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quarta-feira, janeiro 24, 2018

As falácias da Oxfam sobre pobreza e desigualdade



por João Luiz, Mauad(*).



Há coisas que podem ser medidas. Há coisas que valem a pena medir. Mas o que pode ser medido nem sempre é o que vale a pena medir. O que é medido pode não ter relação com o que realmente queremos saber. Os custos de medição podem ser superiores aos benefícios. As coisas que se medem podem desviar o foco das coisas que realmente nos interessam. E a medição pode nos fornecer informações distorcidas – conhecimento que parece sólido, mas que realmente é enganoso. Jerry Z. Muller – The Tirany of Metrics

Recentemente, recebi uma piada pelo WhatsApp que dizia mais ou menos assim: 15% dos acidentes de carro são motivados por motoristas alcoolizados. Isso quer dizer que 85% dos acidentes são provocados por motoristas sóbrios. Vamos beber umas geladas!

No caso acima, é fácil deduzir o mau uso da estatística, mas já não é tão fácil dizer onde exatamente está o erro. O mesmo ocorre quando alguém diz que a maioria das pessoas que bebe refrigerantes dietéticos é gorda. Logo, provavelmente esses refrigerantes engordam.

Como diz o velho brocardo: torture os números e eles confessarão qualquer coisa. De fato, as estatísticas são, hoje em dia, as grandes aliadas dos mistificadores, que as utilizam de forma indiscriminada para dar aparência científica às falácias e mentiras em prol de suas causas. Você pode desenvolver rígida argumentação lógica a respeito de um assunto sem convencer muita gente, mas basta acrescentar alguns números, tabelas e gráficos para respaldá-las e as pessoas passam a olhar os seus argumentos com outros olhos.

Tudo isso vem, é claro, a propósito da divulgação anual dos números da desigualdade no Brasil e no mundo, pela ONG Oxfam, sobre os quais a mídia amestrada tupiniquim vem dando grande destaque, como de hábito, desde ontem.

No Brasil, o destaque foi para o fato de que os cinco homens mais ricos do Brasil têm riqueza equivalente à metade da população mais pobre do país [a propósito, ano passado, eram seis]. Isso quer dizer que Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Herrmann Telles, Carlos Alberto Sicupira e Eduardo Saverin têm, somados, patrimônio equivalente ao de 100 milhões de pessoas. Houve destaque negativo também para o fato de que, em 2017, o país ganhou mais 12 bilionários, que agora somam 43 indivíduos. Suas riquezas somadas alcançariam R$549 bilhões, que equivalem a R$2.745 por brasileiro (atenção para este número, pois vamos voltar a ele).

A primeira coisa que chama a atenção, pelo menos de quem olha essas informações de forma isenta, é que, dos cinco nomes da lista, três são sócios da 3G Capital, a holding multinacional proprietária de gigantes como AB IMBEV, Burger King, Heinz, Lojas Americanas, entre outras. Os três enriqueceram, portanto, não explorando os mais pobres, mas vendendo a eles produtos baratos e de qualidade. Será que esses três homens exploram alguém quando vendem suas cervejas e refrigerantes no mundo inteiro? Ou seus hambúrgueres? Já o Eduardo Saverin é um dos criadores/fundadores do Facebook, um App utilizado por bilhões de pessoas no mundo. Será que ele ficou rico explorando alguém, ou os bilhões de usuários que passam horas no Facebook utilizam-no de forma voluntária?

Em resumo: Alguém tem dúvida de que esses caras criam algo de muito valor para as pessoas, mundo afora? Quando você compra um produto ou utiliza um serviço fornecido por empresas deles, é por satisfação ou por obrigação? Se é por satisfação, não é justo apontar-lhes o dedo e dizer que sua fortuna é resultado da pobreza alheia. Se esses e outros brasileiros ricos nunca tivessem nascido, o país estaria melhor? Certamente teríamos menos desigualdade, mas será que os pobres estariam menos pobres?

Agora façamos outro exercício. Todos os anos, os governos tupiniquins, nas suas três esferas, tomam dos brasileiros cerca de 35% do PIB em impostos (nada menos que 2,2 trilhões de reais), o que equivale a 11.000 reais por brasileiro (reparem que, neste caso, estamos falando de uma cifra ANUAL, diferentemente daqueles R$2.745, que seriam distribuídos apenas uma vez).

As discrepâncias não acabam aí. Ao contrário dos produtos e serviços que você consome dos bilionários, os impostos são tirados de você à força. E o que os governos lhe dá de volta? Saúde, educação e segurança da pior qualidade, que, quando podemos, tratamos de adquirir no setor privado e, portanto, pelos quais muitos de nós pagamos duas vezes.

Resumindo, economias verdadeiramente capitalistas, onde o governo não interfere escolhendo campeões, a existência de bilionários e, consequentemente, de desigualdades é benéfica para a sociedade, e não algo a se lamentar. Ademais, em condições de livre mercado, a riqueza pressupõe acúmulo de capital e investimentos em empreendimentos rentáveis, onde recursos (escassos) são utilizados de forma eficiente na produção de coisas necessárias e desejáveis. Nesse sistema, os milionários criam um monte de valor para um monte de gente, além, é claro, de um monte de empregos.

Dito isso, existe um tipo de desigualdade que deve ser lamentada: é aquela patrocinada pelo governo, quando este escolhe vencedores e perdedores, seja concedendo subsídios, créditos especiais, contratos viciados pela corrupção, tarifas protecionistas, etc. Nesses casos, em vez de enriquecer competindo no mercado e satisfazendo as necessidades dos consumidores, os empresários se voltam para atividades de conluio, se locupletam com os ocupantes do poder e enriquecem à custa do dinheiro público.

O mais interessante disso tudo, porém, é que, não raro, os que mais reclamam das desigualdades, são os mesmos que pedem mais intervenção do governo na economia.



Fonte: InstitutoLiberal.org.br
(*)João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

sábado, novembro 25, 2017

O terror do comunismo: 100 anos e 100 milhões de vidas




por João Luiz Mauad(*).




O que compartilho abaixo é o testemunho pungente de uma jovem estudante de Harvard, filha de imigrantes que fugiram da desgraça comunista do Leste Europeu, que não se conforma com o fato de ver tantos dos seus colegas, ainda hoje, vivamente empolgados com aquela ideologia assassina de triste memória.



Em 1988, meu pai, então com vinte e seis anos, saltou de um trem no meio da Hungria, com nada além de uma mochila de roupas nas costas. Nos dois anos seguintes, ele fugiu de um opressivo regime comunista romeno, que o mataria se lhe pusessem as mãos.

