e fazer a economia voltar a crescer é trabalhando duro e "tendo vontade de vencer". E então o programa mostra cenas de um cabeleireiro, de um atendente de bar, e de uma vendedora de sanduíche. 

A ideia é que se todos simplesmente trabalharem mais, como essas pessoas, a economia dará um salto.

Tal ideia demonstra uma completa falta de compreensão sobre como uma economia moderna realmente cresce, prospera e se torna mais produtiva. Não é de se estranhar que tal simplismo primitivo esteja sendo propagandeado exatamente pelo partido que causou toda essa baderna na economia.




Em certo sentido, trabalhar mais horas pode produzir mais riqueza. Teoricamente, se tudo o que você tiver for uma machado e troncos de árvore, então se você trabalhar oito horas cortando madeira terá mais madeira do que em apenas quatro horas. Portanto, neste caso hipotético, trabalhar mais significa mais produção.

A questão é que dificilmente você conseguirá manter essa rotina extenuante por muito tempo e durante vários meses. Aliás, tentar manter essa rotina não será muito inteligente. Chegará um momento em que suas condições físicas estarão debilitadas e sua produtividade inevitavelmente cairá.

Sendo assim, se você conseguir obter uma máquina que lhe permita cortar madeira de uma maneira mais rápida, você terá a mesma quantidade de madeira em apenas uma fração do tempo original.

Uma serra elétrica, por exemplo, tornará o seu trabalho muito mais produtivo do que um machado. Uma serra elétrica permite que, com menos horas de trabalho, você consiga a mesma quantidade de madeira que conseguiria com um machado e várias horas a mais de trabalho.

A serra elétrica é um bem de capital que aumentou sua produtividade, permitindo que você trabalhe menos e produza mais. Ao aumentar a quantidade de energia disponível, a serra elétrica permite que você, simultaneamente, reduza sua carga de trabalho muscular e obtenha mais cortes de madeira. A serra elétrica aumentou seu padrão de vida. 

Por isso, o problema com a ideia de que "você tem de trabalhar mais para enriquecer" está exatamente no fato de que ela pressupõe um mundo estático: não há inovações técnicas, não há empreendedorismo que gere inovações técnicas, e é impossível produzir mais riqueza sem que necessariamente você tenha de trabalhar mais.

Por outro lado, quando você entende que é possível ter inovações que nos poupam do trabalho extenuante, você descobre que a ideia do "trabalhe mais para enriquecer" é, em si mesma, insensata.

Como é possível criar os meios que no tornam mais produtivos

A mesma esquerda que pede mais trabalho como forma de superar a crise econômica criada por ela própria também gosta de brandir estudos — corretos — que dizem que, tão logo as pessoas passam a trabalhar mais de 50 horas por semana, elas se tornam consideravelmente menos produtivas, mais exaustas e, como consequência, criam um ambiente mais arriscado para elas próprias e para seus colegas de trabalho.

Com efeito, há um limite físico real à capacidade de se trabalhar mais para produzir mais. E a maneira de superar essa limitação física é utilizando tecnologias e técnicas mecânicas que permitam muito mais produção em menor espaço de tempo.

Como se faz isso?

O primeiro passo, obviamente, é pensar em métodos poupadores de trabalho e em novas idéias para se implantar estes métodos. Porém, em última instância, implantar essas idéias requer o uso de uma riqueza previamente criada e poupada. Em outras palavras, e dado que vivemos em uma economia baseada no dinheiro, é necessário ter dinheiro para se construir máquinas que poupam a quantidade de trabalho.

E como conseguimos esse dinheiro? Não há mágica: ele tem de ser poupado. E poupar significa se abster do consumo. Portanto, ao fim e ao cabo, os componentes-chave para se ter trabalhadores mais produtivos é poupar e, consequentemente, utilizar essa poupança na construção de máquinas, ferramentas, instalações industriais e bens de capital em geral que poupem o trabalho físico. 

Ludwig von Mises explicou a necessidade de todos esses componentes em seu livro A Mentalidade Anticapitalista:

Nem o capital nem os bens de capital têm, por si sós, o poder de elevar a produtividade dos recursos naturais e do trabalho humano. Somente se os frutos da poupança forem adequadamente empregados ou investidos é que poderão aumentar a quantidade produzida por unidade de insumo. Se isso não acontece, eles são dissipados ou perdidos.

E prossegue:






Com o auxílio de melhores ferramentas e máquinas, a quantidade dos produtos aumenta e sua qualidade melhora. Assim, o empregador consequentemente estará em posição de obter dos consumidores um valor maior do que aquele que seu empregado consumiu em uma hora de trabalho. Somente assim o empregador poderá — e, devido à concorrência com outros empregadores, será forçado a — pagar maiores salários pelo trabalho do seu empregado.

