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segunda-feira, agosto 24, 2015

Como o Google poderia manipular a eleição de 2016.







por Robert Epstein



O Google tem a capacidade de direcionar milhões de votos para um candidato sem que ninguém se dê conta.


O próximo presidente americano poderia ter o acesso ao cargo facilitado não apenas por anúncios na TV ou discursos, mas pelas decisões secretas do Google, e ninguém – exceto por mim e talvez outros poucos pesquisadores desconhecidos – saberia com isto foi alcançado.

Uma pesquisa que tenho realizado nos anos recentes sugere que o Google Inc. acumulou muito mais poder para controlar eleições – de fato, para controlar uma ampla variedade de opiniões e crenças – do que qualquer companhia já teve na história. O algoritmo de busca do Google pode facilmente alterar as preferências de eleitores indecisos em 20% ou mais – acima de 80% em alguns grupos demográficos – sem que virtualmente ninguém saiba que está sendo manipulado, de acordo com experimentos que realizei recentemente juntamente com Ronald E. Robertson.

Dadas as muitas eleições que são vencidas por pequenas margens, isto dá ao Google o poder, bem agora, de “virar” 25% das eleições nacionais no mundo inteiro. Nos EUA metade de nossas eleições presidenciais têm sido vencidas por margens inferiores a 7,6%, e a eleição de 2012 foi vencida por uma margem de 3,9% - bem dentro do controle do Google.

Há pelo menos três cenários bastante reais pelos quais o Google – talvez, mesmo sem o conhecimento dos líderes – poderia moldar ou mesmo decidir a eleição do próximo ano. Quer os executivos do Google vejam ou não deste modo, os empregados que constantemente ajustam o algoritmo de busca do gigante estão manipulando pessoas a cada minuto de cada dia. Os ajustes que fazem, progressivamente influenciam nosso pensamento – incluindo, verifica-se, nossas preferências de voto.

O que chamamos em nossa pesquisa de SEME – Search Engine Manipulation Effect (Efeito da Manipulação de Mecanismos de Busca) vem a ser o maior efeito comportamental já descoberto. Nosso novo estudo abrangente, que acaba de ser publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), inclui os resultados de cinco experimentos que conduzimos com mais de 4.500 participantes em dois países. Devido ao SEME ser virtualmente invisível, como forma de influência social, devido aos efeitos serem tão extensos, e devido à inexistência de regulações em qualquer lugar do mundo que impeçam o Google de usar e abusar desta técnica, acreditamos que o SEME é uma séria ameaça aos sistemas democráticos de governo.

O Google Trends, enquanto escrevo, mostra que Donald Trump está atualmente surrando todos os outros candidatos na atividade de busca em 47 dos 50 estados. Esta atividade poderia empurrá-lo para cima nos rankings de busca? E estes rankings mais altos poderiam proporcionar mais apoio a ele? Quase que definitivamente – a depender de como os empregados do Google escolham ajustar os coeficientes numéricos no algoritmo de busca. O Google admite ajustar o algoritmo 600 vezes por ano, mas o processo é secreto, então o efeito que o sucesso do Sr. Trump terá sobre em como ele aparece nas buscas do Google está presumivelmente fora das mãos dele.

Nossa nova pesquisa deixa poucas dúvidas a respeito da capacidade do Google de controlar os eleitores. Em experimentos de laboratório e online realizados nos EUA fomos capazes de impulsionar a proporção de pessoas que preferem qualquer candidato entre 37% e 63% após apenas uma sessão de busca. O impacto do ranking de visualizações tendencioso repetido por um período de semanas ou meses seria indubitavelmente maior.

Em nosso experimento básico os participantes foram distribuídos aleatoriamente em um de três grupos, nos quais os rankings de busca favoreciam o candidato A, candidato B e nenhum candidato. Foram fornecidas aos participantes breves descrições de cada candidato, e então perguntamos a eles o quanto gostaram e confiaram em cada candidato, e em quem eles votariam. Então foi permitido a eles 15 minutos para realizarem pesquisa online sobre os candidatos utilizando um mecanismo de buscas semelhante ao Google, que criamos e denominamos Kadoodle.

