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segunda-feira, abril 09, 2018

lula é inocente: 3 mil evidências, 13 casos e R$ 80 milhões em propina







por Diego Escosteguy(*).



No fim da tarde de uma segunda-feira recente, o ex-­presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco de um evento organizado pelo PT em Brasília. Empunhou sua melhor arma: o microfone. Aos profissionais da imprensa que cobriam o evento, um seminário para discutir os rumos da economia brasileira, o ex-presidente dispensou uma ironia:
“Essa imprensa tão democrática, que me trata maravilhosamente bem e, por isso, eu os amo, de coração”. 
Lula estava a fim de debochar. Não demorou para começar a troça sobre os cinco processos criminais a que responde na Justiça. Disse que há três anos ouve acusações sem o direito de se defender, como se não tivesse advogados. “Eu acho que está chegando a hora de parar com o falatório e mostrar prova. Eu acho que está chegando a hora em que a prova tem de aparecer em cima do papel”, disse, alterado. Lula repetia, mais uma vez, sua tática diante dos casos em que é réu: sempre negar e nunca se explicar. E prosseguiu: 

“Eu quero que eles mostrem R$ 1 numa conta minha fora desse país ou indevida. Não precisa falar que me deu 100 milhão, 500 milhão, 800 milhão... Prove um. Não estou pedindo dois. Um desvio de conduta quando eu era presidente ou depois da Presidência”. 


Encerrou o discurso aplaudido, aos gritos de “Brasil urgente, Lula presidente!”.

A alma mais honesta do Brasil, como o ex-presidente já se definiu, sem vestígio de fina ironia, talvez precise consultar seus advogados – ou seus processos. Há, sim, provas abundantes contra Lula, espalhadas em investigações que correm em Brasília e em Curitiba. Estão em processos no Supremo Tribunal Federal, em duas Varas da Justiça Federal em Brasília e na 13ª Vara Federal em Curitiba, aos cuidados do juiz Sergio Moro. Envolvem uma ampla e formidável gama de crimes: corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, crime contra a Administração Pública, fraude em licitações, cartel, tráfico de influência e obstrução da Justiça. O Ministério Público Federal, a Polícia Federal, além de órgãos como a Receita e o Tribunal de Contas da União, com a ajuda prestimosa de investigadores suíços e americanos, produziram, desde o começo da Lava Jato, terabytes de evidências que implicam direta e indiretamente Lula no cometimento de crimes graves. Não é fortuito que, mesmo antes da delação da Odebrecht, Lula já fosse réu em cinco processos – três em Brasília e dois em Curitiba. Também não é fortuito que os procuradores da força-tarefa da Lava Jato, após anos de investigação, acusem Lula de ser o “comandante máximo” da propinocracia que definiu os mandatos presidenciais do petista, desfalcando os cofres públicos em bilhões de reais e arruinando estatais, em especial a Petrobras.


A estratégia de Lula é clara e simples. Transformar processos jurídicos em campanhas políticas – e transformar procuradores, policiais e juízes em atores políticos desejosos de abater o maior líder popular do país. Lula não discute as provas, os fatos ou as questões jurídicas dos crimes que lhe são imputados. Discute narrativas e movimentos políticos. Nesta quarta-feira, dia 10, quando estiver diante de Moro pela primeira vez, depondo no processo em que é réu por corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de receber propina da OAS por meio do tríplex em Guarujá, Lula tentará converter um ato processual (um depoimento) num ato político (um comício).


Se não conseguir desviar a atenção, saindo pela tangente política, Lula terá imensa dificuldade para lidar com as provas – sim, com elas. Nesses processos e em algumas investigações ainda iniciais, todos robustecidos pela recente delação da Odebrecht, existem, por baixo, cerca de 3 mil evidências contra Lula. Elas foram analisadas por ÉPOCA. Algumas provas são fracas – palavrórios, diria Lula. Mas a vasta maioria corrobora ou comprova os crimes imputados ao petista pelos procuradores. Dito de outro modo: existe “prova em cima de papel” à beça. Há, como o leitor pode imaginar, toda sorte de evidência: extratos bancários, documentos fiscais, comprovantes de pagamento no Brasil e no exterior, contratos fajutos, notas fiscais frias, e-mails, trocas de mensagens, planilhas, vídeos, fotos, registros de encontros clandestinos, depoimentos incriminadores da maioria dos empresários que pagavam Lula. E isso até o momento. As investigações prosseguem em variadas direções. Aguardem-se, apesar de alguns percalços, delações de homens próximos a Lula, como Antonio Palocci e Léo Pinheiro, da OAS. Renato Duque, ex-executivo da Petrobras, deu um depoimento na sexta-­feira, dia 5, em que afirma que Lula demonstrava conhecer profundamente os esquemas do petrolão. Existem outras colaborações decisivas em estágio inicial de negociação. Envolvem crimes no BNDES, na Sete Brasil e nos fundos de pensão. Haja prova em cima de papel.


Trata-se até agora de um conjunto probatório, como gostam de dizer os investigadores, para lá de formidável. Individualmente e isoladas, as provas podem – apenas – impressionar. Coletivamente, organizadas em função do que pretendem provar, são destruidoras; em alguns casos, aparentemente irrefutáveis. Nesses, podem ser suficientes para afastar qualquer dúvida razoável e, portanto, convencer juízes a condenar Lula por crimes cometidos, sempre se respeitando o direito ao contraditório e à ampla defesa – e ao direito a recorrer de possíveis condenações, como qualquer brasileiro. Não é possível saber o desfecho de nenhum desses processos.




Ainda assim, os milhares de fatos presentes neles, na forma de provas judiciais, revelam um Lula bem diferente daquele que encanta ao microfone. As provas jogam nova luz sobre a trajetória de Lula desde que assumiu o Planalto. Assoma um político que conheceu três momentos distintos. O primeiro momento deu-se como um presidente da República que decidiu testar os limites do fisiologismo e clientelismo da política brasileira. A partir de 2003, e com mais força em 2004, Lula começou a agir para beneficiar, em atos sucessivos, empreiteiras e grandes grupos empresariais, por meio de homens de confiança em postos-­chave no governo. Era, naquele momento, um político cujas campanhas e base aliada eram financiadas, comprovadamente, com dinheiro de propina desses mesmos empresários – entre outros. Era um político que caíra nas graças do cartel de empreiteiras que rapinava a Petrobras e comprava leis no Congresso.


O segundo momento sobreveio entre 2009 e 2010, conforme o tempo dele no poder se aproximava do fim – e, com Dilma Rousseff como sucessora, todos, em tese, continuariam a prosperar. Nesse ponto, assomou um político que, pelo que as provas e depoimentos indicam, passaria a viver às custas das propinas geradas pelo cartel que ajudara a criar. Entre 2009 e 2010, o cartel, em especial Odebrecht e OAS, passou a se movimentar para assegurar que Lula e sua família tivessem uma vida confortável. Faziam isso porque, como já explicaram, deviam propina ao ex-presidente e, não menos importante, pela expectativa de que ele usasse sua influência junto a Dilma Rousseff para manter o dinheiro do governo entrando nas empresas – como fez, de fato, em algumas ocasiões.