Meu pai fugiu de um governo que bateu, torturou e lavou o cérebro de seus cidadãos. Um amigo seu de infância desapareceu depois de rabiscar um insulto sobre o ditador na parede do banheiro da escola. Seus vizinhos morreram de fome por conta de rações de alimentos destinadas a combater a “obesidade”. À medida que a população diminuía, as mulheres eram enviadas ao hospital todos os meses para garantir que engravidassem.

A jornada de fuga do meu pai finalmente levou-o aos Estados Unidos. Ele se mudou para o Centro-Oeste e se casou com uma mulher romena que partiu para a América no momento em que o regime entrou em colapso. Hoje, meus pais são médicos no Kansas. Suas duas filhas foram para Harvard. Eles tiveram sorte.

Cerca de 100 milhões de pessoas morreram nas mãos da ideologia da qual meus pais escaparam. Elas não podem contar suas histórias. Nós devemos a eles reconhecer que essa ideologia não é uma moda passageira, e que suas vítimas não são uma piada.

O mês passado marcou os 100 anos da revolução bolchevique, embora a cultura da faculdade lhe dê exatamente a impressão oposta. As representações do comunismo no campus pintam a ideologia como revolucionária ou idealista, em oposição à sua violência autoritária. Em vez de aprofundar a nossa compreensão do mundo, a experiência da faculdade nos ensina a reduzir uma das ideologias mais destrutivas da história humana a uma narrativa unidimensional satanizada.

Caminhe ao redor do campus, e é provável que você veja Che Guevara em algumas camisas e botões. Piadas secundaristas declaram que ele é secundário em “ideologia e implementação comunistas”. O novo Clube esquerdista no campus busca “uma perspectiva moderna” sobre Marx e Lenin para “aliviar o estigma em torno do conceito de esquerdismo”. Um autor lamenta nessas páginas que é muito difícil encontrar comunistas por aqui. Para muitos estudantes, endossar o comunismo é uma maneira legal de se queixar do mundo.

Depois de passar quatro anos em um campus saturado de memes marxistas e piadas sobre as revoluções comunistas, meus colegas de classe se formam com a impressão de que o comunismo representa uma crítica ao status quo, em vez de uma filosofia empiricamente violenta que destruiu milhões de vidas.

As estatísticas mostram que os jovens americanos são realmente inconscientes do passado angustiante do comunismo. De acordo com uma pesquisa YouGov, apenas metade dos millenials acreditam que o comunismo foi um problema, enquanto cerca de um terço acreditam que o presidente George W. Bush matou mais pessoas do que o líder soviético Joseph Stalin – que matou 20 milhões. Se você perguntar aos millenials quantas pessoas o comunismo matou, 75% irão subavaliar.

Talvez antes de brincar sobre revoluções comunistas, devemos lembrar que a polícia secreta de Stalin torturou “traidores” em prisões secretas, enfiando agulhas sob suas unhas ou batendo até que seus ossos se quebrassem. Lênin tirou comida dos pobres, causando fome na União Soviética que induziu as mães desesperadas a comerem seus próprios filhos, e camponeses a desenterrar cadáveres por comida. Em todos os países em que o comunismo foi tentado, resultou em massacres, fome e terror.

O comunismo não pode ser separado da opressão; na verdade, depende disso. Na sociedade comunista, o coletivo é supremo. A autonomia pessoal é inexistente. Os seres humanos são simplesmente engrenagens em uma máquina encarregada de produzir utopia; eles não têm valor próprio.

Muitos na minha geração borram a realidade do comunismo com a ilusão da utopia. Nunca tive esse luxo. Minha compreensão do comunismo foi personalizada; Eu pude ver seu impacto duradouro nos rostos dos membros da minha família, contando histórias de seu passado. Minha perspectiva em relação à ideologia é radicalmente diferente porque conheço as pessoas que sobreviveram; Meus parentes continuam a se perguntar sobre seus amigos que morreram.

As histórias de sobreviventes pintam uma imagem mais vívida do comunismo do que os livros texto que meus colegas de classe leram. Embora possamos nunca entender completamente todas as atrocidades que ocorreram sob os regimes comunistas, podemos tentar desesperadamente garantir que o mundo nunca repita seus erros. Para esse fim, devemos contar as histórias dos sobreviventes e lutar contra a banalização do passado sangrento do comunismo.

Meu pai deixou seus pais, amigos e vizinhos na esperança de encontrar a liberdade. Conheço sua história porque esta é minha herança; Você agora conhece sua história porque eu tenho uma voz. Cem milhões de outras pessoas foram silenciadas.

Cem anos depois, não esqueçamos a história das vítimas que não têm voz porque não sobreviveram para escrever suas histórias. Mais importante ainda: não tenhamos a tentação de repeti-lo.

(*)Laura M. Nicolae, 20 anos, é aluna de Matemática Aplicada em Winthrop House – Harvard.

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João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

segunda-feira, outubro 09, 2017

A verdade sobre o comunismo: a ignorância encoberta pela propaganda



por João Luiz Mauad(*).

Assassinato em massa cometido pelo regime comunista de Stalin contra  cidadãos poloneses durante a 2ª Guerra Mundial em 1940. Ao todo, mais de 22 mil pessoas foram executadas a sangue frio por soldados do Comissariado do Povo


Dias atrás, um “amigo” no Facebook postou um vídeo comemorativo dos 100 anos da Revolução Bolchevique, de outubro de 1917, que estabeleceu o comunismo na Rússia e, depois, em toda a chamada Cortina de Ferro. Confesso que tais manifestações me causam um misto de asco e depressão, principalmente porque tenho a nítida impressão de que são manifestações de gente que pouco conhece a história real da Revolução comunista.

Para se ter uma ideia da ignorância em torno do que foi o comunismo, principalmente entre os mais jovens, enquanto Hitler é, com justíssima razão, o homem mais odiado da história da humanidade, o pai do comunismo foi eleito, numa pesquisa da Rádio BBC, anos atrás, “o maior filósofo de todos os tempos”, à frente de Aristóteles, Hume, Kant e tantos outros.

O que provavelmente contou mais a favor de Marx naquela “eleição” foi o pretenso caráter humanitário do comunismo, imposto a golpes inesgotáveis de propaganda enganosa através dos tempos. É razoável intuir, também, que a maioria dos que responderam à pesquisa jamais tenha passado das primeiras linhas do Manifesto Comunista.

Até porque Marx não era um filósofo. Era sim, como bem definiu o economista cubano Carlos Alberto Montaner, um agitador ou, no máximo, “profeta iluminado”, que vaticinou a suprema tolice segundo a qual, ao se alterar o regime de propriedade (a estrutura), se modificariam a mentalidade social e as instituições (a superestrutura), dando lugar à aparição de um novo homem, uma virtuosa e solidária criatura que construiria o paraíso sobre a terra.