Cada grupo teve acesso aos mesmos 30 resultados de busca – todos resultados de buscas reais vinculados a páginas web reais de uma eleição passada. Apenas a ordem dos resultados diferiu nos três grupos. As pessoas podiam clicar livremente em qualquer resultado ou alternar entre qualquer das cinco diferentes páginas dos resultados, assim como qualquer um pode no mecanismo de busca do Google.

Quando nossos participantes estavam fazendo buscas, perguntamos a eles algumas questões novamente, e,voilà: em todas as mensurações as opiniões se alteraram na direção do candidato que tinha sido favorecido no ranking. Confiança, simpatia e preferência de voto foram alteradas previsivelmente.

O mais alarmante, também demonstramos esta alteração com eleitores reais durante uma campanha eleitoral real – num experimento conduzido com mais de 2.000 eleitores indecisos por toda a Índia durante a eleição de 2014 para o Lok Sabha (Câmara do Parlamento Indiano) – a maior eleição democrática da história, com mais de 800 milhões de eleitores habilitados e 480 milhões de votos finalmente computados. Mesmo aqui, com eleitores reais que estavam altamente familiarizados com os candidatos e que estavam sendo bombardeados com retórica de campanha todos os dias, mostramos que os rankings de busca poderiam aumentar a proporção de pessoas a favor de qualquer candidato em mais de 20 % - mais de 60% em alguns grupos demográficos.

Dado quão poderoso é este efeito, é possível que o Google tenha decidido o vencedor da eleição na Índia. Os dados diários do Google sobre a atividade de buscas relacionadas à eleição (subsequentemente removidas da internet, mas não antes que eu e meus colegas baixássemos as páginas) mostraram que Narendra Modi, o vencedor final, superava seus rivais em atividade de busca em mais de 25% por 61 dias consecutivos antes que os votos finais fossem computados. O alto volume de atividades de busca poderia facilmente ter gerado rankings de busca mais altos para Modi.

O comentário oficial do Google sobre a pesquisa SEME é sempre o mesmo: “Fornecer respostas relevantes tem sido o fundamento da abordagem do Google em buscas desde o início. Se tivéssemos que mudar o curso, isto abalaria a confiança das pessoas em nossos resultados e na companhia”.

Algum comentário poderia ser mais sem sentido? Como fornecer “respostas relevantes” às questões relacionadas à eleição exclui a possibilidade de favorecimento a um candidato sobre outro nos rankings de busca? A declaração do Google parece muito próxima de uma negativa encoberta de que sempre põe seus dedos na balança.

Há três cenários confiáveis sob os quais o Google poderia facilmente estar “virando” eleições pelo mundo enquanto você lê isto:

Primeiro, há o Cenário Western Union: os executivos do Google decidem qual candidato é melhor para nós – e para a companhia, é claro – e burlam os rankings de busca em conformidade com isto. Há precedente nos EUA para este tipo de manipulação eleitoral (backroom king-making). Rutherford B. Hayes, o 19o presidente dos EUA, foi posto no cargo, em parte, devido ao forte apoio da Western Union. Nos idos de 1800 a Western Union tinha o monopólio das comunicações na América, e pouco antes das eleições de 1876 a companhia fez o seu melhor para assegurar que apenas novas estórias positivas sobre Hayes aparecessem nos jornais a nível nacional. Também compartilhou todos os telegramas enviados pela equipe de seu oponente com a equipe de Hayes. Talvez o modo mais efetivo de influência política exercida no atual mundo da tecnologia seja doar dinheiro a um candidato e então usar a tecnologia para assegurar que ele ou ela vença. A tecnologia garante a vitória, e a doação garante comprometimento, o que o Google tem certamente explorado nos anos recentes da administração Obama.

Dado o forte vínculo do Google com os democratas, há razão para suspeitar que se o Google ou seus empregados interferirem para favorecer seus candidatos, será para ajustar o algoritmo de busca para favorecer Hillary Clinton. Em 2012 o Google e seus principais executivos doaram mais de 800 milhões de dólares para Obama, mas apenas 37 mil dólares para Romney. Pelo menos seis altos funcionários de tecnologia no governo Obama, incluindo Megan Smith, diretora executiva de tecnologia do país, são antigos empregados do Google. De acordo com uma publicação recente do Wall Street Journal, desde que Obama chegou ao cargo, representantes do Google têm visitado a Casa Branca com frequência dez vezes superior aos representantes de outras companhias – uma vez por semana, em média.

