quarta-feira, janeiro 25, 2012

São Paulo, meu amor - 458 anos.





Praça da Sé - marco zero da cidade de São Paulo



Ahhh... se eu morasse no Jaçanã, hoje eu não pegaria o trem das onze, mesmo que ele ainda existisse.Eu ficaria um pouco mais, no centro velho, na Ipiranga com a avenida São João.Eu seria Narciso e te veria no espelho - e não ficaria triste - porque és bela como toda mulher que apenas se descuida um pouco da aparência, mas logo refaz a maquiagem e bela se torna novamente;as más línguas e quem não te ama é que te enfeia.

Eu ficaria um pouco mais te carregando no meu peito, sem ver qualquer defeito. 

Ficaria com prazer um pouco mais vendo  japonesas louras, nordestinas mouras, gente rolando dadinhos, gente jogando bilhar.

E por que não dar uma volta do lado direito da rua Direita, olhando as vitrines coloridas?


Quem sabe pudesse dar um pulo no Brás e nem ficaria com réiva de não ter encontrado o Arnesto ou mesmo o saudoso Adoniram.

Antes do amanhecer - por que não? - quem sabe entrar na rua Augusta a 120 por hora... quem dera!

Como quem sabe o que quer, para o que der e vier, ficaria até as sete - pelo menos -, porque às sete você explode em multidão.

Ahhh como eu gostaria de ser o Tom Jobim e ter sido o primeiro a te dizer "Pasión de mi vida,I love you, querida, Je t'aime São Paulo, Io ti amo São Paulo"..

Mas, nem adianta ficar um pouco mais para te ver festiva em seu aniversário; ainda que seja feriado você não descansa, nunca descansa. Logo começa um novo dia, já volta quem ia porque o tempo é de chegar, de faturar.

Melhor ir embora para casa tomar o metrô e ir descansar. De metrô chego primeiro e se tempo é dinheiro, se não tens mais garôa e se a vida, às vezes, já nem é tão boa, se há quem só  pensa em grana e te usar, fique certa querida: eu ainda te amo.

Não te esqueças jamais, minha São Paulo, que por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu viva se um dia eu deixar de te amar.



Para todos os que homenagearam a minha São Paulo, o meu muito obrigado:

Adoniran Barbosa, Tom Jobim (nascido também num 25 de janeiro) Lauro Miller, Frederico Rossi, Tico Terpins, Rita Lee e Roberto de Carvalho,Zé Rodrix, Talma de Oliveira, Guilherme Arantes, Luiz Carlos e Chiquinho, Erivelto Martins e David Nasser, Jorginho do Império, Paulo Florence e Fagundes Varella, Bel Meireles, Kazinho, Nelson Gonçalves, Paulo Vanzolin, Thomas Roth e Luis Guedes, Mauricio Tapajós e Paulo César Pinheiro, o poeta maior Paulo Bonfim; muitos outros e ao paraense-carioca que melhor expressou a alma de São Paulo na sua Sinfonia Paulistana.

A todos aqueles que realmente amam a minha cidade um feliz aniversário. São Paulo ama quem a ama. 

sábado, janeiro 21, 2012

Um Brasil possível é possível?







Realmente é normal viver-se num pais com tantas desigualdades como nesse que um dia já foi nosso?.

Levantamento feito pela ONG Transparência Brasil revelou que o Congresso Nacional tem o custo mais alto para a população em comparação aos parlamentos de 11 países. De acordo com o estudo, o congresso brasileiro gasta R$ 11.545,04 por minuto com os 513 deputados e 81 senadores.

Com um orçamento de mais de R$ 6 bilhões (dados de 2007), o congresso brasileiro só perdeu em números totais para os Estados Unidos, que previu gastos de R$ 8,1 bilhões no mesmo ano, nas duas casas legislativas.

Cada deputado custa R$ 6,6 milhões por ano, já um senador custa-nos R$ 33,4 milhões. Estamos citando apenas as duas casas legislativas mais importantes para os destinos do país; restam ainda os deputados estaduais, governadores, prefeitos e os vereadores dos mais de 6 mil municípios brasileiros.

Ao cidadão, que sustenta essa farra democrática, são destinados pouco mais de U$ 506 por ano para a saúde. Já na educação o investimento médio por aluno (não é gasto) em 2009 foi de R$ 3.353,00 por ano.

É possível exigir-se ou mesmo sonhar com um país melhor?

E como se não bastassem todos os gastos públicos (que não são investimentos) absurdos, com copa, olimpíada, licitações fraudulentas, desvios de verbas e assalto puro e simples, some-se ao caos uma justiça que está em cheque (é cheque mesmo, aquele que pode ser revertido em dinheiro) e agora exige - e terá, é claro - mais uma excrecência:

""O Tesouro (entenda-se Tesouro com sendo os idiotas brasileiros) vai gastar R$ 82 milhões de uma só vez com auxílio-alimentação para juízes federais e do Trabalho. O valor é referente a um longo período, desde 2004, quando a toga perdeu o benefício que nunca deixou de ser concedido a procuradores do Ministério Público Federal e à advocacia pública"".

É possível ainda re-re-reconstruir esse país?




segunda-feira, janeiro 16, 2012

CALA A BOCA MERCADANTE!.






Por uma ironia com que provavelmente não contavam os regionalistas dos dois lados, é um estudo respeitadíssimo realizado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) que revela dados excelentes sobre o índice de desenvolvimento do estado de São Paulo no quadro brasileiro.

Os resultados mostram que 16 anos de governos tucanos consecutivos não fizeram o mal para o estado trombeteado pelos petistas, muito pelo contrário.

Durante toda a campanha do petista para o governo do estado — em que acabou derrotado por uma margem esmagadora de 3,5 milhões de votos pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) –, o candidato Aloizio Mercadante satanizou os tucanos: foram mal em saúde, educação, segurança pública, saneamento básico, meio ambiente…

Não escapou nada.

DAS 15 CIDADES MAIS DESENVOLVIDAS, 14 ESTÃO EM SP — Dessa forma, diante de tanto descalabro, era para Mercadante ganhar — e ele perdeu. E era para São Paulo estar no chão, mas o estudo da Firjan mostra algo bem diferente.

Vamos então ao estudo da Firjan, que se baseia em dados oficiais sobre educação, saúde, emprego e renda. A íntegra, se você quiser, pode acessar aqui.

Depois de mais de década e meia das tenebrosas gestões dos governadores Mário Covas (1995-2001), Geraldo Alckmin (2001-2006), Claudio Lembo, vice do DEM aliado ao PSDB (31/3/2006-1º/1/2007), José Serra (2007-2010) e Alberto Goldman (a partir de 2 de abril deste ano), temos o seguinte quadro, segundo o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM):

* Das 15 cidades mais desenvolvidas entre as 5.564 cidades brasileiras, 14 estão no estado de São Paulo;

* Das 100 melhores cidades em matéria de índice educacional, 92 são paulistas;

* No ranking geral de saúde, São Paulo, com estimados 42 milhões de habitantes, só é superado pelo Paraná, que tem 11 milhões;

* A cidade com o melhor índice de desenvolvimento do Brasil é a paulista Araraquara, 200 mil habitantes, a 270 quilômetros de São Paulo. Todas as vias públicas são pavimentadas, toda a população tem água tratada a domicílio, todo o esgoto da cidade é coletado pelo sistema público de saneamento, a luz elétrica chega a 100% das residências, a maioria das escolas dispõe de computadores em número suficiente e é conectada à internet. Seu atual prefeito, Marcelo Barbieri, é do PMDB.(Fonte: Coluna do Ricardo Setti, Veja, 15/01/2011)


E finalizando, somente um sonoro: CALA A BOCA MERCADANTE, CALA A BOCA PETRALHAS.

sábado, janeiro 14, 2012

FARINHA DO MESMO SACO?.




