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terça-feira, junho 13, 2017

Farsa da “Rússia cristã” esconde projeto pagão e ocultista




por Luis Dufaur.






Jeanne Smits, ex-diretora de redação e ex-gerente de “Présent”, jornal que funciona como porta-voz oficioso do Front National de Marine Le Pen, conhece bem os meandros dos movimentos da direita europeia.

Como jornalista, participou em Paris do colóquio ‘O Ocidente contra a Europa’, organizado pela Sofrade (Société française de démographie) e presidido singularmente de Moscou por Fabrice Sorlin. O evento se realizou em 1º de abril no auditório da Maison de la Chimie com a presença de movimentos de países europeus e sobretudo da “Grande Rússia”.

Jeanne Smits apresentou um pormenorizado relato em seu site reinformation.tv.

Ela queria saber de onde provém a admiração por Vladimir Putin de amigos seus, pertencentes a grupos identitários, soberanistas e anti-imigração, que julgam ver no ex-coronel da KGB um líder defensor da família, uma muralha contra o liberalismo americano, o terrorismo islâmico, etc.

O fenômeno é tão singular que, segundo a jornalista, dez dias antes das eleições, em plena campanha presidencial, Marine Le Pen foi procurar “uma forma de sagração por Vladimir Putin em Moscou”.

O gesto foi qualificado como “corajoso e bem-vindo” por Philippe de Villiers, político que defende posições opostas à ideologia dos pensadores próximos de Putin, como Aleksandr Dugin – o “Rasputin de Putin”– e o “oligarca” Konstantin Malofeev.

No Colóquio, Smits teve uma imensa surpresa.

Deparou-se com a exposição de uma doutrina pró-russa e tradicionalista, mas prenhe, segundo ela, de “evidentes tons gnósticos, pagãos, franco-maçônicos, dissimulados por trás de uma fachada nacionalista e pró-europeia, leia-se cristã e pela vida, capaz de enganar muitas pessoas de boa vontade”.

No ponto de partida há um engano, observou.

A grande mídia e o establishment político dominante trabalham pela cultura da morte, pela ideologia de gênero, pela extinção das nacionalidades e pelo desfazimento das culturas dos países numa massa planetária.

Essa ofensiva preocupa as pessoas bem orientadas e foi abordada no Colóquio. Mas, estranhamente, o tema foi misturado com uma propaganda de Moscou que conduzia no sentido oposto do prometido.

Um exemplo revelador é o conceito de “mundo multipolar” de Aleksandr Dugin. Esse conceito esteve no centro do evento em Paris e foi apresentado como uma alternativa radical ao líder do Ocidente: os EUA.

Preletores do colóquio ‘O Ocidente contra a Europa’.


Mas, o que é o Ocidente na visão do “Rasputin” do Kremlin? , perguntou Smits

Em momento algum se falou do Ocidente cristão que levou o Evangelho ao mundo inteiro.

No centro da multipolaridade duguiniana há uma polaridade única: a do cristianismo ortodoxo cismático de Moscou. É uma troca enganosa.

O Patriarcado de Moscou foi criado pelos czares como uma “Terceira Roma”, que desconhecia a Roma dos Papas (a primeira Roma) e Constantinopla (a segunda Roma).

Depois foi extinto, em função de cálculos de interesse e o capricho dos czares e a expansão do Império moscovita.

No século XX, ele foi restaurado pelo bolchevismo em troca do engajamento pelo socialismo e pelo comunismo.

A multipolaridade religioso-cristã duguiniana reduz o cristianismo ao monopólio do Patriarcado de Moscou.

Ele é erigido em única igreja representativa da “Grande Rússia”, a qual por sua vez é proclamada “potência soberana e autônoma” única, imperial e invasora. E o Patriarca é mero servidor desse projeto.

Em janeiro de 2015, explicou Dugin com termos leninistas: “Não haverá Grande Rússia sem grandes conflitos. Uma prosperidade pequeno-burguesa jamais nos conduzirá à grandeza. Espero uma Grande Rússia por meio de grandes abalos”.

Assim, a multipolaridade duguiniana resulta na hegemonia russa centrada com exclusividade no Kremlin e em seu submisso Patriarca de Moscou.

As críticas às intenções mundialistas de reprimir a natalidade se desfizeram na hora em que escritores pela vida – mas também por Putin – manifestaram grande hostilidade à expansão demográfica africana.

Eles culpam essa última pelo “aquecimento global”! Mas ao mesmo tempo afirmam que dito aquecimento é uma invenção globalista para montar uma ditadura à qual os agentes putinianos pretensamente se opõem!

Quem decifra tão ovante contradição?

Mas isso foi apenas o começo das descobertas de Jeanne Smits que não conseguia acreditar no que via e que entrava por seus ouvidos.

No Colóquio ‘Ocidente contra a Europa’, assistido por Jeanne Smits, o discurso contra o Ocidente ficou obcecado pela exaltação da herança “heleno-romana e cristã” da Europa, que seria mantida com exclusividade pelo Patriarcado de Moscou.

A jornalista ficou estranhada pela sistemática omissão da herança histórica e cultural católica, ou com a ausência de noções religiosas básicas, como os Dez Mandamentos.

Na abertura, o tesoureiro da Sofrade, Louis de Sivry, saudou a presença dos conselheiros das embaixadas russa e iraniana em Paris. O que tem a ver o Irã governado por fanáticos xiitas com a causa do cristianismo ou da “herança greco-romana?” – perguntou Jeanne Smits em seu site reinformation.tv..

Mas logo lembrou que o presidente da Sofrade possui a empresa Tzar Consulting que acompanha projetos comerciais em “zonas geográficas não convencionais”, especialmente no Irã.

A Rússia de Putin foi o leitmotiv.

Nicola Mirkovic, colaborador da agência Sputnik e da Russia Today – dois grupos da propaganda putinista –, propôs substituir a União Europeia por uma União que vá de Brest (no Atlântico) até Vladivostok (no Pacífico).

Em outros termos trocar Bruxelas por Moscou num esquema mais esmagador das identidades nacionais do que a atual UE.

O coronel Jacques Hogard denunciou a NATO como “organização obsoleta e perigosa” e “braço armado dos EUA”. E propôs uma aliança dos países europeus com a Rússia. Mais da mesma coisa trocando o polo de influência de Washington para Moscou.

Jeanne Smits custava a acreditar que assistia ali ao renascimento da antiga estratégia geopolítica da URSS.

Era como se os presentes trabalhassem para uma “nova Rússia” reconstituindo o antigo bloco soviético. Eles propunham restaurando velhas alianças com os aliados tradicionais da era soviética, como Cuba, China, Coreia do Norte acrescido do Irã e da Venezuela.

John Laughland, diretor de estudos do Instituto de Democracia e Cooperação, presidido por Natalia Narotchnitskaïa e teledirigido por Putin, defendeu que o comunismo sumiu na Rússia.

Mas, mirabile dictu, triunfa no Ocidente na sua versão marxista gramsciana.

Essas palavras soavam bem, mas eram enganosas e distorciam a realidade, observou Smits.

Primeiro: a Rússia não se libertou do comunismo como pode se ver pela continuidade dos kolkhozes coletivos, o cerceamento da propriedade privada e a ausência de liberdades, especialmente a religiosa.

Segundo: o gramcismo é uma variante estratégica para a vitória do comunismo, inclusive na Rússia,. O que Gramsci quer para Ocidente, desde 1917 está sendo aplicado na Rússia.

As reformas culturais que o marxista italiano pregou décadas depois, como a dissolução da família, o aborto, etc., são lei na Rússia.

Levan Vasadze, oligarca admirador do ocultista francês René Guénon, disparou que “o marxismo é uma forma de totalitarismo inventada pelo Ocidente” por capitalistas globalistas. O liberalismo seria outro totalitarismo.

