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terça-feira, janeiro 03, 2017

A negação da religião no debate público?



por Sergio Renato de Mello




A religião não pode sair da pauta do debate público, ainda que seja para negá-la! Ao menos, ela não pode ser abolida por uma certa intolerância científica que reina no universo dos debates públicos, providos por conhecimentos decisórios intencionalmente preparados com o fim de eliminar qualquer disputa mais sensível ao natural e, portanto, mais profunda e acirrada. O conhecimento dessa forma conglobante se torna totalitário, no qual se inclui formas de dizer e decidir totalitárias que desfiguram a natureza verdadeira da disputa.

E as razões para tanto são de duas ordens.

A primeira delas é jurídica.(1) Além do texto do preâmbulo constitucional, que tem valor de interpretação para toda a constituição, existem direitos com ligação religiosa estabelecidos como direitos fundamentais ou individuais. É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (art. 5º, inciso VI). Não pode o Estado assumir papel de intermediário entre Deus e os homens, indicando essa ou aquela divindade a ser seguida por todos. Entretanto, ainda que o Estado brasileiro seja ou deva ser neutro ou laico nas questões afetas à religião,(2) dela não pode desbordar como se ela fosse inútil para o enfrentamento de questões das mais dignas e salutares, como vem acontecendo principalmente no meio jurídico. Invoco em abono disso lembrando o caso julgado pelo STF recentemente, por meio de habeas corpus, em que a decisão foi pelo direito de interromper a gravidez até o terceiro mês de gestação.

A outra razão é de cunho cultural. E porque não dizer almática!

Religião é uma manifestação cultural e deve ser abordada em debates públicos, mais ainda quando o assunto é de extrema importância por sua delicadeza na pauta social. De uma discussão desse feitio pode sair vida ou morte, dependendo do resultado! (novamente o aborto…). Mesmo assumindo o risco de ser taxado de “burro”, porque religião hoje em dia, na visão do “progresso”, “não se discute”, onde houver discussão entre pontos de vista religiosos diferentes ou antagônicos entre si, em todas as suas manifestações, a dialética ou o debate aberto deve sempre existir. Aclareando ainda mais: a religião ou quaisquer de suas manifestações ou temas que dela fazem parte é um ponto controvertido, o que por si só faz dela uma necessidade. E uma necessidade democrática, porque nosso país e nossa constituição, ao menos formalmente, diga-se de passagem, tem a democracia como regime de governo. As vozes de todos têm que ser ouvidas, não importando o que sai da boca de um pastor, de um padre ou de militantes religiosos.

Mas parece que esse não é o entendimento do politicamente correto, da “mais importante” pauta atual dos modernos, em todas as suas manifestações públicas (vide, exemplificativamente, reciclagem de lixo, defesa das árvores e dos bichos e aquecimento global), incluindo as instituições públicas dos poderes instituídos, como o Judiciário. Tais instituições ou pessoas assumem, acovardadamente ou não, postura de antirreligiosos ou arreligiosos, como se tais celeumas não devessem entrar em cena por mesquinhas ou de pequena importância para a solução dos maiores e mais “dignos” dos problemas humanos, comparativamente com eles. Pautas globais do politicamente correto e, consequentemente, do engano, do vil, mas pregadas como tábua de salvação humanitária, só porque entraram na moda ou porque vêm de cima, desmistificam o sagrado e a natureza humana e assumem o papel de uma verdadeira “religião” nos dias atuais. Mais verdadeiramente, assumem a saga salvadora do deserto em que se encontra o indivíduo sem Deus, sem o divino para dar luz aos seus pequenos ou grandes problemas. O pior é que, não institucionalizada religiosamente, a civilização do divino toma contornos de verdadeira seita.

É impactante o que é noticiado que acontece na Coréia do Norte, um país ainda e infelizmente comunista por excelência, um regime opressor que tem como fundamento eliminar a liberdade das pessoas – e, em caso de relutância, até mesmo a vida – que se negam a cumprir os mandos e desmandos do tirano. Todos os mentores e líderes comunistas se acham os heróis e assumem o poder sem democracia ou com uma que, a bem da verdade, foi camuflada e nada reflete em termos de vontade do povo.

Isso não é nenhuma novidade em países comunistas, mas vale a pena lembrar.

