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segunda-feira, janeiro 09, 2017

Feminismo: quando a sátira se confunde com a realidade







por Tiago Kistenmarcher




Há poucos dias me deparei com um vídeo no qual uma feminista dizia processar o homem que se empenhou em resgatá-la de um afogamento em um lago. Os argumentos da moça eram paranoicos. Ela alegava, por exemplo, que segurá-la pela cintura para tirá-la da água, pressionar seu peito e fazer respiração boca a boca teria sido estupro. O título do vídeo: A man saved me from drowning, but now I am suing him for rape because he touched me [Um homem me salvou do afogamento, mas agora eu estou processando-lhe por estupro porque ele me tocou] - vídeo abaixo. Talvez o leitor já tenha tido contato com o vídeo, mas eu confesso que eu ainda não tinha visto.








Mesmo que bizarro, eu poderia ter acreditado, haja vista o oceano de obsessões feministas que parece não ter fundo. Mas ainda assim decidi procurar pela veracidade da mensagem e descobri que o vídeo feito por Cassidy Boon não passava de uma sátira, isso a despeito de inúmeros sites, estrangeiros ou não, terem veiculado a brincadeira como se a indignação da garota fosse real. Esta é a questão fundamental para a qual quero chamar a atenção neste texto. 

Faço uma pergunta: por que o vídeo com uma mensagem tão extremista foi espalhado como se fosse real? Respondo: porque atualmente o radicalismo feminista ultrapassou todos os limites e ninguém mais duvida de nada que possa surgir das profundezas de sua ideologia. Não é de hoje as tempestades sociais causadas pelo extremismo feminista. Quando uma maluquice dessas é confundida com a realidade, significa que a nossa realidade tem se tornado uma maluquice. Quem se afogou foi o bom senso. 

Durante a pesquisa que fiz acerca do vídeo, um dos sites que discutia o caso afirmava que as pessoas não mais sabem diferenciar sátiras de questões reais. Engano. O problema é que a realidade contemporânea tem se tornado por si só uma sátira, logo, há uma simbiose de ideias absurdas que naturalmente confundem a maioria dos observadores. Não deveríamos culpar quem se confunde, mas quem causa a confusão, ou seja, devemos responsabilizar aqueles que mergulham propositalmente neste mar de princípios terríveis e, não contentes, tentam puxar toda a sociedade para o fundo. 

Anos atrás extremismos do gênero seriam concebidos como sátiras, mas hoje são as sátiras que se confundem com a realidade. Se antigamente alguém vinculasse o ato de comer carne ao machismo e à violência doméstica (Comer carne é machismo? Ou: a politização do bife), dariam risadas, hoje tal estupidez é objeto de pesquisas, palestras e livros acadêmicos. Nossas avós não acreditariam que mulheres pudessem preferir serem estupradas a serem salvas por um homem, no entanto, atualmente existem feministas radicais que levantam essa bandeira. Pintar as axilas, introduzir objetos religiosos nos órgãos genitais, entrar sem roupas durante cerimônias religiosas, abortar como se troca de meia, tudo isso seria concebido, há muito tempo, como capítulos de uma distopia ou de uma peça trágica.

Mas voltando à Cassidy Boon. Estou certo de que sua sátira foi levada a sério por várias feministas. Também acredito que, caso uma mulher for resgatada de um afogamento e afirmar ter sido molestada durante o ato – ainda que seja mentira -, várias psicóticas irão apoiá-la e infernizar a vida do benfeitor. Mas dizem que rir é o melhor remédio, inclusive para infecções políticas. E isso já tem acontecido. Não é por menos que essa gente tem se tornado objeto de zombaria.

O extremismo é sempre um soldado infiltrado que mina por dentro a própria causa do movimento, seja ele qual for. Toda seita é inimiga de si mesma e, por isso acaba sendo combatida, fica isolada, sozinha e vira objeto de piada. Entrar no front político com ideias surreais é apontar a arma para o próprio peito ou, já que estamos falando de afogamento, mergulhar na política carregando sectarismo é como mergulhar no mar com uma pedra enorme atada aos pés.

Como escreveu Russell Kirk, tais ideologias podem atrair indivíduos da classe culta, no entanto, será muito mais difícil ao ideólogo persuadir o senso comum, que é sempre mais inteligente que tresloucados acadêmicos e militantes políticos desequilibrados. As coisas estão como estão porque causas que inicialmente tiveram suas razões legítimas, hoje são superdimensionadas e causam maremotos avassaladores para as relações interpessoais. São tantos esses maremotos causados pelo feminismo e essa gente ainda tem coragem de reclamar de uma “onda conservadora”?! Mas o que é uma onda azul em meio a todo um oceano vermelho?

Ademais, o conceito de estupro tem sido relativizado de modo que, elogiar uma mulher pode ser considerado um ato criminoso. Isso é um desserviço para com a proteção das mulheres, afinal, tendo em conta o relativismo feminista, um cavalheiro pode ser colocado no mesmo saco que um verdadeiro estuprador. Muitos não percebem, mas tal relativismo colabora sobremaneira para que a gravidade do estupro real seja minimizada e perca sua singularidade de crime brutal.