Em resposta a esses totalitarismos ele ofereceu o conceito de “tradição” do ocultista René Guénon, também conhecido como Abd al-Wâhid Yahyâ, pois no fim da vida se tornou místico islâmico.

Jeanne Smits relembra que Guénon encarna o modelo do ocidental fascinado pelo Oriente, gnóstico, esotérico, maçom e apóstata. Acresce que o “maître-à-penser” de Putin, Aleksander Dugin, foi o primeiro tradutor da obra de Guénon para o russo.

Para Vasadze, a “civilização ocidental” só serve para os “estúrdios e os cínicos”. O sentido profundo dessa aparente confusão é que raízes da religiosidade russa remontam a “sabedorias” muito antigas e certamente não católicas, ouviu com espanto a jornalista que achava que ia encontrar defensores do cristianismo!

Vasadze anunciou outra era histórica cujo fundador será “aquele cujo nome não deve ser dito”, o “quarto cavaleiro do Apocalipse”, ou o cavaleiro da morte.

O que ele quis dizer?

Vasadze sublinhou que o liberalismo é que vai morrer. Para vir o quê na nova era?

“No centro da sociedade não há classe, nem raça, nem mesmo indivíduo”, explicou, antes de justificar o panteísmo.

Nessa nova era o homem feito à imagem e semelhança de Deus deverá ser substituído pelo homem-molécula sem individualidade.

Fabrice Sorlin, diretor da associação organizadora Sofrade, fez um apelo para se obedecer à Rússia, pois, entre outras razões, ela ajudou Bashar el-Assad a deter o avanço dos valores ocidentais.

O jovem ucraniano “ortodoxo” Olexandr Skoruskov ecoou o apelo parafraseando a ideia básica do “oligarca” Konstantin Malofeev, segundo a qual a fórmula ideal é a aliança dos sovietes com o Patriarcado de Moscou. Ele explicou que “sob os sovietes tínhamos uma moral, um senso da pessoa humana”.

Alexeï Komov, representante do Patriarcado de Moscou no Congresso Mundial das Famílias, defendeu que a revolução bolchevista de 1917 foi apenas uma “experiência” que nada tinha de russa (sic!). Como se Lenine não tivesse tido parte nela, nem toda uma geração de revolucionários russos que lhe imprimiram um caráter tipicamente russo.

Ora, foi a Revolução de 1917 que proclamou o amor livre, legalizou o divórcio e instalou o aborto sem limites. Mas Komov, auto-intitulado defensor da família, fingiu desconhecer tudo isso..

E hoje? Alegremente, Komov inventou que houve um “milagre” na Rússia em virtude do qual renascem os valores tradicionais da família e da tradição.

Quem fez o “milagre”? Komov, que trabalha para o oligarca Konstantin Malofeev, financiador da restauração das igrejas russas, deixou a resposta no ar. Obviamente não tinha, e esse “milagre” coletivo não existiu.

Ele fingiu ignorar que o número oficial de abortos hoje na Rússia é de 700 mil por ano, e com uma percentagem mais elevada que nos países mais liberais da Europa Ocidental.

Tampouco falou que o índice de divórcios na Rússia é um dos piores do mundo, acima de 50%.

Ou que os nascimentos fora do casamento desceram aos níveis deploráveis dos países dominados pelo “globalismo” (França, 57%).

Porém, Alexeï Komov apresentou-se despudoradamente como grande defensor da vida e não hesitou em explicar que “Stalin acabou mais favorável à família”, sem ligar para os cerca de cem milhões de mortes provocadas por esse ditador e as famílias assim destruídas.

Aleksandr Dugin, cujo site Katehon é também beneficiado pelos fundos do oligarca Konstantin Malofeev, é tido como o maître-à-penser de Vladimir Putin. No colóquio, suas ideias estavam na boca de todos. Mas – escreve Smits – em seu livro ‘O gnóstico’, Dugin confunde conceitos e posições para ludibriar deliberadamente os outros: “Nós os embaralhamos passando do direitismo ao esquerdismo e vice-versa. Seduzimos ao mesmo tempo a extrema-direita e a extrema-esquerda”.

Smits identifica nesse livro de Dugin um velho palavreado maçônico. Com palavras confusas supostamente de direita ele restaura o pensamento mofado da velha esquerda e forja um “Putin salvador da Cristandade”, que é ao mesmo tempo herdeiro de Stalin!

A jornalista teve mais uma surpresa no encerramento.

Yannick Jaffré, pensador nietzschiano e ex-militante do Partido Socialista Francês, voltou a apelar para a inspiração de uma ciência “que vem de muito longe”.

Ele invocou os clássicos pagãos, os antigos gregos, Maquiavel e Nietzsche. Sim, o próprio Nietzsche, que pregava o combate à Igreja quando ela não estava empesteada de progressismo.

Não foi por acaso – conclui Jeanne Smits – que a palavra final do Colóquio ficou com um pensador tido como “perfeito panteísta”.

No “cristianismo putinista”, a jornalista só encontrou engano e tapeação.


http://flagelorusso.blogspot.com

Fonte: MidiaSemMarcara


sábado, dezembro 03, 2016

A defesa da pregação inconveniente, aborto eleições e outras coisas







por Fabio Blanco



Se o homossexualismo é pecado, é óbvio que ele pode ser prevenido e, inclusive, revertido. Não fosse assim, estaríamos diante de uma pecado infalível, o que, por definição, seria a antítese mesma de pecado. E por mais que o cristão acredite nisso, por força da doutrina que segue, sente que, a cada dia, expor essa convicção tem se tornado algo desagradável. Tratar o homossexualismo como pecado está colocando o cristão à beira de cometer um crime.

Isso ficou bem claro nas reações à palestra que seria promovida pela Igreja Batista Getsêmani que, com o título original de Como prevenir e reverter a homossexualidade, provocou a ira de diversas pessoas que tomaram conhecimento do evento. A página da igreja foi então infestada de indignados que não se fizeram de rogados em manifestar, com a brutalidade típica dos integrantes de movimentos ideológicos, sua revolta. Com isso, a igreja fora forçada a mudar o título da palestra e emitir uma nota explicativa, pela qual, mais do que justificar sua escolha, tenta apaziguar os ânimos. Após, então, acabar por cancelar o evento.

A questão é que, independente do quanto isso possa suscitar a ira dos revoltados, o fato é que a Igreja tem todo o direito de expressar sua opinião sobre esse assunto e proibi-la de fazer isso é um atentado não apenas contra uma instituição religiosa, mas contra o próprio conceito de democracia e liberdade que todos ousam dizer que defendem.

É inegável que para a doutrina cristã o homossexualismo é pecado. Isso está explicitamente ensinado em seus cânones. Sendo assim, para ela, o homossexualismo é algo passível de escolha do ser humano. Apenas aquilo que pode ser evitado pode ser pecado, portanto, praticar o homossexualismo, segundo a concepção da Igreja, é algo que está sob o controle de cada pessoa. Assim, se é passível de escolha é prevenível e se é prevenível nada impede que se ensine como prevenir.

Se a Igreja evitar de fazer isso, de ensinar algo que está claro em sua doutrina, apenas para agradar as expectativas politicamente corretas, estará negando a si mesma. E, desta maneira, será o seu fim como instituição religiosa, que se caracteriza, principalmente, por sua independência de consciência. Passaria a ser apenas um local de encontro social, completamente submissa aos ditames do Estado. Seria, portanto, sua destruição.

O que os revoltosos não percebem é que a proteção de liberdade de consciência e expressão das instituições religiosas é, antes de tudo, a proteção da liberdade de todos. Se a Igreja for impedida de pregar conforme seus próprios ensinamentos, nenhuma outra entidade ou indivíduo poderá ter garantida a mesma liberdade. Por isso, a preservação da livre expressão religiosa é a manutenção de ilhas de liberdade que impedem que o Estado tome conta de tudo e passe a ser o definidor final do que é justo, ético e moral.