Fatos e mais fatos são divulgados diariamente e que demonstram que o embate religioso de temas caros para a sociedade está sendo desfigurado para dar lugar a soluções baratas e vis, substituindo um campo transcendental por outro da cultura e da política, viável sob o ponto de vista de um Estado que se quer dessacralizado desde a sua separação com a igreja. O Estado tem que assumir a sua função política e nada mais.

Virou notícia na internet que o governante da Coréia do Norte trocou o natal, ou nascimento de Jesus, por outra comemoração: o nascimento da sua vó. Eis o título: Ditador da Coreia do Norte proibiu o Natal e mandou celebrar o nascimento da sua avó. Nada contra a vó do referido ditador, uma heroína comunista digna de prêmio com certeza mais até do que Jesus… o qual pregava o amor entre as pessoas e não o ódio, não chegou a matar se quer uma barata e sua pregação era de livre arbítrio, ou seja, liberdade com responsabilidade. Mas Jesus não agradou a todos e isso já em si serve de lição sobre a natureza humana, que ele insistia em demonstrar. Mas é isso, nada de novo. Ou seja, os heróis dessa nova geração de mimados de hoje já não são mais pessoas comuns que pregam o consenso. Ao contrário, a luta ideológica é o standart político para inteligentinhos. Para essa nova geração que se quer se esforça para arrumar o quarto, mas continua pixando muros com seus salvem as baleias e faz questão de separar o lixo reciclável do orgânico, os heróis são os mentores de regimes opressores – e até mortais – que chegam a retirar a liberdade do indivíduo, sob o manto de uma mesma utopia milagrosa de um céu aqui mesmo na terra. Chesterton chega a afirmar em ciência da decapitação intelectual (3) ao dizer que “é sempre fácil deixar a vida mudar a sua cabeça; o difícil é manter a sua própria cabeça”, querendo se referir a atrofia da visão de homem, de mundo, da ciência e da política pode chegar às raias de uma violência inimaginável.

Existe o direito de ter religião e de cultura sacra e isso não pode ser retirado do indivíduo. Voltando ao julgamento do aborto pelo STF (aquele que permitiu interrupção de gravidez até o terceiro mês), mesmo que ministros do STF assumam de vez em quando uma postura sacerdotal, funcionando como líderes sacros nessa moda de eliminar de vez o sagrado das mentes humanas e da civilização, transformando a religião em algo civil (naquele julgamento, onde argumento religioso foi praticamente abominado da discussão jurídica, não teve a mesma importância ou foi apenas citado an passam), é certo que o sagrado e a natureza ainda existem em nossos corações e mentes, e assim sempre será até o grande dia!







A revolução é cultural. Fazer a inversão de valores tão pretensiosamente querida por Antônio Gramsci – parafraseando o Prof. Olavo de Carvalho, alguém que já está morto há mais de meio século mas que, desde o reino das sombras, dirige em segredo os acontecimentos nesta parte do mundo – é uma das consequências imediatas e destrutivas de seu legado. A revolução é cultural. Mas porque não dizer almática? Para os revolucionários, é a fraqueza e a mudança no espírito, parte mais superficial da decisão, e não na alma, na vontade ou espontaneidade mesmo, o que importa, mas as consequencias do apagão psicológico ou reflexivo vão mais profundamente, atingindo a alma, que é patrimônio de Deus. O materialismo nega a existência de alma, pois somos apenas máquinas sem uma cabeça ou um coração. Mas isso é fraude, porque essas doutrinas ideológicas querem, a bem da verdade, é nossa alma. Simplesmente porque, penetrando no mais profundo das emoções ou na vontade humana, no seu livre arbítrio, criação divina e indevidamente apropriada por estelionatários, querem negar O homem eterno de G. K. Chesterton, o microcosmo, a medida de todas as coisas ou a imagem de Deus, ou o virtuoso de Aristóteles.

