domingo, dezembro 24, 2017

Seu Jorge e a Previência





por Pedro Fernando Nery(*).



Aos 77 anos, Giorgos não imaginava passar por aquela situação. Após trabalhar por anos na mina de carvão e na fundição, ele saíra naquela manhã de verão para sacar a aposentadoria da mulher. Sensibilizou-se com os pedintes que viu pelo caminho. Lembrou-se dos suicídios: não suportava mais ver o seu país assim. Tentou o saque da aposentadoria em uma agência, não conseguiu. Depois foi a mais um banco, nada. Insistiu em fazer o saque em mais outro, mas novamente sem sucesso. Na quarta vez que não conseguiu receber o benefício, Seu Giorgos não aguentou. Sentou no meio da calçada e chorou.

Um ano depois, talvez tivesse algum conhecido seu entre os que manifestavam contra o 15º corte no valor das aposentadorias, que ocorria mesmo após um ano da posse do primeiro-ministro Tsipras, do partido que chegara ao poder com discurso antiausteridade. Naquela ocasião, os manifestantes de cabelos brancos toparam com um ônibus da polícia no meio de sua passeata. Juntaram-se para tentar retirá-lo do caminho. A polícia respondeu à investida dos idosos. Com spray de pimenta.

Irresponsabilidade fiscal e contabilidade criativa foram alguns dos causadores da complicada crise da Grécia. Em um dos países mais envelhecidos da Europa, a crise levou a cortes de aposentadorias e até a feriados bancários, como o que Seu Giorgos Chatzifotiadis enfrentou. A foto do seu pesadelo, “O homem que chora”, correu o mundo.

***

Em alguns anos, Seu Giorgos pode ser Seu Jorge. Um idoso de mesmo nome que acreditou na mesma promessa de seu país de pagar a ele uma aposentadoria como pagou a de outros. Seu Jorge está desesperado com a sua aposentadoria cortada. A idade avançada não lhe permite mais trabalhar, e ele não consegue tratar suas doenças crônicas no SUS, cada dia mais sem dinheiro. É arrimo de família, uma vez que seus parentes jovens estão desempregados. Seu país vive uma crise grega, só que com sua renda per capita de Turquemenistão. Antes dos cortes, Seu Jorge já ganhava a metade do que ganhava Seu Giorgos.

Não acredita no que acontece. Vários anos antes ouviu de novo aquela ladainha de reforma da Previdência, mas recebeu no Whatsapp o vídeo explicando que tudo era mentira: a Previdência não tinha déficit, sobrava dinheiro que o governo desviava pra alguma coisa que Seu Jorge não entendeu muito bem o que era.

Seu Jorge não sabia que o vídeo fora criado por Nelson. Nelson ganhava bem mais que Seu Jorge, tinha direito a uma aposentadoria muito maior e com aumentos mais generosos, custeados não por suas próprias contribuições, mas pelas de pessoas como Seu Jorge. Nelson perderia esses direitos se o governo fizesse uma reforma.

Nelson era um orgulhoso servidor público, membro da associação que representava a sua carreira. Seu Jorge confiou na informação do vídeo que recebeu porque tinha o selo de uma associação nacional de auditores. É coisa de doutor, pensou. Seu Jorge não sabia que cabia a associação de Nelson representar a carreira de elite com maior número de aposentados e pensionistas da União, 20 mil.

Entre as pautas da associação de Nelson, publicamente apresentadas em seu site em 2017, estavam o direito aos aumentos generosos, o fim da contribuição de servidores aposentados e até o direito desses aposentados receberem bônus de produtividade – de acordo com o aumento da arrecadação de impostos. No momento em que Seu Jorge recebeu o vídeo, este bônus era inclusive negociado pela associação de Nelson com o governo no meio de uma medida provisória. Insatisfeita com a proposta, a associação de Nelson contratou até um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal para levar o pleito à Justiça. A associação também mobilizava seus recursos em 2017 para a campanha mostrando que não existia déficit na Previdência ou na Seguridade Social.

Nelson tinha um ponto de vista claro sobre como devem ser apresentadas as contas da Seguridade, mas Seu Jorge não tinha a mesma clareza. No vídeo que produziu, Nelson omitiu que a contabilidade de sua associação exclui as despesas com as aposentadorias e pensões dos próprios servidores públicos, e também não achou necessário mostrar que ainda assim havia um déficit já para o ano de 2016.

Seu Jorge não dava bola para o papo de crise na Previdência. Além do vídeo, ficou tranquilo ao ler no jornal que uma importante entidade da sociedade civil alertava que a reforma do governo era baseada em premissas equivocadas. Não entendia do assunto, mas novamente quem estava afirmando era doutor.

Seu Jorge também não percebia que cabia a esta outra entidade defender advogados como Miguel. O escritório de Miguel lucra ao conseguir benefícios do INSS para seus clientes, retendo em honorários uma parte do pagamento de aposentadorias rurais, aposentadorias especiais e aposentadorias por invalidez. Preocupado não só com seus clientes, mas também com seu negócio, Miguel, como outros advogados, acionou a entidade a que pertence e ela se manifestou contra a reforma da Previdência, pelos seus abusos sociais.

Em uma tarde daquele 2017, Seu Jorge perdeu tempo no trânsito com uma passeata. Porém, ficou resignado e a apoiou, porque se solidarizou com a causa dos trabalhadores do campo prejudicados pela reforma da Previdência. O protesto foi organizado por José. Como Miguel, José também ficou preocupado com as mudanças na aposentadoria rural. José é presidente de um sindicato rural cuja maior parte do filiados só se registrou para conseguir uma declaração atestando anos de trabalho no campo. Essa declaração é essencial para que recebam a aposentadoria rural.

Após a filiação para receber a aposentadoria, parte desses filiados terá mensalmente, e para sempre, descontos nos benefícios para financiar a atividade sindical, conforme autorizaram. José não é o único presidente de sindicato rural preocupado com a reforma: ao todo, são cerca de 4 mil. Apesar da urbanização das décadas anteriores, existiam no Brasil em 2017 mais sindicatos de trabalhadores do campo do que sindicatos urbanos filiados à CUT e à Força Sindical, juntas. Caso fosse aprovada a reforma do governo, a comprovação de trabalho rural para aposentadoria seria feita com contribuições ao INSS ao longo da vida do trabalhador, e não apenas no momento de pedir da aposentadoria com intermédio de um sindicato como o de José ou de um advogado como Miguel.

***

Prosperando a mobilização de entidades com interesses como os de Miguel e José, sob a desinformação disseminada por entidades como a de Nelson, nenhuma reforma da Previdência será feita. Apesar das aposentadorias serem extremamente protegidas em nosso sistema jurídico, o absurdo cenário de relativização do direito adquirido e corte de benefícios pode aparecer no horizonte. Ele ocorrerá depois da redução em despesas não obrigatórias (mas não desimportantes) e do aumento de impostos, bem como do aumento do endividamento público que reprimirá a economia com juros altos. A outra saída é a hiperinflação.

Tem sido assim no Rio de Janeiro e foi assim em países europeus, como a Grécia de Seu Giorgos, o outro Seu Jorge. O duro corte de aposentadorias nesses países foi de tal forma imperativo que terminou validado pela Corte Europeia de Direitos Humanos. O tribunal foi provocado pela servidora pública portuguesa Maria Alfredina, que não aceitava o desconto da ‘contribuição extraordinária de solidariedade’, que é como se diz corte de aposentadorias em português de Portugal.

O córtex pré-frontal ventromedial é uma região de nossos cérebros que fica ativada quanto pensamos em nós próprios. Estudos mostram que quando pensamos em nós no futuro, porém, a região não se ativa: nossa incapacidade de pensar em nosso amanhã seria tal que é como se o cérebro estivesse pensando em outra pessoa. Enquanto país, talvez enfrentemos dificuldade semelhante. Encaramos uma reforma da Previdência como desnecessária e sequer questionamos a atividade dos grupos de interesse que atuam no debate. Fazer reforma da Previdência é ruim. A questão que devemos nos indagar é se não fazê-la é ainda pior, dando a Seu Jorge o destino de Seu Giorgos. Vamos deixá-lo chorando na calçada?