Fica evidente, portanto, que a liberdade de todos passa necessariamente pela liberdade de expor os conteúdos de cada crença. Ainda que tais conteúdos sejam inconvenientes para alguns grupos e até irritem outros, suprimi-los é um passo largo para a tirania estatal.



Eu sei que quando a Igreja diz que o homossexualismo pode ser revertido ou prevenível isso afeta o âmago daqueles que acreditam que essa é uma condição inescapável de alguns indivíduos. É inclusive lícito que estes tentem provar que o ensinamento cristão está equivocado. Porém, o que não podem fazer, sob pena de sofrerem, eles mesmos, as consequências, é tentar calar a Igreja. Se fizerem isso, nada garante que eles mesmos não sejam proibidos de expressarem seus pensamentos logo em seguida.

E, do lado da Igreja, é preciso, desde já, que ela comece a ser mais explícita sobre o que realmente acredita. É necessário perder o medo de expor o que crê, de fato. Deve acabar com a hipocrisia de tentar mostrar alguma tolerância em relação a uma atitude que ela considera abertamente pecaminosa. Como no caso da Igreja Getsêmani que, em sua nota de esclarecimento, afirma que a veiculação equivocada da informação não representa a opinião da Igreja. Dizendo isso, estaria ela negando que acredita que o homossexualismo pode ser prevenido e até revertido? Bom, sinto informá-los que esse é exatamente o ensinamento cristão, corolário óbvio da convicção de que o homossexualismo é pecado.

Claro que isto não significa que se deva pregar o ódio contra os homossexuais. Isto seria, inclusive, um erro, pois o cristianismo jamais ensinou assim. Mas que a Igreja tem o homossexualismo como um pecado sério e deve falar essas coisas abertamente, sobre isto não há a menor dúvida.

Os ataques contra os religiosos, como no caso contra os organizadores dessa palestra, são até esperados. Aliás, a própria Igreja deve continuar defendendo o direito das pessoas expressarem sua indignação. No entanto, não se pode achar justo que ela precise cancelar ou mudar o nome do evento, com medo de alguma retaliação judicial. Quando as leis humanas passarem a definir o que é lícito e o que é ilícito pregar dentro das Igrejas será o fim da vida como a conhecemos e podemos dar definitivamente as boas-vindas ao admirável mundo novo, onde reina a opressão e o policiamento.

Razões para ser absolutamente contra o aborto
Permitir o aborto de qualquer tipo é permitir, em pouco tempo, todo tipo de aborto. Sabendo disso, há uma enormidade de pessoas que, por amor à vida, lutam para que essa prática não seja permitida de maneira nenhuma. Ainda assim, estes, por mais paradoxal que pareça, são logo tachados, pelos defensores do assassinatos dos bebês em gestação, de insensíveis e, apenas para não perder o costume, fascistas. Por isso, nessa matéria, não é possível qualquer tipo de concessão.

Não importa a afetação de preocupação que esse tipo de gente demonstra, como se fossem as pessoas mais misericordiosas deste mundo. Antes de ser enganado por suas carinhas de anjos, é bom captar o espírito assassino que os acomete.

O problema é que aceitar o aborto por qualquer motivo é escancarar as portas de possibilidades para que infinitos outros motivos sejam considerados também justificadores de tal prática. Isso porque quaisquer motivos que sejam apresentados jamais podem ser totalmente objetivos e é essa margem de subjetividade que permitirá que, cada vez mais, sejam solicitados, pelas razões mais diversas, autorizações para abortar.

O fato é que nenhuma pessoa é capaz de definir o que é uma vida inferior, inviável e de sofrimento. Quem pretender fazer isso está arrogando para si poderes evidentemente divinos. E, apenas para argumentar, ainda que esses fatos fossem razões para abortar, e considerando que o são apenas em determinado graus, ninguém seria capaz de afirmar qual o grau exato deveria ser considerado para permitir o aborto.

Sendo assim, não se deve ceder nem um pouco para o abortistas. Um mínimo que se lhes permita agora será o muito que exigirão amanhã. Até porque o abortismo, antes de tudo, é uma ideologia e já estamos cansados de saber que os movimentos ideológicos nunca estão satisfeitos em suas demandas. Pelo contrário, os militantes são bastante pacientes para conquistá-as progressivamente e de uma forma tão sutil que poucos conseguem captar a estratégia existente por trás.

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As nomeações ao STF de Barroso, Fux, Toffoli e Fachin representam a maior excrescência que o universo jurídico brasileiro poderia engendrar. Além de não representarem, nem de longe, o que há de melhor entre os juristas do país, não passam de paus mandados das determinações de seus nomeadores, os quais, por seu lado, rezam na cartilha globalista/comunista. E para piorar tudo, neles reside, paradoxalmente, o completo desprezo pelas leis. O que importa para eles é aproveitar do poder para colocar em prática seus delírios ideológicos.

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Fica cada vez mais fácil entender como um homem como Michel Temer, aparentemente distinto e com um nível intelectual superior, pôde estar junto à máfia petista por tanto tempo. Os últimos fatos estão trazendo à tona uma rede de articulações, que culminam agora na tentativa de deter as investigações que começam a chegar nos caciques de seu partido. Se há uma diferença de forma, no fundo vê-se que tratam-se do mesmo tipo de políticos. O Brasil permanece à mercê da pior forma de homens públicos, porém agora de barba feita e fala mansa.

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Segundo Aécio Neves, Fidel Castro foi um homem incrível, cheio das melhores intenções, que apenas errou no método. E pensar que eu torci pela vitória dessa besta na eleição contra a anta.


segunda-feira, novembro 21, 2016

Um mergulho nas próprias trevas: o relato do rei do aborto





por Hélio Angotti Neto(*).






Bernard Nathanson, o rei do aborto, descreve sua trajetória pessoal no livro “The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion doctor Who Changed His Mind”, publicado pela Regnery Publishing Inc.[1]

Como todas as melhores narrativas autobiográficas presentes em nossa civilização, Nathanson inicia olhando para as próprias trevas. Não foi diferente com o Apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona ou Dante Alighieri. Estes estabeleceram modelos ao redor da mesma fórmula de sinceridade plena consigo mesmo, aquele foi capaz de identificar o mesmo modelo em sua própria vida. E profundas trevas de fato foram vasculhadas em seu livro.

Bernard foi um judeu secular filho de judeus seculares. Começou cedo sua história com o aborto, encaminhando com a ajuda de seu pai a sua namorada para que abortasse seu primeiro filho. Já adiante na carreira, ele mesmo fez o aborto de seu outro filho, de uma forma metódica e muita higiênica, quase como a dos proficientes médicos nazistas que exterminavam milhões.

Seu papel na legalização do aborto foi importante, e sua atuação chefiando clínicas de aborto ou fazendo ele mesmo os abortos impressiona. Mais de 75.000 vidas foram tiradas por Bernard Nathanson. Ele era eficiente no que fazia e se destacava, numa época onde os médicos mais desqualificados já migravam para as práticas abortistas.

É claro que por anos atraiu a fúria e o desprezo de muitos médicos de linhagem hipocrática e de defensores da vida humana.

Mas as coisas começaram a mudar quando surgiu um impressionante aparelho: a ultrassonografia! Ao observar as reações do feto no momento em que o mesmo era destruído pela sucção, Nathanson parou de viver na abstração de seu próprio mal e percebeu concretamente a extensão do mal que praticava. Ali estava uma vida sendo destruída, ao vivo, na televisão! E não somente ele, mas outros médicos abortistas nunca mais ousaram eliminar vidas humanas depois de assistir ao que realmente acontecia dentro do útero materno.