A falácia se repete em toda a história, havendo uma negação do divino por seu mais comezinho, audacioso e fraudulento substituto para todos os males da humanidade: formando uma religião civil. Este tipo de pseudo religião ou de negação dela aparece trasvestida nas suas mais variadas formas. Ora ela aparece como ciência, ora de cultura simplesmente, e, no mais das vezes, e o que é pior ainda, por meio da política. O desejo de se ter uma pseudo religião é, nas palavras de Diogo Chiuso, com o fim de parasitar o cristianismo através de sua imitação grotesca, com exaltação do Estado ainda na busca de heróis humanitários e reconhecendo-o como um ser transcendental, dono da razão, da ciência e do espírito humano.
`(4)Essa insistência do Estado em não querer se secularizar de uma vez por todas, apesar do Decreto n. 119-A, de 1890, da época do advento de nossa república, aparece sob a forma de regularização das atividades civis de crença e de credo sob uma roupagem diversa, camuflada, escondida pela ciência, pela razão ou pela política. Em termos mundiais, dentro da história do Estado Moderno, Thomes Hobbes justificou seu intento absolutista com base no Leviatã, o qual, grosso modo, negava a natureza humana com algo estável e permanente, as ideias e as criações não são fruto divino e sim do próprio ser humano, o direito deixa de ser fundamentado na natureza e passa a ser produto do Estado ou algo posto por este, não existindo moralidade fora da lei positiva.

Exemplo disso, no Brasil, um dos mais eloquentes porque ainda bastante recente, foi o julgamento por meio de um mísero habeas corpus (manejo jurídico dos mais singelos e que trata apenas de liberdade de ir e vir, ou seja, sem maiores delongas jurídicas) e sem ter discutido a fundo a natureza daquele ser que estava no ventre, quando se decidiu poder se interromper a gravidez se até o seu terceiro mês. Ora, políticas públicas decidiram a questão e os ministros do STF assumiram a condição de sacerdotes de tal confissão religiosa ainda a encoberto.

Essa simbiose entre religião e Estado ou tratamento cientificizado do poder divino parece soar como se fossem meros dois lados de uma mesma moeda. O encarar civilmente problemas filosóficos do início e da existência humana, por exemplo, que a religião não aceita porque próprio de seu escopo, entra em xeque com o seu opositor científico de sanação de celeuma que entende como de índole racional. Mas eles não são dois lados de uma mesma moeda.

Ralf Dahrendorf, em Reflexões sobre a revolução na Europa, escreve com prudência: “Não há maior perigo para a liberdade humana do que o dogma político, o monopólio de um único grupo, de uma ideologia, de um sistema (…) Se quisermos seguir em frente, melhorar a nós mesmos e às condições em que homens e mulheres vivem neste planeta, temos que aceitar a perspectiva desorganizadora, antagonista, incômoda, mas orgulhosa e estimulante de horizontes abertos”.(5) Para Francisco Razzo conclui que “o imaginário totalitário tem a pretensão de resolver o problema da estiagem espiritual na qual se encontra o homem em uma era secular. Os conceitos de Estado, História, Tradição, Vontade Geral, Luta de Classes, Coletivos, Mercado, Minorias etc. são todos concorrentes diretos, inclusive entre si, do abismo deixado por Deus. A imaginação totalitária preenche esse vazio (…)”.(6)

Num regime democrático como o nosso deve existir possibilidade de espaço e voz para discussão de toda e qualquer questão que seja apresentada ao Estado, caso contrário nos tornaremos os súditos de um novo Leviatã em terras brasileiras. Diante de um ativismo judicial escancaradamente enviesado pelo político, estaremos sendo pegos de surpresa com julgamentos singelos de questões importantes no palco da vida social e cuja solução, desfigurada, será a mais superficializada possível.

(*) Sergio Renato de Mello, defensor público do Estado de Santa Catarina.



(1)O preâmbulo de nossa Constituição Federal, muito embora ainda não tenha valor normativo, não carece de valor interpretativo para os artigos da Carta Política. Ele tem a seguinte redação, que invoca, já de início como texto constitucional, a “proteção de Deus”: “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”.

(2)“Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;”.

(3)Benjamin Wiker, 10 livros que todo conservador deve ler – mais quatro imperdíveis e um impostor; trad. por Mariza Cortazzio. São Paulo: Vide editorial, 2016, p. 55-56.

(4)Essa foi a sua nota na obra de Nelson Lehmann da Silva, A religião civil do estado moderno, 2ª ed. São Paulo: Vide Editorial, 2016, p. 7-8.

(5)Citando Charles Taylor, Uma era secular. São Leopoldo: Unisinos, 2010, apud A imaginação totalitária: os perigos da política como esperança. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 98.

(6)Ob. cit. p. 98. 

Fonte Instituto Liberal



terça-feira, janeiro 05, 2016

Sete princípios cristãos para uma política realista.









Sete princípios cristãos para uma política realista.
por Kevin D Young




Estamos em um mundo caído. As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível.
Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras das várias políticas.



