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terça-feira, dezembro 19, 2017

O que se pretende com a Educação Sexual de Crianças e Adolescentes?




por Heitor de Paola(*).
Assim, um homem bom, apesar de um escravo, é livre, mas um homem perverso, apesar de um rei, é um escravo. Pois ele não serve apenas um homem, mas o que é pior, tantos mestres como ele tem vícios "
Santo Agostinho”

“…man, no longer sacred, was a machine whose engine ran on passion. From there (we can) understand that (…) the man who controlled passions, controlled man”

E. Michael Jones



Libido Dominandi – Sexual Liberation and Political Control




primeiro artigo desta série terminou com a frase: “A má influência do feminismo ativista e gay tenta feminizar os homens e retirar deles sua função específica: de chefe da família”. Esta frase tornou-se anátema, senão pecado mortal, no mundo feminista radical que vem se instalando no mundo.
Neste segundo artigo analisarei as nefastas consequências da educação sexual na educação e no ensino de crianças e adolescentes.
As principais Ameaças à Educação II.

Nos últimos anos do século XX interesses inconfessáveis, mas muito bem conhecidos, fizeram recrudescer a ideia falaciosa de que as crianças precisam de educação sexual. A pergunta crucial é: por quê? Ora, se a humanidade não tivesse aprendido por si mesma o mundo não teria sido povoado, pois sexo é fundamentalmente procriação. “Crescei e multiplicai-vos” bastou, não foi necessário criar pedagogos, “especialistas” e sexólogos ou o que mais seja para que, começando com um casal, o mundo fosse povoado. Por que então alguns se arvoram em professores de algo tão básico como comer ou dormir?


A premissa é de que a criança quer e precisa de estimulação e atividade sexual desde a mais tenra idade. Sem nenhuma justificativa científica esta ideia é apresentada como uma lei da natureza, contradizendo todos os estudos do desenvolvimento psicológico e hormonal.


A resposta é óbvia: ninguém está sinceramente interessado em educação sexual, esta é a mais deslavada mentira! A ideia inconfessável é intervir nos instintos básicos das crianças para impedir que se desenvolvam normalmente seguindo as etapas bio-psicológicas próprias. O desenvolvimento tem leis próprias e o melhor que os adultos podem fazer é não atrapalhar! 


A educação sexual é parte essencial da ideologia de gênero. Não se pretende educar, mas destruir – ou, como alguns preferem, desconstruir – o desenvolvimento infanto-juvenil normal introduzindo simultaneamente noções perversas de sexualidade. Já se disse: “é de pequenino que se torce o pepino”, pois a mente infantil ainda em evolução é mais maleável que a do adulto, embora esta maleabilidade não seja tão grande quanto se pensa. Para evitar o desenvolvimento normal é necessário afastar a criança da família o quanto antes e atribuir à escola o poder de educar e não apenas ensinar.
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A primeira tarefa dos revolucionários é inserir uma cunha entre a biologia e a psicologia. Esta última é escrava da primeira. Ao criar uma falsa autonomia da psicologia, separando-se sexo de gênero, imposição biológica de desejos, cria-se na criança um estado confusional extremamente lesivo. Quanto mais cedo a interferência, pior. 


O objetivo mais profundo é o de acabar com a noção de família tal como se desenvolveu no curso de milênios: pai, mãe e seus filhos, o núcleo onde reside o verdadeiro poder nas sociedades livres. A estrutura familiar bem desenvolvida e integrada é a maior fonte de defesa contra a tirania do controle estatal, o verdadeiro objetivo final por trás da ideologia de gênero: o fim da liberdade humana e o controle político-ideológico.


Nos novos tempos que pretendem impingir, mãe e pai perdem todo sentido, pois invocam o sexo biológico, segundo eles apenas uma “construção social” que nega a liberdade das pessoas escolherem seu “gênero”. No mundo “genérico” que inunda o ocidente “o sexo de cada pessoa independe da biologia, e num recém-nascido não pode ser “injustamente” determinado por médicos e pais que apenas examinam a genitália visível”. Várias escolas, inclusive Católicas e Protestantes, estão abolindo os termos mãe e pai e os substituindo pelos politicamente corretos “Genitor 1” e “Genitor 2”.


A mente infantil não é tabula rasa. Ao contrário, mesmo antes do nascimento a vida mental intrauterina é extremamente complexa, como demonstram os trabalhos de Alessandra Piontelli entre outros. A genética pré determina as fantasias e sonhos que já ocorrem na vida antes do nascimento. A criança já nasce com preconcepções do mundo, principalmente de seu próprio corpo e das necessidades básicas, entre elas o sexo. É uma mentira do mundo que chamam de pós-moderno (seja lá o que querem dizer com isto!) que a estrutura cromossômica (XX ou XY) não determina inexoravelmente a biologia e, ipso facto, a psicologia. 


Bebês já nascem fazendo movimentos com os lábios que indicam que sabem exatamente que ali deverá entrar um mamilo para alimentá-lo. Assim como todas as funções básicas, incluindo o conhecimento precário dos órgãos genitais que caracterizam seu sexo. É fundamental que encontre o que Heinz Hartmann denominou average expectable environment (Ego Psyhology and the Problem of Adaptation, Int’l Universities Press, 1958) – a expectativa de um ambiente medianamente razoável para seu desenvolvimento. Este ambiente insubstituível é a família.


Melanie Phillips referiu: “Nós despojamos a paternidade do seu significado removendo o vínculo com a biologia, (...) e proibindo referências a mães e pais. Despojamos os homens e as mulheres do significado com base em que, alguns dias as pessoas pensariam que são um e noutros eles poderiam pensar que são o outro. E o que eles disseram que eram, em qualquer momento, é o que realmente são. Para gerenciar isso, confundimos deliberadamente sexo e gênero. Isso porque o sexo é biologia e a biologia é fixa, enquanto o gênero, este sim, é uma construção social e, portanto, podemos desconstruí-la e reconstruí-la (à vontade). Por isto a identidade sexual deve ser negada e transformada em gênero” (The deconstruction of humanity). 


Para os ideólogos de gênero é exatamente o oposto: a identidade sexual é socialmente construída e significa o aprisionamento do “verdadeiro eu” – que pode ter um gênero diverso do biológico - a esta imposição social. Segundo os Princípios de Yogiakarta, documento básico da ideologia de gênero, este é “a profundamente sentida experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos”.


Na realidade, gênero é apenas uma qualidade gramatical, nada tendo a ver com seres humanos a não ser enquanto personagens da literatura. Um copo é do gênero masculino, uma mesa é do gênero feminino. Mas isto basta para definir seres humanos concretos? É claro que não, mas serve para satisfazer os desejos ligados aos instintos mais primitivos de poder ser homem, mulher ou qualquer outra coisa - ou nenhuma – ao sabor dos desejos. Este desejo faz parte da necessidade infantil de sentimento de onipotência para enfrentar sua real fragilidade e necessidade de amparo. Permanecendo na mente do adulto configura um delírio psicótico, uma vida totalmente fora da realidade.