O rei do aborto começara a questionar a si mesmo. Abandonou suas práticas anteriores e tornou-se membro do movimento pró-vida americano, angariando para si o ódio e a inimizade de incontáveis médicos e pessoas que agora defendiam o “Direito de Escolha”. 

Produziu dois documentários impactantes que, obviamente, nunca chegaram à grande mídia, mas que transformaram a forma pela qual muitas pessoas enxergavam essa questão: The Silent Scream (O Grito Silencioso) e The Eclipse of Reason (O Eclipse da Razão).

Em 1987, Bernard recebeu uma carta de uma defensora do direito de escolher o aborto que trabalhara para ele no passado. Ela contava que algo muito tenebroso se passava na clínica onde ela trabalhava. Pedaços de bebês estavam sendo vendidos! Hoje observamos quase que descrentes a Planned Parenthood vendendo órgãos de bebês abortados num verdadeiro açougue humano e nos perguntamos como chegamos aqui. Mas não há novidade na história. As promessas de tratamentos milagrosos já abundavam à época, e ainda abundam, com efeitos colaterais e decepções igualmente presentes em larga escala.

Nathanson faz os cálculos macabros do que seria preciso para efetivar terapias com células fetais, e o resultado impressiona pela quantidade de sangue humano necessário para ações em larga escala realmente efetivas à sociedade.

E a guerra entre abortistas e defensores da vida seguiu acirrada nos Estados Unidos, incluindo alguns casos de tiroteio e violência contra médicos e funcionários de clínicas de aborto. Foram poucos, mas trágicos. Porém, o que mais impactou Bernard foi o exemplo da pacífica maioria que tinha a coragem de suportar as piores humilhações e agressões dos radicais pelo direito de decidir; a maioria que mantinha a resiliência ao lutar por algo que considerava sagrado.

Movido pelo exemplo ele se aprofundou no estudo da fé que movia aquelas pessoas, e ao fim de uma longa e trágica vida encontrou seu caminho dentro do Cristianismo.

Das profundezes do mais tenebroso inferno, repetindo o holocausto em diferentes vítimas, Bernard Nathanson foi alçado a um diferente patamar e sofreu uma impressionante virada em sua visão de mundo. Sua história culminando em sua sofrida transformação é um testemunho real do poder e do efeito do perdão na vida de alguém.




Nota:
[1] NATHANSON, Bernard N. The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion Doctor Who Changed His Mind. Washington, DC: Regnery Publishing, Inc., 1996.


(*)Hélio Angotti Neto é médico oftalmologista com graduação pela Universidade Federal do Espírito Santo e residência médica e doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Coordena o curso de medicina do Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC-ES) e é o diretor da seção especializada em humanidades médicas da revista Mirabilia. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, do Center for Bioethics and Human Dignity, da Associação Brasileira de Educação Médica e do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho. Coordena o SEFAM (Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina).

quarta-feira, outubro 12, 2016

Europa oriental: a última barreira entre o cristianismo e o islã.









Europa oriental: a última barreira entre o cristianismo e o islã.

por Giulio Meotti




O destino da Áustria está em jogo.



Talvez tenha sido mera coincidência o fato do Cardeal Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena, cotado para ser o próximo Papa, ter escolhido o dia 12 de setembro, aniversário do Cerco à Viena, quando as tropas otomanas da Turquia por pouco não conquistaram a Europa, para proferir um apelo extremamente dramático para salvar as raízes cristãs da Europa.

"Muitos muçulmanos querem e dizem que a Europa está acabada", enfatizou o Cardeal Schönborn, em seguida acusou a Europa de "esquecer sua identidade cristã". Ele então alertou, de forma contundente, sobre a possibilidade da "conquista islâmica da Europa."

Konrad Pesendorfer, chefe do Departamento Austríaco de Estatística, assinalou que por volta de 2030, 40% da população de Viena terá nascido no exterior graças aos fluxos demográficos internos e à migração (60.000 ingressos de candidatos a asilo só este ano).

Desde a queda de Constantinopla em 1453, grande parte da população cristã da Europa Oriental permaneceu séculos sob ocupação islâmica, particularmente dos otomanos. A sensação é que o relógio voltou para o ano de 1683, quando o exército otomano estava diante das portas de Viena.

Não é coincidência que a feroz resistência dos europeus orientais tem sido o principal obstáculo a uma resposta coesa por parte da União Europeia frente à crise migratória. Foram estes países orientais que forçaram a chanceler alemã Angela Merkel a interromper o fluxo desordenado de migrantes. Hoje, com a Europa sem fronteiras, os migrantes continuam vindo em massa. Somente em agosto 23.000 migrantesingressaram na Itália.

Bruxelas está incrementando rapidamente a guerra de propaganda com o objetivo de apresentar os europeus ocidentais, que favorecem sem nenhum critério a migração de muçulmanos, como cosmopolitas e tolerantes, e os europeus orientais como um bando de fanáticos xenófobos, isso para não dizer claramente neonazistas.



A elite educada da Europa faria um bem a si própria se desse ouvidos aos seus irmãos orientais. Estes países, ironicamente, são o cerne da "nova Europa", os últimos a se juntarem ao projeto europeu e precisamente aqueles que se livraram dos regimes autoritários e que deveriam revitalizá-lo. A política de Bruxelas está remetendo o bloco oriental de volta à órbita da Rússia.

A relutância dos europeus orientais em abrirem as portas para a migração massiva de muçulmanos pode ser explicada pela crise econômica, queda na taxa de natalidade, sociedades relativamente homogêneas, perseguição aos cristãos sob o regime comunista, memórias de um conflito com o Islã que remontam à idade média e à tentativa de Bruxelas em impor uma agenda cultural. Na realidade o Parlamento Europeu tem aprovado constantemente resoluções que colocam sob pressão os conservadores estados-membros do Leste Europeu como a Polônia, Hungria e Croácia, para legalizarem o casamento gay e o direito ao aborto.

O Presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, o chama de "Viktator" Orbán. Mas o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, irredutível, segue em frente com a construção de um muro na fronteira entre a Hungria e a Sérvia. Quando da queda do comunismo, a Hungria foi o primeiro país a levantar a cortina de ferro e deixar as pessoas saírem. Agora é o primeiro país a erguer uma cerca para manter as pessoas do lado de fora. Além disso Orbán planeja construir mais uma cerca ao longo daquela fronteira.

Orbán é a nêmesis oriental da elite europeia. Ninguém na Europa além dele se manifesta em defesa do "cristianismo". A "Visegrad-4", aliança entre a República Tcheca, Polônia, Bulgária e Eslováquia, quer discernir imigrantes cristãos de imigrantes muçulmanos. Orbán conta com o apoio dos bispos húngaros que se opõem à política de braços abertos do Papa Francisco em relação aos migrantes.

Em um artigo de opinião publicado pelo jornal Frankfurter Allgemeine, Orbán ressalta:

"Aqueles que chegam ao nosso país foram criados em outra religião e representam uma cultura completamente diferente. A maioria deles não é cristã e sim muçulmana. Trata-se de uma questão importante porque a Europa e a identidade europeia estão enraizadas no cristianismo. "


A rebeldia de Orbán remonta à época em que era estudante em 1989, quando ele estava presente no funeral de Imre Nagy, que liderou a insurreição antissoviética de 1956 -- Orbán teve a coragem de exigir a retirada dos invasores comunistas.

Mais tarde Orbán liderou a Hungria para que ela ingressasse na OTAN.