A Bíblia é um livro grande, de modo que há uma série de coisas que podem ser ditas no esforço de formar uma visão política de mundo a partir dos princípios bíblicos. Mas isto aqui é um blog, não um livro. Então deixe-me tomar apenas uma área doutrinária e destrinchar algumas implicações possíveis.

Creio que nossas mais importantes considerações políticas nascem de uma compreensão apropriada da pessoa humana. Quanto mais nossos políticos e instituições políticas agirem em acordo com o modo como as coisas realmente são e o modo como nós realmente somos, mais cresceremos como nação.



Considere estes princípios antropológicos à medida que desenvolve sua práxis política:

1O homem é feito à imagem de Deus (Gn 1.26-27). Não importa quão pequeno, frágil, velho ou deficiente, todo ser humano tem valor e dignidade. O governo deve proteger a vida humana e punir aqueles que a prejudicam (Rm 13.4; Gn 9.6);


2O homem é feito para o trabalho (Gn 2.15). Devemos maximizar os incentivos ao trabalho árduo e remover os incentivos que encorajam a preguiça (2Ts 3.6-12);


3A parte própria do ser humano, da qual Deus não compartilha, é que estamos sujeitos às devidas autoridades. Isso inclui a sujeição ao governo e a exigência de pagar impostos (Rm 13.1-7);


4Os seres humanos são motivados pelo interesse pessoal. Jesus compreendia isto quando nos disse para amar ao próximo como já amamos a nós mesmos (Mt 22.39). Interesse pessoal não é automaticamente o mesmo que avareza ou ganância, e essa é a razão porque Jesus não hesitou em motivar os discípulos com a promessa de serem os primeiros ou com a garantia de recompensa (Mt 6.19-20; Mc 10.29-31). É preciso dizer que nosso interesse pessoal nem sempre é virtuoso. A obra do evangelho é ensinar às pessoas como esse interesse pessoal (satisfação) pode casar com o interesse de Deus (glória). Mas as melhores políticas são aquelas que podem solapar o poder do interesse pessoal em favor de um bem maior;


5Os seres humanos não são apenas consumidores do planeta; também somos também criadores. O mundo físico é uma dádiva e uma ferramenta. Temos a capacidade de espoliar, mas também a responsabilidade de subjugar (Gn 1.28);


6Por causa do pecado de Adão, estamos em um mundo caído (Rm 5.12; 8.18-23). As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível. Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras das várias políticas. Não podemos eliminar as realidades de viver em um mundo caído (Jo 12.8), mas boas políticas podem ajudar a mitigar algumas dessas piores realidades;


7A natureza humana é inclinada para o mal (Gn 6.5; Jr 17.9). Isso significa que não podemos contar com a boa vontade dos outros ou das outras nações, não importa quão bem intencionados possamos ser ou o quanto cuidemos apenas daquilo que é da nossa conta. A questão não é de onde virá a guerra. Ela deve ser esperada, dada a nossa natureza. A questão é saber quais instituições e políticas são mais efetivas em estabelecer a paz.


É claro que há mais coisas que poderíamos dizer sobre a natureza da liberdade, a importância da justiça, e o direito à propriedade privada. Esses são três temas bíblicos cruciais. Mas os sete princípios acima podem nos ajudar a começar a compreender o mundo, tomar decisões no mundo, e eleger políticos que entendam o modo como o mundo funciona.



Tradução: Márcio Santana Sobrinho

quarta-feira, dezembro 09, 2015

A miopia do relativismo cultural.


A miopia do relativismo cultural.

por Filip Mazurczk
O Islã é baseado em três desigualdades:
entre homem e mulher, homem livre e escravo, e muçulmanos e infiéis.



Quando indagado por um repórter inglês sobre o que pensava da civilização ocidental, Mahatma Gandhi alegadamente gracejou: “seria uma boa ideia”. Estudiosos duvidam de que esta conversa tenha ocorrido. Porém, a popularidade da anedota mostra quão amplamente odiada nossa civilização se tornou, inclusive entre nossa própria elite cultural relativista. A auto-aversão é frequentemente conjugada à glorificação do Extremo Oriente e à apologia ao Islã.


Na verdade o Ocidente criou a maior civilização da história do mundo, e foi apenas após o Iluminismo que seu declínio começou. Uma comparação com as sociedades orientais e muçulmanas revela que apenas no Ocidente liberdade, beleza e busca pela verdade puderam florescer.