Divulgado no fim de dezembro pela direção do PSDB, o “balanço crítico do primeiro ano do governo Dilma Rousseff” é dividido em 13 tópicos. Nenhum deles trata dos seis ministros que perderam o emprego por envolvimento em grossas bandalheiras. Tem 3.226 palavras. Corrupção não figura entre elas. Constava da primeira versão, redigida por Alberto Goldman. Foi censurada pelo alto comando do partido, informou nesta quinta-feira o colunista Ilimar Franco, do jornal O Globo.

“A presidente é tolerante com a corrupção”, constatou o ex-governador de São Paulo. “O ex-ministro Palocci, nas palavras da presidente, saiu porque quis”, exemplificou. Tanto a constatação quanto o exemplo foram guilhotinados por tucanos empoleirados em galhos mais altos. Tampouco sobreviveram ao crivo dos poltrões vocacionais três adjetivos aplicados ao desempenho do Planalto nos últimos 12 meses: “medíocre”, “amorfo” e “insípido”. Mais respeito com a presidenta, certamente protestou algum devoto de Geraldo Alckmin.

Suprimida do texto de Goldman, “a constrangedora sucessão de fracassos” reapareceu no balanço reeditado pelo critério da covardia rebatizada de “sérios problemas em diversas áreas”. Os censores acharam igualmente grosseiro qualificar o período de “nono ano do governo Lula”, ou registrar que Dilma age como “fantoche”. Não se faz isso com uma dama, deve ter ponderado um discípulo de Aécio Neves. E as duas verdades foram para o ralo.

Concebido para expor aos brasileiros a face escura dos donos do poder, o documento só serviu para escancarar a alma subalterna dos oposicionistas mais governistas da história. Uns e outros serão soterrados pelos escombros da Era da Mediocridade.

Fonte: Augusto Nunes - Veja

quarta-feira, janeiro 11, 2012

EU QUERO O FIM DAS URNAS ELETRÔNICAS




A biometria nas eleições.


Até 2005, a Justiça (e administradora) Eleitoral alardeava que seu sistema eletrônico de votação era 100% seguro e a prova de fraude quando, surpreendentemente, em abril de 2005 promoveu um seminário para anunciar um novo "Projeto Atualização do Cadastro de Eleitores" que utilizaria a biometria dos eleitores (impressão digital digitalizada) para acabar com o "último reduto da fraude eleitoral".

Com o peculiar ufanismo os ministros do TSE anunciavam:

Min. Carlos Velloso: "A urna eletrônica será aberta pela identificação biométrica (do eleitor). Isso impedirá que outra pessoa vote no seu lugar”.
Min. Peçanha Martins: “A última tentativa de fraude que precisa ser extirpada pela Justiça Eleitoral diz respeito à identificação do eleitor, que ainda permite, por exemplo, que em alguns municípios se pratique a fraude da substituição e até mesmo da ressurreição de eleitores”.

Em 2006 foram compradas as primeiras 25 mil urnas com sensor biométrico acoplado, as Urnas Biométricas a um custo unitário de $900 Dólares aproximadamente, mas em nota a imprensa o TSE anunciava que o custo para adaptação de suas demais 355 mil urnas eletrônicas seria de apenas $15 Dólares por unidade.

Mas esta estimativa estava totalmente errada. Até dezembro de 2010 foram compradas aproximadamente mais 370 mil urnas biométricas novas a um custo unitário médio de $750 Dólares, 50 vezes mais que o estimado.

Para fazer a coleta dos dados biométricos dos eleitores, o TSE comprou equipamentos chamados de Kitbio.
Kit Bio

No final de 2007, o TSE comprou os primeiros 60 Kitbios que custaram mais de R$ 13.500,00 por unidade, o dobro do estimado inicialmente.

Em março e abril de 2008 iniciou-se o recadastramento biométrico de eleitores nas cidades de Colorado do Oeste (RO), São João Batista (SC) e Fátima do Sul (MS), com a coleta das impressões digitais dos 10 dedos e da foto digitalizada em alta resolução de cada eleitor. Em junho e julho ocorreram testes simulados com os próprios eleitores.

Finalmente em outubro de 2008 ocorreu a primeira eleição com biometria nessas cidades, sendo utilizadas apenas 100 das 25 mil urnas biométricas compradas.

Devido ao altíssimo custo, o TSE não efetuou o batimento biométrico, que é conferência on-line das impressões digitais dos eleitores já cadastratados, que teria que ser feita para evitar a duplicidade que gera os eleitores-fantasmas-biométricos.

Em 2010, o reconhecimento biométrico do eleitor foi extendido para mais 60 cidades em 23 Estados, atingindo 1,2 milhão de eleitores. Foram utilizadas apenas 3.000 das 380 mil urnas biométricas compradas até então.

Apenas 4 das 10 impressões digitais de cada eleitor eram usadas nas urnas biométricas. As demais são colhidas pelo TSE mas não são utilizadas.


segunda-feira, janeiro 09, 2012

A Seita do Santo Byte.





Alerta

Dirijo-me aos cidadãos e cidadãs do meu país com mais um alerta, sob o peso de uma responsabilidade com que me investiu o presidente da República. A de representar nossa sociedade no órgão de Estado encarregado de normatizar sobre segurança na informatização dos seus processos, a ICP-Brasil.
Nosso futuro democrático está sob ataque. Corremos o risco de virmos a ser governados por uma dinastia, com os que estão no poder vindo a eleger, com ou sem a verdadeira maioria dos votos, os seus sucessores, no segundo caso e com a devida cautela impunemente. Estamos retrocedendo às condições que fizeram eclodir a revolução de 1930. A nação, anestesiada, parece desconhecer o perigo que está correndo. Os meios de comunicação, com honrosas exceções, omitem-se, como se o assunto não fosse merecedor de nossa preocupação, ou com o verbo indo atrás da verba.

A razão desse alerta é a encruzilhada em que se encontra o nosso processo eleitoral, baseado nas urnas eletrônicas e na informatização completa do sistema, num momento em que os poderes da República testam novos níveis de fricção. Com esta informatização, não mudam apenas a maneira de se registrar e de se contar o voto de cada eleitor. Muda também a forma de se fiscalizar eleições, cuja eficácia é a matéria prima da confiabilidade em todo o processo. O direito de qualquer parte interessada em fiscalizar uma eleição passa a requerer novas disposições, técnicas e jurídicas, já que os meios para a fiscalização se transformam ainda mais radicalmente do que os meios de registro e contagem de votos.

Quando o voto era em cédulas de papel, a fiscalização não requeria mais do que um batalhão de observadores atentos à possivel burla dos interesses que representam, durante as várias etapas do processo: preparação, sufrágio, apuração e totalização. Eficácia se traduzia em quantidade de olhos atentos, pois qualquer ato falho de fiscalização poderia comprometer uma pequena quantidade de votos válidos. E pequenas quantidades, somadas muitas vezes, poderiam compremeter o resultado da eleição.