Filho de pai comunista e mãe calvinista, Orbán é casado com uma católica devota e tem cinco filhos.Respondendo àqueles que questionam se ele é reacionário, Orbán ressalta: "eu como com garfo e faca, mas nós não somos os caras legais da corrente predominante". Para ele a Comissão Europeia é uma espécie de novo politburo. "Nós não aceitávamos viver sob o jugo de Viena em 1848, nem o de Moscou em 1956 e 1990", ressaltou Orbán. "Agora não iremos aceitar a ditadura de ninguém que está Bruxelas ou em qualquer outro lugar".



Os discursos de Orbán estão repletos de referências históricas, como por exemplo quando ele pediu aos húngaros para que se comportassem com a mesma coragem de seus antepassados "na guerra contra o exército otomano".

A constituição húngara é singular na Europa, ela protege a "vida desde a concepção" e reza que só pode haver casamento entre um homem e uma mulher.

A mesma abordagem de Orbán tem sido adotada por outros membros ex-comunistas da UE. O Presidente da Polônia Andrzej Duda queixou-se dos "ditames" de Bruxelas para a aceitação de migrantes que fluem para o continente europeu oriundos do Oriente Médio e da África. Enquanto isso o líder do Partido Lei e Justiça da Polônia Jaroslaw Kaczynski, apelou "para um velho ponto de vista histórico, de acordo com o qual a Polônia é um baluarte do cristianismo no leste europeu e precisa salvar a Europa dela mesma".

"Desde a adoção do cristianismo em 966, a Polônia tem desempenhado inúmeras vezes o papel deAntemurale Christianitatis, bastião do cristianismo", segundo a revista Crisis Magazine.



"Esta maneira de pensar vem sendo reforçada desde a época em que a Polônia impediu o avanço dos mongóis na Europa na Batalha de Legnica em 1241 à salvação da Europa da colonização muçulmana, quando o Rei João III Sobieski derrotou os turcos em Viena em 1683. O comunismo não conseguiu sufocar o catolicismo polonês, quando João Paulo II foi eleito Papa em 1978, inspirando o surgimento do movimento Solidariedade, que desempenhou um papel crucial para o colapso do comunismo. Mais recentemente imigrantes poloneses têm preenchido espaços, até então vazios, na Europa Ocidental. Durante o Sínodo dos Bispos sobre a família, realizado no Vaticano, os bispos polacos foram os mais eloquentes defensores da tradição".



Robert Fico primeiro-ministro da Eslováquia, outro país europeu oriental, ressaltou que seu país irá aceitar apenas refugiados cristãos, salientando que "não há espaço" para o Islã em seu país e que "omulticulturalismo é uma ficção".

O presidente tcheco Milos Zeman também atacou o multiculturalismo. Até Socratis Hasikos, ministro do interior de Chipre, ressaltou que seu país aceitará refugiados, desde que sejam cristãos. Para muitos cipriotas, a linha que divide a ilha é a fronteira entre o cristianismo grego e o Islã turco, assim como o muro de Berlim era a fronteira entre a democracia e o comunismo.

Conforme observou a prestigiosa revista católica americana First Things, "na Hungria, Croácia e em outros países da Europa Oriental está em andamento uma revolução pró-família, pró-vida e a redescoberta das raízes cristãs".

Gostem ou não, é possível que a última chance de salvar as raízes da Europa esteja vindo de ex-membros comunistas da UE - aqueles que derrotaram o Império Otomano em 1699 e que agora se sentem ameaçados culturalmente pelos seus herdeiros.

Os cipriotas sabem bem mais sobre as consequências de um choque cultural do que os burocratas em Bruxelas sentados confortavelmente em seus escritórios. Pergunte a eles o que aconteceu com as igrejas no lado turco da ilha. Quantas ainda estão em pé?


Giulio Meotti, editor cultural do diário Il Foglio, é jornalista e escritor italiano.

Publicado no site do Gatestone Institute./ Midia Sem Máscara
Tradução: Joseph Skilnik

segunda-feira, setembro 26, 2016

A Rússia de Putin esmagando a Fé Cristã e a Família.





por Luis Dufaur (*)


O cristianismo é promovido apenas enquanto instrumento domínio político


O historiador francês Philippe Fabry registrou em seu blog uma estranha contradição em seu país. Políticos e jornalistas que oscilam entre os partidos de direita passaram repentinamente a ecoar uma imagem que parece ter sido mandada fazer pelo Kremlin.

Entre eles, cita o político e ensaísta Yvan Blot, que passou a defender que o regime de Putin é o guardião dos valores tradicionais do cristianismo e da família, e que a “nova Rússia” seria uma espécie de baluarte no qual o Ocidente deve se apoiar para não afundar na decadência.

Fabry relembra então alguns dados de conhecimento geral que são omitidos por essa visualização:

— a “nova Rússia” pseudo-cristã, cuja população é mais do que o dobro da francesa, aborta proporcionalmente duas vezes mais crianças (800 mil por ano) do que a França laicista (200 mil).

— a “nova Rússia” é o primeiro consumidor mundial de heroína. Embora esse extenso país represente apenas 2% da população mundial, consome 21% da produção planetária dessa droga pesada. Trata-se de uma herança recebida por Putin, mas não se tem notícia de que ele aja eficazmente para extirpar o vício que devora a nação.

— o desmantalamento da família está provocando uma catástrofe demográfica: a população russa – mais de 140 milhões – ruma para 80 milhões de habitantes por volta de 2050, segundo as projeções.

— os índices econômicos da Rússia de Putin neste século, após um momento episódico de euforia pela alta do petróleo, afundam hoje assustadoramente. A Providência dotou a Rússia de insondáveis recursos materiais. No entanto, o problema é o coletivismo soviético, que continua de pé. E sobre essa estrutura socialista reina a nomenklatura da “nova Rússia”, uma das mais corruptas do mundo.

Costumes cristãos estão sendo achincalhados com objetivos políticos.


Por que essas figuras da direita francesa, tão dignas de respeito, caíram no conto de uma propaganda povoada de fantasmas tão contrários à realidade?

A pergunta de Fabry suscitou comentários. Sobre a calamitosa situação moral da Rússia, Robert Marchenoir observou que

“de fato, a Igreja ortodoxa russa é na prática uma dependência do FSB (ex-KGB), que professa uma concepção da religião próxima à do Islã e oposta ao catolicismo e ao protestantismo; é uma correia de transmissão fanática e supersticiosa do poder político (...). A causa não é uma influência do Islã, mas está ligada ao cisma bizantino, (...) à irracionalidade russa, e ao papel do clero ortodoxo na história da Rússia”.


Outro comentarista acrescentou que a

“Igreja Ortodoxa Russa não tem mais nada a ver com o cristianismo, é uma religião consagrada ao culto do Estado russo. O próprio Kirill [patriarca de Moscou] declarava nos anos 90 que sua igreja tinha necessidade de se reformar para se separar da KGB, mas depois mudou de opinião”.


Essas afirmações sobre o Patriarcado de Moscou ajudam a compreender a descristianização geral no interior da Rússia, mas não chegam a explicar por que políticos de direita no Ocidente vejam na “nova Rússia” um modelo de cristianismo.

A irrigação desses setores direitistas com dinheiro russo, com quantias por vezes milionárias, é uma das explicações comumente apontadas.

As máquinas de financiamento que funcionam no Ocidente em geral visam marginalizar as direitas, suas organizações, seus intelectuais e representantes. Compreende-se que, em decorrência disso, se sentindo objetivamente injustiçadas e aparecendo uma sedutora proposta, possam ter caído.

O exemplo mais citado é o empréstimo de 9 milhões de euros, feito em 2014 ao Front National francês por um banco russo de estrita observância à vontade de Putin.


Culto da personalidade de Putin reedita o culto a Stalin,
instrumentalizando e desvirtuando o cristianismo.


Mas Cécile Vaissié, professora de estudos russos e soviéticos da Universidade Rennes 2, em seu extenso livro Les réseaux du Kremlin en France, publicado em 2016, apresenta uma interpretação mais complexa e rica.