Para os relativistas culturais o ano de 1789 serve como a linha divisória entre o barbarismo e o progresso. Em sua perspectiva equivocada, o Ocidente antes da Revolução Francesa era um lugar sombrio, ignorante e supersticioso. Romanos e gregos eram cruéis, os papas da Igreja eram misóginos e a Idade Média – a Idade das “Trevas” - foi um constrangimento irredimível. A Renascença, temporariamente, foi tratada um pouco melhor, enquanto ela foi incorretamente vista como uma virada em direção à secularização, mas agora ela é mais apropriadamente apresentada como a era dos corruptos papas Bórgia e a época dos primeiros encontros dos europeus com o resto do mundo, um prelúdio para a opressão destes últimos. Foi apenas graças ao Iluminismo e à Revolução Francesa que o Ocidente “descobriu” ideais como liberdade, igualdade e fraternidade, que finalmente conduziram ao “progresso”, à abolição da monarquia, à secularização e às noções de igualdade que têm recentemente conduzido ao ápice da realização humana: a legalização do aborto e “casamentos” homossexuais, segundo tais relativistas.


É claro, a descrição acima da narrativa histórica anti-Ocidente é de certa forma uma caricatura. Entretanto, esta construção é mais ou menos o que é ensinado à maioria dos estudantes no Ocidente a respeito de sua civilização. Eles são doutrinados a odiar a tradição, a religião e a ordem, idealizando por sua vez progresso e emancipação e virando-se em direção ao Oriente em busca de orientação.

Estes ocidentais que se auto-odeiam estão certos a respeito de uma coisa: 1789 foi de fato um divisor de águas na história do Ocidente, na medida em que a Revolução Francesa criou o primeiro regime totalitário do mundo. O filósofo russo Vladimir Solovyov escreveu que a diferença entre Cristo e Marx é que o primeiro orientou que seus discípulos descem seus próprios bens aos pobres, enquanto o último orientou seus seguidores a tomar os bens dos outros à força e redistribuí-los “igualitariamente”. O mesmo se aplica à Revolução Francesa, que tentou forçar a liberdade, a igualdade e a fraternidade pela guilhotina.

Foi o período anterior ao Iluminismo francês que permitiu que Ocidente florescesse. A interação de Atenas, Roma e Jerusalém criou uma civilização baseada na busca da verdade, beleza, igualdade real, liberdade e racionalidade. Os antigos filósofos gregos ensinaram-nos como buscar a verdade, enquanto os romanos deram-nos a base da lei moderna e, aplicando a razão, construir cidades, estradas e trabalhos de arquitetura. A maior revolução filosófica no Ocidente, entretanto, ocorreu após o Édito de Milão em 313. Foram os cristãos que construíram os primeiros hospitais e abrigos para os pobres, fundaram as mais antigas universidades e criaram obras-primas da arte. Acima de tudo, os valores judaico-cristãos fizeram o homem ocidental ver seu vizinho como um igual – porque, para citar São Paulo, “em Cristo, não há gregos nem judeus”.

A Revolução Francesa, e o Iluminismo francês que a precedeu, representam uma ruptura hermenêutica com o passado, um ponto em que os pensadores ocidentais separaram-se da lei romana, da busca da verdade, da herança e tradição judaico-cristã do Ocidente. No século XIX, Comte substituiu Deus pelo culto da razão; Marx criou o plano do que deveria ser uma sociedade sem desigualdade (violentamente imposta, é claro); Nietzsche nos convenceu de que alguns são fracos e portanto um fardo para a sociedade; e Bentham rejeitou a noção de que todos os homens são dotados de igual dignidade como “absurda em seus fundamentos”. O que se seguiu foi uma série de desastres: genocídios, guerras, campos de concentração e o Gulag.

Os principais influenciadores intelectuais do Ocidente atual são descendentes de Comte, Nietzsche, Bentham e Marx – pessoas como Michel Foucault, Slavoj Zizek (que escreveu um panegírico a Lenin, o assassino em massa) e Judith Butler. Eles postulam um mundo em que tudo é relativo, elevando simultaneamente a agenda homossexual e o aborto a dogma religioso. Os pós-modernistas de hoje rejeitam vigorosamente a busca da verdade objetiva, especialmente se ela não se encaixa em sua agenda ideológica.