Esta escravização aos desejos foi muito bem explicitada pelo Cardeal Carlo Caffarra quando advertiu sobre a estratégia “d’O Grande Inquisidor, de Dostoievsky, que diz a Cristo: ‘Você dá a eles liberdade eu dou-lhes pão. Eles me seguirão’. A estratégia é clara: dominar o homem formando um pacto com um de seus instintos básicos. O novo Grande Inquisidor não mudou a estratégia. Ele diz a Cristo: ‘Você promete regozijo no prudente, íntegro e casto exercício da sexualidade, eu prometo o gozo desregrado. Você verá que eles me seguirão’. O novo Inquisidor escraviza através da ilusão do prazer sexual completamente livre de regras”. Caffarra considera “que o mundo está tomado por ‘Uma ideologia global alimentada por uma liberdade “insana” e “literalmente louca” (que) está tentando destruir a “última barreira” que preserva a humanidade de perder o significado de ser “humano”, a saber, a “natureza sexual da pessoa humana na sua dualidade de homem e mulher’. (O Ataque Final à Criação: Fim Da Dualidade Homem/Mulher - as ênfases são minhas). 


Há pouco mais de um século Sigmund Freud escandalizou Viena e o mundo ao demonstrar que as crianças têm uma vida sexual intensa no reino da fantasia. Percebeu que as “neuroses” são resultado da repressão dos impulsos sexuais e das fantasias a eles ligadas. Porém, jamais disse, como muitos divulgam, que não deveria haver repressão. Pelo contrário, já desde o início afirmou que sem a repressão dos instintos básicos não haveria crescimento satisfatório e muito menos civilização. Principalmente porque os instintos básicos incluem também os impulsos destrutivos. Nunca Freud supôs que sexo infantil é algo como sexo genital. É esta confusão que escandaliza ainda hoje aqueles que querem ver na criança a ingenuidade paradisíaca. Sexo (Eros) é tudo que une, que evolui, a tendência à vida. Tânatos é a tendência à destruição, à desunião e à morte.


É exatamente por isto que é possível intervir de forma predatória nos impulsos primitivos. Se eles não existissem como seria possível perverte-los? Pois é disto que se trata: impor a perversão como nova norma moral! Este é o núcleo básico da ideologia de gênero: por Eros a serviço de Tânatos. É disto que trata o Grande Inquisidor na forma de pedagogos, psicopedagogos e “especialistas” em educação que inventaram a falsa necessidade de “educação sexual”: intervir malignamente no desenvolvimento normal, explorando Eros e Tânatos perversamente.


Na mesma abordagem sobre o desenvolvimento infantil, Freud percebeu que lá pelos 4 ou 5 anos há uma total repressão destas fantasias, instalando-se um período que denominou fase de latência, quando a libido (a força instintiva) se separa das fantasias sexuais e se dirige ao mundo apegando-se à curiosidade, o que possibilita o aprendizado. É necessário enfatizar que falo de repressão interna, um mecanismo que nasce conosco e independente de qualquer atitude externa. Este período se desenrola até o início da puberdade quando as características sexuais secundárias se desenvolvem. A endocrinologia posteriormente confirmou a existência de uma fase de latência hormonal, embora começando antes da idade determinada por Freud: há uma diminuição dos hormônios sexuais (testosterona, nos meninos, e estrógenos, nas meninas) que voltarão a se intensificar na puberdade. É nesta fase que as crianças começam a escola e tal como andarilhos no deserto estão sedentas de conhecimento. Absorvem tudo que lhes é fornecido sem critérios de valor, a não ser aqueles que encontram – quando encontram – no lar.


É então que os Grandes Inquisidores maldosamente, sabendo que operam em terreno fértil, introduzem a “educação sexual” através da pornografia em suas diversas manifestações.


Mas uma criança que não é precocemente sexualizada possui um natural sentimento de vergonha que a protege de intrusões e atividades sexuais. Os limites impostos por este sentimento natural de vergonha só serão ultrapassados no futuro quando, já adulto encontra uma relação amorosa heterossexual e respeitosa, quando já existe o pleno amor no qual a intimidade sexual é apenas uma manifestação desejável e prazerosa para ambos.


O que a ideologia de gênero procura modificar através do ensino da falsa “opção sexual”, assim definida (Yogiakarta): “Compreendemos orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas”


É exatamente por isto que a perversão tem que começar já antes do período escolar. Crianças muito pequenas são estimuladas ao toque físico, à masturbação, a perder a vergonha de falar abertamente sobre sexo e ideia “meu corpo me pertence”. Nas brincadeiras infantis que já têm caráter sexual primitivo (brincar de médico, p. ex.) e que são “escondidas” pela vergonha, se introduzem adultos que as pervertem dizendo que isto é normal e não precisam ter vergonha. É inevitável que esta intervenção ocorra por parte de adultos com tendências à pedofilia, quando não plenamente pedófilos. Ainda segundo Freud as experiências de sedução externas podem causar uma ruptura da fase de latência, ou mesmo sua extinção.


As crianças tendem a se identificar com os adultos que representam autoridade. Sendo estimuladas na escola a fazer o que é proibido em casa, entram em dissonância cognitiva que podem fazê-la seguir a sedução do Grande Inquisidor: o estímulo ao prazer maior no momento. Isto leva à perda do bem mais precioso da vida: o amor. 


Diretores de uma fundação para crianças e adolescentes na Alemanha, Bernd Siggelkow & Wolfgang Büscher publicaram um livro cujo título já diz tudo: a Tragédia Sexual Alemã: Quando as Crianças não mais aprendem o que é o amor (Deutschslands sexuelle Tragödie: Wenn Kinder nicht mehr lernen was Liebe ist).


O verdadeiro amor que não é escravo dos instintos, mas os domina naturalmente, sem imposição, mas pelo reconhecimento da dignidade própria e do outro. Isto só pode ser obtido no seio da tão odiada família.


Já conquistados na infância os adolescentes e adultos, impedidos do desenvolvimento psicossexual normal serão infantilizados, como desejaram os grandes inquisidores, que precisam de uma humanidade facilmente controlável:

“Ensinaremos que a felicidade da infância é a mais deliciosa. (...) Nós até permitiremos que eles pequem, pois são fracos, e por causa dessa concessão eles vão professar um amor infantil por nós. E eles nos considerarão benfeitores por verem que somos responsáveis por seus pecados. E nunca mais terão segredos para nós”.

Este o destino de nossos filhos e netos se a ideologia de gênero, que já penetrou nos cursos de pedagogia e nos consultórios e nas associações e conselhos médicos, psicológicos, psicanalíticos, não for impedida urgentemente de prosseguir sua nefasta influência.

(*)Heitor de Paola - Médico, especializado no estudo e tratamento de distúrbios mentais de origem psicológica.(Bio)




quarta-feira, outubro 18, 2017

As principais ameaças à educação – Parte 1




por Heitor de Paola(*).




A liberdade só pode existir sem o governo nos dizer como viver, o que dizer, o que pensar, o que saber e o que não saber. Alieksandr Solzhienitsyn


Solzhienitsyn tinha uma grande experiência com o governo da URSS para saber o que falava. Mas não apenas os governos totalitários se intrometem na vida das pessoas. Nas últimas décadas esta intromissão tomou vulto assustador nos países assim denominados “democráticos”. Sua origem não é somente nacional, mas procedem principalmente de instituições internacionais como a ONU e a miríade de ONGs que a cercam.

No assunto que estamos abordando a interferência da UNESCO atingiu proporções intoleráveis. Já não se pode falar em educação nacional em nenhum país ocidental. “Especialistas” globais se arrogam o poder de interferir diretamente no currículo, impondo a formação de “cidadãos para um mundo globalizado”.

Desnecessário dizer que nada disto ocorreria sem o concurso de “especialistas” locais aboletados no Ministério da Educação e nas secretarias estaduais, muitas vezes membros das mesmas ONGs.