De fato, a Rússia consagra anualmente 3,5 bilhões de euros para a sua propaganda. E, ao fazê-lo, segundo a professora, “o Kremlin utiliza os velhos métodos da KGB: prefere promover sua imagem internacional, ao mesmo tempo em que reprime a população russa”.

O Kremlin visa expandir as “igrejas ortodoxas” de acordo com um projeto em nada religioso, mas completamente político.

“Tudo o que está ligado à igreja ortodoxa russa (mais conhecida como ‘Patriarcado de Moscou’) é político.

“Na chefia dessa igreja se encontram dignitários que trabalharam para a KGB na época soviética”, explica.


Hoje, acrescenta a professora, Putin se serve dela. Na Rússia, a ortodoxia é uma ideologia de estado, antidemocrática e antiocidental.

A partir dos anos 1920 a diáspora russa rompeu com o Patriarcado de Moscou, porque este dependia do Kremlin, o senhor temporal comunista ou nostálgico do comunismo que define os princípios pastorais e religiosos, bem como a nomeação dos clérigos.

O Patriarcado de Moscou foi criado em 1589 pelo czar da Rússia, que queria um apoio religioso para expandir seu império até o Mediterrâneo.

Dito Patriarcado foi suprimido pelo czar Pedro o Grande em 1721, e reconstituído em 1917 após a Revolução Comunista de Lênin.

Desde então ele vem servindo ao ditador marxista de turno que o fechou em 1925. Stalin o restaurou em 1943, após os bispos “ortodoxos” jurarem fidelidade absoluta ao regime e aos interesses soviéticos.

Segundo explicou a professora Vaissié ao Médiapart, o resultado é que a propaganda russa montou no Ocidente uma imagem “que não tem nada a ver com a Rússia real".

“Esse falso imaginário faz crer que a Rússia seria a ‘Santa Rússia’ de outrora, que defende as tradições familiares e cristãs.

“Essas tradições familiares foram imensamente destruídas na Rússia, elas são muito mais vivas na França. O cristianismo foi enormemente destruído na Rússia” – completou.


Prof.a Cécile Vaissié: as redes do Kremlin na França:




(*)Luis Dufaur é escritor, jornalista, conferencista de política internacional, sócio do IPCO e webmaster de diversos blogs.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

O machismo Cristão.








por Mateus Colombo Mendes








Eis que Cristo apresenta a Nova Lei:

– Não pensei que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas consumar.

O que Cristo faz é consumar e radicalizar:

– Ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás; quem matar, será réu de julgamento. Pois eu vos digo: quem se encolerizar contra seu irmão, será réu de julgamento.

Ou seja, Jesus deixa claro que mesmo erros menores podem receber a grande punição, pois essas pequenas ofensas se enraízam no coração do homem e semeiam o campo para os grandes erros. O antigo mandamento de não matar é radicalizado e passa a exigir que nem sequer se magoe o irmão. Por isso, aliás, que o exame de consciência, etapa anterior à confissão sacramental (Prática Católica da Confissão), é tão importante; não basta analisar a letra fria e abstrata dos Dez Mandamentos; é preciso analisar nossas ações reais à luz de cada Mandamento, contemplando suas centenas de implicações menores.

É nesse sentido que surge uma das maiores provas de que, se o cristianismo é machista, é no sentido de proteger a mulher na máxima potência (ou seja, não é machista de forma alguma):

– Ouvistes o que foi dito: não cometerás adultério. Pois eu vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça sobre uma mulher, já cometeu adultério em seu coração (Mateus 5:28).

Se essas palavras são duras aos homens de hoje, imagine dois mil anos atrás. Um “mero” olhar, uma simples “olhadinha”, é suficiente para nos distanciar gravemente de Deus. Obviamente, como sempre, não se trata de uma ordem arbitrária e abstrata, mas de uma recomendação que leva em consideração a realidade das coisas. O homem, o macho, é, digamos, extremamente visual. Nossos estímulos sexuais mais fortes vêm pelos olhos. Talvez vocês não saibam, mulheres, mas quando, em ato sexual com uma mulher desprovida de beleza, é quase regra que o homem visualizará mentalmente uma mulher que lhe agrade mais; do mesmo modo, quando precisa, pelo motivo que seja, evitar um estado de excitação, tratamos de imaginar algo visualmente desagradável. Sendo o sentido da visão algo tão grave para nós, homens, que Cristo faz, a fim de que não plantemos pecados graves com as sementes dos pecadinhos?

– Se teu olho direito te escandaliza, corta e joga longe de ti. Pois é preferível que pereça um de teus membros a que todo teu corpo seja lançado no inferno (Mateus 5:29)

Para que não traiamos nem mesmo mentalmente a mulher e não ofendamos a Deus, Cristo ordena que arranquemos o olho! Mas não pára por aí.

– Também foi dito: quem repudiar sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio. Pois eu vos digo: todo aquele que se divorciar de sua mulher – exceto em caso de “prostituição” – a induz ao adultério, e aquele que se casar com ela, comete adultério (Mateus 5:31-32)

Perceba que a única possibilidade que o homem tem para não ofender a Deus é permanecer fiel e jamais romper o matrimônio. Se se divorciar, peca gravemente; com o divórcio, estará o homem induzindo a mulher ao adultério, o que é pecar gravemente; por fim, o homem que se unir à mulher abandonada também estará pecando gravemente. Nós, homens, somos culpados, com justiça, se abandonamos a mulher e se, por isso, ela mesma vier cometer adultério. Não é muito machismo?

O pior é que há quem responderá “Sim, é muito machismo!” à minha pergunta retórica e irônica. Em pleno século XXI, há quem considere ofensa gravíssima à honra feminina o ato de zelar, de ter extremo cuidado, de proteger uma mulher, de dar-lhe a segurança que ela naturalmente exige e que somente nós, homens, naturalmente somos capazes de dar. Com a graça de Deus, somos, homens e mulheres, incrivelmente diferentes – e nas tensões surgidas dessas diferenças nos completamos, crescemos e nos unimos a Deus, através de Cristo e da intercessão do ser humano puro mais perfeito já criado, Maria – que, não por acaso, é uma mulher.

Também não é por acaso que as pessoas que se ofendem com a constatação de que homens e mulheres são diferentes e que, por isso, mulheres devem ser tratadas de forma realmente distinta, são as mesmas que desejam corromper a mulher, através de um igualitarismo atroz. No prefácio da edição da Ecclesiae para a obra O que há de errado com o mundo, de G. K. Chesterton, o professor Rodrigo Gurgel faz um resumo preciso e brilhante do problema:

<< Chesterton sabia perfeitamente que “se as mulheres chegassem a ser ‘iguais’ aos homens, se envileceriam”, diz Joseph Pearce. É nossa realidade hoje. Como afirma Francisco José Contreras, “o tipo de sexualidade (banalizada, de consumo rápido, desvinculada do amor, do compromisso e da reprodução) parece desenhada à medida das necessidades e caprichos masculinos. As mulheres são as grandes vítimas da revolução sexual. Na sociedade hipersexualizada, a mulher se converte com freqüência em objeto de usar e jogar fora. As feministas conseguiram impor à mulher o modelo sexual masculino”. [...] “O neofeminismo converte as mulheres em ‘machos falidos’”. >>

Olhe em volta, para suas relações, para suas amigas com entre 20 e 40 anos totalmente perdidas, fragilizadas, rebaixadas, e me diga se não são de fato “as mulheres as grandes vítimas da revolução sexual”. A mulher de hoje é a grande vítima do feminismo, da libertação sexual. O caos é completo. Mulheres não se respeitam, seja porque esta é muito liberal, seja porque aquela é muito conservadora. Homens não respeitam mais as mulheres, seja porque esta “não deu” na primeira vez (e aí não têm paciência e a descartam), seja porque aquela “deu” de primeira (e aí “não serve para ser amada e respeitada” – e acaba sendo igualmente descartada). A mulher está atônita, não sabe mais como agir para conquistar um homem. Vê-se paralisada ante a percepção surpreendente de que não é transando de todas as formas possíveis na primeira noite que o homem lhe amará pela eternidade, a despeito de tudo que lhes disseram e prometeram por décadas os grandes gurus e especialistas em livros, revistas e programas de TV – “Cem formas de ganhar um homem na primeira transa”; “Não se reprima, faça tudo que você tiver vontade!”; “Seu corpo, suas regras”.