Fiscalização do voto

Com a informatização, a fiscalização passa a requerer mecanismos de auditoria com características radicalmente distintas dos mecanismos anteriores, pois agora o que precisa ser fiscalizado são processos informáticos, dos quais a tela do computador só mostra o que o autor do software quiser. Um batalhão de observadores, atentos agora ao que se lhes faz visível nessas telas, será quase certamente inútil.

O grande desafio, para quem, sob o pressuposto da honestidade e fidelidade de princípios, se põe a planejar a informatização do processo, passa a ser o de conceber mecanismos eficazes de fiscalização que não requeiram conhecimentos técnicos em demasia, quer dos fiscais, quer dos juízes, e que não comprometam outros aspectos da confiabilidade do sistema, enquanto atenuam novos fatores de escala no perfil dos riscos, próprios da informatização mesma.

Ninguém quer menosprezar ou denegrir os benefícios desta informatização, que agiliza o registro e a contagem dos votos. Mas alguém precisa lembrar ao leitor, e ao eleitor, que esses benefícios, como quaisquer outros, têm seu preço. E o preço, neste caso, é alto, pois, com a informatização completa, a eficácia fiscalizatória do processo eleitoral torna-se o nó górdio da modernização democrática.

Mesmo que os partidos possam, por exemplo, examinar o código-fonte dos programas que constituiriam o software do sistema eleitoral, se não puderem saber, por meios próprios, se tais programas são exatamente os mesmos usados nos computadores durante a eleição, todo o esforço fiscalizatório torna-se equivalente a um mero ato lúdico, como o de mágicos e palhaços no picadeiro de um circo. Mas com uma diferença extremamente perigosa, que é a descrença, ou o desconhecimento, da natureza lúdica do ato.

Qualquer informatização traz, como contrapartida a seus benefícios, um efeito amplificador de riscos, pois qualquer pequeno ato falho na fiscalização pode agora comprometer, em larga escala, a confiablidade do sistema como um todo. Este seria o verdadeiro desafio de uma Justiça Eleitoral ocupada com a modernização dos seus processos, pressupondo que sua missão não muda pelo simples fato de assim ocupar-se.

Mas, diante desse desafio, a Justiça Eleitoral brasileira vem tomando um rumo totalmente oposto ao que dela espera um cidadão de boa fé, que acredita na preservação da natureza democrática do nosso ordenamento jurídico, ao longo da aventura modernizante da nossa sociedade. Isto porque ela vem dando sinais, cada vez mais inequívocos, de sua disposição em forçar mudanças na natureza da sua missão, à guisa de uma auto-proclamada necessidade de comandar a modernização do processo que lhe cabe regular, executar e controlar, processo que sustenta nosso regime democrático, pondo em risco, com tal guinada, a própria natureza deste regime.

Enquanto os países maduros em democracia caminham no sentido de buscarem a informatização eleitoral de forma a permitir ao eleitor verificar, por si mesmo, a correta tabulação do seu voto, o Brasil vai na contramão, com o agente responsável tentando suprimir qualquer possibilidade de conferência ou recontagem dos resultados, apelando, de formas tanto sutis quanto grotescas, para uma cega crença alheia em sua pretensa infalibilidade e isenção intestável.

Segurança computacional é assunto técnico especializado e complexo, e assusta-nos a falta de seriedade com que nossa votação eletrônica, pseudo-moderna, tem sido tratada, nos três Poderes, por desconhecedores da matéria. Ministros do TSE, autoridades em suas áreas porém leigos nas ciências afetas à computação, têm afirmado publicamente que nosso sistema é confiável, seguro, orgulho da engenharia nacional, enquanto, infelizmente, nada disso é verdade.

Dizer que a eleição de Lula é prova da segurança de nosso sistema eleitoral e da lisura dos seus resultados é sofisma. Mais do que isso, é ofensa ao bom senso de quem conhece os meandros da informática e das sombras que se projetam da natureza humana. Pode-se responder com outra pergunta: Teria ganho se não aceitasse manter o país refém da política econômica neoliberal ditada pelo cartel de agiotas globais?
Lula pode ter sido eleito, noutra hipótese, através de um sistema inauditável que lhe atribuiu quarenta e um mil votos negativos na terceira hora de apuração do primeiro turno, devido à combinação de dois fatores: votos suficientes e uma certa relação entre riscos, na qual um deles mataria a galinha de ovos de ouro de um sistema inauditável, porém crível para a maioria da sociedade, regulamentado, projetado, operado, controlado e julgado em seus resultados por um mesmo e único agente.

Vulnerabilidades

Nosso sistema é hoje internamente fraudável, e nenhuma quantidade de sofismas, falácias e ataques ao mensageiro desse alerta pode alterar tal fatalidade. Nada impede que o software do sistema possa ser furtivamente modificado para identificar ou alterar o voto de qualquer eleitor, já que a Justiça Eleitoral resiste, de maneiras cada vez menos nobres, à demanda fiscalizatória para que potenciais vítimas tenham -- e exerçam se tiverem a devida competência -- o direito de conhecer a lógica e o modus operandi desse sistema, e de, conhecendo, denunciar eventuais falhas.

Não há nada de mal que vejemos, como querem os otimistas, nosso sistema eleitoral tal qual plataforma de lançamento das modernidades democráticas, cobiçada pelo mundo afora. Mas seria imprudente ignorar, ancorando-se em arroubos de emocionalidade e tosco ufanismo, que por trás das maravilhas mostradas por holofotes e câmeras escondem-se erros, falhas, deficiências e vulnerabilidades no projeto, no controle e na fiscalização do mesmo, que podem levar nossa democracia a se desmoronar, queimando seus heróis numa grande fogueira.

Seria este alerta uma mórbida tentativa de aviltar a honrosa memória dos nossos heróis de Alcântara, para promover a cizânia? O autor não pode impedir que julgem seus motivos, mas pode oferecê-los do seu íntimo. Este alerta se deve à novidade do "registro eletrônico do voto", com o qual o TSE, e seus acólitos-legisladores, pretendem desbancar as medidas fiscalizatórias em vigor, prestes a ir às derradeiras e sorrateiras votações no Congresso Nacional.

De que se trata? Tal novidade pretende trocar o atual boletim de urna, contendo o registro eletrônico dos totais de votos sufragados por candidato na sessão eleitoral, por uma lista embaralhada de registros individuais desses votos. Só que pelo mesmo software, desconhecido das potenciais vítimas de eventuais burlas nele inseríveis, e praticáveis, quer seja sobre os totais dantes somados, quer seja sobre a lista de votos que agora se pretende embaralhar e registrar, antes que ganhem, totais ou listas embaralhadas, a luz da vista alheia, com ou sem assinatura digital.

Fiscalização de eleição informatizada é dos maiores desafios do nosso tempo. Auditoria de software não é o conhecimento de programas gravados em CD e armazenados nalgum cofre do Judiciário, como dá a entender meia página de anúncio pago pela Microsoft no maior jornal de Brasília, em dias corridos da semana passada. É o conhecimento e a validação da totalidade do software realmente envolvido, direta ou indiretamente, no registro e na contagem de votos de uma eleição verdadeira, por quem de legítimo interesse. O que aconteceria se o software que está no cofre, e o que está nos computadores da eleição, não forem idênticos, como mostrou uma perícia no processo de anulação da eleição de 2000 em Camaçari, Bahia?