(*)Pedro Fernando Nery Mestre e Doutorando em Economia pela Universidade de Brasília. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade de Brasília, com período sanduíche na Università degli Studi di Siena. É Consultor Legislativo do Senado Federal na área de Economia. Agraciado com o Edgardo Buscaglia Award on Empirical Research in Law and Economics (2013), conferido pela Associação Latino Americana e Ibérica de Direito e Economia (ALACDE). Editor do blog Brasil, Economia e Governo. Possui interesse em previdência social, economia do trabalho, economia do setor público e economia comportamental. 

Nota do Blogando - Pedro Fernando Nery é funcionário púbico concursado, apesar disso tem consciência plena de que as reformas são urgentemente necessárias.


sábado, dezembro 23, 2017

Quer reduzir a pobreza de maneira definitiva?




De início, eis as 12 políticas que têm de ser abolidas.

Favela da Rocinha


Como um verdadeiro livre mercado ajudaria os mais pobres



por Diversos Autores(*)

No Brasil, empreender e empregar legalmente são atividades extremamente onerosas.

Para abrir uma empresa são necessários 107 dias, em média.

Pagar impostos requer 2.600 horas apenas para preencher formulários (mais do que o dobro do segundo colocado, a Bolívia).

Empregar alguém traz um custo extra de 103% do salário só com impostos e outros encargos trabalhistas. Isso significa que, além do salário, você tem de pagar o equivalente a outro salário só com impostos, encargos sociais e trabalhistas. (Coisas como imposto sindical ou contribuição para a reforma agrária são comuns).

E existem nada menos que 93 impostos diferentes.

Não sendo viável nem empreender legalmente e nem ser contratado legalmente, só resta às pessoas irem buscar outros meios de sobrevivência, como a informalidade, na qual não contam com nenhuma segurança jurídica.

Mas tudo isso ainda é o de menos. Há várias outras medidas e intervenções do governo que não apenas impedem que os pobres deixem de ser pobres, como ainda agravam ainda mais a pobreza.

Caso a intenção realmente seja criar riqueza e reduzir ao máximo a pobreza, todas essas medidas e intervenções deveriam ser abolidas.

A seguir, uma lista de algumas delas.

  • 1 - Salário mínimo e encargos sociais e trabalhistas

A imposição de um salário mínimo é uma política na qual o governo proíbe que os empregadores paguem um salário menor que um piso estipulado por políticos. Na prática, trata-se de um controle de preços.

Considere um jovem pobre, sem instrução e sem habilidades, cuja produtividade seja de R$ 600 por mês no mercado. O que acontecerá se o governo aprovar uma lei exigindo que a ele sejam pagos $ 937 por mês? O empregador que o contratar perderá $ 337 por mês.

Os deficientes, os adolescentes, as minorias, os destreinados, os pouco qualificados, e os pouco produtivos — todos estes estarão na mesma situação. Estão proibidos, pelo governo, de serem empregados legalmente.

Só que, além do salário, o empregador também tem de arcar com vários outros tributos e taxas que incidem sobre a folha de pagamento. São os encargos sociais e trabalhistas.

Como já dito, no Brasil, empregar alguém traz um custo extra de 103% do salário só com impostos e outros encargos sociais e trabalhistas. Coisas como INSS, FGTS, PIS/PASEP, salário-educação, Sistema S, 13º salário, adicional de remuneração, adicional de férias, ausência remunerada, férias, licenças, repouso remunerado, rescisão contratual, vale-transporte, indenização por tempo de serviço e outros benefícios fazem com que, além do salário, o empregador tenha de pagar o equivalente a outro salário só com estes custos.

Encargos sociais e trabalhistas representam um custo de produção. Logo, estipular artificialmente um salário mínimo e agravá-lo com encargos sociais e trabalhistas significa elevar o custo de produção sem que a produtividade do empregado tenha aumentado.

Na prática, salário mínimo e encargos trabalhistas proíbem os mais pobres e menos produtivos de serem legalmente empregados.

  • 2 - Leis contra o trabalho infantil

Há muitos trabalhos que requerem pouco treinamento — cortar gramas e lavar carros, por exemplo — e que são perfeitos para jovens pobres que querem ganhar algum dinheiro.

Além dos ganhos, trabalhar também ensina a esses jovens o que é ter um emprego e como administrar o próprio dinheiro.

Mas, no Brasil, o governo proíbe quem tem menos de 16 anos de idade de exercer qualquer tipo de trabalho (um adolescente de 15 anos não pode nem mesmo ter um carrinho de limonada na esquina). E proíbe também quem tem menos de 18 anos de idade de exercer vários tipos de trabalho. (Fonte)

Ou seja, na prática, o governo discrimina os adolescentes e os impede de participar do sistema de livre iniciativa. E quem eventualmente quiser dar emprego a esses jovens irá para a cadeia.

  • 3 - Políticas monetárias expansionistas e subsídios

A moeda, que está sob o total controle do governo, perde poder de compra continuamente devido às políticas inflacionistas do governo.

Para piorar, o governo estimula o setor bancário, principalmente os bancos estatais, a expandir o crédito e conceder empréstimos baratos para grandes empresas com ligações políticas. Isso faz com que a inflação de preços se mantenha continuamente alta. 

Os mais ricos conseguem se proteger desta perda do poder de compra por meio de aplicações bancárias e financeiras. Já os pobres, que não têm acesso a esses mecanismos, sofrem integralmente com a carestia gerada.

Políticas monetárias expansionistas e empréstimos subsidiados a grandes empresas intensificam a redução do poder de compra dos mais pobres.

  • 4 - Políticas fiscais expansionistas

Quando o governo gasta mais do que arrecada, ele incorre em um déficit orçamentário. Para cobrir este déficit, ele tem de tomar dinheiro emprestado (se endividar). Bancos e investidores emprestam esse dinheiro para o governo.

Dinheiro que poderia estar indo para investimentos e empreendimentos — que não só dariam emprego e renda para os mais pobres, como também produziriam mais bens e serviços para eles — acaba sendo desviado para financiar a burocracia do governo.

E, no final, esse endividamento será pago com o dinheiro de impostos, que asfixiam o empreendedorismo e a renda dos mais pobres.

  • 5 - Tarifas protecionistas

O governo impõe tarifas protecionistas para encarecer artificialmente a importação de produtos estrangeiros e, com isso, proteger a reserva de mercado do grande baronato industrial.

Essas tarifas impedem que os mais pobres possam adquirir produtos baratos do exterior, forçando-os a comprar apenas os produtos nacionais mais caros. Isso afeta toda a sua renda disponível.

Tendo de pagar mais caro por produtos nacionais, sobra aos pobres menos dinheiro para gastar em outras áreas. Isso é um ataque direto ao seu padrão de vida e bem-estar.

  • 6 - Crédito imobiliário subsidiado

Os ricos, por causa de sua menor propensão ao calote, têm acesso fácil a financiamento imobiliário barato e subsidiado pelo estado, via bancos estatais. (Os empréstimos dos bancos estatais são baratos porque o Tesouro repassa dinheiro de impostos a esses bancos, o que permite que eles cobrem juros menores)

Isso eleva a demanda por imóveis e faz os preços subirem.

Com os imóveis mais caros, os pobres são empurrados para o "Minha Casa Minha Vida", um programa estatal criado exatamente para tentar remediar os efeitos inflacionários nos imóveis causados pela expansão do crédito estatal. Trata-se de um programa para tentar facilitar a aquisição de imóveis pelos mais pobres por meio do endividamento destes perante os bancos.

Na prática, o governo criou um programa (Minha Casa Minha Vida) para remediar os efeitos causados por outro programa (crédito barato de bancos estatais para a compra de imóveis, utilizado pelos mais ricos).

Ao incentivar a demanda por imóveis do MCMV, os preços destes também sobem.

No final, tudo ficou mais caro.

