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domingo, julho 09, 2017

O que raios é socialismo fabiano?





por Flávio Morgenstern(*).

Com o destaque dado a João Doria, o termo "socialismo fabiano" começou a ser usado nas redes sociais. Mas o que é o fabianismo na vida real?







Um novo termo tem sido repetido ad nauseam nas discussões políticas na internet: socialismo fabiano. A incidência do vocábulo cresceu na medida em que o prefeito de São Paulo, João Doria, ganhou notoriedade entre uma parcela da direita por seus ataques ao PT. Outra facção, por ser o prefeito um filiado ao PSDB, alavancou o uso da expressão considerando que Doria é, na verdade, um “socialista fabiano”.

Poder-se-ia perguntar aos usuários do bordão uma série de questões: o que é o socialismo fabiano? Quem são os grandes socialistas fabianos? Em que país surgiu? Rússia? França? Alemanha? Onde ele já foi aplicado? Quais as instituições que o promovem? Quais são seus princípios? Os principais livros? Qual a diferença para outras formas de socialismo? Como é a economia fabiana? À base do Gulag, como na União Soviética? E a liberdade de imprensa? Há expurgos, paredón, genocídio?

O estudioso que questionar a maioria dos useiros do termo não encontrará respostas. O fenômeno é idêntico ao que a esquerda fez com o termo técnico “fascista”, uma realidade histórica brutal e perigosíssima – mas, usado tão somente como metáfora, e não descrição, está sempre comparando o que não é socialismo fabiano com o apelativo mote, justamente para tentar ofender quem teria horror a ser associado a alguma forma de socialismo. Mesmo a uma versão amorfa e indefinida.

O vocábulo fica assim oco de significado. Como define o antropólogo Claude Lévi-Strauss, aprofundando a terminologia lingüística, a palavra se torna um signo flutuante: pode significar qualquer coisa, só dependendo da vontade momentânea do falante. É algo comum ao pensamento mágico: ao invés de olhar para a realidade e, para expressá-la, tentar extrair dela um conceito, com palavras como “maçã”, “tristeza” ou “crise internacional de hedge funds“, o sujeito quer criar a realidade através de palavras-mágicas, como um pequeno Deus do Gênese.

Entre uma direita que poucos livros lê, mas dedicadíssima a um verdadeiro estudo de comentários de Facebook, a organização do mundo depende de seus ânimos, emoções, impressionabilidades e vontades urgentes, e não da fria observação, análise, estudo e estratégia. Em poucos minutos de mimetização de ídolos, o sujeito estará igualando a economia escandinava que produziu empresas como Nokia e Ericsson ao Camboja de Pol-Pot, simplesmente por tratá-los pelo mesmo termo. É uma situação comparável a quem tenta analisar as diferenças entre Beethoven e Mozart, conversando com alguém que só conhece bicordes e Luan Santana.

O fenômeno de lingüística, ideologia e mentalidade segue a Lei de Rothbard, a despeito de não ser um debate acadêmico: a parcela menos lida e mais emocionalmente sensível da direita tende a se especializar justamente naquilo que menos sabe.

Quanto mais o termo é usado, repetido e macaqueado ao ponto de não fazer mais sentido nenhum, menos o usuário sabe o que está fazendo. É difícil crer que, sem uma definição socrática, o indivíduo consiga identificar um socialista fabiano se o vir na rua. Todavia, é exatamente pelo que está chamando tudo aquilo que não é o socialismo fabiano, podendo até mesmo se tornar presa fácil de um.

Afinal, o que, na vida real, fora da caixa de comentários do Facebook, é o socialismo fabiano? Como uma realidade concreta, histórica, atual, presente e nem de longe pequena ou pouco influente, é importante conhecer o conceito, até mesmo para saber combatê-lo.
A sociedade fabiana

Não são precisos muitos desvãos secretos em linguagem hermética: em pouco tempo no Google, sobretudo em inglês, é possível aprender muito da conceitualização básica do fabianismo.

Não é possível falar em socialismo fabiano sem falar da Fabian Society. Longe de uma corporação secreta, a “Sociedade Fabiana”, formada em Londres em 1884, tem site (fabians.org.uk), conta no Twitter (@thefabians) e página no Facebook. Já na primeira página do Google encontram-se grandes monumentos das letras britânicas, como The Guardian e a Encyclopædia Britannica, explicando o que é a Fabian Society.







Há duas realizações de ordem gigantesca que os fabianos legaram à esquerda: a fundação do Partido Trabalhista (Labour Party) britânico e de uma das maiores universidade voltadas à economia e às ciências sociais do planeta, a London School of Economics (LSE), que tanto fez com que a economia ocidental visse com bons olhos as idéias socialistas. Os informes, papers, estudos e artigos, ou mesmo o podcast da London School of Economics, dão um panorama atual de quais as visões, objetivos e práticas da Sociedade Fabiana hoje.







Tal como boa parte dos hábitos insulares ingleses (empirismo ao invés de racionalismo, dirigir pela esquerda e aversão ao sistema métrico), o socialismo fabiano é um fenômeno tipicamente britânico. Para identificar um socialista fabiano, um dos passos mais seguros é verificar sua familiaridade ao ideário da London School of Economics e à ala fabiana ortodoxa do Partido Trabalhista inglês.



Quem fundou a sociedade fabiana foi o casal de barões Sidney e Beatrice Webb, e não uma pessoa chamada “Fabian”. O socialismo fabiano deriva seu nome do general romano Quintus Fabius, que se destacou na Segunda Guerra Púnica. A chamada “estratégia fabiana” era algo novo para a época: uma tática de guerrilha que busca, lentamente, atacar os suprimentos das tropas inimigas, mesmo que muito mais numerosas. O inimigo definha em força gradual e lentamente. O socialismo fabiano utiliza uma tática bastante parecida.

Quatro nomes deixaram o ideário do socialismo fabiano famoso, embora raramente sendo referidos como “socialistas fabianos” ou “fabianistas” – o mero termo “socialista”, deixando que o contexto da Inglaterra fizesse o serviço de localização, bastava. Os Prêmios Nobel de Literatura George Bernard Shaw (1925) e Bertrand Russell (1950), além da revolucionária Virginia Woolf, foram os grandes mentores “não-econômicos” do socialismo fabiano. Fabianos que apanhavam muito em debates do grande gênio católico G. K. Chesterton.

Curiosamente, boa parte da visão de mundo do fabianismo também é influenciadora e também influenciada por outro romancista: H. G. Wells, que, em obras como O Homem Invisível, A Ilha do Dr. Moreau, A Máquina do Tempo e Guerra dos Mundos, descreveu utopias onde a tecnologia substituiria as tradições civilizacionais e a sociedade seria reformada paulatinamente.

