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sábado, outubro 10, 2015

“Fora Dilma”, “fora Lula” e “fora PT” não bastam.




“Fora Dilma”, “fora Lula” e “fora PT” não bastam.

por Ricardo Alfaya Saravia.


E eis que após sete meses de governo, parcelamento de salários de funcionários públicos, protestos, paralisações e ameaças, sobretudo de aparelhos sindicais, o atual governo do Rio Grande do Sul, eleito em repúdio ao governo petista anterior, apresentou uma proposta genial para consertar a ruína causada pelos administradores petistas: Aumentar impostos! Uma proposta genuinamente... petista!



Enquanto o vigarista neobolchevique Tarso Genro e a esquerdalha, a esquerda canalha, que acabaram de arruinar as finanças do Rio Grande do Sul, debochavam da falta de soluções por parte do governo que os sucedeu, os eleitores de José Ivo Sartori (PMDB), desorientados, passivos, nem pensaram em reagir contra a proposta de aumento da extorsão tributária apresentada pelo governo que elegeram. E assim terminaram trocando seis por meia dúzia. Assegurando a continuidade do jeito petista de governar, enquanto o PT estiver oficialmente fora do governo e ao mesmo tempo pavimentando o caminho para sua volta ao governo oficial.


Entenda-se jeito petista de governar como basicamente: deficiência nos serviços essenciais do estado, decorrente da dissipação dos recursos públicos em assistencialismo populista, privilégios corporativos estatais, beneficialismos previdenciários insustentáveis e déficits públicos sistemáticos. Impostos extorsivos e discriminatórios. Aparelhamento e inchaço da máquina estatal. Intervencionismo, despotismo burocrático, expansionismo de crédito sem lastro, chinelagem administrativa, falcatruas contábeis, corrupção institucionalizada e degradação sociocultural generalizada. Este modelo petista verte do padrão de estado e governo esquerdistas mundo a fora: concentração de poder e riqueza nas mãos dos agentes do estado, opressão das liberdades individuais, avassalamento da iniciativa privada e obstinação em burlar por decreto a realidade, a natureza humana, leis inexoráveis da economia e princípios elementares da boa administração pública. Sempre em nome de “justiça social”, inclusão, etc.


A proposta de aumento de impostos mostrou que o atual governo, em vez de enfrentar tudo isso, pretende manter a estrutura. Não apenas por ser muito mais fácil achacar impostos dos contribuintes vassalos que enfrentar as corporações estatais, onde se encontram os verdadeiros donos do poder, mas também porque o governo Sartori, predominantemente esquerdista da cúpula à base, não concebe formas de governar ou modelos de estado fora do padrão esquerdista. A passividade dos contribuintes ante mais um achaque estatal mostrou que a população, perdida entre a alienação e o esquerdismo consciente ou inconsciente, tampouco consegue imaginar um outro estado possível.


Desalojar o PT do governo e manter o jeito petista de governar é mudar para que as coisas fiquem como estão. É como tomar uma fortaleza, trocar os uniformes dos combatentes inimigos e mantê-los no comando. O PT é apenas a organização intelectual-político-criminosa que viabilizou a ascensão da esquerda neocomunista ao poder oficial, servindo como uniforme de camuflagem. Um uniforme cheio de simbolismo, mas que pode ser descartado de acordo com a conveniência. O que importa para ideólogos e agentes esquerdistas é comandar, independente do uniforme. Na verdade, em algumas situações é mesmo muito melhor comandar usando uniformes dos adversários. O próprio Lula teria admitido isso, ao avaliar que “do jeito que as coisas estão, seria melhor que o Aécio tivesse ganhado a eleição”.


A grande maioria da população do “estado mais politizado do país” (risos), incluindo intelectuais, jornalistas e doutos formadores de opinião, não consegue perceber sequer as táticas ostensivas do PT, muito menos as estratégias mais ardilosas do jogo político no qual é manobrada.


Como não sou intelectual, jornalista ou douto formador de opinião, na última eleição cheguei à conclusão de que ainda não era o melhor momento para tirar o PT do comando dos executivos do Rio Grande do Sul e do Brasil.... A bomba-relógio que petistas e aliados fabricaram sem desarmador, estava prestes a explodir e precisava explodir nas mãos deles próprios. Eles precisavam colher o que semearam. Além do mais, nem Sartori nem Aécio pareciam ter intenção ou força para promover as reformas estruturais que o Rio Grande do Sul e o Brasil necessitam. Aécio, pelo menos demonstrara coragem nos debates com Dilma, mas Sartori fora de uma covardia repulsiva diante de Tarso Genro e era óbvio que se não tivera coragem nem para contra-atacar um vigarista político que arruinara o Rio Grande do Sul, muito menos teria para atacar os problemas estruturais do estado. Concluí então que, nesse contexto, seria melhor manter o PT nos governos estadual e federal, mas aumentar as bancadas de oposição nos legislativos.


Bastaram alguns meses de reeleição do PT no governo federal e de substituição no governo do Rio Grande do Sul, para comprovar isso. Enquanto no resto do Brasil a população desiludida se voltou contra Dilma, Lula e o PT, aqui no “politizadíssimo” (mais risos) Rio Grande do Sul, em meio à ruina financeiro-administrativa deixada pelo governo petista, à fúria de corporações estatais diante da possibilidade de precisarem se adequar a um limite de espoliação tributária e à perplexidade passiva dos contribuintes vassalos, eis que o governo eleito para rechaçar o PT, apresentou mais do mesmo como única saída para a ruína causada pelo PT.... Mais jeito petista de governar!


Pior que o achaque tributário proposto como única alternativa, foi a mensagem passada de que não existe outra forma de governar, que é impossível mudar a estrutura estatal vigente e que não existe outro modelo de estado a estabelecer. Pior que a mensagem passada pelo governo Sartori, foi a conivência generalizada no jornalismo formador de opinião da grande mídia, que se encarregou de ocultar da população a alternativa de mudar a estrutura estatal parasita, incompetente, corrupta e opressora que aí está.


No jornalismo independente, praticado apenas na Internet, se destacaram os combativos jornalistas Gilberto Simões Pires, Políbio Braga e Vitor Vieira, que através de seus blogs, ousaram posicionar-se contra o aumento de impostos e esclarecer a respeito da necessidade de reformas estruturais no estado. Vitor Vieira chegou a publicar uma lista detalhada com 29 medidas concretas (privatizações, extinções de privilégios corporativos, etc.) que proporcionariam saneamento financeiro, aumento de arrecadação e eficiência sem aumentar impostos.