Os estudantes, nesse império do politicamente correto, são ensinados a rejeitar a noção de verdades absolutas e aceitar o relativismo em todas as áreas, principalmente moral, ética e religiosa. A tradição e os valores nacionais e ocidentais são vistos como intolerantes e devem ser rejeitados em favor de “valores” internacionais (globais). Impera o multiculturalismo, todas as “culturas” – conceito cujo valor de grande conhecimento se esvaiu numa teia de significados vazios – têm igual valor. “…a única cultura que não pode ser celebrada é a cultura que permitiu que todas essas outras culturas fossem celebradas” (Douglas Murray), exatamente aquela que deu origem à civilização ocidental judaico-cristã.

Um dos principais fatores para este verdadeiro desastre foi a paulatina retirada da educação do lar e entregue à escola.

Educação ou ensino?

Educated men are as much superior to uneducated men as the living are to the dead.

Aristóteles

Diferencio esses dois temas por considerar que o primeiro se refere à família e o segundo à escola. Existem analfabetos educados e sábios sem nenhuma educação. A modernidade cada vez mais foi alijando a família e concentrando ambos na escola. Sou, no entanto, de uma geração na qual os dois temas eram bem delimitados: cabia à família educar e à escola ensinar. A participação da escola na educação se restringia à conduta disciplinar. A transmissão das tradições morais, éticas e religiosas vinha do lar. Cabia aos pais decidir se a educação religiosa deveria ser complementada pela escola, encaminhando seus filhos para escolas religiosas de sua fé, ou não. A escola não se arrogava o direito de educar e formar, mas em sua tarefa, o ensino, era criteriosa e exigente. Os professores conheciam o assunto que ensinavam, sem intricadas teorias ou técnicas pedagógicas para atrapalhar.

A pressão para esta entrega deve-se a dois fatores: de um lado pais inseguros formados nas décadas pós-guerra que de tanto criticar seus pais – era a época da “libertação” sexual, das ações revolucionárias, dos festivais tipo Woodstock onde tudo era permitido – não souberam assumir suas responsabilidades como pais e preferiram entrega-las à escola. De outro, “educadores”, ávidos de controlar e doutrinar os estudantes ao invés de ensiná-los, pedagogos cheios de teorias que queriam testar no farto material humano que lhes era entregue como cobaias.
Não havia como a educação e o ensino não decaírem a níveis vergonhosos. Em todos os países ocidentais este fenômeno ocorreu, mas no Brasil assumiu proporção assustadora!

Era inevitável que aparecessem inúmeros problemas principalmente para os estudantes, desde um ensino deficitário e perverso onde a história é continuamente reescrita e deturpada ideologicamente, até gravíssimas intervenções médico-psicológicas que serão objeto da continuidade deste artigo.

O que a confraria médico-psicopedagógica está fazendo com nossas crianças?

…as crianças são de longe o grupo mais classificado e rotulado de nossa sociedade. Advirto contra ‘as prescrições institucionais de um sistema que procura enquadrar as crianças em categorias diagnósticas’.
Frank Putnam

Desde a década de 80 a psico-medicalização da infância vem assumindo proporções alarmantes. A escola, além de abdicar de sua missão primordial de ensinar, assumiu o papel de clínica psicológica. A idealização dos sentimentos e o consequente abandono da racionalidade – esta abominação inventada pela civilização ocidental – estimularam a formação de grupos onde os alunos, mesmo de tenra idade, são estimulados a discutirem seus sentimentos abertamente. Inventou-se a ideia do bullying e tentou-se destruir a agressividade natural e necessária para o desenvolvimento (o que é diferente de coibir a destrutividade), principalmente nos meninos para inibir o desenvolvimento da masculinidade dos futuros “machistas”, pois a participação do movimento feminista na degradação da educação e no nível dos professores é enorme. As histórias infantis, depuradas de qualquer maldade, se tornaram contos aborrecidos e sem graça.

“A proteção terapêutica – terapismo – é como colocar viseiras nas crianças antes de levá-las a passear no campo cheio de vida”. (Christina Hoff Sommers & Sally Satel, M.D). O terapismo é uma invenção da psicopedagogia para anular a invidualidade, “desconstruindo” os valores familiares e a produção espontânea do pensamento infantil.

Problema mais grave, no entanto, é a medicalização de aspectos do desenvolvimento normal das crianças. Referindo-se aos EUA, o Dr. Chester M. Pierce, psiquiatra, deixou claro em seu discurso para o Seminário Internacional de Educação da Infância em 1973, haver um propósito subversivo por trás da profissão psiquiátrica.

“Toda criança na América que ingressar na escola com a idade de cinco anos pode ser considerada insana, porque vem para a escola com certas fidelidades aos nossos pais fundadores, em relação aos nossos funcionários eleitos, em relação aos pais, em relação a uma crença em um ser sobrenatural, e em relação à soberania desta nação como uma entidade separada. Cabe a vocês como professores curar todas essas crianças doentes – criando a criança internacional do futuro”.

Pode parecer exagero, mas estas palavras, adaptadas, podem ser usadas para descrever o que ocorre no Brasil. G. Brock Chisholm, psiquiatra e co-fundador da Federação Mundial de Saúde Mental afirmou que para alcançar um governo mundial, é necessário remover das mentes dos homens seu individualismo, a lealdade às tradições familiares, patriotismo nacional e dogmas religiosos…”.

Além da extensa doutrinação para transformar as crianças em meros cães de Pavlov, inventaram-se falsos diagnósticos psiquiátricos para condições normais em crianças irrequietas e curiosas, sendo a principal o “Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade”. Pais amedrontados pela atividade natural de seus filhos e professores que querem salas de aula com robozinhos bem comportados uniram-se a psiquiatras ávidos de pacientes e laboratórios visando enormes lucros para aceitar sem nenhuma crítica esta falsa síndrome já reconhecida pelo seu próprio criador, Leon Eisenberg, como “um excelente exemplo de uma doença fictícia”.

A existência de diagnósticos também influencia a visão que os pais e professores têm das crianças sob seus cuidados. Muitos professores e pais ouviram falar de “hiperatividade” e mais especificamente de déficit de atenção/hiperatividade. Muitos profissionais não especializados em saúde mental acreditam que podem fazer este diagnóstico.

Diane McGuinness declarou em 1989:

“Nos últimos 25 anos fomos levados a um fenômeno raro na história. Pesquisas metodológicas rigorosas indicam que o síndrome de Distúrbio do Déficit de Atenção e Hiperatividade simplesmente não existe. Inventamos uma doença, a sancionamos e agora devemos desmenti-la. O maior problema é saber como vamos matar o monstro que nós criamos. Não é fácil fazer isto sem nos desmoralizarmos”.

Para não me alongar demais devo fazer um último aviso: a prescrição de medicamentos para as crianças é amplamente justificada com base nestes diagnósticos. A mais conhecida é a ritalina, droga com efeitos colaterais extensos e que causa muitas vezes os sintomas que pretende curar. Seu uso por tempo prolongado pode causar danos cerebrais irreparáveis, além de criar dependência física e assegurar futuros clientes psiquiátricos e fregueses dos laboratórios produtores de drogas psicotrópicas. Mas estes fatos são geralmente escamoteados aos pais.

Segundo Breggin & Breggin a “cura” para essas crianças é uma atenção mais amorosa e racional por parte do pai. Os jovens estão hoje em dia sedentos de atenção por parte de seus pais, atenção que pode vir de qualquer adulto do sexo masculino.

A má influência do feminismo ativista e gay tenta feminizar os homens e retirar deles sua função específica: de chefe da família.

Nota do autor:
Artigo apresentado ao Fórum sobre Educação do Clube Militar. É o primeiro de uma série.