Trabalhar menos e produzir mais é o resultado direto dessa acumulação de capital. Assim como a serra elétrica aumenta a produção em relação a um serrote ou a um machado, e um trator multiplica enormemente a produção agrícola em relação a uma enxada, o uso de máquinas e equipamentos modernos multiplica enormemente a produtividade dos trabalhadores — e, consequentemente, seus salários e sua qualidade de vida.



Em um país rico, a quantidade e a qualidade das máquinas e das ferramentas disponíveis são muito maiores do que nos países pobres. A acumulação de capital, o empreendedorismo e a inventividade tecnológica são os pilares da economia. Como consequência, a produtividade, a riqueza e o padrão de vida nestes países são muito mais altos. 

Obstáculos à maior produtividade

Infelizmente, temos uma economia e um governo orientados exatamente contra todos os ingredientes necessário para o crescimento da produtividade, da poupança e da inovação.

Em primeiro lugar, há um aparato regulatório que favorece os grandes empresários politicamente bem relacionado sem detrimento de novos produtos, novas empresas e novas criações. Empresas recém-criadas que possam trazer algum risco à fatia de mercado das grandes empresas serão ou proibidas de entrar no mercado (por obra e graça das agências reguladoras) ou penalizadas de modo a se tornarem menos competitivas (por obra e graça da burocracia, da carga tributária e do complexo código tributário, que joga a favor das grandes empresas já estabelecidas).

Tarifas de importação e uma moeda em contínua desvalorização também impedem que empresas adquiram do exterior bens de capital bons e baratos que aumentariam sua produtividade.

Em qualquer um desses casos, avanços na produtividade serão perdidos.

E há também, é claro, as próprias políticas fiscais e monetárias do governo, as quais, ao incentivarem o consumismo, o imediatismo e o endividamento da população para fins consumistas, fazem de tudo para desestimular a poupança. O resultado é uma economia voltada para o consumo e para o prazer imediato, e não para a poupança e para o investimento de longo prazo. E isso, por sua vez, afeta toda a estrutura produtiva da economia: em vez de se ter uma economia voltada para a produção de longo prazo, há uma economia voltada para o consumismo de curto prazo.

E há, por fim, o problema da inflação e da consequente destruição do poder de compra da moeda. Uma moeda que continuamente perde poder de compra afeta os investimentos de longo prazo (e é impossível fazer investimentos de longo prazo se você não tem a mínima ideia do poder de compra futuro da moeda) e reduz os salários reais. E, ao reduzir os salários reais, desestimula a poupança. 

Com a renda disponível cada vez mais afetada, não há como poupar. Consequentemente, a pouca poupança disponível não é direcionada para investimentos produtivos, mas sim para o consumo imediato.

O objetivo é trabalhar menos e produzir mais


A ideia de que devemos trabalhar mais para enriquecer seria verdadeira apenas se vivêssemos em um mundo completamente destituído de melhorias na produtividade. Aí, realmente, não haveria alternativa senão trabalhar mais.

Felizmente, não vivemos nesse mundo. E, no mundo em que de fato vivemos, nosso objetivo deveria ser o de alcançar um contínuo aumento no padrão de vida ao mesmo tempo em que diminuímos nossas horas de trabalho.

Afinal, foi justamente a Revolução Industrial que permitiu que grande parte da humanidade se livrasse, pela primeira vez na história do mundo, do fardo diário de ter de trabalhar longas horas sem nenhuma perspectiva de alívio, tendo pouquíssimo tempo livre para a educação, o lazer e atividades caritativas.

Desde então, graças à limitada porém significativa vitória da ideologia laissez-faire, a produtividade do trabalhador só fez aumentar nos séculos seguintes. Hoje, não precisamos de trabalhar mais do que dois dias por semana para alcançar um padrão de vida maior do que aquele usufruído por nossos ancestrais que viveram no século XVIII. Não temos de trabalhar mais do que nossos tataravôs. Certamente trabalhamos menos horas do que eles — e por livre e espontânea vontade.

Obviamente, qualquer um que queira trabalhar mais deve ser perfeitamente livre para fazê-lo. Mas é necessário enfatizar que apenas mais horas de trabalho, por si sós, não bastam. Se o objetivo é o crescimento econômico e o enriquecimento, então nada pode ser feito sem a produtividade. O verdadeiro crescimento econômico vem da poupança, do investimento, da moeda forte e de uma economia genuinamente empreendedorial — a qual, por obra e graça dos governos, está se tornando cada vez menos factível no mundo atual.

domingo, agosto 16, 2015

Quem realmente ganha ao se sediar as Olimpíadas.