Nesse período de final de mandato, houve uma série de operações fraudulentas e clandestinas, comandadas pelo cartel, que resultaram na multiplicação do patrimônio de Lula. Usaram-se laranjas e intrincadas transações financeiras para esconder a origem do dinheiro dos novos bens do ex-presidente. Mas, hoje, esses estratagemas foram descobertos, com fartura de provas, pelos investigadores. Da Odebrecht, Lula ganhou o prédio para abrigar seu instituto, um apartamento em São Bernardo do Campo, onde mora até hoje, e a reforma de um sítio em Atibaia que, todas as provas demonstram, pertence ao petista, e não é somente “frequentado” por ele. Da OAS, ganhou o famoso tríplex em Guarujá, assim como as reformas pedidas por ele – o apartamento só ficou pronto após a Lava Jato, de modo que não houve tempo para que Lula e família se mudassem para lá. A mesma OAS passou a bancar o armazenamento do acervo presidencial do petista. Todas essas operações – todas – foram feitas clandestinamente, para ocultar o vínculo entre Lula e as empreiteiras. Todas foram debitadas do caixa de propinas que Lula mantinha junto às empreiteiras.


Além de dar moradia a Lula, as empreiteiras passaram a bancar o ex-presidente e sua família, além de pessoas próximas. Havia, segundo as provas disponíveis, pagamentos de propina da Odebrecht a um dos filhos do presidente, a um irmão dele, a um sobrinho e a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e um dos assessores mais próximos de Lula. Havia pagamentos em dinheiro vivo e, em alguns, casos, por meio de empresas – como a de um filho e a de um sobrinho. Havia, ainda, os pagamentos à empresa de palestras de Lula e ao próprio Instituto Lula. Na maioria dos casos, segundo as evidências, não se tratava de doação ou contratação para palestras, embora essas tenham acontecido em alguns casos. Trata-se de propina disfarçada de doação. Até que a Lava Jato mudasse tudo, Lula e seus familiares receberam, de acordo com as evidências disponíveis e se obedecendo a um cálculo conservador, cerca de R$ 82 milhões em vantagens indevidas – bens ou pagamentos ilegais.


O terceiro momento de Lula, aquele que as provas revelam com mais nitidez, precipita-se em março de 2014, quando irrompe a Lava Jato. O petista, que sabia o que fizera e intuía o potencial da operação, preocupou-se. É esse Lula preocupado – quiçá desesperado – que aparece nos processos de obstrução da Justiça. Que, segundo depoimentos e documentos, tenta destruir provas. Tenta, em verdade, destruir a Lava Jato, para por ela não ser destruído. Há semanas, dias antes do discurso de Lula em Brasília, a voz rouca de Léo Pinheiro sacudira Curitiba. Diante do juiz Sergio Moro, Léo Pinheiro expunha segredos guardados por anos. 
“Eu tive um encontro com o presidente, em junho... bom, isso tem anotado na minha agenda, foram vários encontros.” Era 20 de abril e Léo falava de um encontro mantido há quase três anos, em maio de 2014, quando a Lava Jato começava a preocupar. 

“O presidente, textualmente, me fez a seguinte pergunta: ‘Léo’, e eu notei até que ele estava um pouco irritado, ‘você fez algum pagamento a João Vaccari no exterior?’. Eu disse: ‘Não, presidente, nunca fiz nenhum pagamento dessas contas que nós temos com Vaccari no exterior’. ‘Como é que você está procedendo os pagamentos para o PT?’. ‘Através do João Vaccari. Estou pagando, estamos fazendo os pagamentos através de orientação do Vaccari, caixa dois e doações diversas que nós fizemos a diretórios e tal’. ‘Você tem algum registro de algum encontro, de conta, de alguma coisa feita com o João Vaccari com você? Se tiver, destrua. Ponto. Acho que quanto a isso não tem dúvida’.”


Lula, como Renato Duque confirmou em depoimento a Moro na sexta-feira, estava se mexendo para descobrir quanto estava sob risco. No depoimento, Duque, que fora indicado pelo PT e pelo próprio Lula à Diretoria de Serviços da Petrobras, destruiu o antigo chefe. Disse, como Léo Pinheiro, que Lula “tinha o pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”. Referia-se ao petrolão. Nas últimas semanas, Duque e o ex-ministro Palocci disputavam quem fecharia antes um acordo de delação premiada, em busca de pena menor. Ambos pretendiam entregar informações sobre Lula, pois suas defesas detectaram que a Lava Jato queria mais elementos para cravar que o então presidente não só sabia da existência, como comandava o esquema de corrupção na Petrobras. Palocci recuou duas ou três casas em sua negociação, após a libertação do ex-ministro José Dirceu. Duque aproveitou para avançar. Disse que encontrou Lula pessoalmente três vezes. “Nessas três vezes ficou claro, muito claro para mim, que ele tinha pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”, disse Duque. No último encontro, em 2014, segundo Duque, Lula perguntou se ele tinha recebido dinheiro na Suíça da holandesa SBM, fornecedora da Petrobras. Duque diz que negou. Lula, então, perguntou: “Olha, e das sondas? Tem alguma coisa?”. Lula se referia a negócios da Sete Brasil, a estatal criada para turbinar o petrolão. Duque afirma que mentiu a Lula ao dizer que não tinha. Ouviu do então presidente, de saída do cargo: “Olha, presta atenção no que vou te dizer. Se tiver alguma coisa, não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?”.




No ano seguinte, Lula prosseguiu em sua tentativa desesperada de sabotar a Lava Jato. Em maio de 2015, o então senador Delcídio do Amaral foi à sede do Instituto Lula, em São Paulo. Àquela altura, líder do governo no Senado, Delcídio era um interlocutor frequente de Lula sobre a situação precária do governo Dilma no Congresso, mas, principalmente, sobre o avanço da Lava Jato em direção ao coração petista. Na conversa, Lula se disse preocupado com a possibilidade de seu amigo, o pecuarista José Carlos Bumlai, ser engolfado pela operação. Delcídio percebeu que fora convocado para discutir o assunto. Avisou que Bumlai poderia ser preso devido às delações do lobista Fernando Baiano e do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Delcídio também tinha medo disso, pois recebera propina junto com Cerveró. Então, contou a Lula que, quatro meses antes, recebera um pedido de ajuda financeira de Bernardo, filho de Cerveró. Delcídio afirma que Lula determinou que era preciso ajudar Bumlai.




Assim, Delcídio passou a trabalhar. Dias depois, encontrou-se com Maurício, filho de Bumlai, e “transmitiu o recado e as preocupações de Lula”. Maurício topou a empreitada: era preciso bancar as despesas com advogado e sustentar a família para “segurar” a delação de Cerveró e, assim, tentar salvar o pai de Maurício. Nos meses seguintes, Maurício Bumlai entregou R$ 250 mil em espécie a um assessor de Delcídio, em encontros em São Paulo. O dinheiro era levado depois à família Cerveró. Quando, em setembro, ÉPOCA publicou que Cerveró fechara um acordo de delação, Maurício interrompeu os pagamentos. Em novembro de 2015, Delcídio foi preso, por ordem do Supremo, por tentar obstruir a Lava Jato.