Fonte: midiasemmascara.org

(*)Heitor de Paola (www.heitordepaola.com) é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, e membro do Board of Directors da Drug Watch International. Autor do livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial, possui trabalhos publicados no Brasil e exterior. É ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular (AP).

terça-feira, outubro 11, 2016

O terrorismo vai à universidade: a educação salvará o mundo?.










O terrorismo vai à universidade: a educação salvará o mundo?.






Dizem por aí que a educação salvará o mundo. Será? Esta semana o Le Monde publicou uma matéria que talvez contradiga essa afirmação. O jornal informa que os estrangeiros recrutados pelo Estado Islâmico são“significativamente mais educados que seus compatriotas”. Segundo uma pesquisa, 43,3% dos terroristas completaram os estudos secundários, 25,4% foram à universidade, 13,5% não passaram da escola primária e apenas 1,3% se declararam iletrados. Os demais, 16,3%, não deram nenhuma informação a respeito.

Há poucos dias vi alguém enunciando que pessoas que estudam são boas. Isso é tão coerente quanto afirmar que sujeitos que não estudam são maus. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. João Pereira Coutinho já escreveu sobre o Hitler, o leitor. Se no século XVIII a educação auxiliou a prudência política inglesa, também serviu às guilhotinas francesas. Dito de outra maneira, se durante a Revolução Francesa a educação serviu aos escritos de Edmund Burke, também auxiliou Robespierre e Marat. E educação é uma entidade que pode trabalhar tanto para Deus quanto para o Diabo.

Voltando à matéria, ela aponta que “Os recrutas estrangeiros do grupo Estado Islâmico na Síria têm um nível de educação relativamente elevado.” E mesmo assim continuam bárbaros. Pior ainda, às vezes não é a instrução que separa a civilização da barbárie, mas ao contrário, às vezes é precisamente a instrução que molda os tiranos e faz verter sangue inocente. Foi depois de Mao Tsé-Tung conhecer o marxismo que se tornou um facínora; foi após estudar em Paris que Pol-Pot se converteu num déspota; Che Guevara era médico. Duvido que a leitura por si só cause tanto estrago, mas creio firmemente que ela seja capaz de potencializar anseios nefastos.



A pesquisa também ressalta que uma das causas da radicalização muçulmana seria o desemprego. Mas vale lembrar que a escolha é individual. Ninguém degola os ditos “infiéis” por estar desempregado. No Brasil, mesma coisa. Não é por estar desempregado que o jovem se torna traficante, tendo em vista a existência daquele que prefere catar papelão a comercializar entorpecentes. Isso é desculpa. Aliás, mesmo que o fosse, como diz o existencialismo de Sartre, “o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.” Isso serve de diversas maneiras.

De acordo com o Le Monde, a proporção de jihadistas que possui maior nível de educação aumenta entre aqueles que desejam executar tarefas administrativas e, pasmem, também entre os candidatos ao suicídio. Só ingênuos acreditam que leitura e estudos fazem as pessoas melhores. O gulag não foi criado por analfabetos.



Mas qual a importância disso tudo para os brasileiros? No momento penso em dois pontos. Primeiro: o terrorismo cresce exponencialmente e nada impede que de uma hora para outra um jihadista mande oCristo Redentor pelos ares. Segundo: se adultos com diploma universitário podem se tornar homens-bombas, adolescentes rebeldes em formação podem muito bem aderirem a movimentos políticos sectários a partir do incentivo de professores. Por isso a educação liberal é impreterível.

Sorte nossa que os doutrinadores socialistas estão perdendo terreno e que ainda não temos doutrinadores jihadistas. Dada a sacralização do relativismo cultural, não é de se duvidar que o Escola Sem Partido ganhasse uma ramificação chamada Escola Sem Jihadismo. Dessa forma, tal como o Escola Sem Partido é acusado de querer cercear a liberdade de expressão e reflexão, o Escola Sem Jihadismo seria acusado de xenofobia.

Se a beleza salvará o mundo, como afirmou Dostoievsky, eu não sei, mas sei que a educação pode muito bem destruí-lo.

quarta-feira, outubro 21, 2015

A educação estatal - e como ela seria em um livre mercado.




A educação estatal - e como ela seria em um livre mercado.
por Harry Browne (*),



N. do T.: o artigo a seguir foi adaptado para a realidade brasileira


De todos os passos que foram dados rumo ao caminho da servidão, qual foi o pior?



Em minha opinião, foi o de permitir que o estado educasse nossos filhos, seja diretamente por meio de escolas públicas, seja indiretamente por meio de escolas privadas reguladas integralmente pelo Ministério da Educação.

Dado que a educação que nossos filhos recebem é toda controlada por funcionários públicos, que operam dentro das normas estabelecidas por um sistema estatal, não é surpresa nenhuma que nossos filhos cresçam acreditando que:


— o estado é um árbitro justo, imparcial, amoroso e caritativo, ao contrário de empreendedores privados, que agem somente em interesse próprio;

— programas governamentais realmente entregam aquilo que prometem e, sem eles, as pessoas estariam em situação muito pior;

— sem a saúde e a educação públicas, e sem programas de assistência social do governo, todos morreríamos doentes ainda muito jovens, seríamos analfabetos e as ruas estariam repletas de pessoas passando fome; e

— o estado é o país, e é nosso dever patriótico apoiar toda e qualquer política idiota que o governo decida implementar.


A educação é um desastre. Se você não acredita em mim, pergunte aos próprios políticos. Todo ano de eleição eles aparecem para nos contar como a educação está terrível — crianças que não conseguem ler em idade já avançada, violência nas salas de aula, professores incapacitados e mal pagos, infraestrutura precária e aos pedaços, drogas sendo vendidas dentro das escolas, salas de aula com excesso de alunos etc.

É claro que todos os políticos têm na ponta da língua soluções que irão sanar todos estes problemas. Porém, mesmo depois de eleitos, e de implementarem suas soluções, eles sempre voltam nas eleições seguintes dizendo como a situação da educação continua terrível.

A política e as escolas públicas

A primeira coisa que precisa ser entendida a respeito das escolas públicas é que elas não são instituições educacionais. Elas são agências políticas — logo, são controladas pelo grupo que tenha mais influência política. E isto exclui você e eu.

Não é de se estranhar, portanto, que suas políticas de ensino e de funcionamento sejam ditadas pelos sindicatos dos professores e dos funcionários, bem como pelas fantasias utópicas das universidades nas quais esses professores se formaram. Não existe um sistema de recompensas ou de incentivos para inovações. Mesmo os professores mais bem intencionados não têm oportunidades para utilizar métodos originais, lógicos e sensatos para resolver problemas rotineiros. Não há nenhuma chance de se recompensar aqueles que demonstram um desempenho superior. É a burocracia quem comanda tudo, e a ela todos devem ser submissos.

Para piorar, as escolas públicas acabam ensinando muitas coisas que iriam deixar os pais apavorados — isto se os pais soubessem exatamente o que se passa nas escolas. Orientação sexual e "kit-gay" são apenas a ponta do iceberg. Os alunos são ensinados a atormentar seus pais para que eles reciclem lixo, para que fechem a torneira do chuveiro enquanto estiverem se ensaboando durante o banho, e para que adotem inúmeros outros rituais da nova religião ambientalista. Literatura clássica quase nunca é mencionada. Quando o é, é apenas para mostrar como as pessoas já foram ignorantes e insensíveis, e não para mostrar aos alunos a complexidade da vida e a riqueza do idioma.