Esse novo éden, no entanto, jamais se materializou, malgrado os esforços de uma penca de desmiolados, desde Lênin até Castro. Ao contrário do previsto, a utopia sempre cedeu lugar à tirania.

Como frisou certa vez o filósofo Samuel Gregg, o mais preocupante no resultado dessa enquête da BBC foi constatar a magnificência alcançada pelo pai de uma ideologia em cujo âmago está a legitimação do crime e da barbárie. Ironicamente, enquanto milhões de pessoas hoje em dia têm consciência e deploram os indizíveis crimes nazistas, muito poucos sabem das atrocidades cometidas por Lênin, Stalin, Castro, Mao, Pol Pot e outros marxistas. É como se houvesse um misterioso pacto para que não se discutam tais crimes.

Enquanto o Muro de Berlim esteve de pé, a censura feroz sobre o que acontecia por trás da Cortina de Ferro, a eficiente propaganda comunista e o engajamento de intelectuais ocidentais na defesa do sistema foram armas eficazes na manutenção da sua imagem imaculada. Mas depois da queda do Muro, é inconcebível que a ignorância continue encoberta por uma espessa cortina de propaganda.

Pouca gente já ouviu falar, por exemplo, do polonês Kolakowsky, um ex-marxista regenerado que acabou expulso da Polônia e, posteriormente, desde o exílio no Ocidente, foi um dos mentores do Sindicato Solidariedade. Não conhecem tampouco seu mais conhecido e influente trabalho: os três volumes do “Main Currents of Marxism”, Its Rise, Growth and Dissolution (1976-78).

Este foi, e permanece, a mais lúcida e compreensível narrativa sobre a origem, estrutura e desenvolvimento do pavoroso e dominante sistema de pensamento do Século XX. Aquela foi também uma obra profética, escrita num tempo em que o marxismo ainda fornecia a cola ideológica para o, até então, sistema comunista soviético. Ele descreveu com objetividade e clareza as principais ideias e diversas correntes do pensamento marxista, “que começou num prometido humanismo e culminou na monstruosa tirania de Stalin”. Não sem razão, Kolakowski não considerava o stalinismo uma aberração, mas, ao contrário, o produto lógico do marxismo.

Segundo o polonês, o socialismo podia ser descrito como “uma sociedade na qual um homem está encrencado por dizer o que pensa, enquanto outro obtém privilégios por não dizer o que tem em mente; uma sociedade na qual se vive melhor quando não se tem idéias próprias; um Estado que tem mais espiões do que enfermeiras e mais pessoas nas prisões do que nos hospitais; um Estado onde filósofos e escritores sempre dizem as mesmas coisas que os generais e os ministros – mas sempre depois que estes últimos já se pronunciaram”.

Outro grande intelectual que ousou nadar contra a maré da época, especialmente dentro de seu próprio país, foi o francês Jean-François Revel. A repressão em campos de concentração ou em cárceres diversos, os processos sumários e fraudulentos, os expurgos assassinos, as ondas de fome provocadas por programas estupidamente planejados e pavorosamente executados acompanharam todos os regimes socialistas, sem exceção, ao longo da história. “Seria fortuita esta associação?” – questiona o velho Revel. “Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi, ou nunca produziu. Que sistema é esse, que dizem ser o melhor, porém dotado dessa propriedade sobrenatural de nunca conseguir colocar em prática senão o contrário do que prega? Que linda cerejeira será essa, na qual, por um acaso incompreensível, só brotam cogumelos venenosos?”

Para Revel, é inútil tentar descobrir qual dos regimes totalitários do século XX foi o mais bárbaro, porque ambos impuseram a tirania, o pensamento unificado e deixaram como herança uma montanha de cadáveres. O parentesco do comunismo com o nazismo é, para a esquerda em geral, um tema sempre delicado e, como qualquer tabu, sabiamente escamoteado. Por exemplo, quando um genocida marxista, como Stalin, se comporta como um carrasco nazista, a explicação é simples: a culpa é do personagem e de seu caráter perverso, nunca do sistema.

A ignorância sobre as ignomínias do comunismo manifesta-se claramente quando observamos as milhares de bandeiras vermelhas, ornadas com a foice e o martelo, tremulando orgulhosamente em manifestações públicas mundo afora. Será que os ingênuos porta-estandartes permaneceriam empunhando essas bandeiras se soubessem o que elas representam para aqueles que foram escravizados e mortos pelos regimes marxistas?



(*) João Luiz Mauad  é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.
Fonte: institutoliberal.org.br
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Cenas do filme Katyn:



sábado, janeiro 14, 2017

Obama, o mito: o curioso culto à imagem mesmo após seu governo fracassado






por João Luiz Mauad(*)



Abro o Facebook e vejo meus amigos postarem imagens enaltecendo Obama e sua família. Ligo a TV e noto que a imensa maioria do noticiário dá mais destaque ao presidente que sai do que ao que entra. A notória Globo News chegou ao ineditismo de transmitir, ao vivo, um discurso de despedida (?!), no qual, entre outras coisas, o presidente faz declarações de amor à primeira-dama. Tudo calculado, como num conto de fadas. Mas nunca é demais lembrar que a América não é uma monarquia, onde esse tipo de folhetim faria algum sentido.

É difícil transmitir a escala em que Obama – o ícone – tem dominado as atenções mundo afora e, particularmente, como não poderia deixar de ser, em Pindorama. O presidente que sai não é meramente popular, nem é apenas um político popstar. Obama tornou-se outra coisa aos olhos do mundo. Ele é agora um ídolo. E como todos os ídolos, sua imagem está em toda parte.

A verdade é que Obama inspirou uma devoção mais apaixonada do que qualquer outro político contemporâneo. As pessoas gritam e desmaiam em seus comícios, cujos discursos são preparados com extremo cuidado. Alguns usam camisetas proclamando-o “The One”. Um editor da Newsweek chegou ao cúmulo da adulação ao descrevê-lo como acima do país, acima do mundo; uma espécie de Deus.” Como bem ressalta o jornalista Roberto Dias, no entanto, “sem a mediação de lentes e microfones, porém, o saldo de seu governo parece menos iluminado do que a imagem pessoal. Nove anos depois, é difícil enxergar um mundo que tenha andado no rumo daquele desenhado pelo senador em 2008. Pode-se dizer até que está mais distante – ainda mais intolerante, ainda mais protecionista, ainda mais perigoso. Dotado dos maiores poderes conferidos a um humano, ele não conseguiu realizar algo bem específico como fechar a prisão de Guantánamo, símbolo da era Bush que prometera desmontar. A falta de gosto pela pequena política cobra seu preço.”