Por meio de nota, o Instituto Lula afirma que “não há nenhum” ato ilegal nas delações dos executivos da Odebrecht e que as delações não são provas, mas “informações prestadas por réus confessos que apenas podem dar origem a uma investigação. Por enquanto, o que existe são depoimentos feitos aos procuradores, a acusação, divulgados de forma espetacular”. Sobre a “conta Amigo”, a nota afirma ser “a mais absurda de todas as ilações no depoimento de Marcelo Odebrecht”. “Se for verdadeiro o depoimento, Marcelo Odebrecht teria feito, na verdade, um aprovisionamento em sua contabilidade para eventuais e futuras transferências ou pagamentos. A ser verdadeira, trata-se, como está claro, de uma decisão interna da empresa. Uma ‘conta’ meramente virtual, que nunca se materializou em benefícios diretos ou indiretos para Lula.” Sobre a ajuda da Odebrecht a Luís Cláudio, um dos filhos de Lula, o Instituto Lula afirma que “mesmo considerando real o relato de delatores que precisam de provas, Emílio Odebrecht e Alexandrino Alencar relatam que a ajuda para o filho de Lula iniciar um campeonato de futebol americano foi voluntária e após diversas conversas e análises do projeto”. Sobre a mesada de R$ 5 mil que a Odebrecht pagou por anos a Frei Chico, irmão do ex-presidente, a nota afirma que “não só Lula não pediu, como não foi dito que Lula teria pedido”. Afirma que o principal assessor de Lula, Paulo Okamotto, “negou ter recebido qualquer ‘mesada’ de Alexandrino Alencar”. O Instituto diz que a Odebrecht não inventou Lula como palestrante e que “as palestras eram lícitas e legítimas”.


(*)DiegoEscosteguy é articulista da Revista Época
Fonte: epoca.globo.com

sábado, março 10, 2018

O que os cursos sobre o “golpe” revelam sobre as universidades estatais brasileiras



por Leonardo Ferreira(*)





Depois de uma década aparentemente adormecida e em plena satisfação, parece que a comunidade acadêmica brasileira enfim despertou, relembrando-nos daquela velha intelectualidade ativista que caracterizou as décadas finais do século XX. Lembramo-nos bem que durante o governo do Partido dos Trabalhadores fazer qualquer crítica àqueles que estavam no poder era praticamente um sacrilégio e até o humor político que sempre fez chacota com qualquer governante foi saindo aos poucos de cena. Quem não se lembra do Casseta & Planeta?

A ditadura branca do politicamente correto fazia vista grossa aos escândalos de corrupção cada vez mais frequentes no governo Lula enquanto ridicularizava e condenava as vozes dissonantes que tentavam esboçar qualquer oposição. Com a queda da ex-presidente Dilma Rousseff e a ascensão de Temer ao poder, os amantes da liberdade de expressão finalmente puderam comemorar. Sem o PT no comando, discordar e criticar o governante voltou a ser prática comum, com todo o apoio dos movimentos que antes condenavam tal “rebeldia”.

Imagine nos tempos de Lula um curso em uma universidade federal com o título “O Golpe do Mensalão”. Imagine se nesses últimos anos tivéssemos cursos sobre “O Golpe da Pedalada” ou “O Golpe da Petrobrás”, eventos históricos de grande relevância que em qualquer país de democracia sólida resultariam em renúncias ou processos de impeachment imediatos. Difícil conceber tal cenário, não é?

Bastou chegarmos a mais um ano de eleições para que certos “cursos” e articulações voltassem a surgir, revelando-nos uma curiosa harmonia entre determinados partidos políticos e nossas universidades. Não vemos harmonia entre comunidade acadêmica e sociedade como muitos ilustres docentes insistem defender, mas sim uma ligação direta entre academia e partidos políticos específicos, ou, para ser mais claro: entre academia e a ideologia socialista que serve de base para a existência de vários partidos.

As universidades estatais brasileiras há muito deixaram de ser campos de estudos e desenvolvimento científico relevantes ou pelo menos salutares para uma ordem social estável. Em contraste, tornaram-se centros de formação política de extrema importância estratégica para determinados partidos que trabalham incessantemente visando a remodelagem da sociedade por métodos no mínimo questionáveis. Tais instituições recebem milhões de reais dos pagadores de impostos todos os anos e continuam apresentando resultados insignificantes em produção científica relevante e outros indicadores.

A criação de “cursos” sobre o “Golpe de 2016” – questionando, entre outras pautas, a atuação da Polícia Federal e a Operação Lava-jato – cria uma narrativa que se adequa à recuperação política dos partidos radicais em declínio e demonstra, mais uma vez, em quê nossos “acadêmicos” estão empenhados: contra os anseios populares de ordem e justiça e a favor da utilização de abundantes recursos financeiros retirados de terceiros para militar em causa própria e manter seus poderes, uma verdadeira casta aristocrática que busca a autopreservação por meio de causas aparentemente nobres como a “luta por democracia”.

Esta total divergência com os anseios populares nos mostra o quanto as universidades se transformaram em verdadeiras bolhas mantidas por uma espécie de elite das cátedras, onde ninguém entra sem antes jurar fidelidade aos métodos e à cosmovisão dirigentes, fazendo-nos até lembrar de determinadas estruturas religiosas e hierárquicas tanto criticadas justamente por aqueles que utilizam meios semelhantes.

Enquanto as universidades continuarem funcionando como colônias de intelectuais que se julgam os redentores da humanidade, o Brasil continuará ocupando as posições mais irrelevantes dos indicadores internacionais de educação, mesmo tendo gastos exorbitantes (proporcionalmente maiores do que muitos países desenvolvidos ou em franca ascensão). Na prática, tais gastos se convertem em privilégios para aqueles que os recebem ou em investimentos mal aplicados que quase nunca resultam em real melhoria para as futuras gerações de brasileiros que necessitam de uma formação sólida que proporcione algo de positivo em suas vidas ao deixarem a academia e buscarem o mercado de trabalho.

(*)Leonardo Ferreira Graduando em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza e fundador do grupo de estudos Clube Atlas.
Fonte - ilisp.org


domingo, julho 02, 2017

A farra do boi




por Guilherme Fiuza, O Globo.






O país do carnaval foi salvo do marasmo pelo procurador-geral da banda.

Isso aqui estava um tédio de dar dó. Depois do golpe de Estado que arrancou do palácio a primeira presidenta mulher, cuja quadrilha estava roubando honestamente sem incomodar ninguém, a sombra desceu sobre o Brasil. Um mordomo vampiresco entregou a Petrobras a um nerd que deixou os pais de família da gangue do Lula no sereno — extinguindo sumariamente o pixuleco, principal direito trabalhista conquistado na última década.

Mas não foi só isso. Além de arrancar a maior empresa nacional da falange patriótica de José Dirceu, o governo golpista da elite branca e velha deu um tranco na economia. Em pouco mais de um ano, estragou um trabalho de três mandatos presidenciais que levara o país a um recorde — a maior recessão da sua história. Enxotou do comando da tesouraria nacional todos aqueles cérebros amanteigados, e aí se deu o choque: inflação e juros caíram, dólar e taxa de risco idem. Uma tragédia.

Como se não bastasse, o mordomo começou a fazer as reformas estruturais que passaram 13 anos na geladeira do proselitismo coitado, que é o que enche a barriga do povo. Antes que o pior acontecesse — a retomada do emprego e do crescimento — apareceu Rodrigo Janot.

Mas não apareceu sozinho, que ele não é bobo e sabe que com elite branca e velha não se brinca. Veio com o caubói biônico do PT — aquele vitaminado por injeções bilionárias do BNDES, o brinquedo predileto do filho do Brasil. Só mesmo um caubói de laboratório teria a bravura suficiente para dizer ao país que comprou todo mundo e o culpado é o mordomo. A partir daí foi só alegria.