Dois conceitos-chave são entrevistos aí: o socialismo fabiano acredita em evolução, e não em revolução. Era um dos grandes temas de H. G. Wells. Além disso, seu foco não-revolucionário é a reforma da sociedade, não seu redesenho pós-revolucionário. Uma das principais características do fabianismo é derivada não de Hegel ou de Karl Marx, mas de Charles Darwin: a sociedade “evolui” através da ciência e da razão, e cientistas deveriam reformar a sociedade, que não poderia resistir ao “progresso”, feito via democrática. Além dos positivistas (como, por exemplo, o Exército brasileiro), socialistas fabianos são os grandes tecnocratas.
O que fazer com os pobres?

O primeiro manifesto socialista fabiano é o documento Why are the many poor?, que chega a uma conclusão não muito diferente da satírica solução para a pobreza proposta por Jonathan Swift em A modest proposal, de 1729: a esterilização em massa dos pobres como meio de controle populacional. Uma espécie de malthusianismo com anabolizantes. Se a proposta parece chocante colocada sem meias palavras, os desdobramentos atuais da esquerda para a questão dos pobres passou da esterilização para o aborto em massa, sobretudo de negros, em modelos como o da Planned Parenthood.

O fabianismo primitivo mostra-se vencedor nos temas da esquerda moderna, pós-queda do Muro de Berlim: nada de economia, e sim sexo.

Um das primeiras grandes influências intelectuais para o fabianismo foi o psicólogo progressista e reformista social Havelock Ellis, que legou a todo o socialismo fabiano a terceira idéia após Malthus e Darwin: a eugenia, a teoria de que os bem nascidos devem prosperar, e aqueles sem serventia para uma sociedade cientificamente planejada devem ser dela extraídos. Havelock Ellis foi presidente da Eugenics Society.

Se a eugenia passiva de Francis Galton visava a manutenção de caracteres raciais, a eugenia ativa, como feita por outros socialistas, os nazistas, partia para o extermínio aberto de elementos indesejados pelos agentes do Estado. Hoje, no mundo do aborto, onde mais crianças são exterminadas do que em qualquer momento da história (mesmo no culto a Moloch), vivemos numa acelerada mudança da eugenia passiva para a eugenia ativa.




Além da eugenia, o tema da vida de Havelock Ellis marcou o caminho dos fabianos: a homossexualidade, e até a psicologia transgênero. Suas teorias sobre auto-erotismo e narcisismo foram posteriormente adaptadas pela psicanálise de Sigmund Freud. A Fabian Society foi uma desinência de um grupo com o desabrido nome de The Fellowship of the New Life.

Rapidamente, o “progresso científico” propagou as pílulas anticoncepcionais, o aborto, a eutanásia e boa parte daquela parcela do ideário de esquerda que chamamos de ‘progressista”. A Inglaterra era o centro científico do mundo da época.

Sidney e Beatrice Webb podem ser considerados os fundadores do que se chama de Welfare State junto a Lloyd George e William Beveridge. São suas as propostas do salário mínimo em 1906, do National Health Care em 1911, da mudança da herança para o mais velho em 1917.
Socialismo democrático

Incrivelmente, o primeiro brasão de armas da Fabian Society era um lobo em pele de cordeiro (!!), para demonstrar os métodos preferenciais da Sociedade. Logo a idéia foi abandonada, por suas óbvias implicações negativas, e substituída por uma tartaruga, representando a preferência por uma mudança lenta, gradual e imperceptível para o socialismo.

Após visitarem a Ucrânia no auge da fome do Holodomor, Sidney e Beatrice Webb escreveram um livro de dois volumes chamado Soviet Communism: A New Civilization?, em que juram que não havia fome: tudo era “propaganda de anti-comunistas”. Stalin, obviamente, não era ditador nenhum, imagine. O socialismo fabiano de verdade, tratado como um “socialismo light” no Facebook, sabia assustar o PSOL quando queria.

H. G. Wells rompeu com a Fabian Society, escrevendo ainda quando era membro o panfleto The Faults of the Fabian. A sociedade foi parodiada em seu romance The New Machiavelli.

Contudo, economicamente, o socialismo fabiano foi se distanciando do socialismo “clássico” da linha marxista e tentou implantar sua “ciência”. Com a típica aversão inglesa ao controle e à planificação, assimilaram o liberalismo econômico, criando essa estrovenga moderna que é o liberalismo gerenciado, no qual o sistema de precificação é permitido, o mercado tem alguma liberdade, mas há pesadas regulações e regras que permitem ao Estado fazer uma supervisão logística de todo o processo.

Como explicamos aqui e aqui, foi criado o “socialismo democrático”, termo que confunde 11 em cada 10 falantes: trata-se da estratégia em que taxando empresas, criando-se direitos trabalhistas e regulamentações econômicas, logo o Estado controlaria mais de 51% da economia, e bastaria então que o Estado comprasse empresas sufocadas pela carga de impostos. É o processo de estatização – ou “nacionalização” – de companhias através do que chamam de setores estratégicos. O socialismo chegaria por evolução, e não revolução. Foram seus articuladores Leonard Woolf, R. H. Tawney e G. D. H. Cole.

Neste momento pré-globalização, socialismo fabiano e globalismo ainda soam quase como opostos: o primeiro nacionaliza, adorando grandes elefantes brancos, enquanto o segundo preconiza o exato oposto. O socialismo fabiano é Petrobras, o globalismo é Goldman Sachs. O socialismo fabiano é reserva de mercado para computadores nacionais, o globalismo é Microsoft e Facebook. Demoraria mais de meio século para alguma articulação entre duas entidades indiscerníveis, muitas vezes de contornos vaporosos – ao contrário da Fabian Society, praticamente nenhum globalista nunca se auto-declarou “globalista” ou escreveu algum “Manifesto Globalista”.
Um governo fabiano

A influência do fabianismo foi gritante no governo de Clement Attlee, primeiro-ministro que sucedeu Winston Churchill pós-Segunda Guerra. Attlee não é muito conhecido fora do Reino Unido, embora seu governo seja paradigma de desastre dentro da Inglaterra. Foi Clement Attlee quem implementou o Welfare State e as propostas do socialismo fabiano, tendo John Maynard Keynes como seu mentor.

Além do National Health Care, o principal destaque ficou para a nacionalização das minas de carvão e das ferrovias – exatamente os setores estratégicos pensados na nacionalização da Sociedade Fabiana, e exatamente os elefantes brancos que seriam desmantelados 30 anos depois, por Margaret Thatcher.

Outro destaque de seu governo foi a descolonização, tema tão caro ao ensino de História no Brasil.

Clement Attlee é lembrado pelos ingleses de uma forma análoga a Lula: uma militância esquerdista o ama, mas não admite em público, enquanto ele é lembrado pelo povo como sinônimo de desastre: seus gastos aumentaram o poder dos sindicatos e emperraram a economia, torrefazendo dinheiro do pagador de impostos com empregos que só serviam à ideologia. Winston Churchill voltaria ao cargo após seu governo, iniciando uma hegemonia conservadora de 4 mandatos seguidos. E isto em uma época em que os Conservadores estavam em crise.