Embora tudo indicasse que o achaque seria aprovado na Assembleia Legislativa, eu e uns poucos amigos resolvemos fazer um protesto público, por mais inócuo e quixotesco que fosse. Como adversidade adicional tínhamos o contexto de vivermos em uma decadente cidade do interior do Rio Grande do Sul, que de tão politizada é governada pelo PT há 15 anos e onde a mentalidade é tão avançada que, entre outras peculiaridades, foi proibido asfaltar avenidas ainda pavimentadas com pedra lascada irregular, construir edifícios com mais de cinco andares e abrir supermercados aos domingos.


Realizamos nosso protesto com a satisfação de quem se afasta da enganosa zona de conforto onde se mantém a massa submissa e a sensação de quem combate um incêndio florestal jogando baldes de água. Num domingo à tarde, nos dirigimos aos prédios das secretarias de fazenda estadual e municipal, com faixas e cartazes. Distribuímos um manifesto e um panfleto com uma relação de medidas que deveriam ser tomadas para sanear as finanças estaduais, sem aumento de impostos. Nos cartazes, que foram afixados nas fachadas dos órgãos arrecadadores estadual e municipal, mensagens claras como: “Em vez de aumentar impostos diminuam privilégios no setor público“, “em vez de aumentar impostos diminuam a corrupção”, “em vez de aumentar impostos diminuam o estado”, “o maior explorador do povo é o estado”, “Aumentar impostos é o jeito petista de governar”, “parasitas estatais, chega de achacar os contribuintes”, etc.


Entre demonstrações de alienação predominante, tímidas simpatias e alguns apoios por parte da população achacada, quem mais parece ter entendido nossa mensagem foram os agentes estatais que, pelo que se soube, lepidamente removeram os cartazes no início do expediente na manhã seguinte.


Dias depois, como previsto, o governo Sartori conseguiu aprovar seu aumento de impostos, para manter o modelo de estado parasita, ineficiente, corrupto e opressor, padrão esquerdista. De quebra, Sartori e aliados ainda proporcionaram palco para a esquerdalha se apresentar cinicamente contra o aumento de impostos e como “alternativa” a si própria. Enquanto entre a população decepcionada ganharam força as opiniões de que “não tem jeito”, “políticos são todos iguais, “isso nunca vai mudar”, e “não há o que fazer”.


A experiência de falsa mudança no Rio Grande do Sul serve de alerta para o resto do Brasil: Não adianta tirar Lula, Dilma e o PT do governo, se os sucessores derem continuidade ao jeito petista de governar. O governo petista e seu modelo estatal precisam cair juntos. O governo já está desmoronando, mas sua estrutura estatal ainda se escora em interesses de beneficiários privilegiados e apaniguados, na passividade comodista e sobretudo na falta de entendimento da população.


Se por um lado, nunca antes tantos brasileiros identificaram o PT como uma organização político-criminosa da qual precisam se livrar, por outro, poucos percebem que por trás dessa organização político-criminosa há uma ideologia, centrada em um modelo de estado em uma forma de governar, que está para o PT assim como um combatente está para um uniforme e é ela que precisa ser combatida, independente do uniforme que use.


Antes de defenestrar Dilma, Lula e o PT, ainda há trabalho a fazer... É preciso esclarecer à população que quem está arruinando o Brasil não são apenas Dilma, Lula, o PT e os petralhas, mas sobretudo uma visão socioeconômica radicalmente tacanha, um modelo de estado opressor e uma forma de governar canalha, que podemos chamar de mentalidade esquerdalha.


“Fora Tarso” e “fora PT”, não bastaram no Rio Grande do Sul. “Fora Lula”, “fora Dilma” e “fora PT” não bastam para o Brasil.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Dois pretos, duas medidas.












por Paulo Cruz (*)


Há um tempo atrás, pensando no método estatístico dos “justiceiros sociais” da esquerda, produzi um gráfico do tipo “preciso desenhar?”. Ei-lo:




A proposição é muito simples:

Se um sujeito mestiço claro (como alguns rappers famosos brasileiros), cresce na periferia, ouvindo rap e samba o dia inteiro, andando com negros a vida toda — pois é evidente que há mais negros na periferia –, qual a probabilidade de ele se definir como negro quando indagado a respeito de sua “raça”? Não precisa responder; apenas pense.
Agora pense num outro, com o mesmo tom de pele, crescendo na classe média alta, ouvindo Bach, frequentando museus e viajando para o exterior uma vez ao ano. Como este se definirá?

Não é possível saber com certeza, mas me parece que um mestiço que cresça na periferia tende muito mais a se autodeclarar negro do que aquele que não convive com negros; ainda mais se os seus ascendentes diretos (pai, mãe e avós) não forem negros.

O conceito de autodeclaração é extremamente subjetivo, para não dizer falso. Utilizar-se desse artifício espúrio para garantir cotas raciais (!) ou estimar a população carcerária, é uma falsificação da realidade brasileira. Os negros somam mais de 50% da população. O problema é que, destes, apenas 7,6 são pretos, e 43,1 são pardos. (Fonte:Censo 2010 no UOL)


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Entre os universitários também se dá o mesmo: em 2010, no grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava a universidade, 31,1% eram brancos, 12,8% eram pretos e 13,4% pardos. Ou seja, somados, pretos e pardos são 26,2%, uma diferença muito menor do que fazem parecer os ideólogos. (Fonte: Censo 2010)

E entre a população carcerária também é a mesma coisa. Vejam o que diz o site Afropress:

Até junho de 2013 (os dados estão sendo divulgados com atraso de um ano, provavelmente por causa das eleições), o Brasil tinha 574.027 pessoas presas – a quarta maior população carcerária do mundo. Do total de pessoas presas 289.843 são pretas e pardas (86.311 pretas e 221.404 pardas). Os brancos são cerca de 176.137, os amarelos, 2.755, indígenas 763 e 11.527 são classificados como “outras”, ou seja, não se enquadram na terminologia adotada pelo IBGE, que define cinco categorias: preto, pardo, amarelo, indígena e branco (grifo meu).

Ou seja, a maioria da população carcerária é composta de pardos, e não de negros.

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Quem é branco e quem é negro nesta foto?


O que se conclui? Que o Governo e os Movimentos Sociais manipulam os dados como querem — para não dizer que manipulam as pesquisas (mas isso não digo).