Ainda que seu governo tivesse sido um fragoroso sucesso, esse culto à personalidade de Obama seria algo perigoso e indesejável, pelo menos àqueles que prezam a liberdade e a democracia, regidas por leis e instituições, e não por ungidos e luminares. Não por acaso, durante a Guerra Fria, os americanos costumavam criticar os países comunistas pelo culto à personalidade que cercava seus líderes, cuidadosamente planejado pelos respectivos ministérios de propaganda (Agitprop). Mas a Cuba castrista, a China maoista e a Rússia stalinista não têm nada a ver com a América de Obama, dizem seus seguidores. Claro!

Concedamos a ele o benefício da dúvida. Talvez Obama não tenha incentivado o culto à personalidade que o rodeia. Talvez tudo isso seja resultado de sua personalidade forte e carismática. Mas ele por certo não o desencorajou. Como candidato, embalado pelo slogan “yes, we can!”, prometeu “mudar o mundo”, “transformar este país” e até mesmo “criar um novo Reino aqui na terra”. Como presidente, ele continuou acrescentando detalhes a essa ambiciosa lista de desejos. Prometeu criar milhões de empregos, curar o câncer, buscar um mundo sem armas nucleares, frear o aquecimento global e, last but not least, reduzir as desigualdades. Infelizmente, a realidade é sempre mais poderosa que as nossas vontades e desejos, mas os fracassos do ídolo não mudaram a sua imagem imaculada perante os fiéis.




Como bem lembrou Helen Sealrs, em quase tudo esse culto à Obama se parece com o que aconteceu ao famigerado Che Guevara, cuja imagem – legada à posteridade pelo fotógrafo Alberto Korda -, era apenas um rosto, totalmente apartado de sua vida política, usada para decorar os quartos da juventude ocidental, sempre ávida por revoluções que pudessem (ora, ora!) “mudar o mundo”. Poucos dos que possuíam o famoso poster sabiam muito sobre o real Che Guevara, mas tê-lo em sua parede sinalizava que você era de alguma forma progressista e idealista. Com Obama, o progresso e o idealismo foram substituídos pela esperança e pela fé, senão pelo empoderamento – essa palavra horrorosa que, infelizmente, tomou conta dos corações e mentes de muita gente. Para completar, hoje não são só os adolescentes imaturos e radicais que se identificam com esta mensagem quase religiosa e transformaram Obama em algo que, definitivamente, ele não é.

Esperemos que toda essa devoção seja passageira…


João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Qual a posição dos liberais em relação ao aborto?










Por João Luiz Mauad





Uma das maiores agendas feministas é a luta pela descriminalização do aborto. Ano passado a cronista do Globo, Flávia Oliveira, escreveu um artigo intitulado “É preciso falar sobre o aborto” para aquele jornal onde não apenas defende a sua opinião a favor do aborto, como também ataca as mulheres que mantêm opiniões contrárias.

Flávia começa defendendo a discussão sobre o tema, alegando que esta é uma “agenda interrompida, em que valores morais importam mais que saúde pública”. Flávia não se detém a explicar quê valores morais exatamente são esses que ela colocaria como inferiores à questão da saúde pública, mas nota-se em seus argumentos seguintes um viés claramente consequencialista, muito em voga ultimamente nesse debate.

Depois de citar casos específicos, Flávia evoca alguns dados. Ao criticar as mulheres que exibem orgulhosamente suas barrigas nas redes sociais, numa reação à hipótese de liberação do aborto, ela diz: “São mulheres que não refletem sobre um problema de saúde pública que envolve de 600 mil a 850 mil brasileiras por ano, segundo reportagem do GLOBO de setembro de 2014. O aborto é a quinta causa de mortalidade materna no país. Causa mutilações e esterilidade.”

Ora, O argumento de que um crime deva deixar de sê-lo pelo fato de ser praticado em grandes quantidades e de forma escamoteada é absurdo. Equivale a dizer que, se um crime é praticado rotineiramente, com risco para o criminoso, ele deve simplesmente deixar de ser considerado crime. Confesso que não entendo o alcance do raciocínio. Se a norma legal vem sendo descumprida e causando prejuízo aos criminosos, deveríamos simplesmente acabar com ela? Nesse caso, convenhamos, sobrariam no Brasil muito poucas leis.

Trata-se de argumento legal, moral e filosoficamente inconsistente. É um contrassenso pretender legalizar uma prática com base nos índices de incidência ou no risco para os respectivos praticantes. Fosse isto razoável, deveríamos então pedir a descriminação do roubo ou do homicídio, crimes que também envolvem sérios riscos para os agentes e cuja ocorrência em nosso país é superior a do aborto.

Flávia traz ainda um outro argumento ao debate. Diz ela: “O debate do aborto extrapola o contra ou a favor. É mais complexo, porque envolve a liberdade de decidir sobre os próprios corpo e futuro. Deveria ser direito da mulher fazer isso, sem pôr a saúde em risco nem alimentar redes criminosas de contrabando de remédios e clínicas clandestinas.”

Esse é o mesmo argumento normalmente utilizado pelos liberais propensos à liberação do aborto. Tal raciocínio contrapõe, a meu ver equivocadamente, o direito à vida do feto à soberania da mulher sobre o próprio corpo, vale dizer, sua liberdade e propriedade sobre ele. Explico por que acho equivocado:

Pela ótica liberal, como bem demonstrou Bastiat em seu opúsculo “A Lei”, a existência do Estado está vinculada à necessidade de organização de uma força comum, mais poderosa que qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos, encarregada da defesa dos direitos individuais à vida, à liberdade e à propriedade. Portanto, o direito coletivo tem o seu princípio, a sua razão e a sua legitimidade no direito individual. Por outro lado, só podemos delegar aqueles direitos de que efetivamente dispomos. Assim como a força de um indivíduo não pode legitimamente atentar contra a vida alheia, tampouco a força coletiva pode ser aplicada legitimamente para destruir a vida de uma pessoa.

O mesmo raciocínio é válido para a defesa desses direitos. A lei, ao promover a substituição das forças individuais pela força comum, deve garantir que esta atue estritamente nos limites em que aquelas teriam o direito de fazê-lo, ou seja, para garantir ao indivíduo a sua própria vida, liberdade e propriedade. Ao Estado não deveria ser permitida nenhuma ação – ou reação – que não estivesse autorizada a cada cidadão.