O antídoto para tanta loucura, como sempre, é a firme, simples e maravilhosa realidade. Basta não patrolar as evidências e respeitar as naturezas de homens e mulheres para saber como agir. Nossas percepções primeiras das coisas valem muito mais do que anos de problematizações ideológicas, que procuram adaptar a realidade ao ideário revolucionário. O deslumbramento infantil, puro e aparentemente bobo, que diz “Meninos têm pinto; meninas, não”, é muito mais cientificamente verdadeiro e filosoficamente assertivo do que todas as teorias modernas juntas. E não sou eu que estou dizendo – é a realidade, com o endosso de Nosso Senhor Jesus Cristo. E você, ainda dará ouvidos a pelancudas ressentidas?


terça-feira, janeiro 05, 2016

Sete princípios cristãos para uma política realista.









Sete princípios cristãos para uma política realista.
por Kevin D Young




Estamos em um mundo caído. As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível.
Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras das várias políticas.



A Bíblia é um livro grande, de modo que há uma série de coisas que podem ser ditas no esforço de formar uma visão política de mundo a partir dos princípios bíblicos. Mas isto aqui é um blog, não um livro. Então deixe-me tomar apenas uma área doutrinária e destrinchar algumas implicações possíveis.

Creio que nossas mais importantes considerações políticas nascem de uma compreensão apropriada da pessoa humana. Quanto mais nossos políticos e instituições políticas agirem em acordo com o modo como as coisas realmente são e o modo como nós realmente somos, mais cresceremos como nação.



Considere estes princípios antropológicos à medida que desenvolve sua práxis política:

1O homem é feito à imagem de Deus (Gn 1.26-27). Não importa quão pequeno, frágil, velho ou deficiente, todo ser humano tem valor e dignidade. O governo deve proteger a vida humana e punir aqueles que a prejudicam (Rm 13.4; Gn 9.6);


2O homem é feito para o trabalho (Gn 2.15). Devemos maximizar os incentivos ao trabalho árduo e remover os incentivos que encorajam a preguiça (2Ts 3.6-12);


3A parte própria do ser humano, da qual Deus não compartilha, é que estamos sujeitos às devidas autoridades. Isso inclui a sujeição ao governo e a exigência de pagar impostos (Rm 13.1-7);


4Os seres humanos são motivados pelo interesse pessoal. Jesus compreendia isto quando nos disse para amar ao próximo como já amamos a nós mesmos (Mt 22.39). Interesse pessoal não é automaticamente o mesmo que avareza ou ganância, e essa é a razão porque Jesus não hesitou em motivar os discípulos com a promessa de serem os primeiros ou com a garantia de recompensa (Mt 6.19-20; Mc 10.29-31). É preciso dizer que nosso interesse pessoal nem sempre é virtuoso. A obra do evangelho é ensinar às pessoas como esse interesse pessoal (satisfação) pode casar com o interesse de Deus (glória). Mas as melhores políticas são aquelas que podem solapar o poder do interesse pessoal em favor de um bem maior;


5Os seres humanos não são apenas consumidores do planeta; também somos também criadores. O mundo físico é uma dádiva e uma ferramenta. Temos a capacidade de espoliar, mas também a responsabilidade de subjugar (Gn 1.28);


6Por causa do pecado de Adão, estamos em um mundo caído (Rm 5.12; 8.18-23). As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível. Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras das várias políticas. Não podemos eliminar as realidades de viver em um mundo caído (Jo 12.8), mas boas políticas podem ajudar a mitigar algumas dessas piores realidades;


7A natureza humana é inclinada para o mal (Gn 6.5; Jr 17.9). Isso significa que não podemos contar com a boa vontade dos outros ou das outras nações, não importa quão bem intencionados possamos ser ou o quanto cuidemos apenas daquilo que é da nossa conta. A questão não é de onde virá a guerra. Ela deve ser esperada, dada a nossa natureza. A questão é saber quais instituições e políticas são mais efetivas em estabelecer a paz.


É claro que há mais coisas que poderíamos dizer sobre a natureza da liberdade, a importância da justiça, e o direito à propriedade privada. Esses são três temas bíblicos cruciais. Mas os sete princípios acima podem nos ajudar a começar a compreender o mundo, tomar decisões no mundo, e eleger políticos que entendam o modo como o mundo funciona.



Tradução: Márcio Santana Sobrinho

sexta-feira, janeiro 01, 2016

A perspectiva Cristã.











por Rodorval Ramalho




Provavelmente, nunca vivemos um tempo tão temeroso da verdade. Esse temor se expressa através do relativismo, do niilismo, do cinismo, do ceticismo e várias outras doenças do espírito. Tais enfermidades têm um canto de sereia envolvente – a facilidade com que se chega ao cume dos seus argumentos.

Por outro lado, emergem versões das mais variadas formas de cientificismo, tentando nos convencer de que o império do conceito é a única maneira de nos relacionarmos com o mundo que nos envolve. Para estes, esse mundo pode ser, gradativamente, resumido a uma idéia, um sistema, uma equação. Assim, o que não vier dos esforços experimentais da ciência é considerado futilidade, ilusão, engano, delírio.

O cristianismo tem sido a maior e mais consistente alternativa a essas patologias modernas do espírito; não é à toa que é a religião mais perseguida do mundo, por mais que isso não figure com o devido destaque nas manifestações da imprensa.

Assim, em tempos de tanta desorientação e numa conjuntura de perseguição sistemática, a permanência e a força do cristianismo me parecem um milagre e uma necessidade. Faz lembrar-me de uma passagem do texto sagrado que se refere à crucificação e à desistência do soldado romano de quebrar os ossos do Cristo, após ter quebrado os dos homens que lhe ladeavam, como mandava a tradição.

Cumpria-se mais uma profecia: “Iahweh guarda seus ossos todos, nenhum deles será quebrado.” (Salmo 33). Bela imagem da história do cristianismo: conseguem até saturá-lo de dores e perseguições, mas não eliminá-lo, como foi (e continua sendo) a vontade de setores importantes das “luzes” modernas.

Portanto, não é demais lembrar, principalmente aos cristãos, que a afirmação dessa tradição depende, profundamente, de uma busca permanente da verdade, da pesquisa incansável e de um esforço racional sistemático. Nada disso exclui a fé.

O brilhante historiador inglês Paul Johnson, em seu incontornável 'Uma História do Cristianismo', nos chama a atenção.

“O cristianismo é, por essência, uma religião histórica. Baseia suas alegações nos fatos históricos que declara. Se estes forem abolidos, ele não é nada. Assim sendo, poderá um cristão examinar a verdade desses fatos com a mesma objetividade que apresentaria com relação a qualquer outro fenômeno? Poder-se-á esperar dele que cave a sepultura de sua própria fé, se for esse o caminho apontado por suas investigações? No passado, poucos estudiosos cristãos tiveram coragem ou a confiança de colocar a livre perseguição da verdade antes de qualquer outra consideração. Quase todos estabeleceram um limite em algum ponto. Não obstante, como seus esforços defensivos provaram-se fúteis!”.

E segue o erudito historiador inglês.