Abusos

Na situação atual, nada. Nada se prova e nada ocorre, pois a Justiça Eleitoral -- que julga seus próprios atos -- os anuncia idênticos, e pronto. Na verdade algo sim, bastante sutil, ocorre. O anúncio é oferecido como se fosse o mistério da eucaristia pós-moderna. A palavra mágica é "tecnologia". Quem absorve pelos olhos, de uma tela de computador em Brasília, o código fonte que emanda de uma hóstia-CD, precisa crer que este ato transmutará o código visto em programa que estará executando nas urnas e tribunais eleitorais espalhados pelo Brasil, para nos salvar de todo o mal eleiçoeiro, e nos abençoar com uma apuração quase instantânea. Enquanto diáconos e acólitos, junto com outros políticos de fino trato em coro cantam amém. Dentre os mais fanáticos, tucanos de alta plumagem.


De que serve a esses fanáticos jurarem de pés juntos que o sistema é 100% seguro, a cada insersão de novos penduricalhos tecnológicos inauditáveis na urna, como agora querem com firmware importado para assinatura digital? Trata-se de uma medida cara que não garante lisura nenhuma a terceiros, e que, sob a perspectiva de riscos desses terceiros, apenas introduz mais um elemento obscuro, mais um canto onde "botões macetosos" podem ser acoitados, recontaminando todo o sistema com mais obscurantismo. E elevando as despesas, contrariamente à justificativa com que se pretende introduzir mais essa mágica modernosa, ao invés de diminuí-las. De que servem as juras? Simples. Servem para manter a fé dos crentes da seita do santo byte, e a incredulidade -- ou a hipocrisia -- dos demais.

Destarte, não há razão para que a urna eletrônica continue recebendo o número do título de eleitor para liberar o mecanismo de votação, se o voto deve ser secreto. Desta forma, o sistema é capaz de identificar o meu, o seu, o nosso voto, para aqueles que manipulam suas entranhas, o corpo espiritual da santa urna. O voto secreto no Brasil, hoje, é mera ficção: nós o teremos na medida em que os controladores do sistema o permitirem, na intimidade e no mistério da sua discrição.

Os que decidem que o sistema deve ser assim são pessoas que não entendem de segurança computacional. São pessoas que poderiam, no mínimo, afirmar, a partir do bom senso que os levam a conhecer a natureza humana e a informática, esta nos limites da sua competência até aqui demonstados, que o sistema, assim, é seguro contra fraudes externas apenas, e apenas para quem detém o seu controle (se houver fraude bem feita, interna ou externa, estará no arbítrio de quem controla o sistema desvelá-la: se mal feita, terá sido acidente). Em outras palavras, o sistema é seguro, sim, mas apenas para aqueles que assim afirmam, qualquer que seja o seu verdadeiro propósito. Eles não mentem, desde que continuem omitindo o complemento verbal das suas juras de segurança.

Para o eleitor interessado na lisura do pleito o sistema é, claramente, 100% inseguro, pois os programas do sistema podem ser ligeiramente alterados para "eleger" desde vereadores até o próprio presidente, com tais desvios podendo ser introduzidos por uma única pessoa, com acesso e conhecimento privilegiados e no devido momento, independente do espetáculo místico-midiático onde algum software é mostrado aos partidos sessenta dias antes da eleição, em meio a holofotes e câmeras de TV, à guisa de se "permitir a auditoria".

Iniciativas visando tornar arriscado o acesso furtivo que introduz burlas no software, para quem o acesso capaz de modificar software se justifica, ao contrário de iniciativas visando tornar obscuro os acessos justificados, para quem se prejudicaria com burlas no software, é o que falta para se ter um mínimo de "segurança do eleitor". O TSE jamais aceitou convites para debater tecnica e publicamente a segurança do sistema, pois sabe das suas inseguranças internas. Nenhum estudo isento e independente sobre sua alegada confiabilidade, sem subjetivismos, foi feito até hoje.

O próprio estudo de um grupo da Unicamp -- pago pelo TSE --, parcial e pleno de ressalvas, recomendou vários procedimentos como condição para se estabelecer níveis recomendados de segurança para o processo, omitidos na propaganda sobre as maravilhas da urna, e agora defenestrados pelo projeto do senador Azeredo, caracterizando verdadeiro engodo a sua invocação em juras de segurança. Se o sistema algum dia cair sob o controle de pessoas desonestas, estas poderão eleger quem desejarem, e políticos interessados saberão onde e como sua eleição poderia ser garantida.

Doutra feita, confiar apenas nas pesquisas eleitorais é perigoso, pois sabemos que pesquisas podem, também, ser manipuladas. Os registros dos métodos de pesquisa no TSE, por exemplo, revelam que estas são "auto-ponderadas". Auto-absolvição? Além disso, se as diferenças entre candidatos for mesmo pequena, as pesquisas nada representam para efeito de validação de resultados. Confiar nas pesquisas como única salvaguarda, como pregou o diácono FHC ao declarar que "a mídia é quem fiscaliza as eleições", incitando a Justiça à desobediência ao artigo 66 da lei 9604/97 (então em vigor), apenas eleva o custo, e com ele as barreiras de entrada ao negócio, do ilícito através de possíveis e eventuais burlas no software eleitoral. E finalmente, se o risco de exposição de eventuais burlas for pequeno, este fato atrairá a cobiça de ambições fundas e escrúpulos rasos ao controle do sistema.

Quimera

Não existe sistema informatizado imune a fraudes. A proteção possível será através da combinação equilibrada de salvaguardas técnicas, transparência e auditabilidade onde necessárias, contemplando suficientes direitos àqueles que possam ser prejudicados pelas possibilidades de burlas invisíveis, constituindo-se esses na sua cidadania. No caso em tela, os direitos dos candidatos e do eleitor. Mas esses direitos estão sendo pisoteados a achincalhados por quem, na posição de administrador dos mesmos, se faz de desentendido das tais possibilidades, enquanto posa de vestal.

São os mesmos que, no poder, não reconhecem, ou desdenham, as forças sociais que fizeram eclodir a revolução francesa, a revolução de 1930, e o movimento global contra a erosão do Direito provocada pelo fundamentalismo de mercado, dogma que prega o predomínio global do poder do capital como bem supremo. Este poder tem por missão, impessoal e instintiva, a destruição do conceito de bem público, e como bem público se pode classificar os direitos de cidadania. O fundamentalismo de mercado tenta transmutar os direitos de cidadania, nascidos da revolução francesa, em mecanismos legais de premiação, direta ou indireta, da avareza humana.

"Nenhum sistema é mais fiscalizado do que o nosso sistema eleitoral informatizado", proclamou, antes da eleição de 2002, como "prova" da total segurança e lisura do dito, uma autoridade eleitoral, das que reagem agressivamente a qualquer crítica ou à mera insinuação de inconsistência, como se fossem heresias. Pode ser que sim. Mas é verdade mais certa, e esta bem mais significativa, que nenhum sistema é mais mal fiscalizado, apesar do que diga a seita do santo byte.

Até aqui, a fiscalização desse sistema vem se constituindo em mero espetáculo lúdico, ou um ritual místico sem nenhuma eficácia ancorável na ciência da computação. Por mais pomposo que seja o espetáculo, ou por mais credulidade que inspire o rito, é, de qualquer forma, absolutamente incompatível com os valores em jogo, mesmo numa sociedade que mede seus valores pelo próprio espetáculo ou pelo vigor dos seus mitos. O episódio da sessão paralela de cinema, promovido por um privilegiado fiscal de partido em 9 de agosto, co-extensivo e concomitante ao ato final da "cerimônia de auditoria" do sistema, dois meses antes do primeiro turno de 2002, bem o ilustra. E as ilustrações não para por aí.