É sempre oportuno lembrar o que disse o velho Aristóteles, há milhares de anos, em sua Metafísica:

“Nem a cor branca, nem a cor preta no homem produzem uma diferença de espécie e entre o homem branco e o homem preto não existe diferença de espécie; e não haveria diferença de espécie mesmo que déssemos um nome diferente a cada um. De fato, branco e preto só é o homem entendido como matéria, e a matéria não produz diferença” (1058b).

Ou seja, falar em raça em termos biológicos é uma estupidez. Em termos culturais, é discriminação.

Outra coisa curiosa é a velha história, defendida pelo Movimento Negro, de que o conceito de Democracia Racial visa a embranquecer a população. Tudo bem que esse pensamento é uma reação amedrontada às ideias eugenistas e evolucionistas em voga no séc. XIX, defendidas por intelectuais como Sílvio Romero — e inspiradas, sobretudo, nas teses estúpidas de Arthur de Gobineau. Porém, a realidade tem mostrado o contrário. Vejamos:

Em 2000, os brancos somavam 53,74% da população; em 2010 eram 47,33%. Já os pardos passaram de 38,45% para 43,13%, e os negros de 6,21 % para 7,61%. Ou seja, o que está diminuindo é a população branca!

E aqui, mais uma vez, o genial Gilberto Freyre (não obstante sua completa demonização pela esquerda acadêmica), tem razão: o Brasil é mestiço. Essa é a verdadeira riqueza da nação brasileira. E nenhum esperneio ou negacionismo mudará isso.

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“Operários”, de Tarsila do Amaral. Ou: quando os comunistas, num ato falho, enxergam a realidade.


A cultura e a contribuição dos negros e seus ascendentes africanos jamais será apagada da história brasileira, e não importa o quão mais clara ou escura a pele de sua população se torne. E, convenhamos: são as afinidades eletivas — e o amor, evidentemente — que determinam os relacionamentos amorosos, não a ideologia de raças.


(*) Paulo Cruz é professor de filosofia e mestrando em Ciências da Religião.


quarta-feira, julho 22, 2015

O papa Francisco e o populismo econômico.






O papa Francisco e o populismo econômico.
por Dr. Samuel Gregg,





Desde que o finado Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela, em 1999, grande parte da América Latina tem estado firmemente sob o domínio de governos populistas de esquerda.


Caracterizados por líderes caudilhistas, por uma retórica demagógica, pela mobilização deliberada de um grupo contra o outro (pobres contra ricos, negros contra brancos, indígenas contra descendentes de europeus), pela atribuição da culpa dos problemas do continente aos estrangeiros, pela eliminação dos judiciários independentes, pela estatização de grandes segmentos da economia, e por tentativas de controlar a imprensa, todos esses regimes infligiram enormes prejuízos econômicos às nações latino-americanas.

Contrariamente às declarações públicas de celebridades de Hollywood (como Oliver Stone, Sean Penn e Michael Moore), a Venezuela é simplesmente o país em situação mais crítica, com hiperinflação, controles de preços,escassez de produtos básicos (tal como papel higiênico), uso sistemático de violência contra os críticos do regime e um completo desprezo pelo estado de direito.

Já a atitude dos líderes populistas latino-americanos em relação àquela instituição que ainda não foram capazes de dominar — a Igreja Católica — varia. De um lado, eles estão constantemente em atrito com muitos bispos católicos. Em janeiro de 2015, uma carta pastoral emitida pelos bispos católicos da Venezuelacorajosamente descreveu as políticas do governo como "totalitárias e centralistas". Nas palavras dos bispos, "o regime busca controlar todos os aspectos da vida do cidadão e de instituições públicas e privadas. Também ameaça a liberdade e os direitos de cidadãos e associações, tendo levado à opressão e ruína em todos os países em que foi tentado". 

A reação do governo a essa crítica foi a demagogia de sempre. Não obstante, esses mesmos líderes populistas regularmente invocam os símbolos cristãos para tentar legitimar suas ideologias. O "presente" que o presidente da Bolívia Evo Morales entregou ao papa Francisco, o "crucifixo comunista", é um exemplo disso.

Quaisquer que tenham sido os motivos do falecido padre que projetou a cruz (Luis Espinal, um ativista jesuíta), o fato de que a foice e o martelo simbolizam o materialismo filosófico, os estados policiais, o aprisionamento em massa, a tortura e o assassinato de milhões de pessoas nada significa para o provinciano mundo do populismo de esquerda latino-americano. 

"A influência anônima do ídolo dinheiro"


O que nos leva a algumas das declarações de Francisco durante sua recente visita à Bolívia.

Francisco conhece os movimentos populistas. Como arcebispo de Buenos Aires, ele teve de lidar com os Kirchners na Argentina e não desfrutava de boas relações com aquele governo peronista que prejudicou severamente uma nação que já havia se tornado um exemplo notório de autoimolação econômica ao longo do século XX.

Dito isso, algumas expressões utilizadas pelo papa Francisco na Bolívia durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares não somente ecoou temas particulares enfatizados pelos populistas da América Latina, como também recorreu a alguns de seus diagnósticos equivocados sobre os problemas da região.

Com efeito, qualquer pessoa que já passou algum tempo na América Latina sabe que a maioria desses países sofre de problemas econômicos profundos. Porém, embora o discurso do papa tenha observado que o estado de bem-estar não é a solução para esses desafios, sua análise das dificuldades da região foi falha.

Em primeiro lugar, Francisco discutiu as injustiças infligidas pelo "sistema", termo esse com o qual ele parece querer se referir à globalização econômica. Esse "sistema", argumentou ele, resulta em uma "economia de exclusão" que nega a milhões de pessoas as bênçãos da prosperidade. Francisco, em seguida, atacou especificamente "as corporações, os credores, e alguns tratados denominados de 'livre comércio'" como parte da "influência anônima do ídolo dinheiro" e do "novo colonialismo".

É difícil distinguir parte dessa retórica daquela utilizada por populistas latino-americanos, desde o falecido Juan Perón na Argentina a Evo Morales na Bolívia, passando por Rafael Correa do Equador, e Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela.

Isso posto, é de se perguntar se o papa Francisco e seus conselheiros alguma vez já se deram ao trabalho de ler sobre os respectivos méritos do livre comércio em relação ao protecionismo. Se o tivessem feito, saberiam que tarifas protecionistas e subsídios estatais são medidas que favorecem exatamente as grandes corporações nacionais — que passam a usufruir uma reserva de mercado dentro de seus respectivos países, podendo agora vender produtos ruins a preços altos para a população nacional, sem perigo de concorrência —, em detrimento dos mais pobres, que agora não apenas estão excluídos do mercado internacional, sem chances de adquirir produtos externos mais baratos (os quais elevariam sobremaneira seu padrão de vida), como também são obrigados a comprar apenas os produtos produzidos pelas grandes corporações nacionais.