E a consequência é que os pobres ficam ou sem capacidade de adquirir uma casa (indo para as favelas) ou endividados para o resto da vida.

  • 7 - Proibição de títulos de propriedade em favelas

O governo impede que os moradores de favelas obtenham títulos de propriedade, os quais poderiam ser utilizados como garantia para a obtenção de crédito, com o qual poderiam abrir pequenas empresas, auferir renda, fornecer empregos e, de forma geral, se integrar ao sistema produtivo.

Em seu livro "O Mistério do Capital", de 2001, o economista peruano Hernando de Soto mostra como os pobres são impedidos de gerar riqueza porque o governo não reconhece seus direitos de propriedade. Segundo de Soto, os pobres da América Latina, só nas terras que possuem de fato mas não de direito, estavam sentados em cima de quase 10 bilhões de dólares. Sem título de propriedade, não podiam capitalizar em cima desse valor.

De Soto estimou que 80% da propriedade nos países em desenvolvimento está totalmente na informalidade. Isso significa que há dezenas de milhões de famílias no continente que simplesmente não podem utilizar sua propriedade como garantia para nada. Se a casa ou o terreno de uma família pobre não são formalmente seus (como no caso das favelas brasileiras), não há nenhuma medida econômica que possa compensar tudo isso.

  • 8 - Impostos indiretos

Esse é o mais evidente de todos.

O governo tributa absolutamente tudo o que é vendido na economia. Assim, ele confisca grande parte da renda dos mais pobres.

  • 9 - Agências reguladoras

Agências reguladoras cartelizam o mercado interno, protegendo grandes empresários contra a concorrência externa em vários setores da economia.

Com isso, garantem preços artificialmente altos para as empresas protegidas e serviços de baixa qualidade, prejudicando principalmente os mais pobres.

  • 10 - INSS e FGTS

O governo confisca uma fatia do salário do trabalhador apenas para que, no futuro, quando este trabalhador estiver em situação ruim, ele receba de volta essa fatia que lhe foi roubada (e totalmente desvalorizada pela inflação).

Muito melhor seria se esse trabalhador simplesmente pudesse ficar em posse da totalidade do seu salário.

  • 11 - Leis anti-ambulantes

Leis contra vendedores ambulantes impedem pessoas de vender comidas e produtos para pessoas que querem comprá-los.

Em grandes cidades, os mais vociferantes apoiadores das leis anti-ambulantes são os grandes restaurantes e as lojas de departamento.

  • 12 Burocracia e regulação

Com tudo isso, começar um pequeno negócio acaba sendo a única maneira que sobra para os pobres conseguirem sobreviver honestamente.

Só que empreender legalmente significa ter de lidar com um emaranhado de papeis, taxas, cobranças, cartórios, filas, carimbos, licenças e encargos, além de todas as propinas exigidas por fiscais — os quais, se não receberem o arrego, não liberam a documentação.

Os governos, de todas as esferas, são muito eficientes em esmagar micro-empreendimentos.

Daí essas pessoas são empurradas para o mercado informal, que é onde elas encontram algum oxigênio.

E então todo o ciclo se reinicia.

🔺Conclusão

Após fazer de tudo para manter os pobres na pobreza, o governo cria programas para aliviar a pobreza (como Bolsa-Família).

Não seria mais lógico, em vez de tentar remediar o problema criando novas intervenções, simplesmente abolir as causas da perpetuação da pobreza?

E várias pessoas ainda dizem que, se não fosse o governo, a pobreza seria muito maior.


(*)Autores do Mises Brasil

sexta-feira, dezembro 22, 2017

Por que a militância socialista odeia o Natal



por João Cesar Melo(*).





Nesta época é comum surgir manifestações da esquerda depreciando a celebração do Natal. O argumento mais comum diz que o Natal se tornou uma celebração capitalista.

Devemos nos lembrar que o socialismo é um projeto de criação de uma nova sociedade no qual o estado promove a justiça social controlando os meios de produção, o que necessariamente depende do controle de todas as relações privadas.

Primeiro tentaram implantar isso de forma direta: derrubando governos, confiscando propriedades privadas, acabando com a liberdade individual e proibindo a religião (segundo Karl Marx, “a religião é o ópio do povo”). Não deu certo. Mesmo com o uso sistemático da violência não conseguiram fazer o homem deixar de querer ser dono de sua própria vida e acreditar em Deus.

Na incapacidade de fazer uma autocrítica verdadeira, os socialistas concluíram que o erro não estava no objetivo, mas no método. Do intelectual ao maconheiro eleitor do PSOL, toda a esquerda continua acreditando que é possível mudar a natureza humana.

Substituíram, então, as revoluções por processos de infiltração. Em vez de guerrilheiros tomando palácios dos governos, passaram a ocupar espaços na cultura, na imprensa e nas instituições públicas para fazer com que as ideias socialistas fossem difundidas sem que a grande maioria das pessoas percebesse, criando um verdadeiro exército de socialistas inconscientes. Conseguiram. Hoje vemos cristãos votando em anticristãos e capitalistas financiando anticapitalistas. O fato é que o socialismo nunca esteve tão vivo, forte e bem estruturado – esta é razão de Lula ainda estar solto.

Faça você mesmo o teste: pergunte para as pessoas na rua se elas acham que o governo deve, em certos casos, confiscar propriedades privadas para atender aos interesses coletivos. A maioria responderá que sim.

Tente enumerar a quantidade de partidos, organizações, movimentos e militantes de esquerda que sustentamos com os impostos que pagamos. Repare que as ideias da esquerda são defendidas direta e indiretamente nas novelas e reportagens da Globo. Repare que até os parlamentares vistos como “direita” defendem pautas da esquerda como regulação de mercado, serviços públicos “gratuitos” e distribuição de “direitos” para grupos disso e daquilo. Gramsci venceu, mas não completamente.

Para criar a “nova sociedade”, a esquerda precisa destruir a atual que se sustenta em cinco princípios: estrutura familiar, propriedade privada, liberdade econômica, responsabilidade individual e caridade voluntária.

Foram esses cinco princípios que fizeram a humanidade sair da extrema pobreza generalizada para o atual nível de prosperidade em que menos de 10% da população se encontra na miséria e uma pessoa considerada pobre desfruta de um padrão de vida muito melhor do que reis e rainhas desfrutavam há menos de dois séculos.

Entre em um ônibus lotado de trabalhadores e veja que todos ali têm telefones celulares. Vá a qualquer favela durante um final de semana e verá dezenas de famílias fazendo churrasco. Ou seja: os “malditos” capitalistas – frutos do mundo cristão − levam comida e tecnologia aos mais pobres com preços acessíveis. Os serviços que não chegam a eles são justamente aqueles prometidos pelo estado: saneamento, segurança, educação e saúde.

Para os socialistas, porém, isto não importa. Eles continuam acreditando que o estado é que deve promover o desenvolvimento de uma sociedade controlando o mercado e escolhendo o que é bom para cada indivíduo desse planeta.

Todas as experiências socialistas foram desastrosas, mas seus militantes continuam acreditando que a próxima será um sucesso. Como disse Lenin: 

“os comunistas não acreditam em Deus. Nós rejeitamos qualquer moral baseada em conceitos não-humanos e não-classistas. (…) Nossa moral é inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes proletária”. 

Logo, tratam de combater toda moral que não se baseia na luta de classes, especialmente a cristã.

A desqualificação do Natal faz parte deste esforço. Porém, devemos interpretar como um grande elogio a acusação de que a data se tornou uma celebração capitalista. Pelo menos nisso os socialistas estão certos.

No Natal, indivíduos livres − pobres e ricos, pretos e brancos, gays e heteros − lotam shoppings a procura de presentes para as pessoas que gostam. Compram com o dinheiro que ganharam trabalhando. Baseando-se em critérios particulares, cada pessoa decide quem irá presentear e como. Pais reúnem seus filhos em torno de uma mesma mesa para compartilhar uma ceia. Muitas pessoas aproveitam a data para ajudar pessoas carentes.