Alguns liberais alegam que, no caso da gravidez indesejada, haveria um conflito de direitos. De um lado, estaria o direito á vida do nascituro (uma vida ainda não humana, para alguns) e, de outro, o direito de propriedade da mulher sobre o próprio corpo. Tal conflito pode até ser admitido no caso de gravidez derivada de estupro, mas nunca de gravidez oriunda de ação voluntária e consentida da mulher.

Qualquer manual sobre liberalismo, por mais conciso e superficial que seja, dirá que o exercício da liberdade pressupõe a responsabilidade individual irrestrita pelas conseqüências dos próprios atos. Isto quer dizer que toda e qualquer ação deve ter em conta os possíveis desdobramentos sobre os direitos – vida, liberdade e propriedade – dos demais.





Meu direito de propriedade permite que eu escolha quem pode ou não entrar em minha residência ou qualquer outra propriedade de que eu seja titular. No entanto, meu direito acaba onde começa o do outro e, portanto, não posso atentar contra a vida daqueles que lá estiverem, desde que convidados ou autorizados, a menos que eles tenham, antes, atentado contra a minha própria vida (legítima defesa).

Circunstâncias extremas, inusitadas ou indesejáveis não podem ser descartadas. Tome-se a seguinte situação: Pedro convida Paulo para uma pescaria. Em alto mar, a milhas de distância da costa, os dois brigam e a presença de Paulo torna-se inconveniente para Pedro. Seria correto se, em nome do direito de propriedade de Pedro sobre o barco, este forçasse Paulo a saltar?

Agora imagine que, durante uma festa na sua casa, alguém é acometido de um mal súbito. De acordo com os médicos, sua remoção para o hospital é desaconselhada, sob risco de morte. Segundo os especialistas, esta pessoa deverá ficar em repouso absoluto durante algumas semanas, até que esteja em condições de ser transferido. Por mais incômoda que a presença de um estranho em sua casa possa ser, principalmente em razão dos transtornos que causará na sua vida, seria válido, em nome do direito de propriedade, que você se recusasse a mantê-lo ali?

Assim como nos exemplos acima, um embrião humano que se instala no corpo de uma mulher, exceto em casos extraordinários de estupro, é produto de uma ação consciente, cujas conseqüências são bastante previsíveis. O ato sexual é uma escolha quase sempre voluntária e livre. Portanto, a responsabilidade individual a ela inerente não pode ser recusada, isentada ou transferida.

Repetindo o que já foi dito acima, a liberdade tem como contrapartida a responsabilidade irrestrita do agente sobre seus atos, e desta ele não pode fugir, muito menos quando estão envolvidos direitos de outros seres humanos, ainda que não nascidos.

É evidente que, se houvesse algum meio de transferir o feto para outra barriga ou mesmo para uma incubadora artificial, sem prejuízo para a vida ou a saúde do feto, essa seria uma opção totalmente legítima (assim como seria a entrega do recém nascido para adoção), já que conciliaria a propriedade da mulher sobre o corpo com o direito à vida do nascituro. Mas, pelo menos até onde sei, os avanços médicos e tecnológicos ainda não permitem tal coisa, de modo que a vida do feto é totalmente dependente do ventre onde foi gerado.

Um terceiro argumento pró-aborto é o de que um embrião só passa de fato à condição de ser humano após um determinado prazo de maturação. Não se discute propriamente a existência da vida, mas da vida humana. Aqueles que se prendem a tal argumento alegam que o “aglomerado de células embrionárias” seria apenas algo como um ser humano em potencial, que existe como possibilidade, mas ainda não é realidade e, nesta condição, ainda não teria direitos, estando fora da proteção (abrigo) legal do Estado.

Trata-se de debate antigo, embora quem já tenha tido a oportunidade de assistir a uma ultrassonografia de alta definição, realizada em gestantes com apenas oito semanas de gravidez, possa atestar que ali já estão presentes no feto inúmeras características de um ser humano – cabeça, tronco, membros (inclusive dedos), órgãos genitais, etc.

Por outro lado, será que, diante de uma dúvida existencial tão fundamental como essa, a ética e a prudência não recomendariam que se poupasse a vida? Afinal, existe a possibilidade real de que o aborto provocado seja equivalente a um homicídio, um atentado àquele que é considerado o maior dos valores humanos – a vida.

Além das questões acima, alguns propõem ainda um último argumento que, embora fraco, costuma também aparecer no debate. Diz-se que, no princípio da gestação, o feto ainda não tem capacidade de sentir dor e, portanto, o aborto, além dos outros aspectos discutidos acima, seria indolor. Ora, há algumas doenças, que acometem adultos e crianças, que os impedem de sentir dor. Apesar delas, nunca se cogitou liberar o assassinato dessas pessoas, simplesmente porque a lei deve proteger a vida das pessoas e não um suposto direito de não sentir dor.

Ademais, quando se trata do direito de herança, por exemplo, não se discute o nível de evolução do embrião no instante da morte do pai. Ora, se aceitarmos a possibilidade de sacrifício do feto antes de determinado estágio, sob o argumento de que a vida humana ainda não está completamente formada, não seria também o caso de se contestar o direito de herança em caso de morte paterna dentro deste mesmo estágio? Se a lei protege as propriedades materiais do embrião, por que não deve proteger também seu mais valioso bem, sem o qual os outros não têm qualquer valor? Será que a propriedade material é um valor superior à vida?

Por tudo isso, até que me provem que um feto não é um ser humano, cuja única diferença para os demais seres humanos adultos é não dispor, a exemplo das crianças pequenas, de meios próprios para seu desenvolvimento e legítima defesa, eu continuarei defendendo a criminalização do aborto, como defendo a criminalização do homicídio, do latrocínio, da escravidão, etc.

Até porque, qual é o único fundamento para a existência do Estado, numa sociedade liberal, senão a defesa da vida, da liberdade e da propriedade dos indivíduos, principalmente dos mais fracos?



João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

quarta-feira, outubro 19, 2016

Ideologia de Gênero: pensemos acima de tudo nas crianças.












Ideologia de Gênero: pensemos acima de tudo nas crianças.
por João Luiz Mauad




Antes da mais nada, gostaria de alertar para o fato de que o comentário abaixo não tem nada a ver com liberalismo, conservadorismo ou esquerdismo, mas com psicologia, sociologia, antropologia e biologia. Sim, eu sei que a ideologia de gênero é uma tese abraçada por alguns setores da esquerda, mas não é disso que pretende tratar esse texto.