Tempo e recursos parece haver de sobra para ensinar as crianças a se conformarem com a ideologia e o pensamento politicamente correto da moda. Porém, se os pais reclamam que seus filhos não estão aprendendo ciências, português, história e matemática, os políticos respondem que está faltando dinheiro, os professores respondem que são mal pagos e vários "agentes sociais" dizem que a nova metodologia de ensino, com maior ênfase na 'consciência social do aluno', é bastante superior ao velho e reacionário método clássico de educação. E, no final, todos se unem para concluir que o grande problema realmente é o governo, que destina poucodinheiro para a educação — logo, novos impostos são necessários.

A questão é: teria como as coisas realmente serem diferentes? Nesse atual arranjo, sem estarem submetidos a uma pressão competitiva, sem estarem sujeitos à concorrência, as pessoas que realmente estão no controle das escolas públicas — os burocratas sindicalizados — estão livres para saciar seus desejos mais indômitos de doutrinar as crianças para que elas sejam cidadãos exemplares da Nova Ordem. Em um sistema como este, os bons professores não têm a menor chance — nem o estímulo — de fazer a diferença.

Público vs. Privado

O problema não são professores despreparados. O problema não é a falta de recursos ou a falta de participação dos pais.

O problema é que as escolas são administradas pelo governo.

Podemos ver isso claramente ao comparar a educação pública com a indústria de computadores — um dos ramos menos regulados em todo o mundo.


— A educação está sob o comando de políticos e burocratas, gente que jamais irá enfrentar pessoalmente as consequências de suas próprias medidas, por mais que arruínem a educação de nossos filhos. E assim, os custos da educação vão ficando cada vez maiores, ano após ano, ao mesmo tempo em que a qualidade e a utilidade decrescem velozmente.

— A produção de computadores, notebooks e afins está sob o comando de empreendedores, pessoas que visam ao lucro e que, por isso mesmo, têm de estar sempre encontrando novas maneiras de nos satisfazer, produzindo cada vez mais com cada vez menos — caso contrário, perderão o que investiram e irão à falência. E assim, computadores, notebooks e demais apetrechos tecnológicos vão ficando cada vez mais baratos, ano após ano (ou mês após mês), ao mesmo tempo em que sua qualidade e utilidade aumentam velozmente.


Ao contrário das empresas de tecnologia, as escolas públicas são organizações monopolistas isoladas da concorrência — e inteiramente sustentadas pela coerção do governo. Um sistema de vouchers para as escolas privadas, nos moldes defendidos por alguns liberais genuínos, não tornaria as escolas públicas mais competitivas simplesmente porque as escolas do governo não precisam competir. (Em nível universitário, já temos os exemplos práticos do ProUni e do Fies, que nada mais é do que uma variância desse esquema de vouchers. O único resultado foi piorar a educação das universidades particulares que recebem esse subsídio, pois agora elas não mais têm de competir por novos alunos; o governo já garante a receita.)

Não importa quantos alunos as escolas públicas percam para as escolas privadas e para aqueles heróis que, à revelia do governo, praticam ensino doméstico; o fato é que as escolas públicas ainda obtêm seus recursos por meio da força — e quanto maiores os seus fracassos, mais eles são utilizados como desculpa para se exigir ainda mais recursos.

Dado que o governo possui livre acesso a um recurso que empresas privadas não têm — o dinheiro dos pagadores de impostos —, ele consegue oferecer seus serviços "gratuitamente". Eles não são realmente gratuitos, é claro; no contexto estatal, "gratuito" significa que todas as pessoas pagam pelo serviço, queiram elas ou não.

Infelizmente, isso que irei dizer agora não é compreendido por todos, mas enquanto o governo puder tributar os cidadãos para lhes fornecer serviços educacionais a preço marginal zero, todo um serviço educacional privado que poderia existir jamais é criado. Não deixa de ser irônico constatar essa contradição: ao mesmo tempo em que o governo vigilantemente pune empresas que praticam "concorrência predatória" (leia-se: fornecem produtos e serviços a preços baixos), ele próprio incorre nessa prática — só que de maneira totalmente coerciva, pois o faz com o dinheiro que confisca da população — no serviço educacional.



Inversão de papéis

Suponhamos que o governo tenha estatizado a indústria de computadores tão logo ela surgiu (tudo para o "bem do povo", claro). Não é difícil imaginarmos como ela seria hoje:


— Um computador pessoal custaria alguns milhões de reais e seria maior que uma casa;

— Ele provavelmente seria capaz de realizar operações de soma e subtração, porém os funcionários públicos iriam nos explicar por que é cientificamente impossível uma máquina destas realizar multiplicações e divisões;

— O custo de um computador subiria continuamente, e cada modelo novo seria pior e mais caro que o do ano anterior;

— Haveria grupos de interesse organizados tentando fazer com que o governo produzisse computadores com DOS, e outros grupos exigindo interface gráfica. Haveria intensos debates sobre se os computadores fornecidos pelo governo deveriam poder acessar sites religiosos ou não.


O lado positivo seria que todos os computadores viriam com um software que ensinaria às crianças como manusear uma camisinha.

Por outro lado...

Agora vamos supor o contrário, que a educação fosse organizada de acordo com a indústria de computadores — formada por empresas privadas concorrendo em um mercado sem barreiras à entrada, livres de todos os tipos de regulamentações, que não estivessem sujeitas a matérias obrigatórias ou a comissões políticas. Em suma, por empresas que simplesmente tivessem de competir pela preferência dos pais.

Como as escolas seriam? Parece-me óbvio que:


— O custo da educação cairia ano após ano, com as empresas encontrando maneiras de fornecer educação de qualidade a custos cada vez menores. E todo o dinheiro que você gasta hoje para pagar pelas escolas públicas por meio de impostos ficaria integralmente com você, para gastar como achar melhor.

— A concorrência faria com que as escolas tivessem de melhorar ano após ano. Não dá para fazer previsões, mas é bem possível que as crianças precisassem passar apenas 3 horas por dia na escola para receber uma educação muito superior do que a obtida hoje nas escolas controladas pelo governo.

— As escolas seriam tão mais estimulantes, que as crianças poderiam perfeitamente querer passar várias horas por dia explorando o mundo da matemática, da história, da geografia, da literatura, da redação ou de qualquer outro tema que tenha despertado sua imaginação.

— Dado que não haveria nenhum Ministério da Educação impondo um determinado tipo de currículo para todo o país, não veríamos mais as brigas amargas sobre os conteúdos ministrados, sobre a necessidade ou não de se ensinar religião, "sensibilidade social" e educação sexual; não haveria problemas com a imposição estatal de "kit-gay" ou com a aceitação ou não de professores homossexuais. Se uma escola quisesse se especializar exclusivamente em esportes, por exemplo, caberia aos pais decidir se querem ou não que seus filhos estudem ali. A liberdade definiria as escolhas. Não mais haveria as centenas de controvérsias que vemos na educação atual, completamente controlada pelos burocratas do Ministério da Educação. Se você não gosta do que a escola do seu filho está ensinando, você simplesmente vai atrás de outra melhor — do mesmo jeito que vai atrás de um supermercado que tenha o que você quer.

— Haveria dezenas de opções disponíveis para você — escolas mais severas, escolas com disciplinas especiais, como música e cinema, escolas alternativas e até mesmo escolas que ofereçam um ensino completo sobre o funcionamento do livre mercado e do empreendedorismo, o que iria ajudar seu filho a obter uma vida mais confortável quando crescesse, além de poupar seu cérebro de infecções marxistas. Algumas escolas poderiam perfeitamente criar um currículo personalizado baseando-se em suas expectativas e nas capacidades de seu filho, ao passo que outras ofereceriam uma educação mais simples a um custo menor para aqueles que precisam economizar.