Anthony Crosland, então, edita The New Fabian Essays em 1952, renovando a esquerda, que desde aquela época sofria seriamente com o anacronismo. Num tempo em que governos “socialistas democráticos” tomavam a Europa inteira, os fabianos sofriam em casa: mesmo Harold Wilson, duas vezes primeiro ministro, era um esquerdista que não comungava do credo socialista fabiano, tendo de rotineiramente angariar apoio no complexo sistema parlamentarista inglês junto aos Conservadores.

A Fabian Society voltou a ser a grande influência do Partido Trabalhista apenas na década de 90, e agora turbinada. Operou em dois fronts: modificar a estratégia eleitoral, a um só tempo em que lutava contra o aristocrata parlamentarismo britânico em busca de uma democracia mais direta, modelo “um homem, um voto”.

O resultado veio a galope: Tony Blair, o mais fabiano dos socialistas fabianos, se elege com mais de 200 parlamentares fabianos – quase todo o seu gabinete, incluindo nomes importantes como o futuro primeiro ministro Gordon Brown.

No mesmo ano, outro político fortemente influenciado – e influenciador – para os fabianos foi eleito na França: o primeiro ministro Lionel Jospin, que em 2005 escreveria uma auto-biografia confessando que descobriu no gabinete de Mitterrand que nem fazia idéia do que diziam os informes econômicos. Ambos tinham alta popularidade e ambos eram conciliadores, o que permitia que a agenda fabiana fosse implementada, ao mesmo tempo em que os fabianos mais radicais pediam pelas reformas mais antigas, como a de impostos.

O mundo, o socialismo, a esquerda e o que pegava bem, além da própria estratégia, haviam mudado. A Sociedade Fabiana deveria fazer o mesmo, como vieram a fazer os políticos “sociais-democratas” ao redor do mundo que, assumindo na década de 90, tentaram parecer pró-mercado e talvez até mesmo “privatizadores” em setores falidos. Era uma época em que a nova esquerda admitia a globalização, enquanto a velha esquerda regurgitava estatização, nacionalismo e socialismo. Foi a década de Bill Clinton. Foi a época de Tony Blair. Foi a época de Fernando Henrique Cardoso.
O PSDB é um partido “socialista fabiano”?

Nascido de uma espécie de modernização da esquerda do velho MDB, e com diversas tendências internas, o partido dos tucanos (Fernando Henrique, Serra, Nunes e boa parte de um partido de descendente de italianos eram narigudos) nasceu justamente na época da modernização da esquerda, que “os novos fabianos” da década de 90 trouxeram ao mundo.




Pode-se entender a diferença primordial entre PSDB e PT, que marcou a dicotomia política brasileira de 1993 para frente, justamente entendendo que o PT bradava por um socialismo não-global (“Fora ALCA! Fora FHC e o FMI!”), enquanto o PSDB já tinha abandonado o termo “socialismo” (como a maior parte dos fabianos modernos), preferindo ser um “reformista social”, ou um “social-democrata” ou apenas um partido que luta pela “justiça social”. O PT pensava em nacionalização (estatização) e greve, o tucanato já abraçava o globalismo, o capitalismo dirigido, os, digamos, “gestores” e “quadros técnicos” da tecnocracia que até hoje arrotam platitudes em economês sobre “crescimento” em nossos jornais.

No lastro da modernização da esquerda com a queda do Muro de Berlim, foi inciada a era da chamada “terceira via”, posteriormente chamada de “neoliberalismo” (vinculado retroativamente a políticos conservadores como Reagan e Thatcher e, por isso, levando a inculta esquerda brasileira a achar que o “neoliberalismo” é de… direita), uma espécie de socialismo por meio do reformismo e com aparência de liberalismo, tendendo à abertura global. O movimento terceiro-mundista, o sistema-mundo de Wallerstein, a CEPAL e tantos outros modismos beberam direta ou indiretamente da fonte da Sociedade Fabiana, que conta ou contou com a colaboração de Tony Blair e Bill Clinton, além de pensadores como Anthony Giddens. Poucas coisas são mais fabianas no mundo do que a Constituição de 1988.

Óbvio que para o brasileiro médio, acostumado ao linguajar da grande e velha mídia e dos professores de história, soa estranho chamar tucanos de “socialistas”, como se eles pregassem Gulag, paredón, economia racionada e ditadura do proletariado. Por isso, é necessário esclarecer que trata-se do socialismo ocidental pós-Segunda Guerra, no qual a Sociedade Fabiana foi, por incontáveis vezes, inimiga do velho socialismo.





José Serra, por exemplo, homem altamente influenciado por John Maynard Keynes, Joseph Schumpeter e sobretudo Albert Hirschman, tem como pressupostos para sua economia política a gestão forte nas áreas que a Fabian Society considerava estratégicas – como a saúde – e algum princípio de mercado com regulação em áreas menos estratégicas. Alguns usam nomes como “sociedade de mercado democrático”, ou variações com os termos, para o gigante elefante branco que, paulatinamente, através dos ganhos econômicos perante governos mais esquerdistas e estatizantes anteriores, foram angariados.

Algumas das lideranças mais ligadas aos intelectuais do PSDB, portanto, são o fino cerne do socialismo fabiano. Mas e quanto a pessoas que, perguntadas sobre Hayek, acharão que estamos falando da Selma? O Aécio Neves saberia diferenciar Thomas Piketty de Francis Fukuyama se os visse na frente?
João Doria no partido dos socialistas fabianos

O PT pode ser definido como o único partido de fato do país, na acepção que o termo tem, seja em Robert Michels (que via no fascismo um socialismo melhorado, por ser “mais democrático”) ou em Antonio Gramsci, seja em Carl Schmitt ou em Bertrand de Jouvenel: uma agremiação que busca o poder acima dos interesses particulares de seus indivíduos, com uma ideologia clara, um plano de poder e uma duradoura unidade de ação maior até do que a duração de vidas individuais.

Tendo ficado de fora da modernização da esquerda pós-esfacelamento da União Soviética (já naquela época ninguém mais agüentava ouvir falar em socialismo, lição que o PT só foi aprender com Duda Mendonça), o PT hoje tenta se modernizar às pressas, trôpego, e tendo como inimigo justamente um partido de esquerda modernizada – tratado pelo pensamento binário brasileiro como “direita”.

Mesmo sendo um partido de sindicalistas (Lula, Berzoini, Gushiken), guerrilheiros (Dirceu, Genoino), intelectuais falantes (Fernando Haddad, Marta Suplicy, Eduardo Suplicy) e falhas no espaço-tempo (Dilma Rousseff), é possível ver a cola que os une e entender perfeitamente o que é o partido sem precisar descer a seus interesses individuais.