Por exemplo, a despeito do fato de todas as evidências científicas mostrarem que crianças não nascidas são, de fato, humanos capazes de sentir dor, que as diferenças entre os sexos são reais, e que uma criança precisa de fortes modelos de macho e fêmea para seu desenvolvimento estável, os ideólogos de hoje defendem a agenda homossexual e leis permissivas para o aborto. Eles querem interferir diretamente na liberdade de culto. (Nos meses recentes nos EUA, a legislação destinada a proteger a liberdade religiosa em Indiana foi espancada pela elite intelectual e política, enquanto a candidata à presidência Hillary Clinton disse que o Cristianismo deve mudar seu ensino sobre o aborto). Na verdade, muitas destas pessoas não mais escondem que eles desejam destruir a família tradicional – um desfecho que Marx e Engels prescreveram noManifesto Comunista.

Portanto, o Ocidente tem se contentado com a mediocridade, mesmo com a fealdade. É difícil ler Petrarca ou se maravilhar com a perfeição das esculturas de Michelangelo sem sentir admiração e orgulho por ser o receptor de herança tão rica. A cultura de massa de hoje, entretanto, aspira pela vulgaridade. Quando o filósofo espanhol José Ortega y Gasset escreveu A Desumanização da Arte em 1925, ele dificilmente poderia ter predito que em 1999 as elites intelectuais de Nova Iorque venerariam, como símbolo de liberdade religiosa, uma pintura da Virgem Maria coberta com fotografias de genitálias femininas de revistas pornográficas e fezes de elefante.

Como mencionado antes, a escola anti-ocidental de fato dirigiu-se para o Extremo Oriente, especialmente a Índia, em busca de inspiração. Enquanto a Índia é uma das maiores economias emergentes, sua cultura produz enormes desigualdades, improváveis de desaparecer não importa quão robusto seja o crescimento do PIB. Enquanto o Cristianismo ensina que “não há Gregos ou Judeus”, o Hinduísmo conserva um sistema de castas que relega milhões à pobreza e negligência devido às famílias nas quais eles nasceram. O abuso de mulheres é corriqueiro na Índia e as viúvas, consideradas “agourentas”, são rejeitadas por suas famílias e vilas.

Os valores ocidentais tradicionais – os verdadeiros, que os jovens são ensinados a manter a despeito da academia, do The Guardian e do New York Times – representam a única esperança para milhões de indianos infelizes sofrendo devido a tais (antiprogressistas) grilhões culturais. Os missionários europeus e americanos, (os Missionários da Caridade de Madre Teresa são o exemplo mais conhecido), continuam a socorrer incontáveis indianos da imundície, da negligência e da fome. A Igreja Católica na Índia também é a maior defensora dos direitos das viúvas. Estes movimentos não são motivados por proselitismo: os fiéis servem a pessoas de todos os credos, e embora a Igreja Católica seja a maior organização de caridade da Índia, apenas cerca de 2% da população é de cristãos.

Mais duplos padrões abundam – cortesia dos proponentes da equivalência moral, não menos. Os jornais ocidentais revelam histórias de má conduta por uma pequena minoria de padres católicos, a despeito da adoção pelo Vaticano de uma linha rigorosa contra clérigos desviados. Em contraste, o falecido Santya Sai Baba Indiano – um líder de seita que afirmava ser uma divindade e possuir poderes milagrosos (tal como “materializar” um relógio Rolex, um truque desmascarado por ilusionistas) – foi acusado de molestar dezenas de meninos de vários continentes. As cortes indianas recusaram-se a investigar, pois,como “homem sagrado”, ele desfruta de impunidade. Tal licença contrasta fortemente com o conceito romano de igualdade perante a lei e separação entre Igreja e Estado, que remonta ao Papa Gregório VII (falecido em 1085).

Os relativistas culturais de hoje têm uma abordagem igualmente bizarra do mundo muçulmano, abraçando o Islã e rejeitando o Cristianismo. Um sintoma peculiar desta inversão é que em 2007 a Universidade de Columbia convidou Mahmoud Ahmadinejad para discursar, enquanto que um ano depois a Universidade Sapienza, de Roma, cancelou uma conferência do Papa Bento XVI para satisfazer professores anticlericais. O novo dogma pode ser resumido pelos comentários desdenhosos de Barack Obama (supostamente feito em consideração à ameaça do ISIS) no Café com Oração de 2015: “E temo que avancemos em nossa soberba e pensemos que isto seja exclusivo de algum outro lugar, lembrem-se que durante as Cruzadas e a Inquisição as pessoas cometeram atos terríveis em nome de Cristo”.