Segundo a diretoria técnica da empresa vencedora da correspondente licitação, o TSE teria especificado, para a eleição de 2002, para uma experiência voluntária "de teste" com a medida fiscalizatória do voto impresso, que as impressoras fossem fornecidas com um selo de lacre sobre a greta por onde os votos seriam ejetados. E que o TSE teria se esquecido de avisar aos técnicos que iriam lacrar o saco de coleta de votos à impressora montada na urna, na encenação da "experiência", para que antes retirassem o selo de lacre da greta. Esqueceu-se. Resultado, conforme relatório que o TSE elaborou e enviou ao congresso, por iniciativa própria, sobre a tal experiência voluntária: "Alta porcentagem de falhas", sem maiores explicações.

Negligência

O TSE licitou mais de 70 mil dessas impressoras, montou cerca de 50 mil delas em urnas eletrônicas, e distribuiu vinte e poucas mil nas sessões eleitorais escolhidas para a experiência. Essas sessões também tiveram, em sua maioria e em média, cadastros de eleitores inchados. Coincidência. O TSE também programou essas urnas para requererem um clique a mais no botão "Confirma", ou esperar três minutos antes de liberar o voto para o próximo eleitor. Mas esqueceu-se de avisar, através de sua milionária campanha educativa, aos eleitores "premiados" com o direito de ver seu voto insculpido em meio indelével, da necessidade desse segundo clique. Esqueceu-se. Resultado, no tal relatório: "Longas filas e eleitores confusos", sem maiores explicações.

E finalmente, o tal relatório declara: a experiência mostrou que tal medida "nada acrescenta à segurança do sistema". Resta perceber que acrescentaria se pudesse ser usada. Por exemplo, na útima eleição do DF, totalmente "premiada" com a tal experiência, vencida por pequena margem e contestada no seu resultado eletrônico. Mas quem teve dúvidas sobre o resultado, contestou e solicitou a recontagem dos votos impressos junto ao tribunal regional, teve seu pedido negado por unanimidade "para não atingir a credibilidade das eleições". Afinal, era apenas um teste!

Até falsos boatos teriam sido injetados, em círculos políticos não premiados, dando conta de que tal medida fiscalizatória é perigosa pois o eleitor poderia, com ela, vender seu voto. Como seria isso possível, se ninguém pode ver votos alheios impressos, mesmo contestando no tribunal o resultado da eleição? Vade retro!

Tampouco é verdade o que noticiou o telejornal da Record de 13/09, de que a impressão voto terá que ocorrer em todas as urnas, já na eleição de 2004, se a lei eleitoral em vigor não for revogada. Durante sua aprovação em 2001, o TSE fez lobby para incluir na lei dispositivo que lhe faculta escolher o ritmo em que tal medida viria a ser inplementada. O TSE, querendo, poderá, sem ferir a lei atualmente em vigor e com o mesmo orçamento da eleição de 2002, fazer a impressão dos votos nas mesmas sessões eleitorais "premiadas" naquela ocasião. Mas o TSE quer algo mais.

Quer, agora, justificando-se com este relatório, defenestrar as medidas fiscalizatórias estabelecidas autonomamente e a duras penas pela legislatura anterior, que, assustada com as repercussões do escândalo no painel do senado, enfrentou e venceu o mesmo lobby. Venceu mas não levou. E o eleitor, em vez de cobrar seus direitos, até agora vem dando a impressão de preferir aceitar passivamente, junto com a grande mídia, o papel de tolo nesse jogo infeliz, organizado por quem se propõe a "testar voluntariamente" medidas fiscalizatórias dos seus próprios atos, realizado através de uma triste e vergonhosa execração pública, como se democracia fosse sinônimo de conveniência.

Seria fruto de uma paranóia conspiracionista este alerta? Pode ser que sim, pode ser que não. Mas se o for, será nisso mais honrado e saudável do que a vassalagem crédula ou interesseira, e do que a ingenuidade medrosa ou hipócrita. Pelo menos para a dignidade e, quiçá, para o futuro daqueles conceitos pelos quais ainda se luta. Conquistados com muito sangue por nossos antepassados, em carnificinas que precederam o período das luzes, das quais nasceram, como dignos gêmeos, a Cidadania e o Estado Democrático de Direito, e cujos ecos reverberaram na nossa revolução de 1930.

Lógica do risco

Todo jurista, juiz, advogado ou policial investigador sabe que a possibilidade de ocorrência de fraude é inversamente proporcional ao risco de punição do infrator, da severidade e da extensão desta punição. Enquanto, em sistemas informatizados, o bloqueio à efetiva auditabilidade externa equivale à garantia da impunidade para quem o controla. Sendo a parte sobre a qual o cientista da computação tem vantagem de aprendizado em relação aos operadores do Direito, tal equivalência se faz motivo deste alerta.

Equivalência que pode ser resumida na constatação de que sistemas informatizados sensíveis se tornam propensos à fraude, por parte daqueles que o controlam, na medida direta das dificuldades para sua auditoria externa e das vantagens que tais ilícitos oferecem. Desnecessário dizer mais sobre ambos, no caso. O que pretendem, então, aqueles que fingem em público desconhecer essa lei social do mundo hodierno, investidos que foram de amplos poderes para proteger a sociedade contra, dentre outros, os seus efeitos?

Este alerta não é uma acusação, por parte de um irresponsável que não tem provas, da ocorrência de fraudes eleitorais. É uma acusação, por parte de quem representa a sociedade civil no órgão de Estado que regula a segurança na informatização dos seus processos, do cerceamento do direito de se obter tais provas, caso fraudes eleitorais ocorram. Mais precisamente, caso as mais fáceis formas de fraude ocorram. As provas deste cerceamento estão em projetos de leis, em processos e atas do Judiciário e do Legilativo, em resumo compiladas e referidas em dezenas de artigos espalhados por vários portais na internet, inclusive no site do autor. Examina-as, entende-as e valida-as quem quiser.

A Justiça Eleitoral quer vestir a si mesma com um véu de imaculada, sacrossanta e infalível confiabilidade, através da anulação do direito das partes interessadas fiscalizarem o processo eleitoral, à guisa da sua auto-proclamada necessidade de informatizar o processo com "contenção de gastos" e "mais modernidade". Quer anular esses direitos, depois de boicotá-los, promovendo, através de um estranho lobby conduzido pessoalmente por seus mais altas autoridades, a substituição do artigo 66 da lei eleitoral em vigor (lei 9.504/97) e da medida fiscalizatória do voto impresso, por mais um jogo de espelhinhos e protinholas digitais furtivas.

Mais um balangandã de penduricalhos teconológicos inauditáveis dentro da urna, acoplado a uma linguagem capciosa dentro da lei, transformando o sistema eleitoral brasileiro em exemplo lapidar do tipo de caixa-preta contra o qual nos alerta o presidente da República. Para se ter idéia, o tal projeto foi originalmente encaminado pelo senador Azeredo com dispositivo que ditava, aos operadores do Direito, ser a assinatura digital inauditável no registro eletrônico de votos "para impedir o questionamento do período de votação".