Quem realmente ganha ao sediar as Olimpíadas.

por Ryan McMaken


Sediar as Olimpíadas não é mais tão popular quanto costumava ser. No final de julho, a cidade de Boston desistiu de ser candidata à sede das Olimpíadas de 2024. A cidade foi obrigada a cancelar sua candidatura por causa da pressão da população, que se manifestou contra "o endividamento, as remoções e a militarização do espaço público" que os jogos olímpicos impõem a todas as cidades-sede.


Basicamente, os cidadãos e pagadores de impostos da cidade de Boston não estavam interessados em arcar com as contas de uma enorme farra que seria feita em prol dos mais ricos e mais poderosos grupos de interesse de Boston: as empreiteiras que fariam as obras (provavelmente com algum superfaturamento), os políticos que receberiam os "agrados" dessas empreiteiras, as redes de hotéis e a própria mídia.

Ao passo que, em outras épocas, os jogos olímpicos realmente representavam o esporte e a camaradagem internacional, eles rapidamente se transformaram em um bastião do corporativismo, também chamado de "capitalismo de compadrio". O colunista britânico Peter Hitchens afirma que essa transformação começou a ocorrer ainda quando Hitler e Goebbels transformaram os jogos olímpicos "em um espetáculo pomposo, com acerimônia da tocha e tudo mais". Desde então, o Comitê Olímpico Internacional vem se mostrando muito à vontade em manter esse ritual.

Hoje, as Olimpíadas se transformaram em uma maneira de obter favores diplomáticos e de exibir a riqueza e a influência dos governos nacionais. Com efeito, não é de se estranhar que as futuras cidades-sede das Olimpíadas exibam uma propensão ao autoritarismo, com a China e a Rússia competindo entre si para sediar futuros eventos. O Comitê Olímpico Internacional (COI) irá, em breve, escolher entre Cazaquistão e China para sediar os jogos de inverno de 2022. (Oslo, na Noruega, recentemente cancelou sua candidatura após os pagadores de impostos do país protestarem contra as exigências — "típicas de uma diva de cinema", segundo a impressa norueguesa — feitas pelos membros do COI, que queriam benesses financiadas integralmente por impostos).

E faz sentido que regimes autoritários e nacionalistas sejam bem-sucedidos em suas candidaturas para sediar as Olimpíadas. Quanto menos um regime tem de se explicar aos cidadãos pagadores de impostos que arcam com a fatura do evento, maior é a sua facilidade em satisfazer as onerosas exigências do COI; maior é a sua facilidade de fazer as dispendiosas obras e de fornecer as "garantias" exigidas pelo COI, sempre financiadas por impostos.

As ruínas dos últimos jogos olímpicos

Enquanto isso, os pagadores de impostos dos países desenvolvidos já acordaram para os altos custos e para os parcos benefícios de se sediar as Olimpíadas. Muitos já viram estas fotos do jornal britânico The Guardian, que mostram o atual estado das instalações olímpicas construídas para os jogos de Atenas de 2004. Os bilhões de impostos que foram gastos pelo governo grego na construção dessas instalações se evaporaram completamente, e tudo o que restou foram estádios decrépitos e piscinas olímpicas cheias de lama.

Na época da escolha de Atenas, os gregos foram assegurados de que sediar as Olimpíadas representaria a entrada do país em uma nova era de grande prestígio internacional e de sucesso econômico. Desnecessário dizer que tal futuro róseo nunca se materializou. 

Ainda menos tempo se passou desde as Olimpíadas de 2008 em Pequim; porém, como mostram estas fotos, as já abandonadas instalações de Pequim terão, daqui a alguns anos, uma aparência muito semelhante às instalações de Atenas.

E enquanto o Brasil espera o início dos jogos olímpicos de 2016, os brasileiros já estão tendo um vislumbre do que ocorrerá futuramente com as instalações olímpicas que estão sendo construídas: os estádios da Copa do Mundo, construídos ainda no ano passado, já se tornaram gigantescos (e caros) elefantes brancos, como mostra essa reportagem. Um enorme estádio construído para a Copa [o Mané Garrincha, em Brasília] funciona hoje como um estacionamento para ônibus. Vários outros estão simplesmente se deteriorando sob o quente e úmido ar brasileiro.

O alto custo de eventos esportivos

Vários pesquisadores sérios (isto é, pessoas que não estão ali apenas para produzir "declarações impactantes" em prol do governo) já vêm há anos demonstrando que sediar grandes eventos esportivos não produz riqueza para as economias locais.