A dobradinha do procurador-geral da banda com o supremo tribunal companheiro nunca foi tão eficiente. A enxurrada de crimes da Lava-Jato envolvendo atos diretos e indiretos de Dilma Rousseff passou dois anos morrendo na praia. Já a homologação da pegadinha do caubói caiu do céu como um raio. Aí o delator foi amargar o exílio no seu apartamento em Manhattan, deixando o país paralisado, mas feliz — como no carnaval.

Nesta revolução progressista, também conhecida como farra do boi, Joesley Batista apontou Michel Temer como o chefe da quadrilha mais perigosa do país. Os brasileiros já deviam ter desconfiado disso. Lula e Dilma não davam um pio sem pedir a bênção do vice. Todo mundo sabe que Dirceu morria de medo de Temer, e não deixava Vaccari, Delúbio, Valério, Duque, Bumlai, Palocci e grande elenco roubarem um centavo sem pedir a autorização do mordomo. Chegaram a pensar em denunciá-lo à Anistia Internacional, mas se calaram temendo represálias. Já tinham visto no cinema como os mordomos são cruéis.

Agora estão todos gratos ao caubói biônico, que por sua vez está grato ao procurador-geral da banda — e ao seu homem de confiança que saiu do Ministério Público para montar o acordo da salvação da boiada (sem quarentena, que ninguém é de ferro). O pacto que emocionou o Brasil, festejado nas redes sociais como Operação Free Boy, é um monumento à liberdade talvez só comparável à Inconfidência Mineira.

Nada seria possível sem o desassombro de Edson Fachin, o homologador-geral da banda. Um candidato a juiz capaz de circular no Senado a reboque do lobista de Joesley não teme nada.

O legal disso tudo, além de bagunçar esse governo recatado e do lar com mania de arrumação (a melhora dos indicadores estava dando nos nervos), foi ressuscitar o PT. Depois da delação de João Santana, o roteiro criminal sem precedentes elucidado por Sergio Moro se encaminhava para a prisão de Lula e Dilma — os presidentes do escândalo. Aí veio a farra do boi dizer ao Brasil que, na verdade, Lula e Dilma eram coadjuvantes do mordomo — quem sabe até laranjas dele. E o Brasil, como se sabe, crê.

Alegria, alegria. Zé Dirceu solto, Vaccari absolvido pela primeira vez na Lava-Jato, pesquisas indicando aumento de aceitação ao PT! (Ok, é Datafolha, mas o Brasil crê). E você achando que não viveria para ver rehab de bandido. O auge da poesia foi o lançamento da denúncia de Janot em capítulos, como uma minissérie. Alguns especialistas classificaram-na como “inepta” (ou seja, a cara do pai), mas estão enganados. A denúncia de Janot é apenas um lixo. Quem gosta de inépcia é intelectual.

A alegação de corrupção passiva, por exemplo, é uma espécie de convite à investigação do Cade. Só faltou escrever “tem coisa estranha ali...” Um estudante de Direito poderia achar que quem denuncia sem apurar está cambaleando entre a negligência e a falsidade ideológica. Algum jurista na plateia?

Farra do boi não tem jurista. Tem quadrilha dançando em torno da fogueira de mais uma greve geral cenográfica, porque sacanear o país nunca é demais. Mas eis que chega um correio do amor para o procurador-geral do bando (devem ter errado a grafia). Vamos reproduzi-lo: “Companheiro, agora dê um jeito de completar o serviço e botar esse presidente na rua, depois em cana; acabe com ele, parceiro, porque dizem que maldição de mordomo é terrível. Só não é pior que a de mordomo-vampiro.”

(*)Guilherme Fiuza é jornalista

domingo, maio 14, 2017

Lula-2010 confessou o que Lula-2017 esconde



por Augusto Nunes (Veja)



Em 7 de outubro de 2010, empenhado no segundo turno da sucessão presidencial, Lula desembarcou em Angra dos Reis para batizar a plataforma P-56 da Petrobras. Caminhando de um lado para outro, o palanque ambulante revelou o que acabaria por transformá-lo, neste maio de 2017, num forte candidato à cadeia:

“Teve um tempo que a diretoria da Petrobras – não é no seu tempo não, Zé Sérgio – achava… achava que era o Brasil que pertencia à Petrobras, não era a Petrobras que pertencia ao Brasil. A ponto de ter presidente que falava: ‘A Petrobras é uma caixa preta, ninguém sabe o que acontece lá dentro’”.

Enquanto José Sérgio Gabrielli, então presidente da empresa, e Luiz Fernando Pezão, vice-governador do Rio, se juntaravam no sorriso abobalhado, o estadista de picadeiro derrapou na confissão:

“No nosso governo ela é uma caixa branca. E transparente. Nem tão assim…. Mas é transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro e a gente decide muitas das coisas que ela vai fazer”.


Sete anos depois,, a caixa transparente ficou preta durante o depoimento a Sérgio Moro: “Um presidente da República, nos oito anos que eu fiquei na Presidência da República, a gente não tem reunião com a diretoria da Petrobras”, desconversou Lula.

Intrigado com a informação, Moro perguntou: “Senhor presidente, o senhor tendo nomeado, indicado, pelo menos dado a palavra final para a indicação ao conselho de administração da Petrobras de Paulo Roberto Costa, Renato Souza Duque, Nestor Cuñat Cerveró, Jorge Luiz Zelada, o senhor não tinha conhecimento de nenhum dos crimes por eles praticados enquanto diretores da Petrobras?”. Um surpreendentemente lacônico Lula limitou-se a uma resposta monossilábico: “Não”

“Ou desse esquema criminoso que alguns deles começaram?”, insistiu Moro. “Não. Nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal”, viajou o ex-presidente. “Todos nós só ficamos sabendo quando foi pego no grampo a conversa do Yousseff com o Paulo Roberto Costa”.

Em outro trecho do depoimento, o representante do Ministério Público voltou ao tema. Vale a pena reproduzir o diálogo:

MP: “Senhor ex-presidente, o senhor foi o responsável por indicar o senhor José Eduardo de Barros Dutra para a presidência da Petrobras?”

Lula: “Fui. Fui.”

MP: “Foi uma indicação pessoal do senhor?”

Lula: “Indicação do presidente da República não é pessoal. A indicação de uma instituição chamada Presidência da República”.

MP: “Perfeito. O senhor”.

Lula: “Que é ele e o governo”.

Perdido, o depoente enveredou pela trilha do penhasco:

“Lamentavelmente, quando as pessoas assumem uma empresa importante como a Petrobras, as pessoas viram petroleiros. Ou seja, as pessoas passam a tomar decisões dentro do conselho da Petrobras e não precisam ouvir o presidente da República”.
Como todas as mentiras que desfiou no depoimento que consolidou sua liderança no ranking mundial dos especialistas em perjúrio continuado, também essa tropeçou em uma das inúmeras discurseiras que circulam na internet. Lula o tempo todo prova que Lula mente. Confrontados os vídeos, fica provado que, como Lula-2010 confessou, Lula-2017 é apenas um caso de polícia implorando pela condenação.

quarta-feira, abril 19, 2017

Eu acredito na inocência de Lula



Eu acredito na inocência de Lula.






por Adolfo Sachsida,

Começo esse texto avisando a todos que não sou petista e nem gosto de Lula, mas é inegável que o ex-presidente vem sofrendo uma perseguição criminosa da imprensa desde pelo menos o mensalão. E o Aécio, por que não falam do PSDB?