Doutra feita, não entendemos como juristas e legisladores que se fazem ilustres, aparentando acreditarem no que falam, ilocucionam vacuidades com tamanha convicção, em áreas que não dominam, áreas alheias ao seu campo de atuação, desdenhando o cerceamento aqui denunciado. Ou, pior, quando, pelo perfil profissional, deveriam dominar. Não entendemos como a grande mídia valoriza tais ilocuções, como se a segurança computacional de sistemas informáticos públicos fosse assunto de fé religiosa, ou de foro ínitmo sobre gosto individual ou ética atribuída a palpites do que seja modernidade.

Em particular, às ilocuções de quem propôs a extinção da medida de auditoria via voto impresso, através do referido e famigerado projeto de lei, aprovado no Senado sem que os senadores ouvissem ninguém a respeito de fora do TSE, e depois enviado à Câmara, que tampouco se dispõe a ouvir quem quer que seja fora do TSE. Os fanáticos do santo byte acusam seus críticos de "lobbistas", e seus argumentos de "politizados", para descartá-los.

Descartada, doutra feita, a possibilidade de má fé, essas ilustres e poderosos senhores demonstram, ultimamente em debate nas respectivas comissões de Constituição e Justiça, completa ignorância do assunto, aliada a um acerbo conforto com a mesma, real ou fingida, argumentando sem entender daquilo que se propõe e se discute, valendo-se de argumentos que, repetidos de terceiros e fora de contexto, constituem falácias a se propagar em professões de cega fé que seriam cômicas, se não fossem trágicas. Trágicas porque não se pode distinguir a ingênua fé no santo byte, da preformance cênica interesseira misturada à sua romaria.

Por que agem assim a maioria dos nossos legisladores? Por que se esforçam tanto em nos convencer que a mera mudança do registro do voto de papel para bytes transforma aqueles que projetam, operam e controlam o sistema em seres angelicais? Estariam tendo visões alucinatórias, depois de alguma beberagem pelos ouvidos?
Manobra do Santo Byte
No dia 17 de Setembro a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados acordou da cantilena dos fanáticos. Deliberou e votou por enviar requerimento à mesa da casa, solicitando que lhe seja permitido dar parecer sobre o referido projeto, antes de sua submissão ao plenário.

Elementos do mais alto escalão do Poder Judiciário vêm pressionando deputados e senadores para que aceitem, sem questionar, disparetes do jaez contido no projeto encaminhado por Azeredo, através de lobby cerrado, tons de desafio implícito, barganhas obscuras e insubstanciadas, imiscuindo-se na autonomia do Poder Legislativo, a pretexto de protegerem o sistema eleitoral contra "hackers", "despesas excessivas" e "velharias". A maioria dos pressionados diz amém, sagrando-se diáconos desta estranha seita do santo byte.

Por que o TSE não presta contas das despesas com a execução, "ofercida" através de seu sistema, de eleições na Argentina e na República Dominicana, antes de execrar, por seus "altos custos", as medidas fiscalizatórias conquistadas a duras penas pela legislatura anterior? Quem paga por tal generosidade, enquanto aqui se engalfinham muitos de seus atores, empenhados em contribuir para estrangular, até à medula, o erário na manutenção dos seus privilégios por tempo indefinido?

Por que altos magistrados pressionam o Poder Legislativo para que não seja promovida nenhuma audiência pública sobre tal projeto obscurantista, nem mesmo para que especialistas em segurança computacional sejam ouvidos, enquanto outros supremos magistrados acusam o presidente da República de imiscuir-se na autonomia do Poder Judiciário, com seu alerta sobre caixa-preta?

Dois pesos e duas medidas se reserva, assim, o Poder cujo símbolo seria o da escala única para administração da Justiça, expresso na figura duma balança auscultada por mão guiada por olhos vendados, até em estátua frente ao STF. Ao cobrir-se com véu de suposta imaculada e sacrossanta retidão, a Justiça Eleitoral se faz cega, e também surda, não mais à influência de interesses alheios sobre aquilo que lhe cabe judicar, mas ao nexo causal que guardam entre si a possiblidade de fraude e o risco de punição para o fraudador.

Nexo que, no mundo capitalista, tem força de lei equivalente à da gravidade no mundo material, razão do alerta presidencial: fraudes ocorrem em proporção direta não só à facilidade da sua execução e ao valor que representam para o fraudador, mas também à dificuldade de se produzir provas da sua autoria. É como se marchassem esses ilustres senhores, lépidos e faceiros, ouvidos bem tapados rumo a um abismo, julgando-se assaz espertos por entenderem as "regras do jogo". Poder usa quem tem.

Ao promoverem intenso lobby a favor de legislação obscurantista, que destrói o direito de potenciais vítimas produzirem provas de eventuais ocorrências de fraude nas formas mais facilmente perpetráveis através do sistema eleitoral em uso, alguns supremos magistrados não só afrontam a autonomia do Poder Legislativo, mas o fazem com superlativo agravante: o desrespeito à memória cívica de recentes e vergonhosos episódios, como o do painel do senado e o da inexplicada votação negativa de Lula no primeiro turno. Ao mesmo tempo em que desafiam o presidente da República em sua orientação, como líder supremo da nação, para que se dê cabo de injustificadas opacidades no Poder Judiciário.

O escândalo do painel do senado trouxe à tona, justamente, um mecanismo de fraude para quem controla o sistema poder fraudar sem ser incomodado. O "botão macetoso" teria sido encomendado, segundo a empresa fornecedora do sistema, pelo próprio senado, como parte nova (e oculta) do processo, para que funcionários da casa pudessem votar em deliberações senatoriais, em nome de senadores ausentes. Note-se que, para o público, dizia-se desse sistema haver sido projetado para impedir a ação de senadores "pianistas", que vez por outra votavam, sorrateiros mas sob o risco de flagrante por câmeras atentas, em nome de colegas ausentes.

Afronta

Quem, na sociedade, estava atento, aprendeu do episódio uma boa lição da era digital. Uma lição sobre o papel da eficácia fiscalizatória como nó górdio daquilo em que nela se trasforma a cidadania. A expectativa de certos senadores, de que o sistema do painel de votação de sua casa nunca viesse a ser externamente auditado, desfez-se com a cizânia provocada por uma escalada na luta interna entre dois caciques, expondo com isso, à sociedade, a dimensão dos riscos a que nos expomos ao aceitarmos sistemas informatizados inauditáveis, como intermediários no controle do nosso destino coletivo.

Ao fazerem lobby sobre o Legislativo para que nosso sistema eleitoral se transforme de vez, de fato e de direito, em modelar caixa-preta, autoridades do Poder Judiciário afrontam sobejamente não apenas a autoridade máxima da República, desafiando sua orientação de líder supremo da nação, para que nossa sociedade evite os perigos desta perniciosa forma de obscurantismo pós-moderno. Insultam também a inteligência do cidadão comum, apostando na sua incapacidade de aprender lições de cidadania que a História ministra.

Como as lições do painel do senado, da votação negativa atribuída por essa mesma caixa-preta ao candidato Lula no primeiro turno em 2002, dos vergonhosos espetáculos da execração pública de uma medida fiscalizatória antes mesmo que vigisse, encenado pelo próprio fiscalizado, e da capacidade articuladora dos seus membros em defesa de particulares e mesquinhos interesses entrelaçados ao poder que representam, exibida durante a negociação da reforma da Previdência.

Afrontam os aprendizes da História na expectativa de que suas vozes sejam caladas, muitas vezes rotulando-as de retrógradas, paranóicas e conspiracionistas. Na esperança de que a sociedade brasileira venha a aceitar passivamente a silhueta que pretendem desenhar sobre a instituição que representam, cobrindo-a com precário véu de imaculada e sacrossanta retitude, precário pois seu significado está sendo tecido com o fio de uma indisfarçável inflação de autoridade.