"Se há uma área na economia em que há consenso entre os economistas, é esta", disse Michael Leeds, um economista da Temple University. "Não há impacto substantivo".

"Por exemplo, se todos os times esportivos de Chicago repentinamente desaparecessem, o impacto sobre a economia de Chicago seria uma fração de 1%", disse Leeds.

Mas grandes eventos esportivos como as Olimpíadas são muito piores, pois eles inevitavelmente geram pesados transtornos para a população local: o comércio local é fechado e há uma pesada militarização da polícia local para propósitos de "segurança". Aqueles que já tiveram a infelicidade de morar próximo a estes eventos sabemque o trânsito pode ficar interrompido por vários dias seguidos, e o comércio dentro do perímetro de segurança perde todos os seus clientes. 

Quando o evento acaba e todos os visitantes vão embora, o comércio local não vê nenhum benefício que compense o maciço fardo tributário e o enorme endividamento gerados pelo evento.

Adicionalmente, o Journalist's Resource compilou uma prestativa lista de sérios estudos sobre os impactos de grandes eventos como os jogos Olímpicos. Conjuntamente, os estudos revelam uma grande ausência de benefícios econômicos em se sediar as Olimpíadas e eventos similares. Há um enorme abismo separando as promessas grandiosas feitas por políticos antes do evento e os benefícios concretos que podem ser observadosapós o evento. Em todos esses estudos, vê-se repetidamente frases como estas:

  • "Os efeitos econômicos de longo prazo do legado dos eventos parecem ser bastante modestos."
  • "O impacto do êxito dos atletas nacionais sobre a felicidade da nação ... é estatisticamente insignificante."
  • "As Olimpíadas de Pequim conseguiram apenas impactos limitados sobre a imagem da cidade."
  • "Os resultados indicam que não houve impacto de longo prazo sobre o comércio ou sobre o emprego."


A politicagem por trás dos eventos: quem realmente se beneficia

Não é de se estranhar que os brasileiros — muitos dos quais vivem sem uma infraestrutura urbana decente, como rede de saneamento — tenham protestado em 2014 contra o uso de bilhões de reais de impostos para a construção de estádios que iriam beneficiar apenas um ínfimo número de brasileiros ricos. 

Assim como os noruegueses, e agora dos bostonianos, os brasileiros sabem a quem esses grandes eventos internacionais — muito especialmente as Olimpíadas — realmente interessam: tudo se resume a prestígio e diversão para a classe política. Os eventos são um parque de diversões para políticos, empreiteiras e grandes empresários, os quais irão se beneficiar imensamente dos lucrativos contratos para construir os estádios, as piscinas e as luxuosas edificações, nas quais farão festinhas privadas com os ricos e famosos.

Por maiores que sejam seus defeitos, os políticos da Noruega ao menos responderam positivamente às demandas dos pagadores de impostos noruegueses, cancelaram a candidatura para sediar os jogos de inverno de 2022. Os políticos de Boston também foram forçados a fazer o mesmo, não sem antes terem tentado ridicularizar as vozes dissonantes como – o prefeito de Boston disse que os opositores à candidatura eram apenas "dez pessoas no twitter" — e dito as platitudes de sempre sobre os supostos benefícios oriundos de obrigar os pagadores de impostos a arcar com mais um projeto político vaidoso.

Após a cidade de Boston ter sido forçada a retirar sua candidatura, o jornal local The Nation corretamente diagnosticou a façanha como sendo "uma vitória dos ativistas e uma derrota para os grandes grupos de interessa da cidade".

Negócios corporativistas como as Olimpíadas ajudam a nos lembrar que há uma grande — aliás, intransponível —diferença entre defender o livre mercado e defender grandes empresas. Empreiteiras e outras grandes empresas sempre estarão muito à vontade em espoliar os pagadores de impostos caso saibam que esse dinheiro irá para seu bolso ou para subsidiar projetos do seu interesse. 

Por outro lado, empreendedores, empregadores e pagadores de impostos que não possuem poder organizacional, que não fazem lobby e que não têm políticos em sua folha de pagamento não têm importância nenhuma para esses "líderes" empresariais que influenciam políticos e suas políticas.

Para a infelicidade destes, muitas pessoas educadas já começaram a perceber o esquema e as negociatas. Estádios bonitos e instalações vistosas, e mega-eventos globais sem dúvida nenhuma são ótimos para as contas bancárias dos ricos e poderosos. Mas aqueles que arcam com a fatura disso tudo não melhoram em nada sua situação.

Ryan McMaken é o editor do Mises Institute americano.