Mais ainda: caso Francisco e seus conselheiros soubessem algo sobre livre comércio e protecionismo, já teriam percebido que tarifas protecionistas e subsídios estatais também são exatamente as medidas que permitem aos países já desenvolvidos limitar o acesso dos países em desenvolvimento aos mercados globais.

O protecionismo nada mais é do que uma medida imposta por burocratas que agem para proteger o interesse de grandes empresários nacionais (que são os grandes doadores de campanhas políticas), obrigando assim o consumidor (principalmente os mais pobres) a comprar apenas produtos nacionais caros e ruins nacionais, satisfazendo assim o grande empresariado do país.

Qual a consequência do protecionismo? Preços constantemente altos e péssimos produtos (por que se esforçar para fazer produtos bons se a concorrência foi suprimida?). 

Não há política mais anti-pobre do que tarifas de importação. Por definição, é o protecionismo que é uma forma de "economia de exclusão" — não o livre comércio

Da mesma forma, embora o histórico das corporações multinacionais nos países em desenvolvimento não seja puro, o fato é que foram elas que proveram os investimentos e os empregos tão necessitados pela América Latina. Como disse o economista Walter Williams:




Pelo bem da argumentação, suponha que, sem a presença de uma empresa multinacional, o melhor emprego que um ugandense pobre e sem instrução fosse capaz de conseguir lhe pagasse US$ 2 por dia. E então vem uma empresa multinacional, constrói uma fábrica em Uganda e contrata esse ugandense por US$ 4 por dia, um salário muito abaixo daquele que ela paga aos seus empregados nos EUA. Uma simples questão de bom senso diria que esse ugandense ficou em melhor situação em decorrência da presença de uma empresa multinacional. E esse mesmo bom senso diria que ele estaria em pior situação caso essa multinacional fosse politicamente pressionada para sair do país. Faz algum sentido dizer que uma ação que melhora a situação de um ugandense é uma "exploração"?

Francisco também lamentou que "novas formas de colonialismo" frequentemente reduzem os países em desenvolvimento a "meros fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra barata". Porém, se os países em desenvolvimento pararem de usufruir justamente essa que é frequentemente sua vantagem comparativa na economia global — sua mão-de-obra mais barata e seus vastos recursos naturais —, é difícil ver como eles poderiam gerar riqueza suficiente para tirar milhões da pobreza.

No que mais, países em desenvolvimento necessitam enormemente do capital externo caso queiram diminuir a pobreza. Como disse Lee Kuan Yew, o pai da modernização de Cingapura:

Enquanto a maioria dos países do Terceiro Mundo denunciava a exploração das multinacionais ocidentais, nós as convidamos todas para ir a Cingapura. Desse modo conseguimos crescimento, tecnologia e conhecimento científico, os quais dispararam nossa produtividade de uma maneira mais intensa e acelerada do que qualquer outra política econômica alternativa poderia ter feito.


Incoerente e desatento às evidências

Curiosamente, o discurso de Francisco não continha nenhuma palavra de reprimenda às contribuições dos regimes populistas da América Latina para os problemas da região. Nesse quesito, seus comentários apenas refletiram uma já conhecida cegueira latino-americana: a relutância em reconhecer que muitas das dificuldades da região são auto-infligidas, e frequentemente por governos eleitos pela maioria.

Quando perguntado sobre o discurso do papa, Frederico Lombardi, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé,descreveu-o como sendo parte de um "diálogo". Mas um diálogo significativo envolve uma troca de visões na busca da verdade. Infelizmente, não há nenhuma evidência de que Francisco está ouvindo, por exemplo, os cristãos que respeitam sua autoridade como sucessor de Pedro, que não creem que ele seja um socialista, que compartilham de seu compromisso com a redução da exclusão econômica, mas que respeitosamente explicamque alguns de seus comentários econômicos são incoerentes e alheios às evidências.

A esquiva do papa quanto às outras visões é estranha, uma vez que ele próprio reconhece que católicos fieis discordam sobre como tratar os desafios econômicos contemporâneos.

Em seu discurso, Francisco exortou seus ouvintes a tomarem a iniciativa de buscar formas para superar a pobreza econômica. É um bom conselho. O efeito macro de todos esses esforços, no entanto, será limitado caso não haja mudanças fundamentais nas instituições e nas atitudes que grassam na América Latina. E a esse tipo de transformação cultural os populistas do continente certamente resistirão: afinal, isso significaria o fim do seu poder.

Mas isso também implica que os latino-americanos devem abandonar suas eventuais ilusões quanto à efetividade de uma "terceira via" latino-americana: dado o histórico econômico da região, a noção de que é possível haver uma "terceira via" latino-americana entre capitalismo e socialismo é puro sentimentalismo utópico

Como me disse um perceptivo padre e professor argentino em Buenos Aires no início desse ano, "Nós queremos simplesmente ser um país normal!" E normalidade significa os latino-americanos dizerem "não" aos Kirchners, Correas, Morales e Maduros da região, e também às suas ideias destrutivas.

Essa é uma mensagem que os latino-americanos — e também o papa Francisco — têm de ouvir.


(*)Dr. Samuel Gregg é o diretor de pesquisas do Acton Institute. Seu campo de atuação engloba política econômica, história econômica, ética nas finanças, e teoria do direito natural. Possui mestrado em filosofia política na Universidade de Melbourne e doutorado em filosofia moral e economia política na Universidade de Oxford.

terça-feira, julho 21, 2015

Suicídios políticos.






por Alberto Mansueti





Vinte e tantos anos depois da queda do Muro de Berlim (1989), e do colapso da União Soviética (1991), a esquerda segue viva, e até mesmo em posição de domínio, na América Latina, Estados Unidos e em grande parte do mundo.

E por quê? Simples: porque a direita cometeu suicídio político. Uma força política pode suicidar-se de várias formas, e a direita escolheu o “igualismo”, que em inglês chamam de me-tooism (me too = eu também). No mercado é quando se lança uma oferta igual ou muito similar a da concorrência. Um equívoco grosseiro: a arte comercial consiste em distinguir-se, não em igualar-se; porque se há originais, ninguém quer cópias.