Nenhum outro partido brasileiro possui tal estrutura, nem mesmo o PSDB. Há membros que apenas rezam tanto pela cartilha do “Estado gestor” (a própria cartilha socialista fabiana), como FHC e Serra. Ao mesmo tempo, há uma gelatina ideológica como Geraldo Alckmin, que a um só momento acena para o Opus Dei e para Gabriel Chalita, discípulo de Paulo Freire (enquanto é alvo do deboche e do desprezo de FHC nos bastidores). Estes andam lado a lado com esquerdistas da velha guarda (inclusive pré-globalistas, como Aloyzio Nunes), tecnocratas narcistas sem nenhum projeto além de si próprios (Aécio Neves, Tasso Jereissati), alguns poucos herdeiros da Democracia Cristã de Franco Montoro, e mesmo um ou outro legislador que esteja no partido, estando muito mais à direita do que o partido permite (Cássio Cunha Lima, Yeda Crucius e até o conservador Paulo Eduardo Martins).

Não é exatamente inteligente considerar alguém “socialista fabiano” apenas por ser do PSDB, embora seja o partido par excellence do fabianismo no Brasil. FHC e Serra certamente foram influenciados por esse ideário. Alckmin e Aécio, que não se parecem em nada, têm incontáveis defeitos, mas têm menos influência do fabianismo do que de qualquer projetinho de lei homenageando deputado em troca de apoio para uma emenda.

Ao invés de ver unidade e princípios superiores entre o alto tucanato de FHC, Aécio, Serra e Alckmin, o que se vê são figuras que se odeiam puxando o tapete um do outro por interesses pessoais. É um partido formal, mas não aquilo que a ciência política considera um partido, um meio de poder: o PSDB é uma briga interna entre gente em quem o povo só vota por detestar mais o PT, e que não avança projeto nenhum.






João Doria galgou o poder na cidade de São Paulo justamente indo contra todo o partido, contando apenas com o apoio de Geraldo Alckmin, que estava tentando ganhar força para fazer frente justamente à ala mais fabiana do partido, que o despreza. É simplesmente impossível encontrar na mídia uma declaração de um tucano favorável ao único político com alta aprovação no Executivo do próprio partido. Ficou famosa, nas primárias da cidade, a cena em que partidários pela indicação de João Doria e de Andrea Matarazzo se esbofetearam nas ruas, com direito a calças arriadas e, bem, isto. Andrea Matarazzo acabaria saindo do partido para virar vice na chapa de Marta Suplicy, agora no PMDB.

João Doria enriqueceu com contratos com o governo, que até hoje não foram investigados. Ficou famoso só o caso da sua revista “Caviar Lifestyle” (sic), que obviamente ninguém lê, mas recebia verbas do governo Alckmin. Apenas a pontinha de um iceberg incalculavelmente maior. Mas antes de Alckmin, seu grupo político é o da família Covas, onde cresceu no PSDB. São coisas pelas quais o atual prefeito deve responder.

Contudo, Doria ganhou a primeira eleição paulistana no primeiro turno por seu estilo midiático e seus ataques ao petismo, formalmente indigitando Lula, não cedendo a repórteres que o pediam moderação (um anti-tucanismo explícito) e, sobretudo, pelo desmantelamento fugaz do descalabro feito na cidade pelo petista Fernando Haddad, que chegou a ter popularidade de um dígito.

Como parte dos tecnocratas com bom sobrenome do partido, Doria tem uma ideologia dificilmente discernível no horizonte. Não parece ser alguém que deve saber o que raios é “socialismo fabiano”, e deve acreditar que o fabianismo, por ser “socialismo”, significa piquete e revolução, e não um meio para um socialismo que, certamente, algum dia chegará, com a obstinação de uma tartaruga.

Nesta toada, ao invés de ler Keynes, Doria assumidamente só lê jornais, sendo o homem de mídias modernas (Bom Dia Brasil e Youtube) na política brasileira. Sendo publicitário, suas preocupações parecem muito mais voltadas às aparências do que às suas substâncias das coisas. Sendo consumidor da mídia, o seu sistema de valores é oriundo da mídia: valores do globalismo – nada de socialismo fabiano, fenômeno muito mais localizado, daqueles influenciados diretamente pelo turning point da velha esquerda rumo à modernização em idos dos anos 90.

Essa mídia acha que Donald Trump é pior do que Kim Jong-un e Adolf Hitler somados, e que armas causam crimes, enquanto criminosos são sempre “suspeitos”. Essa mídia acredita que aquecimento global é “consenso científico” e que a solução são acordos multilaterais que deixem que a ONU governe no lugar de nossas soberanias nacionais.

A mídia, enfim, é o que João Doria pensa, descontando-se os eufemismos para Lula.
Globalismo x O socialismo fabiano hoje

Para os leitores de Facebook, que não lêem livros, há um microcosmo conhecido que conheceu a verdade revelada, raramente ultrapassando um punhado de pessoas, e um mar aberto de erro inimigo que é sempre homogêneo. Assim, basta pensar que todos os adversários são idênticos, sem precisar pensar em nada além: globalismo, socialismo fabiano, social-democracia, socialismo, nazismo e uva passa no arroz são a mesma coisa, usando-se os termos como intercambiáveis.

A coisa se torna ainda mais grave quando salpicada de expressões que caem no uso comum, que o usuário não faz idéia do que significa, mesmo a 1 segundo de distância do Google. É comum ver usuários de Facebook afirmando que João Doria é claramente um socialista fabiano pois sua eleição é a estratégia das tesouras… uma estratégia criada por Lenin justamente para colocar a extrema esquerda no poder, e não um socialismo lento como o fabiano (as tesouras foram usadas pelo PSTU em 2013, por exemplo).




O globalismo hoje já presume um Estado cada vez menor (conquistando muitos libertários, que acreditam que um acordo multinacional de “livre comércio” significa “livre mercado sem fronteiras”), além de se focar em pautas contrárias à família: feminismo, propaganda gayzista, legalização das drogas, educação controlada pela ONU, legalização do aborto e financiamento via grandes fundos bancários transnacionais, com grande destaque para o Goldman Sachs.

O socialismo fabiano, apesar de se conjugar com o globalismo em diversos aspectos, está preocupado muito mais com a questão de leis de renda e herança, ainda buscando criar um grande Estado nacional que possa dirigir a sociedade.




Seu maior exemplo atual (que, não por mera coincidência, é egresso da London School of Economics), é o economista Thomas Piketty, cujo livro O Capital no Século XXI advoga que os insumos advindos da renda (por exemplo, uma casa colocada para alugar) são incrivelmente maiores do que os do trabalho (por exemplo, de um carpinteiro que alugue uma casa para morar). Assim, a desigualdade mundial aumentará brutalmente, e a única solução cabível é que governos criem impostos de renda fortíssimos (inclusive em âmbito global), para tentar equalizá-la com os ganhos do trabalho.

Na Inglaterra da Fabian Society, a questão é tão pública que o incêndio na Torre Grenfell, que deixou 79 mortos, foi discutido justamente à luz das incansáveis reformas por “bairros verdes” (do Partido Verde) e de bairros criados para trabalhadores pelo Partido Trabalhista fabiano, contra a “especulação imobiliária” (já notou como a expressão é usada quase apenas neste mercado?) dos Conservadores.