Temos de agradecer aos céus pelo fato de que nossos computadores e demais aparelhos eletrônicos não são fornecidos pelo estado. Mas também nunca podemos nos esquecer de como a educação poderia ser muito melhor, mais dinâmica e estimulante, se ela fosse tão livre do estado quanto é a indústria tecnológica.

Não há nada de específico na educação que nos faça duvidar de que o mercado poderia fornecê-la. Assim como qualquer produto ou serviço, a educação é uma combinação de terra, trabalho e capital direcionados a um objetivo claro: a instrução de assuntos acadêmicos e relacionados, os quais são demandados por uma classe de consumidores, majoritariamente pais.

O argumento de que uma educação de alta qualidade seria intrinsecamente cara para uma fatia significativa da população não se sustenta. Um livre mercado que consegue saturar a sociedade com telefones celulares, geladeiras, fornos microondas, televisões da alta definição, computadores, tablets e máquinas de lavar certamente pode produzir educação de alta qualidade para as massas. O segredo é a liberdade de empreendimento.



Imagine um mundo em que os impostos para a educação deixassem de existir, em que a liberdade conduzisse a educação de seus filhos e você pudesse escolher uma escola para eles da mesma maneira que escolhe qual artefato eletrônico quer comprar.

Isso é querer demais?



(*)Harry Browne , o falecido autor de Por que o Governo Não Funciona e de vários outros livros, foi candidato à presidência dos EUA pelo Partido Libertário nas eleições de 1996 e 2000.


Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

sábado, setembro 12, 2015

A educação estatal - e como ela seria em um livre mercado.






A educação estatal - e como ela seria em um livre mercado.
por Harry Browne  (*)


N. do T.: o artigo a seguir foi adaptado para a realidade brasileira








De todos os passos que foram dados rumo ao caminho da servidão, qual foi o pior?

Em minha opinião, foi o de permitir que o estado educasse nossos filhos, seja diretamente por meio de escolas públicas, seja indiretamente por meio de escolas privadas reguladas integralmente pelo Ministério da Educação.

Dado que a educação que nossos filhos recebem é toda controlada por funcionários públicos, que operam dentro das normas estabelecidas por um sistema estatal, não é surpresa nenhuma que nossos filhos cresçam acreditando que:



— o estado é um árbitro justo, imparcial, amoroso e caritativo, ao contrário de empreendedores privados, que agem somente em interesse próprio;

— programas governamentais realmente entregam aquilo que prometem e, sem eles, as pessoas estariam em situação muito pior;

— sem a saúde e a educação públicas, e sem programas de assistência social do governo, todos morreríamos doentes ainda muito jovens, seríamos analfabetos e as ruas estariam repletas de pessoas passando fome; e

— o estado é o país, e é nosso dever patriótico apoiar toda e qualquer política idiota que o governo decida implementar.




A educação é um desastre. Se você não acredita em mim, pergunte aos próprios políticos. Todo ano de eleição eles aparecem para nos contar como a educação está terrível — crianças que não conseguem ler em idade já avançada, violência nas salas de aula, professores incapacitados e mal pagos, infraestrutura precária e aos pedaços, drogas sendo vendidas dentro das escolas, salas de aula com excesso de alunos etc.

É claro que todos os políticos têm na ponta da língua soluções que irão sanar todos estes problemas. Porém, mesmo depois de eleitos, e de implementarem suas soluções, eles sempre voltam nas eleições seguintes dizendo como a situação da educação continua terrível.

A política e as escolas públicas

A primeira coisa que precisa ser entendida a respeito das escolas públicas é que elas não são instituições educacionais. Elas são agências políticas — logo, são controladas pelo grupo que tenha mais influência política. E isto exclui você e eu.

Não é de se estranhar, portanto, que suas políticas de ensino e de funcionamento sejam ditadas pelos sindicatos dos professores e dos funcionários, bem como pelas fantasias utópicas das universidades nas quais esses professores se formaram. Não existe um sistema de recompensas ou de incentivos para inovações. Mesmo os professores mais bem intencionados não têm oportunidades para utilizar métodos originais, lógicos e sensatos para resolver problemas rotineiros. Não há nenhuma chance de se recompensar aqueles que demonstram um desempenho superior. É a burocracia quem comanda tudo, e a ela todos devem ser submissos.

Para piorar, as escolas públicas acabam ensinando muitas coisas que iriam deixar os pais apavorados — isto se os pais soubessem exatamente o que se passa nas escolas. Orientação sexual e "kit-gay" são apenas a ponta do iceberg. Os alunos são ensinados a atormentar seus pais para que eles reciclem lixo, para que fechem a torneira do chuveiro enquanto estiverem se ensaboando durante o banho, e para que adotem inúmeros outros rituais da nova religião ambientalista. Literatura clássica quase nunca é mencionada. Quando o é, é apenas para mostrar como as pessoas já foram ignorantes e insensíveis, e não para mostrar aos alunos a complexidade da vida e a riqueza do idioma.

Tempo e recursos parece haver de sobra para ensinar as crianças a se conformarem com a ideologia e o pensamento politicamente correto da moda. Porém, se os pais reclamam que seus filhos não estão aprendendo ciências, português, história e matemática, os políticos respondem que está faltando dinheiro, os professores respondem que são mal pagos e vários "agentes sociais" dizem que a nova metodologia de ensino, com maior ênfase na 'consciência social do aluno', é bastante superior ao velho e reacionário método clássico de educação. E, no final, todos se unem para concluir que o grande problema realmente é o governo, que destina poucodinheiro para a educação — logo, novos impostos são necessários.

A questão é: teria como as coisas realmente serem diferentes? Nesse atual arranjo, sem estarem submetidos a uma pressão competitiva, sem estarem sujeitos à concorrência, as pessoas que realmente estão no controle das escolas públicas — os burocratas sindicalizados — estão livres para saciar seus desejos mais indômitos de doutrinar as crianças para que elas sejam cidadãos exemplares da Nova Ordem. Em um sistema como este, os bons professores não têm a menor chance — nem o estímulo — de fazer a diferença.

Público vs. Privado

O problema não são professores despreparados. O problema não é a falta de recursos ou a falta de participação dos pais.

O problema é que as escolas são administradas pelo governo.

Podemos ver isso claramente ao comparar a educação pública com a indústria de computadores — um dos ramos menos regulados em todo o mundo.



— A educação está sob o comando de políticos e burocratas, gente que jamais irá enfrentar pessoalmente as consequências de suas próprias medidas, por mais que arruínem a educação de nossos filhos. E assim, os custos da educação vão ficando cada vez maiores, ano após ano, ao mesmo tempo em que a qualidade e a utilidade decrescem velozmente.

— A produção de computadores, notebooks e afins está sob o comando de empreendedores, pessoas que visam ao lucro e que, por isso mesmo, têm de estar sempre encontrando novas maneiras de nos satisfazer, produzindo cada vez mais com cada vez menos — caso contrário, perderão o que investiram e irão à falência. E assim, computadores, notebooks e demais apetrechos tecnológicos vão ficando cada vez mais baratos, ano após ano (ou mês após mês), ao mesmo tempo em que sua qualidade e utilidade aumentam velozmente.



Ao contrário das empresas de tecnologia, as escolas públicas são organizações monopolistas isoladas da concorrência — e inteiramente sustentadas pela coerção do governo. Um sistema de vouchers para as escolas privadas, nos moldes defendidos por alguns liberais genuínos, não tornaria as escolas públicas mais competitivas simplesmente porque as escolas do governo não precisam competir. (Em nível universitário, já temos os exemplos práticos do ProUni e do Fies, que nada mais é do que uma variância desse esquema de vouchers. O único resultado foi piorar a educação das universidades particulares que recebem esse subsídio, pois agora elas não mais têm de competir por novos alunos; o governo já garante a receita.)