Negar a vigência ou até mesmo a validade do espectro esquerda-direita é um erro, e mais ainda: uma fraude, que é parte da grande farsa da esquerda, porque essas são as categorias básicas e universais na política, assim como norte e sul, homem e mulher, capitalismo e socialismo, positivo e negativo. Direita e esquerda se opõem em suas promessas básicas porque derivam de visões contrárias da sociedade humana. Quais são? Abraham Kuyper (1837-1920), teólogo calvinista que foi primeiro ministro na Holanda, as explicou assim:

(1) A direita defende a ordem social descentralizada: a família, a economia, a educação, a ciência, arte, cultura e religião são “esferas separadas” do Estado. E o governo somente garante segurança, justiça e obras de infraestrutura, com imposto moderados e com percentuais iguais; ele não se “assenhora” das instituições próprias de cada esfera, cada uma delas “soberana” sobre si. Porém, há uma direita má, o mercantilismo ou “capitalismo de compadres”; e uma direita liberal, que é a boa direita.

(2) A esquerda tem seu plano de reforma para a sociedade inteira, que não se limita a “redistribuir a riqueza” na ordem econômica, como propõe o social-comunismo; essa é só uma isca para gananciosos incautos, e é a parte visível do iceberg. Seu programa inclui abolir a propriedade privada, a família, a religião e o Estado (ao menos como o conhecemos); e para isso exige a subversão da ordem, e a escravidão de todas as esferas ao reino político, e a um governo central, dando um giro radical e “total” (isto é, totalitário) na sociedade, uma “mudança segundo um plano”, chamado “Revolução”. E há uma esquerda má: o socialismo dito “democrático”; além de uma esquerda ainda pior: o nazicomunismo.

(O dito “anarcocapitalismo” rejeita a divisão entre direita e esquerda porque é ele mesmo uma mescla de capitalismo com marxismo cultural, e como todo híbrido é instável, inviável, estéril e inclassificável).

Contra o propósito (ou despropósito) da esquerda, Kuyper fundou, ao final do século 19, um partido, obviamente de direita, que chamou de “Anti-Revolucionário”. Ele ganhou sua primeira eleição em 1901, e depois disso quase todas as demais, até que começou a imitar os socialistas em suas promessas, e desapareceu. O mesmo aconteceu em outros países europeus. E nos Estados Unidos, que desde 1968 até agora, de onze eleições para presidente o Partido Republicano chegou a ganhar sete com propostas claramente de direita, e perdeu quatro com propostas “igualistas”, em 1976, 1992, 1996 e 2008. Esse fato se repete em eleições para parlamentares e em nível local.

E por quê? Fácil: porque em toda parte sempre há: (1) a “minoria barulhenta” que vota na esquerda; (2) a “maioria silenciosa” ou trabalhadora, de família ou empresária, que vota pela direita, quando há, e se as propostas são liberais e atrativas; e (3) os iludidos, que nem sequer fazem ideia da situação em que se encontram.

E na nossa América Latina? A direita fracassa porque apresenta candidatos mercantilistas, incompetentes e personalistas, com ofertas igualistas. Em muitos países a direita se suicidou ou sumiu, e agora a rivalidade é entre a esquerda branda e a radical, e quase sempre a radical vence, como é lógico quando não há um desafio à matriz de opinião dominante, que é contra o capitalismo e a favor do socialismo.

Há espaço para a direita liberal na América Latina? Muito. A classe média independente, ou seja, técnicos e profissionais que não dependem do governo. E a burguesia informal, ou seja, o setor privado clandestino (mercado negro). E muita gente dependente do governo, mas que acredita que seria muito melhor fazermos as Cinco Reformas, que por certo não são patrimônio exclusivo dos liberais: às vezes elas são postuladas por especialistas não liberais, embora intelectualmente honestos, do FMI e do Banco Mundial, ainda que por iniciativa individual, com o nome de “reformas micro-econômicas” ou “reformas de segunda geração”.

Porém, deparamos com o suicídio político e econômico dessa classe média e da burguesia incipiente, que vota na esquerda e depois promove gigantescas manifestações de rua, cem por cento inúteis por se tratar de “diretismo”; ou seja, sonhos de uma democracia “direta” ideal, não real. O socialismo ideal é uma utopia na economia, tal como o “diretismo” na política, dizem autores não liberais, porém inteligentes e eruditos (como Giovanni Sartori), o qual serve aos fins da esquerda, por isso a promove. A maioria silenciosa se ocupa de sua casa e de seu trabalho, e não tem tempo para atividade política, nem para investigar as ciências políticas; por isso deve confiar em seus representantes legítimos, e na democracia “indireta” ou representativa, que é sua garantia de independência, e de sobrevivência.

A classe média é vítima dos veteranos profissionais do socialismo e de seus enganos: a partidofobia e a antipolítica. Ela investe cega contra a representação política, porque os embusteiros da politicagem e os charlatões da mídia lhe dizem que os iPhones, o Twitter e o Facebook, e as marchas “indignadas” substituem a democracia representativa com seus partidos.

Ilusões; porém trágicas, visto que levam ao suicídio.



Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

sexta-feira, julho 17, 2015

O petismo e a bajulação da imprensa.









por Luis Milman (*)



No ambiente jornalístico, a presença dominante dos comunistas é incontestável há décadas. A grande maioria dos jornalistas sempre esteve próxima do esquerdismo. Não digo hoje, como militância aberta, mas no plano da adesão intelectual e da adoção bajuladora e servil a um argumento da autoridade petista, que é um partido da esquerda confessional, aquela que trata o marxismo como um tipo de religião revelada. Sem a submissão a este argumento da autoridade, o governo Dilma Rousseff já teria perdido sua sustentação junto àintelligentsia e, como não possui qualquer respaldo popular, teria desabado.

Em idioma vicário, o comunismo transmutou-se em progressismo, depois do colapso da União Soviética. Essa presença comunista nas redações, não é abertamente ativista, o que não significa dizer que não seja muito ativa. Ela explica o apoio com que contam, no meio jornalístico, todas as posições esquerdistas nos chamados temas sociais controversos, como a liberação do consumo de maconha, o fator antrópico de aquecimento global, a descriminalização do aborto, a proibição do uso de armas, a manutenção da maioridade penal em 18 anos e a tentativa de criar crimes diferenciados contra homossexuais.

Para o jornalista padrão, o adjetivo “conservador” significa “reacionário”. E, saliente-se: por total ignorância, este jornalista padrão sequer sabe o que designa, no universo político-doutrinário, o termo “conservadorismo”. A militância da redações muito precariamente ouviu falar de um Burke ou, mais recentemente, de um Scruton, mas as posições “progressistas” são defendidas, em que pese a sua rejeição pela esmagadora maioria da sociedade, como as pesquisas de opinião não cansam de apontar.