Um dos novos turning points dos socialistas fabianos veio em 2007, quando Geoffrey Robertson escreveu no jornal esquerdista The Guardian (única fonte da mídia brasileira sobre Inglaterra) o artigo We should say sorry, too, no qual Robertson lembrava que o passado fabiano era o da eugenia. Como não apenas os fabianos eram eugenistas, e como hoje é fácil fugir do debate dizendo que aborto nada tem a ver com eugenia, o debate não prosperou muito.




João Doria, apesar de ser globalista sem nem saber o que é globalismo (qualquer um que acredite e comungue dos valores da grande e velha mídia o é), é contra o aborto. Tampouco parece interessado em um plano de aumento de impostos e gestão econômica dirigida da economia que aumente o tamanho do Estado. Se Serra quer um “Estado controlador”, Doria é chamado de “CEO de São Paulo S/A“, não parecendo ter uma ideologia muito clara além disso. É difícil crer como alguém contra o aborto e pesados impostos na habitação possa ser um “socialista fabiano”. Mas é facílimo perceber como ele acredita no que os globalistas de viés mais liberal dizem.

Quando foi eleito, a professora brasileira Sonia Corrêa, da London School of Economics, na palestra Thinking Sexualities, Globalities and the Politics of Rights from an Interdisciplinary Perspective, utilizou Doria como exemplo da “onda conservadora” que tomava o Brasil após o impeachment, intensificada mundialmente com a eleição de Donald Trump. Os socialistas fabianos não parecem ir muito com a cara de Doria.

A dúvida que fica, sabendo-se que o que um político pensa ou acredita influencia bem pouco no seu agir histórico, é: quem daria as cartas num eventual governo Alckmin? E num eventual governo Doria? Qual é a capacidade de transcender as linhas partidárias, a Fundação Teotônio Vilela, o Instituto FHC etc? O New Labour de Tony Blair e o “reaganismo democrata” do Bill Clinton também eram privatizantes, pró-livre comércio, dentre outras coisas, mas isto basta? Para onde apontará a seta pós-governo olhando-se a longo prazo? São questões que precisam ser analisadas com seriedade.

A Fabian Society apresenta-se hoje mais como um think tank, tendo sérias reservas contra o ultra-radical Jeremy Corbyn, espalhafatoso e socialista da velha guarda. Mas seu método e propósito são claríssimos, mesmo em momentos distintos da história. Não é uma sociedade secreta, e tem membros em todo o mundo anglo-saxão, além de países como França e Espanha.

É importante conhecer seus inimigos com exatidão se se quer vencê-los. Do contrário, é fácil tentar destruir um Goldman Sachs com os argumentos que só atingiriam uma Petrobras. O que não deve acontecer são vidas perdidas lutando contra moinhos de vento em comentários de Facebook, que aos olhares mais apressados e confusos parecem gigantes.

Com colaboração de Filipe G. Martins, nosso mestre em assuntos anglófonos.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Para além do brado retumbante.





por Hermes Rodrigues Nery(*)



Caríssimos amigos,

A grave crise política agudizou-se após o pleito de 26 de outubro de 2014, quando apenas 23 técnicos do TSE, especialistas em informática, fizeram em três horas a apuração secreta de um segundo turno presidencial, colocando imediatamente em suspeita o esquema de manipulação operado pela empresa Smartmatic, com a cumplicidade do TSE. O objetivo era favorecer não apenas a reeleição de Dilma Rousseff, mas principalmente a consolidação de seu grupo de poder, especialmente o PT (e também os demais partidos, todos de esquerda) comprometidos com o projeto de poder totalitário do Foro de São Paulo: implantar o socialismo na América Latina, a “Pátria Grande” socialista.

Com a “redemocratização”, gestada pelo CEBRAP no início dos anos 70, com recursos da Fundação Ford obtidos por Fernando Henrique Cardoso, foi possível a intelectuais marxistas, muitos deles ainda antes, provenientes da USP, conceber um projeto de poder de longo prazo (eles pensaram mesmo em quarenta anos, por aí), para aparelhar todas as instituições do País e fazer a revolução socialista acontecer, de modo sutil e sofisticado, como quis Gramsci, com um partido político no controle de todo o processo.

As resistências que emergiram após o pleito de 2014 não foram irrelevantes, e mesmo ainda sem uma organização sólida, deixaram quase toda a esquerda perplexa, pela capacidade de reação - foram dois milhões de pessoas só na avenida Paulista, em 15 de março deste ano. Ainda assim estão fazendo de tudo para driblar a atual crise, para não comprometer o projeto de poder que eles querem consolidar a todo custo, mesmo cientes de que é um projeto de poder que se volta contra o povo brasileiro, e favorece apenas uma facção inteiramente inescrupulosa. Algo que os fatos comprovam a cada dia.

Há aí, algumas personagens que quero destacar, que estiveram desde o início na gestação desse projeto, e hoje são os que mais se beneficiam disso tudo.

Fernando Henrique Cardoso, hoje membro da entidade globalista “The Elders”, por exemplo, naqueles anos iniciais do CEBRAP, foi quem subsidiou Ulisses Guimarães na elaboração do estatuto do então MDB, que está aí até hoje como um parceiro e tanto! E então sob tantos eufemismos, para a perversão dos “direitos humanos”1, a revolução cultural precisou ocorrer também no campo político.

Tal processo, na verdade, adensou o que já havia sido acenado, ao final da Segunda Guerra Mundial. Lembremos do que foi debatido em janeiro de 1945 no I Congresso Brasileiro de Escritores, época em que Fernando Henrique, muito novo, já confabulava com Oswald de Andrade. Naquele primeiro período de redemocratização, os intelectuais principalmente da USP, entre outros, já acalentavam a ambição por um partido proeminente de esquerda, mesmo ainda sob a influência de Vargas, que desejava “aglutinar suas heterogêneas bases de apoio em um único partido político”2 . Naquele período, tivemos, digamos assim, um primeiro balão de ensaio. O pai de FHC, “o tenente-coronel Leônidas, ao longo do ano de 1945, participa do movimento pela anistia dos presos e perseguidos políticos, defende a reconstitucionalização do país”3, etc. Naquela época, FHC já tinha sido seduzido pela esquerda e seduzia. O próprio “Darcy Ribeiro fala na malícia de Fernando Henrique, já bem visível desde a adolescência”4, quando “dizia as coisas com um pequeno sorriso no canto da boca e com um jeito malandro”5. E assim, ainda “no período do ginásio”6, FHC “em 1946 é eleito diretor do grêmio, depois vice-presidente em 1947, e presidente até 1948.”7 Quando ingressou, no ano seguinte, na Faculdade de Filosofia da USP (porque foi reprovado no vestibular para a Faculdade de Direito, por causa do latim”8), e seria aluno de outra personagem importante nessa história toda: o longevo, quase centenário, Antonio Cândido de Mello e Souza, que anos mais tarde fundaria o PT e ajudaria a fazer de Lula o monstro político que é hoje. E há ainda outro ilustre professor da USP, que ajudou nisso: Sérgio Buarque de Hollanda, pai do enfant gaté Chico Buarque, aquele que cantou para eleger Lula: Sem medo de ser feliz!9