Mas nem todo cidadão está disposto a confundir esta silhueta com o papel desenhado para o Poder Judiciário enquanto Janus, judicador e custodiante do processo eleitoral, em nossa Carta Magna. Nem todo cidadão está disposto a se calar diante desses abusos. O parlamentar que mereceu o nosso voto, merece também saber da nossa opinião e perplexidade a respeito. Os que se curvarem, entrarão para a História por uma outra porta, como entraram por distintas portas os que se enfrentaram na revolução de 1930. Quanto mais se muda, mais igual tudo fica. O discurso da modernidade é disfarce: o que eram livros de votação antes de 30, são hoje softwares. O futuro nos espera.

Fonte:

Autor
Pedro Antônio Dourado de Rezende, matemático, professor de Ciência da Computação na Universidade de Brasília, Coordenador do Programa de Extensão em Criptografia e Segurança Computacional da UnB, representande da sociedade civil no Comitê Gestor da Infra-estrutura de Chaves Públicas brasileira. (www.cic.unb.br/docentes/pedro/sd.htm)

Direitos Autorais:
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sexta-feira, janeiro 06, 2012

Sudão do Sul, o Novo Aliado de Israel.



Por Daniel Pipes

Não é todo dia que o líder de um país completamente novo realiza a sua viagem inaugural, como chefe de estado, para Jerusalém, capital do país mais sitiado do mundo, no entanto, foi exatamente isso que Salva Kiir, presidente do Sudão do Sul, acompanhado pelos seus ministros das relações exteriores e da defesa, fez no final de dezembro. O presidente de Israel Shimon Peres saudou a sua visita como um "momento comovente e histórico". A visita provocou comentários de que o Sudão do Sul iria estabelecer a sua embaixada em Jerusalém, tornando-o o único governo do mundo a fazê-lo.
Após o referendo que confirmou a divisão do Sudão, Kiir, católico,
tomou posse como o primeiro presidente do novo país.

Esse raro desdobramento é o resultado de uma história incomum.

O Sudão de hoje tomou forma no século XIX quando o Império Otomano controlava as regiões ao norte e tentava conquistar as regiões ao sul. Os britânicos, governando a partir do Cairo, estabeleceram as linhas gerais do estado moderno em 1898 e governaram pelos próximos cinquenta anos separadamente o norte muçulmano e o sul cristão e animista. Entretanto, em 1948, sucumbindo à pressão vinda do norte, os britânicos fundiram as duas administrações em Cartum sob o controle do norte, tornando os muçulmanos dominantes no Sudão e o árabe o idioma oficial.

Dessa forma, a independência em 1956 trouxe a guerra civil, com os sulistas combatendo para rechaçar a hegemonia muçulmana. Felizmente para eles, a "estratégia de periferia" do primeiro ministro David Ben-Gurion traduziu-se em um apoio israelense para os não árabes no Oriente Médio, incluindo o sul sudanês. O governo de Israel serviu de sustentáculo por toda a primeira guerra civil sudanesa, que persistiu até 1972, como sua principal fonte de apoio moral, ajuda diplomática e de armamentos.

O Sr. Kiir reconheceu essa colaboração em Jerusalém, observando que "Israel sempre apoiou o povo sudanês do sul. Sem vocês, não teríamos conseguido. Vocês lutaram ao nosso lado com o objetivo de criar o Sudão do Sul". Respondendo, o presidente Peres lembrou que esteve presente no início dos anos de 1960 em Paris, quando o então primeiro ministro Levi Eshkol e ele começaram a primeira ligação com os líderes sulistas sudaneses.

A guerra civil do Sudão continuou intermitentemente de 1956 até 2005. Com o passar do tempo, os muçulmanos nortistas tornaram-se cada vez mais cruéis para com seus compatriotas, culminando com massacres, escravidão e genocídio nas décadas de 1980 e 1990. Dadas as muitas tragédias da África, problemas dessa natureza talvez não tivessem impressionado os ocidentais já cansados de compaixão, com exceção de um esforço extraordinário liderado por dois abolicionistas americanos da era moderna.

Começando em meados de 1990, John Eibner do Christian Solidarity International libertou dezenas de milhares de escravos no Sudão enquanto Charles Jacobs do American Anti-Slavery Group liderou a "Campanha do Sudão" nos Estados Unidos que reuniu uma ampla coalizão de organizações. Como todos os americanos abominam a escravidão, os abolicionistas formaram uma aliança única com a direita e com a esquerda, incluindo Barney Frank e Sam Brownback, o Congressional Black Caucus e Pat Robertson, pastores negros e evangélicos brancos. Em contrapartida, Louis Farrakhan ficou exposto e constrangido pelas suas tentativas de negar a existência de escravidão no Sudão.

O empenho abolicionista atingiu o ponto culminante em 2005 quando a administração de George W. Bush pressionou Cartum em 2005 a assinar o Acordo Abrangente de Paz terminando a guerra, dando aos sulistas a oportunidade de votar pela independência. Votaram entusiasticamente em janeiro de 2011, quando 98 porcento votou pela separação do Sudão, levando a formação da República do Sudão do Sul seis meses depois, um acontecimento saudado pelo presidente Peres como "um marco na história do Oriente Médio".

O investimento de longo prazo de Israel compensou. O Sudão do Sul se encaixa em uma estratégia de periferia renovada que inclui Chipre, curdos, berberes e, quem sabe um dia, um Irã pós-islamista. O Sudão do Sul proporciona acesso a recursos naturais, principalmente petróleo. Seu papel nas negociações sobre a água do Rio Nilo proporciona influência em relação ao Egito. Além dos benefícios práticos, a nova república representa um exemplo animador de uma população não muçulmana resistindo ao imperialismo islâmico através da sua integridade, persistência e dedicação. Nesse sentido, o nascimento do Sudão do Sul ecoa o nascimento de Israel.

Se a visita de Kiir a Jerusalém for verdadeiramente o assinalamento de um marco, o Sudão do Sul terá um longo caminho a percorrer, de um protetorado internacional paupérrimo, com instituições fracas até a modernidade e independência genuína. Este caminho requer que a liderança não se valha dos recursos do novo estado nem sonhe em criar um "Novo Sudão" com a conquista de Cartum, e sim lançar a pedra fundamental para obter a condição de estado bem sucedido.
Um cartaz exibido durante as comemorações da independência (editado para compreensão, usando o árabe como orientação): "A partir de hoje, a nossa identidade é o Sul (sudanês) e africano, não árabe e islâmico. Não somos o pior dos árabes e sim o melhor dos africanos".

Para os israelenses e outros ocidentais, isso significa tanto ajudar na agricultura, saúde e educação e instar Juba a permanecer centrada na defesa e no desenvolvimento ao mesmo tempo, evitando optar por guerras sem necessidade. Um Sudão do Sul próspero poderá no final das contas tornar-se uma potência regional e um forte aliado não apenas de Israel mas do Ocidente.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

MICHEL TELÓ PODE SER MINISTRO.


Vem aí a reforma ministerial e isso é importantíssimo; pelo menos para o governo; quanto ao povo, isso é um mero detalhe.  E tudo pode acontecer, inclusive nada. Mas tudo pode ser, pelo menos diferente do que é.