Darei três exemplos: na mídia circulante, o ex-tupamaro Mujica – e isto é uma forte credencial -, tornou-se um estadista porque liberou a maconha no Uruguai; Noam Chomsky é o teórico mais influente do mundo porque acusa os EUA dos mais abjetos crimes e Benjamin Netanyahu é um obstáculo à paz porque lidera a radical direita israelense contra posições negociáveis do moderado presidente palestino Abu Mazen.

Tudo isto é risível. Mujica é um marxista incurável; Chomsky, um mentiroso cínico e compulsivo, e Netanyahu um político de direita, é claro, mas democrata, prudente e não está negociando com Abu Mazen porque o palestino não é, na prática, o moderado que a mídia esquerdista nos apresenta. Pode parecer paradoxal que a sociedade se expresse de um modo conservador e a imprensa, no polo contrário, de uma forma sistematicamente “avançada”. Abrem-se espaços generosos e constantes, nos jornalões e jornalecos brasileiros, para especialistas aparvalhados pelo marxismo de almanaque lançarem explicações desesperadas para o que chamam de “onda conservadora brasileira”. É claro que a classe média do país cansou do PT. Caiu a máscara do lulopetismo para os chamados cidadãos e cidadãs comuns, de classe média, o segmento social que Marilena Chauí - talvez a filosofa maior daquela pocilga intelectual que Reinaldo Azevedo chama de o “Complexo PUCUSP”-, disse odiar, com frenesi e sob o aplauso de Lula, seu líder. 

As análises que as estrelas da mídia tradicional nos oferecem sobre a virada brasileira à direita são tão miseráveis quanto a ideologia de baixo marxismo que eles abraçam e insistem em espalhar. São sempre análises autoindulgentes, que sequer raspam o cerne das razões pelas quais o PT se espatifou politicamente: a ausência escancarada de energia moral, a desgraçada insistência em agredir os valores mais caros ao povo e a corrupção, que, mais do que entranhada no partido, é inerente à sua doutrina.

Existe, é claro, na chamada mídia, uma trincheira heroica, daqueles que desafiam essa quase unanimidade. No entanto, o quase-consenso vermelho é policiado selvagemente por lideranças políticas, intelectuais delirantes e por uma legião de blogueiros e twitteiros da linha justa. Se apenas com isto não se pode impedir que escândalos sejam noticiados, que o naufrágio do lulopetismo se mostre irreversível, então que se trate de apertar mais a corda nos pescoços dos bajuladores petistas usuais, que dominam as redações. Talvez assim aquilo que já está péssimo não desande. Não é por acaso que Lula sai por aí, enquanto o país afunda numa crise moral, política e econômica patrocinada pelo seu partido, a uivar que a mídia quer destruir o PT. Muito menos que os petistas, que se lambuzaram na corrupção do Mensalão e do Petrolão, dizem que toda essa podridão não passa de uma construção da mídia reacionária. Eles sabem, é certo, que a mídia é precisamente o oposto do que a acusam, ou seja, é uma mídia amestrada por anos de submissão a um marxismo de clichês.

A elite petista sabe que a companheirada que os ampara nas redações pode muito. Mas nós sabemos que ela não pode tudo.



(*)Luis Milman é professor de filosofia e jornalista.

Fonte: Mídia Sem Máscara

domingo, julho 05, 2015

Educação domiciliar, casamento gay, liberais ateus e outras notas.










Por Alexandre Magno Fernandes Moreira



Dias atrás um amigo brincou, dizendo: "do jeito que as coisas estão indo, o STF vai acabar considerando obrigatória a educação domiciliar!" Na hora, achei engraçado o otimismo dele, mas depois me lembrei que na verdade a educação domiciliar já é obrigatória. Quando a Constituição declara que a educação é um dever da família, está obrigando os pais a educarem seus filhos em casa. A educação domiciliar, portanto, não é um direito dos pais, mas um dever que deve ser cumprido por eles, sem possibilidade alguma de delegação.


O que está em discussão agora no STF é se um dos componentes da educação, a instrução, pode ser dada exclusivamente em casa ou se requer a frequência a uma escola. Nós estamos preparados para demonstrar não apenas que os pais têm autonomia para decidir sobre isso como também em regra têm condições adequadas para instruir os filhos em casa.

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Está confirmado para a Global Homeschool Convention (Rio de Janeiro, março de 2016) Sugata Mitra, uma das maiores autoridades mundiais em inovação educacional. Vale a pena conferir sua fantástica palestra no TED:






O pessoal "mais esclarecido" adora propagar a existência de uma equação que seria mais ou menos assim: "mais escolas é igual a menos presídios". Em outras palavras, quanto maior o acesso à educação formal, menor a criminalidade. O curioso é que no Brasil tem acontecido o fenômeno inverso: há pelo menos três décadas, o aumento da criminalidade está ocorrendo de forma concomitante com o aumento do acesso à educação formal, e ambos de forma bem expressiva. Quem tiver paciência, pode conferir, por exemplo, a evolução do número de homicídios conjugada com o número de estudantes universitários; nas duas situações, os números foram multiplicados por várias vezes nas últimas décadas. Em estatística, isso pode significar duas coisas: a) não há relação nenhuma entre essas duas variáveis; ou b) o aumento de uma contribui, ou é até mesmo determinante, para o aumento da outra. Neste ponto, sou obrigado a fazer uma pergunta incômoda: e se a verdadeira equação for "mais escolas é igual a mais presídios"? Em outros termos, e se o aumento do acesso à escola estiver de algum modo contribuindo para o aumento da criminalidade?

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Não acredito no discurso do pragmatismo. Seres humanos são profundamente emocionais e simbólicos, e apenas raramente agem tendo em vista um resultado futuro favorável. Então, quase sempre em que alguém usa um raciocínio consequencialista, fico me indagando qual é a sua real motivação.

Isso me veio à mente quando assisti o entusiasmo dos deputados de esquerda com a rejeição da emenda constitucional que previa a redução da maioridade penal para 16 anos (apenas para crimes hediondos). Afora alguns que têm um interesse concreto no aumento da criminalidade, todos estavam agindo para defender sua visão de mundo, essencial à sua identidade como seres humanos. O esquerdista típico acredita na bondade inata das pessoas, que seriam corrompidas pela "sociedade" (sim, isso é Rousseau!), mais exatamente por não ter tido oportunidades suficientes nessa sociedade.