Antonio Cândido de Mello e Souza, além de badalado crítico literário, entusiasta dos modernistas, foi militante do Partido Socialista Brasileiro, tendo participado do Grupo Radical de Ação Popular. A sua tese de doutorado em Ciências Sociais, Os Parceiros do Rio Bonito (1954), datilografada pelo seu aluno FHC, faz o ataque à propriedade privada, sob a premissa marxista. [E também faz, naquele estudo, à apologia à mandioca]. Defende também que “a formação de uniões novas e livres e aprovadas pela sociedade podem contribuir, segundo a tradição caipira [que é objeto de estudo de sua tese], para a correção de desequilíbrios sócios culturais.”10 Estão lá os elementos embrionários da agenda do marxismo aliado ao feminismo, hoje escancarada pelo governo do PT, que ele ajudou a fundar e que seu aluno FHC exerceu e exerce ainda hoje papel preponderante em sua implementação.

O embuste eleitoral de 2014 foi um ato de desespero a quem via ruir, pela evidência dos fatos, a chance de obter a hegemonia e, por isso, teve de recorrer à Smartmatic para forjar um consenso que não existiu e avançar, na consolidação da agenda e do projeto totalitário de poder, gestados fora do País, em longuíssima data.

O fato é que, com trinta anos exatos da “Nova República”, o que conseguiram essas personagens ilustres, que ainda estão aqui, e fazem parte da história atual, foi o nocaute da soberania nacional e a corrosão da democracia, a sua degeneração, ao que Aristóteles já chamava de demagogia, “dirigida antes de tudo para a conquista e manutenção de um poder pessoal ou de um grupo”11, o grupo de poder comprometido em tornar o Estado um Leviatã, com a ideologia marxista a perverter e subjugar toda a sociedade brasileira aos seus caprichos e equívocos, no afã de uma reengenharia social, que coloca o partido do governo numa guerra contra os princípios e valores da autêntica cultura e tradição brasileira, que é profundamente conservadora e cristã, do cristianismo que é “o cimento da nossa unidade”12, portanto, um partido que se voltou contra a identidade do povo brasileiro. Mas este é o partido [com seu líder demagogo, o chefe13, blindado pela imprensa e pelas demais instituições] que foi agora, esses dias, o mais beneficiado com a aprovação do financiamento público de campanha, apesar de todo lamaçal em que estão envolvidos muitos de seus membros, dirigentes e parlamentares. E para a manutenção do poder, não se importam mais com a máxima de Macbeth: um erro puxa outro erro.

Um partido, com um projeto de poder totalitário, que subsiste com “uma práxis política que se apoia na base das massas”14 (dos homens-ocos que referia T. S. Eliot), e não do povo; pois a democracia é o governo do povo e não das massas, e o PT é o partido das massas e não do povo, por isso, a corrupção em níveis tão degradantes, que destrói a própria democracia. E o povo brasileiro foi às ruas, não como a voz rouca das ruas(como certa vez disse FHC), mas sim, para dizer um não retumbante a tudo isso.

E em meio à grave crise atual, o que fez o PT (e todos os demais partidos filiados ao Foro de São Paulo? Ignorou o clamor do povo, aquela melhor parte do povo que saiu às ruas, consciente de suas responsabilidades, deveres e criatividade na busca de salvaguardar a democracia desse grupo de poder que a corroeu, com a conivência das instituições totalmente aparelhadas e vergonhosamente capituladas, inclusive setores da Igreja que ajudaram Lula chegar lá e ainda o ajudam a se manter, apesar de tudo o que a Operação Lava Jato tem exposto. 

Por isso esta crise política [uma crise profundamente moral e cultural] é também a crise da hegemonia. Esse é o x da questão. Eles ainda não a obtiveram plenamente, mas estão em guerra de posição, porque sabem que a hegemonia é o “centro nevrálgico de toda a estratégia política”15 Sabem também que eles não obtiveram o consenso da direção amoral e imoral que eles quiseram dar ao País, porque fraudaram as urnas em 2014, e nem conseguiram também a inteira passividade do povo, que saiu às ruas, primeiro com as jornadas de junho de 2013 (com todos aqueles distúrbios), depois com as grandes manifestações de 2015, quando, enfim, mostramos a nossa cara. E saímos de cara limpa.

Mesmo assim, a guerra de posição vai se intensificando, com estragos incontáveis, pois o que conta agora para eles é a obtenção da hegemonia, e mesmo que a obtenham devastando toda a nação, agem sabendo que quando falha a persuasão, resta a coação para a imposição do poder [legítimo ou não]. A democracia portanto [degenerada e violentada por eles] será ainda utilizada apenas como retórica e “método revolucionário”, até chegar à “última e lógica consequência da prática demagógica”16, que é a eliminação de “toda oposição”17 e que por sua vez é o fim da própria democracia.

Agem portanto “com uma política de potência agressiva e sem princípios”18, inteiramente pragmática, por todos os meios, pois, como disse Saulo de Tarso Manriquez, o “desejo ideológico’ de Lula é transformar o PT em um pleno partido de Estado”19. E mais: “conduzir o PT para além da hegemonia dos partidos de esquerda”, para Lula instaurar assim a sua “tirania ou ditadura pessoal20”, com apoio internacional especialmente das forças aliadas ao Foro de São Paulo. O Brasil está a caminho disso, se nós não formos capazes de deter (ou semos) a pedra colocada no meio do caminho. A Operação Lava Jato será capaz de detê-los? Ninguém sabe.

Desde 1945, com aquele primeiro balão de ensaio de redemocratização, que os intelectuais marxistas cobiçaram um partido de massas, para a completa manipulação e controle social, num país de débil tradição partidária e com sistemas eleitorais fragilíssimos. Se naquele tempo já se valiam do clientelismo e do populismo era justamente para que não houvessem partidos políticos capazes das expressões de uma sã democracia e evitar toda e qualquer forma de abuso de poder. Foi a partir dessa fragilidade que forjaram a redemocratização pós-64, e no CEBRAP, fizeram os estudos em buscas das estratégias adequadas, colocadas em ação desde o final dos anos 70 e início dos 80, criando uma infinidade de OnGs para ajuda-los nisso [agindo como “’mecanismos hegemônicos’ da sociedade civil”21 etc, para o desmonte de valores que aí estamos vendo, a que ponto chegaram. O próprio Antonio Cândido sabia que o partido (o PT) estaria imbuído da missão de minar o conservadorismo no Brasil, que, para ele, era o “maciço central”22 que até então havia dominado a “nossa vida intelectual”23. Por isso, em pouco mais de três décadas, liquidaram o que dava vigor ás nossas instituições, [a nossa cultura, a nossa literatura, o jornalismo, o magistério, a doutrina católica), hoje debilíssimas; e por isso, solaparam as bases morais da democracia, para “que apenas um único partido conduza toda a política nacional”24, mesmo chafurdado na lama em que está. Foi o que fizeram.