Não me surpreenderia se alguém muito chegado ao presidente(a) de plantão, sugerisse para a Chefia da Casa Civil alguém com respaldo popular; alguém que soubesse comunicar tudo com poucas palavras - mais inteligíveis (não quer dizer inteligentes), numa linguagem fácil. Por exemplo? Quem tem conseguido se comunicar bem com o povão, dizendo coisas "entendíveis" - não inteligentes, repito - para todos; do professor universitário ao  morador de rua? Ele mesmo; creio que alguém já pensou assim: Michel Teló.

Se entendermos bem que "fenômeno" pode ser tanto uma chuva de dólares como um tsunâmi devastador, o Michel Teló é um fenômeno; embora não faça chover dólares, pelo menos na minha cabeça.

Esse "fenômeno" já conseguiu descontrair até soldados israelenses (há quem diga que isso foi montagem, mas isso é outra história) e não se sabe bem se por causa da letra da música (se é que se possa chamar de letra e de música) ou se pela dança, um misto de não-sei-o-que-estou-fazendo com sei-bem-quem-você-é-e-não-merecuse-sua... . Enfim, quem se surpreenderia que em dado momento o Teló fosse indicado para ministro? Quem duvida que já esteja sendo sondado por partidos para, no mínimo, concorrer a vereador de uma grande cidade ou prefeito de uma média cidade?  Se já temos o "cachorrinho dos teclados" como vice prefeito de São Bernardo do Campo, o que custaria o Teló ser prefeito?

Ainda que a lucidez esteja presente entre nó brasileiros, nada mais me surpreende. A respeito do tal fenômeno, mas também a respeito da música que hoje é tocada, encontrei algo revelador e lucido no artigo de Adriano Dal Molin:


Que o Brasil está em avançado estado de decomposição, é inegável: educação, moral, ética, política, infra-estrutura. Mas e na cultura, especificamente na música popular, como estamos? Nos últimos anos passamos do brega às duplas sertanejas, da avalanche do pagode e do axé até o arrastão do funk carioca e do batidão do sertanejo universitário. Não que cada um desses estilos sejam "maus" por si só. O que acho deplorável é a absoluta ausência de senso crítico na grande massa de ouvintes. Vejamos. Que mal há em ser brega? Não ser moderno? Amadurecer, parafraseando Belchior, é entender e aceitar "que o novo sempre vem"... continue lendo aqui..

Então o negócio é cantar: Nossa, nossa,Assim - governo -você me mata,Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

domingo, janeiro 01, 2012

DANIEL PIZA - UM ULTIMO PRESENTE ANTES DA SUA AUSÊNCIA.


De presentes e ausências. (Blogs do Estadão em 25/12/2011)


Nesta época é comum ver, além das retrospectivas, os apelos piegas ao tal espírito natalino, abusos de expressões como “renovar esperanças”, previsões furadas de astrólogos, tarólogos e outros loucos, textos que lamentam onde estão os natais d’antanho, mensagens de boas festas com listas de virtudes. Meu impulso é perguntar por que as pessoas não procuram ser assim o ano todo, e não apenas no solstício que foi apropriado pela religião e pelo folclore para se tornar uma data paradoxal em que se discursa sobre bons sentimentos enquanto se consome em ritmo febril; até mesmo os nacionalistas se calam diante do fato de que a festa não tem cara do calor de 34 graus. E então me ponho a pensar em como generosidade e respeito, para ficar só nesses dois itens, andam em falta nos tempos atuais, especialmente nas grandes cidades, e em como a tecnologia que deveria nos aproximar nos tem dispersado. Mas lembro os Natais de infância, comparo com o dos meus filhos e as diferenças se tornam irrelevantes, porque os prazeres e as questões são muito parecidos. E os dias deliciosamente desocupados, desacelerados, convidam ao balanço do ano, ainda que tenha tido tantas tristezas em meu caso, e sem balanço não há avanço.
Somos carne e pensamento, um não se dissocia do outro, e do mesmo modo o Natal é ficar feliz em dar e receber presentes, é ver as crianças alegres com o que ganham e pronto, sem místicas nem melancolias. Lembro que meu avô nos levava em seu Opala, no banco da frente, câmbio atrás do volante, para procurar o Papai Noel. Olhávamos para o céu e achávamos que qualquer luzinha era a carruagem de renas. Quando voltávamos, ele já tinha passado e deixado os presentes sob a árvore. Um primo mais velho me disse: “Cheguei até a ver a perna dele saindo pela janela”. Eu devia ter uns oito anos e achei estranho; afinal, era só ter ficado ali que com certeza o veríamos, já que eu nunca tinha conhecido ninguém que não ganhasse presentes todo santo Natal. (Eu já estava acometido desta mania de descrença: antes de fazer 6 anos, na minha primeira viagem de avião, assim que ficamos acima das nuvens perguntei ao meu pai onde estavam os “anjinhos”. Não era ali que diziam que eles moravam?) De qualquer modo, afora as comidas saborosamente calóricas, quase sempre o presente fazia a dita magia da noite. Digo “quase sempre” porque uma vez pedi um Piloto Campeão e ganhei uma Motocleta. Inconformado, reclamei: “Que Papai Noel burro!” Mas a Motocleta, espécie de triciclo evoluído, me divertiu muito mais ao descer a rampa do abacateiro na chácara que tínhamos.
Ver o sorriso de filhos e sobrinhos é boa maneira de encerrar o ano, como o fecho de capítulo de um livro que ainda não terminou, e mesmo que não chegue a redimir o capítulo ruim. Perdi minha mãe e, apesar das falas pseudo consoladoras do tipo “É a vida” (não, é a morte mesmo) e “Tudo vai ficar bem” (defina “bem”), a dor ganha intervalos, mas a ausência fica. Tive também uma decepção pessoal, que abalou minha confiança, me tirou alguns quilos, me fez ver de novo como nossos melhores esforços podem ser os mais injustiçados, como a ingenuidade é amiga da vaidade, como a efusão brasileira pode ocultar inveja ou egoísmo. Também não fico feliz ao pensar que para tantas pessoas uma experiência insubstituível como ter filhos pode ser vista como algo que “atrapalha” ou, pior, que justifica manter relacionamentos frios ou frustrantes, em vez de renová-los. Mas terminei meu capítulo com páginas encorajadoras, confiante não apenas em ter superado a fase crítica, mas também em não ter deixado o desencantamento tomar conta. Aí está, se me permitem o toque natalino: não deixar o desencanto tomar conta é o melhor presente.


Daniel Piza, nasceu em São Paulo em 1970 e estudou Direito no Largo de São Francisco (USP), começou sua carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo (1991-92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cultura. Trabalhou em seguida na Folha de S. Paulo (1992-95), como repórter e editor-assistente da Ilustrada, cobrindo especialmente as áreas de livros e artes visuais. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; desde 2004 assina também uma coluna sobre futebol. Traduziu seis títulos, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. Escreveu 17 livros, entre eles Jornalismo Cultural (2003), a biografia Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro (2005), Aforismos sem Juízo (2008) e os contos de Noites Urbanas (2010). Fez também os roteiros dos documentários São Paulo - Retratos do Mundo e Um Paraíso Perdido - Amazônia de Euclides. 
Daniel Piza faleceu na cidade de Gonçalves em 30 de dezembro de 2011, vítima de um AVC, aos 41 anos de idade. Daniel Piza deixa mulher, Renata Gonçalves Piza, e três filhos.