É inconcebível para a esquerda a existência do mal. Tudo seria resolvido por mais oportunidades econômicas e mais educação. É mais ou menos assim: o sujeito mata e estupra porque é pobre (já perceberam o preconceito contra os pobres?) e porque não estudou suficientemente Geografia, Química e Matemática. Faz sentido pra você?

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É difícil imaginar um sujeito mais esquizofrênico do que o militante liberal e ateu. Ele realmente acredita na utopia de um mundo sem religião e com Estado mínimo. Para essa pessoa, além de sugerir um bom psiquiatra, não custa nada lembrar que, ao menos no mundo ocidental, a principal força contra a expansão do poder estatal é a religião, essencialmente as várias denominações cristãs. Aliás considerando que quase toda caridade privada é feita por meio de organizações religiosas, se estas deixarem de existir, qual entidade você acha que vai assumir esse espaço?

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Boa parte das pessoas se casa e tem filhos principalmente por status. Constituir família seria um atestado de que a pessoa tornou-se madura, ultrapassou os desvarios da juventude. A pressão implícita dos amigos tem papel fundamental nessa decisão (quando quase todos os amigos se casaram, você sente que "o cerco está se fechando"). A partir de certa idade, pega mal não estar casado ou não ter filhos. O resultado dessa busca por status são casamentos que nunca deveriam ter acontecido, pois um ou mesmo os dois cônjuges não têm nenhuma vocação matrimonial e assim apenas conseguem criar um inferno para si mesmos. Da mesma forma, filhos são muitas vezes gerados apenas para que seus genitores possam se declarar "pai e mãe" perante seus pares; obviamente, gerar é muito mais fácil que educar, o que leva ao conhecido fenômeno da "terceirização dos filhos".

Permitam-me perguntar: como seria se o casamento e a criação de filhos não gerassem absolutamente nenhum status, nenhuma nova forma de respeitabilidade?

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Nessas discussões coloridas e acaloradas sobre a decisão da Suprema Corte americana, acho que dois fatores importantes estão passando despercebidos.

Em primeiro lugar, tanto nos EUA quanto aqui, a Constituição não prevê o direito ao casamento gay. Em ambos os países, as cortes supremas fingiram interpretar a Constituição quando na verdade apenas expressaram a ideologia da maioria de seus membros (no caso do STF, de todos os seus membros). Isso deveria deixar de cabelo em pé todas as pessoas que atuam na área jurídica, independente da sua opinião sobre o assunto. Pelo visto, não provocou comoção nenhuma. Bem, tanto aqui como lá, o desprezo pela Constituição vem travestido como interpretação desta. Nunca se sabe o que virá a seguir...

Em segundo lugar, parece que esqueceram de alguém nessa equação: as crianças, que, nos termos da Constituição, devem ter "prioridade absoluta". Alguém por acaso já ouviu falar em um estudo empírico sobre menores criados por casais gays? Pois é, nem eu! Quer dizer que criaram uma nova instituição jurídica sem saber qual o efeito que terá sobre os membros mais frágeis da sociedade? Vale lembrar o óbvio: reconhecer a existência jurídica do casamento homossexual significa necessariamente reconhecer o direito de os cônjuges adotarem. E o direito dos futuros adotandos? Ninguém está preocupado com isso?

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O conservadorismo em uma frase: "a realidade existe" (você é livre para ir contra ela, mas terá que arcar com as consequências). O esquerdismo em uma frase: "tudo são opiniões" ("e nós queremos impôr nossas opiniões a vocês ").

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Há uma gigantesca diferença entre ser vítima e fazer o papel de vítima. Todos nós já fomos vítimas de injustiças incontáveis vezes. Desde um chefe que indevidamente não reconheceu o trabalho do subordinado até a pessoa que brigou com o cônjuge apenas para descontar em alguém a sua frustração com a vida, não faltam situações em que somos injustamente prejudicados. A grande questão é como reagir aos infortúnios inevitáveis da vida.

De modo bastante simples, a pessoa pode agir ou reclamar. Ao agir, os reveses são reconhecidos como oportunidades de crescimento, amadurecimento e aprendizado. Não se perde tempo buscando culpados: ou se busca uma solução ou se releva o infortúnio como algo irrelevante. Essa é atitude de uma pessoa emocionante adulta.

Por outro lado, quem apenas reclama escolhe o papel de vítima. Ele decidiu jogar toda a responsabilidade por sua vida nas costas alheias. "O mundo é injusto e eu nunca sou responsável pelas coisas ruins que me acontecem" é o lema de sua vida. E com muita facilidade racionalizam esse sentimento. Sempre encontram bons argumentos. São os adolescentes emocionais, mesmo que há muito já tenham passado dos 18 anos.

Todos são livres para escolher uma ou outra atitude. Porém, ao escolher o papel de vítima, as pessoas abrem mão da maior dádiva que o ser humano tem: a de definir seu próprio destino.

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É muito fácil descobrir se uma pessoa é feliz ou não: basta pedir que ela fique totalmente parada, sem fazer nada, por, digamos, cinco minutos. Se ao final desse período, ela se sentir ansiosa para fazer algo, qualquer coisa mesmo, a infelicidade predomina. Se, ao contrário, ela se sentir bem consigo mesma, sem angústia ou ansiedade, estamos diante de uma pessoa feliz. A verdadeira felicidade é isso: saber que o simples fato de você existir já é o suficiente para sentir-se bem.


Alexandre Magno Fernandes Moreira é advogado.

quinta-feira, julho 02, 2015

Favorável à taxação de grandes fortunas? Não seja trouxa!.







Favorável à taxação de grandes fortunas? Não seja trouxa!.

por David Amato





Então você é a favor da taxação de grandes fortunas? Você por acaso já ouviu falar sobre o Massacre de Ludlow? Não? Então vamos voltar no tempo e entender que diabos o massacre tem a ver com a taxação de grandes fortunas.

Em 20 de abril de 1914, no Colorado, mais precisamente no que hoje é a cidade fantasma de Ludlow, que fica no Condado de Las Animas, nos EUA, a Guarda Nacional massacrou dezenas de mineiros a mando do proprietário das minas, John D. Rockefeller, Jr..

Entre os mortos estavam mulheres e crianças, algumas mortas por asfixia e incineração, uma vez que os lacaios da Combustíveis e Ferro Colorado, também propriedade de John D. Rockefeller, Jr., atacaram os mineiros juntamente com a já citada Guarda Nacional.

A reputação de John e seu clã foram seriamente manchadas com o episódio, e o resgate da imagem mediante a opinião pública só se deu com muitas décadas de enormes somas de dinheiro doado à "filantropia".