O UOL publicou no dia 17 de outubro de 2016 reportagem que bem destaca um casal e seu filho (ou filhx, como alguns gostam de dizer) de dois anos, criado de acordo com a mais estrita igualdade de gênero. Segundo a matéria,


“Mica tem dois anos e apenas os cuidadores, como os seus pais biológicos preferem ser tratados, sabem o seu sexo. Um dia, a criança sai com um vestido rosa cheio de babados e, no seguinte, com um bermudão azul. Fora o visual, nem mesmo o nome de Mica entrega seu gênero de nascimento, porque a educadora Mariana Vieira Carvalho, 29, escolheu um nome que soasse neutro.

Mariana, ao lado de Raul Almeida Carvalho, 31, decidiu que a neutralidade tinha de vir desde o nome de registro. “Foi difícil porque não há muitas opções contemporâneas. E a gente teve o cuidado de não colocar nenhum nome que pudesse causar um constrangimento futuro.””

Fala Pondé sobre o assunto:




Para dar respaldo à matéria, a reportagem foi buscar a palavra do terapeuta sexual Breno Rosostolato, professor da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. De acordo com o especialista, nomear uma criança com um termo que não entregue o sexo de nascimento ajuda a criar uma pessoa mais livre dos estereótipos de gênero, mas não é o bastante.

“A criança precisa ter condições de se representar do jeito que ela quiser e principalmente ter essa representação respeitada”.

O terapeuta diz ainda que, aos cinco anos, uma pessoa já tem compreensão de si para se dizer homem ou mulher. “E se a criança cresce em um ambiente que respeita essa expressão dela por um gênero, isso dá forças para enfrentar preconceitos. A criança eventualmente vai sofrer, mas com o apoio dos pais tudo se torna mais fácil.”

Ora, independentemente de qualquer argumento científico e do wishfull thinking dos experts, é inegável que (ainda) vivemos numa sociedade repleta de padrões e vinculada a um sem número de tradições. Viver fora desses padrões ou desrespeitar certas tradições pode ser muito difícil, até doloroso, eu diria, principalmente para as crianças, que ainda não desenvolveram defesas suficientes contra o preconceito – principalmente o preconceito oriundo da convivência com outras crianças, as quais ainda não desenvolveram freios que impeçam a discriminação escancarada.

Portanto, o que os pais daquela criança estão fazendo é uma violência contra seu filho/filha, não importa quão bem intencionados estejam – sim, eu me recuso a pensar que estejam fazendo isso com aquela criança apenas para obter seus 15 minutos de fama, como afirmam alguns.

No mais, pesquisas científicas sérias (não citadas nem de raspão na matéria) comprovam que as escolhas individuais relacionadas a profissões, brincadeiras, etc. são influenciadas principalmente por aspectos biológicos (genéticos e hormonais), além da cultura e da educação. Quem tiver interesse em aprofundar-se no tema, sugiro que comece assistindo ao documentário abaixo, não por acaso produzido na Noruega, pátria mãe da chamada ideologia de gênero. Vale cada minuto.




Ademais, fica aqui o meu apelo: independentemente das suas certezas, pensem no sofrimento que vocês podem impor aos seus pequeninos quando resolverem educá-los muito fora dos padrões e tradições de determinado lugar.

sábado, abril 11, 2015

Ainda a Terceirização: Pelegos X Brasil.










Por João Luiz Mauad, publicado no Instituto Liberal




Sem dúvida nenhuma, o maior mérito do Projeto de Lei aprovado no Congresso, que regulamenta a contratação de serviços terceirizados no país, é retirar dos ombros do empresariado nacional a ameaça absurda criada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), em 2011, através da edição da famigerada Súmula # 331.

De acordo com aquela súmula absolutamente retrógrada e extemporânea, exceto as atividades de segurança, limpeza e outras consideradas “atividades meio” da empresa tomadora, qualquer contratação de trabalhadores por empresa interposta é ilegal. Com base nela, os tribunais do trabalho de todo país vinham emitindo as decisões mais estapafúrdias, criando um ambiente de profunda instabilidade jurídica nos contratos de trabalho e prestação de serviços, principalmente porque, ao contrário do que pensa o TST, é muito complicado, nas economias modernas, estabelecer exatamente o que seriam atividades fim e atividades meio. Senão, vejamos:


Na verdade, o que a Telefônica fez foi subcontratar determinados serviços a prestadoras menores, com funcionários devidamente registrados, de acordo com a lei trabalhista em vigor.

Qualquer calouro de curso de administração sabe que, operacionalmente, seria um absurdo que empresas do porte da Telefônica executassem todos os serviços previstos em seu escopo de atividades de forma vertical. É muito mais econômico e eficiente horizontalizar a operação, de forma que cada um dos terceirizados mantenha o foco na sua área, reduzindo custos e aumentando a eficiência. A horizontalização, utilizada atualmente no mundo inteiro, beneficia empresas e consumidores, afetando negativamente apenas alguns sindicatos, agarrados a uma série de privilégios que legislações arcaicas lhes concede.

Tentemos explicar esse monstrengo de forma mais clara. Tomemos uma empresa de construção civil. Tal firma, quando constrói, por exemplo, um prédio de apartamentos, normalmente transfere diversas etapas da obra a empresas especializadas, ficando somente com a supervisão das mesmas. Assim, a fundação, a estrutura, as instalações, a alvenaria, a pintura, etc. serão subcontratadas e entregues à execução de terceiros, especialistas em suas respectivas áreas.

Entretanto, todas aquelas atividades, tomadas ao pé da letra, seriam atividades consideradas “fim” de uma construtora. Ocorre que, atualmente, principalmente devido à modernização dos processos construtivos, não faz nenhum sentido, nem técnica, nem economicamente, executá-las todas, de forma vertical. Não seria arriscado dizer que, apesar da legislação retrógrada, são raríssimas as construtoras que, hoje em dia, ainda trabalham dessa maneira.

Arrisco dizer que a praticidade, a economicidade e principalmente a segurança das obras tornaram a Súmula 331 um verdadeiro dinossauro jurídico. Essa mesma legislação anacrônica, entretanto, faz com que cada empresa construtora tenha uma ‘Espada de Dâmocles’ apontada para sua cabeça, sempre a espera que um fiscal ou procurador radical e/ou mal intencionado apareça de repente e aplique uma multa leonina, como no caso da Telefônica.

Os opositores do P.L. aprovado ontem batem na tecla de que tal lei irá “precarizar” as relações de trabalho, retirando do trabalhador alguns direitos sagrados. Ora, tal alegação é absolutamente sem sentido, uma vez que quaisquer empresas que terceirizem serviços a outras estão sujeitas às mesmas obrigações trabalhistas e sociais que as demais. O projeto prevê ainda que os empregados terceirizados tenham os mesmos direitos assegurados no local de trabalho aos funcionários da empresa contratante: alimentação em refeitório, quando for ocaso; serviços de transporte; atendimento médico ou ambulatorial nas dependências da empresa; e treinamento adequado quando a atividade exigir.