Mas o feminismo não quer prestar nenhum serviço às mulheres, ele quer prestar serviços às mulheres que concordam com sua visão de mundo. Aquelas que discordam podem ser xingadas e agredidas sem nenhum pudor. Hoje em dia o feminismo não passa de uma organização coletiva de ressentimentos.

É necessário cautela, porque é impossível enxergar no fundo do lago feminista. Para chegar lá, para nadar em direção aos seus objetivos mais profundos, o feminismo radical faz manobras teóricas e linguísticas inadvertidamente. Assim, suas militantes, curiosas com o que podem extrair dessas profundidades obscuras, agem com a imprudência de Naiá, a guerreira tupi-guarani que, apaixonada pela Lua, nadou até o fundo do lago para encontrá-la. Consequência? Acabou se afogando.

Fonte: Instituto Liberal
Thiago Kistenmacher

Thiago Kistenmacher é estudante de História na Universidade Regional de Blumenau (FURB). Tem interesse por História das Ideias, Filosofia, Literatura e tradição dos livros clássicos.


quinta-feira, setembro 08, 2016

Comer carne é machismo? Ou: a politização do bife













O que não é politizado hoje em dia? O leitor saberia dizer? Começo perguntando isso por trazer aqui uma questão que, se não fosse desastrosa, seria hilária. Talvez o leitor já tenha ouvido falar do livro que veremos a seguir. No entanto creio que ele ainda não seja tão conhecido por não ser o tipo de coisa – felizmente – que circula por qualquer livraria. Refiro-me ao livro chamado A Política Sexual da Carne: a relação entre o carnivorismo e a dominação masculina, da professora universitária e militante Carol J. Adams. Parece piada, mas não é.

Na capa do livro podemos ver o esboço de três mulheres associadas à textura de um couro bovino:

Conforme o próprio site da autora, o livro A Política Sexual da Carne“explora a relação entre os valores patriarcais e o consumo de carne entrelaçando concepções do feminismo, vegetarianismo, defesa animal e teoria literária.” Li algumas partes e só posso dizer que é uma loucura, que a “politização do bife” é o cúmulo das manobras conceituais e da estupidez ideológica.

Num determinado trecho a autora assinala ter visto um retrato de Henrique VIII comendo carne enquanto as mulheres ao seu redor comiam frutas. A interpretação de Adams é que ali existiria machismo, pois a carne estaria simbolizando a virilidade, a força e, por isso, a dominação, enquanto as frutas representariam a fragilidade feminina.

Em outra parte ela relata o caso de alguns maridos que teriam agredido suas esposas quando estas lhes serviram legumes em vez de carne. Risadas? A autora talvez tenha se esquecido de que se um homem agride uma mulher porque ela não serve carne, ele é um doente, um criminoso e indubitavelmente agride a esposa também por outras razões. Em suma, para Carol J. Adams, comer carne tem tudo a ver com machismo e patriarcalismo.




Adams declara que o “ciclo de objetificação, fragmentação e consumo une o abatimento de animais tanto com a representação quanto com a realidade da violência sexual nas culturas Ocidentais, o que normaliza o consumo sexual.”

Mas a loucura continua. Complementando o delírio acima, Adams diz que seu livro

“argumenta que a dominância masculina e a opressão dos animais estão ligadas pelo modo como a função tanto das mulheres quanto dos animais serem referências ausentes no consumo de carne e na produção de laticínios e que a teoria feminista logicamente contém uma crítica vegana… assim como o veganismo desafia secretamente a sociedade patriarcal.” Por fim ela conclui dizendo que “O patriarcalismo é um sistema de gênero que está implícito na relação homem/animal.”

Há uma contradição aqui. Se ela acredita que os humanos também são de uma espécie animal e que, portanto, não estão acima dos demais, deveria considerar o fato de os animais matarem uns aos outros. Além do que, o ser humano é o único capaz de criar mecanismos que suavizam o abatimento, diferente do que acontece na selva. Mas isso é óbvio e estúpido demais para ser discutido.

Não precisa ser muito inteligente para constatar que tais concepções de mundo como essa, que pretende salvar a humanidade sei lá do que, estão cerceando cada vez mais a liberdade dessa mesma humanidade. Não precisamos de ideólogos que fazem malabarismos teóricos para acusar de machista quem gosta de filé mignon.

O livro A Política Sexual da Carne já foi traduzido para o “japonês, coreano, chinês, alemão, português e turco; as edições em italiano, espanhol, croata e francês estão em processo.” Quer dizer, em vez de a maluquice da autora ficar circunscrita ao seu próprio mundo, ela se espalha pelo nosso. Carol J. Adams diz que o livro “oferece exemplos de resistências históricas, contemporâneas e ficcionais ao consumo de carne e argumenta que decisões alimentares são formas codificadas de resistência.” Haja paciência.

Como já escrevi no Facebook, esse pessoal que quer salvar o mundo abraçando árvores e politizando o bife seria fuzilado pelos marxistas do século XX antes dos czares. Bolcheviques como Lênin e Stálin se sentiriam ridículos caso voltassem à vida e vissem no que a luta de classes se transformou. Na impossibilidade da Revolução, parece que essa gente resolveu “chutar o pau da barraca” e bagunçar a lógica de tudo.

Enfim, quem leva um livro como esse a sério não pode ser levado a sério, a não ser como paciente de um bom psiquiatra – que seja vegano, claro.

Instituto Liberal.org.br