Sejamos francos: o mensalão provou que Lula é incorruptível. Afinal, todos a seu redor foram condenados (José Dirceu, José Genuino, o tesoureiro do PT, o secretário do PT, etc.), mas sobre o presidente nunca pairaram dúvidas sobre sua honestidade. Quase todo mundo entrou no escândalo do mensalão, menos Lula. Ele mostrou ai sua vocação para a honestidade. Vocação essa que já era clara desde os tempos de sindicalista, onde ele sempre colocou os interesses do trabalhador acima de seu próprio bem estar. Enquanto é comum ouvirmos histórias de sindicalistas que se vendem, de Lula sempre soubemos que nunca se sentou a mesa para conspirar em proveito próprio contra os trabalhadores. Mesmo na época da ditadura inexistem sequer boatos que associem Lula a qualquer tipo de delação ou acordo para se beneficiar a custa de outros. E o FHC? Por que ninguém fala do PSDB?

Lula é um homem modesto e humilde, teve a sorte de ter bons amigos que lhe emprestaram um apartamento triplex e um sítio. E o que a imprensa faz? Acusa Lula de ser dono desses imóveis. Quanta maldade! O filho de Lula, que era estagiário num zoológico, de repente fecha um negócio de milhões de reais, e o que a imprensa faz? Em vez de dar os parabéns para esse jovem empreendedor a imprensa golpista acusa Lula de envolver seus filhos em negociações espúrias. Outro filho de Lula inova e cria um torneio de futebol americano, e lá vai a imprensa acusar Lula de algum crime novamente. O pobre sobrinho de Lula começa a ter sucesso e pronto! Lá vem a imprensa dizendo que isso tem a ver com corrupção e Lula. Que culpa Lula tem nisso tudo??? E o Aécio? Por que ninguém fala do PSDB?

Algumas empresas, em sinal de gratidão, decidem dar uma ajuda para o Instituto Lula (algo absolutamente legal e normal), e lá vem os golpistas novamente dizendo e inventando absurdos sobre Lula. Ora, e o FHC??? por que ninguém fala do PSDB???

Temos agora o escândalo do petróleo e a Lava-Jato, adivinhem quem a imprensa culpa? Sim, culpam Lula de novo. Que culpa pode ter Lula no escândalo da Petrobras, acaso ele podia saber de tudo? Estádio do Corinthians, culpam Lula. Escândalo no BNDES, culpam Lula. E o Aécio? Por que não falam do Aécio?

Os delatores da odebrecht citam Lula, envolvem seu honesto nome em transações criminosas. Ora, desde quando bandidos podem ser levados a sério ao mancharem o nome de Lula? E o FHC? Por que não falam do FHC?

Resumindo: Lula não está milionário com dinheiro de corrupção, suas palestras eram honestas fonte de recursos, ele não é dono do Triplex (apenas visitava com frequência), ele não é dono do sítio (que é de um amigo que lhe emprestava), não tem culpa de seus filhos e parentes serem fenômenos no mundo dos negócios, não pode ser culpado por ser presidente na época do mensalão (quando seus principais assessores estavam envolvidos), não pode ser responsabilizado pelas delações de vários delatores que o colocam no centro do escândalo do petróleo. Lula também não pode ser culpado apenas porque o ministério público fez um power point que o coloca como chefe do petróleo. Por que ninguém fala do Aécio e do FHC? Do PSDB ninguém fala nada!

Eu acredito na inocência de Lula. Pouco importam os fatos e as provas, Lula será eternamente inocente! Essa é a visão e o discurso de um petista padrão. Eles não se chocam com a corrupção e nem com a roubalheira generalizada. Só tem uma coisa que revolta esse pessoal: o pixuleco. Por isso eu digo: viva o pixuleco!

quinta-feira, março 10, 2016

Lula sabe que não engana Sérgio Moro, por isso esperneia.






Lula sabe que não engana Sérgio Moro, por isso esperneia.por Hermes Rodrigues Nery






A decisão do juiz Sérgio Moro, de obrigar o ex-presidente Lula a depor por meio de uma ação coercitiva, na manhã da sexta-feira, no dia 4 de março de 2016, foi certamente um dos fatos mais relevantes da história recente do Brasil, com implicações, consequências e desdobramentos que poderão ser um divisor de águas. Moro acertou o alvo ao deflagar a “Operação Aletheia”, e poderá estar fazendo a verdadeira reforma política, que é o grande anseio do povo brasileiro, exausto das espertezas de Lula, que há décadas encarnou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Acertou o alvo porque, à frente da Operação Lava Jato, o juiz Sérgio Moro atinge o cerne de toda a problemática, que é a questão moral, pois a crise que vivemos atualmente é mais do que política ou econômica, mas profundamente moral. Com isso ele presta um grande serviço à nação brasileira, na medida em que trabalha para fazer cumprir a lei, pois a democracia é não só a garantia das liberdades individuais, mas sobretudo [justamente para fazer valer a liberdade com responsabilidade], o cumprimento da lei.

É evidente que Lula e seus apaniguados estão surpreendidos e chocados com tudo o que está acontecendo, com tantos desmoronamentos, pois especialmente Lula se sentia há mais de uma década, acima de tudo e de todos, acima de toda lei, o homem mais blindado de todo o País, com uma blindagem que o fazia se sentir super mimado, como sempre foi paparicado, desde quando Cláudio Hummes criou a Pastoral Operária, assessorado por Frei Betto, para lançá-lo à grande aventura do menino pobre que passou fome e chegou à Presidência da República, mas que sempre desprezou estudar. Quase toda a sua carreira política foi fazendo a “glamourização da ignorância”, como destacou Joice Hasselman, e essa ignorância de “homem-massa” (tão bem descrito por Ortega Y Gasset) que o faz apelar para o emocionalismo, choramingando, como fez, por exemplo, quando foi diplomado Presidente, chegando às lágrimas, comovendo a todos com o seu pieguismo cênico.