A filantropia é um grande negócio nos EUA: uma vez que parte da sua fortuna seja prometida à filantropia, você adere a um programa chamado Lifetime Legacies. Nele, as deduções de imposto da fortuna, que pode ser gerenciada/especulada até o fim da sua vida, são muito atrativas.

Dessa maneira, as doações feitas a fundações e universidades pela elite metacapitalista, que já transcendeu o esquema financeiro e não quer mais estar sujeita as oscilações e concorrências do mesmo, passa a moldar o cenário político e cultural.

São essas mesmas elites intocáveis que inoculam a palhaçada de taxação de grandes fortunas, uma vez que as fortunas confiscadas não serão as delas. Ou você conhece algum político capaz de peitar e amealhar dinheiro dos Rockefellers, Rothschilds, Warburgs, Morgans, Schiffs e turma? Nem a pau.

Fora isso, a camada mais baixa de bilionários e milionários faz como fez na França: arruma as malas e vai embora. A conta da fuga de capital estrangeiro e investimento fica para o povo babão pagar.

Se tudo isso parece absurdo, consulte o livro The New Leviathan, de David Horowitz, onde há diversas provas documentais de como a esquerda retributiva e sua agenda revanchista recebe doações bilionárias, pois acabam sugando as preciosas moedinhas dos elos mais fracos e depositando no cofre da verdadeira elite mundial.

Mas não é sequer preciso adquirir o livro: aí estão os Fóruns Social Mundial e Econômico, fundados e custeados pela elite metacapitalista, que zomba do intelecto alheio quando entrega para a militância pelega e descerebrada pautas como "a crise do capitalismo". O capitalismo vai muito bem, obrigado, e graças a ele você pode esquerdar loucamente nos respectivos fóruns.

Então, em vez de ficar entoando o mantra de "um outro mundo é possível", tire alguma lição com o Tio Patinhas e saia desse barco furado, afinal, tempo é dinheiro

domingo, junho 14, 2015

Menos direitos, por favor.










Menos direitos, por favor.por Colombo Mendes







Nas eleições passadas e nos discursos políticos de sempre, “direito” foi e é uma das palavras mais utilizadas por políticos em seus discursos. A estratégia é eficaz, pois nós, eleitores e cidadãos em geral, somos especialmente simpáticos à ideia de receber. Oferecer algo, contudo, é um pouco mais difícil – a não ser que usemos verbas públicas e façamos o “bem” com dinheiro alheio.

Nestes primeiros meses de novos mandatos, já vemos ações que visam à reeleição em 2018. Governantes e legisladores seguirão prometendo e, de fato, até distribuindo privilégios travestidos de direitos, por puro eleitoralismo, em um projeto egoísta de acúmulo de poder econômico. Todavia, há quem proceda de forma muito mais periculosa, dentro de um projeto de poder político mais amplo. Falo de quem promete e distribui benesses em nome de ideologias – e a humanidade sabe (sobretudo os milhões de russos, ucranianos, chineses, cubanos, alemães etc.) o potencial de devastação das abstrações ideológicas. 
Seguindo a máxima do “dividir para conquistar” (atribuída ora a Júlio César, ora a Napoleão), políticos populistas e demagogos prometem vantagens a determinados grupos (normalmente, organizados e queixosos) e deixam outros grupos insatisfeitos. Com a divisão consolidada e o caos instalado, apresentam-se, então, como arautos da sensatez, dispostos a mediar as tensões, oferecendo colheradas de bondade a gregos e a troianos.

O rol dos supostos direitos prometidos é vasto, em quantidade e irresponsabilidade, pois ignora-se que cada direito traz consigo uma proporcional carga de deveres e entra em conflito com outros direitos. Trabalhemos com um exemplo prático: se estudantes não pagarem passagens no transporte público, como defenderam alguns candidatos, o serviço acabará sendo pago pelos trabalhadores que utilizam os coletivos e pelos empresários que subsidiam vale-transporte a seus funcionários. Além disso, a concorrência fugirá do processo e a qualidade do serviço, então monopolizado pelo Estado, tenderá à queda. Ou seja, direitos para uns, deveres para outros, com a tensão social devidamente estabelecida, levando todos à solicitação da mediação estatal.

Outro exemplo: organizações não governamentais pressionam autoridades para que deem proteção especial a homossexuais. Não deixa de ser um pedido justo, mas esse zelo deve ser estendido a todos os outros brasileiros, vítimas de mais de 50 mil assassinatos e de milhões de assaltos, sequestros, estupros e outras violências por ano. Por fim, cito a questão das cotas raciais em vestibulares. Ora, privilegiar vestibulandos em função de sua cor de pele, pressupondo que estão menos capacitados para uma disputa meritocrática, é diferenciação racial; logo, é racismo. Aliás, é racismo de mão-dupla: contra o negro, por pressupor que ele precisa de uma vantagem competitiva; e contra o não negro, por prejudicá-lo na disputa. Novamente, são agraciados estes e depreciados aqueles – e quem possibilita essa tensão é quem detém o remédio.

Não, não tenho absolutamente nada contra os indivíduos que compõem as [supostas] minorias citadas ou tangenciadas nesses exemplos. O problema é tão somente o ativismo oportunista, que caça vantagens a determinados grupos em função de preferências que deveriam limitar-se à vida íntima das pessoas (no caso das “minorias sexuais” [sic], por exemplo) e de características físicas e naturais que não determinam nada per se (como a cor da pele ou o sexo do indivíduo). Apenas para ilustrar o quão artificiais são essas tensões: a quem alega que cotas são uma política de reparação histórica inegociável, vale lembrar que eram negros os líderes de tribos africanas que capturavam seus conterrâneos e os vendiam aos europeus e que eram brancos os europeus escravizados – oito séculos antes da escravidão nas Américas – por hordas islâmicas, repletas de negros do Norte da África.

A verdade é que supostas reparações e correções artificiais de aparentes injustiças servem apenas a tensionar a população, a colocar-nos uns contra os outros, a dividir para conquistar, enfim. A atual sanha por privilégios só faz aumentar as tensões sociais, opondo-nos em raças, gêneros, classes etc.; mas geram dividendos eleitorais, enriquecem e cobrem de poderes os pretensos benfeitores. São essas situações claros indícios de por que o Brasil atravessa tamanha crise ética e moral. Quando cada um coloca os direitos de sua preferência à frente do bem comum, o resultado é a guerra de todos contra todos.


Publicado na revista Voto.