Hillary Clinton claramente tem o apoio do Google e é bem atenta aos valores do Google nas eleições. Em abril deste ano ele empregou uma alta executiva do Google, Stephanie Hannon, para trabalhar como sua diretora de tecnologia. Não tenho razões para suspeitar que Hannon usaria suas antigas relações para auxiliar sua candidata, mas o fato é que ela – ou qualquer outro indivíduo com influência no Google – ter o poder de decidir eleições, ameaça solapar a legitimidade do sistema eleitoral, particularmente em eleições que são vencidas por pequenas margens.

Este é, de qualquer forma, o cenário mais improvável. Que companhia se arriscaria ao repúdio público ou às punições corporativas que se seguiriam ao ser pega manipulando eleições?

Segundo, há o Cenário Marius Milner: Um funcionário desonesto no Google que possua senha com autoridade suficiente, ou habilidades de hacker, faz uns poucos ajustes nos rankings (talvez após receber uma mensagem de texto de algum velho amigo que agora trabalha na campanha), e a obra está feita. Em 2010, quando o Google foi pego fazendo varredura de informações pessoais de redes Wi-Fi desprotegidas em mais de 30 países usando veículos do Google Street View, a culpa foi atribuída a um único funcionário: o engenheiro de software Marius Milner. Então eles o demitiram, certo? Não. Ele ainda está lá. E no LinkedIn ele atualmente identifica sua profissão como “hacker”. Se, de algum modo, você teve a impressão de que ao menos uns poucos dos 37.000 funcionários do Google são um pouquinho mais espertos que Milner e possuem uma certa malícia – bem, você provavelmente está certo, motivo pelo qual o cenário do empregado desonesto não é exagerado como pode parecer.

E terceiro, – e esta é a possibilidade mais assustadora – há o Cenário do Algoritmo: Sob este cenário todos os empregados do Google são cordeirinhos inocentes, mas o software é mau. O algoritmo de busca do Google está empurrando um candidato para o topo dos rankings devido ao que a companhia pudicamente desconversa e atribui tudo à atividade “orgânica” de buscas pelos usuários; é inofensivo, veja você, porque é natural. Sob este cenário, um programa de computador está escolhendo nossas autoridades eleitas.

Colocando de outra maneira. Nossa pesquisa sugere que não importa quão inocentes ou desinteressados os empregados do Google possam ser, o algoritmo de buscas do Google, impulsionado pela atividade dos usuários, tem sido determinante no resultado de eleições vencidas por pequenas margens pelo mundo por anos, com progressivo impacto a cada ano devido à crescente penetração da internet.

O SEME é poderoso precisamente porque o Google é bom no que faz, seus resultados de busca são geralmente esplêndidos. Tendo aprendido este fato, com o tempo chegamos a um alto grau de confiança naqueles resultados. Também aprendemos que bem ranqueado significa material melhor, motivo pelo qual 50% de nossos cliques vão para os primeiros dois itens, com mais de 90% de todos os cliques indo para aquela primeira página da busca. Infelizmente, quando se trata de eleições, aquela confiança extrema que temos desenvolvido nos torna vulneráveis à manipulação.

Nos dias finais de uma campanha, fortunas são gastas em blitzes na mídia direcionadas a um punhado de municípios onde eleitores indecisos determinarão os vencedores em todos os estados indecisos. Que desperdício de recursos! A pessoa certa no Google poderia influenciar aqueles eleitores chave mais do que poderia qualquer discurso de campanha; não há recurso mais barato, mais eficiente ou meio mais sutil para “virar” os eleitores indecisos que o SEME. O SEME também tem uma misteriosa vantagem sobre cartazes e outdoors: quando as pessoas estão inconscientes da origem da influência, elas acreditam não estar sendo influenciadas de modo algum; acreditam que decidiram por conta própria.