Em resumo, o país só tem a ganhar com a edição dessa lei. Só quem perde são os pelegos de sempre. Por isso, e somente por isso, temos visto tanta choradeira…

quinta-feira, março 26, 2015

Irmãos Siameses





O comunismo é o nazismo ao quadrado.


O artigo abaixo foi escrito em 2007, num texto sobre o mesmo tema - comunismo e nazismo; numa resenha do livro A Grande Parada, do Francês Jean-François Revel, que segue:



por João Luiz Mauad (em 27 de maio de 2014 para o Instituto Liberal)



Dia desses, tive o desprazer de assistir a trechos da propaganda gratuita do PCdoB na TV. No papel principal atuava a bela deputada gaúcha Manuela D’Ávila. Abjurava o capitalismo, o neoliberalismo, a globalização e cantava loas ao modelo socialista – o único, segundo ela, capaz de promover a justiça social, o fim das desigualdades e blablablá. Nenhuma menção, evidentemente, aos inumeráveis crimes, atrocidades e mazelas econômicas que seu venerado sistema de organização social produziu mundo afora, durante todo o século XX.

Enquanto ouvia aquela jovem mulher gritar o indefectível festival de clichês e jargões, minha mente viajava pelo passado, numa torrente de memórias e pensamentos dispersos. Lembrei-me então, com saudade, do brilhante escritor francês Jean-François Revel, que num de seus últimos livros – A Grande Parada – traçou o mais completo paralelo que conheço entre os dois modelos totalitários que mais produziram cadáveres e mutilações em toda a história, e explicou por que, enquanto o nazismo segue sendo, com inteira justiça, demonizado por todos os homens de bem, o comunismo, que comprovadamente produziu muito mais vítimas, permanece idolatrado por uma multidão de ignorantes, ingênuos e outros tantos hipócritas. 

Revel demonstrou, num trabalho magnífico de pesquisa histórica e jornalística, temperado por sua verve direta e implacável, como o revisionismo comunista encontra-se disseminado na literatura, na história, na mídia e na política, especialmente depois da queda do muro de Berlim. Além disso, mostrou de forma cruel como os próceres da esquerda – sejam filósofos, políticos, historiadores, jornalistas e intelectuais em geral – agem para criar um sem-número de teorias escapatórias para as atrocidades comunistas, a grande maioria delas propondo-se a tentar desvincular os indeléveis crimes do passado – e do presente – daquilo que apelidaram de “ideal socialista”. 

Em sua magnífica obra, Revel desmonta cada um dos inúmeros sofismas e falácias da esquerda, além de demonstrar cabalmente que, malgrado a retórica rebuscada dos seus ideólogos, a realidade é que “nenhuma das justificativas apresentadas, desde 1917, a favor do comunismo, resistiu à sua aplicação; nenhum dos objetivos que ele se propunha atingir foi atingido; nem a liberdade, nem a prosperidade, nem a igualdade, nem a justiça, nem a paz”. E, no entanto, essa erva daninha talvez nunca tenha sido tão ferozmente protegida, por tantos implacáveis defensores, como após o naufrágio soviético.

“Se alguém quiser estudar um sistema mental que funcione inteiramente dissociado dos fatos e elimine imediatamente qualquer informação que contrarie sua visão de mundo”, escreve Revel, “deve estudar a mente dos comunistas. São laboratórios insuperáveis”. Alguns podem até reconhecer a existência de uns poucos fatos abomináveis, mas sempre enfatizando que tais fatos não guardam qualquer relação com a essência do comunismo. Seriam, no máximo, uma perversão do sistema, mas jamais uma decorrência dele.

A repressão em campos de concentração ou em cárceres diversos, os processos sumários e fraudulentos, os expurgos assassinos, as ondas de fome provocadas por programas estupidamente planejados e pavorosamente executados acompanharam todos os regimes socialistas, sem exceção, ao longo da história. “Seria fortuita esta associação?” – questiona o velho Revel. “Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi, ou nunca produziu? Que sistema é esse, que dizem ser o melhor, porém dotado dessa propriedade sobrenatural de nunca conseguir colocar em prática senão o contrário do que prega? Que linda cerejeira será essa, na qual, por um acaso incompreensível, só brotam cogumelos venenosos?”

É inútil tentar descobrir qual dos regimes totalitários do século XX foi o mais bárbaro, porque ambos impuseram a tirania, o pensamento unificado e deixaram como herança uma montanha de cadáveres. O parentesco do comunismo com o nazismo é, para a esquerda em geral, um tema sempre delicado e, como qualquer tabu, sabiamente escamoteado. Por exemplo, quando um ideólogo marxista, como Stalin, se comporta como um carrasco nazista, a explicação é simples: a culpa é do personagem e de seu caráter perverso, nunca do sistema. Stalin seria então um verdadeiro nazista, apenas fantasiado de comunista.

Para que se tenha uma idéia de como pode ser dramática a inversão de valores produzida pelos sofistas da esquerda, quase sempre valendo-se da verborragia “politicamente correta”, basta lembrar que, aos olhos da maioria do público mundo afora, os grandes vilões da atualidade, estigmatizados e vitimados pelos mais sórdidos preconceitos, somos justamente nós, os malvados anticomunistas – alguns raros e teimosos abnegados, que ainda insistem na luta para desmascarar os verdugos da liberdade e fulminar seus sórdidos subterfúgios. 

Enquanto isso, do outro lado, os anjinhos comunistas desfilam sua utopia pelos palanques, pelas salas de aula, pelas redações dos jornais e pelos púlpitos das igrejas sem que quase ninguém veja aí qualquer problema. Não importa que o comunismo, com seu amontoado de trapaças ideológicas, continue matando pessoas no Tibete, na Coréia do Norte, na China ou em Cuba. Não importa tampouco que ele continue sendo uma importantíssima ferramenta nas mãos de tiranos, sempre dispostos a instalar regimes de opressão em nome da defesa dos oprimidos – como ocorre amiúde em diversos países latino-americanos atualmente.

Embora seja indelével a identidade e a afinidade, em essência, entre o comunismo e o nazismo, existe uma diferença importante a distinguir nos dois modelos. Como muito bem lembrado por Revel, “Hitler desde sempre demonstrou sua hostilidade à democracia, à liberdade de expressão e de cultura, ao pluralismo político e sindical. Além disso, nunca escondeu sua ideologia racista e (…) anti-semita. Por conseguinte, partidários e adversários do nazismo situavam-se, desde o começo, de um lado ou de outro de uma linha divisória traçada nitidamente”. Em resumo, não houve decepções com o nazismo, já que seu líder cumpriu fielmente o que prometera.