“Quanta liberdade! Que horror!”, ecoa no coração do militante socialista.

Para o desgosto da esquerda, o governo não controla nada disso. Não há uma única lei dizendo como as pessoas devem se comportar no Natal.

A celebração do Natal simboliza muito mais do que os dogmas cristãos.

As confraternizações sociais e familiares motivadas pelo Natal expõem uma sociedade em que as pessoas prezam a liberdade de fazer suas próprias escolhas, o que contraria toda a lógica socialista.

Socialistas tentam desqualificar o cristianismo porque sabem que, se conseguirem, criarão na mente das pessoas o vácuo filosófico ideal para ser preenchido pelo socialismo, aquele que depende essencialmente da fé das pessoas de que um dia dará certo. Ou seja: a religião socialista tenta ocupar na mente das pessoas o espaço que o cristianismo ocupa.

A União Soviética deu um exemplo disso: depois de perceber que as pessoas continuavam fazendo árvores de Natal − mesmo isto sendo proibido − a ditadura comunista decidiu converter o símbolo cristão em um símbolo… comunista.

A máquina de propaganda soviética passou a promover arvores de natal lindamente ornadas com símbolos comunistas como tentativa de apresentar Lenin como Deus e o estado como igreja.

Portanto, quando alguém lhe disser que o Natal simboliza o capitalismo, concorde. O Natal simboliza, também, a liberdade.

Desejo Feliz Natal a todos e registro que, apesar de ser ateu, quero continuar vivendo numa sociedade moldada por valores cristãos.



(*)João César de Melo (http://www.joaocesardemelo.com/) - Artista plástico formado em arquitetura, acredita no libertarianismo como horizonte e no liberalismo como processo, ateu que defende com segurança a cultura judaico-cristã, lê e escreve sobre filosofia política e econômica.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Gilmarzinho o maior soltador do mundo







por Felipe Moura Brasil(*).






Hoje eu vou tomar a liberdade de contar pra vocês a verdadeira história de Gilmarzinho, o homem que entrou para o livro dos recordes como o maior soltador da República das Bruzundangas, também conhecida como Bananão.

Gilmarzinho não ficou preso na barriga da mãe por muito tempo.

A primeira pessoa que Gilmarzinho soltou foi ele próprio, nascido prematuramente com apenas 22 semanas de gravidez.

Embora muitos estranhassem seus lábios carnudos, Gilmarzinho milagrosamente escapou de qualquer sequela visível de sua soltura precoce do útero materno.


Aos cinco anos de idade, Gilmarzinho já soltava pipa.



Ninguém soltava pipa melhor do que Gilmarzinho.

Mas já naquela época, por causa dos fios da rede elétrica, era comum Gilmarzinho ficar com a rabiola presa. A rabiola era a única coisa que Gilmarzinho não conseguia soltar.

O resto, Gilmarzinho tirava de letra. Nó de oito, nó quadrado, nó de correr, nó ordinário, nó de pescador, Gilmarzinho, como bom escoteiro e marinheiro, soltava todos.

Na adolescência, começou a causar problemas na vizinhança porque não podia ver um cachorro preso que ia lá e soltava. Cachorro, cavalo, ovelha, carneiro, boi, vaca, touro, mas principalmente cobra, Gilmarzinho causava o maior tumulto soltando.



Mas quanto mais tumulto causava, mais Gilmarzinho se divertia.

Por isso é que, na hora do vestibular, não teve dúvida: escolheu fazer Direito, sonhando um dia ocupar uma vaga no STB, o Supremo Tribunal do Bananão.

Para subir na carreira, Gilmarzinho fez muitas amizades com gente poderosa, até que conseguiu ser indicado por um presidente amigo para o cargo com que sonhou.



É verdade que, quando os adversários de seus amigos subiram ao poder e se tornaram alvos da maior investigação da história do Bananão, Gilmarzinho, de birra, tornou-se menos soltador, mas quando as investigações atingiram seus amigos, Gilmarzinho virou um indulto natalino de ano inteiro.



Soltou amigos e supostos adversários dos amigos.



Soltou até uma ex-primeira dama, alegando que ela precisava cuidar do seu garotinho, o que levou casais investigados de todo o país a providenciarem e parirem mais e mais garotinhos para garantirem seu salvo-conduto também.

De tanto Gilmarzinho soltar, um laboratório farmacêutico lançou a marca Gilmarzinho de laxante para prisão de ventre.

Mas logo o Ministério da Saúde do Bananão advertiu para o efeito colateral do medicamento Gilmarzinho, que podia acabar soltando o cérebro também.


Nem preciso dizer que o povo do Bananão se revoltou com Gilmarzinho nas redes sociais. Mas ninguém conseguiu emplacar uma hashtag porque, até do símbolo da grade, o vírus Gilmarzinho soltava as palavras.

Uma coisa, no entanto, ficou clara para todo mundo que conhecia a biografia não autorizada do ministro do STB:

Gilmarzinho sempre teve a rabiola presa.


Felipe Moura Brasil está no Facebook 

Populismo e Bolsonaro






por Ipojuca Pontes(*).




Ariano Suassuna, que deixou de escrever peças de teatro (gênero “curral & capim”, segundo Paulo Francis) para se tornar badalado clown de circo eletrônico, acreditava na existência de dois tipos de preguiça (sexto pecado capital, na Suma Teológica de São Tomás de Aquino): uma preguiça “boa” e outra “má”. Uma, filha de Deus; outra, cria do Diabo (chegou a escrever uma farsa sobre o tema).

Pois bem. De minha parte, depois de matutar algum tempo sofre o significado do “populismo”, cheguei à conclusão de que há dois tipos de populismo: um “bom” e outro “mau”, ambos sistematicamente atacados pelos que querem impor uma “nova ordem mundial” conduzida e financiada por figuras como o megaespeculador George Soros, os Rockefeller e a onipotente gang do Clube Bilderberg que subjugam, na maciota, governos, instituições e organismos basilares, entre elas, a incorrigível ONU e penduricalhos nocivos tais como a Unesco e a Unicef, por exemplo.

Em última análise, esses tipos armam a imensa rede do controle globalista na pretensão de domesticar a população do mundo ocidental pela força do terror, do medo e da corrupção desenfreada.

Basta olhar com apuro. Dia e noite, pela ação remunerada de legiões de falsos acadêmicos, pseudo cientistas políticos e os chamados “formadores de opinião”, todos atuando nas mídias, nas universidades e no âmago das organizações políticas, articulados em bandos, avançam e se comprazem em servir aos tutores globalistas para reduzir o homem à condição de gado, tal como preconizava Chigalióv, “cientista social” visionário saído das páginas de “Os Demônios”, de Dostoiéviski, que pretendia salvar a humanidade.

Dizia Chigalióv:
“Partindo da liberdade ilimitada chegaremos ao despotismo total. Não há outra solução. Para resolver em definitivo a questão social, proponho que se divida a sociedade em duas partes desiguais. A um décimo será outorgada liberdade absoluta, a autoridade ilimitada sobre os outros nove décimos que deverão perder a personalidade, convertendo-se num rebanho; mantidos numa submissão sem limites, passando por uma série de transformações, atingirão, por meio de educação progressiva, o estado de inocência primitiva, qualquer coisa como o Paraíso Terrestre – sendo, no entanto, obrigados ao trabalho”.

Essa é – em essência, por baixo do pano – a pretensão maquiavélica do pessoal do Clube Bilderberg e afins, via a praga do globalismo espalhado pela ONU e seus penduricalhos, para aplainar as “injustiças do mundo” e restabelecer a felicidade edênica na face da terra. Naturalmente, as palavras de ordem para atingir tais objetivos são, na aparência, menos brutais do que as do intelectual de “Os Demônios” (no entanto, não menos daninhas). Hoje, elas giram em torno da liberação das drogas, do aborto, em favor do casamento gay, do lesbianismo escancarado, da invasão descontrolada de imigrantes nos países da cristandade, para não falar da histeria ambientalista (amparada na dispendiosa farsa do “aquecimento global”, a prodigalizar US$ bilhões com milhares de parasitas abonados pela grana de governos permissivos pressionados por ONGs insaciáveis) – e por ai segue a nau insensata.