Surpreendido às seis da manhã (como no samba do japonês da Federal), daquela sexta-feira, foi ainda poupado pelo próprio Sérgio Moro de ser algemado ou transportado no carro com o emblema da Polícia Federal. E ele fez birra, cara feia, xingou tudo e todos, e disse que ficou muito ofendido, e esperneou. Assim que saiu do Aeroporto de Congonhas, recolheu-se ao diretório do PT, onde proferiu a sua mais hilária e trágica coletiva de imprensa, como o verdadeiro Macunaíma, chorando às pitangas, expressando raiva em seus olhos esbugalhados, e, mesmo assim, contando vantagens, e tentando persuadir com a retórica, chantagem e emocionalismo, o irrealismo de suas bazófias. Sim, porque ele perdeu totalmente o chão da realidade. A casa caiu. Mesmo assim, ele se gabou em sua fala, de considerar-se o maior presidente de todos os tempos, e transtornado com os acontecimentos daquele dia, foi flagrado conversando com a presidente Dilma Roussef, como se estivesse num boteco, com fala chula, mandando a Polícia Federal enfiar no c... o seu processo. Apesar de seus rompantes, se comparando a uma jararaca que atingiram o rabo, mas que está viva, Lula perdeu totalmente, naquele dia, a noção dos fatos. E não percebeu que aquela ação coercitiva foi o começo de um périplo, de um acerto de contas, daquele duro acerto de contas que acaba chegando para todos os embusteiros, principalmente àqueles a quem a vida deu tanta oportunidade. “Ao que muito teve, muito será cobrado”, e Sérgio Moro chega agora com a cobrança da fatura, alta demais, por tudo o que fizeram. A Lava Jato alcançou “o chefe” do maior esquema de corrupção como nunca antes se viu em toda a história do País. E não adianta agora ele esbravejar. Fica valendo, com a evidência dos fatos, a máxima de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Quanto mais Lula tenta se justificar, mais se enrola, porque não consegue perceber o emaranhado em que se envolveu, desde quando cobiçou um poder pantagruélico, satisfazendo a lógica das forças que o levaram a se tornar o monstro político que é, uma jararaca ferida, e que certamente será pisoteada pela ação firme e corajosa da equipe da Lava Jato, comandada por Sérgio Moro. Por que não poderá haver impunidade a todos os desmandos feitos, à tanta gula e abuso de poder. Os próprios comentaristas da imprensa que tanto o afagaram esses anos todos, reconheceram que havia acabado naquele dia, o mito Lula, até mesmo para os militantes pagos, cada vez mais reduzidos, que o defendem apenas por vil interesse. Joelmir Betting acertou em dizer que “o PT é, de fato, um partido interessante. Começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos”. Ainda quando eclodiu o escândalo do mensalão, em 2005, o jornalista Ivo Patarra escreveu “O Chefe”, enquanto a imprensa torcia o nariz e boicotava a sua obra, hoje muitos terão de reconhecer a coragem de Patarra em por a nu o que se sentia rei, o morubixaba que fez do projeto de poder do Foro de São Paulo, a miragem de Pasárgada, aonde todos os “amigos do rei”, e ele próprio, serão pois arrastado para atrás das grades, por quererem demais e de modo totalmente escuso, privilégios não pautados pela virtude, mas apenas na malandragem. Chegou a hora e a vez de Sérgio Moro, para deter Ali Babá e todos os demais ladrões, comprovando assim, mais uma vez, na História, que o crime não compensa.



Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida. 

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Uma alma desonesta








por Demétrio Magnoli(*) 
para O Globo (28jan2016)

Há muitas coisas incomuns nas atividades de Lula e nos negócios de seus filhos




A melhor coisa do Brasil é Lula, segundo Lula. “Se tem uma coisa de que eu me orgulho neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu”, confessou o ex-presidente a uma plateia de blogueiros aduladores. Na conversa, ninguém produziu uma tentativa de distinção entre honestidade pessoal e honestidade política. Mas são conceitos diferentes. No plano pessoal, o julgamento da honestidade de Lula não cabe a ele — e permanece em suspenso. No plano político, provavelmente “não tem uma viva alma” mais desonesta que ele “neste país”.

Um boneco de FH com trajes de presidiário surgiu muitos anos atrás, carregado por sindicalistas da área de influência de Lula. O precedente não torna menos reprováveis os “pixulecos” que representam Lula em condições similares. Aquilo que, nos tempos de oposição, o PT classificava como parte da luta política legítima deve ser entendido como um elemento da degeneração sectária de nossa vida democrática. Lula é inocente até que, eventualmente, sua culpa seja provada no curso do devido processo legal. Mas, como disse Dilma Rousseff, o ex-presidente não está acima da lei e pode ser investigado, tanto quanto qualquer cidadão.

Não é, aparentemente, o que pensa o próprio Lula. Dias atrás, seu fiel escudeiro Gilberto Carvalho denunciou uma suposta “politização” das investigações que miram Lula e seus familiares. De acordo com ele, tudo não passaria de uma sórdida campanha destinada a impedir a “volta de Lula” no ano da graça de 2018. As declarações, altamente “politizadas”, implicam uma grave acusação contra o Ministério Público, que comanda as investigações, a Polícia Federal, que as conduz, e o Poder Judiciário, que as controla. Carvalho, a voz de Lula, está sugerindo que as três instituições operam segundo um ardiloso plano político-partidário. É uma alegação paralela à de Eduardo Cunha — e um sintoma de temor típico dos que têm algo a esconder.

Há muitas coisas incomuns nas atividades de Lula e nos negócios de seus filhos. Quando um ex-presidente que continua a exercer influência decisiva no governo profere palestras patrocinadas por empreiteiras condenadas no escândalo do petrolão e remuneradas em valores extraordinários, emerge uma natural desconfiança. Quando os negócios de um de seus filhos recebem impulso notável de uma empresa de telefonia beneficiada por alteração no marco regulatório decidida pelo governo de Lula, algo parece fora de lugar. Quando os negócios de outro filho se misturam aos de um lobista preso por corrupção, a coincidência solicita investigação. Lula é, pessoalmente, desonesto? A pergunta tornou-se razoável, mas uma resposta negativa carece de fundamento e, antes de um processo, deve ser marcada com a etiqueta da calúnia.

A imputação de desonestidade política, por outro lado, depende da opinião pública e, em certos casos, do Congresso, não dos tribunais. O tema pertence ao universo da ética e varia, no tempo e no espaço, ao sabor dos valores sociais hegemônicos. Nas repúblicas democráticas contemporâneas, a sujeição do Estado a interesses políticos particulares e o desvio de recursos públicos para fins partidários caracterizam a desonestidade política. Nesse sentido, Lula é uma alma desonesta.

As provas estão à vista de todos, a começar da “entrevista” concedida aos bajuladores. A existência de blogueiros chapa-branca não é um problema, mas seu financiamento com recursos de empresas estatais (a Petrobras, a Caixa, o Banco do Brasil, os Correios) infringe o princípio da impessoalidade da administração pública. A nomeação de diretores da Petrobras segundo critérios partidários, conduta defendida por Dilma, que está na raiz do petrolão, é uma forma de privatização do Estado. O uso da Petrobras como patrocinadora do Fórum Social Mundial, um encontro de ativistas de esquerda simpáticos ao PT, faz parte da mesma classe de práticas. Jaques Wagner nunca criticou tais iniciativas, mas reconheceu que o PT “se lambuzou” no poder. Lula chefiou a farra dos “lambuzados”, assegurando para si mesmo um lugar de honra no panteão de nossa “elite de 500 anos”.

“A curiosidade é condição necessária, até mesmo a primeira das condições, para todo trabalho intelectual ou científico”, escreveu Amós Oz, acrescentando que “em minha opinião a curiosidade é também uma virtude moral”. Uma face ainda mais relevante, se bem que menos evidente, da desonestidade política de Lula é seu esforço para, em nome de seus interesses políticos, abolir a curiosidade do debate público brasileiro. Lula instaurou um paradigma nefasto na linguagem política que consiste em retrucar a qualquer crítica por meio de uma acusação de preconceito dirigida ao crítico.

O argumento do interlocutor não interessa. Ele critica para reagir à ascensão ao poder de um pobre que conheceu a fome, de um operário metalúrgico filho de mãe analfabeta. Ou para contestar a competência da primeira mulher a chegar à Presidência. Ou, alternativamente, com a finalidade de sabotar as políticas de combate à pobreza, de inclusão dos negros ou de proteção aos índios. O crítico é intrinsecamente mau. Se não o for, está a serviço da elite, de ambições estrangeiras ou de ambas. A linguagem política lulista, um relevo inescapável na paisagem brasileira, espalhou-se tão rapidamente quanto a dengue, as obras superfaturadas e o vício do crack. O assassino de nossa curiosidade é uma alma desonesta.