Republicanos, anotem: Seria particularmente fácil para o Google realizar uma manipulação em benefício de Hillary Clinton, porque de todos os grupos demográficos que observamos até agora, nenhum tem sido mais vulnerável ao SEME – em outras palavras, tão cegamente confiantes em rankings de busca – do que republicanos moderados. Num experimento nacional que conduzimos nos EUA fomos capazes de alterar em elevadíssimos 80% dos republicanos moderados em qualquer direção que escolhemos, apenas variando rankings de busca.

Há muitas maneiras de influenciar eleitores – mais maneiras que nunca nestes dias, graças à TV a cabo, aos dispositivos móveis e à internet. Por que ter tanto medo do mecanismo de busca do Google? Se os rankings são tão influentes, todos os candidatos não estariam usando as últimas técnicas de SEO (Search Engine Optimization – Otimização de Mecanismos de Busca) para certificarem-se de ficar bem ranqueados?

SEO é competitivo, como são outdoors e comerciais de TV. Sem problema aí. O problema é que, para todos os propósitos práticos, há apenas um mecanismo de busca. Mais de 75% das buscas online nos EUA são realizadas no Google, e em muitos outros países esta proporção é de 90%. Isto significa que se o CEO do Google, um empregado desonesto ou mesmo apenas o algoritmo de busca por si mesmo, favorecer um candidato, não há meio de contra-atacar esta influência. Seria como se a Fox News fosse o único canal de televisão do país. Com a crescente penetração da internet e mais pessoas obtendo informação online sobre os candidatos, o SEME torna-se uma forma cada mais forte de influência, o que significa que os programadores e executivos que controlam mecanismos de busca também tornam-se mais poderosos.

Pior ainda, nossa pesquisa mostra que mesmo quando as pessoas notam que estão sendo influenciadas por rankings de busca, suas preferências de voto ainda se alteram nas direções desejadas – até mais do que as preferências das pessoas que estão alheias à influência. Em nosso estudo nacional, nos EUA, 36% das pessoas que eram inconscientes da influência dos rankings mudaram em direção ao candidato que escolhemos por elas. Mas 45% daqueles que estavam conscientes da influência também mudaram. É como se a influência estivesse servindo como uma forma de prova social; o mecanismo de busca claramente prefere um candidato, logo este candidato deve ser o melhor. (Resultados de busca são presumidamente tendenciosos, afinal; eles supostamente nos mostram o que é melhor, o segundo melhor e assim por diante).

Rankings tendenciosos são difíceis de serem detectados por indivíduos, mas e a respeito de reguladores e fiscais eleitorais? Infelizmente, o SEME é fácil de esconder. A melhor maneira de exercer este tipo de influência é fazer o que o Google, a cada dia, está se tornando melhor em fazer: emitir relatórios de busca customizados. Se resultados de busca que favorecem a um candidato forem enviados a indivíduos vulneráveis, os reguladores e fiscais serão especialmente pressionados a encontrá-los.

Para registro, a propósito, nossos experimentos atendem às normas de ouro da pesquisa em ciências sociais: são aleatórias (o que significa que as pessoas são distribuídas aleatoriamente em diferentes grupos), controladas (o que significa que incluem grupos nos quais as interferências estão tanto presentes como inexistentes), contrabalançadas (o que significa que detalhes críticos, como nomes, são apresentados a metade dos participantes em uma ordem e na ordem inversa à outra metade) e em dupla ocultação (double-blind - o que significa que nem os sujeitos das experiências, nem ninguém que interage com eles, têm qualquer ideia de quais sejam as hipóteses ou em que grupos de pessoas estão distribuídas). Os sujeitos de nossas pesquisas são diversificados, correspondem tão próximo quanto possível às características do eleitorado do país. Finalmente, nossa publicação recente no PNAS incluiu quatro reproduções; em outras palavras, demonstramos repetidamente – sob diferentes condições e com diferentes grupos – que o SEME é real.