De ordinário, os “formadores de opinião” definem o populismo como um modo de governar que usa de expedientes que têm como meta conquistar apoio popular, em especial o das “classes subalternas”.

Nas campanhas eleitorais, o líder populista procuraria obter a confiança do povo por meio de um discurso simples, direto e carismático, dispensando intromissões partidárias. O populista deslegitimaria, assim, as instituições democráticas apelando, presumivelmente, quando no poder, para o autoritarismo, legitimado pelo voto popular. Bullshit!

Enfim, de “esquerda” ou de “direita”, o que interessa ao líder populista é seduzir as massas. No Brasil, citam-se como políticos populistas, além do ditador Vargas, Ademar de Barros, Jânio Quadros, Leonel Brizola, Lula “Chacal” da Silva, Garotinho et caterva. No plano internacional, Donald Trump foi considerado “populista” por ter se firmado na condição de “antipolítico” – pois lá, como aqui, os políticos são também execrados pelas massas.

A boa pergunta a se fazer é a seguinte: quem nasceu primeiro? as massas com suas necessidades e aspirações de melhor qualidade de vida ou os políticos ideologizados em busca do poder de mando e suas prerrogativas?

O grande Aristóteles achava a democracia a pior forma de governo caso degenerasse em “governo de massas”. Ele admitia, porém, uma democracia-intelectual, republicana, do tipo prevalecente, à sua época, em Atenas (que se ferrou na mão bélica de Esparta).

É evidente que Aristóteles não chegou a conhecer os globalistas nem intelectuais do porte de um FHC. Se conhecesse, na certa modificaria seus conceitos. Veria que, hoje, na república democrata, em vez das massas, quem assumiu o controle absoluto foram as formidáveis elites político-partidárias coonestadas pela burocracia de Estado com suas agências reguladoras a despejar sobre a população, em escala colossal, a cada hora, milhares de leis, decretos, normas, regras e programas sociais fajutos. Enfim, tudo o mais que limite a liberdade do indivíduo e da sociedade. No mundo ocidental, eles são agora os beneficiários do capitalismo, com suas gravatas, foros privilegiados, isonomias e falsas soluções, abocanhando salários astronômicos sem produzir nada a não ser papelada, coerção e jugo.

▶Bem, e o populismo de Bolsonaro? 

A rigor, não há populismo em Bolsonaro e, se houver, é o populismo “bom”. Seu discurso direto envolve o conceito milenar de observar os valores tradicionais de Deus, Pátria e Família – tríade sobre a qual se ergueu a nossa civilização, agora execrada por globalistas, comunistas (gramscistas ou leninistas, pouco importa), a entourage “politicamente correta” e a tropa de choque da mídia amestrada.

Outro dia ouvi da boca de uma autoridade global, dessas que o considera uma ameaça: –

“Bolsonaro não será candidato. Mas, se for, não ganhará. E, se ganhar, não tomará posse”.

Sinal de que o competidor já passou da fase de “pagar placê” e desponta para a reta final!



(*)Ipojuca Pontes, cineasta, jornalista, e autor de livros como ‘A Era Lula‘, ‘Cultura e Desenvolvimento‘ e ‘Politicamente Corretíssimos’, é um dos mais antigos colunistas do Mídia Sem Máscara. Também é conferencista e foi secretário Nacional da Cultura.
Fonte: midiasemmascara.org

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Desmentindo o “Panorama Histórico da Palestina” da TV Cultura





por Tamara Stern(*).

No dia 13 de dezembro, o Jornal da Cultura trouxe a professora Arlene Clemesha para explicar 4 mapas da antiga Palestina/Israel que o programa chamou de “Panorama Histórico da Palestina”. Segundo o apresentador Willian Corrêa, era preciso voltar a 1946 para “explicar melhor o que está acontecendo em Israel” agora, com a decisão de Trump sobre Jerusalém:



Coincidentemente, os mapas acima, mostrados no telejornal, são os mesmos que aparecem no famoso e falso mapa da “perda de terra palestina” de 1946 até a atualidade, com legendas levemente modificadas de “terras judaicas” para “Israel”, e o último mapa podendo representar qualquer ano desde 2000.




O discurso da perda progressiva de territórios por parte dos palestinos usando o mapa acima, ficou conhecido em 2010, quando Juan Cole, um blogueiro anti-Israel e professor de história, começou a divulgá-lo em diversos artigos. Mas vamos ao que Clemesha diz sobre os mapas:

▶1o mapa:

O primeiro mapa mostra terras pertencentes à “Israel”, em amarelo, e terras à “Palestina” em verde, em 1946. Clemesha diz:
Esse primeiro mapa mostra em amarelo, as colônias israelenses, ainda sionistas do movimento sionista judaico que trouxe colonos, trouxe imigrantes da Europa pra Palestina. Então foram formando pontos de assentamento no território… Até 46 havia essa realidade.




Em 1o lugar, as legendas dos mapas são erradas, pois até 1948 não havia o Estado de Israel ainda. Judeus e árabes viviam na Palestina. Os judeus eram chamados de palestinos, e os árabes eram tidos como uma mistura de jordanianos, sírios e libaneses. Colocar Israel versusPalestina implica que havia um “Estado” da Palestina que foi depois tomado por Israel, quando na verdade os territórios são os mesmos, apenas o seu nome mudou, como fizeram os romanos quando trocaram o “Judéia” por “Syria Phalaestina”.

Em 2o lugar, este mapa não tem absolutamente nada a ver com a localização de judeus e árabes na Palestina em 1946. As partes amarelas são propriedades privadas de judeus (compradas) e as partes verdes são uma mistura de propriedades privadas árabes com áreas públicas controladas pelos britânicos (que constituíam pelo menos 50% de todo o território, incluindo o inabitado deserto do Negev). Judeus e árabes viviam em ambas as “cores”, em terras privadas e públicas.

O mapa apresenta uma divisão que passa a ideia de um território governado por árabes e não por britânicos. Seria possível também desenhar um mapa dos árabes versus a Palestina, combinando a terra privada judaica com as terras do governo sob o nome de Palestina. Assim, pareceria que os judeus possuiriam a maior parte da terra na época.

E um último ponto, Clemesha fala em “assentamentos” judaicos na Palestina, passando a ideia de ocupação ilegal (como existe hoje), sem mencionar que árabes provenientes de outros países também formaram assentamentos árabes na Palestina. As terras em amarelo foram compradas por judeus diretamente dos otomanos desde a 1a metade do século XIX.

▶2o mapa:

O segundo mapa apenas mostra o plano de partilha da ONU, de 1947, que foi rejeitado por toda a Liga Árabe e, portanto, nunca entrou em vigor. Clemesha diz:

Em 47, a ONU votou a partilha da Palestina na medida em que existia um conflito na região. Votou-se a partilha, o território verde, designado pra criação de um Estado árabe-palestino, e o território amarelo, designado pra criação de um Estado judeu, e Jerusalém seria uma zona administrada pela ONU, pela importância pras três religiões monoteístas.


Clemesha passa uma informação FALSA ao falar em Estado árabe-palestino. Naquela época, não existia o conceito de “palestino” atrelado somente a árabes. A ONU nunca falou em Estado árabe-palestino ou Estado palestino, apenas em Estado árabe. Vejam esta passagem da Resolução 181, e entendam que judeus e árabes eram tidos como palestinos, residentes da Palestina:


Imagem Traduzida: “1. Cidadania. Cidadãos palestinos residindo na Palestina fora da cidade de Jerusalém, bem como árabes e judeus que, sem cidadania palestina, residem na Palestina fora da cidade de Jerusalém, devem, após o reconhecimento da independência, tornar-se cidadãos do Estado em que residem e desfrutar de plenos direitos civis e políticos.”