Não importa quantos alunos as escolas públicas percam para as escolas privadas e para aqueles heróis que, à revelia do governo, praticam ensino doméstico; o fato é que as escolas públicas ainda obtêm seus recursos por meio da força — e quanto maiores os seus fracassos, mais eles são utilizados como desculpa para se exigir ainda mais recursos.

Dado que o governo possui livre acesso a um recurso que empresas privadas não têm — o dinheiro dos pagadores de impostos —, ele consegue oferecer seus serviços "gratuitamente". Eles não são realmente gratuitos, é claro; no contexto estatal, "gratuito" significa que todas as pessoas pagam pelo serviço, queiram elas ou não.

Infelizmente, isso que irei dizer agora não é compreendido por todos, mas enquanto o governo puder tributar os cidadãos para lhes fornecer serviços educacionais a preço marginal zero, todo um serviço educacional privado que poderia existir jamais é criado. Não deixa de ser irônico constatar essa contradição: ao mesmo tempo em que o governo vigilantemente pune empresas que praticam "concorrência predatória" (leia-se: fornecem produtos e serviços a preços baixos), ele próprio incorre nessa prática — só que de maneira totalmente coerciva, pois o faz com o dinheiro que confisca da população — no serviço educacional.



Inversão de papéis

Suponhamos que o governo tenha estatizado a indústria de computadores tão logo ela surgiu (tudo para o "bem do povo", claro). Não é difícil imaginarmos como ela seria hoje:



— Um computador pessoal custaria alguns milhões de reais e seria maior que uma casa;

— Ele provavelmente seria capaz de realizar operações de soma e subtração, porém os funcionários públicos iriam nos explicar por que é cientificamente impossível uma máquina destas realizar multiplicações e divisões;

— O custo de um computador subiria continuamente, e cada modelo novo seria pior e mais caro que o do ano anterior;

— Haveria grupos de interesse organizados tentando fazer com que o governo produzisse computadores com DOS, e outros grupos exigindo interface gráfica. Haveria intensos debates sobre se os computadores fornecidos pelo governo deveriam poder acessar sites religiosos ou não.



O lado positivo seria que todos os computadores viriam com um software que ensinaria às crianças como manusear uma camisinha.


Por outro lado...


Agora vamos supor o contrário, que a educação fosse organizada de acordo com a indústria de computadores — formada por empresas privadas concorrendo em um mercado sem barreiras à entrada, livres de todos os tipos de regulamentações, que não estivessem sujeitas a matérias obrigatórias ou a comissões políticas. Em suma, por empresas que simplesmente tivessem de competir pela preferência dos pais.


Como as escolas seriam? Parece-me óbvio que:




— O custo da educação cairia ano após ano, com as empresas encontrando maneiras de fornecer educação de qualidade a custos cada vez menores. E todo o dinheiro que você gasta hoje para pagar pelas escolas públicas por meio de impostos ficaria integralmente com você, para gastar como achar melhor.

— A concorrência faria com que as escolas tivessem de melhorar ano após ano. Não dá para fazer previsões, mas é bem possível que as crianças precisassem passar apenas 3 horas por dia na escola para receber uma educação muito superior do que a obtida hoje nas escolas controladas pelo governo.

— As escolas seriam tão mais estimulantes, que as crianças poderiam perfeitamente querer passar várias horas por dia explorando o mundo da matemática, da história, da geografia, da literatura, da redação ou de qualquer outro tema que tenha despertado sua imaginação.

— Dado que não haveria nenhum Ministério da Educação impondo um determinado tipo de currículo para todo o país, não veríamos mais as brigas amargas sobre os conteúdos ministrados, sobre a necessidade ou não de se ensinar religião, "sensibilidade social" e educação sexual; não haveria problemas com a imposição estatal de "kit-gay" ou com a aceitação ou não de professores homossexuais. Se uma escola quisesse se especializar exclusivamente em esportes, por exemplo, caberia aos pais decidir se querem ou não que seus filhos estudem ali. A liberdade definiria as escolhas. Não mais haveria as centenas de controvérsias que vemos na educação atual, completamente controlada pelos burocratas do Ministério da Educação. Se você não gosta do que a escola do seu filho está ensinando, você simplesmente vai atrás de outra melhor — do mesmo jeito que vai atrás de um supermercado que tenha o que você quer.

— Haveria dezenas de opções disponíveis para você — escolas mais severas, escolas com disciplinas especiais, como música e cinema, escolas alternativas e até mesmo escolas que ofereçam um ensino completo sobre o funcionamento do livre mercado e do empreendedorismo, o que iria ajudar seu filho a obter uma vida mais confortável quando crescesse, além de poupar seu cérebro de infecções marxistas. Algumas escolas poderiam perfeitamente criar um currículo personalizado baseando-se em suas expectativas e nas capacidades de seu filho, ao passo que outras ofereceriam uma educação mais simples a um custo menor para aqueles que precisam economizar.



Temos de agradecer aos céus pelo fato de que nossos computadores e demais aparelhos eletrônicos não são fornecidos pelo estado. Mas também nunca podemos nos esquecer de como a educação poderia ser muito melhor, mais dinâmica e estimulante, se ela fosse tão livre do estado quanto é a indústria tecnológica.Não há nada de específico na educação que nos faça duvidar de que o mercado poderia fornecê-la. Assim como qualquer produto ou serviço, a educação é uma combinação de terra, trabalho e capital direcionados a um objetivo claro: a instrução de assuntos acadêmicos e relacionados, os quais são demandados por uma classe de consumidores, majoritariamente pais.

O argumento de que uma educação de alta qualidade seria intrinsecamente cara para uma fatia significativa da população não se sustenta. Um livre mercado que consegue saturar a sociedade com telefones celulares, geladeiras, fornos microondas, televisões da alta definição, computadores, tablets e máquinas de lavar certamente pode produzir educação de alta qualidade para as massas. O segredo é a liberdade de empreendimento.



Imagine um mundo em que os impostos para a educação deixassem de existir, em que a liberdade conduzisse a educação de seus filhos e você pudesse escolher uma escola para eles da mesma maneira que escolhe qual artefato eletrônico quer comprar.

Isso é querer demais?


(*)Harry Browne , o falecido autor de Por que o Governo Não Funciona (Why Government Doesn't Work) e de vários outros livros, foi candidato à presidência dos EUA pelo Partido Libertário nas eleições de 1996 e 2000.


domingo, julho 05, 2015

Educação domiciliar, casamento gay, liberais ateus e outras notas.










Por Alexandre Magno Fernandes Moreira



Dias atrás um amigo brincou, dizendo: "do jeito que as coisas estão indo, o STF vai acabar considerando obrigatória a educação domiciliar!" Na hora, achei engraçado o otimismo dele, mas depois me lembrei que na verdade a educação domiciliar já é obrigatória. Quando a Constituição declara que a educação é um dever da família, está obrigando os pais a educarem seus filhos em casa. A educação domiciliar, portanto, não é um direito dos pais, mas um dever que deve ser cumprido por eles, sem possibilidade alguma de delegação.


O que está em discussão agora no STF é se um dos componentes da educação, a instrução, pode ser dada exclusivamente em casa ou se requer a frequência a uma escola. Nós estamos preparados para demonstrar não apenas que os pais têm autonomia para decidir sobre isso como também em regra têm condições adequadas para instruir os filhos em casa.