Certamente, os cristãos cometeram crimes contra outros. Entretanto, este fato vem com qualificações importantes não atribuídas a todas as outras religiões. Primeiro, o direito de matar inocentes nunca foi parte do Cristianismo, que sempre pregou o amor ao próximo e o perdão. Os crimes de cristãos não resultaram da teologia, mas simplesmente da desventura de indivíduos. Este não é o caso da “religião da paz”.

O jesuíta egípcio Samir Khalil Samir observou que o Islã é baseado em três desigualdades: entre homem e mulher, homem livre e escravo, e muçulmanos e infiéis. Quando durante o sermão de 2006 o Papa Bento XVI citou o imperador bizantino, que disse que o Islã é incompatível com a razão, os muçulmanos mataram, em resposta, uma freira Italiana e um missionário na Somália. Em contra partida, quando cristãos são constantemente insultados dia e noite na televisão do Ocidente, eles mostram a outra face.

Segundo, cristãos – com exceções extremamente raras, que são inevitáveis desde que seu número excede os dois bilhões – não mais cometem violência em nome da fé. Muitos muçulmanos, entretanto, o fazem. Esta distinção não se dá porque mais cristãos vivem em países desenvolvidos e, como sustenta a opinião dominante, o progresso econômico torna as pessoas menos selvagens. A Arábia Saudita, lar de duas cidades sagradas do Islã, é um país rico que desposa o wahhabismo, uma forma particularmente radical do Islã, que crucifica apóstatas e sujeita mulheres a mutilação genital. Embora ela tipicamente receba aprovação da esquerda.

É indiscutível que desde 1789, e especialmente nas décadas recentes, o Ocidente tem estado numa condição decadente. Se alguma vez desejar recuperar sua estatura anterior, deve abraçar o fato de que foi outrora grande e reconhecer a única fonte de sua força. Esta revitalização só pode acontecer se uma mudança fundamental for feita em como a história é ensinada no Ocidente, e se um olhar honesto – desembaraçado do relativismo cultural e do politicamente correto – for lançado sobre as diferenças entre culturas.


Publicado no The European Conservative. Original aqui.

Tradução: Flávio Ghetti

quarta-feira, dezembro 26, 2012

O ANIMAL MORAL.


O ANIMAL MORAL.
por  Jonathan Sacks(*)
(Tradução J. Christof)




É o momento mais religioso do ano. Pode-se ver em qualquer cidade nos Estados Unidos ou na Inglaterra o céu iluminado por símbolos religiosos, decorações de Natal, e provavelmente também uma menorah gigante. A religião no Ocidente parece estar viva e bem.
Mas é isso mesmo? Ou estes símbolos foram esvaziados de conteúdo, e tornaram-se nada mais do que um pano de fundo brilhante para a mais nova fé do Ocidente, o consumismo, sendo suas catedrais seculares os shoppings?

À primeira vista, a religião parece estar em declínio. Na Grã-Bretanha, acaba de ser publicado os resultados do censo nacional de 2011. Mostram que um quarto da população afirma não ter religião, quase o dobro de uma década atrás. E, embora os Estados Unidos continue sendo o país mais religioso do Ocidente, 20 por cento declaram-se sem filiação religiosa - o dobro do número de uma geração atrás.

Porém, olhando sob outra perspectiva, os números contam uma história diferente. Desde o século 18, muitos intelectuais ocidentais previram o fim iminente da religião. No entanto, e mais recentemente, após uma série de ataques devastadores pelos novos ateus, incluindo Sam Harris, Richard Dawkins e o finado Christopher Hitchens, ainda na Grã-Bretanha três em cada quatro pessoas, e na América quatro em cada cinco, declaram lealdade a uma fé religiosa. O que, em uma era de ciência, é verdadeiramente surpreendente.