O Plano de Partilha ganhou a forma que ganhou porque as cidades e aldeias judaicas estavam espalhadas por toda a Palestina e seu alto padrão de vida atraiu grandes porções de população árabe. Reconhecendo que o Estado judaico precisaria abrigar a maioria da população da Palestina (a maioria dos judeus e parte dos árabes), a partilha alocou 54% do território para isso. O restante formaria o Estado árabe. Os limites foram baseados exclusivamente em dados demográficos: O Estado judeu deveria ser composto por 538.000 judeus e 397.000 árabes, e o Estado árabe por 804.000 árabes e 10.000 judeus. 

Sobre Jerusalém internacionalizada, Willian comenta:


Mas isso não aconteceu… só no papel. Quem administrou mesmo foi Israel.
Clemesha dá a sua explicação:

Claro, porque em seguida, final de 47 começa uma guerra civil. Em 48, começa a guerra árabe-israelense. Com essa guerra Israel expandiu seu território pra todo esse amarelo. Então isso aqui nunca saiu do papel, o que aconteceu foi essa realidade em que o recém-criado, Israel se funda nesse momento conquistando 78% do território da Palestina histórica. E jerusalém ficou exatamente aqui, dividida ao meio. 

Quantas informações cruciais Clemesha pode esconder para fazer parecer que Israel simplesmente contrariou o Plano da ONU e tomou não só Jerusalém como a “maioria” da Palestina para si e sem motivos?

Israel não se fundou após a guerra, com a conquista de territórios, mas antes e respeitando as fronteiras do Plano de Partilha (ou seja, Jerusalém internacionalizada). E a guerra árabe-israelense não começou do nada. No dia seguinte à declaração de independência, o novo país foi atacado pelo Egito, Síria, Iraque, Transjordânia, Líbano e Arábia Saudita.

No final, apesar da desvantagem em números e em armas, Israel ganha a guerra e conquista territórios em uma guerra defensiva, incluindo Jerusalém.


A Jordânia que veio ao socorro dos palestinos, estacionou suas tropas e conseguiu defender Jerusalém oriental, onde tá a Cidade Velha, onde estão os monumentos históricos. Então a Jordânia ficou com Jerusalém oriental, administrando ela em nome dos palestinos, a quem pertence os territórios historicamente, e Jerusalém ocidental israelense.

FALSAS, Clemesha passa apenas informações FALSAS. A Jordânia (na época ainda Transjordânia) não atacou Israel nem para socorrer palestinos nem para defender Jerusalém oriental, ou Jerusalém inteira. Assim como os outros países árabes, a Jordânia atacou Israel após a sua fundação com o intuito de exterminar os judeus e seu país como um todo.

Jamal Husseini, o porta-voz da Liga Árabe, já havia dito à ONU antes da partilha, que os árabes molhariam “o solo de nosso amado país com a última gota de nosso sangue.” Após os países árabes atacarem Israel, Abd al-Rahman Azzam Pasha, secretário-geral da Liga Árabe afirmou: “Será uma guerra de aniquilação. Será um importante massacre na história que será lembrado como os Massacres dos Mongóis ou as Cruzadas”.

A Jordânia não “defendeu” Jerusalém oriental, ela apenas estava parada no meio da cidade quando houve um cessar-fogo e posterior assinatura dos Acordos de Armistício em 1949. Os acordos declararam que Israel e Jordânia dividiriam geograficamente Jerusalém, por tempo provisório (sem constituir fronteiras políticas ou territoriais), e trabalhariam juntos para o reinício do funcionamento de instituições, acesso ao cemitério judaico no Monte das Oliveiras (onde os judeus enterraram seus falecidos por mais de 2.500 anos), e lugares sagrados.

Mas a Jordânia violou o acordo, e bloqueou e isolou o leste de Jerusalém com arame farpado e muros de concreto. Os judeus que ali viviam foram mortos ou expulsos, e o acesso aos locais sagrados foi negado a toda a população do lado israelense (inclusive árabes), contrariando os termos do armistício.

Se o intuito da Jordânia era administrar a região em nome dos “palestinos” e se esses “palestinos” tinham direito à região, como afirma Clemesha, por que a Jordânia proibiu que os árabes do lado de fora das linhas do armistício entrassem em Jerusalém oriental e Cisjordânia? Porque o intuito da Jordânia não era proteger os árabes da Palestina ou seus direitos – vide a falta de interesse em criar um Estado para eles quando justamente as terras estavam sob controle árabe -, mas manter um estado de guerra com Israel.

▶3o mapa:




O terceiro mapa mostraria a região após a primeira guerra Árabe-Israelense, colocando a Cisjordânia e a Faixa de Gaza sob soberania palestina até 1967. Isto nunca ocorreu, pois neste período Jordânia e Egito tomaram o controle militar destas regiões. Clemesha 

continua: 

A ONU reconheceu exatamente isso, essa divisão de Jerusalém entre árabes-palestinos e israelenses nesse momento porque houve um armistício em 49, e a situação concreta ficou como sendo essa.

A ONU não reconheceu especificamente soberanias sobre Jerusalém, mas apenas supervisionou o acordo entre os dois países e aceitou as linhas de armistício.


E agora vem o Trump… – diz Willian.

Aqui Willian faz parecer que Trump veio para desfazer à força um acordo feito em 1949…Mas eis que falta comentar sobre a Guerra de 1967, o que Clemesha não consegue fazer de forma ética e profissional.


Porque em 67, o que aconteceu foi que Israel invadiu a Cisjordânia, toda essa parte, a Faixa de Gaza, as Colinas do Golã da Síria, e também o Sinai que já foi devolvido pro Egito… Invadiu essas regiões e manteve essa ocupação da Faixa de Gaza, Cisjordânia, Sinai… e Jerusalém leste, árabe-palestino, foi não só ocupada como anexada.

Não, Israel não invadiu a Cisjordânia ou as outras partes. Israel tomou estas terras em um ato defensivo, incluindo Jerusalém leste jordaniano.

Em 1967, as nações árabes tentaram eliminar Israel novamente: desta vez a guerra começou com uma escalada complexa que incluiu um casus belli inicial (atos de guerra) pelo Egito e um ataque preventivo de Israel contra a força aérea egípcia. No entanto, o objetivo das nações árabes combatentes (Egito, Jordânia, Síria) e das outras nações que apoiavam a campanha (Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Argélia) foi o mesmo que em 1948: a destruição total de Israel.

A Jordânia resolveu se juntar ao Egito na guerra contra Israel, apesar de Israel emitir um comunicado claro dizendo que não atacaria aquele lado se a Jordânia ficasse de fora. Mas o descaso do país árabe seguido de intenso bombardeio de alvos israelenses levou à entrada de Israel na Cisjordânia e parte oriental de Jerusalém, derrubando as barreiras e reunificando a cidade.


Israel declarou a anexação de Jerusalém oriental, declarou que jamais devolveria Jerusalém oriental, e essa anexação não foi reconhecida pela ONU. Essa anexação foi considerada ilegal pela ONU, e na medida em que foi assim, nenhum país no mundo mantém sua embaixada em Jerusalém pra não reconhecer um ato que é tido como ilegal pela comunidade internacional, pela lei internacional.

A ONU não reconheceu a anexação de Jerusalém oriental em 1980, mas antes disso, ao fim da Guerra de 1967, a ONU emitiu a Resolução 242, que exigiu essencialmente duas coisas:

  • a retirada israelense dos “territórios ocupados”.
  • que todos os Estados envolvidos terminassem a sua beligerância e respeitassem as fronteiras uns dos outros.

O contexto da resolução deixou claro que a “retirada de territórios” não significava todos os territórios, mas retirada apenas na medida em que fosse necessário criar uma situação segura para todas as partes. Israel aceitou a resolução. A Organização de Libertação da Palestina (recém-criada) rejeitou a resolução e os Estados árabes retomaram suas tentativas de aniquilar Israel pouco depois, mais dramaticamente, na Guerra de Yom Kippur de 1973.