“Afinal, o cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar –e, adequadamente compreendido, de fato o faz – que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza de sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, o cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é positivamente fadado a segui-la.”

Não nos enganemos, entretanto, sobre o alcance dos conceitos humanamente formulados. Não nos deixemos levar pelos malefícios de uma atitude que imagina ser possível capturar o mundo com as palavras e enclausurá-lo numa gaiola conceitual.

O interesse pela verdade, ao qual se refere o historiador inglês, é semelhante ao que nos propõe Olavo de Carvalho em texto recente:

“Hoje, quando nos preparamos para contemplar uma vez mais o Menino Deus em seu berço humilde, por favor lembrem-se: Ele é a fonte e o limite do nosso conhecimento. Ele é a medida, a régua e a balança. Ele é o alfa e o ômega. Para além desses limites, existe apenas o mistério insondável da Liberdade Divina.”

Portanto, a tradição cristã nos orienta a nunca temer ou abandonar a busca da verdade, seja qual for o momento, o diálogo e os interlocutores. Ao mesmo tempo, nos indica que não devemos cair na tentação herética de reduzir a criação a conceitos, fórmulas ou equações.

É este o fio da navalha no qual se movimenta o cristão.


Imagem: São Paulo na Prisão, de Rembrandt, 1627.

José Rodorval Ramalho é sociólogo.

terça-feira, novembro 03, 2015

Capitalismo gospel ou socialismo gospel?





por Julio Severo


Alguns me escrevem pedindo artigos sobre a comercialização de produtos gospel como livros e CDs e até a comercialização do louvor, como se fosse música secular para comprar e vender, chamando isso de “capitalismo gospel.” Outros igualam essa comercialização com o socialismo gospel, que é a mesma coisa que Teologia da Missão Integral (TMI). Outros ainda dizem que a TMI é a resposta perfeita para combater o capitalismo gospel.


Não nego que a comercialização gospel de tudo nas igrejas seja capitalismo gospel. Mas igualar socialismo gospel com capitalismo não tem fundamento, e muito menos dizer que a TMI é algum tipo de cura divina e miraculosa para o capitalismo.


No capitalismo, as pessoas têm liberdade e muitos produtos para vender e comprar. E têm liberdade de usar seus lucros para fazer caridade.
No socialismo, as pessoas têm muito menos liberdade e menos produtos para vender e comprar. E pouco ou nenhum lucro para fazer caridade.


O maior exemplo de capitalismo gospel eram os EUA no início da sua república. Notavelmente, na época de George Washington, que era evangélico, 98 por cento da população dos EUA eram também evangélicos — e capitalistas.

Nos EUA, capitalismo e religião evangélica estavam virtualmente casados. Apesar disso, não havia comercialização gospel. O capitalismo era usado para produzir Bíblias e literatura cristã a preços baixos. Era também usado em larga escala para missões evangelísticas, tornando os EUA o principal país evangélico e missionário do mundo.

Com a decadência da religião evangélica, o capitalismo dos EUA é hoje usado para todos os tipos de comercialização, fazendo intensa propaganda e promoção do islamismo, homossexualismo, prostituição, pornografia e até armas, tornando os EUA o maior negociante de armas de guerras do mundo, suprindo amplamente os bons e os maus, os heróis e os terroristas.

Capitalismo sem Deus se torna uma prostituta que serve a todos os clientes, desde o islamismo e o homossexualismo até o aborto e o socialismo.

Esse é um mau uso do capitalismo, e será julgado por Deus.

Outra característica da população evangélica capitalista dos EUA do passado era a busca da santidade, que era o assunto principal das igrejas.

Desde então, a qualidade da religião evangélica nos EUA caiu muito. Os evangélicos hoje representam pelo menos 50 por cento da população americana — uma baixa drástica. A santidade saiu da moda. O capitalismo, que antes estava a serviço de evangélicos que influenciavam de forma benéfica e positiva a cultura americana, hoje está a serviço de várias ideologias extremamente danosas e anticristãs.


A superpotência capitalista está potencializando as ideologias mais nocivas do mundo.
No lugar da santidade, o evangélico que há hoje nos EUA é mais a favor do aborto, do homossexualismo e contra Israel.

Mas existe uma diferença entre evangélico capitalista e evangélico socialista.
No socialismo, independente da decadência cristã, todos são escravos dos Estado e seu dinheiro é usado para promover o mal.

No capitalismo, quando esse sistema é dirigido por cristãos íntegros e honestos, o resultado é dos melhores e todos os que trabalham têm lucros para poderem usar à vontade, inclusive caridade. Mas quando esse sistema está sem direção cristã, é uma máquina de tirar vantagem e também traz escravidão, embora de natureza diferente do socialismo.

O socialismo é mau porque sendo cristão ou não rouba das pessoas.
O capitalismo, sem uma forte direção cristã, é mau e explorador. Esse é o exemplo atual dos EUA. Com direção cristã, é uma bênção. Esse é o exemplo passado dos EUA.
O que nós no Brasil podemos aprender com essa realidade americana?

O evangélico que compra CDs e ajuda a financiar impérios gospel tem a liberdade de decidir o que fazer com o lucro do seu trabalho. Quer a decisão dele esteja certa ou não, é o livre arbítrio dele. Mesmo no caso de igrejas que pedem ofertas exploradoras, o frequentador dá se quiser. Não existe lei para obrigá-lo. É um capitalismo gospel? Sim, mas há liberdade e só dá ou compra quem quer.

Mas no caso do sistema socialista, que os adeptos da TMI promovem, a liberdade e o lucro do trabalho são sacrificados em prol de um suposto bem-estar social. Isto é, o evangélico trabalha muito, mas não vê o fruto do seu suor, pois uma boa parte do seu salário vai automaticamente para impostos que alegadamente financiam a tão chamada “caridade” estatal, que não tem amparo nenhum na Bíblia, mas é apoiada exclusivamente pelos adeptos da TMI e outros cristãos socialistas, tirando totalmente a liberdade econômica do trabalhador.

Socialismo gospel é, pois, muito pior do que capitalismo gospel.
No capitalismo gospel, se o trabalhador entender que precisa gastar em necessidades legítimas e até caridade em vez de gastar em CDs e enriquecer cantores gospel que já são podres de ricos ou dar ofertas extravagantes em igrejas que pedem mais do que mendigos, há sempre liberdade.


No socialismo gospel, se o trabalhador entender que é ele, não o Estado, que deve decidir e usar seu próprio dinheiro para caridade ou outras necessidades, não há nada que ele possa fazer, pois não existe liberdade econômica. Seu dinheiro é tirado sem nenhuma consulta. Ganha o Estado ladrão e seus apoiadores, inclusive os adeptos da TMI 

(Teologia da Missão Integral )

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Seria como se o trabalhador evangélico entrasse na igreja e o pastor não pedisse nada, mas tirasse dele todo o dinheiro. Se um pastor fizesse isso, seria preso. O ladrão só fica impune porque a igreja é o Estado e o pastor é a autoridade que serve à ideologia socialista contra os melhores interesses do cidadão que trabalha.
No capitalismo gospel, ganha mais quem seduz mais. Só perde quem se deixa seduzir pela propaganda enganosa.

No socialismo, ninguém pode fugir e a sedução é desnecessária. Todos perdem.

Você não gosta das músicas do Thalles Roberto e da Ana Paula Valadão pelo comercialismo? Não compre. Você tem total liberdade de não financiá-los. Você não gosta do capitalismo gospel? Evite-o.
Mas se você vive num governo socialista amplamente apoiado pelos adeptos da TMI, você e o lucro do seu trabalho não têm como escapar. Não dá para você deixar de pagar, através de impostos, os adeptos da TMI que trabalham diretamente para um governo socialista. Você não tem liberdade.

O socialismo gospel é muito pior do que o capitalismo gospel.