Veio então a resistência em 2015. E estamos aqui agora avaliando os primeiros passos dados e o que devemos fazer para que essa resistência não seja apenas um rompante. E um encontro como esse está em sintonia com os nossos sentimentos e a disposição para esse desafio: o de salvaguardar a democracia e a soberania nacional em nosso País e deter esse projeto de poder que ameaça as nossas liberdades e os nossos mais caros valores. Por isso a vigilância quanto ao sistema eleitoral [a indignação contra o embuste eleitoral de 2014, operado pela Smartmatic, em conivência com o TSE] e a exigência do voto impresso se fez necessário como primeira iniciativa nesse sentido, e de todas as ações, a mais urgente, que não pode ser mais protelada, é a que visa cassar o PT por sua vinculação ao Foro de São Paulo, por violação do artigo 28, alínea II, da Lei dos Partidos Políticos (Lei número 9.096 de 19 de setembro de 1995), que proíbe que qualquer partido esteja “subordinado a entidade ou governo estrangeiros”25, e por aí afora, e pelos frutos que aí estão – pelos frutos conhecereis a árvore].

Temos pois que começar o gigantesco trabalho que nos espera, de desaparelhar as instituições, de formar uma elite pensante capaz não só de diagnosticar toda essa situação, mas agir politicamente. Mas nada disso será feito somente com boa vontade, ou vocês pensam em enfrentar tudo isso somente com pena e prosa, oumemes nas redes sociais? É um trabalho sério que requererá tempo e a agregação do que temos de melhor, em todos os aspectos. E com estudo, planejamento, volição no fazer, avaliação, recursos e meios. E também coragem e patriotismo.

Se eles tem apoios internacionais [Cuba, China, Brics e tudo mais], que nós também possamos recorrer àquelas instituições, ás forças conservadores organizadas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Israel e outros, e também fundações que investem na promoção do conservadorismo, com experiência de lobby nos parlamentos e outras instâncias decisórias, e também nas universidades, na imprensa e tudo mais; instituições estas que investem em projetos e programas que valorizam o Estado mínimo, a livre-iniciativa, os valores tradicionais e a defesa nacional. 

Trouxe aqui uma lista desses organismos, por exemplo, que atuaram com eficácia no governo Reagan, e ainda hoje fazem investimentos nesse sentido. 

Se fazemos parte da resistência [pacífica e cívica] e até mesmo da desobediência civil, se necessário, qualquer que sejam as iniciativas e estratégias, não faremos a contra-revolução com tibieza, amadorismo e ingenuidade. Temos a expressa maioria do povo brasileiro do nosso lado, 93% da população é contra o governo que aí está, mas e então? O que nos falta? Mais do que ousadia e criatividade, é hora de arregimentar novamente os voluntários da Pátria, pois trata-se mesmo de um combate. Não basta apenas bradar “verás que o filho teu não foge à luta”26. E ainda “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”27, sem agregar as forças varonis, para com “a clava forte”28, se equipar e se estruturar, se organizar e conhecer, a fundo, o adversário que se está enfrentando, para fazer emergir, em glória, e com vitória, o “impávido colosso”29. Mais do que o brado retumbante, mais do que a alma vigilante, é preciso agora ordenar tudo isso, para “conquistar com braço forte”30, “o sonho intenso”31, “de amor e de esperança”32 da “pátria livre”33 , amada e pujante, dar ao povo a razão da nossa fé, a fé no Brasil cristianíssimo, para que, se Deus quiser, “a mão mais poderosa”34 zombe deles35, e faça triunfar a “brava gente brasileira”36.

Muito obrigado.

(Pronunciamento do Prof. Hermes Rodrigues Nery, Coordenador do Movimento Legislação e Vida, no Conclave de São Paulo pela Democracia, em 28 de novembro de 2015:




NOTAS:
SANAHUJA, Juan Cláudio, Poder Global e Religião Universal, p. 39, Ecclesiae, Campinas, 2012.
KAYSEL, André, Elementos para uma genealogia das direitas brasileiras, p. 60, no documento “Direita, Volver – o retorno da direita e o ciclo político brasileiro, Fundação Perseu Abramo, 2015.
LEONI, Brigitte Hersant, Fernando Henrique Cardoso – O Brasil do Possível, p. 52, Editora Nova Fronteira, 1997.
Ib. p. 57.
Ibidem.
Ibidem.
Ibidem.
Ib. p. 58.
BORGES, Caroline de Miranda e Carmem Maria Aguiar, Uma abordagem sumária de Parceiros do Rio Bonito. A história do caipira paulista, Efdeportes.com, Revista Digital, año 13, nº 126, Buenos Aires, novembro de 2008 [http://www.efdeportes.com/efd126/parceiros-do-rio-bonito-a-historia-do-caipira-paulista.htm]
ZUCCHINI, Giampaolo, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Demagogia, p. 318, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
FREYRE, Gilberto, Casa Grande & Senzala, pp. 91-92, Global Editora, 49ª edição, São Paulo, 2004.
ZUCCHINI, Giampaolo, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Demagogia, p. 318, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
BELLIGNI, Silvano, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Hegemonia, p. 580, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
ZUCCHINI, Giampaolo, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Demagogia, p. 319, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
Ibidem.
BELLIGNI, Silvano, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Hegemonia, p. 580, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
MANRIQUEZ, Tarso, PT total: para além da hegemonia da esquerda, publicado no Midia Sem Máscara, em 25 de novembro de 2015 [http://www.midiasemmascara.org/artigos/governo-do-pt/16214-2015-11-25-21-08-29.html]
ZUCCHINI, Giampaolo, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Demagogia, p. 319, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
BELLIGNI, Silvano, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Hegemonia, p. 580, Editora Universidade de Brasília, Vol. 1, 4ª edição)
KAYSEL, André, Elementos para uma genealogia das direitas brasileiras, p. 49, no documento “Direita, Volver – o retorno da direita e o ciclo político brasileiro, Fundação Perseu Abramo, 2015.
Ibidem.
MANRIQUEZ, Tarso, PT total: para além da hegemonia da esquerda, publicado no Midia Sem Máscara, em 25 de novembro de 2015 [http://www.midiasemmascara.org/artigos/governo-do-pt/16214-2015-11-25-21-08-29.html]
Lei 9.096, de 19 de setembro de 1995 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9096.htm
Ibidem.
Ibidem.
Ibidem.
Ibidem.
Ibidem.
Ibidem.


(*)Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida. 