▶“4o mapa” ou HOJE:


E aí o Trump vem agora e muda, ou pelo menos reconhece Jerusalém como a capital… – diz Willian.
…Nenhum problema haveria se, havendo um acordo de paz, Israel declarasse Jerusalém ocidental a sua capital, e a Palestina pudesse declarar Jerusalém oriental a sua capital. Nenhum problema, porque afinal de contas essa cidade foi dividida e esse status foi reconhecido.

O problema é que como existe um ato de posse forçosa, ou seja, como existe um ato de conquista de Israel de uma metade que não é dela, então não se aceita que ela declare essa capital, essa cidade unificada como sendo a sua capital toda ela. (…)

Se algum lado tomou posse forçosamente, este lado foi a Jordânia em 1948. Israel conquistou terras em atos defensivos tanto em 1948, quanto em 1967, em guerras que ela não começou.

O quarto e último mapa mostraria a situação hoje como tendo resquícios da ocupação israelense em territórios da Palestina desde 1967. Na realidade, na Cisjordânia, as áreas verdes são as controladas pela Autoridade Palestina, e as que mudaram de verde para amarelo não são somente assentamentos israelenses, mas também áreas onde Israel mantém controle de segurança segundo acordos prévios.



As pequenas áreas verdes foram as primeiras a serem concedidas para um autogoverno verdadeiramente palestino, por Israel diretamente a Yasser Arafat e seus sucessores.

Estes mapas são amplamente utilizados até os dias de hoje em campanhas pró-palestinas. O discurso da perda territorial palestina abordada desta maneira confere ao último mapa um contexto deturpado, embora carregue uma representação precisa das soberanias israelense e palestina. Os três primeiros mapas foram intencionalmente organizados para passar a imagem de uma expropriação progressiva de terras palestinas por parte dos judeus e, posteriormente, Israel, ignorando governos, guerras e tomada de controle de terras ocorridos na história anteriormente.

A disseminação desses mapas ajuda somente a estabelecer a hegemonia da imagem dos palestinos como única vítima da história.



É vergonhoso que um veículo de notícias como o Jornal da Cultura utilize estes mapas, e ainda convide uma professora completamente parcial para explicar um assunto tão complexo. O público merece muito mais ética e profissionalismo de jornalistas.

(*) Tamara Ster do Honest Reporting Defending Israel From Media Bias

terça-feira, dezembro 19, 2017

O que se pretende com a Educação Sexual de Crianças e Adolescentes?




por Heitor de Paola(*).
“Assim, um homem bom, apesar de um escravo, é livre, mas um homem perverso, apesar de um rei, é um escravo. Pois ele não serve apenas um homem, mas o que é pior, tantos mestres como ele tem vícios "
Santo Agostinho”

“…man, no longer sacred, was a machine whose engine ran on passion. From there (we can) understand that (…) the man who controlled passions, controlled man”

E. Michael Jones



Libido Dominandi – Sexual Liberation and Political Control




O primeiro artigo desta série terminou com a frase: “A má influência do feminismo ativista e gay tenta feminizar os homens e retirar deles sua função específica: de chefe da família”. Esta frase tornou-se anátema, senão pecado mortal, no mundo feminista radical que vem se instalando no mundo.
Neste segundo artigo analisarei as nefastas consequências da educação sexual na educação e no ensino de crianças e adolescentes.
As principais Ameaças à Educação II.

Nos últimos anos do século XX interesses inconfessáveis, mas muito bem conhecidos, fizeram recrudescer a ideia falaciosa de que as crianças precisam de educação sexual. A pergunta crucial é: por quê? Ora, se a humanidade não tivesse aprendido por si mesma o mundo não teria sido povoado, pois sexo é fundamentalmente procriação. “Crescei e multiplicai-vos” bastou, não foi necessário criar pedagogos, “especialistas” e sexólogos ou o que mais seja para que, começando com um casal, o mundo fosse povoado. Por que então alguns se arvoram em professores de algo tão básico como comer ou dormir?


A premissa é de que a criança quer e precisa de estimulação e atividade sexual desde a mais tenra idade. Sem nenhuma justificativa científica esta ideia é apresentada como uma lei da natureza, contradizendo todos os estudos do desenvolvimento psicológico e hormonal.


A resposta é óbvia: ninguém está sinceramente interessado em educação sexual, esta é a mais deslavada mentira! A ideia inconfessável é intervir nos instintos básicos das crianças para impedir que se desenvolvam normalmente seguindo as etapas bio-psicológicas próprias. O desenvolvimento tem leis próprias e o melhor que os adultos podem fazer é não atrapalhar! 


A educação sexual é parte essencial da ideologia de gênero. Não se pretende educar, mas destruir – ou, como alguns preferem, desconstruir – o desenvolvimento infanto-juvenil normal introduzindo simultaneamente noções perversas de sexualidade. Já se disse: “é de pequenino que se torce o pepino”, pois a mente infantil ainda em evolução é mais maleável que a do adulto, embora esta maleabilidade não seja tão grande quanto se pensa. Para evitar o desenvolvimento normal é necessário afastar a criança da família o quanto antes e atribuir à escola o poder de educar e não apenas ensinar.
________________

A primeira tarefa dos revolucionários é inserir uma cunha entre a biologia e a psicologia. Esta última é escrava da primeira. Ao criar uma falsa autonomia da psicologia, separando-se sexo de gênero, imposição biológica de desejos, cria-se na criança um estado confusional extremamente lesivo. Quanto mais cedo a interferência, pior. 


O objetivo mais profundo é o de acabar com a noção de família tal como se desenvolveu no curso de milênios: pai, mãe e seus filhos, o núcleo onde reside o verdadeiro poder nas sociedades livres. A estrutura familiar bem desenvolvida e integrada é a maior fonte de defesa contra a tirania do controle estatal, o verdadeiro objetivo final por trás da ideologia de gênero: o fim da liberdade humana e o controle político-ideológico.


Nos novos tempos que pretendem impingir, mãe e pai perdem todo sentido, pois invocam o sexo biológico, segundo eles apenas uma “construção social” que nega a liberdade das pessoas escolherem seu “gênero”. No mundo “genérico” que inunda o ocidente “o sexo de cada pessoa independe da biologia, e num recém-nascido não pode ser “injustamente” determinado por médicos e pais que apenas examinam a genitália visível”. Várias escolas, inclusive Católicas e Protestantes, estão abolindo os termos mãe e pai e os substituindo pelos politicamente corretos “Genitor 1” e “Genitor 2”.


A mente infantil não é tabula rasa. Ao contrário, mesmo antes do nascimento a vida mental intrauterina é extremamente complexa, como demonstram os trabalhos de Alessandra Piontelli entre outros. A genética pré determina as fantasias e sonhos que já ocorrem na vida antes do nascimento. A criança já nasce com preconcepções do mundo, principalmente de seu próprio corpo e das necessidades básicas, entre elas o sexo. É uma mentira do mundo que chamam de pós-moderno (seja lá o que querem dizer com isto!) que a estrutura cromossômica (XX ou XY) não determina inexoravelmente a biologia e, ipso facto, a psicologia. 


Bebês já nascem fazendo movimentos com os lábios que indicam que sabem exatamente que ali deverá entrar um mamilo para alimentá-lo. Assim como todas as funções básicas, incluindo o conhecimento precário dos órgãos genitais que caracterizam seu sexo. É fundamental que encontre o que Heinz Hartmann denominou average expectable environment (Ego Psyhology and the Problem of Adaptation, Int’l Universities Press, 1958) – a expectativa de um ambiente medianamente razoável para seu desenvolvimento. Este ambiente insubstituível é a família.


Melanie Phillips referiu: “Nós despojamos a paternidade do seu significado removendo o vínculo com a biologia, (...) e proibindo referências a mães e pais. Despojamos os homens e as mulheres do significado com base em que, alguns dias as pessoas pensariam que são um e noutros eles poderiam pensar que são o outro. E o que eles disseram que eram, em qualquer momento, é o que realmente são. Para gerenciar isso, confundimos deliberadamente sexo e gênero. Isso porque o sexo é biologia e a biologia é fixa, enquanto o gênero, este sim, é uma construção social e, portanto, podemos desconstruí-la e reconstruí-la (à vontade). Por isto a identidade sexual deve ser negada e transformada em gênero” (The deconstruction of humanity). 