Lula colhe os frutos da árvore que plantou e, metodicamente, irrigou. Os fabricantes de “pixulecos” aprenderam a lição de sectarismo que ele ensinou. Aceitaram a divisão do país segundo as linhas do ódio político. Chamam-no de “ladrão” e “bandido” para circundar o caminho difícil do argumento. No país do impropério, do grito e da palavra de ordem, identificaram a escada do sucesso. O principal legado do lulismo é essa espécie peculiar de devastação ambiental.

(*)Demétrio Magnoli é sociólogo


Artigo original em:O Globo
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quinta-feira, dezembro 17, 2015

Sergio Moro, um ilustríssimo desconhecido.





por Rogerio Waldrigues Galindo (Gazeta do Povo)

Operação Lava Jato alçou o juiz paranaense à fama. Mas poucos conhecem quem ele realmente é. Gazeta do Povo ouviu pessoas próximas ao magistrado e que conviveram ou convivem para traçar um perfil do grande personagem deste ano






Milhões de brasileiros ouvem o nome “Sergio Moro” todos os dias na tevê e no rádio, leem sobre ele nos jornais e na internet. É fácil associá-lo à Lava Jato . Mas para a imensa maioria ele não passa disso, um nome: sem rosto, sem voz, sem passado e sem personalidade.

Tímido por natureza, desde que começou a trabalhar na Lava Jato Moro se fechou ainda mais. Não dá entrevistas há mais de um ano. Aos amigos, pediu que não deem informações sobre ele, até por prudência: alguém que está mandando prender empreiteiros, gente ligada à maior estatal do país, políticos e doleiros tem razão para não querer que se diga onde mora ou detalhes de sua rotina (o que será respeitado nestas páginas). Durante o tempo em que este perfil foi escrito, Moro falou uma única vez com a reportagem: para dizer que não se pronunciaria.

Mas para muita gente Moro é bem mais do que o nome na tevê. Para os funcionários da Justiça Federal, é o sujeito pacato que até pouco tempo atrás ia de bicicleta trabalhar. Para os alunos da UFPR, é o professor que ensina sobre lavagem de dinheiro e que mesmo durante a Lava Jato não se atrasa para a aula. Para os advogados, é osso duro de roer. Para os amigos, é o são-paulino que gosta de vinho e charutos. Para dona Odete, é o filho que saiu cedo de casa para ser juiz. Para Rosângela e os filhos, é o pai de família com dois empregos que passa as férias em Santa Catarina.
As origens: o Sergio de Maringá

Faz quase 50 anos. Recém-formado, Dalton conheceu Odete e os dois partiram para vida nova. Casaram e saíram de Ponta Grossa rumo a Maringá. Ele, aprovado em concurso para dar aulas de geografia, escolheu o colégio Gastão Vidigal para lecionar. Odete dava aulas de português. Juntos, tiveram dois filhos, Sergio e Cesar, e viveram casados por quase quatro décadas, até a morte de Dalton em 2005.

O professor se dizia “positivista”, mas escolheu a geografia humana – estudava a região de Maringá e a debandada da população rural. Um amigo, em homenagem póstuma, diz que Dalton chegava a chorar ao ver o sofrimento dos roceiros na cidade grande. Mas achava que pesquisador não devia chorar, e pedia segredo.

Os meninos estudaram em colégio religioso. Faziam aula no Instituto de Línguas de Maringá, única escola de idiomas da cidade. Não era vida de luxo – a típica situação da classe média no interior do Brasil, numa época de “milagre econômico” e de falta de liberdades individuais.

Sergio passou no vestibular e entrou no curso de Direito. Típico de sua timidez, não chegou a chamar a atenção de muita gente. Um ex-professor, questionado sobre o aluno famoso, diz que nem tem certeza de que lhe deu aulas. “Dei aula para ele? Nem sei... Teria que olhar no histórico.”

Mas Sergio chamou a atenção de advogados. Indicado por um ex-reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Neumar Godoy, foi parar em um escritório de advocacia de direito tributário. Hoje, Moro brinca com seu antigo gosto pelo tema. “Sinceramente tenho muita dificuldade de me lembrar por que eu gostava daquilo...” Mas fazia bem o trabalho. “Ele ficou dois anos com a gente. Sujeito sensacional”, diz o advogado que o contratou, Irivaldo de Souza.

Sergio começou fazendo pesquisas. Ia ao fórum. Depois passou a redigir petições, memoriais, cada vez assumindo mais responsabilidade. Mas o sonho era outro e veio com a aprovação no concurso para juiz, em 1996. Recém-saído da faculdade, aos 24 anos, Sergio repetia o pai: conseguia emprego em outra cidade e se mudava para seguir a profissão escolhida. O destino era Curitiba – na sede da Justiça Federal.

[Sergio Moro] é só um cara tranquilo, tímido, que gosta de ficar com a família, os amigos, fumar charuto e tomar um vinho.

Amigo do juiz que pediu para não ser identificado.

O juiz : a linha dura começou cedo



Ser juiz e decidir coisas fundamentais sobre a vida alheia aos 24 anos pode ser intimidador. Mas os relatos sobre os primeiros tempos de Sergio Moro como juiz federal não fazem parecer que ele se deixou intimidar. A “linha dura”, de que hoje reclamam os advogados da Lava Jato, vem da vara previdenciária em que ele começou.


Em 1996, não era comum o uso da tutela antecipada – um tipo de liminar que pode favorecer, por exemplo, alguém que está pedindo algo ao governo. A lei era recente e os advogados não estavam acostumados a pedir. Moro, visto pelos procuradores do INSS como “pró-velhinhos”, passou a perguntar nos autos se haveria interesse em fazer a solicitação.

No INSS, houve choro e ranger de dentes. Pediu-se a suspeição de Moro, já que ele não poderia fazer sugestão às partes. Ele levou o caso ao Tribunal Regional Federal, que lhe deu razão. A partir daí, sempre que o INSS questionava seus despachos lembrando a existência da tutela antecipada, Moro tascava a decisão do tribunal e perguntava se o procurador queria continuar com o pedido de suspeição, mesmo sabendo de possíveis consequências processuais. No INSS, isso foi visto como ameaça e os procuradores pediram uma correição parcial de Moro.


O Sergio é um juiz fantástico. É um cara que realmente faz o processo andar. Às vezes eu brincava, dizendo que com um juiz desse nem precisava de promotor. Celso Três, promotor.

A situação era difícil porque, numa vara previdenciária, o juiz só trabalha com o INSS. Se o INSS o considera suspeito, como pode ficar lá? Ao fim e ao cabo, Moro não precisou lidar com o problema. Acabou tendo sua primeira transferência, para Cascavel. Lá, a fama de juiz durão prosseguiria com o caso das contas CC5.

O processo da CC5, que analisava remessas ilícitas de dinheiro para o exterior, foi a primeira grande experiência de Moro com o crime do colarinho branco. O Ministério Público pediu uma quebra de sigilo gigantesca, de todas as contas usadas para esse tipo de remessa. E os promotores só tinham elogios para o jovem juiz, de 26 anos, que assumiu o processo.

“O Sergio é um juiz fantástico”, diz Celso Três, promotor do caso. “É um cara que realmente faz o processo andar. Às vezes eu brincava, dizendo que com um juiz desse nem precisava de promotor”, diz. A frase de Celso Três faz lembrar o tom dos acusadores de Moro. O resumo da acusação cabe na frase de um desafeto: “Com o Moro, o jogo já começa sempre dois a um: é ele e o MP contra o acusado”.