A ironia é que muitos dos novos ateus são seguidores de Charles Darwin. Nós somos o que somos, dizem eles, porque nos permitiram sobreviver e transmitir nossos genes para a próxima geração. A nossa composição biológica e cultural constitui a nossa "aptidão adaptativa." No entanto, a maior sobrevivente de todas elas é a religião. As superpotências tendem a durar séculos, porém as grandes religiões perduram por milênios. A questão é por quê?
O próprio Darwin sugeriu qual seria a resposta correta. Ele estava intrigado com um fenômeno que parecia contradizer a sua tese mais básica, que a seleção natural deveria favorecer os mais aptos. Altruístas, que arriscam suas vidas em beneficio de outros, deveriam, portanto, geralmente morrer antes de passarem seus genes para a próxima geração. No entanto, todas as sociedades valorizam o altruísmo, e algo semelhante pode ser encontrado entre os animais sociais, como os c himpanzés, golfinhos e formigas.
Os neurocientistas têm mostrado como isso funciona. Temos os neurônios-espelho que nos fazem sentir dor quando vemos outros sofrendo. Estamos programados para sentir empatia. Somos animais morais.

As implicações precisas desta resposta de Darwin ainda estão sendo debatidas pelos seus discípulos – E. O. Wilson de Harvard, por um lado e Richard Dawkins de Oxford por outro. Para colocar em uma forma mais simples, transmitimos nossos genes como indivíduos, mas sobrevivemos como membros de grupos, e os grupos só podem existir quando os indivíduos não agem somente em benefício próprio, mas para o bem do grupo como um todo. Nossa única vantagem é que formamos grupos maiores e mais complexos do que qualquer outra forma de vida.
Como resultado é que temos dois padrões de reação no cérebro, um foca os perigos potenciais para nós, como indivíduos, e o outro, localizado no córtex pré-frontal, tem uma visão mais ponderada das conseqüências de nosso s atos, para nós e para os outros. A primeira é imediata, instintiva e emotiva. A segunda é reflexiva e racional. Estamos presos, na frase do psicólogo Daniel Kahneman, entre o pensar rápido e o lento.

O caminho rápido nos ajuda a sobreviver, mas também pode nos conduzir para atos que são impulsivos e destrutivos. O mais lento conduz a um comportamento mais ponderado, mas muitas vezes é sobrepujado pelo calor do momento. Nós somos pecadores e santos, egoístas e altruístas, exatamente como os profetas e filósofos têm afirmado por muito tempo.
Se assim é, então estamos em condições de compreender porque a religião nos ajudou a sobreviver no passado - e porque vamos precisar dela no futuro. Ela fortalece e acelera o caminho lento. Ela reconfigura os nossos caminhos neurais, transformando o altruísmo em instinto, através dos rituais que realizamos, os textos que lemos e as orações que fazemos. Continua a ser o mais poderoso construtor de comunidades que o mundo já conheceu. A religião une os indivíduos em grupos através de hábitos de altruísmo, a criação de relações de confiança fortes o suficiente para derrotar as emoções destrutivas. Longe de negar a religião, os neodarwinistas têm nos ajudado a entender por que isso é importante.

Ninguém mostrou isso de forma mais elegante do que o cientista político Robert D. Putnam. Na década de 1990 ele tornou-se famoso pela frase "Bowling Alone (Jogando Boliche Sozinho, em tradução livre)": mais pessoas estão jogando boliche, mas menos formam equipes de boliche. O individualismo foi destruindo lentamente a nossa capacidade de formar grupos. Uma década mais tarde, em seu livro "American Grace", ele mostrou que havia um lugar onde o capital social ainda podia ser encontrado: nas comunidades religiosas.

A pesquisa do Sr. Putnam mostrou que os que iam a igrejas ou sinagogas frequentemente eram mais propensos a dar dinheiro para a caridade, fazerem trabalho voluntário, ajudar os desabrigados, doarem sangue, ajudarem um vizinho, fazer companhia para alguém que estivesse se sentindo deprimido, oferecer o seu lugar para um desconhecido ou ajudar alguém a encontrar um emprego. A religiosidade, medida através da frequência à igreja ou sinagoga, ele verificou, era um preditor melhor do altruísmo do que a educação, idade, renda, sexo ou raça.

A religião é o melhor antídoto para o individualismo nesta era do consumismo. A ideia de que a sociedade poderia viver sem ela é negada pela história e, agora, pela biologia evolutiva. Isso pode mostrar que D ’us tem senso de humor. Certamente mostra que as sociedades livres ocidentais não devem nunca perder o significado de D’us.

(*)Jonathan Sacks é rabino-chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Comunidade Britânica e membro da Câmara dos Lordes.

Fonte: Rua Judaica