Nossa pesquisa mais recente sobre o SEME, realizada com aproximadamente 4.000 pessoas pouco antes das eleições nacionais no Reino Unido, na primavera passada, procura meios pelos quais sejamos capazes de proteger as pessoas da manipulação. Encontramos o monstro; agora estamos tentando compreender como matá-lo. O que temos aprendido até agora é que a única forma de proteger as pessoas de ranking de buscas tendenciosos é quebrar a confiança que o Google trabalhou tão duro para construir. Quando deliberadamente mesclamos rankings, ou quando exibimos vários tipos de alertas que identificam o viés, podemos, em parte, suprimir o SEME.

Entretanto, é difícil imaginar o Google alguma vez degradando seus produtos e debilitando sua confiança de tal maneira. Para proteger eleições livres e justas, isto nos deixa apenas uma opção, tão impalatável quanto possa parecer: regulação governamental. (Grifos do autor).


Publicado no site da Politico Magazine.

Tradução: Flavio Ghetti

sexta-feira, junho 12, 2015

O que é visto e o que não é visto no controle de armas.





por Sheldon Richman




O número abominável de assassinatos por todo o país tem, previsivelmente, renovado o apelo pelo maior controle de armas. Defensores do banimento de armas caem na falácia clássica que é usualmente associada às políticas econômicas. Mas isto se aplica completamente a todas as políticas governamentais, incluindo controle de armas.

No século XIX, o economista francês Frederic Bastiat, explicou que para que compreendamos as consequências de uma política devemos considerar tanto o que é visto como o que não é visto. Esta foi também a lição ensinada por Henry Hazlitt, discípulo intelectual de Bastiat, em seu famoso livro “Economia numa única lição”. Hazlitt identificou a “persistente tendência dos homens em ver apenas os efeitos imediatos de uma dada política ou apenas seus efeitos num grupo em particular, e a negligenciar a pesquisa de que os efeitos de longo prazo daquela política atingirão não apenas aquele grupo em particular, mas todos os grupos. Esta é a falácia de omitir as consequências secundárias”.

O famoso caso de negligenciar o que não é visto, é claro, é o caso da vidraça quebrada (de Bastiat). Os observadores estão propensos a notar que o vidraceiro obterá novas receitas. Não atentam em que se a vidraça não tivesse sido quebrada, o proprietário da vidraça poderia ter gasto seu dinheiro para melhorar sua situação ao invés de meramente restaurá-la. Isto é o que não é visto.

Se você pensa que esta é uma falácia que ocorre raramente, apenas leia os jornais após o próximo furacão, terremoto ou desastre natural. Certamente alguém enunciará o bordão: projetos de reconstrução.

Se observamos apenas as consequências óbvias imediatas, avaliaremos mal e incorretamente as circunstâncias e qualquer política daí resultante será ruim. Este é o problema com o controle de armas.

O não visto na venda de armas
Os defensores do banimento de armas reagem à notícia de um tiroteio dizendo que se o assaltante/assassino não tivesse tido acesso a armas de fogo aquele tiroteio não teria ocorrido. É claro, isto é verdade: o tiro requer uma arma. Mas isto prova muito menos do que pensam os controladores. Isto não significa que se o assassino não tivesse sido capaz de obter uma arma legalmente ele não a obteria de algum outro modo. Defensores do controle de armas, (Brady Law, nos EUA) algo que requer um período de espera e verificação de antecedentes para os compradores de armas, exultam que dezenas de milhares de pessoas tenham tido seus pedidos de porte de armas recusados. A maioria, com certeza, não eram criminosos violentos. Mas este não é o fim da estória. Um bandido que teve sua aquisição de armas negado desistirá tão facilmente? Ou ele está apto a recorrer ao mercado negro para adquirir uma arma? Ou pior, ele não pode assaltar uma loja de armas ou a casa de alguém para roubar uma arma?

O controle de armas dá as costas a este simples fato: pessoas que usam armas para infringir a lei, infringirão a lei para obter armas.

Os controladores veem a diminuição da venda de armas. Eles não veem, e consequentemente não levam em consideração, os meios alternativos para aquisição de armas.