O próprio Celso Três diz que não é assim. “É que no Brasil tem muito juiz que trava o processo. Ele não. E não cerceia a defesa, que tem o direito de recorrer ao Supremo, se for o caso. Agora, se o juiz mata tudo na primeira instância, a gente não tem a quem recorrer”, diz.

Seja como for, o resultado do caso Banestado e das contas CC5 desanimou Moro. Em 2009, já tendo saído de Cascavel, passado por Joinville e subido a serra de volta para Curitiba, ele escreveu um e-mail para amigos. “Quanto aos crimes de colarinho branco, o custo e o desgaste não valem o resultado. Se prende-se, se solta. Se não prende, prescreve pelo tempo entre eventual condenação e início da execução da pena.”

A Lava Jato mostraria ao Moro de 2015 que o Moro de 2009 estava redondamente errado.


O professor: bem visto pelos alunos, contestado por colegas


Duas vezes por semana, Sergio Moro sobe a escadaria da UFPR para suas aulas. O ritual se repete desde 2007, quando passou em segundo lugar no concurso para o Departamento de Direito Penal. Lá, dá uma disciplina obrigatória para o último ano e, neste semestre, uma optativa sobre... lavagem de dinheiro. Evidente: a sala lota.

E Moro não costuma decepcionar os alunos. Mesmo em meio à Lava Jato, não falta e, segundo os alunos, só uma vez se atrasou no semestre. Visto como professor tranquilo, dá mostras de bom humor. Na política interna, se abstém de disputar cargos e até foge de votar (se não se pronuncia em público nem sobre os partidos da faculdade, imagine sobre PT e PSDB...).

Entre os professores, está longe de ter a mesma unanimidade. Para alguns, Moro foi atacado pela “juizite”. Houvesse um dicionário de advogados a doença seria definida como o mal que ataca os magistrados, tornando-os arrogantes e de difícil trato. “Nem no cafezinho ele se mistura”, diz uma professora. “Nunca conversa com ninguém”, diz outro. Há quem o defenda. “Não tem juizite nenhuma. A vida da gente é corrida, ninguém fica lá matando tempo depois da aula”, diz o professor João Gualberto Garcez Ramos.

O modo como muitos olham para Moro dentro da UFPR tem a ver com um processo em que ele não era juiz, e sim parte autor. Convidado para ser juiz instrutor do Supremo Tribunal Federal durante o mensalão, Moro pediu para acumular todas as aulas numa só noite. Uma portaria proibia isso. O juiz, ao ouvir a resposta, não só não gostou como entrou com um processo para conseguir o que queria. Perdeu.

Para quem vê de fora, parece ter havido mais um problema de comunicação e de diplomacia. O problema acabou sendo resolvido de uma forma ou de outra. Mas ficaram as mágoas . Moro quis mostrar a importância de um professor da casa ir ao STF. Para muitos colegas, soou arrogante. Juizite? Depende de quem vê.


O funcionário: o homem que escreve as próprias sentenças

Antes da Lava Jato, o dia de Sergio Moro começava muitas vezes com uma pedalada de três quilômetros de seu apartamento até o prédio da Justiça Federal, na Anita Garibaldi. Hoje, por motivos óbvios, a pedalada em público está fora de cogitação. Mas muito da rotina segue igual: Moro continua acordando cedo e indo para sua sala na Torre Judiciária do Ahú.

Chegar à 13.ª Vara exige passar por pelo menos duas barreiras de segurança. Na portaria, há detecção de metais e é preciso se identificar. Para chegar ao andar, só acompanhado por funcionário e passando pela segurança.

A vara segue o padrão de todas as outras. Com a Lava Jato, ganhou mais quatro pessoas recentemente. Vagas disputadíssimas, aliás: cerca de 100 estudantes se cadastraram para ser estagiário de Moro. Os onze escolhidos para fazer a seleção foram informados por Gabriela Hardt, juíza substituta, que “a discrição conta pontos”. Os dois discretos estagiários escolhidos para a função ajudam a superpovoar o cartório, único setor visível da vara para quem vê de fora: é a parte administrativa e burocrática. Numa sala à esquerda, ficam os dois assessores jurídicos de Moro, classificados de “geniozinhos”. Genialidade à parte, o que corre pelos bastidores é que os dois auxiliam o Moro a pensar, mas não têm autorização para escrever uma linha das e sentenças.

Tudo isso é escrito nas duas salas finais da vara. De um lado, Gabriela Hardt toca as demais ações. De outro, Moro cuida exclusivamente da Lava Jato. O fato de escrever as próprias sentenças já é estranho no Judiciário: há casos em que se dá exatamente o oposto, com o juiz delegando todo o trabalho de escrever a assessores. O trabalho é muito. “Tem sentença dele de quatro da manhã”, diz um observador.

Recentemente, esse mesmo “observador” disse a Moro, brincando, que a qualidade dos textos caiu com a Lava Jato. Ouviu como resposta que ,com a quantidade atual de trabalho, “é o que dá para fazer”. Quantidade de trabalho que, segundo um amigo, só é viável por causa de uma capacidade (rara nos juízes, segundo ele) de manter várias bolas no ar ao mesmo tempo. “É impressionante o trabalho de logística dele”. Nem todos concordam. “O Sergio, metódico?”, questiona um amigo de longa data. “Acho ele até meio atrapalhado.”

Seja como for, as 38 ações da Lava Jato continuam sendo tocadas pelo solitário juiz Moro. Talvez a custo de algum Red Bull, segundo quem já viu sua mesa. Faz sentido.


Ele sempre foi um ponto fora da curva. Tinha nossa idade, formado há menos de um ano, aprovado em concurso de juiz meses após colar grau e dando aula em faculdade.Ex-aluno de Moro.

O marido: os olhos brilharam para ela

O ano que mudou a vida de Moro? Aposte em 1996. Foi o ano em que ele pegou o diploma de Direito, passou no concurso para juiz, começou a dar aulas na Faculdade de Direito de Curitiba e – mais importante – conheceu Rosângela.

Quando chegou a Curitiba, Moro tinha basicamente a idade de seus alunos. Não é de admirar que se desse bem com eles, apesar da timidez. Era admirado pela turma. “Ele sempre foi um ponto fora da curva. Tinha nossa idade, formado há menos de um ano, aprovado em concurso de juiz meses após colar grau e dando aula em faculdade”, diz um aluno da primeira turma.

Como ninguém é de ferro, dava uma esticada com os alunos depois das aulas noturnas. “Aí saía às vezes com a turma. Foi numas festas nossas e os olhinhos brilharam para a Rô”, conta um aluno. Rosângela Wolff de Quadros (hoje Moro) se formaria naquele ano. Hoje, dezenove anos depois, os dois continuam juntos e têm dois filhos.

A família mora em um apartamento num prédio típico de classe média na zona norte de Curitiba. Com dois carros na garagem, a família não é de ostentar. Passa as férias em Balneário Camboriú e pelo menos uma vez por semana tem uma reunião com amigos. Entre os convivas mais frequentes, um assessor parlamentar, um dono de restaurante e um investidor da bolsa.

Na conversa, nada de Lava Jato ou política. A grande disputa é sobre times de futebol. Moro é são-paulino. “Ele tem problema para escolher duas coisas: vinho e time de futebol”, diz um palmeirense que recusa qualquer rótulo de arrogante para o amigo famoso. “É só um cara tranquilo, tímido, que gosta de ficar com a família, os amigos, fumar charuto e tomar um vinho. Mas o melhor é que eu escolha o vinho pra ele”, diz, sorrindo. 

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/