Para os ideólogos de gênero é exatamente o oposto: a identidade sexual é socialmente construída e significa o aprisionamento do “verdadeiro eu” – que pode ter um gênero diverso do biológico - a esta imposição social. Segundo os Princípios de Yogiakarta, documento básico da ideologia de gênero, este é “a profundamente sentida experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos”.


Na realidade, gênero é apenas uma qualidade gramatical, nada tendo a ver com seres humanos a não ser enquanto personagens da literatura. Um copo é do gênero masculino, uma mesa é do gênero feminino. Mas isto basta para definir seres humanos concretos? É claro que não, mas serve para satisfazer os desejos ligados aos instintos mais primitivos de poder ser homem, mulher ou qualquer outra coisa - ou nenhuma – ao sabor dos desejos. Este desejo faz parte da necessidade infantil de sentimento de onipotência para enfrentar sua real fragilidade e necessidade de amparo. Permanecendo na mente do adulto configura um delírio psicótico, uma vida totalmente fora da realidade.


Esta escravização aos desejos foi muito bem explicitada pelo Cardeal Carlo Caffarra quando advertiu sobre a estratégia “d’O Grande Inquisidor, de Dostoievsky, que diz a Cristo: ‘Você dá a eles liberdade eu dou-lhes pão. Eles me seguirão’. A estratégia é clara: dominar o homem formando um pacto com um de seus instintos básicos. O novo Grande Inquisidor não mudou a estratégia. Ele diz a Cristo: ‘Você promete regozijo no prudente, íntegro e casto exercício da sexualidade, eu prometo o gozo desregrado. Você verá que eles me seguirão’. O novo Inquisidor escraviza através da ilusão do prazer sexual completamente livre de regras”. Caffarra considera “que o mundo está tomado por ‘Uma ideologia global alimentada por uma liberdade “insana” e “literalmente louca” (que) está tentando destruir a “última barreira” que preserva a humanidade de perder o significado de ser “humano”, a saber, a “natureza sexual da pessoa humana na sua dualidade de homem e mulher’. (O Ataque Final à Criação: Fim Da Dualidade Homem/Mulher - as ênfases são minhas). 


Há pouco mais de um século Sigmund Freud escandalizou Viena e o mundo ao demonstrar que as crianças têm uma vida sexual intensa no reino da fantasia. Percebeu que as “neuroses” são resultado da repressão dos impulsos sexuais e das fantasias a eles ligadas. Porém, jamais disse, como muitos divulgam, que não deveria haver repressão. Pelo contrário, já desde o início afirmou que sem a repressão dos instintos básicos não haveria crescimento satisfatório e muito menos civilização. Principalmente porque os instintos básicos incluem também os impulsos destrutivos. Nunca Freud supôs que sexo infantil é algo como sexo genital. É esta confusão que escandaliza ainda hoje aqueles que querem ver na criança a ingenuidade paradisíaca. Sexo (Eros) é tudo que une, que evolui, a tendência à vida. Tânatos é a tendência à destruição, à desunião e à morte.


É exatamente por isto que é possível intervir de forma predatória nos impulsos primitivos. Se eles não existissem como seria possível perverte-los? Pois é disto que se trata: impor a perversão como nova norma moral! Este é o núcleo básico da ideologia de gênero: por Eros a serviço de Tânatos. É disto que trata o Grande Inquisidor na forma de pedagogos, psicopedagogos e “especialistas” em educação que inventaram a falsa necessidade de “educação sexual”: intervir malignamente no desenvolvimento normal, explorando Eros e Tânatos perversamente.


Na mesma abordagem sobre o desenvolvimento infantil, Freud percebeu que lá pelos 4 ou 5 anos há uma total repressão destas fantasias, instalando-se um período que denominou fase de latência, quando a libido (a força instintiva) se separa das fantasias sexuais e se dirige ao mundo apegando-se à curiosidade, o que possibilita o aprendizado. É necessário enfatizar que falo de repressão interna, um mecanismo que nasce conosco e independente de qualquer atitude externa. Este período se desenrola até o início da puberdade quando as características sexuais secundárias se desenvolvem. A endocrinologia posteriormente confirmou a existência de uma fase de latência hormonal, embora começando antes da idade determinada por Freud: há uma diminuição dos hormônios sexuais (testosterona, nos meninos, e estrógenos, nas meninas) que voltarão a se intensificar na puberdade. É nesta fase que as crianças começam a escola e tal como andarilhos no deserto estão sedentas de conhecimento. Absorvem tudo que lhes é fornecido sem critérios de valor, a não ser aqueles que encontram – quando encontram – no lar.


É então que os Grandes Inquisidores maldosamente, sabendo que operam em terreno fértil, introduzem a “educação sexual” através da pornografia em suas diversas manifestações.


Mas uma criança que não é precocemente sexualizada possui um natural sentimento de vergonha que a protege de intrusões e atividades sexuais. Os limites impostos por este sentimento natural de vergonha só serão ultrapassados no futuro quando, já adulto encontra uma relação amorosa heterossexual e respeitosa, quando já existe o pleno amor no qual a intimidade sexual é apenas uma manifestação desejável e prazerosa para ambos.


O que a ideologia de gênero procura modificar através do ensino da falsa “opção sexual”, assim definida (Yogiakarta): “Compreendemos orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas”. 


É exatamente por isto que a perversão tem que começar já antes do período escolar. Crianças muito pequenas são estimuladas ao toque físico, à masturbação, a perder a vergonha de falar abertamente sobre sexo e ideia “meu corpo me pertence”. Nas brincadeiras infantis que já têm caráter sexual primitivo (brincar de médico, p. ex.) e que são “escondidas” pela vergonha, se introduzem adultos que as pervertem dizendo que isto é normal e não precisam ter vergonha. É inevitável que esta intervenção ocorra por parte de adultos com tendências à pedofilia, quando não plenamente pedófilos. Ainda segundo Freud as experiências de sedução externas podem causar uma ruptura da fase de latência, ou mesmo sua extinção.


As crianças tendem a se identificar com os adultos que representam autoridade. Sendo estimuladas na escola a fazer o que é proibido em casa, entram em dissonância cognitiva que podem fazê-la seguir a sedução do Grande Inquisidor: o estímulo ao prazer maior no momento. Isto leva à perda do bem mais precioso da vida: o amor. 


Diretores de uma fundação para crianças e adolescentes na Alemanha, Bernd Siggelkow & Wolfgang Büscher publicaram um livro cujo título já diz tudo: a Tragédia Sexual Alemã: Quando as Crianças não mais aprendem o que é o amor (Deutschslands sexuelle Tragödie: Wenn Kinder nicht mehr lernen was Liebe ist).


O verdadeiro amor que não é escravo dos instintos, mas os domina naturalmente, sem imposição, mas pelo reconhecimento da dignidade própria e do outro. Isto só pode ser obtido no seio da tão odiada família.


Já conquistados na infância os adolescentes e adultos, impedidos do desenvolvimento psicossexual normal serão infantilizados, como desejaram os grandes inquisidores, que precisam de uma humanidade facilmente controlável:

“Ensinaremos que a felicidade da infância é a mais deliciosa. (...) Nós até permitiremos que eles pequem, pois são fracos, e por causa dessa concessão eles vão professar um amor infantil por nós. E eles nos considerarão benfeitores por verem que somos responsáveis por seus pecados. E nunca mais terão segredos para nós”.

Este o destino de nossos filhos e netos se a ideologia de gênero, que já penetrou nos cursos de pedagogia e nos consultórios e nas associações e conselhos médicos, psicológicos, psicanalíticos, não for impedida urgentemente de prosseguir sua nefasta influência.

(*)Heitor de Paola - Médico, especializado no estudo e tratamento de distúrbios mentais de origem psicológica.(Bio)