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

FHC e a síndrome do petismo delirante.


FHC e a síndrome do petismo delirante.por Percival Puggina






Fernando Henrique, me desculpe, mas você pediu por isso. Você pediu que Dilma olhe para si mesma, para a decepção e o descrédito a que levou o país, e afirme que a culpa é sua. Que é lá de 1996. Você criou facilidades para que uma pessoa incompetente, incongruente e estabanada como ela o escolha para bode expiatório de seu encalacrado governo. Você, por infinita omissão, permitiu que a imprensa nacional trate algo tão sem cabimento com chamada para o noticiário da noite e foto de capa nos jornais.

Há muitos anos o PT o designou para a função de renegado. Você, Fernando Henrique, atravessou muita avenida de braços dados com Lula. Você era ponta esquerda do "campo democrático e popular". Você integrava a ala do PMDB que desembarcou do governo Sarney porque este estaria muito à direita, para fundar o PSDB como partido de esquerda. Você, Fernando Henrique, nunca se afastou da esquerda como deveria. Ela é que o renegou. E você continuou sorrindo para Lula.



Durante os oito anos em que você governou o Brasil, o PT assassinou sua reputação e você a deixou ficar ali, gelada, numa gaveta de necrotério. Durante oito anos você levou cuidadosamente para casa ofensas que em Santana do Livramento se resolvem com um soco no nariz. Você, Fernando Henrique, se deixou desrespeitar. Você não mexeu um dedo para processar Lula e seus sequazes por injúria, calúnia e difamação nem mesmo quando chegaram ao poder e de nada o acusaram, apesar de terem assumido o comando de todos os órgãos governamentais de investigação, recebido as chaves de todas as gavetas, as senhas de todos os arquivos e tido livre acesso a todos os contratos.

Como resultado, a mídia petralha continuou a fustigá-lo. Você virou uma síndrome do petismo. Ele julga redimir-se de todos os pecados apenas com se afirmar, à exaustão, melhor do que FHC e PSDB. Sou testemunha ocular desse delírio. Em muito microfone já denunciei tal prática como vigarice intelectual. Há mais de uma década, boa parte dos âncoras e entrevistadores da imprensa brasileira cobra pedágio de quem risca o chão demarcando o atoleiro petista. Eu não pago! Mas qualquer um que critique os governos do PT é incitado a fazer o mesmo com os governos tucanos. E se o entrevistado não o faz, o entrevistador assume a tarefa por conta própria. Compromisso com a justiça? Não! Orientação partidária, da empresa de comunicação, ou intimidação causada pelo cotidiano patrulhamento petista em síndrome de triunfalismo, mesmo quando afundado na própria infâmia.

Portanto, Fernando Henrique, quando Dilma destravou a língua para culpá-lo pela sinecura organizada pelo PT e quadrilheiros da base, ela reproduziu o que os estrelados de seu partido se acostumaram a fazer por falta de quem desse um murro na mesa e um basta a esse desrespeito.



domingo, fevereiro 01, 2015

A Presidente deveria renunciar e confessar seus crimes.











O ex-presidente (31/01/61 a 25/08/61) Jânio Quadros é autor de frase que revela, sem qualquer retoque, o apego exercido pelos chamados homens públicos do Brasil aos postos que vêm sempre se ampliando ao longo de nossa história republicana: “-No Brasil não se renuncia a nenhum cargo, nem mesmo ao de guarda da esquina”. E sua então excelência estava coberto de razão. Ele próprio só renunciou ao de presidente da República, devido a um delírio causado por carraspana mal assimilada.


Isso deve ser lembrado, no instante em que atravessamos uma das mais sérias crises ambientais vividas pelo planeta (isso acontece a cada 11 mil e 500 anos), era glacial que irá secar rios, promover erupções vulcânicas (já estão acontecendo aos milhares, no solo submarino), tempestades e terremotos, quando iremos precisar de profissionais que consigam oferecer seus conselhos e entendimento, na busca de salvação de alguns dedos, já que os anéis irão se corroer possivelmente todos.


Temos, hoje, na Presidência da República, pessoa completamente despreparada, semialfabetizada, inculta, e que muito mal ainda irá nos causar, especialmente em função da imposição de vontades produzidas por partido político que é a mais elaborada agremiação de bandidos irrecuperáveis, mentirosos e assaltantes dos cofres públicos em qualquer tempo e em qualquer levantamento histórico que se faça. O PT já deixou de ser um caso de polícia para ser uma questão de vida ou morte de um povo.


Os administradores do Brasil sempre foram assim: apenas aprimoraram o potencial maligno capaz de arruinar qualquer esforço no sentido de se formar uma nação ou de se fortalecer uma instituição. Não somos uma nação. Somos um amontoado de pessoas sem rumo ou noção. Pessoas impotentes na ignorância quase absoluta de chamada classe política cuja esquerda, dita “progressista”, ainda vive de louvar ditaduras como a cubana e assassinos cruéis e covardes como Guevara e Fidel Castro.


O próprio alinhamento externo de nosso país, ao longo de 12 anos de bandidagem e roubalheira do PT, atestam isso. Basta verificar os discursos de um outro presidente alcoólatra (este, analfabeto e sem o charme do maluco Jânio Quadros), Lula da Silva, que apoiou as loucuras do então presidente iraniano, Mahmoud Amehdinejad e chamava o então presidente da Líbia, Muamar Kadhaffi de “irmão” (antes deste último ser empalado e morto da mesma forma que costumava fazer com adversários).


Na miríade de partidos políticos de fancaria, temos um, o PcdoB, que dia desses estava emitindo nota em que defendia posicionamento do sanguinário tirano da Coreia do Norte, Kim Jong-Il. Nossos comunistas são contra o capitalismo e possíveis vantagens que o sistema possa oferecer, mas não deixam de cruzar os céus do planeta, acima e abaixo, montados em jatos modernos (produzidos pelo imperialismo), nem de utilizarem notebooks, computadores de última geração e modernos apetrechos.


O Brasil não tem planejamento para nada, apesar de exibir vistoso Ministério com esse nome em que simulações parecem conduzir a tal finalidade. Trata-se, na realidade, de órgão em que o que de mais produtivo se sobressai é a utilização de cartão corporativo criado na gestão FHC. Com o cartão são feitos saques, compras sem nenhum vínculo com o órgão, desvios de dinheiro público, porque ele foi criado para isso mesmo: para encher legalmente bolsos, sacolas e pastas dos que nos roubam tudo.



Mas o pior de tudo é ver o descontrole e despreparo da presidente da República. Flagrada como cúmplice na roubalheira da Petrobras (ainda faltam apurar BNDES e sabe-se lá que órgãos mais onde a roubalheira é prática comum), nessa sangria moral sem fim onde os autores dispõem de infindáveis recursos jurídicos que os livram da prisão até que tudo seja esquecido. O melhor que Dilma poderia fazer seria renunciar. "


Publicado no perfil do Facebook  de Solange Frota