*

Está confirmado para a Global Homeschool Convention (Rio de Janeiro, março de 2016) Sugata Mitra, uma das maiores autoridades mundiais em inovação educacional. Vale a pena conferir sua fantástica palestra no TED:






O pessoal "mais esclarecido" adora propagar a existência de uma equação que seria mais ou menos assim: "mais escolas é igual a menos presídios". Em outras palavras, quanto maior o acesso à educação formal, menor a criminalidade. O curioso é que no Brasil tem acontecido o fenômeno inverso: há pelo menos três décadas, o aumento da criminalidade está ocorrendo de forma concomitante com o aumento do acesso à educação formal, e ambos de forma bem expressiva. Quem tiver paciência, pode conferir, por exemplo, a evolução do número de homicídios conjugada com o número de estudantes universitários; nas duas situações, os números foram multiplicados por várias vezes nas últimas décadas. Em estatística, isso pode significar duas coisas: a) não há relação nenhuma entre essas duas variáveis; ou b) o aumento de uma contribui, ou é até mesmo determinante, para o aumento da outra. Neste ponto, sou obrigado a fazer uma pergunta incômoda: e se a verdadeira equação for "mais escolas é igual a mais presídios"? Em outros termos, e se o aumento do acesso à escola estiver de algum modo contribuindo para o aumento da criminalidade?

*

Não acredito no discurso do pragmatismo. Seres humanos são profundamente emocionais e simbólicos, e apenas raramente agem tendo em vista um resultado futuro favorável. Então, quase sempre em que alguém usa um raciocínio consequencialista, fico me indagando qual é a sua real motivação.

Isso me veio à mente quando assisti o entusiasmo dos deputados de esquerda com a rejeição da emenda constitucional que previa a redução da maioridade penal para 16 anos (apenas para crimes hediondos). Afora alguns que têm um interesse concreto no aumento da criminalidade, todos estavam agindo para defender sua visão de mundo, essencial à sua identidade como seres humanos. O esquerdista típico acredita na bondade inata das pessoas, que seriam corrompidas pela "sociedade" (sim, isso é Rousseau!), mais exatamente por não ter tido oportunidades suficientes nessa sociedade.

É inconcebível para a esquerda a existência do mal. Tudo seria resolvido por mais oportunidades econômicas e mais educação. É mais ou menos assim: o sujeito mata e estupra porque é pobre (já perceberam o preconceito contra os pobres?) e porque não estudou suficientemente Geografia, Química e Matemática. Faz sentido pra você?

*

É difícil imaginar um sujeito mais esquizofrênico do que o militante liberal e ateu. Ele realmente acredita na utopia de um mundo sem religião e com Estado mínimo. Para essa pessoa, além de sugerir um bom psiquiatra, não custa nada lembrar que, ao menos no mundo ocidental, a principal força contra a expansão do poder estatal é a religião, essencialmente as várias denominações cristãs. Aliás considerando que quase toda caridade privada é feita por meio de organizações religiosas, se estas deixarem de existir, qual entidade você acha que vai assumir esse espaço?

*

Boa parte das pessoas se casa e tem filhos principalmente por status. Constituir família seria um atestado de que a pessoa tornou-se madura, ultrapassou os desvarios da juventude. A pressão implícita dos amigos tem papel fundamental nessa decisão (quando quase todos os amigos se casaram, você sente que "o cerco está se fechando"). A partir de certa idade, pega mal não estar casado ou não ter filhos. O resultado dessa busca por status são casamentos que nunca deveriam ter acontecido, pois um ou mesmo os dois cônjuges não têm nenhuma vocação matrimonial e assim apenas conseguem criar um inferno para si mesmos. Da mesma forma, filhos são muitas vezes gerados apenas para que seus genitores possam se declarar "pai e mãe" perante seus pares; obviamente, gerar é muito mais fácil que educar, o que leva ao conhecido fenômeno da "terceirização dos filhos".

Permitam-me perguntar: como seria se o casamento e a criação de filhos não gerassem absolutamente nenhum status, nenhuma nova forma de respeitabilidade?

*

Nessas discussões coloridas e acaloradas sobre a decisão da Suprema Corte americana, acho que dois fatores importantes estão passando despercebidos.

Em primeiro lugar, tanto nos EUA quanto aqui, a Constituição não prevê o direito ao casamento gay. Em ambos os países, as cortes supremas fingiram interpretar a Constituição quando na verdade apenas expressaram a ideologia da maioria de seus membros (no caso do STF, de todos os seus membros). Isso deveria deixar de cabelo em pé todas as pessoas que atuam na área jurídica, independente da sua opinião sobre o assunto. Pelo visto, não provocou comoção nenhuma. Bem, tanto aqui como lá, o desprezo pela Constituição vem travestido como interpretação desta. Nunca se sabe o que virá a seguir...

Em segundo lugar, parece que esqueceram de alguém nessa equação: as crianças, que, nos termos da Constituição, devem ter "prioridade absoluta". Alguém por acaso já ouviu falar em um estudo empírico sobre menores criados por casais gays? Pois é, nem eu! Quer dizer que criaram uma nova instituição jurídica sem saber qual o efeito que terá sobre os membros mais frágeis da sociedade? Vale lembrar o óbvio: reconhecer a existência jurídica do casamento homossexual significa necessariamente reconhecer o direito de os cônjuges adotarem. E o direito dos futuros adotandos? Ninguém está preocupado com isso?

*

O conservadorismo em uma frase: "a realidade existe" (você é livre para ir contra ela, mas terá que arcar com as consequências). O esquerdismo em uma frase: "tudo são opiniões" ("e nós queremos impôr nossas opiniões a vocês ").

*

Há uma gigantesca diferença entre ser vítima e fazer o papel de vítima. Todos nós já fomos vítimas de injustiças incontáveis vezes. Desde um chefe que indevidamente não reconheceu o trabalho do subordinado até a pessoa que brigou com o cônjuge apenas para descontar em alguém a sua frustração com a vida, não faltam situações em que somos injustamente prejudicados. A grande questão é como reagir aos infortúnios inevitáveis da vida.

De modo bastante simples, a pessoa pode agir ou reclamar. Ao agir, os reveses são reconhecidos como oportunidades de crescimento, amadurecimento e aprendizado. Não se perde tempo buscando culpados: ou se busca uma solução ou se releva o infortúnio como algo irrelevante. Essa é atitude de uma pessoa emocionante adulta.

Por outro lado, quem apenas reclama escolhe o papel de vítima. Ele decidiu jogar toda a responsabilidade por sua vida nas costas alheias. "O mundo é injusto e eu nunca sou responsável pelas coisas ruins que me acontecem" é o lema de sua vida. E com muita facilidade racionalizam esse sentimento. Sempre encontram bons argumentos. São os adolescentes emocionais, mesmo que há muito já tenham passado dos 18 anos.

Todos são livres para escolher uma ou outra atitude. Porém, ao escolher o papel de vítima, as pessoas abrem mão da maior dádiva que o ser humano tem: a de definir seu próprio destino.

*

É muito fácil descobrir se uma pessoa é feliz ou não: basta pedir que ela fique totalmente parada, sem fazer nada, por, digamos, cinco minutos. Se ao final desse período, ela se sentir ansiosa para fazer algo, qualquer coisa mesmo, a infelicidade predomina. Se, ao contrário, ela se sentir bem consigo mesma, sem angústia ou ansiedade, estamos diante de uma pessoa feliz. A verdadeira felicidade é isso: saber que o simples fato de você existir já é o suficiente para sentir-se bem.


Alexandre Magno Fernandes Moreira é advogado.