Já o comunismo é diferente, “pois emprega a dissimulação ideológica, veiculada pela utopia. Promete a abundância e provoca miséria; promete a liberdade, mas impõe a servidão; promete a igualdade e leva à mais desigual das sociedades – com a nomenklatura, classe privilegiada a tal ponto como jamais se conheceu, nem mesmo nas comunidades feudais. Ele promete ainda respeito à vida humana, mas realiza execuções em massa; promete o acesso de todos à cultura, mas leva ao embrutecimento generalizado; promete o “novo homem”, mas o fossiliza”.

O nazismo, portanto, abriu o jogo desde o início. Já o comunismo é insidioso e sempre se escondeu atrás da utopia. “Isso lhe permite satisfazer o apetite pela dominação e pela servidão sob o disfarce da generosidade e do amor à liberdade, perpetrar a desigualdade sob o manto do igualitarismo. O totalitarismo mais eficaz, portanto”, fulmina Jean-François, “… não foi aquele que fez o Mal em nome do Mal, mas o que faz o Mal em nome do Bem”.

Após a publicação, em 1997, de O Livro Negro do Comunismo, um trabalho histórico científico que expôs de forma insofismável os crimes do totalitarismo comunista, a defesa da esquerda foi muito pouco centrada na materialidade desses crimes, desde então dificilmente impugnáveis. “Que fez ela, então? Invocou, sobretudo, a pureza de motivos que havia determinado a sua perpetração. A mesma velha história! Desde os primeiros instantes da revolução bolchevique, tivemos que engolir, ad nauseum, essa insípida poção”, resume Revel.

O nazismo e o comunismo cometeram atrocidades comparáveis, tanto por sua extensão quanto por seus pretextos ideológicos. Isso não foi, entretanto, resultado de uma “coincidência fortuita de comportamentos aberrantes”. Ocorreu, muito pelo contrário, porque ambos comungavam os mesmos princípios e idéias fundamentais, sedimentados por convicções pétreas, e – mais importante! – empregavam o mesmo modus operandi. É emblemático o fato – aliás, inconteste – de que tanto uma ideologia quanto a outra sempre defenderam – e nunca esconderam isso – a tese de que os fins justificam quaisquer meios.

O socialismo, segundo Revel, “não é mais ou menos de esquerda do que o nazismo”. A característica fundamental de ambos “é que seus dirigentes, convencidos de serem detentores da verdade absoluta e de comandarem o curso da história, sentem-se no direito de destruir os dissidentes, reais ou potenciais, as raças, categorias profissionais ou culturais, que lhes parecem entravar (…) a consecução de seus supremos desígnios”.

Por isso, prossegue Revel, “tentar distinguir entre os dois regimes totalitários, atribuir-lhes diferentes méritos em função do afastamento de suas superestruturas ideológicas, em vez de constatar a identidade de seus comportamentos reais é bem estranho, principalmente vindo da parte dos socialistas, que deveriam ter lido Marx um pouco melhor. Não se pode julgar, dizia ele, uma sociedade pela ideologia que lhe serve de pretexto, assim como não se julga uma pessoa pela opinião que ela tem de si mesma”.

“O próprio Adolf Hitler foi um dos primeiros a saber captar as afinidades entre o comunismo e o nacional-socialismo. Ele certamente não ignorava que uma estratégia política é julgada por seus atos e métodos e não pelos adornos de oratória ou pelos ‘pompons’ filosóficos que a cercam. Ele declara a Hermann Rauschning, que o relata em Hitler me disse, livro lançado ainda em 1939:

“Aprendi muito com o marxismo e não pretendo escondê-lo (…). O que despertou interesse nos marxistas e me forneceu ensinamentos foram seus métodos. (…) Todo o nacional-socialismo está lá contido. Veja bem: os grêmios operários de ginástica, as células empreendedoras, os desfiles monumentais, os folhetos de propaganda redigidos em linguagem de fácil compreensão pelas massas. Esses novos métodos da luta política foram praticamente todos inventados pelos marxistas. Eu só precisei me apoderar deles e desenvolvê-los para conseguir assim os instrumentos de que necessitávamos…”.

Pode ser um tanto surpreendente para alguns – principalmente em virtude da habilidade com que a intelligentsia esquerdista contorce e escamoteia os fatos históricos – encontrarmos a mesma linha filosófica em Karl Marx e Adolf Hitler, contra quem, a propósito, é chocante a ingratidão dos atuais pensadores socialistas. Num livro de entrevistas de Otto Wagener, também citado por Revel, Hitler é incisivo:

“Agora que terminou a era do individualismo, nossa tarefa é encontrar o caminho que leva ao socialismo sem revolução. Marx e Lênin enxergaram perfeitamente o objetivo, mas escolheram o caminho errado”.

Se o Führer comungava com Marx a opinião sobre a necessidade de mutilar o individualismo, não é menos emblemática a convergência de ambos acerca do anti-semitismo. Num ensaio muito pouco conhecido – Sobre a Questão Judaica –, mas que Hitler certamente leu com toda atenção, a ponto de tê-lo praticamente plagiado em algumas passagens, Karl Marx desfere contra os judeus uma torrente de insultos coléricos, como estes: 

“Qual é a origem profana do judaísmo? A necessidade prática, a cupidez. Qual é o culto profano do judeu? O comércio. Quem é o seu Deus? O dinheiro.”

Além disso, para o profeta, o comunismo seria “a organização social que faria desaparecer as condições para o comércio e tornaria o judeu inviável”. Vemos aí, claramente, a origem do ódio incontido – tanto de nazistas quanto de comunistas – ao povo judeu. Ódio este que, diga-se de passagem, perdura até os dias de hoje.

Judeu ou não, entretanto, é nitidamente o indivíduo, seja na ideologia nazista ou comunista, quem deve ser aniquilado. Aniquilação essa que, como ensina Revel, “é a própria aniquilação do ser humano, que nunca existiu de outra forma, que não individualmente”.

Muito embora o parentesco entre essas duas sórdidas ideologias seja incontestável sob muitos aspectos, além da ululante semelhança entre suas estruturas de poder e seus aparatos repressivos, permanece latente a recusa sistemática de qualquer paralelo entre elas. Segundo Jean-François Revel, essa recusa peremptória, aliada à execração diária de um nazismo dito de direita, “serve de anteparo protetor contra um exame mais apurado do comunismo”. Ou ainda, nas palavras de Alain Besançon, citado por Revel: “a hipermnésia do nazismo desvia a atenção da amnésia do comunismo”.