As vítimas não vistas
A falha em considerar o não visto não para aqui. Após cada assassinato, ouvimos a enumeração de estatísticas de quantas pessoas são assassinadas por armas de fogo a cada ano. A implicação é que sem armas a taxa de assassinatos diminuiria. Somos lembrados também de como muitos acidentes com armas ocorrem (a taxa de acidentes com armas, entretanto, tem caído), e somos levados a acreditar que se a posse legal de armas fosse restringida severamente menos pessoas morreriam a cada ano por disparos. Não é verdade.

Para ser claro, algumas pessoas que foram mortas poderiam estar vivas hoje. Mas algumas que não foram mortas, teriam sido. Como assim? Isto pode surpreender, por não ter nenhuma publicidade, mas pessoas usam armas defensivamente (quase sempre sem dispará-las) dois milhões e meio de vezes a cada ano. Como aponta John Lott, da Escola de Direito da Universidade de Chicago, este número inclui os incidentes em que massacres são prevenidos ou reduzidos e nos quais mães impedem roubos quando suas crianças estão em seus carros.

Em um artigo para o The American Enterprise, Lott escreveu: “Na superfície, os tiroteios em escolas parecem um forte argumento para restrição da posse privada de armas. Mas a verdade é que armas manejadas por cidadãos têm salvo vidas em tais incidentes, incluindo alguns recentes”. Ele nos lembra o tiroteio ocorrido recentemente numa escola em Pearl, Mississipi, que poderia ter alcançado um número maior de vítimas caso um assistente não tivesse pego sua arma no carro e a utilizado para conter o agressor até que a polícia chegasse. Um caso similar ocorreu para acabar com um incidente de tiroteio em Edinboro, Pennsylvania.

As mortes que não ocorrem devido a pessoas decentes terem armas não podem ser vistas, e portanto não são introduzidas na apuração do saldo de vítimas. Se as armas forem banidas, as pessoas decentes, não os criminosos, terão perdido um método chave de uso da força para defenderem a si mesmas e a outros. Então, mais pessoas poderão morrer nas mãos de criminosos do que hoje.

Podemos demonstrar isto negativamente com um incidente real. Alguns anos atrás George Hennard Junior entrou numa cafeteria em Killeen, Texas, e abriu fogo matando 23 usuários e ferindo outros 28. Suzanne Gratia Hupp estava lanchando lá com seus pais e os viu sendo assassinados. Acontece que esta mulher usualmente carregava uma pistola em sua bolsa (o que naquela época era ilegal). Mas neste dia, temendo a revogação de uma licença ocupacional recentemente obtida, ela deixou a arma em seu carro quando ela e seus pais entraram na cafeteria. Ela está convencida de que se ela tivesse a arma consigo poderia ter parado o atirador. Seus pais, e outros, poderiam ter sido poupados. Eles podem ser contabilizados entre as vítimas do controle de armas.

Há ainda um outro tipo de “não visto” na questão do controle de armas. A maioria dos estados tem agora legalizado o porte de armas para cidadãos que satisfazem a alguns critérios. Formalmente, as autoridades locais têm ampla discrição na outorga destas permissões. Onde o porte é permitido, são os criminosos que são atormentados pelo que “não é visto”. Eles não podem saber quem tem uma arma e quem não tem. Isto cria um problema para os bandidos. As pessoas que escolhem não portar armas, não obstante, se beneficiam do fato de que outros podem portá-las. Criminosos, tipicamente, não gostam de atacar alvos perigosos. Uma vez que os criminosos não podem saber com antecedência quem está ou não portando uma arma, eles têm de assumir que qualquer um pode estar, se não a vítima em potencial, alguém próximo. Isto é um modo de criar segurança nas ruas.

Um mundo sem armas não seria um mundo mais seguro do que um mundo em que pessoas decentes tenham permissão de possuí-las. Sem armas, os bandidos maiores e mais fortes teriam vantagem sobre as vítimas menores e mais fracas. As mulheres, especialmente, sofreriam. Num mundo sem armas o “não visto” seriam as vítimas de espancamentos fatais e esfaqueados que teriam permanecido vivas se possuíssem armas de fogo com as quais pudessem se defender.


http://sheldonfreeassociation.blogspot.com.br/

Tradução: Flávio Ghetti